C
C Clark Carbonera


Maria Morena deve ser uma feiticeira para conseguir sair do corpo assim, como que nas asas das estrelas...


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#sonhos #viagem #astral
Histoire courte
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Capítulo único



Maria Morena era uma jovem que possuía uma magia, chamada por alguns de maldição, por outros de possessão e por uns poucos loucos varridos de ‘coisa normal’.
A magia foi assustadora no começo, mas com o tempo passou a fazer parte da vida dela e a maldição tornou-se a tal ‘coisa normal’ dos loucos varridos, e o medo transformou-se em potência revigorante.

Sua magia era simples e talvez por isso não muito bem compreendida pelos humanos: Maria Morena saía do corpo durante a noite!

Mas ela não fazia como nos tratados médicos conhecidos. Seu corpo não se movia sozinho pelos corredores da casa, os olhos fechados, os braços bem esticados à frente, os sussurros assustados dos demais moradores preenchendo a noite calada: “Não a desperte! Ela pode morrer!”; “Afaste-a das facas! das tesouras! jesus amado de todos os anjos, a janela! a janela!”

A coisa estranha era tão mais singela do que levantar o corpo pesado da cama e ficar tateando paredes às cegas. Quando dava por si, Maria já estava lá fora da casa. Às vezes mirando do teto do seu quarto o corpo dormindo lá embaixo na cama. Outra vezes, raras essas, por mais que ela não desejasse que assim fosse, Maria acordava já lá no alto, bem no alto com as nuvens, voando como o mais rápido dos pássaros, gargalhando de exultação sob a luz das estrelas.

Todavia, o que acontecia normalmente era mais trivial: andanças por ruas de cidades estranhas e diferentes da sua; seres vestindo-se de modo usual (ou às vezes sem qualquer tipo de vestimenta); brigas coletivas; boates ao ar livre; disputas de poder entre grupos altamente organizados.

Quando topava com um desses últimos, seu medo era maior do que a coragem e o corpo puxava-a de volta instintivamente, a pele toda pinicando e o coração em disparada.

Além dessas ocasiões, durante suas viagens, Maria encontrava poucos iguais a ela e muitos espíritos cujos corpos apodreciam debaixo da terra. A maioria não entendia onde estava: para estes, Maria atendia aos pedidos de socorro e lhes mostrava a melhor direção a seguir.

Alguns outros sabiam bem até demais onde estavam e por isso perseveravam em dominar os ignorantes com duras mãos e brutos corações: para estes, Maria questionava quem eram e por qual motivo tamanha violência e agressividade para com os demais, ao que ouvia como resposta:

Nós todos só fazemos o que esses inúteis pedem: punição por quem eles são. Ou melhor, punição por não saberem quem são! Rá, enquanto eles não souberem quem são e não aceitarem o que encontrarem, nós estaremos ao lado deles, fazendo-os sofrer e sofrer e sofrer, satisfazendo suas reais necessidades! É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto!

Ela não compreendia aquelas palavras que eram ditas por todos os ditadores de espíritos alheios que costumava encontrar nas esquinas das noites, até que certa vez, sentada no telhado da sua casa, Maria Morena perguntou-se sobre as razões das coisas ruins que existiam no mundo dos espíritos.

Será que era por isso que o “mundo dos vivos” era tão barulhento e violento? Por mais que Maria Morena tentasse ajudar aqueles que pediam ajuda, seu coração parecia pesar-lhe no peito.

Então, como se a ouvir um chamado, Maria dirigiu o olhar para o céu enluarado e percebeu a chegada de um espírito sorridente, a estender-lhe os braços. Apenas aquele abraço foi o suficiente para limpar as preocupações e tristezas do coração dela e um sorriso fácil cresceu na face arredondada da jovem.

Enquanto o espírito acariciava os cabelos de Maria, ele questionou:

— Não entende o que tais espíritos presos aos seus próprios demônios dizem quando falam sobre serem incompletos e usarem a submissão violenta para com outros como resposta para suas necessidades?

Ela piscou, atordoada.

— Aqueles espíritos maltratam outros só porque esses outros não se conhecem completamente ou não se aceitam como são, sendo por isso incompletos. Mas e os que maltratam? Eles sabem quem são? Será que eu mesma sei quem eu sou?

O espírito esperou que ela continuasse, mas Maria calou-se de repente.

— Os violentos também são incompletos, eles só não o sabem ainda. Por que o pesar, minha amiga? O que de fato te angustia — tentou o espírito outra vez.

— Uh, eu não sei — ela suspirou. — As coisas são muito confusas, mundo dos vivos onde as pessoas parecem mortas...mundo dos mortos onde os espíritos parecem vivos... Parece que a gente só sabe é sofrer lá e aqui, em vida e em morte. Tudo isso porque não sabemos quem nós realmente somos?

Maria deu de ombros, agitando os cabelos castanhos, subitamente cansada e sem ânimo para continuar naquela reflexão.

O espírito riu, reverberando uma energia que queimou os miasmas do desalento ao redor de ambos:

— Você ao menos tem a chance de sair do corpo de vez em quando e ver a vida com novos olhos! Pois, minha cara, sem a pequena morte de toda noite, como sobreviver à vida de cada dia? Lembre-se que enquanto um de nós estiver a sofrer, todos os demais sofrerão, em menor ou maior escala. Todos estamos conectados por um fio divino, por mais que não desejemos tal. Se um chora, você de alguma maneira sente essa lágrima no seu coração; mas também, se um ri, gargalha com alegria, você sente a vibração no peito. Escute seu coração! Se o chamado é de uma lágrima, vá e enxugue-a; se é de uma risada, não perca tempo, voe até lá e compartilhe das gargalhadas!

Maria Morena espremeu os olhos.

— Talvez eu esteja começando a entender um pouco melhor. Mas acho que isso acontece agora, porque eu me sinto mais leve, mais animada, o que me proporciona afastar-me do mundo um pouco e ver o cenário à distância. Só que isso aconteceu porque você apareceu! Foi só ouvir sua risada, que as energias pesadas ao meu redor se desfizeram! Não consigo fazer isso sozinha!

O espírito sorriu gentilmente, pois compreendia muito bem as dificuldades da jovem Maria.

— Amiga minha, entre minha casa e a tua há uma ponte de estrelas. Basta vislumbrar a primeira e seguir, pé ante pé, pulando de uma em uma, pois que de luz em luz nós nos falamos mais facilmente. Veja bem, minha casa é por ali.

Ele apontou com um dedo translúcido para o céu, mas Maria não via casa alguma. Ela suspeitou.

— Pensa mesmo que estou a te enganar? Está é há muito presa pelas coisas dessa terra que te puxa como âncora nos pés. Mira meus olhos e verá que aqui dentro não existe mentira alguma, apenas amor por você.

Maria Morena olhou bem nos olhos do espírito e seu coração expandiu como um balão ao ver que ele contava a mais pura verdade. Os olhos deles estrelavam um amor que ela nunca viu nos espíritos que costumava encontrar pelas noites.

— Como é que você consegue fazer isso? Amar desse jeito?! Nunca sequer encontrei um olhar estrelado como o seu por essas esquinas escuras...

O espírito pendeu a cabeça e continuou amorosamente.

— Isso acontece porque aqui o amor procurado e vendido é o dos outros e não o nosso próprio. Os espíritos daqui ainda creem que o amor deles depende necessariamente do amor dos demais.

— Quer dizer então que esses espíritos buscam em outros o amor? Por acaso eles pensam que na violência é que encontrarão isso? Até onde eu sinto, o amor em si gera respeito, não medo... Mas me diga, por que eles dependem tanto assim do amor dos outros?

— Ora, porque eles não se amam o suficiente.

Maria Morena quedou-se. Sua mente refletindo quantas vezes, se é que houve ao menos uma única, ela conseguiu genuinamente amar-se com profundidade. Quantas vezes ela conseguiu pegar no colo a Maria Morena fútil e arrogante e acariciar como a um filhotinho de gato que não sabe ainda bem o que faz? Quantas vezes ela conseguiu perdoar-se do seu ego colossal?

— Amigo... acho que infelizmente eu entendo o que diz. Pelo visto eu também não sei me amar o suficiente, talvez eu não seja assim tão diferente dos corações selvagens que moram por aqui, talvez eu seja tão incompleta quanto eles...

— Maria, sempre há um começo para ser iniciado. Este pode ser o seu, amiga. O quanto você se ama verdadeiramente é a medida do universo que conseguirá germinar ao seu redor.

Mirar os olhos daquele espírito era coisa de outro mundo. Faziam como que a abraçar a todos, como que a ninar qualquer dor ou dúvida. Maria Morena sentiu seus olhos se umedecerem.

— Então, posso mesmo ir até sua casa, seguir as estrelas?

— Pois é claro! Minha porta estará sempre aberta e as estrelas estarão sempre lá em cima, esperando por pés leves e corajosos que desejem voar sempre para mais longe e mais alto.

Ela olhou para a direção onde estava a casa do espírito, desejosa...

— Parece que tenho permissão de recebê-la por lá agora — comentou o espírito como se ouvisse algo vindo de um lugar distante, mas íntimo. — Que tal pegarmos a estrada das estrelas essa noite?

— Mas parece tão longe — ela voltou o rosto na direção de onde estava seu quarto e o corpo adormecido. — Será que dá para voltarmos a tempo?

— Não se preocupe, querida. Levará apenas um instante.

Ele estendeu a mão translúcida, ao que Maria alargou o sorriso e pegou-a sem pensar duas vezes. E com um salto, ambos afastaram-se da Terra por uma noite apenas, o suficiente para que Maria encontrasse um pouco mais de coragem e amor para prosseguir em seu próprio mundo.



Nota:

Esse conto foi escrito para um desafio, cuja proposta era escolher 3 frases de escritores nacionais conhecidos e criar uma história. As frases que escolhi da lista apresentada aos participantes foram:

Sem a pequena morte de toda noite, como sobreviver à vida de cada dia?” – José Paulo Paes

Entre minha casa e a tua há uma ponte de estrelas” – Mário Quintana

É que ‘quem sou eu?’ provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.” – Clarice Lispector

Então, para destaque, coloquei-as em negrito na narrativa.

16 Janvier 2022 19:06:19 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Fã de carteirinha de Buffy - The Vampire Slayer.

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Hillary La Rocque Hillary La Rocque
Olá! Faço parte da Embaixada brasileira do Inkspired e estou aqui para lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Dá sinopse até a última linha do conto, eu me senti totalmente cativada pela narrativa. Escolheu excelentes frases e, a partir delas, criou uma história tão mágica com um conteúdo tão profundo... Realmente tocante. Viajei junto com a Maria, e até eu me senti encantada pelo espírito que pousou ao lado dela. Uma presença tão inebriantemente doce e tranquila. Foi realmente interessante a forma como desenvolveu sobre assuntos como amor próprio, autoconhecimento e empatia. Coisas tão importantes, mas que parecem tão esquecidas atualmente. A pessoas se amam menos e querem mais dos outros, até chegar ao ponto de puni-los, seja por estes outros não retribuírem como elas querem, ou por eles não tomarem atitudes que nem elas mesmas se dão ao trabalho ter; a de amar e cuidar de si mesmo; de conhecer seu próprio interior. Achei linda a forma como o espírito discursou sobre como estamos intimamente ligados por um transcendente fio invisível; sobre como as nossas emoções influenciam uns aos outros, direta e indiretamente; sobre amparar as lágrimas dos que choram, e rir junto com os demais; compartilhar as alegrias e apoiar nos momentos difíceis. Tudo retratado de forma tão bonita. Sua escrita é muito boa e bem organizada, além suave e fluída. Continue assim. Recomendo que visite o nosso blog do Esquadrão da Revisão, para acompanhar as dicas e novidades que a ajudarão a evoluir cada vez mais. Aqui eu me despeço. Desejo-lhe sucesso com seus novos projetos, e que prossiga evoluindo cada dia mais, e continue compartilhando mais do seu talento e sensibilidade conosco. Um grande abraço. Até mais!
January 22, 2022, 21:38

  • C C C Clark Carbonera
    Oi, Hillary, tudo bem? Primeiramente, peço muitas desculpas pela demora em responder seu comentário/feedback. Você não faz ideia do quanto suas palavras foram boas de ler, eu sempre gostei bastante do trabalho impecável da Embaixada para com os escritores aqui na plataforma, então cada sugestão, cada dica, cada crítica, eu abraço com força e fé XD Então eu agradeço de coração suas palavras e peço desculpas pelo atraso do meu retorno. Um grande abraço! Até um próximo conto! o/ April 08, 2022, 22:02
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