omegakim Amelia Kim

Na fazenda em que Kyungsoo cresceu havia um espantalho que ficava no começo da plantação de milho, estendido com os braços abertos e a cabeça tombada para o céu, sempre olhando para o sol com seus olhos de botão costurados no tecido velho de um saco de batata.


Fanfiction Déconseillé aux moins de 13 ans.

#horror #suspense #kids #baeksoo #26 # #baeksoomin
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Na fazenda

Na fazenda em que Kyungsoo cresceu havia um espantalho que ficava no começo da plantação de milho, estendido com os braços abertos e a cabeça tombada para o céu, sempre olhando para o sol com seus olhos de botão costurados no tecido velho de um saco de batata. Seu corpo era enchido com palha, fios grossos de um amarelo apagado se entrelaçavam por baixo do saco de batata que constituía sua pele e escapavam pelos lugares onde deviam estar seus pés e mãos, fiapos grossos de pontas afiadas que pinicavam a pele de qualquer um que passasse muito perto do seu corpo inerte.


Quando Kyungsoo era criança tinha a impressão de que o espantalho acariciava seus cabelos todas as vezes que passava correndo pelo milharal seguido dos seus amigos das fazendas vizinhas e à noite, quando se deitava para dormir, deixava a janela aberta para continuar observando o espantalho do milharal. Dali, não conseguia ver muita coisa, só o topo da sua cabeça, o rosto para baixo e a ponta do chapéu gasto revelando o começo de alguns fiapos de palha. Às vezes, tinha a impressão de que a palha que o constituía crescia, se alargando pelas extremidades como pequenos tentáculos.


Uma vez, Baekhyun no auge dos seus doze anos propôs um desafio. Como o mais velho, o Byun se achava o mandante do grupo. O desafio era simples. Ir até o espantalho e gravar suas iniciais na barra das suas roupas gastas. Minseok demorou para concordar, porque sempre tinha achado o espantalho sinistro, mas acabou dizendo sim quando Kyungsoo, o mais novo do trio, disse que participaria.


Então, ao pôr-do-sol, Kyungsoo, Baekhyun e Minseok reuniram-se ao redor do espantalho antes que ficasse tarde demais para voltar para casa. Era um final de semana, o dia seguinte seria domingo e por isso, seus pais tinham deixado que os amigos dormissem na sua casa. Seria a noite dos garotos. Eles dormiriam no mesmo quarto, contariam histórias de terror, falariam das garotas da escola e comeriam doces escondidos noite a adentro.


— Vai você primeiro — Minseok empurrou Baekhyun em direção ao espantalho e o Byun tropeçou e se apoiou nas pernas do boneco, os dedos se enfiando nos rasgos da sua calça e tocando o interior de palha.


Baekhyun arrumou a postura e olhou por cima do ombro, lançou um olhar irritado para Minseok, que se encolheu. Kyungsoo colocou as mãos às suas costas, apertou os próprios dedos em nervosismo e não tirou os olhos de Baekhyun enquanto o via se inclinar, tirar a caneta do bolso do macacão jeans e escrever suas iniciais na barra da calça jeans do espantalho. Depois, foi a vez de Minseok, que hesitou e choramingou sobre como aquilo era macabro, mas quando chegou a vez de Kyungsoo, o sol já estava terminando de se pôr. O céu inteiro era laranja, rosa e azul-escuro, não havia tanta luz para que visse o que estava fazendo, mas ainda assim não parou. Guiado por um instinto primitivo, o Do deixou suas iniciais na gola da camisa do espantalho. As letras tinham saído tremidas por conta do esforço em ter que ficar na ponta dos pés mas ao terminar, não conseguiu evitar o gosto de satisfação na boca. Ele era um menino crescido, ele era corajoso.


Apertou a caneta na mão e um sorriso mínimo se repuxou no seu rosto. O céu ficou mais escuro e o ar cheirava a mato e terra e milho, um vento veio e agitou o cabelo de todos. Minseok falou algo sobre irem embora logo porque estava começando a ficar com frio e Baekhyun revidou o chamando de bebezão. Kyungsoo não os encarou, anulou suas vozes, mas acabou os seguindo para longe no segundo seguinte, pisando sobre as marcas das pegadas de Baekhyun e fazendo parecer que somente duas pessoas tinham estado ali. Olhou por sobre o ombro e percebeu que o rosto sempre para cima do espantalho estava para baixo, um pouco virado para o lado, seus olhos de botões encarando todo o caminho que fazia.


Engoliu em seco.











Os dias seguintes pareciam como todos os outros, a escola continuava tão chata quanto as garotas e Baekhyun parecia ser a única coisa interessante na sua vida. No verão, o amigo foi ao dentista e colocou aparelho e agora, todas as vezes que sorria, fazia questão de mostrar todos os dentes só para exibir sua nova proeza. Minseok tinha começado a usar óculos, lentes quadradas enormes que cobriam um pedaço das suas bochechas e faziam seu rosto menor do que realmente era. E Kyungsoo, continuava do mesmo jeito, pequeno e cheio sardas; uns pontinhos amarronzados que desciam do rosto para o pescoço e manchavam pedaços aleatórios da sua costa. Baekhyun dizia que ele parecia um céu estrelado e todas as vezes que pensava nisso, sentia o peito inchar em algo desconhecido.


No inverno, os campos de milhos ficaram cobertos de neve e o espantalho ganhou um agasalho novo. Algo que sua mãe tecera por um mês inteiro e que parecia bom demais para um boneco de palha, mas a sua mãe era boa por natureza, sempre acabava se preocupando e cuidando de tudo. Seu pai o ensinou a dirigir um trator e lhe deu dicas sobre como plantar e colher. E no natal, embaixo do visco idiota na porta da sua casa, Jisoo — sua prima que veio junto com todos os outros parentes — segurou-o pela gola da camisa e roubou seu primeiro beijo.


Então, finalmente, no começo daquele novo ano, Kyungsoo atravessou o milharal para chegar até o espantalho. O boneco continuava lá, a cabeça tombada e com o gasalho que sua mãe fez, perfeitamente encaixado no seu corpo. O Do tinha trazido novas roupas: um macacão jeans e uma das camisas de botões do seu pai. Demorou um pouco, mas quando conseguiu despi-lo, notou que no seu corpo de saco de batata, haviam nomes escritos à caneta. Iniciais um tanto antigas, tantas e espalhadas por todos os lados que deixou Kyungsoo surpreso.


Ele traçou as letras, curioso e franziu o rosto em confusão ao perceber que suas iniciais estavam ali, feitas na caneta permanente preta que usara quando escreveu no tecido da roupa do boneco. Encontrou as de Baekhyun também e as de Minseok. Mas aquilo não era possível, eles não tinham escrito na pele do espantalho, somente nas suas roupas e como elas haviam sido trocadas, suas iniciais tinham se perdido. Contudo, ali estavam, brilhando na pele dele, se destacando de tal maneira que era impossível dizer que não estavam lá. E pior do que isso era notar sua identidade empregada na curva de cada letra. Seu punho fizera aquilo.


Kyungsoo encarou o rosto do espantalho e tudo o que teve foram os olhos de botões deles caídos, o rosto ainda tombado para baixo, encarando os pés que deveria ter. O Do resolveu terminar de vestir o boneco e durante esses minutos sua mente traçou a teoria perfeita. Talvez, Baekhyun tenha feito aquilo como parte de uma pegadinha. Ele o conhecia tão bem que não seria surpresa se soubesse replicar sua letra ou a de Minseok.


Estava terminando de fechar os botões da camisa do espantalho quando notou algo duro no seu peito. Não se parecia como enchimento áspero de palha, era algo sólido. Kyungsoo desfez o caminho de botões e apalpou mais o espantalho, afundando os dedos por entre a pele de saco, rasgando e rasgando com pressa. Espalhou suas entranhas de palha no chão ao redor seus pés e foi revelando aos poucos o seu interior, uma forma cinzenta, seus dedos rasparam na coisa, alcançando um espaço vazio úmido e quando tirou toda a palha do que deveria ser o peito e a barriga, o Do afastou-se um passo horrorizado.


Suas mãos começaram a tremer e o cheiro de terra pareceu mais molhado que antes, um cheiro imundo acertou seu rosto e o fez colocar a mão em frente ao rosto para impedi-lo de cheirar mais. Seus olhos continuavam focados na frente, arregalados e incapazes de piscar, encarando e nunca parando de encarar a cabeça humana dentro do espantalho. Um corvo desceu do céu e sentou-se no ombro do espantalho, inclinou-se e picou por dentro do peito aperto dele, o bico raspou na pele cinzenta e pescou algo no globo ocular vazio, puxou uma larva para fora e engoliu. Então, fez de novo, pegando pedaços de pele e carne vermelha que cedia sob seu bico com uma precisão macabra. Outro corvo apareceu e grasnou antes de afundar o bico na testa, puxando tiras pequenas e fazendo furos na pele jovem.


A cabeça do espantalho caiu, pousou como uma pena no chão como que para provar o quão falsa era. Kyungsoo encarou os olhos de botões do boneco, virados na sua direção. Ele não tinha uma boca e muito menos um nariz, eram só olhos de botões pretos pregados em um saco de batata enchido com palha. Certa compaixão tomou conta do seu peito e o passo que se afastou, cobriu de volta para perto do boneco. Enfiou as mãos no seu peito e puxou a cabeça para fora, o encaixou no seu pescoço de palha e se abaixou, pescou o chapéu da cabeça de palha e colocou na cabeça, escondendo os cabelos escuros. Sem olhos, a cabeça de Minseok parecia horrenda, mas Kyungsoo teve uma ideia ao se inclinar e puxar os olhos de botões da cabeça falsa e coloca-los nos espaços vazios do rosto verdadeiro.


Afastou-se um passo para observar seu trabalho e viu os corvos começarem a bicar as bochechas macias do que uma vez tinha sido seu amigo. Minseok não era mais Minseok, pensou. Ele era o espantalho. Encheu o peito do espantalho com palha, costurou tudo e percebeu que ao reutilizar o saco de batata, o nome do amigo não estava mais ali. Encontrou o seu e o de Baekhyun, ainda parados lado a lado como se tivesse sido assim desde o começo.


Talvez, fosse... talvez, tudo não passasse de um teste. Uma prova de coragem como Baekhyun tinha chamado no começo. O único a falhar tinha sido Minseok e o Espantalho não tolerava que covardes escrevessem na sua pele.











Na fazenda em que Kyungsoo cresceu havia um espantalho que ficava no começo da plantação de milho, estendido com os braços abertos e a cabeça tombada para o céu, sempre olhando para o sol com seus olhos de botão costurados no tecido velho de um saco de batata, mas não mais. Agora, ele tinha um rosto de verdade. E todas as noites depois daquela deitava para dormir com a janela do quarto aberta, a cortina mal fechada, dizia baixinho: boa noite, Sr. Espantalho.

28 Juillet 2022 04:04 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

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Amelia Kim "Em todo espaço, em todo branco, em todo homem, você é o menino que não tiro do coração. " - T.B. [baeksoo/baekmin shipper]

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