silva-pacheco1589114879 Silva Pacheco

As tradições pertencem a quem as contam. Há outras histórias acerca daqueles que sairam do Egito? Afinal, como sobreviveram os que vagaram pelos hostis domínios do deus Seth? O que teriam a nos contar as profetisas, quando o vento sopra pelas mechas de cabelo que descem pelos seus véus?


Histoire courte Tout public.

#mistério #profecia #mitologia #segredos #mulheres #bíblia
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Águas Amargas

Na fronteira do Egito com Canaã, havia um Oásis chamado Kadesh. Era largo, bonito e refrescante. E entre o palmeiral, cuja vista dava para Canaã, ficava uma pedra, sobre a qual sempre se sentava uma anciã.


A velha foi a primeira coisa que o jovem viu, vindo das montanhas de Judá em peregrinação ao sul. Ela estava costurando um par de sandálias de couro, como fazia dia após dia, sentada sobre a pedra. Já tinha avistado o garoto de espada ao cinturão e véu-turbante a proteger-lhe o rosto da areia. Nada fez, além de prosseguir tentando costurar.


- Oh, senhora - saudou o jovem - esta é Kadesh-Barnea?


Sim - ela respondeu, sem tirar os olhos da sandália.


- Vim de muito longe. Tenho sede.


- Pois beba, meu filho.


- A sede não é só de água.


- Nunca é, meu filho.


- A senhora imagina o que vim saber? Outros vieram antes de mim?


- Muitos vêm. Apenas bebem. Depois, se vão.


- E ninguém nunca quis saber sobre a ferida?


A velha apenas costurava. Pareceu por um instante tosquenejar de sono. Mas voltou a si. E a costurar...


- Senhora?


- Você estava falando de ferida...


- Isso! Isso mesmo! Quero dizer...a ferida na rocha! Isso tudo era um deserto não era? Até que a Criança-do-Deus-Sem-Nome, Aquele que veio do Egito, feriu a rocha com seu cajado e pá! Fez das pedras o rio brotar!


A velha riu.


- Ah, sim - respondeu, lançando ao chão as sandálias costuradas - essa ferida...


- Isso, isso! - os olhos do garoto reluziram - onde está? Poderei eu vê-la!


- Ver o que menino?


A velha se levantou da pedra, e foi andando, a mancar, na direção das águas. E o jovem veio atrás:


- A rocha que foi ferida? A senhora acabou de dizer que sabe qual é!


- Não disse não, filho.


- Ora, mas disse conhecer a história.


- A história eu conheço. Mas a tal "rocha ferida de cajado", nunca vi por aqui.


O garoto, então parou, em meio às palmeiras.


- Então...é tudo somente causo contado? Aqui sempre foi um Oásis?


- Oh, não, não, não, meu filho. Isso aqui era só pedras, escorpiões e chacais.


O jovem abriu um sorriso e se apressou, correndo, para alcançar de novo, a anciã, saltando diante dela:


- Ora, então, se não há rocha ferida, como este Oásis surgiu?


- E quem disse que uma rocha foi ferida por "aquele que veio do Egito"?


O garoto parou de novo, então, entre pedras pontiagudas:


- Ora! Quem disse...quem disse...quem disse foram os sacerdotes! Os homens que ministram na Cidade Sagrada!


A velha olhou por cima do ombro para o garoto, e gargalhou.


- D-do que está rir? - perguntou ele.


- Menino...pense...de quem é o cajado e as tábuas que seus sacerdotes usam?


- Daquele que nos tirou do Egito!


- E que história espera ouvir deles?


Pela terceira vez o garoto parou. Então, à beira das águas do Oásis.



- Mergulhe.


Ele já tinha se despido dentro de uma tenda, e banhado o corpo em tonel de água com ervas e pétalas de flores. Tudo como a anciã havia orientado. Faltava, apenas, o mergulho nas águas de Kadesh.


Nelas ele se lançou, e nadou para o fundo, tanto quanto pôde. Nadou, nadou, nadou, até o centro do oásis, encontrando uma enorme pedra que emergia do fundo das águas até a superfície.


Em busca de ar, ele subiu pela pedra, que formava uma minúscula ilha no centro das águas. E sobre a rocha viu uma imponente árvore, cujas flores eram de pétalas vermelhas e brancas.


Estupefato, o garoto deteve-se por instantes. Instantes que, em onírico fascínio, pareceram incontáveis horas.


- Volte.


De alguma forma ele ouviu a voz da anciã, mesmo ela sussurrando tão longe nas margens das águas. Nadou de volta, tomando das areias o manto que ela trouxera para ele.


- Aquela é a rocha? - perguntou o mancebo, após recuperar o fôlego.


- Depois de ver o que viste, ainda pergunta por uma rocha?


- Não...não...a árvore...é a árvore! Ela tomou meus sentidos. É maravilhosa. Mas...


- ...Mas por que você insiste em rocha?


- Não é a rocha...


A velha apenas olhava o garoto.


- A árvore! Foi a árvore!


A velha nada disse, apenas expressava um tedioso "finalmente!" com o semblante.


- Então, o Oásis veio da árvore?


- ...


E quem a colocou lá, se nada havia antes a não ser pedras, escorpiões e chacais?


A anciã riu uma risada de satisfação.


- Agora tu fizeste a pergunta certa!



...


- Não é possível! - retrucou o jovem, recostado junto a uma enorme pedra, protegido da brisa do Oásis pelo manto que recebera da velha.


- E por quê? - indagou a anciã.


- Como aSsenhora-da-Água-Amarga gerou estas águas doces? Isso não me parece certo.


- Eu não falei de Senhora-da-Água-Amarga...


- Ora, me disseste a pouco: foi aquela senhora. Em nosso idioma, [Senhora] e [Amargo] são quase as mesmas palavras.


- É o que dizem lá na Cidade Sagrada?


- Não é isso?


- A Criança-do-Deus-sem-Nome, a quem chamam de Moisés, é alcunha egípcia. E o mesmo se dá com quem vocês chamam de Miriã, Uma-dos-Três-que-Vieram-do-Egito.


- Então, no idioma dos egípcios, Miriã nada tem a ver com águas amargas?


- Começas a entender...


- E como se diz no Egito?


- Meri-Yam - a anciã se aproximou, inclinando a cabeça em direção ao jovem e olhando nos olhos dele - A Amada do Mar!


O garoto meneava a cabeça.


- Então...


A anciã, ainda que mantivesse seu semblante fleumático, fartou-se. Pegou o tamborim, que trazia pendurado em sua cintura. Junto a coxa, tremelicou com o instrumento, e o jovem se arrepiou quando a velha revirou os olhos.


Era como se as palavras da canção, entoada pela velha, tomassem forma diante dele. O poema falava da mulher de pés descalços, pele queimada de sol e cabelos negros, cacheados e esvoaçantes. A tal mulher ergueu os braços, adornados de enfeites egípcios que, como os brincos dourados em suas orelhas, em nada remetiam ao rústico vestido de beduína. Numa das mãos, ela trazia tamborim. Com a outra, ela tocava. E, dançando, o mar se abriu, engolindo reis e cavaleiros.


Uma multidão de escravos, bandoleiros, mercenários e desvalidos passaram pelo Mar de Juncos secos, e, depois, pelo deserto, que parecia extensão do vestido dela. Vagaram os habiru, sedentos, um, dois, três dias. Exaustos, pararam entre pedras, cercados por escorpiões e chacais. Nada havia ali se não uma poça de água salobra, do tamanho do corpo de um menino.


Eles clamaram. Gemeram. Declararam que ali seria sua cova.


Mas ela invocou a JAVÉ. E Ele lhe mostrou uma árvore, a árvore que tornaria a poça em água doce. A Amada-dos-Mares então partiu, em direção ao horizonte, ordenando que os habiru esperassem...


Ao fim do dia ela voltou, cambaleando sob o sol do deserto. Ao chegar, lançou sobre a poça a árvore. As águas então jorraram, jorraram com força como uma cachoeira, brotando em 40 dias árvores e arbustos que só crescem em 40 anos.


A velha acabou de recitar. Os olhos se desviraram. O rapaz, paralisado, a olhava.


- Eu ouvi essa história...da árvore lançada na água...de um lugar chamado Mara...não aqui, em Kadesh:


Depois fez Moisés partir os israelitas do Mar Vermelho, e saíram ao deserto de Sur; e andaram três dias no deserto, e não acharam água. Então chegaram a Mara; mas não puderam beber das águas de Mara, porque eram amargas; por isso chamou-se o lugar Mara. E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que havemos de beber? E ele clamou ao Senhor, e o Senhor mostrou-lhe uma árvore, que lançou nas águas, e as águas se tornaram doces. Ali lhes deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou.


A anciã inclinou entendidamente a cabeça de lado. Ele então arregalou os olhos, indo em direção a ela.


- Hei! Espere! A senhora tinha dito que havia apenas pedras...e a árvore? Ninguém viu? Só a Amada-dos-Mares?


A velha, então fitando tediosamente o nada, olhou uma vez mais nos olhos do menino, o que o fez despertar de sua estupidez.


- Era ela! A árvore! Era ela mesma! – concluiu ele, após um curto silêncio.


O garoto olhou para baixo, andando em círculos e balbuciando algo com os lábios, até finalmente entender a última coisa que faltava:


- Aqui é o túmulo dela! Ela partiu, sozinha, para encontrar água e, ao voltar, desfaleceu sobre a água salobra antes de finalmente apontar a direção do Oásis! Por isso nossos ancestrais a enterraram aqui! Isso até os sacerdotes contam, que aqui ela foi enterrada! Por isso o local é santo. Por isso o milagre das águas!


A anciã sorriu.


- Já vai anoitecer - disse ela - não poderá voltar agora. Vou preparar uma esteira para que durma numa das tendas. Amanhã, poderás ir.


- Hei, espera - ele pedia, erguendo uma das mãos - E a ferida? Na rocha? Não há ferida nenhuma então? Mesmo que não seja numa rocha?


- Há.


- Há?


- Há.


- Então, como isso se deu?


- Isso tu, sendo homem, jamais concluiria com teu próprio pensamento, tal qual fizeste com a árvore e o túmulo.



Lá estava. A Cidade Sagrada, as muralhas brancas, a Casa do Rei, o Templo Adornado.


Foram semanas de viagem, As pernas doíam, as costas ardiam, pela peregrinação ao deserto.


Os sacerdotes esperavam o mancebo no pátio. Todos de branco, cada um com seu cajado em mão. O próprio jovem pôde vestir suas roupas sacerdotais, após banhar-se em água pura tal qual fizera no Oásis.


- Então, Manassés, o que nos trazes de sua peregrinação no deserto? - perguntou um empáfio arauto, à frente do conclave.


- Estive em Kadesh, e lá procurei pelas nossas origens.


Após um instante de silêncio, o mais velho entre os sacerdotes ergueu sua austera voz:


- Achaste a rocha?


Outro instante de silêncio antecedeu a resposta do jovem. Ele olhou, de queixo erguido, de um a outro dos sacerdotes, que formavam um semicírculo diante dele.


- Clamais na Cidade Sagrada, e dizei a todos – recitou o garoto - que contemos e recontemos o que ouvi e ouvi em Kadesh!


Mais um silêncio.


- E o que viste? E o que ouviste? - indagou o arauto.


O jovem sacerdote balançou a cabeça afirmativamente:


- Eu vi em Kadesh a rocha que Moisés feriu com o Cajado! – respondeu, enfático - E ouvi a história que vós contais a mim e a nosso povo, desde sempre. Amém.


E os demais sacerdotes responderam:


- Amém.


E em toda a cidade se ouvia:


- Amém.

12 Mai 2022 22:37 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Silva Pacheco Sou um historiador e cientista das religiões apaixonado pelo processod e crianção de personagens e de contar histórias dos mais variados temas.

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