silva-pacheco1589114879 Silva Pacheco

Um incendio da maior faculdade da cidade, um filhinho de papai ameaçado e uma dançarina ruiva obssessiva. Se veste de diaba. E talvez o seja...


Histoire courte Interdit aux moins de 18 ans.

#noir #crime #ação #passional
Histoire courte
1
4.0mille VUES
Terminé
temps de lecture
AA Partager

Fenícia

Nome: Jezabel Guilhermina dos Santos Naturalidade: Rio de Janeiro Data de Nascimento: 21/07/1924 Altura: 1,76 metros Peso: 59 kg Olhos: verdes. Pele: branca Cabelos: vermelho-sangue com mechas loiras Ocupação: dançarina perfomática Registro: Arts. 121, 163 e 250 do Código Penal Observações: passional, coléria e obssessivamente ciumenta. É também piromaníaca, utilizando o fogo em seus espetáculos por meio de técnicas exóticas que aprendeu com capoeiras da Lapa.

- Como assim ela escapou de quatro guardas?


Na rádio tocava a Ópera “O Guarani”. O homem que fizera a pergunta estava sentado atrás de sua mesa de mogno, mas levantou-se em seguida, abotoando o terno de alta costura - Vocês não conseguem fazer nada direito? - questionou.


Aquele velho advogado, apaixonado pelas obras de Carlos Gomes, olhava pela janela de seu escritório, encravado no coração da Avenida Rio Branco.


- Dr. Batista, parece que a moça tinha alguns truques na manga. – respondeu o Inspetor Calistro, sentando de pernas cruzadas, numa das poltronas.


Dr. Batista bufou, olhando pela janela e ignorando o suave tom da voz de Calistro, que então prosseguiu:


- O Delegado da Jogos e Costumes, Dr. Abner, me destacou para cuidar desta delicada situação, e está totalmente empenhado em mantê-la no total sigilo.


- Não é Abner minha preocupação – respondeu o dr. Batista - É Leônidas.


- O coordenador da Divisão de Investigações da Corregedoria da Polícia?


- O próprio.


- Conheço a fama. Honesto, Intocável, preferido dos promotores, respeitado pelos seus homens – complementou o Inspetor - e ainda não deram um jeito nele...


O advogado arfou discretamente, voltando-se da janela para o Inspetor:


- Ele já provou ser cobra criada, e há muito a polícia do Rio tenta se sanitizar, Inspetor. Homens como Leônidas geram tanto na população quanto nos ideólogos a sensação de que esta limpeza realmente ocorre, quando na verdade é somente o paliativo para impedir a total degeneração do sistema. Ademais, convenhamos, ele nunca conseguiu chegar nem perto dos peixes grandes.


- Então, qual a preocupação do senhor?


- Se vocês ou aqueles guardas que levaram a surra forem pegos por ele, imediatamente o caso virá à tona na imprensa.


- Compreendo – Calistro descruzou as pernas e se levantou, tomando delicadamente seu chapéu - tomaremos cuidado. E cuidaremos do assunto.


- É o que espero.


- Dr. Batista. Sr. Batista filho – despediu-se o Inspetor, olhando tanto para o homem com quem conversava quanto para o jovem sentado na poltrona, ao canto do escritório.


- Veja só a confusão onde se meteu! – repreendeu Batista após a saída do Inspetor - se isso vazar, como fica a reputação da nossa família? Como fica minha situação lá na UDN?


- Mas pai, eu...


Batista não o deixou terminar, dando-lhe um tapa no rosto. – Não me responda! Saia daqui. E não me apronte outra sujeira como esta!


Batista se sentou na cadeira, após pegar uma garrafa de conhaque e um copo, enquanto seu filho saia resmungando do escritório:


Maldita noite que conheci aquela deusa flamejante – murmurou o rapaz, lembrando-se da ocasião. Ele e seus amigos estavam diante do palco, adornado como o Jardim do Éden. Dançava lá uma ruiva de corpete com calda, chifres de diabinha, tridente e salto alto. Tudo em diferentes tons de vermelho. “Beija, beija, beija" cantavam os amigos, ao final do show.


Ele a beijou. E ainda fez juras à diaba...


...

Calistro aguardava ao lado de um carro comum, estacionado numa das vielas do centro da cidade. Massageava a testa com dois dedos, murmurando.


- Algum problema, chefe?


O recém chegado era um sujeito de trajes sociais desgrenhados, com distintivo na cintura. Acabara de sair de uma viatura. Ao seu lado, um guarda baixo, gordo e com bigode de morsa, ostentando três divisas na farda encardida que trajava.


- Sempre pontual não é, Freitas?


- Foi mal, chefe.


- E você, Batata? - Calistro se virara para o gordo de farda - Tem muito o que explicar.


- Como assim chefe?


- Como assim pergunto eu – Calistro tinha voz suave e gestos delicados, mas sem ocultar a gravidade do tom - Os bombeiros já haviam dado uma surra nela depois do incêndio!


- Ela derrubou dois deles, chefe.


- Mas foi entregue amarrada a vocês. Por que não limparam a sujeira?


As costas de Batata doíam só de lembrar. Um dos guardas sob seu comando tentou re tirar a mulher, algemada, de dentro da viatura. O chute dela foi bem no queixo dele, fraturando-lhe o maxilar. Batata e os outros dois guardas arregalaram os olhos quando ela se pôs de pé mesmo com as mãos para trás e, sem reverência ou explicações, deu uma pesada com sua bota de salto agulha na virilha de um deles, fazendo-o cair de joelhos. Depois, ela atingiu em cheio o rosto do outro guarda. Só havia sobrado o Batata, que havia se distanciado covardemente. Ele sacou o revolver e disparou, vendo-a correr em zigue-zague na sua direção, saltar apoiando o pé numa das paredes do beco estreito, e chutar para longe seu revólver. Do resto, Batata só lembra de levar uma banda e despencar com a fulminante rasteira que a mulher lhe deu, tão logo ela aterrissou do último salto.


E não tinha acabado. Gemendo pela dor da queda, Batata viu a mulher se abaixar de costas para pegar as chaves na mão de um dos guardas nocauteados. Libertou-se das algemas, pegou o isqueiro no bolso de outro dos guardas e um jornal do chão. Acendeu o jornal, e abriu a entrada do tanque.


A lembrança do carro explodindo foi concomitante à voz de Calistro:


- Batata!


-Não vai acontecer de novo, chefe! - respondeu o sargento, voltando a si – Dessa, ela não escapa!


- Espero que sim – respondeu o Inspetor - porque além de cuidar do filhinho dos outros, ainda tenho que me preocupar com Leônidas.


- O tal lá da Corregedoria? – perguntou Freitas.


- Ele mesmo. – respondeu Calistro.


- Já ouvi falar deste cara – disse Batata, - ele está na nossa cola?


- Até onde sei, não. Mas não podemos dar-lhe pistas. – respondeu o Inspetor.


- Bem não devemos perder tempo. O Delegado Abner mandou dar um jeito o mais rápido possível naquela prostituta! – alertou Freitas.


Os três foram então interrompidos:


- Ela não é prostituta.


Não reconheceram a voz, mas a aparência era inconfundível. Chegara na viela um homem de brilhantina no cabelo, sapatos brilhando de engraxados e terno branco que se encaixava no corpo sem nenhuma ruga. Uma rosa vermelha adornava o bolso esquerdo de seu paletó, de dentro do qual ele tirou uma caixa de fósforos.


- Narciso, de prostituas você entende não é? – disse Freitas, enquanto o recém apagava o fósforo com o qual acendera seu cigarro.


- O nome dela é Jezabel dos Santos, vulgo “Fenícia” – esclareceu Narciso - uma dançarina de Cabaré com passagens pela Delegacia de Jogos e Diversões por exercer a profissão sem registro.


- Isso já sabíamos... – respondeu Calistro.


- De fato, Inspetor. – retrucou Narciso - mas o que vocês talvez não saibam é que a alcunha “Fenícia” significa “vermelho”. Era o nome dado pelos gregos aos navegadores do Oriente Próximo, devido aos tecidos carmesim que produziam. Mesma cor dos cabelos de nossa investigada.


- E daí? - perguntou Batata.


Narciso sorriu.


É por isto que você não passou no concursona prova para Investigador, meu caro sargento.


Batata rangeu os dentes mas, antes de responder, Narciso prosseguiu seu raciocínio:


- Isto é revelador quando sabemos se tratar de uma mulher que faz shows pirotécnicos, já incendiou um camarim por acidente ao brincar com isqueiros, e se meteu em capoeiragem com a Malta dos Pés de Ouro, conhecida por casar seus golpes com chamas pirotécnicas. Sabendo lutar daquela forma, dispensou qualquer relação de dominação com os cafetões. Botar fogo na Faculdade Nacional de Direito, como ela fez, só tornou seu show mais grandioso...


- Maravilha – exclamou, murmurante, Calistro, - estamos perseguindo uma prostituta, capoeirista, obsessiva, descontrolada e piromaníaca.


- Desculpe senhor. Estamos perseguindo uma DANÇARINA – Narciso enfatizou "Dançarina" ao invés de "Prostituta" - capoeirista, obsessiva, descontrolada e piromaníaca.


- Semântica – expirou Calistro, gesticulando "basta" com a mão - Vamos nos dividir e tentar achá-la.


Cada um entrou num carro – Qual é a deste cara? – perguntou Batata para Freitas, enquanto este dava partida na viatura.


- Parece que ele adora prostitutas. – respondeu o detetive.


...

Um chute forte arrombou a porta, sem mandado nem voz de prisão. Os quatro policiais, de revólver em punho, invadiram a pocilga localizada no bairro do Estácio. Reviraram o apartamento de Fenícia concluindo que lá nada havia a não ser um leve cheiro de queimado.


- Possivelmente que ela passou por aqui – disse Freitas, percebendo a desarrumação do lugar.


- A questão que realmente interessa é onde ela está – respondeu Calistro, ao mesmo tempo em Batata remexia as roupas intimas da moça para cheirá-las: – Quer parar com isso?- repreendeu com uma mão na cintura e outra na cabeça, violando pela segunda vez no dia seu tom pacato de voz.


- Melhor ainda é saber para onde ela está indo neste momento – alertou Narciso, aproximando-se de uma mesa na cozinha.


Calistro, Freitas e Batata vieram para perto dele, e viram sobre a mesa um jornal marcado com a data do dia. A notícia mencionava a encenação de “O Guarani” numa respeitável casa de shows em Ipanema. Segundo o mesmo jornal, tal ópera, patrocinada pelo Dr. Batista, teria a presença de toda a sua família.


A foto dos Batista estava queimada.


- Batata, traga seus homens – ordenou Calistro – temos que chegar lá e deter esta prostituta.


Narciso jogou furiosamente o jornal contra a mesa.


Tá ok, ta ok! - retrucou Calistro, tentando baixar o tom de voz antes de Narciso dizer qualquer coisa – Dançarina! Está melhor assim?


Narciso sacou o março de cigarros, e apenas olhou para os outros três enquanto acendia um deles:


- Vamos então! – disse Calistro.

...

O velho advogado estava alienados pelo espetáculo de cores no palco. As luzes refletiam nos rostos dele e de sua família. Dos bastidores da casa de shows vinha Fenícia, de corpete e calça vermelha. Caídos atrás de ela, dois seguranças urrando de dor.


Do lado de fora o Inspetor Calistro e os detetives saíram do carro comum, logo se encontrando com Batata e mais quatro guardas chegando numa viatura.


- Sejam discretos! – ordenou Calistro – Eu vou falar com o Dr. Batista para que ele se retire. Narciso e Freitas entram pela frente, enquanto Batata vem com os guardas pelos fundos. Se a encontrarem, matem a prostituta!


Narciso jogou o cigarro no chão e pisou nele.


Ela não é prostituta!


De novo Calistro colocou uma das mãos na cintura e a outra na cabeça, como se estivesse lutando para não perder a paciência:


Se disser isto de novo, eu juro que dou um tiro em você! – prometeu o Inspetor.


Lá dentro, Fenícia observava do teto e entre os holofotes. O coração ardia em ódio diante da cena de Batista Filho de mãos dadas com uma jovem magricela de cabelos castanhos. Ela já tinha preparado tudo enquanto a casa de shows estava vazia, pela manhã. Bastava riscar um fósforo...


- Dr. Batista, me perdoe incomodá-lo – disse Calistro discretamente ao pé do ouvido do advogado, após adentrar no camarote – o senhor tem que se retirar junto com sua família, o mais rápido possível.


Batista respondeu com um fulminante olhar iracundo.


Calistro não teve tempo de se explicar.


Fenícia riscou o fósforo.


A casa de shows se tornou um inferno flamejante, estrategicamente montado para prender a família Batista em seu camarote, cuja saída desabou em chamas. Uma multidão em gritaria correu para a saída do estabelecimento, enquanto os artistas fugiam pelos lados do palco.


- VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR – decretou Fenícia do alto de um holofote que acendeu em direção a camarote onde estava a família Batista – VOCÊ É MEU! MEU!!!


Tanto a esposa de Batista quanto a noiva de Batista Filho perguntavam desesperadamente “quem é ela” e “o que está acontecendo” para seus respectivos acompanhantes.


Calistro sacou sua pistola e disparou, estilhaçando os holofotes. Das trevas Fenícia lançou algum objeto, que atingiu em cheio e incendiou o rosto do Inspetor, fazendo-o cair aos gritos do camarote.


Saltando em três movimentos, Fenícia pousou suavemente no corredor que cortava as duas fileiras de cadeiras da casa de espetáculos – VOCÊ JURAVA ME AMAR ETERNAMENTE APÓS CADA SHOW MEU! AQUI ESTÁ MEU MAIOR ESPETÁCULO – dizia ela, de forma histriônica, após uma enorme fogueira surgir repentinamente diante de si – PROVE QUE ME AMA: LANCE ESTA MULHERZINHA AO MEU ALTAR DE PAIXÃO, E VOCÊ ESTARÁ PERDOADO!


- Quem é ela e porque está dizendo estas coisas? – perguntou a noiva de Batista Filho.


Do lado de fora se ouvia as sirenes de viaturasdos bombeiros e da polícia, chegando cedo demais para um incêndio e tiroteio que acabara de começar. As mangueiras foram acionadas para conter as chamas, e uma equipe especial, já plenamente ciente de que precisava resgatar os Batista do camarote principal, adentrou na casa de shows.


Ao mesmo tempo, os guardas entravam pelos fundos, sob o comando de Batata, que permaneceu no palco enquanto municiava um revolver. Furiosa, Fenícia quebrou a perna logo do primeiro, apoiando-se numa cadeira para acertar a genitália do segundo e saltar em torno de si mesma para trás, derrubando o terceiro. Por fim, golpeou o quarto guarda lançando-o a alguns metros na direção de Batata.


Aproveitando a deixa, os bombeiros adentraram, enfrentando as chamas e retirando rapidamente o Sr. Batista e sua família momentos antes do camarote ser reduzindo a cinzas. Freitas, por sua vez, invadiu pela entrada principal com revolver em punho, mirando perfeitamente na cabeça da mulher.


O tiro seria mortal.


- Nem pense nisso – ameaçou Narciso, surgindo imediatamente atrás de Freitas – e isto vale para você também, Batata – completou ele, após atingir com precisão cirúrgica o revolver do guarda que estava prestes a atirar em Fenícia.


- Miserável, desgraçado, filho da p. – xingou Freitas, inconformado – então era isto? Estava fingindo o tempo todo para protegê-la?


Narciso tragou sedutora e vagarosamente o fino cigarro entre seus dedos. Nada respondeu. Fenícia, por sua vez, não desperdiçou a oportunidade: bandou Freitas e depois acertou-lhe a cabeça. Batata correu. E a bela dançarina de vermelho levantou-se, com Freitas, desacordado, aos seus pés:


- Por que me ajudou? – perguntou ela, entre os dentes.


A polícia entrava naquele momento.


- Quem disse que te ajudei? – respondeu Narciso, deixando o cigarro cair ao chão, pisando-o para apagar a chama e disparando um tiro na perna da mulher.


As chamas já haviam sido apagadas. Leônidas, junto a homens da ouvidoria da polícia, ocupavam o local.


- Estes quatro são os policiais que tentaram matá-la. Freitas estava envolvido a mando de Calistro – explicou Narciso – Batata fugiu, aquele rato.


- Estamos no lucro – respondeu Leônidas – vamos esclarecer o caso do incêndio na Faculdade Nacional de Direito e pegar Calistro, de quem eu estava atrás há um bom tempo. Eles investigavam o caso sem inquérito instaurado, e mentiram acerca do carro que explodiu. Pegando-a viva e interrogando-a, colocamos um ponto final tanto nesta situação quanto na atuação destes três, extorquindo e matando prostitutas e cafetões pela noite.


Narciso pegou outro cigarro, e o acendeu.


Sua colaboração foi fundamental para que a Corregedoria os capturasse, Narciso – agradeceu Leônidas, recusando um cigarro oferecido pelo detetive – mas tenho uma dúvida.


- Pois não, senhor? – Narciso, tirou o cigarro da boca e expeliu garbosamente a fumaça.


- Era realmente necessário o tiro na perna?


- De certa forma.


- Por quê?


- Ela iria fugir, machucando mais guardas. E considerando o tipo dela, não vi motivos para ser compassivo.


- T-tipo? Que tipo?


Narciso deu mais uma tragada no cigarro, antes de ir embora:


Ela não é prostituta... – respondeu ele.

20 Juin 2022 14:15 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
0
La fin

A propos de l’auteur

Silva Pacheco Sou um historiador e cientista das religiões apaixonado pelo processod e crianção de personagens e de contar histórias dos mais variados temas.

Commentez quelque chose

Publier!
Il n’y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~