asheviere Marianna Ramalho

Você uma vez olhou para as estrelas e desejou ser imortal. Infelizmente, seu desejo foi realizado.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#drama #imortalidade #imortal #angst #fantasia #oneshot #conto
Histoire courte
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Único - Per aspera ad astra

Você uma vez olhou para as estrelas e desejou ser imortal.

O sonho dos jovens, cheios de energia e planos, que por mais longe que olhem, ainda veem a vida muito curta. Não há tempo para tudo. O sonho de pessoas que estão ainda começando, ainda no ponto de partida da vida, e ainda não passaram tempo suficiente na estrada para entender que toda viagem precisa de um destino. Um sonho bobo, quase infantil, que não esperava mesmo que fosse atendido.

Você uma vez olhou para as estrelas e desejou ser imortal.

Azar, as estrelas lhe ouviram! Azar, eu digo, mas não para seus ouvidos.

Pobre e tola criatura, quão pequena é sua visão. Pequeno, pequeno, erga o olhar da lama. Ou melhor, não! Olhar para cima foi o seu problema. Entenda que pertence ao chão.

Mas você não percebe de início, porque como poderia saber? As estrelas são discretas dadivosas, sempre agem em silêncio. Ou talvez sejam barulhentas, explosivas, talvez estejam rindo com seus brilhos oscilantes – maravilhas. Alegre-se! És a piada das estrelas a milhares de anos-luz de distância, mesmo que não possas ouvi-las.

Você não percebe de início. Para você, nada mudou. De novo: pequeno. Pequeno, pequeno. Entende tão pouco de si que nem percebe uma mudança dessas? Ah, meu bem, talvez não a mereça.

Do que estou falando? Não é uma bênção a depender de merecimento. Não é um presente, é uma armadilha. E você já caiu. Ah, mas ainda não sabe disso.

Uma década se passou sem perceber – como você envelhece bem!— Duas, três décadas – mas ainda é parece tão jovem! – Quatro décadas de saúde perfeita. E então, um acidente. Todas as maiores descobertas sempre ocorrem por acidente. Uma pista molhada, um carro sem direção, uma perna quebrada. Dor. Uma perna que por um momento esteve quebrada. Uma pessoa que por um momento sentiu dor.

Você desconfia, estranha. Mas já se esqueceu de seu desejo tolo em uma noite qualquer, tanto tempo atrás. Investiga. Não sabe a causa, mas sabe que é especial, diferente, invulnerável.

Você leva meio século para descobrir que é imortal. Não tem problema. Ria! Que é o tempo, agora, para você? Seja pródigo, desperdice, jogue-o na lama! Destroce o tempo em seus dentes, sinta-o afiado contra sua língua, estilhace-o e veja que os cacos não podem lhe ferir. Seu sangue imortal ainda aguarda o que há de vir.

Perdoe-me se pareço irreverente. Não entenda o que digo como mera provocação incivil. É que você ainda acha isso uma coisa boa, e tamanha ingenuidade inacreditável me fascina. Eu quero observar até onde vai seu desvario, não serei um incômodo. Você nunca me deu ouvidos, começará agora?

Oh, você perdeu alguém.

Meus pêsames, mas a vida continua, isso não é um problema. Todos, imortais ou não, perdem entes queridos. A perda é consequência do afeto, um preço bem pequeno, ouso supor, já que você ainda cria laços mesmo quatro séculos depois. É o que os filmes não lhe contaram, mas você já imaginava desde antes do seu desejo: seres humanos se acostumam, inclusive com a dor.

Você cria laços e conexões e perde a todos. Mas já se acostumou.

Se isso é o preço da imortalidade, você pensa – e algo em você deve ter mudado, para que pense na vida com tanta banalidade –, é um preço bem pequeno.

Pequeno, pequeno, ainda preso ao chão sem enxergar! Não aprendeu nada nesses primeiros mil anos? Vou lhe contar o segredo, então. Chegue mais perto. Não posso falar muito alto, é um segredo duro para o ego. Vidas humanas são tão pequenas que qualquer coisa maior já parece ser eterna. Ilusão nossa, os grandes protagonistas do universo também terão seu fim.

Agora você sabe. Lembre da perna quebrada, do peito dilacerado, do crânio esmagado e de cada acidente que veio depois. Seus primeiros milhares de anos não foram muito tranquilos, mas lhe ensinaram uma lição: você ainda sente dor. Seu corpo se reconstrói infinitamente, mas só porque antes se destrói. E há a dor, e há a morte de todas as coisas ao redor. Há fome e há frio, pungente, constante, e tudo isso continua irremediavelmente inofensivo. O tempo passa como nada, mas não se preocupe, eu estou contando. 5 bilhões de anos mais tarde, há calor, muito calor, na bocarra vermelha de um gigante que engole planetas um por um.

Sei que está sofrendo, mas por favor, levante o olhar desta Terra desolada e moribunda (ou já completamente morta?) e veja. Em meio a tudo isso, há algo a se apreciar. Agora o gigante já se foi, e seu ilustre único companheiro nessa solidão brilha pálido no céu. Uma vez um gigante vermelho, agora um tímido ponto de luz pálida – o cadáver do sol. Não negue que há beleza em testemunhar algo tão único para seus olhos.

Único, por enquanto. Garanto que ainda verá outros até se enjoar deles. Mas isso ainda é distante.

Por um momento, você tem paz. E teme se acostumar a isso também. Não se preocupe, logo passará.

Não há mais um solo sob seus pés. Inspire. Não há mais seu companheiro brilhando no seu, mas o que ele deixou para trás é igualmente belo. Inspire. Poeira estelar de uma nebulosa. Inspire.

Inspire, inspire, inspire… Queime. Seus pulmões queimam com o estúpido instinto de tentar respirar onde não existe ar. Seu sangue ferve nas veias onde não há pressão externa para manter seu corpo uma coisa inteira. Respire e queime, ferva e congele. E persista, porque você desaprendeu a morrer.

E você mediu forças com o universo. Tudo ao seu redor busca sua ruína, mas uma provação atrás da outra, todas falharam. Asteroides não lhe ferem, as estrelas não lhe matam. E você ficou contra tudo também, mas, sendo infinitamente menor do que o cosmos, sequer pode arranhá-lo em retribuição. Você mediu forças com o universo; houve empate.

Você mediu forças com as estrelas e venceu. Porque tudo que existe tem um fim, e uma após a outra, elas se desfizeram, espalhando-se em combustível para reviver no coração de alguma estrela recém-formada. E você ainda aqui, eterno inútil.

Será que nesse ponto, ter um coração batendo no peito é o suficiente para dizer que ainda vive? Acostumando-se ao ritmo, agora mal o nota, e quando o percebe soando dentro de você, não se lembra mais do que é, e mesmo assim não se assusta, pois, seja o que for, não lhe ameaça. É o que acontece depois de um tempo, assim como com as palavras. Sua espécie sempre foi mestra em se adaptar, e é impressionante o quanto vocês podem aguentar. No seu caso, obviamente não falo de sobrevivência, mas de conformidade e desejo. Mergulhando no próprio nada, inundado por ele, você acostumou-se a isso também. O nada lhe envolve, lhe cerca, e você o reflete. Seu corpo injuriado, que foi mil vezes destroçado e mil e uma vezes reconstituído, já não sente mais a dor, ou sente, mas não a percebe, pois humanos acostumam-se a dor, como acostumam-se aos sons, e a dor agora é tão insignificante quanto as batidas ritmadas de dentro do seu peito, que mal se fazem notar. O nada lhe cerca e você o reflete. Você o reflete por dentro. Você não morre, não sofre dor, tampouco deseja qualquer coisa pois há muito o próprio verbo perdeu o sentido.

Talvez você seja o próprio nada, e só ainda não notou. Você não sabe dizer. A ausência de resposta enlouqueceria qualquer um que se atrevesse a racionalizar sobre ela, mas isso não parece lhe assustar.

Por favor, não me leve a mal, mas você ainda é racional?

Depois de tanto tempo, as coisas que lhe digo fazem sentido, ou as palavras se perderam, esquecidas, abandonadas? Menos palavras e mais ideias, e então menos ideias também.

Mas continuo contando o tempo.

Agora o Cosmos tem o dobro da idade que tinha quando você surgiu, e você sente como se todo instante fosse o seu último, como se sua longa vida estivesse sempre na iminência do fim. Mas é da eternidade que estamos falando, e ela sempre está apenas começando.

Quando você passou a me ouvir? Consegue discernir quem eu sou? Talvez eu seja aquilo que ouviu seu desejo, e, rindo, o realizou. Talvez eu seja alguma outra coisa inumana, igual a você, tentando lhe mostrar que sua solidão é apenas aparente, mas que um dia você estará entre iguais. Ou, ainda, talvez eu seja a sua própria voz, que há muito não reconhece, falando das profundezas de sua mente, tentando lhe fazer lembrar de como chegou até aqui, e como ainda pode fazer tudo parar. Você está cercado de estrelas, e foi com um pedido tolo para o ignoto que tudo começou. Mas você não se lembra que pediu pelo começo disso, então como poderia pedir pelo fim? Estou lhe lembrando agora, vamos, peça! Peça, peça às estrelas pelo seu fim, peça. Peça, mas seja humilde. Peça que retirem o presente que lhe deram, agradeça, foi uma honra estar ao lado delas, mas isso não é para nós! Lembre que a eternidade acaba para toda a matéria, então peça enquanto ainda há estrelas para lhe ouvir. Peça agora, e peça rápido, antes que não reste mais nenhuma.

Porque as estrelas queimam ardentemente uma a uma, a natureza das coisas é queimar. É o fim de todas as coisas exceto uma.

Você.

É tarde, agora. Todas já se apagaram. A chance se perdeu.

Uma última vez, peço que olhe ao redor. É aqui onde o tempo acaba, mas para você, o tempo acabou muito antes. Você se lembra? Estilhaços de tempo que não causavam mais do que arranhões em sua pele. O fim do próprio universo é algo ainda mais encantador do que aquele primeiro cadáver de sol que testemunhou. Quantas belezas nunca observadas pela visão pequena dos humanos você colecionou até aqui? Há espaço para mais uma? É claro, mas sejamos sinceros. Esta última beleza permanece inobservada, e não há nada de pequeno em uma criatura como você.

Você não é mais humano há muito tempo.

Você é tudo. E de tanto ser tudo, nada mais restou.

15 Janvier 2022 21:10:06 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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À suivre…

A propos de l’auteur

Marianna Ramalho Também posto no Nyah, no Spirit e no Wattpad sob o nome de Jupiter L. Se houver interesse pela minha escrita de forma "integral", sugiro acompanhar pelo Nyah ou Inkspired. Nem todas as histórias são postadas no Spirit e no Wattpad.

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