lara-one Lara One

O Canceroso pede o silêncio de Scully. Mas seria ela capaz de mentir para Mulder? Mesmo que mentindo o protegesse? Qual seria a reação dele se soubesse que a pessoa que mais odeia no mundo é seu próprio pai?


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 18 ans.

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S01#22 - A VERDADE ESTÁ DENTRO DE VOCÊ


INTRODUÇÃO AO EPISODIO:

Fade in.

Mulder acorda sozinho na cama. Vê a luz da sala acesa. Vai até a sala.

Scully, está sentada no sofá, fumando um cigarro. Olhos inchados de tanto chorar, pensamento ao longe. Mulder aproxima-se.

MULDER: - Estamos ficando doidos ou é impressão minha?

SCULLY: - ...

MULDER: - Você está fumando, eu tenho bebido como um alcoólatra...

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder, senta.

MULDER: - ...

Scully tenta tomar coragem. Apaga o cigarro. Levanta-se do sofá. Mulder senta-se. Olha pra ela com medo. Scully respira fundo, fechando os olhos.

SCULLY: - ... Aquele dia em que estávamos nos vinhedos, enquanto você dormia, sua mãe e aquele homem apareceram. Eu ouvi o que estavam conversando... Mulder, ele sabe que eu ouvi. Foi por isso que foi até o meu apartamento, para pedir o meu silêncio. Não quer que você saiba das coisas que ele e sua mãe conversaram.

MULDER: - (ÓDIO) Ele ameaçou você? Ele está te chantageando? Porque se estiver, dessa vez eu vou matá-lo!

SCULLY: - ... Não, Mulder. Ele está protegendo você.

MULDER: - Me protegendo? (RI) Scully, o que está tentando me dizer?

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ DENTRO DE VOCÊ


BLOCO 1:

Apartamento de Dana Scully – 7:11 P.M.

Scully, carregando um pacote de compras, coloca a chave na fechadura. Abre a porta. Pressente alguém atrás dela. Vira-se. Vê o Canceroso, fumando um cigarro, olhando-a cinicamente. Scully vira o rosto. Entra. Deixa a porta aberta. Vai até a cozinha.

O Canceroso entra. Fecha a porta. Scully começa a guardar as compras. Coloca uma chaleira no fogão. O Canceroso caminha pela sala, olhando para tudo. Entra na cozinha. Scully finge que o Canceroso não está ali, continuando seus afazeres, como uma forma de demonstrar que não tem medo dele. Pega um cinzeiro e o atira sobre a mesa da cozinha.

CANCEROSO: - Bonito apartamento...

SCULLY: - Não acho que veio aqui para saber quem é o meu decorador.

CANCEROSO: - Está convivendo demais com o Mulder. Aprendeu rápido sua ironia.

Scully olha para ele.

SCULLY: - ... Aprendi a não ter medo do “Lobo Mau”. Sente-se. Não costumo tratar mal quem vem a minha casa, por mais hipócrita que seja.

Scully vira-se para o fogão, pra não olhar pra ele. O Canceroso traga profundamente.

SCULLY: - (CÍNICA) Quer um café?

CANCEROSO: - (DESAFIADOR) Com estricnina?

SCULLY: - Claro que não. Estricnina é muito pouco pra você. Fala logo o que quer falar e saia já daqui. O Mulder está chegando.

CANCEROSO: - É sobre ele que quero falar. Você sabe do meu segredo. Vim aqui pedir para que considere...

SCULLY: - (RINDO) Considerar o quê? Você?

CANCEROSO: - Quero que considere a questão. Considere Mulder. Mantenha seu silêncio a respeito disso. Não sou eu quem vai se dar mal se a verdade for revelada. Será ele. Se gosta do Mulder da maneira que diz gostar, vai manter o silêncio.

Scully vira-se pro Canceroso.

SCULLY: - (IRRITADA) Está pedindo pra que eu minta? Eu não vou esconder isso do Mulder! Ele precisa saber. Melhor se tivesse sido pela boca de outra pessoa, não a minha!

CANCEROSO: - ...

SCULLY: - Eu entendi o seu jogo. Sei que não mataria a mãe do Mulder. O Krycek fez isso por conta própria porque deve estar desconfiado do seu segredinho. Um cão devora o outro. Então você armou todo um esquema naquele caso de pedofilia para culpar Krycek.

CANCEROSO: - Se contar ao Mulder, agente Scully, ele vai berrar para todos. Eu não vou poder defendê-lo das pessoas que trabalham comigo. Até agora usei desculpas para mantê-las afastadas disso. Nunca fiz nada contra o Mulder, nada que eu não tivesse a certeza de que ele escaparia. O que de mal aconteceu à ele foi meter o nariz onde não devia. Foi por culpa dele as coisas que aconteceram de ruim com ele mesmo.

SCULLY: - Você é um cretino!

CANCEROSO: - Como acha que ele conseguiu abrir os Arquivos X? Como conseguiu a proteção de um senador? Como chegou vivo até aqui? Como acha que conseguiu informantes? Por colocar um xis com fita adesiva na janela?

SCULLY: - ... (OLHA NOS OLHOS DELE COM RAIVA) Como pode fazer isso contra seu próprio filho?

CANCEROSO: - Você é mulher. Deveria saber que a forma mais fácil de proteger sua cria é deixando ela perto de você.

SCULLY: - Não sabia que Mulder iria se tornar um transtorno para o seu jogo sujo?

CANCEROSO: - ... Não sou homem de confidências, agente Scully. Mas eu dei ao Mulder a chance de ser alguém honesto. Talvez a chance que eu não tive.

SCULLY: - (INDIGNADA) Chance? Você destruiu a vida dele! Tirou a irmã dele. Matou a pessoa que ele tinha por pai. Você criou ódio no coração dele! E chama isso de dar uma chance?

CANCEROSO: - (IRRITADO) Eu o protegi durante todos esses anos! Somente eu e a mãe dele sabíamos disso! Acha que tem o direito de se intrometer? Você é uma estranha! Alguém que já devia estar fora do jogo há muito tempo! Acha que se contar ao Mulder vai ajudar em alguma coisa? Pense bem, pense muito bem na reação do Mulder.

SCULLY: - Você é um canalha, mentiroso...

CANCEROSO: - (DEBOCHADO) Eu sou um canalha mentiroso. Pelo menos assumo isso. Por mim estaria sentado, escrevendo um livro, recostado numa poltrona, com a cabeça desligada da realidade! Mas eu tinha ambições, agente Scully... (SILENCIA POR SEGUNDOS, COMO SE QUESTIONASSE O QUE VAI DIZER A SEGUIR) ... Quando conheci a Teena, achei que ela me afastaria da vida que me empurraram. Tolice a minha, não havia como desistir.

SCULLY: - Quer que acredite que protegeu o Mulder? Você matou o Spender, ele era seu filho!

CANCEROSO: - Mulder é meu filho, é o único filho que conheço, porque eu amei a mãe dele. (SORRI DEBOCHADO) Amei... Isso é uma mentira. Ninguém ama nada, nem a si próprio. O que fazemos é criar ilusões dentro de nossa racionalidade e mentir pra nós mesmos que estamos num sonho...

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Entende o que estou falando?

SCULLY: - Não, eu não entendo.

CANCEROSO: - Considere-se feliz por não entender.

SCULLY: - (IRRITADA) Se ama tanto o seu filho, porque jogou com ele? Porque o atirou nisso tudo?

CANCEROSO: - Eu não o atirei. Ele se atirou. Nunca poderia imaginar que o Fox seria tão obstinado. (SORRI) Ele puxou a mim. Só que lutamos em direções opostas... Ele não sabe o quanto se parece comigo. Acha que ele gostaria de saber que é meu filho? Filho do inimigo com o qual lutou a vida toda?

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Acha que tem o direito de magoá-lo?

SCULLY: - ...

CANCEROSO: - Deixe-o pensar que a Samantha é minha filha. Que o Bill era pai dele. Deixe-o nessa ilusão. Ele será mais feliz assim.

SCULLY: - Acha que acredito que nunca tentou matar o Mulder, que não vai tentar? Você deu a Cassandra e o Jeffrey como cobaias!

CANCEROSO: - Eu precisava dar algo em troca, como obteria a colaboração dos outros, se eu mesmo não colaborasse? Acha que daria a Teena e o Mulder? Não, eu não daria. Mas isso não significa que se Mulder atrapalhar meu caminho, eu não possa matá-lo. Sabe que eu o faria.

SCULLY: - ... Saia daqui! Eu não quero ouvir mais nada!

O Canceroso levanta-se.

CANCEROSO: - Quero que guarde esse segredo, antes que alguém descubra e use-o contra mim. Não por mim, como eu já disse. Mas pelo Mulder. E por você.

SCULLY: - (RINDO) Por mim? (RAIVA) Acha que acredito que se importa comigo? Você me deu um câncer, desgraçado! Você matou minha irmã! Você destruiu a minha vida!

CANCEROSO: - Não vou dizer que fico feliz por você estar com o Mulder. Eu queria algo melhor pra ele. Mas confesso que você me surpreende a cada dia. Eu não gosto de você, agente Scully, sabe disso. Escolhi você porque era a pessoa mais cética e ignorante do Bureau. Mas nunca poderia imaginar que você não era quem aparentava ser.

SCULLY: - (AMEAÇADORA) Você não sabe nada de mim! Não sabe com quem está lidando! Nunca, mas nunca vire as costas pra mim, tá legal? Porque suas mentiras me tornaram uma mulher revoltada! Estou descobrindo em mim coisas que achava que não seria capaz de fazer. Nunca, nunca me teste! Se precisar me matar faça rápido, porque se eu ficar viva, sabe que terá mais dor de cabeça!

CANCEROSO: - ... (SORRINDO) Está me ameaçando?

SCULLY: - (ENCARA-O COM ÓDIO) Não. Estou dando um aviso.

O Canceroso apaga o cigarro no cinzeiro. Sai da cozinha.

SCULLY: - Ah, quero te agradecer uma coisa.

O Canceroso vira-se pra ela.

SCULLY: - (IRÔNICA/ DESAFIADORA) Obrigado. Obrigado mesmo, por me deixar estéril. Matou seus netos antes de virem ao mundo. Isso é bom, porque seu sangue não merece continuidade!

CANCEROSO: - ...

SCULLY: - Agora saia já daqui, olhar pra você me dá nojo!

O Canceroso abre a porta. Sai em silêncio. Scully senta-se na cadeira. Apóia os braços sobre a mesa. Inclina a cabeça sobre os braços e chora.


8:13 P.M.

Scully abre a porta. Mulder entra. Percebe um cheiro de cigarro no ar.

MULDER: - (RINDO) Andou fumando escondido, menina má?

SCULLY: - (SÉRIA) É...

MULDER: - Está pronta?

SCULLY: - Vou pegar as malas.

MULDER: - Scully, leve roupas quentes. Está fazendo um frio desgraçado em Michigan.

Scully vai para o quarto. Mulder entra na cozinha. Abre a geladeira.

MULDER: - (IRÔNICO) Scully, no nível de relacionamento em que estamos acho que já posso abrir sua geladeira sem permissão. Ou ainda é cedo demais pra isso?

Mulder pega uma garrafa de água. Serve um copo. Olha pra cima da mesa e vê o cinzeiro. Mulder coloca a garrafa de volta na geladeira. Aproxima-se do cinzeiro. Pega o toco de cigarro. Vê a marca Morley escrita. Mulder fica estático, seu humor muda. Scully sai do quarto. Mulder coloca o cigarro rapidamente no cinzeiro e vai para a sala, como se nada tivesse acontecido.


BLOCO 2:

Rodovia Estadual  – Marquette – Michigan - 12:43 A.M.

[Som: Jim Diamond – Remember I Love You]

Mulder dirige em silêncio. Scully está pensativa.

A placa de entrada da cidade surge bem à frente.

Mulder avista um posto de gasolina. Entra no posto. Pára o carro ao lado da bomba de gasolina. Desce. Está vestido com um sobretudo por cima do terno. Faz muito frio. Scully desce também. Mulder começa a encher o tanque.

SCULLY: - Mulder, viajamos horas e você não disse uma só palavra.

MULDER: - Estou sem assunto.

SCULLY: - Tudo bem, mas não poderia comentar sobre o caso? Tem alguma teoria?

MULDER: - Não tenho teorias.

Scully se cala. Mulder está sério.

SCULLY: - Eu vou buscar um sorvete.

MULDER: - Sorvete? Está louca?

SCULLY: - (IRRITADA) Clima frio, você frio... Me deu vontade de comer sorvete.

Scully entra na lanchonete.

Um carro de polícia estaciona atrás do carro de Mulder. O Xerife Ostin desce do carro. Aproxima-se de Mulder.

OSTIN: - Noite fria, não?

MULDER: - Bastante.

Ostin olha a placa do carro.

OSTIN: - Washington? Bem, não costumamos receber muitos visitantes de Washington. Então deve ser o agente Mulder do FBI.

O Xerife estende a mão. Mulder o cumprimenta.

OSTIN: - Chegou num tempo horrível. Teve problemas na estrada?

MULDER: - Não o caminho estava limpo.

Scully sai da lanchonete. Vem comendo sorvete. O xerife olha pra ela.

MULDER: - Esta é a minha parceira, Agente Scully.

OSTIN: - Xerife Ostin... Não acha frio demais pra comer isso?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não. É ‘desejo’...

Mulder olha pra ela irritado.

OSTIN: - Bem, querem tomar um café e eu conto o que aconteceu por aqui... Puxa, que idéia a minha! Estão cansados da viagem, doidos pra dormir...

MULDER: - Não, eu gostaria de ouvir o que tem pra dizer.

OSTIN: - Vamos tomar um café, aqui fora está gelado.

Ostin caminha até a lanchonete. Scully vira-se pra Mulder e oferece o sorvete.

SCULLY: - Quer?

MULDER: - (SÉRIO) Se fosse um tempo atrás eu tinha que lutar corpo a corpo com você por um pouco de sorvete. E a mesa ganhava sempre.

Mulder entra na lanchonete. Scully vai atrás dele.


1:31 P.M.

Os três saem da lanchonete.

MULDER: - Xerife, há algum lugar pra se dormir por aqui?

OSTIN: - Tem um motel há uns dois quilômetros. Fica perto da delegacia. Pode me seguir.

O Xerife entra no carro. Aguarda pelos dois. Eles caminham até o carro. Mulder entrega a chave pra Scully.

MULDER: - Você dirige.


Motel 24 Hours - 1:53 P.M.

Scully estaciona o carro. Estão em silêncio.

Mulder desce. Entra na recepção. Pega sua carteira e entrega o cartão de crédito.

MULDER: - Um quarto.

GEORGE: - Assine aqui por favor. Está acompanhado?

MULDER: - ... Minha esposa está comigo.

Mulder assina o livro. Fica olhando pro nada. O rapaz entrega a chave.

GEORGE: - Boa noite, senhor. Se precisar de algo, me chame.

Mulder dá as costas e sai. Scully o espera do lado de fora do carro. Mulder pega as chaves da mão dela. Entrega a chave do quarto. Abre o porta malas. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Um quarto só? Mulder, isso vai levantar sus...

MULDER: - (CORTANTE) Aluguei só no meu nome e não vou debitar do FBI. Abra a porta do quarto, eu vou levar as malas.

Scully sai em silêncio. Mulder está frio e distante.

Mulder entra no quarto e coloca as malas no chão. Fecha a porta. Cara de bravo. Scully olha pra ele, com medo. Senta-se na cama.

MULDER: - Estamos trabalhando ainda?

SCULLY: - Acho que não.

Mulder puxa uma poltrona. Coloca-a na frente de Scully. Senta-se. Olha nos olhos dela.

MULDER: - Fala.

SCULLY: - Falar o quê?

MULDER: - O que tem pra me dizer. O que está escondendo há dias!

SCULLY: - Você também falou que tinha algo a me dizer. Comece você.

MULDER: - ... Vi sua reação naquele caso das crianças. Vi o estado emocional em que estava. Vou te dizer uma coisa, Scully. Sabe que eu sou sincero e se doer, vai doer mesmo. Porque a verdade sempre é melhor do que a mentira. Porque eu não gosto de esconder nada de você.

SCULLY: - ...

MULDER: - Quer ter um filho? Eu dei as chances pra você. Você só precisa sacrificar uma delas para saber se são verdadeiras. Eu não posso me intrometer nisso.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Me escuta. Se quer um filho, terá um filho. Só que estou fora dessa. Não me envolva.

Mulder está apático. Scully olha assustada pra ele.

MULDER: - Scully, percebe que se tentar isso agora, eu não posso assumir? Como vai explicar que está grávida? Vai registrar nosso filho apenas no seu nome? Porque terá de fazer isso ou cairemos fora do FBI. E eu não gostaria! Scully, isso no momento é complicado demais! Estamos escondendo um envolvimento, imagina esconder uma gravidez?

SCULLY: - ... Você tem razão, Mulder. Estou sendo egoísta.

MULDER: - ... Sei que você quer muito isso, mas não vá me privar de estar junto. Espere mais um tempo, até resolvermos muita coisa.

SCULLY: - (TRISTE) Mulder, nunca resolveremos nada. Você seguirá sua busca, sempre será um agente do FBI, e eu também. Nunca teremos um filho, mesmo que tenhamos chance. Nunca viveremos juntos. O que vivemos até agora foram ilusões.

MULDER: - ...

SCULLY: - (MAGOADA) Não estou preparada para isso também, Mulder. Não agora. Mas quando estiver, eu caio fora. Você fica. E não me peça pra não desistir. Eu desistirei de tudo pra ter uma família. É comum? Pode ser. Mas é o meu sonho. E acho que não combina com o seu.

Scully levanta-se, chateada, sem olhar pra Mulder.

SCULLY: - Acho que terminou, Mulder. O sonho acabou.

Scully entra no banheiro. Fecha a porta. Mulder fica olhando pro nada.

MULDER: - (PREOCUPADO) Acha que você decide isso sozinha? Não esqueça, eu estou aqui! Acho que estou envolvido nisso ou estou enganado?

Scully abre a porta do banheiro.

SCULLY: - Mulder, eu tenho medo de como nosso envolvimento vai acabar! Eu deveria ter pensado muito antes de dizer um sim pra você, porque a prejudicada da história toda sou eu!

Mulder levanta-se.

MULDER: - (INDIGNADO) E eu? Eu não perco nada? Meu sentimento não conta? Eu apostei tudo em você, Scully! Eu amo você! Só não tenho culpa se as coisas são complicadas pra nós dois! Não sou eu quem manipula as peças do jogo!

SCULLY: - ...

MULDER: - Fala, Scully. Fala o que queria me dizer.

Scully fecha a porta do banheiro na cara dele.


3:19 A.M.

Mulder assiste TV, deitado na cama, sem camisa. Ao lado uma garrafinha de uísque. Scully deitada de costas pra Mulder, vestindo o casaco do pijama dele. Não consegue dormir.

SCULLY: - (MAGOADA) Que garantias eu tenho?

MULDER: - Do que está falando?

SCULLY: - Mulder, você sabe do que estou falando! Eu não vou apostar tudo em você! Você é um homem bonito, há mulheres doidas por você. Por que eu acreditaria que ficaria comigo?

MULDER: - (IRRITADO) Do que está falando, Scully?

Scully vira-se pra ele.

SCULLY: - Do futuro!

MULDER: - (IRRITADO) Futuro? Eu te digo uma coisa sobre o futuro. Estou cansado! Estou de saco cheio de correr atrás de mentiras! Estou com minha paciência esgotada! Não sei até onde vou chegar. Portanto, futuro, é o café da manhã do outro dia!

SCULLY: - Pra mim futuro é viver em paz do seu lado. Não ficar escondida por aí. Futuro é ter uma família, coisa que eu não posso te dar se aqueles óvulos foram alterados geneticamente. E coisa que você também não pode me dar, porque tem medo!

MULDER: - (INSENSÍVEL) Medo? Eu não tenho medo! Eu não estou preparado pra passos gigantescos! Eu tenho um lado racional, sabia? E acho que você está agindo irracionalmente, “adorável agente cética Dana Scully”. Eu sempre te disse, não se sacrifique por mim. Não ouça o que eu digo. Não tome a minha cruzada. Você acabou se ferindo!

Scully segura as lágrimas, está vulnerável demais.

MULDER: - Eu nunca te prometi nada! Só o que podia cumprir. Acho que estou sendo uma pessoa legal na sua vida. E acho que sou o primeiro a reconhecer você e a respeitá-la. Só peço que me respeite. Estamos num impasse. Você quer um filho. Eu quero, mas não é o momento.

SCULLY: - (MAGOADA) E eu disse que queria agora? Eu não disse isso, Mulder. Só quero que respeite o fato de que nunca poderei ter filhos como uma mulher normal! Terei filhos de laboratório! Se você não se importa com isso, eu me importo! ... Eu sabia que isso iria acontecer um dia. Só achava que você estaria no meu lugar, revoltado por eu não te dar um filho!

MULDER: - Estou cansado disso, Scully! Você quer, tudo bem. Pra mim não tem problema. Eu faço o sacrifício, contanto que você fique feliz. Afinal, é tão pouco o que me pede, diante de tanto que já fez por mim.

SCULLY: - Mulder, você está agindo como um neandertal! Eu já disse que não quero ter filhos agora! Você exagera tudo, Mulder. Está brigando comigo à toa, fazendo uma tempestade num copo de água.

MULDER: - ...

SCULLY: - Quer saber sobre o futuro, Mulder? O futuro me dá medo. Eu prefiro viver o presente. E esquecer que aquilo está lá, porque eu não sei se tenho chances de ter um filho. Essa é a questão que me incomoda no momento!

MULDER: - Por que não descobre?

SCULLY: - (REVOLTADA) Porque eu tenho medo! Por enquanto tenho a esperança. E quando não tiver? O que me resta?

MULDER: - (SÉRIO) Eu?

Scully olha pra ele ternamente.

SCULLY: - Me desculpa, Mulder. Não falaremos mais sobre isso.

Scully recosta-se nele.

SCULLY: - Mulder, me perdoa. Eu estou confusa demais pra falar nesse assunto. Tenho outras preocupações na cabeça. Acabei canalizando nas coisas erradas e ferindo você.

MULDER: - (FRIO) Espero que não pense que eu sou um canalha. Se você puder ter filhos eu quero ser o pai deles, com ‘P’ maiúsculo. Se não puder, eu sobrevivo. Se quiser deixar o FBI, tudo bem. Faça o que quiser, a vida é sua. Só não me peça pra não me preocupar com você. A vida é minha, me preocupo com o que acho que devo me preocupar.

SCULLY: - ... Temos tão pouco tempo pra ficar juntos. Quando temos a chance, brigamos.

Scully senta-se na cama. Olha pra Mulder. Mulder não olha pra ela. Continua prestando atenção na TV. Scully senta-se sobre os quadris dele, numa tentativa de acalmá-lo.

MULDER: - (FRIO) Quer sair da frente? Não vejo nada.

SCULLY: - (ROMÂNTICA) Não é pra ver.

MULDER: - (INDIGNADO) É o Super Bowl, Scully!

SCULLY: - E daí?

Mulder mexe a cabeça tentando olhar a TV. Scully move o corpo, impedindo. Mulder olha pra ela. Scully sorri, como que pedindo carinho.

MULDER: - (FRIO) Não, Scully. Hoje, sinto muito, mas não posso. Porque só consigo pensar numa coisa.

SCULLY: - Que coisa? Mulder, não acredito que vamos recomeçar aquela discussão...

MULDER: - Não é isso.

SCULLY: - Então o que é?

MULDER: - (INDIGNADO) O que alguém que fuma Morley foi fazer em seu apartamento?

Scully sai de cima de Mulder, nervosa.

MULDER: - (ESTÚPIDO/ AOS GRITOS) Vai mentir ou vai me contar a verdade?

Scully silencia. Mulder levanta-se, furioso. Scully olha pra ele. Mulder veste a camisa e põe o sobretudo.

SCULLY: - Onde vai, Mulder?

MULDER: - (IRRITADO) Fazer a única coisa que sei fazer e que nunca deveria desistir: Trabalhar. Tenho um Arquivo X pra resolver.

Mulder sai batendo a porta. Scully começa a chorar.


BLOCO 3:

Residência dos Burghs - 4:21 A.M.

[Som: New Edition – Is This the End?]

Mulder retira a faixa da polícia, da porta do quarto de Helen Burghs. A senhora Burghs olha pra Mulder com lágrimas nos olhos.

ALICE: - Se precisar de mim, agente Mulder, estou lá embaixo. Vou fazer um café pra nós.

Mulder entra no quarto, fechando a porta atrás de si.

Geral do quarto bagunçado. Há sangue por todas as paredes. Numa parede está escrito com sangue: “Ele está dentro de nós”.

Mulder caminha pelo quarto. Põe a mão no nariz e abre a janela. Vê a porta do banheiro aberta. Olha fixamente pra banheira, ainda cheia de água, misturada com sangue. Mulder perde-se olhando pra banheira e lembrando do que o Xerife dissera.

OSTIN (OFF): - O desgraçado a afogou na banheira.

Mulder olha pra cama suja de sangue.

OSTIN (OFF): - Depois ele arrastou Helen até a cama, onde começou a retalhá-la com uma navalha. Arrastou-a de volta à banheira e a esquartejou com um facão de cozinha, atirando seus pedaços por todo o quarto. Imagine o estado da mãe dela. Foi Alice quem encontrou o corpo da filha... Ou o que sobrou dele.

Mulder fecha os olhos, com revolta.

OSTIN (OFF): - O que nos intrigou, foi o que escreveu na parede. Mark não quis nos dizer, mesmo depois de todos os esforços. Se enforcou na cela, o desgraçado. Talvez o arrependimento de matar a namorada começou a torturá-lo... Pode nos ajudar a descobrir o que significa? Afinal você é perito nessas coisas.

Mulder abre os olhos. Observa o quarto.

MULDER: - Mundo louco... Gente louca...

Mulder aproxima-se da parede escrita.

MULDER: - Ele está dentro de nós... Quem está dentro de nós?

Mulder pega o porta retrato com a foto de Helen. Uma garota de uns 19 anos, loira, muito bonita. Helen está sorrindo na foto. Mulder larga o porta retrato.

MULDER: - (TRISTE) Futuro... Quem pode saber o futuro? Um dia se está rindo, no outro se está morto.

Mulder puxa uma cadeira. Senta-se. Observa a cama. Levanta-se. Ergue o colchão. Acha um diário.

MULDER: - (DEBOCHADO) Polícia... São peritos em achar rosquinhas...

Mulder senta-se na cadeira. Começa a ler o diário de Helen.


7:21 A.M.

Mulder fecha o diário. Pega o celular. Disca.

OSTIN (OFF): - (SONOLENTO) ... Alô?

MULDER: - Xerife Ostin, Fox Mulder... Seu assassino era um psicopata. Ele matou a namorada porque ela estava grávida... Achei o diário dela, escondido sob o colchão. Isso resolve o seu mistério. Sabe o perfil do sujeito, ele não teve mãe nem pai. Odiava crianças... Num acesso de raiva, matou a garota.

OSTIN (OFF): - Mas o que significa a frase na parede?

MULDER: - Ele está dentro de nós? Era o que a garota costumava dizer pra ele. Encontrei vários relatos no diário de Helen onde ela dizia: Ele está dentro de nós. O amor está dentro de nós e eu nunca vou te abandonar.

OSTIN (OFF): - Então o ‘ele’ da parede era o amor?

MULDER: - É. Talvez Mark tenha escrito como uma maneira de se vingar de Helen. Uma última vingança, de uma promessa não cumprida. Ele a queria só pra ela. Era um sujeito egoísta...

OSTIN (OFF): - Puxa, agente Mulder, me desculpe por tirá-lo de Washington por causa de um crime passional. Achei que houvesse algo bizarro nisso...

MULDER: - Deixarei a agenda da garota onde encontrei. Serve de prova.

Mulder desliga o telefone. Coloca o diário sob o colchão. Olha pra foto de Helen novamente.


Motel 24 Hours - 8:55 A.M.

Mulder entra no quarto. Scully está deitada de lado, chorando. Mulder tira o sobretudo. Atira sobre a poltrona, junto com o celular e a arma. Ainda está com cara de poucos amigos.

MULDER: - Foi um crime passional. O sujeito era um psicopata. Matou a garota.

SCULLY: - Por quê? Ela o estava traindo?

MULDER: - ... (RELUTANTE) Não. Ela ... estava grávida.

SCULLY: - ... E o que significava a frase?

MULDER: - ... Era apenas uma declaração de amor que Helen sempre fazia para Mark. Significava que o amor estava dentro deles.

[Som: New Edition – Is This the End?]

Mulder tira a camisa e as calças. Coloca a calça do pijama. Deita-se na cama. Desliga o abajur. Cobre-se com o edredom. Vira-se de costas pra Scully. Ela também vira-se de costas pra ele, mantendo distância. Chora calada. Mulder escuta o choro abafado dela. Fecha os olhos.

MULDER: - (TERNAMENTE) Scully?

Scully começa a chorar mais alto, frágil, magoada. Não consegue mais segurar. Mulder, arrependido, acende o abajur. Senta-se, recostando-se no travesseiro. Põe sua mão sobre o ombro dela.

MULDER: - Scully, eu... eu sinto muito. Fui um animal com você... Você não merece isso.

Scully vira-se pra ele chorando. Mulder estende os braços pra ela. Scully o abraça, chorando. Mulder a abraça forte, contra o peito.

MULDER: - (CHATEADO) Eu só queria uma única vez que você deixasse de ser forte, Scully... Que deixasse de carregar o peso nas costas. Ainda mais quando sei que o peso é meu. Eu que deveria estar carregando.

SCULLY: - (CHORANDO)

MULDER: - Mas se acha que não deve me falar, eu entendo. Só não se acabe por mim. Eu não mereço. Eu nunca mereci você. Eu sou um egoísta. Preciso sempre provar que estou certo, como se existisse certeza nesse maldito mundo caótico.

Scully olha pra ele, chorando. Mulder põe as mãos no rosto dela e seca suas lágrimas com os polegares.

MULDER: - Nada é perfeito, Scully. A perfeição é uma utopia. E a única certeza que tenho nessa vida é que eu amo você e que você me ama. E que nada, nem mesmo a minha busca vai interferir nisso. Porque eu não estou mais sozinho. Agora eu tenho você. E eu preciso aprender a te respeitar. Preciso entender que meu mundo gira porque o seu mundo gira também. Se você pode fazer seu mundo girar em torno do meu, eu também posso. Me perdoa, por favor... Até hoje eu fui um. É difícil pra mim ser dois.

Scully abraça-se nele. Mulder fecha os olhos, derrubando lágrimas. Beija-a na testa.

MULDER: - Me ajuda a ser melhor, você sempre sabe como me transformar em um ser humano...

Scully olha pra Mulder. Senta-se sobre ele, ainda derrubando lágrimas. Mulder olha nos olhos dela. Os dois ficam olhando-se por instantes, com os rostos bem perto um do outro.

MULDER: - Me perdoa se eu sou assim. Preciso sobreviver, Scully. Por viver sempre rodeado de mentiras, eu passei a dizer a verdade, sem pensar que muitas vezes, algumas verdades ferem.

SCULLY: - ... (SECANDO AS LÁGRIMAS) Mulder, sempre me diga a verdade, por pior que ela seja. Eu também preciso te contar uma verdade. É por isto que estou perturbada nesses últimos dias. Porque preciso te contar uma coisa e isso me tortura, porque se eu contar, vou torturar você. Embora eu saiba que você tem o direito de saber, que não posso esconder nada de você, que não tenho esse direito...

MULDER: - Tudo bem, Scully. (DEBOCHADO, TENTANDO ANIMÁ-LA) Eu já faço ideia. Você vai fugir com o Bryan Adams...

SCULLY: - (SORRINDO) Mulder, você sempre consegue quebrar o clima.

MULDER: - Eu quero quebrar o clima. Porque não estou gostando desse clima, Scully. Você merece outro.

Mulder coloca as mãos na cintura dela. A beija suavemente. Ela retribui o beijo, aos poucos, relaxando. Coloca as mãos nos ombros dele, acariciando-o. Mulder a abraça fortemente, beija-lhe o pescoço. Scully inclina a cabeça para trás. Mulder desce pelo peito dela. Ela respira rapidamente. Mulder a deita na cama. Scully sorri pra ele, ainda com os olhos vermelhos.


FBI- Arquivos X – 5:17 P.M.

Mulder fecha a gaveta do arquivo. Coloca uma pasta sobre a mesa. Scully está sentada, de frente pra ele, olhando pro nada. Mulder olha pra ela. Scully percebe que está sendo olhada e olha pra ele. Mulder mostra a pasta numerada, onde lemos o nome de Dana Scully.

SCULLY: - O que quer com isso, Mulder?

MULDER: - Isso é pra me lembrar do porque ainda continuo aqui. Vai ficar sobre a mesa.

SCULLY: - (OLHA-O APAIXONADA, OLHOS BRILHANTES)

MULDER: - Vem, chega por hoje. Vamos embora.

Scully levanta-se. Pega sua pasta. Mulder abre a porta. Desliga a luz.


Apartamento de Mulder - 7:56 P.M.

[Som: Jim Diamond – Remember I Love You]

O celular de Mulder toca, atirado na poltrona. Toca insistentemente.

O celular de Scully, sobre uma mesa de canto, toca insistentemente também.

Panorâmica para a cama. Mulder está sentado sobre a cama. Scully sentada sobre ele. Em meio aos lençóis, eles trocam beijos e carícias, enquanto fazem amor.


12:21 A.M.

Mulder acorda sozinho na cama. Vê a luz da sala acesa. Vai até a sala.

Scully, está sentada no sofá, fumando um cigarro. Olhos inchados de tanto chorar, pensamento ao longe. Mulder aproxima-se.

MULDER: - Estamos ficando doidos ou é impressão minha?

SCULLY: - ...

MULDER: - Você está fumando, eu tenho bebido como um alcoólatra...

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder, senta.

MULDER: - ...

Scully tenta tomar coragem. Apaga o cigarro. Levanta-se do sofá. Mulder senta-se. Olha pra ela com medo. Scully respira fundo, fechando os olhos.

SCULLY: - ... Aquele dia em que estávamos nos vinhedos, enquanto você dormia, sua mãe e aquele homem apareceram. Eu ouvi o que estavam conversando... Mulder, ele sabe que eu ouvi. Foi por isso que foi até o meu apartamento, para pedir o meu silêncio. Não quer que você saiba das coisas que ele e sua mãe conversaram.

MULDER: - (ÓDIO) Ele ameaçou você? Ele está te chantageando? Porque se estiver, dessa vez eu vou matá-lo!

SCULLY: - ... Não, Mulder. Ele está protegendo você.

MULDER: - Me protegendo? (RI) Scully, o que está tentando me dizer?

Corta o áudio. Apenas a música [Som: Jim Diamond – Remember I Love You]

Scully, chorando, senta-se de frente pra Mulder, na mesa de centro. Começa a falar.

Mulder numa expressão de ‘meu mundo desabou, onde estava aquele que eu conhecia?’.

Scully continua falando, Mulder a escuta em silêncio.

Scully chora, ajoelha-se ao lado de Mulder, abraçando a perna dele.

Mulder está catatônico, assustado, mas frio, sem derrubar uma lágrima.

Scully continua falando, nervosa, desatinada.

Mulder está distante, como se o ódio impedisse qualquer lágrima de cair, qualquer gesto de emoção.

Scully levanta-se, anda em silêncio de um lado para o outro. Mulder olha pro nada.

Volta o áudio.

SCULLY: - ... Mulder, por isso eu roubei um fio de seu cabelo. Por isso fiquei horas tentando descobrir se isso não era uma mentira. Eu não queria contar se não tivesse certeza. Mas infelizmente, Mulder, esse homem não existe. Não posso provar cientificamente. Vai precisar acreditar em seu instinto, mais uma vez.

MULDER: - (OLHANDO PRO NADA) ...

SCULLY: - Mulder, eu não queria ser a pessoa a te dizer isso, mas eu não tinha o direito de esconder essa verdade de você!

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - ... Scully, sabe aquela coisa que falamos, de precisar de espaço?

SCULLY: - ...

MULDER: - Estou precisando agora.

Scully olha pra Mulder. Derruba lágrimas, sentindo pena do parceiro. Afaga-lhe os cabelos e o beija na testa. Caminha até a porta, relutando. Mas não diz nada. Abre a porta, olha novamente pra Mulder. Scully sai, fechando a porta.

Mulder deixa o corpo cair do sofá e começa a chorar convulsivamente.


Apartamento de Scully – 1:01 A.M.

Scully entra. Fecha a porta. Senta-se no sofá, com os olhos cheios de lágrimas. Olha pro telefone, a seu lado. Pega-o. Disca.

SCULLY: - ... Frohike? Sou eu, Frohike... E-eu não sabia a quem recorrer... O Mulder está enfrentando uma barra pesada demais pra ele... Eu tenho medo de que faça uma bobagem, você conhece o Mulder tão bem quanto eu...... Eu sei, sei que ele precisa ficar só, mas........ Eu entendo.... Sei que é melhor deixá-lo sozinho quando está assim, mas....


Apartamento de Mulder – 1:04 A.M.

Mulder começa a destruir seu apartamento, num acesso de ódio. Chuta a mesa de centro, derruba o computador, começa a quebrar tudo. Atira a TV pela janela. Derruba o cabide no chão. Começa a chutar o sofá sem parar.


1:23 A.M.

Mulder olha fixamente para um ponto de fuga, enquanto está sentado no chão da sala, escorado na parede. Tudo quebrado. Ódio nos olhos dele.


BLOCO 4:

1: 36 A.M.

Mulder, sentado dentro do carro, estacionado no meio do deserto. Olha fixamente pra vastidão de nada à sua frente. Olhos vermelhos de chorar. Começa a beber numa garrafa.

MULDER (OFF): - (ASCO) Tenho em mim genes daquele homem, e isto é tudo. Nada pode mudar isso... Nada... Esta é a verdade... Eu sou um monstro...

Mulder fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Agora entendo porque minha mãe me tratava com desprezo... Ela tinha medo do filho do monstro. Sabia quem ele era e o que esperar do filho bastardo dele... O filho covarde dele... O filho imprestável dele. Obcecado, egoísta, orgulhoso, ambicioso... Igual ao pai.

Mulder bebe mais uns goles.

MULDER (OFF): - O insensível, frio, calculista, que se importa só com ele. É isso o que você é Mulder. (RI) Mulder... Nem Mulder você é! Nem sabe qual é o seu nome, seu imbecil! Nem sabe quem você é! Só sabe que o sangue que corre nas suas veias é contaminado. É podre. E você não vai escapar de ser igual... Agora você não sabe de mais nada mesmo. Foi arremessado contra o muro. Tem parentes? Quem é você? Parece que seu avô era um espião que trabalhava para os russos. Seu pai é o bastardo que mata crianças e não sente culpa alguma. Que usa mulheres, que projeta uma conspiração para a invasão do planeta, que mata, mente, corrompe, usa, destrói... (RI) É, Fox. Você não vai escapar disso. É filho dele, tem traços dele estampados em seu rosto e vai ver isso no espelho cada maldito dia de sua vida. E ninguém pode mudar isso.

Mulder olha pro lado. Vê a arma sobre o banco. Está desesperado.

MULDER (OFF): - Sua irmã é meio-irmã. Seu pai é um estranho. Sua mãe era uma vadia mentirosa...

Mulder começa a chorar.

MULDER (OFF): - ... Vai fazer o quê, agora que sabe disso? ... Vai chorar como o covarde do seu pai? Não, ele não chora. Chorar é emoção demais pra ele... Vai continuar em busca da sua irmã? Acha que se a encontrar ela ficará ao seu lado? Ela terá medo do filho do sujeito que a entregou para experimentos alienígenas... Não, você não tem mais irmã. Você não tem mais nada... Porque não merece a única coisa que tem... Você tem a mulher mais maravilhosa do mundo ao seu lado, que daria a vida por você... Não, eu não valho o chão que ela pisa. Eu sou filho do sujeito que destruiu a vida dela... E eu vou destruir sua vida também, sou o filho do monstro... Sou um bastardo. Um desgraçado que estaria melhor morto.

Mulder pega a arma. Olha fixamente pra ela.

MULDER (OFF): - Cientificamente, como diria ‘meu lado racional e humano’, ou como prefiro dizer ‘minha alma’, as características físicas e até mesmo emocionais são passadas pelos genes. Mas ela diria também que a convivência é quem faz o sujeito. “Mulder, está dizendo que o fato de ser filho daquele homem vai torná-lo igual à ele? Mulder, está sugerindo que é um monstro por que tem os genes dele?” (SORRI) “Mas Scully...” “Não, Mulder. Sabemos que a genética influi, mas não é tudo. O comportamento humano depende do ambiente em que cada ser foi criado. Como explica que filhos adotivos se pareçam com os pais adotivos e não com os verdadeiros?”

Mulder sorri, abalado e confuso.

MULDER (OFF): - Scully... Nem todas as palavras que eu pudesse memorizar adjetivariam a luz que você é...

Mulder olha pra arma em suas mãos.


Apartamento de Scully – 5:33 A.M.

Scully acorda-se assustada e levanta-se do sofá num impulso. As pernas tremem de medo, ela mal consegue ir a até a porta. Scully fecha os olhos e abre a porta. Abre os olhos. Vê Mulder, parado ali. Barba por fazer, camiseta, jeans, uma mochila nas costas. Scully respira aliviada.

MULDER: - ... Scully...

[Som: Jim Diamond – Remember I Love You]

Mulder começa a chorar.

MULDER: - Sabe aquela história de espaço? Preciso urgentemente invadir o seu. Porque o seu espaço, é o espaço que eu quero ficar pra sempre.

Scully estende seus braços ternamente. Mulder joga a mochila no chão. Abraça-se nela, chorando como criança. Puxa a arma da cintura e entrega pra Scully.

MULDER: - Você não deixou que eu apertasse esse gatilho... Só você.

Scully abraça-o com mais força, assustada. Beija-lhe a testa, olha nos olhos dele.

SCULLY: - Não sei o que pensou, Mulder. Mas eu te amo, porque é a pessoa mais vulnerável e sensível que eu conheci. Porque é verdadeiro e luta pela verdade. Porque é inocente, é meigo, é coração, não é razão. Porque é você, e ninguém no mundo é igual à você, ninguém no mundo vai roubar o tesouro que carrega em seu peito. Ninguém sabe sorrir e nem chorar como você. Ninguém é tão rico e puro quanto você. Nem tão generoso e corajoso.

MULDER: - (CHORANDO CALADO) ...

SCULLY: - Mulder, é hora de erguer a espada e lutar. A batalha pode estar perdida, mas a guerra começou...

MULDER: - ...

SCULLY: - Pai é quem ama, quem cria. Não quem doa os genes. Pai é quem brinca, quem dá conselhos, quem está presente todos os dias da vida ao lado do filho. Pai, Mulder, qualquer um pode ser. Mas pai verdadeiro é o que ama. Não o que tenta destruir.

MULDER: - ...

SCULLY: - Genes não significam nada. Você pode consegui-los em qualquer laboratório.

MULDER: - Me perdoa por ter te ofendido, eu entendo agora, o que sente por não ter filhos... Não quero que suje seu sangue com o meu. Não quero que tenha netos do...

SCULLY: - (INTERROMPENDO) Do Bill Mulder? Ele transformou você no meu tesouro. Ele é seu pai verdadeiro, porque foi enganado como você, porque cuidou de você, Mulder. Ele achava que era seu pai, deu a filha em troca de você. Imagina a escolha que precisou fazer entre os filhos, sem ao menos suspeitar que estava sendo enganado. Mesmo pensando que você era filho dele. E sabe por quê?

MULDER: - ...

SCULLY: - Porque sabia que você era como ele. Que iria atrás da verdade. Que não concordaria com as coisas que aquele homem faria. Você é o Bill Mulder. Tem caráter, tem coragem, tem sentimento. E tem força pra vencer.

MULDER: - Acha que ele teria feito a troca se soubesse que eu não era filho dele?

SCULLY: - Acho que doeria igual. Porque Bill amava você como um filho. Ele criou você e te amou. Honre o nome dele. Você teve um bom pai, Mulder. Mantenha a memória dele viva. Porque você é igual a Bill. Genes não são nada. O que importa é a pessoa que cria você, os ensinamentos que passa. Você não é igual aquele sujeito, Mulder, nem nunca será.

Mulder sorri, num alívio. Scully o abraça. Mulder entrega-se aos braços dela, chorando como criança.


Apartamento do Canceroso – Local desconhecido

O Canceroso escreve em sua velha máquina. Há um cigarro no cinzeiro. A fisionomia dele é de transtorno. Escreve como um desesperado.

CANCEROSO (OFF): - Então soube que ele nunca entenderia. Ele nunca entenderia os motivos pelos quais Jack escondera essa verdade. Ele nunca entenderia porque seu pai fazia todas aquelas coisas. Se ao menos Jack tivesse tido uma segunda chance, estaria com a mãe de seu filho, escrevendo livros... E agora pensava o que seu filho deveria estar pensando naquele momento. Talvez sentisse mais raiva ao lembrar da etiqueta com o nome da irmã sobreposto ao nome dele numa pasta nos arquivos das trocas. Jack nunca daria a mulher que amava e nem o filho que nasceu desse amor. Aliás, esta era a única lembrança que Jack tinha de ter sido feliz na vida. De ter sentido algo iluminado. De ter tido, por uma única vez, algum sentimento bom em seu coração.

O Canceroso traga o cigarro. Apaga-o no cinzeiro.

CANCEROSO (OFF): - Nada havia para ser dito entre os dois. Jack havia estado presente em toda a vida do filho, mas nunca como deveria estar: como pai. Seu filho era igual a ele numa só característica: ambos eram determinados em seus objetivos e persistentes para ir até o fim. Apenas lutavam em lados opostos. Seu filho não era um fraco. Sempre se arrebentou por defender o que acreditava, por defender a esperança. Optou por não ter nada na vida, nenhum luxo, nenhum dinheiro, nenhum poder, jamais ele iria levantar sua mão contra outro ser humano. Não eram iguais. Jack era um covarde e um mentiroso. Seu filho era corajoso e verdadeiro. E Jack tinha orgulho disso.

O Canceroso acende outro cigarro. Começa a tremer.

CANCEROSO (OFF): - Mas todos nós, em nossas vidas, algum dia nos deparamos com o painel dos botões de sim, não e abstenção. E sabemos que é muito mais fácil apertar a abstenção, porque não há compromisso. Jack não iria chorar. Não poderia abraçá-lo nunca. Não desistiria de sua jornada por causa de seu filho... Nada mudaria. Ele sempre soube disso, portanto, nunca se culpou por esconder a verdade do filho. Sabia que esta mentira o protegeria de si próprio. E sabia que seu filho daria a volta por cima. Sabia que ainda eram inimigos. Que sempre seriam inimigos. Que ele poderia matá-lo. Mas para Jack, esse era seu maior temor. Não a morte, mas a morte vinda pela mão de seu filho. E Jack sabia, por sua própria experiência, que nunca se mata um homem. Porque esse homem sempre assombrará seus pensamentos quando fechar os olhos na noite. E viria a culpa. Jack não queria que o filho sentisse culpa. Jack sabia o que era isso. O que era descer na lama. Porque desceu e nunca mais subiu, como tantos outros. E descobriu o seu lado escuro. Jack se pegou fazendo as mesmas coisas que odiava em seus inimigos. E quando olhou pra dentro de si, viu que a esperança havia morrido, que era só a escuridão o que lhe restava. Jack percebeu que era um monstro, capaz de tudo. Então, os cacos que sobraram nunca mais conseguiram se juntar. Jack perdeu a ilusão, não acreditava em mais nada, não confiava mais em ninguém, e sabia o sentido correto do que chamavam realidade. Nada mais o comovia. Ele fazia o que tinha de ser feito: “ O botão da abstenção é apertado porque você não tem mais sentimentos. Cai na lama e em todo o processo de desconfiguração da alma. Não há volta. Porque perdeu os sentimentos nobres que o tornam um ser humano”.

O Canceroso pára de escrever. Levanta-se, pega o cigarro, vai até a janela. Olha pra rua pensativo.

CANCEROSO (OFF): - Pensou em dizer isso ao filho, porque o amava demais para que ele se tornasse frio. Amava-o muito, não queria que ele caísse na lama, por derramar o sangue de seu próprio pai. Queria que seu filho guardasse sua alma e não a trocasse por nada, assim como Jack trocou...

O Canceroso sente os olhos cheios de lágrimas. Mas faz uma fisionomia fria, como se evitasse o sentimento. Fuma.

CANCEROSO (OFF): - Jack pensou em lhe dar conselhos úteis: “Eu cai na lama e não peço para que acredite no que eu diga. Eu vi. Você não deve ver. Não é o tipo de pessoa que deva passar por isso. Você ainda tem coração. Proteja-o.” ... Mas também pensou em lhe dizer coisas rudes como “Não existe pai e mãe. Existem parentes. Você está jogado no mundo, quando os super-heróis de sua infância se revelam tão humanos quanto qualquer pessoa que passe na rua. É cruel? É, é cruel. É um mundo ordinário. Você precisa encontrar seu caminho neste mundo e tentar sair o menos ferido possível.” Pensou em lhe dizer isso como uma forma de lhe causar ódio. Porque se o filho odiasse o pai, jamais seria como ele, e jamais cairia na lama. Mas Jack jamais conseguiria dizer isso. Só restava dizer uma coisa ao filho: ‘Afaste-se de mim. O botão de abstenção sempre estará ao meu alcance.’ O botão, era a única chance que Jack tinha para salvar o filho. Salvá-lo de seu sangue. Salvá-lo de si próprio. Jack nunca esperaria nada do filho, como sabia que o filho nada esperaria dele. Porque ambos tinham suas próprias razões para lutar um contra o outro. Mas Jack tinha uma certeza: Jamais apertaria o botão.

Fade out.


09/01/2000


22 Novembre 2018 06:33:12 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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