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Os ratos no canal da mancha


A neblina, era o que sempre se via no velho canal da mancha, ela serpenteava por cima da água e impedia a visibilidade dos barcos, com isso fazia com que as aves malucas se batessem no céu e caíssem tufos de penas na água, o pior de tudo não era a neblina, ou as penas dos pombos, e sim os ratos, inquilinos antigos e desagradáveis daquela região. Call esperou que dois brotos passassem por ele, para que ele pudesse se virar para ver a parte de trás de seus vestidos, um sorriso travesso se abriu em seus lábios ao olhar a comissão de trás das morenas que passeavam pela rua estreita, entretanto, ele mal podia esperar que o frenesi fosse rompido por uma mordida em seu dedão, por cima das sandálias, praguejando aos céus ele chutou a bola de pelos fedorenta para longe, o rato bateu em uma lata de lixo e saiu correndo perturbado, arrastando o rabo longo pelo lixo espalhado pelo chão.

Call não aguentava as criaturas nojentas, pragas que deveriam ter morrido junto com a queda das bombas, alguns anos atrás. Ele ajustou a calça com os pulsos e as subiu, pegou a cesta de frutas que deveria entregar e caminhou errante tentando equilibrar a madeira entre o ombro e o pescoço, o suor estava estampado em seu rosto, e ao observar Gina ele abriu um sorriso, a mulher de uns trinta e poucos lhe enchia os olhos, era como uma flor, com os cabelos reluzentes e amarelos. Ela anotou todas as fruas e verduras que ele trouxe e o pagou com algumas moedas.

– Estão cada vez mais bonitas – ela disse fitando as frutas, mais precisamente uma maçã vermelha que lhe parecia suculenta.

– Vou dizer isso a Hampton.

Call profere pensando em seu chefe, um homem mais novo que ele, exibido e ranzinza.

– Vendemos bem as últimas que trouxe, se não fosse pelos ratos. – ela sibilou as últimas palavras, não queria que os clientes ouvissem.

Mas ninguém precisaria se esforçar muito para manter a discrição, os ratos costumavam ser bem salientes, passando por cima dos pés dos fregueses, roendo suas unhas e subindo em seus chapéus, sem dúvidas eram as piores criaturas da face da terra.

Conseguiam furar as caixas de leite todas de uma vez, se enfiar-se em sacos de farinha de trigo e até mesmo se embebedar com cerveja, Call tinha quase certeza que os ratos eram mais inteligentes do que pareciam, algumas vezes eles colocavam o focinho na orelha do outro, como se trocassem confidências, provavelmente armando algum plano diabólico. Call coçou o bigode e usou o cotovelo para se apoiar no balcão.

– Posso dar um jeito, quem sabe.

Ele disse assoviando em seguida, fitou os lábios de Gina como quem pede comida e a observou, ela estava linda, com um vestido azul escuro que realçavam seus olhos cor de mel, ela colocou o lápis entre os lábios e proferiu.

– Se acabar com os ratos, meu pai ficaria muito feliz, posso lhe pagar de alguma forma. - disse passando a mão no colarinho da camisa dele.

Call sentiu todos os pelos do seu corpo se eriçando, estava animado com a iniciativa dela, sabia que algum dia ele conseguiria sair com a loira mais bonita desse lado da cidade. Ele resolveu fazer silêncio e se fingir de difícil por apenas cinco segundos, retirou um cigarro do bolso da camisa laranja desbotada e colocou entre os lábios ainda apagado.

– Certo, venho quando a noite cair, deixe a chave em baixo do vaso lá fora.

Antes que ela pudesse mudar de ideia Call se vira para sair, quase derrubou algumas latas de carne em conserva, mas ao chegar na porta, ergueu a boina e fitou Gina, um sorriso leve se abriu em seus lábios, ele sentiu seu coração aquecer.

Não muito longe dali, Call vivia na pensão de uma senhora bigoduda, que quase nunca falava, ele mesmo não se lembra do som de sua voz, algumas vezes ela o assustava fumando seus charutos a meia noite na sala, era como um velho do cachimbo, criatura que seu pai costumava lhe contar quando era bem pequeno, o tal velho do cachimbo expelia uma fumaça que matava as vítimas, ele dizia que era muito forte, capaz de secar os olhos de quem o visse.

Ele subiu as escadas ignorando a mulher gorda que limpava os degraus, tentou não sujar nada e pisou cuidadosamente sobre os degraus de madeira que rangiam a cada passo que ele dava, a única segurança que ele tinha em subir as escadas sem medo era por conta da dona da pensão, era tão gorda e ainda assim subia as escadas. Call se jogou em sua cama, seu quarto era um cubículo pequeno, mal cabia sua cama e um criado mudo, local aonde ele guardava suas roupas e livros, ele gostava muito de poemas, sempre funcionava com as moças, mas em seus sonhos mais profundos, estava o rosto de Gina, ele largaria qualquer outro belo par de pernas por ela.

Seu cochilo durou pouco, e a luz da lua logo ganhou as ruas, afetando a todos com a sua cor prateada, banhando o canal da mancha e os rostos de quem passava por ali.

Call havia sido exterminador de ratos por uns dois meses, não aprendeu muitas coisas, mas sabia que daria conta daqueles bichos. Juntou um quite de veneno e ratoeiras que estava em baixo de sua cama, e desceu a escadas, caminhou pelas ruas um tanto surpreso ainda, não sabia que teria uma chance assim tão fácil.

Em frente a mercearia, ele se abaixou, pegou as chaves que estavam escondidas e finalmente colocou o corpo para dentro. O lugar não deveria ter mais de cinquenta metros, haviam cerca de cinco prateleiras e algumas bancas separadas, nos fundos havia

um depósito, ele já havia feito serviços aqui por muito tempo, mas sempre evitou os ratos, talvez por ter repulsa, ou simplesmente pelo arrepio que lhe causava ao ver uma criatura daquelas. O homem abriu a caixa com cerca de dez ratoeiras, e as armou em pontos estratégicos, deixando queijo envenenado na ponta.

Sentou-se em cima do balcão e ascendeu um cigarro, sentindo que isso aquecia seu corpo na noite fria, ele resolveu fumar mais um, deveria esperar que os ratos caíssem em sua armadilha e depois disso ele poderia ir embora. Os minutos se passavam, até que Call ouviu um estalo, era uma ratoeira. Ele deu um salto do balcão e observou que o rato estava comendo o queijo, mas a pílula de veneno estava no chão.

– Vocês têm o que? Parte com o outro? – Call resmungou sem entender.

Encabulado ele se encolheu entre as prateleiras, e deu um chute no rato, que bateu na parede, o barulho foi tanto que o pobre animal perdeu um dos dentes, ele saiu correndo em suas quatro patinhas, fazendo barulho no piso, enfiou-se em um buraco no chão que dava até uma tubulação, aonde muitos ratos iam para se reunir.

Uma reunião secreta começa a se organizar do lado de dentro da parede, enquanto Call checava as outras armadilhas, os ratos pareciam se organizar para alguma coisa, pois seu cochicho e barulho natural podiam ser ouvidos por Call, que detecta a moradia deles, inconformado ele bate na parede fazendo com que os ratos saiam pelo buraco, mas eles não agiam normalmente, estavam se organizando em filas, enfiando os focinhos no ouvido um do outro, aqueles ratos não pareciam normais, seus olhos ficaram vermelhos e todos eles, ao mesmo tempo, se colocaram em duas patas.

Call não conseguia entender, apenas pegou uma vassoura e tentou acertá-los, mas eles eram muitos, mais de trinta, e em seguida, mais e mais ratos saiam do buraco, Call não entendia como tantos ratos podiam caber em uma parede, ele tenta acertar um que rola para o lado, como um cão treinado, assustado, Call caminha em direção a porta, entretanto, outra fila de ratos estava a postos, esperando por ele, para que pudessem se vingar. Call ouviu grunhidos no teto, temeroso, abriu apenas um dos olhos ao olhar para cima, e abismado colocou as mãos na cabeça, pois os ratos estavam se jogando do teto.

O enxame de ratos subiu por seus pés, roendo sua cabeça e enfiando as patas em seus olhos, ele tentou se desvencilhar das criaturas, mas eles eram muitos, fazendo caminhos com suas pequenas patas por seu pescoço, e arrancando seus cabelos, descontrolados e profundamente irados, os ratos entraram em suas roupas, roendo sua bunda e outras partes de seu corpo, o coração de Call começava a doer e ao mesmo tempo a apertar, ele jogava os ratos no chão, contra a parede, mas eles acabavam sendo substituídos por outros.

O homem não pôde fazer muito quando sentiu o sangue descendo por sua garganta, exasperados, os ratos de olhos vermelhos comiam sua carne de forma voraz, fazendo com que Call gritasse de dor. Ele caiu no chão, e seu corpo foi coberto por criaturas de rabos longos e dentes afiados, magicamente a porta se abriu, mas Call estava se sentindo fraco, pois havia perdido muito sangue, ele tentou se mexer, mas os ratos haviam mordido seus calcanhares, comendo seus nervos, ele abriu um dos olhos e observou a luz da lua, os ratos carregaram seu corpo até a beira da rua, jogando-o no canal da mancha, e antes que seu corpo afundasse, ele observou aquela fila de criaturas peludas o fitando de longe.

Mas havia uma silhueta na porta, uma mulher de cabelos loiros o observava entre as sombras, em sua mão havia um rato e enquanto ela passava a mão sobre o pelo fedorento a moça deu um passo para fora da mercearia, a luz da lua refletiu seu rosto.

Os cabelos loiros ganhavam ênfase na noite, o sorriso largo estampado nunca pareceu tão feliz, Gina nunca esteve tão bonita, muito menos tão assustadora, ela fez um aceno para Call que afundava, cantarolando uma música enquanto fazia alguns passos de dança sozinha.

I don't have love to share, And I don't have one who cares. I don't have anything.

Foi então que Call sentiu a brisa gélida varrer seu rosto. Seus olhos escuros refletiram a luz da lua, mas não podiam mais vê-la.

17 Janvier 2023 17:43:57 11 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Síssi Almeida Olá, prazer em conhecê-lo, estranho. Sou amante de livros e de escrevê-los, meu romance com a escrita já se estende por alguns anos, mas ainda não me considero assim tão experiente nisso. Amo livros sobrenaturais, que possuem mistério e romance e por isso decidi escrever um que contivesse tudo isso. Escrever um livro do tipo que eu sempre quis ler, é isso que estou tentando fazer.

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SD Samanta D' marco
Maravilhoso. Sério.❤️

VV Verônica Vieira
Incrível, desde a escrita a história. 😍🥰❤️👌

Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Ah, quase me esqueço: O final não subestima nossa inteligência. Pelo contrário, nos brinda!

  • Síssi Almeida Síssi Almeida
    Eu gosto bastante desse conto, ainda não sou afiada nesse terror clássico, mas pretendo seguir o caminho. Obrigada por ler 🙏🥰 1 week ago
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Parabéns, Sissi! Uma estória com bases, imersão, fluidez e fechamento de contexto como há muito não lia. Sua imagética transcendeu as barreiras do comum e alcançou status de acima da média! Adorei!

SA Susana. A. V
Amei a maneira que a história seguiu, e o Plot Twist eu não esperava, devo admitir.
Suzana Vieira Suzana Vieira
Hal é muito carismático, e tem bastante personalidade, não é um personagem genérico. A atmosfera do conto deixa o leitor mais submerso, por conta da maravilhosa imersão sensorial. Amei! 😍🥰
November 22, 2022, 00:08

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