silva-pacheco1589114879 Silva Pacheco

Desde a Criação, a deusa da Lua traça seu caminho, entre sua triste sina e seu imenso poder.


Histoire courte Tout public.

#mitologia #mistério #deusa #lendaurbana
Histoire courte
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A trágica sina da deusa da Lua

Aurora dos Tempos


A jabuticabeira finalmente foi plantada. Terminado o trabalho, Coaracy se sentou, junto ao tronco. Contemplava, enfim, a Criação.


Seus olhos estavam tão cansados quanto satisfeitos. E ali, recostado junto ao tronco, foram lentamente tosquenejando, não importava o quanto tentava mantê-los abertos. Até que os olhos flamejantes, cada vez mais pesados, não resistiram.


Com o fogo ocultado pelas pálpebras, a Terra caiu em trevas. Os bichos se encolheram em meio ao breu e as folhas, tão jovens, sufocaram.


E dentre as estrelas, ela ouviu a Criação gemer de medo.


Jacy desceu dos céus até a mata. Vagando entre as árvores primevas, finalmente o homem nu e de pele dourada dormindo junto a jabuticabeira.


O brilho flamejante do corpo adormecido de Coaracy foi refletido nos olhos e também e nos lisos cabelos negros da donzela. Reluzindo em prata, alumiou toda a Criação. Os peixes foram então reconfortados e as folhas, enfim, respiraram.


Jacy abaixou diante de Coaracy. Ao acariciar-lhe o rosto, ele acordou. Boquiaberto, contemplou os lábios delicados e seios firmes da donzela que, admirando-lhe o viril peitoral, desejava-lhe com a alma.


Num ímpeto, ela se lançou sobre ele, acomodando-se em sua ereta genitália, enquanto segurava-o pelos cabelos.


A paixão do beijo que se seguiu os fez arder.


Ele ofegava. Ela gemia. A penetração estremeceu a terra com o mover dos corpos, e a Primeira Montanha se formou com vento da libido dos amantes.


- NÃO!


A negativa dele fez chorar todos os pássaros da Criação.


- Coracy, meu amor! - ela suplicou, após ser tirada de sobre seu amante.


- Você não pode suportar meu calor – disse ele, subindo ao céu com lágrimas a descer pelos olhos – e a Criação precisa de você.


Ela também chorou, contemplando o céu. Ouvindo-a, feras e pássaros vieram consolá-la, enquanto as folhas caiam sobre seus cabelos, louvando silenciosamente por aquela que fora a Noite Primeva.


...

Minas Gerais, 1937.


- Quem será uma hora dessas? - murmurou dona Gestrudez, ao toque da campainha.


Abrindo a porta, a viúva recuou. Nunca vira na vida aquela mulher de longos cabelos negros e vestido longo azul. Ignorando sua estranheza, a mulher entrou pela porta, e olhava tudo em volta enquanto passeava pela sala de paredes brancas, estofados vermelhos e utensílios dourados.


Pasma, Dona Gertrudez apenas observava, ainda segurando a maçaneta.


No rádio, tocava Chão de Estrelas. O justo vestido, azul brilhoso, marcava o corpo esbelto da mulher.


-Você fará um favor para mim – disse ela, parada ao lado de um quadro na parede, onde figurava Dona Gertrudez, ainda jovem e vestida de noiva, ao lado de um homem de smoking.


- Que? - perguntou Dona Gertrudez, ainda junto a porta e segurando a maçaneta.


- Você comprará um imóvel abandonado na Cidade de Serafins. Lá, construirá uma casa de repouso, contratando médicos e enfermeiros. Haverá um único quarto, para um único hóspede.


Dona Gertrudes, franzindo a testa, suspirou antes de refazer a primeira frase que lhe viera à mente. Confusa, substituindo-a por uma pergunta:


- Quem será este hóspede?


A mulher então contemplou o relógio. Marcava meia-noite em ponto.


- O hospede surgirá quando você terminar de construir...


- E eu vou...eu...eu vou pagar pela estadia? Desta pessoa? – perguntou Dona Gertrudes.


- Não. E a pessoa ficará somente duas semanas. Depois, irá embora. Mas esteja atenta ao seu retorno. Ela voltará.


A anfitriã viu a mulher passar de novo pela sua sala, em direção à porta. Seguiu pelo quintal, indo embora com Lua Crescente sobre si. E, antes de ir embora, ela olhou de forma blasé por cima do ombro:


- Mais uma coisa. Você terá de inaugurar a casa de repouso e receber seu paciente na última noite da Lua Cheia, assim que concluir as obras. Tão logo o sol se ponha - concluiu.


A mulher então atravessou o jardim, saiu pelo pequeno portão e desapareceu virando a esquina, debaixo do olhar de D. Gertrudes, de pé junto à porta e ainda segurando a maçaneta.

...

Dona Gertrudes ouvia outra balada triste no rádio ao lado da cama. Lá ficavam um copo com água e comprimidos. Madrugada após madrugada, era a mesma coisa:


- Quem é aquela mulher? Que estanho pedido era aquele? Como não consigo tirar isso da minha cabeça? - se perguntava a viúva.


Quando o sol raiou, Gertrudes se decidiu. Foi até uma corretora de imóveis, e começou a agilizar a compra do imóvel. Chegou em casa cansada como nunca, deitando-se na cama. Mas, finalmente, após dias, dormiu. Dormiu como há muito não dormia. Sonhou como há muito não sonhava. Doces sonhos, nos quais dançava e bebia com seu falecido marido.


Assim se passaram as semanas. Conforme a obra se aprontava, os sonhos se tornavam cada vez mais intensos.


A última Lua Cheia se aproximava.

...

O sol se punha. Dona Gertrudez esperava em frente à casa de repouso, entre lojas, boutiques e cafés da movimentada rua de Serafins. Ao lado dela, esperavam também enfermeiro de roupa branca e uma cuidadora de uniforme azul.


- Me informe as horas, por favor - pediu Dona Gertrudez a um dos enfermeiros.


Ele não respondeu a tempo. Todos se voltaram para o fim da rua assim que notaram a cena. As luzes dos postes foram todas se acendendo, e da esquina surgiu um Chevrolet - 1915 vermelho sangue, avançando pela rua molhada da chuva que caíra durante o dia.


Dona Gertruzes arregalou os olhos. Lá estava ela! A mulher que havia lhe procurado semanas atrás! Ela vinha no banco elevado da parte de trás do carro, entre dois rapazes de smoking branco e flores-de-maio adornando o bolso de seus paletós. Beijava a ambos, mordiscando seus lábios entre gargalhadas e doses de champanhe.


O carro logo estacionou diante a casa de repouso. Auxiliada pelo motorista, a mulher desceu, afetada no andar, segurando parte do justíssimo vestido vermelho que trajava.


- Então? – perguntou ela, com sorriso aos lábios e voz embriagada – onde fica meu quarto?


A cuidadora a acompanhou para dentro da Casa de Repouso, cuja porta ficou aberta. E, do lado de fora, Dona Gertrudez observava a cena, boquiaberta, iluminada pelas lamparinas da rua e pela tênue Lua Cheia no céu.

8 Mai 2022 11:48 1 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Silva Pacheco Sou um historiador e cientista das religiões apaixonado pelo processod e crianção de personagens e de contar histórias dos mais variados temas.

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Olá? Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para parabenizar pela verificação da sua história. Querido autor, com uma abertura mística, exótica e caótica, seu conto se destaca majestosamente. Parabéns! É magnífico sua abordagem, uma narrativa requintada que exala classicismo de grandes autores. Quanto mais avançava, mais hipnotizado eu ficava. Foi uma leitura adorável, fluída e bastante coesa. Aliás, ótimas descrições! Tudo era tão palpável; eu pude tocar, sentir os aromas e visualizar os ambientes tão bem. Eu digo facilmente: uma das melhores histórias de 2022. Sobre a Dona Gertrudez... Coitada! Recebeu um dever pra lá de confuso e bastante enigmático; não é sempre que recebemos uma visita misteriosa e divina. Mas aquele final, oh céus! Fiquei desnorteado. Por favor, caro autor, me torne um personagem, me faça ser uma de suas criaturas... Afinal, impossível não querer ser escrito por suas mãos talentosas. Agora sobre sua ortografia e gramática, não há muito o que dizer além da palavra: impecável. Para finalizar, irei repetir o que eu disse anteriormente: uma das melhores histórias de 2022. É uma história que prende do início ao fim. Já anseio por mais! Agora fico por aqui. Desejo muito sucesso pra você. Até mais!
May 12, 2022, 05:19
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