amanda-jandrey8085 Amanda Jandrey

Damon Harrington retornou à sua cidade natal como um cavaleiro solitário em busca de redenção. Parte de sua volta está relacionado à Amanda Loreto e sua história inacabada. Sedutor, quente e extremamente envolvente, Damon não está disposto a aceitar um não. E mesmo que seu coração ainda bata violentamente na presença dele, Amanda não acha sensato voltara a um ciclo autodestrutivo. No passado, algumas portas foram deixadas abertas, com recintos incrivelmente obscuros que precisam ser iluminados. Se de um lado existe o medo da rejeição, do outro existe a tensão sexual que não se esvaiu com os anos. Com conflitos pessoais e guerras conjuntas, seus caminhos se interligam uma vez mais pelo ódio e pela dor.


Romance Romance jeune adulte Interdit aux moins de 18 ans.

#romance #drama #darkromance #originais
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Amanda

Presente


Damon Harrington estava de volta. Isso é um fato, especialmente depois que Joice o tinha visto em frente à casa de jogos eletrônicos que foi recentemente aberta no centro da cidade. Minhas mãos, embora sejam sempre inquietas, parecem ainda mais trêmulas enquanto eu arrumo os papéis da recepção. Ele estar de volta não significa nada, digo a mim mesma, tentando me convencer que a batida descompassada do meu coração não indicava a mera possibilidade de desmaiar ao encontrá-lo. Já faziam 12 anos, e talvez uns três meses, desde que ele tinha ido embora. Fora excruciante antes de ser uma partida aceitável e eu fizera meu melhor para seguir a vida. Aonde quer que a vida dele o tenha levado, certamente não o fez se lembrar de mim. Era mais do que justo que eu não me lembrasse dele a cada passo do caminho, como se fosse obsessiva.

— Eu fiz Buscetta pro brunch dos hóspedes hoje. — Joice está usando um avental rosa queimado, eu quase me sinto Lorelai Gilmore lidando com Sookie. — E achei laranjas maravilhosas com um cara que tem um café colonial perto da Aldeia do Papai Noel.

Aperto os lábios, desviando os olhos dela para o tecido queimado.

— Vejo que todo mundo saiu vivo, pelo menos.

— Ah, isso. Estava testando uma peça de carne diferente e o óleo virou. Está tudo sobre controle — O sorriso de Joice é quase como uma luz na escuridão. Nos três anos em que nos conhecemos, sou eternamente grata por ela ter ficado. — Como acha que vai ser a alta temporada esse ano?

Com um suspiro, escoro o quadril contra o balcão e encaro a janela úmida pela chuva rala.

— Não sei mesmo. Os hotéis grandes são os primeiros a serem preenchidos e por mais que tenhamos conseguido dar uma renovada no espaço, Erica e o Senhor Volk ainda estão querendo manter o mesmo modelo de preços. Isso vai afastar os clientes bem depressa.

Joice batuca com o dedo fino e magro sobre os lábios cheios, revirando os olhos, provavelmente pensando em Érica. Desde que ela foi contratada para a cozinha, a mera descoberta de que Érica não gosta de mulheres deixou Joice extremamente chateada. Apesar de ela ter saído com o cara das entregas algumas vezes, ela tem uma paixonite incurável pela filha do dono da Pousada Fiorese, uma condição eu se agravou com o tempo e a proximidade. Erica quase sempre a evita, o que parece ferir o coração apaixonado de Joice.

— Você precisa de um passatempo — cochicho. — ou de um novo crush.

— Amanda, tudo o que eu preciso são de duas horas com a Erica. Ela vai ficar de quatro pra mim — diz, obrigando-me a apertar os lábios com mais força para não rir. Mas ela apenas endireitou os ombros e continuou. — O filho do dono da floricultura me convidou pra sair esse sábado.

— Devia aceitar — respondo, registrando as reservas que estavam sendo feitas pelo site. — Não faz nem um pouco mal se divertir.

Ela arqueou a sobrancelha, encarando-me pelas costas enquanto me acompanhava andar do arquivo até o balcão.

— Muito bonito o seu discurso, pena que eu te conheço — diz, repetindo as palavras da figurinha do WhatsApp que ela vivia me mandando. — Não tem nenhum encontro tórrido em vista?

— Nada novo sob o sol, o quarto segue com as teias de aranha — retruco, tentando ignorar a sensação estranha na boca do estômago ao lembrar de Damon. — Você já sabe qual vai ser o cardápio do jantar? Eu queria colocar no aplicativo e ver o retorno dos clientes.

Joice assente, desviando-se de mim e abrindo uma das planilhas que tinha me enviado duas noites atrás. Paro por um segundo, encarando o chuvisco úmido e o tempo escuro da rua, pensando que Gramado era sempre assim no inverno, recoberto por uma neblina que lembrava Silent Hill[1]. Tinha tanto tempo que eu não tirava um final e semana de folga que meu console já estava completamente empoeirado na sala. Sacudo a cabeça, lembrando que eu preciso manter minha mente ocupada, como minha terapeuta tinha dito, ou isso pode levar a um novo quadro autodestrutivo. Apesar de tudo, desde o fim do ensino médio, as coisas tinha evoluído de forma positiva. Um breve calafrio percorre meu corpo, como uma antecipação, e Joice estala os dedos.

— Volta para o mundo dos vivos, meus amor. Aqui, deixei marcado o cardápio. — Ela rói a unha do dedão. — Como o velho Volk recebeu o aplicativo?

— Ele odiou, como odeia tudo. Mas Erica foi útil nesse ponto. — Salvo o arquivo em imagem para subir na plataforma. — Ela sabe que se não aderirmos à tecnologia, as pessoas vão parar de vir. Já recebemos mais agendamentos pelo site que pelo telefone. Mais um pouco e eu vou fazer com que o aplicativo também permita isso. Só preciso convencer aquele velho teimoso a investir nisso.

Joice franze os lábios.

— Mas não é um grupo experimental da faculdade que tá fazendo?

— É, mas alguns programas são pagos e a licença não é muito barata. — O sino na porta bate levemente e eu sacudo a mão, soltando animada: — Um segundo, eu já atendo você. Fique à vontade!

Joice deixa a cabeça pender de lado, apertando os lábios em uma linha fina.

— Por que o Volk não faz de você uma parceira ou pelo menos te dá a gerência?

Suspiro, olhando na direção dela como quem pergunta “eu preciso mesmo te responder”.

— Porque ele é velho e gosta das coisas velhas. — Puxo o livro de registros e ergo o rosto na direção do hóspede, sentindo as palavras engasgarem devagar enquanto eu reconheço os olhos escuros, quase negros, como uma noite sem estrelas. — Bem-vindo à Pousada Fiorese, como eu posso ajudá-lo?

Damon mudou, obviamente, mas em essência ainda parece o mesmo. Os ombros estão mais largos e o corpo mais forte, mas ainda usa o jeans preto com coturnos e o casaco de couro. Agarro com força a caneta prateada e sorrio um pouco mais, enquanto Joice finge procurar alguma coisa no arquivo. Ele sempre tinha sido bonito, chamava a atenção por onde passava porque era exatamente esse tipo de pessoa, magnética e carismática. Éramos completos opostos e me pergunto se não foi isso que simplesmente mudou as coisas.

— É um prazer. Tenho uma reserva no nome de Damon Harrington. — A voz profunda e grave dele me joga em um espiral de sentimentos e preciso me esforçar para manter as mãos paradas. — A Pousada tá bem diferente.

— Precisava de uma renovação — comento, meio distraída, abrindo a ficha de reservas da terça-feira.

Joice ri, escorando-se contra o balcão.

— Vai me dizer que você é o famoso Damon que a velha Wiltgen fica falando. O encrenqueiro mais bonito de Gramado — diz ela, tentando imitar a voz de Anastácia Wiltgen, ex-professora de matemática.

O sorriso de Damon se amplia um pouco enquanto ele escora o braço sobre o balcão.

— Em carne e osso, e talvez um pouco mais encrenqueiro.

— Poxa, eu juro que se ela fosse uns anos mais nova, ela dava um jeito de fugir com você na calada da noite.

Damon coça o queixo, encarando o teto por um segundo.

— Ela era bem gostosa no ensino médio — em seguida, desvia os olhos na minha direção. —, mas ela não fazia o meu tipo.

— Aqui, você só precisa assinar aqui e esta é sua chave. O quarto é o 25, fica no segundo andar, depois de um pequeno lounge. — Forço minha voz a sair o mais normal possível, ainda que eu queira chorar. — Você pode pedir qualquer coisa pelo ramal 2. Se optar pelo ramal 3, pode fazer ligações para fora, mas elas têm um valor. As taxas estão na planilha ao lado da cama.

As mãos grandes dele agarram a caneta e ele assina o nome dele sobre o papel, um pequeno calafrio percorrendo meu corpo enquanto lembro dele escrevendo sobre o gesso no meu pulso. Aperto os lábios e Joice segue encarando a rua, desviando, vez ou outra, os olhos na direção de Damon. Ele sorri para nós, empurrando o papel na minha direção. Pego-o, arquivando-o com os demais do dia enquanto ele pega a chave, falando sobre algo com Joice.

— Minhas malas — comenta, indicando a porta.

— Não se preocupe, estarão no seu quarto em meia hora. Espero que aprecie sua estadia. — Sorrio, mas ao me virar, sinto como se eu estivesse me afogando.

Damon diz mais alguma coisa e agradece, dirigindo-se para as escadas. Joice me puxa pela blusa, arrancando parte dela para fora do jeans pantalona, e solta um palavrão.

— Você conheceu ele no ensino médio?

— Vagamente — minto, porque eu nunca contei sobre ele para ela. Nunca me ocorreu que ele pudesse, de fato, voltar. — Não é uma cidade minúscula, e não tem só uma escola aqui. — debocho.

Joice faz um “o” com a boca, pondo as mãos na cintura como uma mãe mandona. Ela é dois anos mais velha, mas às vezes eu sinto que sou muito mais velha que ela. Reviro os olhos, sentindo que a coisa mais próxima que tenho com Lorelai Gilmore é o fato de que o café cura tudo, então é isso o que procuro na minha visita ao mundo de Joice na cozinha abarrotada da Pousada.



Ela está anotando de novo enquanto eu aperto as mãos uma contra a outra, sentindo o suor da palma se espalhar por meus dedos. Um anel simples e prático, com uma pedra azulada, adorna meus dedos trêmulos e pálidos. Débora Fulcher é uma excelente terapeuta, tem sido assim nos últimos seis anos. Mas eu sempre fico nervosa quando preciso contar alguma coisa para ela, parte da antecipação ao julgamento, algo assim. Ela me encara com os olhos franzidos, o cabelo grisalho hoje está preso em um coque singelo atrás da cabeça, combinando com o terninho básico e o casaco de lã por causa do frio.

— Como foi a sua semana?

Dou de ombros, forçando-me a falar.

— Foi cheia. Tenho evitado as folgas porque me ajuda a manter o foco. — Aperto os lábios, cruzando e descruzando as pernas. — Recebemos um… um hóspede novo hoje. Damon voltou à cidade.

Ela inclina a cabeça ligeiramente, o sinal dela para o interesse.

— O Damon?

— Esse mesmo. — Esfrego as coxas, encarando os all stars escuros que estou calçando. — Foi meio… foi inesperado. Não sabia que ele tinha voltado.

— Você conversaram?

Neguei.

— Ele não me reconheceu. — Baixo a voz por um momento. — Acho até que fiquei aliviada por isso.

Débora escora o rosto na mão, deixando a caneta deitada sobre o caderninho enquanto me vasculha com o olhar perscrutador dela.

— Por quê? Você tem medo da conversa? Tem receio de ele te reconhecer?

— Não sei exatamente — digo, sendo totalmente honesta. — Foram 12 anos sem nenhuma notícia, embora eu sinta que ele tenha sido o primeiro e talvez único amor da minha vida, não sei se quero reviver um drama quando finalmente sinto que eu to seguindo a minha vida.

Ela aperta os lábios, assentindo.

— Não precisa ser necessariamente um drama. Pode ser um esclarecimento.

— Também não sei se quero abrir essa porta.

— Você tem saído, como conversamos? Visto outras pessoas, se relacionado com alguém?

É essa parte que eu não quero contar. Depois do ensino médio, dos problemas com o bullying e da crescente onda de ódio interno, eu meio que criado uma concha. Tentei fazer sexo em algumas ocasiões, mas a sensação era devastadora. Perdi minha virgindade com Damon e parecia que a marca dele tinha ficado grudada na minha pele. Mesmo que Débora diga que isso é totalmente normal, que algumas pessoas são assim, eu ainda sinto que tenho um problema.

— Saí com Joice há duas semanas, conheci um cara chamado Jonathan. — Suspiro alto, sentindo o cansaço me abater pelo simples fato de pensar sobre isso. — Não consegui transar com ele. Até beijar pareceu insuportável.

Debora sorri, minimamente, mas é o modo dela de demonstrar apoio.

— Está tudo bem, você está recuperando a si mesma. É um processo lento e, às vezes, pode ser doloroso. Mas não há nada de errado em não sentir atração.

Sorrio, sacudindo a cabeça enquanto questiono:

— Conta se for atração por personagens de livros?

Ela ri baixinho, assentindo.

— Definitivamente. Um orgasmo não precisa envolver um homem físico. — E pisca.

Quando deixo a sessão, despeço-me dela e do pequeno vira lata que ela tem, que a acompanha sempre ao consultório. Beni, o cão de três patinhas, charmoso e amoroso, que costuma ajudar vítimas de trauma enquanto ela atende. No elevador, vejo algumas mensagens do hotel, três ou quatro e-mails sobre meu carro estar pronto e quatro mensagens horríveis de Joice dizendo que está pensando em abandonar a vida de cozinheira. O drama dela é divertido, é um drama tão leve que me pego desejando esse tipo de leveza.

[1] Jogos de survival horror publicados pela empresa Konami.

8 Juin 2022 20:25:24 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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A propos de l’auteur

Amanda Jandrey "Estou numa confusão absoluta, não sei o que ler, não sei o que escrever, o que fazer. Só sei que sinto falta de alguma coisa." Anne Frank

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