Paralisia Noturna Suivre l’histoire

guilhermerubido Guilherme Rubido

Uma mulher acorda no meio da noite e percebe que seu corpo não responde aos seus comandos. Podendo movimentar apenas seus olhos, Alice vê uma criatura espreita-a da escuridão de seu quarto. Nas sombras, uma semente cresce aos poucos. Nela, uma flor negra irá surgir.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

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Paralisia Noturna

Levantando-se de sua cadeira, Alice caminhou até a cozinha para acender um incenso antes de dormir. À frente do fogão velho, colocou a ponta do incenso sobre o fogo azulado que saia freneticamente de uma das bocas desgastadas pelo uso. Uma chama se ergueu onde foi tocada pelo fogo azul, mas foi logo apagada quando Alice balançou-a no ar, deixando apenas uma ponta incandescente brilhar no incenso. Dali, uma leve fumaça com cheiro de canela subiu e percorreu a cozinha, espalhando-se aos poucos pelo resto da casa. Carregando-o consigo, Alice apagou as luzes e subiu as escadas para dormir.

Entrando no quarto, apoiou o incenso que exalava uma branca fumaça em um suporte de madeira que ficava em cima da mesa. A chama o consumia e, aos poucos, transformava-se em cinzas. O aroma de canela subia pelo ar frio da noite preenchendo o ambiente.

Prendeu o cabelo ainda úmido pelo banho com uma presilha e deitou-se com um livro em mãos. O livro de capa preta trazia escrito com letras brancas o título: O Exorcista, de William Peter Blatty. Encarou-o por um tempo, ainda pensando consigo se deveria mesmo lê-lo antes de dormir. Achava que aquela não era a melhor das ideias. Deu uma pequena risada e, como todos nós fazemos, pensou que preferiria se arrepender mais tarde, quando os pesadelos chegassem. Então, pôs-se a ler a trágica história em que a menininha Regan é possuída por um terrível demônio.

Lá fora, a rua estava vazia. O céu sem nuvens da noite abria-se em um escuro mar estrelado. Aquela era uma típica noite abafada de verão, quando os ventiladores se tornam inúteis e as roupas dispensáveis.

No horizonte iluminado por postes de luz, podia se ver as gigantescas máquinas que eram usadas no cais da cidade. Guindastes e empilhadeiras metálicas erguiam-se ao longe como grandes animais mecânicos que, movendo-se lentamente, produziam um som estridente de metal. De sua cama, Alice podia ouvi-los. Sempre os escutava de madrugada e cedo pela manhã. Pareciam não descansar.

Ouvindo o ruído distante dos animais metálicos, Alice sentiu um formigamento percorrer seu corpo. Estava feliz com o rumo que sua vida estava tomando. E, ali, sentada em sua cama com o livro à mão, percebeu tudo o que havia conquistado. Um pensamento surgiu: a noite, dizem os poetas, é sempre a melhor amante. Achou aquilo engraçado e um pouco vergonhoso. Mas, afinal, pensava ser verdade.

Levantou-se de sua cama e olhou lá para fora. Havia no quarto uma pequena varanda por onde, de pé, Alice encarou a cidade adormecida. Não havia vento algum. Exceto pelos barulhos e movimentos do cais, as árvores estáticas e as ruas vazias faziam o cenário parecer congelado. Ainda assim, Alice sentiu-se feliz. Aquilo era o que via de sua casa. E isso já era o bastante. O bafo quente do verão entrava pela varanda aberta trazendo consigo os inúmeros mosquitos. Lá fora, preenchendo a monotonia da noite, os grilos cricrilavam. Escondidos em algum lugar nas sombras, cantavam enquanto o mundo dormia.

Alice sempre gostara do som que os grilos faziam. Lembrava-se de, sentada em uma cadeira, ouvir deslumbrada as histórias de Lovecraft que seu avô lhe contava em sua fazenda no interior, quando Alice ainda era uma criança. Como marinheiros errantes navegando por mares desconhecidos, viajavam pelas histórias, aportando na esquecida cidade de R'lyeh onde encontravam-se com o grande e adormecido Cthulhu e, caminhando por sobre desertos longínquos, alcançavam cidades sem nomes, erigidas acima de labirintos ancestrais nos desertos árabes.

Apesar de gostar do cricrilar dos grilos, Alice odiava a aparência dos insetos. Achava que as pernas traseiras e arqueadas que os grilos tinham fazia parecer que copulavam por cima de uma rã. Sem falar em seus olhos que, estáticos como ônix negra, encaram apáticos.

Começou a sentir as picadas de mosquito e percebeu que divagava, viajando de repente para sua infância. Deixou esses pensamentos de lado e voltou-se para a cama. O livro era realmente assustador. Um dos melhores que lera. Mas não foi o bastante para mantê-la acordada. Leu sete páginas e, com a cabeça já cambaleando sonolenta, fechou o livro, deixando para trás a menina Regan que reclamava para sua mãe sobre o som de batidas em seu quarto. A mãe, claro, achou que pudessem ser apenas ratos nas paredes. Ela obviamente estava errada.

Arrumou-se na cama, cobrindo todo o corpo em um casulo com o cobertor. Achou que demoraria para dormir, mas a escuridão a levou rapidamente.

***

Alice abriu seus olhos e fitou o quarto escuro. Olhando para a varanda aberta, viu que ainda era noite. Talvez umas duas horas da manhã, pensou. Ótimo. Acordei no meio da noite e agora não vou conseguir voltar a dormir.

Um vento frio entrava pelo quarto e caía sobre ela como uma mão de gelo, bem diferente do calor de antes. Olhando para baixo, percebeu que estava sem cobertor, o que explicaria o frio repentino. Sonolenta, olhou em volta, sentindo em si o mau humor por ter acordado no meio da noite. O quarto estava mergulhado em trevas. Nenhuma luz entrava pela varanda. Perdida, tateou perdida em busca do criado-mudo na intenção de pegar seu celular para ver as horas. Contudo, não houve nenhum movimento. Seu corpo estava travado, enrijecido por alguma força. Apenas seus olhos podiam se mover. Um pânico momentâneo tomou sua mente. O sentimento de estar presa embebedando-a em desespero. Rapidamente, algumas ideias surgiram e desapareceram em seus pensamentos. Será que perdi os movimentos do corpo? Impossível. Mas que merda é essa então? Estou em um pesadelo?

Parando para pensar, ela relaxou um pouco. Estava conformada com a situação; decidida de que, a qualquer momento, despertaria e retomaria o controle de seu corpo. Mas é estranho, pensou, nunca tive um sonho tão real. E que cheiro horrível é esse? A imagem vivida de seu quarto a assustou um pouco. Tentou olhar em volta, esquadrinhando o quarto, mas, naquele breu, não podia ver nada. Em um dos cantos de seu quarto, pôde divisar algo. Nas sombras, destacando-se ainda mais escura do que tudo, uma forma amorfa fitava o ambiente.

Neste momento, a ideia de um pesadelo se foi. Sentiu um medo real que gelou todo seu corpo paralisado. Um formigamento forte a percorreu, cobrindo-a por inteiro aos poucos. Uma insanidade claustrofóbica tomou seu corpo, e ela tentou se debater freneticamente, mas nada conseguiu. Era como se uma camisa de força envolvesse todo seu corpo.

Pairando na escuridão, a mancha negra a encarava com uma espécie de concentração. Ela o encarou de volta. De sua cama, Alice sentia a criatura. Podia cheirá-la, um cheiro pútrido estranho. Sentia em sua pele desprotegida o frio que a sombra exalava. Em alguns momentos, pensava poder ouvi-la fazer um som gutural e abismal. O som que se ouve quando se está submerso no mar.

Sob o olhar da criatura, tentou novamente se debater e se contorcer. Em sua tentativa, escutou um barulho terrivelmente alto. Alguém gritava em seus ouvidos. Não apenas um, mas mil gritos e gemidos de dor suplicantes explodiram em seus ouvidos. As vozes fizeram-na sentir uma tristeza imensa pesar em seu coração.

Impassível, a sombra a olhava da escuridão. Fitava sem se mover -ao menos não da forma que se espera. Tinha uma aparência espectral, assim, balançava como um holograma. Sua imagem parecia ondular e distanciar-se, ficando, por vezes, desbotada. Alice não podia nem saber se estava olhando para a frente daquilo. Sabia apenas que era observada. A estática observação tornou-se movimento. Levantando-se, a negra criatura ergueu-se no quarto. Era esguia e extremamente alta, mas ainda escura demais para que Alice pudesse divisar suas feições. Duas galhadas como as de um cervo surgiam da cabeça preta, encimando um curvado corpo humanoide.

A sombra aproximou-se até que parou ao pé da cama. Na escuridão, Alice pôde ver uma protuberância onde deveria estar o roto da criatura. Era como um focinho delgado. Como rubis, dois olhos vermelhos e ensandecidos dançavam no espaço preto.

Para Alice, aquilo parecia uma besta animalesca. Uma profanação da natureza na forma de um cervo corrompido e maluco.

O cervo negro começou a crescer diante dela, chegando cada vez mais perto, engolindo-a com sua escuridão. Alice via seus pelos castanhos e espessos, sentia-os resvelando em seu corpo. Um odor nauseabundo exalava da criatura, penetrando suas narinas. O cheiro de velhice; aquele que se sente em móveis antigos de madeira, revestidos pelo mofo sufocante do tempo.

Alice encontrou no medo uma espécie de frenesi e ímpeto que lhe deram forças. Forçou tanto seus movimentos que, quando deu por si, já estava jogada no chão do quarto, como se ali tivesse dormido. Olhou para os lados desamparada e atordoada. Rapidamente, levantou-se correndo para o interruptor. Acendendo a luz, viu que nada mais havia no quarto. Seu cobertor estava jogado no chão e o incenso já se apagara.

—Que merda acabou de acontecer? —, foi a única coisa que conseguiu dizer para si mesma. As palavras soaram reais, e isso a aliviou.

Na rua, os grilos ainda cantavam. Estavam agora acompanhados pelos ganidos dos cachorros. A imagem do cervo flutuava em sua mente.

***

Na manhã do dia seguinte, Alice despertou cansada da noite mal dormida. Sua cabeça doía com o tamborilar de uma forte dor de cabeça. Tomou um banho quente para relaxar, mas a dor persistia. Quando fechava os olhos para descansar da dor, a imagem bestial de seu pesadelo invadia seus pensamentos.

Olhando o relógio, percebeu que havia dormido bastante tempo. Era quase meio dia quando ela desceu as escadas em direção à cozinha, onde a empregada da casa já preparava o almoço.

—Bom dia, Alice! A senhora ainda vai querer tomar café? —A mulher parou por um segundo, pousando o dente de alho que descascava de volta na tábua. —Você está bem? Parece muito cansada.

—Bom dia, Lu. Estou tão ruim assim? —Bocejou longamente enquanto puxava uma cadeira para se sentar à mesa —Não, acho que não é nada. Dormi mal essa noite. Tive uns pesadelos e acordei com dor de cabeça. Só isso. Vou comer alguma coisa e tomar um Advil pra dor. Daqui a pouco já estou melhor.

O movimento que fez para se sentar desencadeou uma segunda leva de dor. Seu cérebro parecia pulsar, querendo saltar para fora da cabeça. Levou a mão à têmpora esperando a dor melhorar um pouco. Lucia a olhava da pia com preocupação.

–Lu, acho que vou aceitar aquele café. Pode pegar uma cartela de comprimidos pra mim?

—Claro. Vou fazer.

Lucia abriu uma das gavetas, pegou uma cartela de comprimidos vermelhos e levou até Alice. Voltando-se, começou a esquentar a água do café.

—Foi muito estranho, Lucia. Eu não conseguia me mexer no sonho, eu estava paralisada. Espero nunca mais ter esse tipo de pesadelo.

—Isso não é bom, senhora. Meu irmão tinha isso ai direto. Lá de onde eu venho, dizem que esse tipo de coisa acontece quando um demônio senta em cima do nosso peito. Eles sufocam a gente e não deixam a gente se mexer. Mas acho que é só o povo falando bobagem. Você deve tá muito cansada.

—Isso é tudo bobagem, Lucia. Foi mesmo só um pesadelo. Fui inventar de ler livro de terror antes de dormir e deu nisso. Mas estou realmente cansada. Vou ligar pro pessoal e dizer que termino os relatórios aqui de casa mesmo. Quando o café estiver pronto você leva no escritório, por favor? —Disse já saindo da cozinha com a cabeça ainda latejando. Já estava irritada demais. Não estava com paciência para ouvir sobre lendas do interior.

***

Os dias correram sem que mais pesadelos invadissem seu sono. Entretanto, Alice sentia que um cansaço se avolumava sobre ela todas as manhãs quando acordava. Levantava-se indisposta para tudo. Seus olhos fechavam-se involuntariamente a todo momento. Passava os dias em um estado de sonolência que era barrado apenas pela dor incessante que martelava em sua cabeça, impedindo qualquer sono de fazê-la dormir. Alice consumia avidamente as cartelas de comprimidos para dor de cabeça, fazendo uma a uma desaparecer tão rapidamente quanto eram compradas. Sabia que elas já não tinham mais efeito. Raramente aliviavam mesmo que um pouco da dor que sentia.

Havia uma raiva contida em Alice que fazia formigamentos e calafrios percorrerem seu corpo. Um som alto, uma batida leve do dedo contra a mesa, a insistência de alguém em conversar com ela, tudo a perturbava. A irritação fazia um monstro odioso emergir do âmago de Alice, provocando uma explosão irritadiça incontrolável. Estava esgotada e deprimida. Como um glutão esfomeado, ela descontava a frustração e o cansaço em comida. A cada dia que passava, insaciável, a fome parecia crescer mais. Como se o corpo consumisse a energia com tanta velocidade que fosse necessário repô-la imediatamente.

Lucia insistia para que ela procurasse um médico, mas era sempre cortada pela mudança súbita no rumo da conversa ou com Alice ignorando-a e deixando o ambiente.

A gota d’água aconteceu em uma tarde. Alice se preparava para subir as escadas e se deitar. Estava exausta e o ato de subir os degraus já constituía um enorme esforço. Seu rosto estava cadavérico, a pele grudando-se aos ossos e revelando os sulcos que surgem na magreza. Atrás dela, Lucia a seguia grudada em seus calcanhares.

—Senhora, por favor, você não está se vendo. Está magra demais...Precisa ir ao médico! Isso já durou tempo dem...

Alice já estava sem paciência. Havia aguentado isso por dias. Sua cabeça latejava e a voz da mulher ecoava aguda em sua cabeça enquanto se esforçava para subir as escadas. Sem pensar, virou-se e gritou com a mulher que a ajudara durante anos.

—Quer calar a boca?! —Berrou das escadas. A ira invadiu-a tão subitamente que não pôde se controlar. Viu o rosto de Lucia adquirir as feições do susto, mas, sem pena, continuou:
—Eu já entendi o que você quer, mas estou te dizendo que não p... —Sem terminar de falar, um forte enjoo fez seu corpo amolecer. Alice perdeu o ar e teve que se sentar em um degrau antes que seu corpo rolasse escada a baixo. O mundo à sua volta girava e a voz de Lucia alarmada misturava-se com o ambiente borrado que surgia em seus olhos. Flashes de luz apareciam vez ou outra. Desnorteada, passou a mão sobre o corpo e sentiu os ossos sem gordura. Contudo, sua barriga estava grande. Como se toda comida tivesse sido direcionada para ali. Será possível?, pensou confusa. Qual foi a última vez q... Outro flash branco e ela apagou.

***

Sonhou com um velho médico em seu quarto injetando-lhe alguma coisa. Sua mãe e Lucia a levantando da escada, carregando-a para o seu quarto. Uma flor negra germinando nas trevas.

Em todos eles, Alice sentia, e até mesmo via, a presença torturante da criatura chifruda. Um prazer escorria de seus lábios peludos marcados pela pouca luz.

Despertando do cansativo sonhar, Alice viu que sua mãe dormia ao seu lado em uma pequena cadeira. Quanto tempo eu dormi?, ela pensou, lembrando-se aos poucos do que havia acontecido. As feições da velhice já começavam a se arrastar pelo rosto da mãe, e seus olhos revelavam o cansaço. Alice queria acordá-la e abraçá-la. Demonstrar todo o amor que sentia por ela e a falta que sentia de sua companhia. Tentou acordá-la, mas não conseguiu falar. Sua voz morreu em sua boca, trancada pelos lábios imóveis com uma cola invisível. Em poucos segundos, percebeu o que estava acontecendo. Sua mãe estava distante, vivendo seus próprios sonhos e pesadelos, em um mundo só dela. Alice tinha seus próprios problemas. Assim, todas as lembranças do pesadelo anterior voltaram a ela em uma torrente de imagens e sensações odiosas, fazendo despertar novamente todo o medo e desespero que sentira nos dias que se seguiram ao pesadelo, e que ela, ofuscada pela exaustão, não havia percebido.

Não ousava olhar para o canto do quarto. Sentia um tremendo pavor da criatura negra e o que ela trazia consigo. Seus frutos diabólicos haviam feito muito mal a ela. E fariam ainda mais. Olhar para aquela forma novamente, ainda que em um sonho, a faria surtar.

Assim como antes, seu corpo estava enrijecido. Fechado para qualquer comando que sua mente tivesse. Apenas seus olhos se moviam, brancos e rápidos, esquadrinhando as ilhas desconhecidas de seu quarto. Com calma, olhou para sua mesa onde um relógio digital repousava. Os números em vermelho florescente marcavam 2h15.

Sabia que o pesadelo não acabaria de repente. Teria de enfrentá-lo. Além disso, havia uma fagulha de curiosidade em seu âmago que a fazia querer olhar. Assim, tomando a coragem necessária, Alice olhou para o local proibido, onde as sombras brincavam, festejando em jubilo na noite caliginosa. Seus olhos caíram lentamente sobre o local. Com horror, divisou o cervo negro de aparência humana que a acompanhara invisível por todos esses dias. Alice, engoliu em seco. Sua respiração estava rápida. É só um pesadelo, ela repetia. Se controla. Você vai acordar daqui a pouco.

Vê-lo ali novamente era aterrador, e sua curiosidade foi sua perdição. Naquela noite, o sonho era mais vivo do que jamais fora. A criatura era tão negra que se destacava de uma forma grotesca em relação ao quarto escuro. Erguia-se sobre duas patas, os braços escuros e humanos quase encostando o chão. Sua esguia silhueta percorria do chão ao teto, rasgando o cenário como um profundo abismo negro entreaberto. Do alto, duas gemas vermelhas a observavam, pairando no ar como vaga-lumes sangrentos eufóricos. Sua aparição foi como um gatilho. Como se sua presença fosse necessária, teve início um nefasto ritual de magia negra.

A loucura veio até ela em um único golpe. Com seu corpo imóvel, Alice sentiu sua barriga remexer. Um único movimento, leve e isolado. Porém, após a calmaria, uma onda de dolorosas contrações começou. A dor a cortou de baixo a cima, rasgando-a como seu uma lança a trespassasse. Dentro de si, sentiu as sombras rastejando para fora de seu corpo. Garras a arranhavam lá de dentro, debatendo-se com esforço para escapar.

Deleitando-se, a besta chifruda urrava em um prazer insano. Um grito grotesco de excitação saia da criatura anômala que, com uma estranha euforia, presenciava a invocação de um demônio na terra.

Alice chorava sem parar, sentindo o terror que saia por entre suas pernas lhe rasgar inteira. Suas coxas estavam ensanguentadas pelo sangue que vertia sem parar. O líquido pegajoso escorria pela cama, manchando o lençol e descendo até o colchão. Em uma mistura de vermelho e negro, o fluido demoníaco arrastava-se para todos os lados.

Alice podia ouvir as lamúrias baixas do monstro que saia de seu ventre. Sentiu-se suja, asfixiada pelos gritos impossíveis. Forçava sua boca, tentando libertar toda a dor em um berro potente. Seus pensamentos eram seu único refúgio. Lá, clamava pela mãe e pela morte que não chegava. Faça parar, é horrível. Mãe! Mãe! Em outro plano, sua mãe permanecia adormecida.

A dor lancinante parecia aumentar gradualmente, como se algo crescesse aos poucos. Até que um momento de frenéticas convulsões chegou. Sua mente clamava inutilmente por respostas de seu corpo que, agora, jazia morto e mutilado por dentro. Percebia a vida se esvaindo aos poucos diante de seus olhos. De sua boca paralisada, a saliva começou a se acumular até que escorreu livremente pelo rosto. Um formigamento percorreu seu corpo. Era tão intenso que a fez parar de sentir o contato de seu corpo com a cama. Nele, mil aranhas andavam sobre sua pele.

Sua cabeça parecia prestes a explodir. O som alto dos gemidos outrora presentes se iniciou. Suplicantes, dançavam à sua volta como da outra vez. Sussurravam lamentações intensas e cruéis. Gritos de dor e sofrimento chegavam aos seus ouvidos; mas também havia palavras de exultação e adoração por aquilo que vinha ao mundo. Cultuavam-na, idolatrando-a como a mãe de um deus. Em sua cama, o pouco de vida que restava em Alice começou a desaparecer no ar, até que sua consciência se foi por completo.

***

O despertador tocou às 5h da manhã fazendo Laura levantar-se da cadeira para mais uma das doses de remédio que o médico prescrevera. Virando o rosto ainda meio adormecido para o lado, viu a filha dormindo na cama. Com a visão ainda se acostumando com o escuro, Laura percebeu o sangue que escorria pelos olhos abertos e estáticos de Alice. Um grito apavorado escapou de sua boca ao ver o corpo moribundo da filha, fazendo todo o sono desaparecer de uma vez. Tremendo, caiu novamente sobre a cadeira. Encarou aturdida o rosto desfalecido de Alice. Os olhos sem vida fitando o nada. Laura culpou-se por ter adormecido ao invés de ajudá-la.

Na calada da noite, um gemido longo e pavoroso chegou aos seus ouvidos. Agora desperta, Laura começou a perceber a quantidade de sangue que pingava pelo chão, deslizando pela cama, de onde, com extremo esforço, um som débil e fraco era produzido. Seus olhos se viraram lentamente até a origem do som. Em uma poça de sangue entre as coxas arranhadas e sangrando de Alice, uma forma comprida e gorda respirava com dificuldade sombria. Coroando duas antenas, dois grandes globos brancos viraram-se para Laura maliciosamente. Em meio a bola de carne desorganizada que era aquilo, um sorriso sardônico se abriu para ela.

17 Mai 2019 00:58:16 0 Rapport Incorporer 124
La fin

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