l-b-goularte Luana Borges

O que reina quando a luz apaga? Porque temos medo, quando tudo está escuro? É apenas nossa imaginação? Ou realmente há algo? O medo do desconhecido é grande, às vezes pensamos que somos bobos por acreditar em histórias de terror, mas será que não tem uma verdade para a fonte desse medo, quase infantil? Ouvir dizer, que nessas palavras quem conta é o escuro em sua forma mais real... *Aviso: Autor não compactua com as falas ou ações do narrador, e também não as considera certas*


Histoire courte Interdit aux moins de 18 ans.

#conto #terror #morte #demônio #assassinato
Histoire courte
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Capítulo Único

*Aviso: Conteúdo de terror. O assunto abordado não é incentivado pela autora, é ficção e nenhum dos fatos representa a opinião verdadeira*



Visconses, 2005.


Cidade pequena, lembro-me da primeira vez que estive aqui, era 1979… Satan naquela época era mais divertido, atualmente é tudo mais curto e monótono, o cheiro do campo de rosas da entrada da cidade não mudou, as ruas ainda são mal iluminadas, o céu ainda parece tranquilo, o vento forte ainda balança as árvores cheias das ruas de pedra.


Foco! Estou aqui a serviço, pelas informações passadas, devia impregnar uma família desestruturada com os odores da morte, a residência dos sortudos é na parte pobre da cidade, a missão esclarece que apenas o marido é para ser morto, que enfadonho! Como disse, o soberano não anda mais sendo burlesco, mas sou apenas um subordinado… um mero demônio do escuro, não posso fazer muito.


Ou será que posso? Deixa de aspirar revoltas! Volto a caminhar pelos espaços escuros, é estimulante andar com a minha forma natural… encostar até onde o escuro pode tocar, sentir-se grande e imponente, desde a chacina de 1998 não tornava-me tão grande entre as ruas, a sensação de poder é tão relaxante, manter um corpo humano é vergonhoso e limitante, entre as trevas posso transfigurar-me como quiser.


A beira da casa era feia, tão morta e sem vida… o jardim era bem mal cuidado, era possível ver o lixo e as folhas secas, porque será que mandaram-me aqui? Aproximando meu ouvido das paredes da casa simples, pude escutar perfeitamente uma briga.


"Você bebeu de novo?!"


"NÃO ME ENCHE O SACO! VAI CUIDAR DA CASA… ISSO TÁ UMA IMUNDÍCIE"


"Você não tem jeito, né. Eu disse que não aguentava mais isso, eu vou embora!"


O clima estava denso, pesado e carregado, podia sentir as manchas escuras fluindo por eles, os pensamentos raivosos e pedidos mudos de morte um sobre o outro, com tanta amargura… porque continuam juntos?


"Ai que frio…"


Retirando a atenção da briga crescente, a porta da casa chegou uma pecinha daquele circo, com os cabelos volumosos e lentes grossas, uma jovem de aparência de uns quinze anos bateu a porta. É a filha do casal, por isso ainda estão juntos.


"Tô indo filha!"


A mãe abriu suave a porta e sorriu escondendo todo o desgosto, uma conversa rápida foi feita, e a jovem logo foi ao quarto, sem comer ou demonstrar alguma reação ao clima pesado. Consegui ler essa casa, um casal em ruínas e uma filha fechada, essa família está em cacos, uma perfeita oportunidade para afundá-la de vez, não me leve a mal, oras, eu sou um demônio e isso que nós fazemos.


Amanhã, acho que consigo finalizar o trabalho. Por hora, entrarei pelas brechas escuras e serei vigilante desse espetáculo, preciso do momento perfeito…


.

.

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Uma semana…


Ouvi uma informação interessante, amanhã é aniversário do marido… fiquei observando a família por esses dias e descobri, é um trabalho rápido, mas posso deixar as minhas marcas, deixar minhas assinaturas bordadas nessas finas telas de vida, amanhã terá até um clima favorável para tudo acontecer. Vou organizando as minhas ideias enquanto observo a família unida à frente da televisão.


Sinto um cheiro hipócrita no ar, além da semelhança de mortos e vazios sobre o sofá, parecem nem carregar mais a alma, pude entender os comportamentos desses três…


A Esposa, é uma mulher com seus devaneios, curta e grossas nas ações, sonhava com futuros grandes na infância e hoje beijas as frustrações e bebe amarguras na cafe da tarde, amante da fofoca e língua afiada, não há quem nesse bairro que escapa de suas palavras raivosas e projeções desvirtuadas, espelha seus desejos na filha… então já temos uma visão de um relacionamento materno conturbado.


Falando na Filha, a menina de cabelos enrolados, adoslecente com traumas, com uma vida triste e sem emoções, estuda pela manhã, a tarde estuda novamente e a noite chora em silêncio, é algo quase angustiante, perceber que os jovens de hoje não vivem romances ou descobertas extravagantes, permanecem na pressão e correntes de deveres.


O futuro defunto é um ser asqueroso, e pasmem, eu sou um demônio do escuro… Já fiz muitas coisas divertidas que para vocês, humanos, são coisas inaceitáveis. Mas este senhor, é desprezível, casou-se cedo por obrigação e desde de lá derrama as mágoas no álcool, ele gosta da bebida pura e forte, daquele que desce e rasga a garganta com a ardência, as ações desse quase morto me surpreendem em apenas uma coisa, ninguém tentou pará-lo, nenhuma vez que gritou em lugares públicos, xingou e humilhou a família, houve sequer uma figura heroína.


Resumindo, é o retrato da discórdia e caos, poderia até ser um espetáculo…


“A vida na terra”


Explicaria bem os humanos.


Já na casa da meia noite, a família se deitou… é interessante observar o sono humano, as expressões se suavizam, parece que a dor por um momento escapa do corpo, eles ficam expostos e se tornam pedras, poderia matar todos… neste momento.


Poderia fazer de mim uma corda e enforcar lentamente, cada um, retirando a única coisa que os mantém vivo, e observar as feições no escuro enquanto suas almas se encaminham ao enxofre, ou poderia matar apenas um e colocar a culpa no outro, seria cômico de assistir uma cidade pequena se transformar em juízes. Tantas possibilidades, mas tenho apenas uma missão… que pena.


Os barulhos noturnos me relaxam e deixam minhas ideias flutuarem, lembro-me de 1979…


Sob a promessa de ser notado e temido, levantei-me. Agindo no escuro da noite levei cerca de quinze pessoas em assassinatos limpos, a minha marca já não está mais nessa cidade, na época ninguém andava pela noite e a prefeitura não permitia uma rua escura, havia policiais e medo, era chamado de “O enforcador” por minhas vítimas estarem sempre em cordas e penduradas… Além do recado escrito a sangue, bons tempos, para mim é claro.


Amanhã será um grande dia.


.

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Às 6h da manhã, tudo começou a se movimentar, era sábado e aniversário do defunto, parece que mais uma atividade humana vai ser feita, uma festa surpresa, que sem sentido, está tudo em ruínas, irão festejar o quê exatamente? Os cacos de uma família? Que coisa supérflua! Isso me deixa irritado, os humanos são estranhos.


Após o café da manhã e a casa arrumada, começou as preparações…


A mais velha, tratou de fazer um bolo simples com cobertura enquanto dava ordens a filha, a menina começou a ajeitar a espécie de lanches e uma decoração, o tema seria peixes e o mar que o marido sempre teve vontade de conhecer, pena que elas não sabem que mais tarde vai cair um temporal e grande homem dessa casa, vai se atrasar um pouquinho para chegar.


Olhando essa tentativa de festa, imagino porque fui mandado para levar alguém, demônios recebem missões quando o chefe tem total liberdade sobre aquela alma, então a levamos para a pessoa visitar o inferno e começar sua estadia, é um esforço notável que essas duas estão fazendo nessa festa de aniversário. Parece que mesmo no meio desse desastre, há resquícios de amor e cuidado, mesmo nesse ambiente morto e cinza, há pingos de sentimentos… patético.


Após horas, a mesa está montada, com um forro azul desbotado, peixes de papel grudados com fita, um bolo de trigo com cobertura de chocolate e alguns sanduíches de lanche, também havia uma jarra de suco na geladeira, nenhum vizinho foi convidado, não me admira, quem ia querer ir na casa de um bêbado? As duas resolveram se arrumar e esperar a chegada do aniversariante.


Lá fora, o céu estava fechado, as nuvens pesadas e cinzas faziam do céu um só, alguns raios começaram a aparecer e os primeiros pingos de chuva batiam no chão com agressividade, escureceu e está na minha hora.


Aproveitando o horário de fim de tarde mais chuva densa, caminhei pelas ruas... Os raios fortes fizeram a energia cair, está impossível para humanos saírem nessa tempestade. Vou esperar por ele no beco perto de seu trabalho, ele era um mecânico numa loja de auto peças.


Finalmente.


Pude sentir o cheiro do homem...


O barulho dos passos se aproximando...


Os resmungos baixos...


No momento certo que ele passou pelo beco escuro e fedido, o puxei para dentro, fiz da minha forma um humano e os dedos em tentáculos fortes, o prendi pela garganta. Entre os berros contidos soltei uma risada fina e perguntei ao homem.


— Porque merece viver? — retirei o aperto da garganta e segurei firme o corpo do futuro defunto.


— Eu tenho família e ...


— Resposta errada — não permite que finaliza-se a frase, perfurei sua garganta com um dos tentáculos e senti o cheiro de sangue e a carne sendo dilacerada, após o golpe, rodeei seu pescoço aplicando força até ouvir o barulho dos ossos se partindo, aquele som baixo de estalo que causa desconforto.


Uma morte rápida.


Deixei o corpo em frente ao beco e encaminhei-me para a casa, senti a emoção por minhas veias e a sensação de vivo cresceu em meus espaços internos. Por instante quis mais carnificina. Rendido as minhas emoções de glória, formei um novo plano, ignorando os detalhes e informações da missão, prefiro seguir meus instintos e deixar minha marca, novamente, nessa cidade.


Sabe… é doloroso ignorar as vontades internas, deixar aflorar suas emoções é um ato de liberdade, talvez receba alguma penalidade por descumprir ordens, mas vale a pena, não é ótimo quebrar as regras? Os humanos vivem dizendo que regras foram feitas para serem quebradas, não é assim que funciona? Aliás, se nunca alguém ajudou aquela família… Ela não deve ser importante, não é?


Guiado por minhas escolhas, escorrego entre as ruas, posso sentir as pedras no chão e o vento após chuva, janelas fechadas e a rua solitária, dentro das casas posso sentir as emoções egoístas e as falas risonhas de acontecimentos bobos. A porta de casa, vejo a esposa do defunto ao telefone, as expressões duras carregavam uma preocupação podia sentir a angústia, medo e culpa, que hilário… semana passada queria se livrar do “encosto”.


Carregando um casaco, desceu as escadas de frente da residência, nem percebeu a minha presença, em passos rápidos e largos, ela quase corria na rua escura, parecia sentir um mundo, às lágrimas pareciam pesar na face, bom, vamos ver onde está a moça de cabelos enrolados. A casa está escura, posso sentir na sala uma alma tediosa e magoada falando ao telefone.


“Ele deve está só bêbado em algum lugar… Minha mãe que é exagerada”


Ela estava com os cabelos soltos jogados no braço do sofá, enquanto estava deitada e embrulhada, quase toda havia um dos pés do lado de fora, a TV estava ligada em alguma série policial, sua voz ao telefone carregava um sentimento de tanto faz, mas seu rosto transparecia uma tristeza pesada, em mais algumas palavras a conversa foi encerrada e ela guiou seus olhos a tela onde passava o programa, podia perceber algumas lágrimas escapando.


“Ele fez igual ano passado”


Sussurrou para si mesma tentando segurar o choro, quanto drama, não faz sentido, realmente, os humanos são estranhos. enquanto ela soltava suas lágrimas infantis, preparei minha forma para puxar seu pé que não estava dentro da coberta, assim fiz, com puxão ela caiu no chão e soltou um grito estridente de susto, ela olhava para os cantos em desespero, o cabelo se movimentava e o rosto espantada, deixava a cena bem gozada.


Em um reflexo anormal, a garota olhou para frente, para a ponta do sofá, sobre a luz da TV ela encarou meu rosto, parecia enxergar meus olhos e ver as formas animalescas dos meus espaços internos, sorri… não é todo dia que você é visto. Com os olhos arregalados, respiração presa, o coração agitado e cabeça tumultuada de coisas, ela gritou, alto, ensurdecedor e constante, antes de qualquer outra reação boba, as minhas formas transformadas em cordas, a agarraram pelo pescoço, pressionando e fechada a entrada de ar.


Como qualquer um, tentou lutar, quando o coração parou… os olhos continuavam arregalados, a alma foi se esvaindo do corpo, podia enxergar a recém vítima chegando no segundo plano e escutando a melodia contagiante de gritos e lamentações, carreguei o corpo vazio e puxei o forro azul da mesa de aniversário, o enrolei formando uma corda e amarrei em volta do pescoço da moça de cabelos enrolados, prendi o corpo na sala, parecia um bom lugar.


Com cuidado, cortei o corpo recém morto e retirei um pouco de sangue para escrever…


“O que tem no escuro?


Tatuei em uma das paredes da sala, uma linda pintura aos meus olhos. O telefone tocou, mas não havia ninguém para atender.


.

.

.


O som da porta da frente bateu, podia se escutar um choramingo. Ela caminhou para a cozinha com a face derrotada, começou a chamar pela filha.


“Ela dormiu na sala de novo vendo TV…”


A viúva carregando a dor de contar a notícia entrou na sala, e ela paralisou em choque, esperava uma reação mais divertida, mas ela se calou, olhou para a cena e sua voz sumiu, o coração pareceu se tornar mais lentos as batidas, e sua mente ficou apagada, não houve movimentos, ela apenas caiu de joelhos em uma pancada silenciosa no piso de madeira. E assim ela ficou, imovel.


A cena só se dissolveu no momento que entraram na casa, conhecidos assustados e policiais intrigados, retiraram a mãe que se calou e o corpo da menina, um mistério se assolou na cidade, virei notícia e tornei-me temido novamente. Em meio aos acontecimentos, recebi novas missões. Acabei impressionando o chefe.


No fim dessa jornada podemos entender que a tolice humana é alta, e que em qualquer momento, eu posso aparecer no escuro de sua casa, da sua rua e de qualquer espaço que me caiba, então respirem e aproveite, logo estarei contigo, querido leitor.


2 Novembre 2023 01:40 1 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Luana Borges Uma pessoa apaixonada por contos, microcontos e poesias que ama se aventurar pelas palavras. "Uma alma sem forma Pelo tempo se transforma"

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Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
November 05, 2023, 21:49
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