lslauri Liura Sanchez Lauri

Depois que o sonho de Krakoa se acabou, Wolverine resolve esticar as pernas para o hemisfério Sul, neste reencontro consigo, ele também conseguiu algo muito melhor.


Fanfiction Comics Déconseillé aux moins de 13 ans.

#mutantes #brasil #x-men #iara #wolverine
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Capítulo Único

O sonho morreu...

Na verdade, virou um maldito pesadelo...

Krakoa não se transformou numa nação mutante e, ao contrário do que todos pensavam, a raça mutante não era o próximo passo na evolução, ela foi só um teste do cara lá de cima, aquele sádico. Igual o ornitorrinco, a equidna, saca? Algo feito pra deliciar os humanos, o "Homo sapiens sapiens".

Os X-Men não existem há uns 50 anos e, apesar de não parecer, tô com quase 300. Um saco essa mutação, ao mesmo tempo que é linda, é muito triste ver aqueles que a gente ama morrendo...

Eu já passei pela fase de tentar me matar, tem uma hora que a gente aprende a parar. Eu parei há uns 100 anos. Ainda acordo, na madrugada, gritando de dor, com as garras ejetadas, lembrando da ofensiva que os humanos fizeram e tiveram sucesso.

Eu seria injusto se dissesse que só tenho pesadelos... sonho com a Arnaaluk (off: personagem criada por mim, na fanfic: Logan entre os inuítes), com a Rose e com a Mariko constantemente, esporadicamente, com a Jean... É barra. Essa é a pior parte da solidão, a falta do toque, por isso, meu subconsciente me prega essas peças. Os sonhos são tão reais que eu fico puto quando acordo! Mas não adianta tentar dormir de novo. Eles vêm quando querem, eu aproveito como posso.

Charles e o Conselho Silencioso foram ingênuos. Se isolar, aceitar todos os mutantes em Krakoa, isso foi nossa sentença de morte.

Enquanto estávamos entre os humanos, ao menos os X-Men, tinham um propósito: cuidar dos seus, dar um jeito nos mutantes que não eram muito fãs dos humanos. Apesar de tênue, ainda assim, os humanos nos aceitavam, agora quando alguém se isola, banca o superior e mostra pro mundo que tá vivendo num paraíso, ah... isso não tem como terminar bem!

Os humanos tentaram algumas vezes ataques isolados, claro, não foram bem sucedidos, mas quando entenderam que nossa força tava na união e resolveram fazer o mesmo, não tivemos chance...

Não morremos em vão, levamos alguns bilhões com a gente, claro, mas nos extinguiram.

Eu, sinceramente, não sei de qual pedaço meu o resto do corpo se regenerou. Sei que eu tô sem adamantium e, até agora, não encontrei nenhum sósia meu por aí. Acho que só fiquei eu mesmo. Então, debandei do Norte. Comecei a descer e vim parar na Amazônia. Desde então, tô vivendo aqui, em meio à selva, sem contato humano; de fato, até fugindo dele.

Não espero que depois de tanto tempo alguém se lembre de mim, ainda mais aqui, mas é melhor não arriscar.

Charlie tava certo quando me descreveu como um solitário, eu consigo ficar sem ver outro ser humano por anos e a selva proporciona isso muito bem.

Quando eu tô quase me acostumando, alguém vem incomodar meu estado de quietude e isolamento e me mostrar que eu sô nômade, tenho que ser, porque nunca ficou tão claro pra mim a maldição de ter todos aqueles que eu amo, mortos. E, dessa vez, vi até os que me odiavam morrer.

A vitória completa dos humanos aconteceu quando eles lançaram uma espécie de bomba atômica, misturada com vírus legado e embrulhada em algo místico, pra não nascer mais nenhum mutante e assim tem sido. Como eu sei? De tempos em tempos eu me atrevo a ir até uma aldeia próxima, na madrugada, pegar algum rádio ou meio de saber alguma notícia do mundo. Eu até acho que é por isso que eles vêm em meu encalço, às vezes, mas não quero ficar isolado do que tá acontecendo pelo mundo.

Com isso, soube que a raça humana, depois dessa empreitada, prosperou. Ouvi há um tempo que agora são em 10 bilhões! Nunca imaginei que a Terra suportaria tanto, mas aí me dei conta de que eles tão computando os humanos espalhados pelo espaço. Usaram muita tecnologia pra acabar com a gente, e uma parte dela retornou pras pessoas. Uma das notícias disse que só os mais pobres ficaram na Terra, o que ainda dá 6 bilhões de almas...

Enquanto caminhava pro Sul, vi muita pobreza e destruição mesmo. Como se os ricos tivessem debandado e ninguém se importasse com essa parte do mundo. Depois, percebi que isso foi um presente, de novo, daquele sádico lá de cima. Sem os ricos pra encher, as comunidades originais puderam reaver sua característica nômade, apesar das reservas não existirem mais e, apesar de não ter ido para além da Amazônia, imagino que as grandes cidades não existam como eu as conheci. As florestas conseguiram recuperar grande parte da sua área, eu ouso dizer que o ar tá até mais respirável.

Então, aquilo que pareceu uma catástrofe, na contagem geral, foi bom... Bom pra quem vai nascer daqui por diante, pras gerações que querem ficar ou que não conseguem sair da Terra.

Aproveito também a rudeza da selva pra não parar de treinar, algo dentro de mim diz que preciso me manter afiado, seja pra não cair na mão de algum Striker dessa nova civilização, seja pra ajudar alguém, se for extremamente necessário.

E com as garras só de osso eu posso menos, mas ainda assim, tenho vantagem sobre qualquer humano mediano, porque sem o peso do adamantium, me sinto mais ágil do que nunca! E, aquela sensação de fundo, uma espécie de intoxicação causada pelo metal, sumiu. Com isso, aquela raiva constante deu trégua, como se eu a tivesse por viver sempre inflamado, sei lá!

Tô nessa área da floresta há duas semanas, construí uma plataforma sobre uma árvore alta e daqui consigo ver as suçuaranas caçando pequenos veados, e as onças ficando com os jacarés, javalis e capivaras.

Uma beleza como elas caçam, sempre fazendo uma seleção natural precisa, extirpando os doentes ou mais velhos, melhorando a genética das populações. Esses grandes felinos, topo de cadeia, pensam como eu.

Tô sempre perto de um rio, uso pra caçar, pra me lavar e como rota segura de fuga, caso apareça algum perseguidor ou curioso. Igual as onças.

Retomei o gosto pela carne crua, confesso, agora ela desce muito melhor, apesar da saudade de uma carne grelhada e bem temperada, mas crua ela parece até mais nutritiva, e a quantidade de frutos existentes na floresta tropical é algo incrível!

As florestas do Norte não têm tanta diversidade e beleza, mas também não têm tantos insetos, formigas e aranhas, prontos pra acabar com sua pele se cruzarem seu caminho. Todo lugar aqui emana vida e, algumas delas, podem ser bem traiçoeiras. A grande maioria só quer viver, não importuna se a gente não mexe com elas. Eu fico sempre ligado na minoria.

Logo que acordei e tive consciência de mim, percebi que não tava em Krakoa, quando tentei voltar pra lá, soube que as ilhas não existiam mais.

Arranjei um barco. Tá certo, furtei um de algum humano numa noite de lua cheia e fui até onde a ilha deveria estar. Se a ilha morreu, porque era um mutante, o que aconteceu com tudo que tinha, físico, em cima dela? Testei pra ver se ainda conseguia caminhar sob as águas, se meu fator de cura conseguia superar o afogamento e, ao ver que sim, nadei até onde pude, porque a pressão agora podia esmagar meu crânio sem o adamantium e consegui coletar alguns itens de Krakoa: um kit de primeiros socorros, uma roupa de treino com nanotecnologia e, quando tava pra ir embora, como que me chamando, vi um brilho avermelhado peculiar, fui até lá e, com surpresa, recolhi a Muramasa, uma katana, a única arma que, quando eu tinha adamantium, era capaz de me matar, tipo minha kriptonita. Imagina agora? Juro que pintou a dúvida sobre deixar ela no fundo do oceano, ou levar comigo, mas eu sou saudoso pra algumas coisas...

Esse uniforme de treino é todo tecnologia, cê coloca no pulso, como um relógio e ele te reconhece, criando uma roupa sob medida, te protegendo de curtas quedas, arranhões, picadas, além de manter sempre a temperatura corporal. Nunca precisa ser lavada e se alimenta de energia solar, algo que os trópicos têm de sobra.

Claro, ele ainda tá configurado pra um Wolverine com adamantium, mas eu não preciso mais lutar contra nada parecido para o que ele foi criado e, com isso, espero aumentar a duração dele, porque apesar de viver na selva, tenho me cuidado, cuidado do visual, afinal, o exterior e o interior fazem parte do Bushidô.

E a coisa mais fácil do mundo é se largar, aproveitar o fato de tá na selva e esquecer quem a gente é. Mas eu não sou um animal, apesar de tudo que os outros fizeram e disseram quando implantaram aquele metal em mim...

Quando inicia um dia, eu vou pro rio próximo, desativo o uniforme e tomo um bom banho, usando os frutos da árvore-do-sabão quase me sinto numa Jacuzzi. Aprendi isso bisbilhotando uns nativos, eles sabem usar os recursos naturais, sem abusar e sem monopolizar.

Claro, nem tudo são flores, eles também lutam com outras tribos, matam e roubam, mas isso não ocupa muito do seu tempo, a ganância deles é logo saciada, não é como a dos ricos, que conquistaram o espaço, mas isso ainda é pouco pra eles... credo!

Naquele kit de primeiros socorros veio uma bela lâmina, com corte sem fim que eu uso pra manter os cabelos e a barba. A água fria do rio reabastece minhas energias, me revigora para começar mais um dia.

Treino um pouco com a katana, faço exercícios físicos e, depois, aposto corrida comigo mesmo. Vou atrás de caçar algo para comer e depois medito um pouco sobre a plataforma feita na árvore, aprendo um pouco com a natureza e, quando vou ver, já tá na hora de buscar comida novamente.

Adoro os frutos daqui, durante todo ano consigo algum, disputo com alguns macacos os mais doces e, algumas vezes, levo a pior! Afinal, eles tão em grupo e eu sozinho... Esses momentos são o ápice do meu dia, porque interagir com eles me traz o senso de humanidade, me faz ver o quanto eu sô diferente deles e, ainda assim, o quanto nos parecemos em tantos outros aspectos.

Como interajo com algumas aldeias próximas, tô ligado que, numa delas, o pajé sabe da minha existência e até facilita minha vida, deixando umas revistas e jornais do lado de fora da oca dele, um convite. Quando eu tô inspirado, deixo uns frutos de biribá ou de pajurá no lugar do que pego. Sempre vejo qual é a árvore mais distante da aldeia, porque isso vai depender de onde eles - e eu, passamos aquela estação.

Já peguei esse pajé olhando pra minha direção, no meio da mata, quase nos olhos, captando minha energia, como eu captei a dele. Na hora, lembrei do Teleporter, a gente tinha essa troca de energia sempre que se via. Fiquei imóvel, prendi a respiração, fechei os olhos e acalmei minha mente, tentei mesclar minha energia com a da natureza e funcionou. Alguns minutos depois, ele entrou, mas eu juraria ter visto um sorriso maroto nos lábios dele, igual ao do australiano que parecia tudo saber.

Como minha audição é extraordinária, até mutante, acabei ouvindo algumas lendas e histórias das populações locais; posso garantir a autenticidade de algumas delas.

Durante o entardecer, a quantidade de morcegos é incrível, já os vi comer insetos, frutos, outros morcegos, ratos e, posso jurar, de garras juntas, ter visto um saci montando um desses numa noite! Eu notei um volume incomum em cima de um deles e pensei ser um filhote com gosto duvidoso, mas vi o gorrinho vermelho e a falta de uma perna, eu juro!

Mas esse não é o único encontro com as lendas da floresta. Um tempo atrás, o dia tinha sido particularmente cheio, eu precisei mudar de lugar porque fui descoberto pelas raras tropas do exército brasileiro que aparecem pela selva. Não fui pego de surpresa, mas enquanto eles destruíam o acampamento, eu percebi meu vacilo por ter deixado a Muramasa nele, tive que ir atrás pra recuperar, sem ser visto.

Os rapazes são bons, têm bom instinto e isso é muito necessário pras atividades na selva, mas eu aprendi um ou dois truques com os macacos e, quando suspeitavam estar sendo seguidos, eu os despistava parecendo um primata. Esperei a noite cair no acampamento deles e daí foi fácil recuperar a espada, de dentro da cabana do coronel. Se ele tivesse deixado com algum dos soldados, poderia ter sido mais difícil, mas a patente sobe à cabeça e ele dormia de roncar. Se desconfiar de alguém da tropa, bem feito por terem destruído meu lugar!

Caminhei o restante da madrugada e o começo da manhã, estava há mais de 24h sem dormir mas queria ir o mais longe e dentro da mata possível, pra dificultar novas incursões. Foi o mais longe da civilização que já fui por esses lados. A mata fechada, sem nenhum odor de humano, dava receio na gente, como se estivesse invadindo um lugar sagrado.

Não via nenhum animal, apesar de sentir seus cheiros, como eles não conhecem os humanos, fogem a distâncias gigantes da gente. Ia precisar me esforçar mais para caçar ali. Mas eu queria mesmo era dormir, mesmo sendo dia, as copas das árvores não deixavam o sol chegar, eu nunca senti tantos cheiros diferentes de fungos e mofos na minha vida. O chão da floresta era fofo, de tanto material em decomposição. Apurei meus sentidos e uma brisa me indicou uma temperatura ainda mais fresca, devia ter algum riacho por ali, agachei um tempo, esperei outra confirmação, mas nada de som, só os termorreceptores tavam captando algo diferente.

E eu não costumo abrir mão dos meus instintos. Caminhei por alguns quilômetros antes de começar a ouvir o som da água, bem baixo, notei as plantas mudando antes de ver aquele lindo grotão, eu tava quase respirando água de tão úmido que o ambiente ficou!

Várias bromélias, samambaias e outras plantas que curtem água estavam por todo o ambiente. Respirei aliviado e maravilhado, eu devia ser o primeiro humanoide a mergulhar naquela lagoa. Desativei meu uniforme, peguei a Muramasa e a levei até debaixo da queda d'água, dentro da sua saya (bainha), que lugar paradisíaco! Ia ficar ali por um tempo.

Depois do banho, me desloquei um pouco do grotão e subi numa das árvores, fazendo a minha plataforma mais escondida dessa vez, peguei uns cipós, trancei uma rede improvisada e peguei no sono, relaxado que estava daquele banho renovador.

Acordei com a corrida desembestada de vários caititus abaixo de mim, no solo da floresta, eles são quase tão corajosos quanto os carcajus do Norte, se tavam fugindo é porque a coisa era grande! Fiquei preparado pra ver a maior onça da minha vida, mas a surpresa foi maior! Já era noite e vi uma mulinha preta, sem cabeça, com crina, rabo e cabeça de fogo, correndo atrás dos porcos e pisoteando os mais atrasados! Nem nas minhas mais loucas aventuras com os X-Men eu vi coisa parecida! E, mesmo sem cabeça, dava pra ouvir algo parecido com um choro, misturado com relincho quando ela continuou a correr atrás deles. Que viagem...

Depois dessa passagem, a floresta não emanava um som, não se ouvia um pio, apesar de eu sentir muitos cheiros, a maioria de medo.

Lembro dalgum pajé contar ser a mula sem cabeça uma mulher amaldiçoada, mas é difícil imaginar algum humano por essas bandas, então não testei pra ver se furando ela com minhas garras, ela voltava a ser humana. Melhor deixar a natureza correr seu curso nesses casos, né?

Eu fiquei feliz de ver os caititus, pensando no sabor da carne deles, assadinha numa brasa. Minha boca encheu d'água e meu estômago roncou me lembrando há quanto eu não me alimentava!

Esperei os sons da floresta voltarem devagar pra descer do meu refúgio e ir atrás de comida. Apesar do silêncio, não havia sinal da carcaça dos caititus pisoteados e, como caçar qualquer coisa ia demorar demais, fui atrás de alguma palmeira pra comer os coquinhos. Me saciei, completei com uns ovos encontrados no chão da floresta e subi de novo, dormindo até amanhecer.

Fiz meus rituais matinais, bebi água coletada do sereno e fui deixar a plataforma e a rede mais firmes para as próximas semanas, treinei, meditei, comi e fiz uma armadilha pra caititu, eu não ia sair dali sem aproveitar essa chance.

Fui pra lagoa, desativei o uniforme e dei uns mergulhos, antes de usar a fruta-sabão pra me limpar mesmo. Mas antes de começar a me ensaboar, senti estar sendo observado. Submergi e fui pra baixo da queda d'água, onde tinha deixado a Muramasa, mas ela não tava mais lá...

Sinceramente, fiquei em paz com tudo, se era minha hora, que fosse... Não podia fazer mais nada, né? E tava de saco cheio mesmo de viver! Eu só queria ter comido aquele porquinho antes... Mah!

Voltei pro meio da lagoa, sem tocar o fundo com os pés, fiquei só aguardando. Foi quando um jorro de água apareceu na minha frente, com a Muramasa dentro dele, bem sossegado, me observando. Nadei um pouco pra trás e ele veio pra frente, deslocando a katana pra lateral, enquanto assumia uma forma humana, feminina, na verdade.

Demorou pouco tempo pra eu ter diante dos olhos a nativa mais linda que já vi! Em carne e osso!

Seus cabelos lisos, pretos e fartos caíam em seu dorso, cobrindo parcialmente seus seios nus; seus lábios pareciam talhados à mão, frutos de jambo, vermelhos.

Eu abri a boca de admiração e ela sorriu, dentes brancos, caninos encavalados, franzindo a lateral do seu nariz, lembrando muito a Jean quando ria.

Quando pensei nisso, notei o quanto os olhos dela eram uma mistura da cor dos olhos da Arnaaluk com o formato dos olhos da Mariko e seus cabelos eram os da Raposa Prateada. Aquilo, seja lá o que fosse, tinha entrado na minha mente e feito uma mescla com meus maiores amores!

Quando fui tocar sua pele, ela nadou para trás, com um sorriso maroto nos lábios, esticou a Muramasa pra mim e me instigou a ir pegar.

Eu sorri aberto, mostrando todos os dentes, peguei ar e mergulhei rapidamente. Notei que ela tinha assumido todo o corpo de uma mulher, batendo as pernas para se manter na superfície.

Surgi atrás dela e assobiei lenta e tranquilamente, mas ela virou rápido, me desarmando com um jato forte de água na cara, mergulhando em seguida, enquanto ria e sua risada ecoava em toda lagoa. Desci lentamente, tentando encontrar aquela deidade, mas não consegui... Ela tava misturada com a lagoa, água de novo, que pena...

Sai do grotão, depois de alguns minutos, esperando ela aparecer, mas não veio; não naquele dia. Resolvi fazer outras armadilhas, para pássaros mesmo e fui checar aquela pros caititus, nada ainda. Cruzei com mais um ninho na volta e, dessa vez, resolvi não ser o predador.

A Muramasa era a substituta ideal das minhas garras de adamantium. Com minha habilidade, conseguia cortar facilmente troncos em pranchas de madeira e isso me dava muitas possibilidades. No início, fazia paredes em minhas plataformas, mas depois descobri que o clima no Sul não tem nada a ver com o do hemisfério Norte.

Aqui, eu podia dormir praticamente todas as noites sem frio algum. Em algumas estações, era necessário cobrir pela quantidade de chuvas, mas o calor estava sempre presente. Por isso buscava sempre ficar próximo de corpos d'água, como já expliquei.

O restante do dia passou sem novidades, também, qual novidade podia ser mais impactante do que encontrar algo parecido com a Iara naquela lagoa do grotão?!

A noite caiu e eu subi na plataforma, cruzei os braços sob a cabeça e, numa minúscula fenda entre as árvores, consegui ver que era lua cheia. Talvez isso explicasse a quantidade de curiosidades vistas, independente disso, a lua tava muito linda e me fez ter uma noite de sonhos deliciosos.

Não segui minha rotina na manhã seguinte, estava com muita fome de carne e, por isso, fui ver minhas armadilhas. Tive sorte com as aves, peguei duas de tamanho razoável, mas nada dos porquinhos-do-mato!

Eu não gostava de fazer fogo, isso denunciava minha localização, por isso, caminhava muito antes de escolher um lugar para preparar algumas iguarias, dessa vez, fui quase perto de onde a tropa militar me encontrou.

Preparei minhas presas e as comi sem pressa. Na volta, fui coletando algumas frutas de sobremesa e, como antes, sentia os odores de vários animais, mas não os via. Enquanto comia aquela espécie de jacamim fiquei pensando quanto trabalho teria pra pegar uma harpia e se a carne dela seria tão boa.

Já tinha cruzado alguns ninhos delas, visto algumas sobrevoando e, enquanto estava entre alguns macacos, até as vi caçar um deles; mas elas vivem noutra altitude, o trabalho compensaria o risco?

E minha mente me chama pra realidade: "Qual risco, Logan?! Tu pode cair dos 40 metros do maú onde tá o ninho dela, e, apesar de doer pacas, precisar se recuperar por uns momentos, antes de 24h tu taria pronto pra outra"... Merde!!

Taí, vou fazer um planejamento pra um dia desses, começar a experimentar todos os sabores exóticos dessa floresta, num outro dia, provar uma suçuarana e, quem sabe, até a tal da mula-sem-cabeça?!

Rio alto das minhas ideias e da preocupação constante em me alimentar, mas biologicamente, isso tem explicação: sem o adamantium, com o fator de cura 100%, tô sempre com fome, sempre precisando repor meu metabolismo super acelerado, mesmo quando as atividades não são tão extenuantes assim.

A gente, quando tá na civilização, não tem ideia de como é não depender dos outros, precisar ir atrás de água e alimento, sem as facilidades de girar uma torneira e tomar um banho quente. Sabe, eu quase não sei mais o que é isso? Os banhos aqui são todos frios...

Retornei pro grotão já era tarde, mas ainda tinha tempo de tirar o suor do corpo e, quem sabe, encontrar com aquele ser novamente. Não vou esconder, a imagem dela tomou conta da minha mente desde quando a vi, mas aí me toquei, a imagem dela sempre teve na minha mente, de forma separada. Eu adorei muito a mescla dela...

Deixei a espada em cima da árvore, entrei na água com o uniforme ativado, assim, apesar de molhado, mantinha minha temperatura corpórea, a coisa mais próxima de um banho quente.

Não demorou muito pra ela aparecer, talvez tivesse ficado o dia pensando em mim também, quem sabe? Molhou minha nuca com um jatinho suave de água e quando me virei, se jogou sobre mim, submergindo nós dois.

Se a ideia dela era me matar afogado, depois de alguns minutos me beijando, tirando meu fôlego, foi engraçado ver o modo surpreso dela quando continuei vivo, debaixo d'água, ela sorriu, alegre e fez menção sobre a cor do meu uniforme, quando o desativei e fiquei só com o relógio no pulso, foi a vez dela abrir a boca de admiração, ou pela façanha do uniforme desaparecer, ou pelo meu físico, não sei e não me interessei na hora.

Peguei impulso com a perna e subi pra superfície, senti ela subindo bem devagar, desde meus pés, pele na pele e entendi do que ela tava a fim. Atraquei nela e passamos assim o resto da tarde, como ela tinha acesso à minha mente, de vez em quando soltava um "Logan" desejoso, foi muito bom ouvir meu nome depois de tantos anos! Espero ter conseguido transmitir pra ela o quanto isso me deixou feliz, porque eu tava ali pra dar prazer pra ela.

Não saímos da água até ela suspirar e desaparecer durante um beijo. Fiquei uns momentos ainda ali, não tendo certeza se tava no céu, se tinha morrido, ou se aquilo realmente aconteceu, mas eu nunca tive nenhum problema com a realidade. Meu cérebro se regenera, né?

Então, tirando a época do experimento X, quando implantaram aquelas memórias falsas em mim, mas com a ajuda do Charlie e do próprio programa Arma X, eu superei, desde então, tudo que vivo é real. Eu sou o dono das minhas sensações e experiências.

Muito bom!

A de agora ia entrar pras dez mais... Caracas!

Caminhei, como se tivesse nas nuvens, até a árvore onde tava a plataforma e, nessa hora, ouvi um gritinho de porco, vindo da direção da minha armadilha. Será? O cara lá de cima ia deixar de ser sádico? Jurei nunca mais o chamar assim se um caititu estivesse na cova.

Não ia dar pra comer cozido agora, mas eu ia guardar uma parte pra amanhã, com certeza!

E, como não costumo quebrar meus juramentos, daqui pra frente não chamo mais o cara de sádico.

Uso a Muramasa pra dar uma morte rápida ao porquinho, limpo o bichinho, deixo algumas partes pros animais da floresta e, depois de comer um pouquinho, ainda quente, levo uma parte para saciar minha vontade amanhã.

Pra não correr o risco de encontrar com os milicos, eu ia pro lado oposto ao de hoje. Tenho quase certeza de ter visto uma gruta numa das minhas explorações praqueles lados. Muito melhor pra esconder a fogueira.

Escalo a árvore, prendo a peça de carne com um cipó a uma distância segura de mim, caso alguma onça resolva reclamar meu prêmio.

Me acomodo, de novo, com os braços cruzados sob a cabeça e, alguns minutos depois, sinto um cheiro conhecido enquanto ouço algo parecido com água vindo em minha direção. Vejo, em seguida, a transmutação da água em mulher. Faço menção de me levantar, mas ela pede pra eu ficar deitado e vem até mim, deitando a cabeça no meu antebraço, enquanto sua mão brincava com a minha barba, me fazendo cócegas.

Mesmo ela sendo um ser, sei lá, um elemental, imortal, assim como eu, fiquei aliviado de o Dentes-de-Sabre estar morto e enterrado, assim como todos os meus outros inimigos, pra não pensarem em tentar acabar com ela pra me atingir.

Como eu falei, tirando meu nome, não tinha ouvido ela dizer mais nada, até agora.

Ela colocou a mão no meu coração, uma sensação diferente de tudo me invadiu e ela pronunciou "saudade".

Essa palavra em português eu já conhecia e, com certeza, tinha muitas saudades do passado, das pessoas que conheci, mas, convenhamos, nenhum deles viveria tanto como eu, em circunstâncias normais.

A loucura do Charles tava nisso, manter todos os mutantes imortais, os humanos não aceitaram essa condição pra nos deixar em paz.

Soltei um suspiro, como se a ação dela no meu peito tivesse retirado todo peso. Notei uma tristeza nos seus olhos e, pra mostrar que estava bem, segurei sua mão delicadamente e sorri aberto pela segunda vez, mostrando meus caninos.

Algumas diziam que mais parecia uma careta, mas esse sempre foi meu mais legítimo sorriso e, trazendo a mão dela até meu rosto, a beijei.

Ela entendeu o recado, foi o suficiente para passarmos o restante das horas, até quase o dia raiar, trocando carícias.

Dormi com ela nos meus braços, mas acordei sozinho, uma flor parecida com uma vitória régia tava ali, ela precisava de água pra viver, então a levei até a lagoa e a deixei lá.

Hoje seria o dia de preparar aquele caititu! Assado numa brasa, com algumas folhas aromáticas recolhidas pelo caminho.

Não tava errado, há milhas de distância do grotão tinha uma gruta, não ia conseguir voltar a tempo pro meu acampamento, então resolvi ficar por ali mesmo.

Fazendo um retrospecto ainda maior da minha vida, eu só me lembro de uma calmaria dessas quando tive com a Rose na pedreira e, depois disso, com a Arnaaluk, mas aqueles momentos pareciam fadados ao fracasso, enquanto este tinha tanto potencial de se manter pela eternidade...

Essa sensação era esquisita, eu sempre achei que devia pagar pelas mortes que causei e, se for ver, acabei pagando mesmo, com a morte de todos os mutantes, dos meus amores, dos meus inimigos, enfim, toda uma raça.

Então, a gente tava quites?

Por isso o cara lá de cima está com atitudes complacentes comigo?

Relembrei algumas frases do Kurt, o Noturno. Segundo ele, Deus é só Amor, mas com Justiça. Infelizmente, uma Justiça ainda - como criações suas, não compreendida.

Se a gente não entende algo, então não pode avaliar, só aceitar. E era essa aceitação do Kurt , quase nada de ódio contra os humanos quando o viam como um demônio.

Ele foi uma das pessoas mais incríveis que conheci, ficava orgulhoso quando me chamava de "freund" (amigo). Porque era um meio de saber da aceitação de Deus, como eu era.

Kurt sempre me incitou a viver no presente, fazendo melhor do que ontem e afiando minha moral pra cada vez conseguir realizar mais. Passei essa técnica pra todos os meus alunos, pra Kitty, pra Jubilee, pro Quentin e todos os que passaram pelo meu treinamento e convívio.

Não é fácil. Ser um cara melhor que ontem demanda autoconhecimento e vontade, mas eu assumi que o Kurt tava certo na análise dele sobre os ensinos de Jesus e o entendimento de Deus e bebi nessa fonte, mesmo, como eu já falei, tendo toda aquela raiva, todo aquele ódio, dentro de mim...

À época, eu não entendia muito o motivo desses sentimentos ruins. Minhas meditações não me levavam a compreender porque, em momentos difíceis da minha vida, como a época com a Rose, eu tava mais tranquilo do que com toda aquela promessa de felicidade e paraíso em Krakoa. Agora eu entendo, tinha um agente externo complicando minha paz, o adamantium.

E, com essa compreensão, dormi muito bem dentro da gruta, sem receio de repetir qualquer coisa do meu passado, porque, afinal, ele passou!

De manhã, comi umas raízes parecidas com batata-doce deixadas sob a brasa e me aprontei pra voltar ao acampamento. Curiosamente, eu não tinha urgência de encontrar a Iara, porque entendia a natureza nômade dela, como a minha.

Durante o caminho, fui pensando sobre quando ela disse saudades. Estava dizendo do seu sentimento por mim e eu buguei? Fui tão egoísta quanto qualquer humanoide pode ser e indelicado, como só os machos conseguem?

Mas e a sensação daquele peso saindo do meu peito?

Sacudo minha cabeça, mandando esses pensamentos pra longe. como eu disse, viver no presente pode ser o maior desafio da vida de uma pessoa! E ficar com conjecturas não ia ajudar em nada...

Chego no grotão já na parte da tarde, arrumo a katana, algumas batatas e um pedacinho de carne no topo da árvore e me sento na beirada da lagoa, molhando meus pés e aproveitando a vista.

Apoio meus cotovelos no chão e olho pro céu azul, porque em volta do grotão não cresciam árvores e dava pra ver o céu. Sorri pequeno, fechei os olhos e pude sentir o uniforme absorvendo os raios do sol como quem se alimenta deles, carregando suas células fotoelétricas.

Quando totalmente carregado, ele deu um suave bipe e isso me fez abrir os olhos e voltar pra realidade. Não sei há quanto tempo ela tava me vigiando do meio do lago, com a vitória régia na mão, um sorriso real com aquelas ruguinhas do lado dos olhos. Não dava pra não sorrir de volta, mergulhei todo o corpo e fui ter com ela, sem me aproximar, deixando a liberdade dela vir quando quisesse.

- Logan, obrigada. - ela soltou, me forçando a soltar um "de nada, gatinha", enquanto ela se transformava numa coluna de água, envolvia a flor, rumando na direção da queda e desaparecendo sabe-se lá onde!

De alguma maneira, nossa troca de energias amorosas tinha sido útil pra ela, aquela não parecia uma simples flor e, como a lua cheia tinha começado a minguar, prometi pra mim mesmo esperar a próxima, pra ver se ela aparecia de novo.

Apesar de eu fazer minha rotina, nada na floresta é rotineiro, continuei sem sentir odor de humanos, aquele grotão tava salvo e, com ele, uma parte das minhas lembranças, mas, se não era algum humano, quem tava destruindo minhas armadilhas de aves?

Tinha um cheiro único, uma mescla de madeira com terra e algum metal nobre... Armei tocaia depois de mesclar meu cheiro com o da floresta, saindo da lagoa e rolando na terra próxima.

Esperando assim, vi vários animais ariscos cruzarem meu caminho, não aguentei quando um veado-vermelho passou por mim, sem me ver!

Era um macho forte e saudável, ia dar um belo prato!

E, quando ia dar meu bote, um ser de cabelos vermelhos se interpôs entre nós, rosnando e o espantou!

Fiquei assustado!

Eu não fazia ideia ainda de quem ele era... Partindo pra cima de mim com um dente de onça nas mãos, me esqueci de tudo e, dando uma cambalhota pra trás, liberei as trincas com um *SNIKT*, rosnando de volta.

O ser parou, girou o pescoço, como os felinos fazem quando tão curiosos e, depois de me analisar mais um pouco, guardou o dente e desapareceu na mata.

*SNAKT* é o som de quando guardo as garras e agradeço por não precisar usá-las naquilo. Ele emanava tanta nobreza, tanta compreensão, eu não queria machucar, só me defender.

Enquanto me analisava, entendi porque ele se interpôs entre mim e a caça, ele tava saudável demais pra ser comido, o modo como armei a emboscada foi desleal, assim como eram as armadilhas das aves.

Entendi o recado e parei de agir assim. Nunca mais encontrei essa criatura ruiva, curiosamente, com os pés pra trás, muito bizarro!

E, nessas peripécias, os dias passaram até a próxima lua cheia.

Eu percebi o quanto tava pensando na guria quando acordei cantando no dia esperado. Estava numa alucinação que parei antes de descer do acampamento e meditei até sentir minhas energias normais de novo. Não queria espantar aquela deusa, caso ela viesse.

Comi uns frutinhos de desjejum e mergulhei com tudo na lagoa, dando umas boas braçadas de um lado a outro, várias vezes, primeiro de crown e depois de borboleta, para me cansar mesmo.

Numa das subidas do nado ouvi umas risadinhas conhecidas, parei na hora e olhei na direção da beirada, ela tava sentada, com os pés na água, cabelo trançado pra um dos lados, com várias flores presas nele, flores minhas conhecidas, mas do hemisfério Norte, quanta delicadeza dela me surpreender assim.

- Achou graça do meu nado, foi? - perguntei, sem esperar resposta.

Ela riu novamente, peguei um pouco de água e joguei nela. Eu tava tão feliz, parecia um menino!

Mesmo mergulhando na lagoa, quando ela emergiu, as flores estavam inteiras ornando seu cabelo preto brilhante. Brincamos por várias horas de nadar, disputando algumas vezes.

Ela sempre ganhava, numa das vezes eu vi porque: era como se ela se materializasse onde queria, entrava mulher, desaparecia e aparecia na chegada, ela precisava de uma lição, mas eu não conseguia falar com ela, então parei de mergulhar, fiz cara séria e pensei no meu encontro com o ser ruivo, querendo passar pra ela a ideia do quanto tava sendo desleal.

Ela virou a cabeça igual ele fez, analisando minhas lembranças, notei quando ela foi mais para trás nelas, recebi uma pontada quando ela se chocou ao ver o ataque dos humanos, depois disso, soltou um "Logan" tão baixo e sofrido. Eu nunca fui de aceitar a piedade alheia, não ia começar agora!

- Ei, ei! Tô bem! - falei zangado, com a voz firme e o cenho franzido.

Ela fez beicinho, pôs a mão na altura do coração e, num piscar de olhos, tava na minha frente, enlaçando minhas mãos, pegou uma delas e passou a mãozinha sobre meu antebraço, sabendo sobre as garras escondidas.

Nadei, me afastando levemente e mostrei uma das trincas. Sangue pingou na água quando elas saíram, a guria levou as mãos à boca, escondendo um gritinho. Guardei as garras e ela nadou até mim, passando a mão onde devia ter uma cicatriz, mas a pele já estava normal.

Enlaçou nossas mãos de novo e me beijou tranquilamente, sem nenhuma urgência.

Sabe, a população humana podia ser de 10 bilhões, mas naquele momento, só nós dois importávamos. Pelo beijo dela, eu tive certeza da possibilidade da paz em meu coração, daqui pra frente.

Porque, de alguma forma, a Natureza me protegeria, tanto quanto eu faria por ela.

O cara lá de cima não tinha mais porque aplicar sua Justiça sobre mim e, então, só sobraria o Amor.

17 Février 2024 12:51 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Liura Sanchez Lauri Gosto do universo dos quadrinhos. Em especial aquele onde está inserido o Wolverine. Apesar de ter gostado de alguns filmes, os quadrinhos são mais ;)

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Wolverine
Wolverine

Neste Universo estarão as fanfics relacionadas ao James "Logan" Howlett, algumas delas ambientadas em nosso universo, outras no universo da Marvel, outras, ainda, em universos (in)existentes. Importante é que se você estava esperando por histórias deste mutante, este é o local :) En savoir plus Wolverine.