coldcherry Cold Cherry

Se fechasse os olhos, Kyungsoo conseguia imaginar seu destino. O céu azul coberto de nuvens brancas e macias, as montanhas verdes abraçando o vilarejo, os pássaros coloridos voando livres pelo ar. Tudo tão vibrante, tão vivo. Um cenário tão perfeito que parecia uma pintura em aquarela. Mas o Vale do Orvalho não era apenas uma fantasia. Ele sabia muito bem.


Fanfiction Groupes/Chanteurs Interdit aux moins de 18 ans.

#exo #baeksoo #magicau #stardewvalleyAU
0
639 VUES
En cours - Nouveau chapitre Tous les 15 jours
temps de lecture
AA Partager

A Carta

A carta selada chegou numa tarde nevada de fevereiro.

Kyungsoo estava deitado, fitando o teto da sala de estar do pequeno apartamento, a televisão desligada espelhando a posição toda torta dele em meio às almofadas. O homem tentava não pensar demais, enquanto as gotas cristalizadas despencavam do céu através da grande janela de vidro.

Nos últimos dias, tudo parecia ainda mais cinzento e frio, apesar da aproximação da primavera. De uma forma muito estranha, o humor refletia o clima lá fora. E agora, ele estava esgotado, soturno. A ‘fuga’ da última noite, com gosto forte de soju misturado com cerveja, conseguiu entorpecer qualquer célula do corpo magro com sucesso. O problema estava no resultado: o cheiro ainda desprendia da pele e era nauseante.

Muito deplorável.

Se alguém recortasse aquele momento, a cena seria digna de um dramalhão romântico pós-término. Mas Kyungsoo estava velho demais para aquele tipo de coisa, apesar da aparência enganar muito na idade. O romantismo era a última das prioridades na vida do homem de quase trinta anos. O problema era as contas que não paravam de chegar e o trabalho de merda, esgotante até a última centelha de energia, que já não existia mais.

A rotina de desempregado mal tinha começado, e ele já estava surtando. O conforto era maravilhoso quando havia certeza de como mantê-lo. E essa já não era mais uma opção disponível.

Kyungsoo conhecia muito bem os próprios defeitos, sabia que em algum momento, o pavio curto demais, escondido numa fachada muito serena, queimaria até o fim. Agora, o corpo dele boiava na parafina derretida, sem chama alguma para iluminar, totalmente envolto em frustração e raiva.

Desde o momento que escolheu a profissão, ele sempre esteve ciente que dentro de uma cozinha, as coisas seriam uma maratona sem fim. E ter a chance de trabalhar num lugar renomado, como a Kai’s era um sonho conquistado após muito suor, literalmente. Um lindo sonho que desabou diante dos próprios olhos.

Como aquele velho ditado já dizia: ‘Não se come a carne onde se ganha o pão’ . Pra variar, Kyungsoo não seguiu nada à risca. E também não só comeu a carne, mas sentou, quicou, rodopiou, fez o diabo.

Na primeira troca de olhares, Jongin, um dos chefes e sócio dentro do restaurante, já não parecia uma pessoa muito agradável.

O homem era bonitão, educado e super profissional no atendimento. Mas o cenário mudava completamente quando ele amarrava o maldito avental preto na cintura fina e adentrava a cozinha para inspecionar tudo. O humor era insuportável quando as coisas não saíam como ele queria, porque existia o perfeccionismo comum e socialmente aceito, e milhões de anos-luz depois, a impossibilidade de Kim Jongin.

Na semana inicial, Kyungsoo pensou que a chateação fosse uma espécie de teste de paciência pós-admissão.

Ele era o único novato ali, e apesar dos anos de experiência na área, não estava acostumado com aquele ambiente. E mesmo que as provas práticas tivessem garantido a vaga, o segundo chefe não pode supervisionar tudo pessoalmente. Então, Kyungsoo até tentou compreender a cisma dele, sobre nada parecer bom o suficiente.

Do aguentou Kim reclamar sobre temperos, cortes, empratamento e apresentação por muito tempo. Jongin parecia um papagaio sobre o ombro, repetindo o nome dele o tempo todo, como um maldito gravador, apontando erros inexistentes nas receitas. Para que tudo entrasse nos eixos, semanas de muita dor de cabeça e raiva engarrafada foram riscadas no calendário.

Entretanto, mesmo sem ‘detalhes para corrigir’, o moreno não mudou o foco. Agora, Kyungsoo não empunhava o fouet no ângulo correto, nem estava usando força o suficiente para fazer o chantilly. Ou ele balançava demais os quadris para bater os ovos de um simples omelete. A situação estava beirando o absurdo do ridículo.

Os meses seguiram dessa forma irritante e pouco a pouco, a tolerância e o medo de perder o emprego foi desaparecendo de Kyungsoo, como água fervendo numa panela esquecida no fogão.

Em meio ao caos, Do tinha conquistado espaço no restaurante.

Os colegas apreciavam o profissionalismo e a gentileza dele, apesar dos pesares. Os clientes estavam rendidos ao sabor das refeições que ele preparava. A vida profissional de Kyungsoo estava estável como uma rocha e, aos poucos, ele se tornava insubstituível. Assim, os desaforos acumulados começaram a escapulir, sutis. E como uma bola de neve rolando montanha abaixo, a sutileza foi desaparecendo por completo, até se transformar numa avalanche.

Esse tinha sido o princípio do grande erro.

Kyungsoo se lembrava vagamente de como as coisas seguiram rumo ao precipício.

Num dia qualquer, Jongin e ele estavam discutindo no estoque e, antes que as vias de fato acontecesse, o chef estava prensado contra a parede, com a língua do moreno quase escorregando goela abaixo e as coxas apertadas por mãos firmes. Um beijo sufocante, cheio de vontade, muito promissor.

O alerta vermelho começou a piscar, mas Kyungsoo preferiu a ignorância.

Uma semana depois, preenchida por um clima carregado de tensão e silêncio, quando até mesmo os outro colegas de trabalho notaram a estranheza entre os dois, o convite para uma ‘carona amigável’ terminou numa trepada, completamente aleatória e desconfortável, dentro do carro de Jongin.

A decadência ficou mais densa com o passar das semanas. Dos meses.

Infelizmente, apesar de Jongin ser um grande bosta dentro do expediente, quando estavam entre quatro paredes, longe do caos do restaurante, ele sabia foder como ninguém. Kyungsoo não podia negar uma das poucas qualidades do moreno. Mas não deixava de ser uma característica muito injusta, porque se tornava difícil resistir às investidas do outro.

Do era um homem simples. E ele gostava da simplicidade dos encontros sem compromisso nenhum. Ambos eram solteiros e jovens demais para deixar que as discussões no trabalho impedissem uma gozada muito boa no fim da noite. Na maioria das vezes, a irritação acumulada durante o dia apimentava as coisas entre os lençóis. Aparentemente, aquele joguinho de cão e gato excitava Jongin.

A rotina dos dois continuou até o começo daquele inverno.

A estação trouxe ventos fortes e a neve pesada. A precipitação branca caiu do céu como a luz de um holofote sobre o caminho escuro e sinuoso do chef Do.

O presente de natal adiantado de Kyungsoo chegou vestindo casaco pesado e gorro vermelho, para aliviar o frio de congelar os ossos. Nem mesmo a visita do Papai Noel surpreenderia tanto como a existência da noiva de Kim Jongin. A mulher era inegavelmente linda, elegante e doce. A típica esposa coreana que qualquer sogra pediria aos deuses, como as milhares de novelas amavam propagar na televisão.

E por mais que a descoberta daquele simples detalhe fosse o combustível suficiente para o desenrolar de uma catástrofe, Kyungsoo sapateou sobre a centelha de fogo antes que tudo pudesse perder o controle.

Do fugia de dramas.

Sua principal tática para evitar conflitos desnecessários era fechar os olhos, mudar a direção da rota e fingir que nada aconteceu. A vida seguiria como sempre.

Todos os dias, dali em diante, seriam sem Jongin. Sem beijos e orais nos becos escuros, sem transar no carro ou em motéis de procedência duvidosa, sem finais de semana surpresa isolados na ilha de Jeju... Puts, como tudo parecia muito óbvio, depois que Sooyeon entrou em cena.

A falta de sentimentalismo naquela 'aventura' colocou um véu escuro sobre a realidade. Se Kyungsoo tivesse se apaixonado, ele teria buscado por mais detalhes, existiria interesse pela vida pessoal do outro. Mesmo que tal evento nunca tenha ocorrido na vida do chef.

Kim não fugia de dramas.

Se antes do envolvimento, a situação entre os dois parecia um inferno na terra, o ‘pós-término’ transformou tudo num desastre sem fim. Além das discussões acaloradas e de jeotgaraks usados como dardos dentro da cozinha, Jongin estava tornando o horário livre de Kyungsoo insuportável. Só que fora do expediente, a aproximação era totalmente oposta e muito pior.

O moreno queria continuar com o romance deles, obviamente.

A chuva de mensagens chorosas, tanto em texto como por voz, deixava bem explícito. Assim como as visitas espontâneas no apartamento de Kyungsoo, durante a madrugada, completamente bêbado e carente. Aquele lado meloso do Kim, que não sabia lidar com rejeição, dava ânsia de vômito em Do. A atitude era esquisita pra caralho, mesmo que Jongin já tivesse exposto a personalidade doce em alguns encontros.

Porém, Kyungsoo sabia que aquele escândalo todo era por pura conveniência, porque era fácil para Jongin manter aparências com um amante próximo. Não era paixão, muito menos amor. Aquilo era apenas tesão a todo vapor, dentro de um homem que não podia expor muito da sexualidade dentro daquele país, sem lidar com as consequências.

O problema é que, nem sempre... Na maioria das vezes, Do se equivocava com suas suposições.

Jongin estava apaixonado, mas do jeito esquisito dele.

Muito, já beirando ao completo descuido no ambiente de trabalho, quando tentava roubar beijos e abraços do chef, sequer checando se ainda existia um possível espectador por perto. Muito apaixonado mesmo, ao ponto de ser drástico, demasiado insistente e obsessivo, salpicando singelos indícios de ameaça entre as declarações de amor sussurradas ao pé do ouvido, no vestiário dos funcionários.

O mundo de Kyungsoo não girava daquela forma tão passional.

Quando os dias e noites foram tragados pelo incômodo, com ligações incessantes e encontros desagradáveis no estacionamento do condomínio, o alerta vermelho não podia mais ser ignorado. Porque apesar do apreço pela vida profissional, a sanidade e sossego estavam ali, em primeiro lugar no pódio do ‘Recanto de paz de Do Kyungsoo’.

O chef não sabia até quando aquela situação com Jongin duraria, e nem estava com paciência para esperar pelo resultado das condições impostas por ele o tempo todo. A incerteza era inquietante e a incapacidade muito terrível. Realmente, não se misturava prazer com negócios, nunca. Por isso, a quebra do contrato na Kai's foi uma das coisas mais difíceis na vida do homem.

Além de toda a burocracia com documentos, Kyungsoo ainda teve que inventar mil coisas para que ninguém desconfiasse da verdade por trás daquela decisão repentina. O olhar de decepção de Lee, o outro sócio do restaurante, foi quase insustentável. A vontade de jogar toda a merda no ventilador, num ato de honestidade súbito, era grande. Mas não valia a pena, porque Kim já tinha a vida perfeita dele, com o futuro todo garantido, e Do não tinha… Nada.

Porra, ele tinha estragado tudo por uma coisa tão momentânea.

"Puta merda, eu fui muito burro!" , Kyungsoo resmungou, se virando no sofá. A barriga e a bochecha pressionadas no estofado, o pé esquerdo caído no tapete macio. “Burro, burro, burro”, as palavras escapuliram como uma mantra, junto da vontade de espernear em pura revolta, como uma criança mimada no chão de um supermercado.

No final do dia, tais lembranças sempre causavam esse tipo de reação nele.

O rancor era uma das coisas que Kyungsoo não sabia lidar, ainda mais quando não podia colocar a culpa em ninguém além dele mesmo. Mas agora, os pensamentos não causavam uma onda gigante de sentimentos tão explosivos, porque com o passar das semanas, o cansaço de ficar revivendo a demissão tantas vezes era muito maior. E quando a falta de controle sobre a vida começava a atormentar demais, ele tentava se distrair.

Os métodos de cura de Kyungsoo eram suspeitos. Algumas noites eram viradas, maratonando séries e filmes, enquanto ele entupia o estômago com comidas ultraprocessadas. Em outros dias, o chef se acabava de cantar dentro de um cubículo de karaokê sob o efeito de muitos somaek. E claro, as dúzias de compras online de objetos fofos e baratos para cozinha, e as faxinas aleatórias na madrugada, também estavam incluídos no pacote. Após o esgotamento completo, tudo parecia patético.

Kyungsoo sabia que as coisas tomariam seu curso natural com o passar do tempo. Mas havia certas situações da vida, que sua praticidade habitual para resolver problemas fugia completamente do controle. Pequenos momentos que ficavam girando o tempo todo na cabeça dele, e demoravam para perderem a força. E mesmo quando estagnados, num cantinho bem escuro da mente, ainda exerciam certo poder sobre tudo.

Outra vez, ele estava pensando demais.

Os grandes olhos castanhos fixaram-se no próprio reflexo na tela escura, até que a fadiga tornasse as pálpebras pesadas. Um grande suspiro escapou-lhe do peito até o corpo relaxar por completo. O sono veio tão sutilmente que, quando as batidas na porta de entrada ecoaram por todo o apartamento, Kyungsoo não soube precisar quanto tempo tinha se passado. A cabeça ainda estava nublada pela falta de sonhos.

Instintivamente, o homem levantou depressa, meio desajeitado e um pouco dolorido pela má postura, pronto para atender a visita. O silêncio completo fazia o som seco da madeira ainda reverberar nos ouvidos sensíveis. E enquanto Kyungsoo tentava acertar os pés dentro das enormes pantufas de ursinho, com o humor sendo dominado pela rabugice de acordar de forma repentina, um detalhe estranho foi percebido.

Depois de duas tentativas frustradas de Jongin adentrar o apartamento para uma possível reconciliação, em meio a discussões alteradas e multa por perturbação noturna, Kyungsoo vetou todas as possíveis visitas.

Do tinha pouquíssimos amigos, e eles raramente visitavam, pois preferiam encontros em bares e barracas de rua. O contato mínimo com os vizinhos passou a ser inexistente, depois de toda a bagunça armada no corredor daquele andar. As correspondências e encomendas ficavam na recepção com o porteiro. Então, qualquer situação fora do convencional era anunciada pelo interfone.

Os passos arrastados do chef estacarem a poucos centímetros da porta, quando a letargia sumiu por completo e o momento pareceu peculiar.

O olho mágico estava diante de Kyungsoo, mas ele esperou por mais batidas. E elas não vieram. O silêncio estava por toda parte, e por um momento, o homem duvidou se realmente tinha ouvido alguma coisa, ou se foi a mistura de um sonho com a realidade. Mesmo que no fundo da mente, o chef soubesse até identificar a sequência correta de toques. Três batidas, mais quatro, separadas por um curto espaço de tempo .

Durante aqueles poucos segundos, com a cabeça cheia de perguntas, e levemente indeciso se espiava através do círculo de vidro, um pequeno envelope escorregou por baixo da porta. O movimento foi tão sutil que, se não estivesse olhando para o chão naquele momento, ele não teria reparado.

Kyungsoo só se deu conta de que estava cercado pela penumbra quando não conseguiu captar detalhes do objeto.

A mão escorregou sobre o interruptor do pequeno hall, e o foco de luz amarelada estalou sobre a cabeça. À primeira vista, aquilo parecia um convite. Um grande selo lilás de cera, lacrando o conteúdo da carta. Em destaque, uma pequena fruta estampada em linhas douradas pelo sinete do remetente. Mas o aspecto envelhecido do papel era destoante. A correspondência parecia fora de época, e ao mesmo tempo, muito familiar.

Tal sensação alimentou uma grande curiosidade em Kyungsoo. Num instante, sem pensar demais, ele digitou a senha da fechadura eletrônica e girou a maçaneta, o lado de fora do apartamento exposto aos olhos interessados.

Com aquele tom meio roxo acinzentado da poluição da cidade, a escuridão estava tomando conta do fim de tarde em Seul. As luzes estavam apagadas, exceto por uma, no meio do corredor externo. E tal detalhe criava um contraste estranho, porque ela estava a quinze metros de distância do elevador. Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas fartas do homem conforme a confusão foi crescendo dentro dele.

Não havia ninguém ali. E não fazia sentido algum.

Aquela única lâmpada acesa, ligada num sensor de movimento, estava causando uma certa inquietação. Uma sensação meio boba, mas não deixava de ser esquisita. Kyungsoo nunca gostou de filmes de terror, mas sabia que aquela era a premissa para um susto repentino. O lugar iluminado dava a impressão de que alguém invisível estava bem ali, parado, olhando para ele. Um risinho nervoso escapou dos lábios rosados, quando a imaginação muito fértil do chef foi criando cenários obscuros sem controle algum.

Um caminho de luzes acesas até a entrada do apartamento. Sem passos, só o estalar das lâmpadas, e de repente, um apagão completo. Apenas dois olhos azuis cintilantes diante do rosto dele.

“‘Tô precisando mesmo de uma ocupação, puts” , Kyungsoo resmungou, deixando um estalar de língua acobertar o tremelicar no queixo. Sério mesmo?

Paranoias desnecessárias estavam fora de cogitação. Ainda assim, sem tirar o olhar do corredor molhado pela neve derretida, o homem roçou as pontas dos dedos no piso liso, antes de apanhar a correspondência e se levantar. O papel do envelope era áspero contra a palma da mão.

Por mais alguns segundos, Kyungsoo ficou observando aquele único foco de luz. Na bizarra expectativa daquela cena criada na cabeça acontecer. Mas, obviamente, a lâmpada se apagou e o vento frio trouxe mais neve para o corredor, junto de muitos arrepios ao corpo do chef. O calafrio que subiu pela nuca foi motivo suficiente para que o homem fechasse a porta.

O bipe da tranca automática encerrou aqueles minutos incomuns.

Sem paciência alguma para criar suposições do que continha no envelope, Kyungsoo quebrou o lacre num puxão meio bruto. O que era aquilo? De onde vinha? O papel da carta era mais amarelado e fino, tanto que a tinta escura da caneta deixava vestígios da mensagem gravada na superfície lisa.

Ao desdobrar a folha, os grandes olhos castanhos do homem percorreram as tortas linhas escritas, sem rodeios. Após a saudação, as primeiras frases não entraram na cabeça dele. Só foram lidas automaticamente, sem processar coisa alguma, porque o coração começou a bater muito rápido. Num instante, as letras quadradas e inclinadas pareciam apenas símbolos sem nexo.

Quando os olhos começaram a arder, na metade da mensagem, ele recomeçou. Conforme as palavras grafadas em tinta cor de anil, junto da caligrafia tão conhecida, foram fazendo sentido dentro da cabeça de Kyungsoo, as lágrimas escorregaram sobre as bochechas ruborizadas pelo choro não contido. Um chorar feio, molhado e soluçado, que só o travesseiro conhece. O muco denso atrapalhando Kyungsoo de respirar em paz através do nariz avermelhado, a testa latejando pela pressão.

Inferno!

E ali estava, um daqueles momentos inertes. Dos grandes. Uma imensidão que demorou muito para perder a força, e que estava voltando a espiralar na cabeça de Do. A ferida que pensava estar fechada há muito tempo, ainda tinha uma casquinha mal cicatrizada capaz de causar dor.

Quão irritante era aquilo?! Seongha parecia ter um sexto sentido absurdo para saber quando Kyungsoo estava indo de mal a pior… Que o chão estava desabando sob os próprios pés, mesmo que ele não aceitasse a verdade. Talvez fosse uma teimosia hereditária. E apenas essa pequena lembrança foi o suficiente para trazer um sorriso ao rosto úmido, a melancolia dando lugar para a nostalgia.

"Eu também, te amo muito. Muito…", Kyungsoo fungou, apertando a carta entre os dedos, sem cuidado algum, amassando o papel frágil.

Outra vez, Do começou a ler as palavras. Com o piso aquecido sob o corpo, o chef cruzou as pernas, procurando uma posição melhor contra a parede. Só se dando conta naquele instante que, em algum momento da leitura, ele tinha caído no chão.

Naquela noite, Kyungsoo releu a mensagem várias vezes. Até conseguiu rir, sem chorar, com uma frase engraçadinha.

Nos dias que se seguiram, ele continuou lendo. Em cada ocasião, uma parte específica do final parecia fazer mais sentido. Mesmo que Kyungsoo sempre soubesse o significado dela, mas quisesse evitar, porque envolvia muita dor, muita raiva e muito rancor. A essência das palavras estavam adiantadas demais para aquela época tão sombria.

Aquele pedaço de papel amarelado virou um pequeno amuleto para o chef, escondido num bolsinho da carteira. Apesar de saber de cor todo o conteúdo, a sensação física causava certo conforto, aonde quer que ele fosse.

Assim, a mensagem de Seongha acompanhou Kyungsoo.

Seja durante a ligação para um número conhecido, e muito evitado, na semana seguinte à chegada da correspondência. Ou quando ele empacotou tudo o que tinha relevância dentro do pequeno apartamento em poucas caixas, e entregou as chaves ao locador. A carta estava junto dele durante a despedida dos amigos. Até mesmo quando Do engoliu o orgulho e devolveu o abraço desajeitado na tia paterna na rodoviária.

O processo todo da mudança passou num piscar de olhos.

Kyungsoo só percebeu como as palavras de Seongha moveram seus passos de forma tão rápida, quando ele parou para observar os edifícios altos e espelhados através da janela do ônibus. As estruturas de concreto ficaram para trás, e se tornaram mais raras, conforme os quilômetros se estendiam sob os pneus.

Se fechasse os olhos, ele conseguia visualizar o destino.

O céu azul coberto de nuvens brancas, as montanhas verdes e os pássaros coloridos voando livres pelo ar. Tudo tão vibrante, tão vivo. Um cenário tão perfeito que parecia uma pintura em aquarela. Mas Do sabia que era real, pois já tinha estado ali por muito tempo, uma grande parte da infância.

O Vale do Orvalho acolhia Kyungsoo mais uma vez. E ele sabia, sentia, que seria para sempre.

–––––


Pequeno Kyungsoo, tudo bem com você?

Dessa vez, decidi que não ligaria, porque o papel torna as coisas mais reais. E uma simples conversa no telefone desaparece no instante que colocamos ele no gancho. Talvez, quando ler essa carta, você entenda o que eu quero dizer.

A voz desaparece e o rosto vai sumindo com o passar do tempo... Tudo o que fica gravado são nossas memórias. E as memórias costumam se confundir quando envelhecemos.
Palavras escritas são mais preciosas. As letras são únicas, os erros de ortografia dão personalidade, e até mesmo as palavras rabiscadas tem certo charme.
Hoje eu tava tomando chá de jasmim sob o velho carvalho da fazenda, apreciando a vista. Você sabe qual é a árvore, não é? Aquela do lado da estufa de morangos e mirtilos. Não tem mais o balanço de pneu que você costumava se pendurar feito um macaquinho, e que só está viva porque eu tirei de lá. Só Deus sabe como ela resistiu a todas as suas tentativas de destruição!
Sempre que levanto a cabeça e olho pr’aqueles galhos, lembro do garotinho bagunceiro correndo para todo lado, gargalhando, caindo no chão, chorando alto e depois repetindo tudo. Com o sorriso de coração e os grandes olhos brilhantes, tão parecido com minhas meninas.
A Cassis sempre vai carregar memórias de vocês, pequenos ecos em todas as partes, em cada pedacinho de terra… E agora, só consigo pensar no futuro que está chegando. No meu, no seu. Na minúscula família Do.
Kyungsoo, eu sei que você ainda guarda certa mágoa porque teve que partir daqui, muito de repente, mas sempre tem um motivo. Queria que você conhecesse o mundo, como sua mãe quis e não conseguiu. E sei que hoje é sua formatura no último ano do colégio. O tempo voou muito, e você também está voando alto. Mas não quero que se esqueça de onde veio.
Aqui... Um dia foi meu, seria da sua mãe e depois, apenas seu e da sua família. A ordem foi toda alterada no meio do caminho, e é uma pena… Nesse momento, lendo essa carta, eu devo estar com a Sunmi e a Moonhee. Tenho certeza! Deve ser aquele relógio invisível da vida que começa a perder a força e dar sinais sutis. O tique-taque dos meus ponteiros está ficando cada vez mais baixinho e arrastado. Preocupante, mas não tenho medo.
Por isso decidi pagar papel e caneta para começar a escrever coisas que os velhos costumam falar, para parecer um pouco sabichão. A letra está horrível, mas precisava deixar alguma coisa que não fosse formal e quadrada demais nas mãos de um advogado.
Amorinha, só queria dizer que a Cassis é sua. Aqui é seu lugar, sua casa, seu ninho. E não importa quão longe você voe, sempre pode voltar. Quero que se lembre, quando tudo estiver muito sombrio no seu caminho, só precisa tomar o velho ônibus da linha 120 e num passe de mágica, você estará confortável diante da lareira da sala de estar. Tudo ficará bem.
Soo, que você tenha uma vida muito feliz.
Te amo muito, de onde quer que eu esteja.

Vovô Seongha


PS: A carta vai chegar no dia certo.

12 Septembre 2022 01:00 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
0
À suivre… Nouveau chapitre Tous les 15 jours.

A propos de l’auteur

Cold Cherry "awaken your sleepin' heart" — SHINee & EXO — A Kaisoo Trash

Commentez quelque chose

Publier!
Il n’y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~