johnathan-silva-oliveira Johnathan Silva Oliveira

Um punhado de suspiros exalados e algumas gotas de sangue que verti durante esses 36 anos, pautados entre ironias e lágrimas.


Poésie Satire Tout public.

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Canto I




Esperança



Se liberdade depois, terei por viver,

E no mundo de morte gemendo ficar,

Esperarei a vida de gemidos morrer

Pelo riso de vida que o futuro dará.


Falsas amizades



Não me tenhas por frio e mau.

A vida faz-nos ambos iguais.

Se hoje de teu amor não há sinal,

Do meu amanhã tereis jamais.

A justiça é balança imparcial.

Tanto quanto aí, cá também.

Se de ti tenho amizade parcial,

Parte da minha terás além.

Ter-te como amigo pode parecer,

Se aparência é o que tu franqueia.

Minha mão que tu julgas ter,

Do que hoje dás-me terás cheia.


Essências



Luzidia é a obra da mera larva

Ofuscada pela laboriosa teia.

É inverso à nossa alma parva,

Que fora é seda sobre a larva feia.

Os bichos acrescem ao construir,

Curvados sobre o que produzem.

Só homens produzem ao destruir

Exaltando obras que não luzem.

As autênticas luzes são excluídas.

Pois são Deus, flores e estrelas

Ignorados por mentes reduzidas.

Por isso não podem abrangê-las.

Erguem olhos aos azuis imperiais,

Sem baixá-los às verdes raízes.

Discursam em cima de pedestais

Qual máscara sobre as diretrizes.

Como acima de tantos feitos abjetos

Podem florir os artísticos labores?

É que como flor em cima de dejetos

Brota a beleza, subjugando odores.


Imodéstia


Superar os próprios limites

Muitos tem como motriz.

Só não superam um deles:

Ver um palmo além do nariz.


Elegia



Meu ideal exala um canto triste e terno.

Orbitando a primavera desse sonho,

Desabrocha como flor sobre o inverno

Meu luto do mundo, cujo fim exponho.


Porém não sai de mim, mas donde ponho.

Friamente, o vasto som no qual hiberno

Chora pelo riso alheio, que suponho

Maquiar por fora o pouco brio interno.


Tão profundo som abala o orbe inteiro.

Agourando o fim do mundo em melodia.

Vai ter o que não chorou, quem riu primeiro


Vai rir, quem do luto extrai sabedoria.

Ouvirão o próprio funeral no derradeiro

Toque profético da última elegia.


Equilíbrio



Há moldes profanos

E fôrmas sagradas.

Perco-me entre mundanos

Encolho-me entre manadas.

Fustigado fora

Acossado dentro

Todo lugar me devora

Toda gente é um tormento.

Antes de entrar, sou alegria

Ansiando a comunhão.

Estando dentro, esvazia

O meu prazer de então.

Os de fora se aproveitam

Os de dentro elogiam

Mas estes me despeitam

Aqueles me assediam.

Estranhos maldosos

Irmãos bonzinhos

Ambos são rancorosos

Se meus dons são vizinhos.

A inveja de lá me olha feio;

O ciúme de cá rosna pra mim.

Choro e rio no meio,

Rio e choro no fim.

Sempre irei ofuscar

Órbitas perto das minhas.

Grãs estrelas não têm par

Elas coexistem sozinhas.

Quisera percepções várias

Tão complexas quanto as cores.

Mas vejo noções ordinárias

Superficiais e sem valores.

É sempre alegria ou tristeza;

Certo e errado; oito e oitenta,

É um olho pra cada certeza

A certeza pobre e enfarenta.

Há tantos tons entre mal e bem;

Há mil cores entre dois tons.

É de Deus ver assim também

Mas do homem banalizar os dons.

Não tenho povo em nenhuma parte?

Não tenho parte em nenhum lugar?

Sim: o prolífero fruto da Arte

Que nunca deixará de brilhar.


A solidão é um quarto espelhado. Mas não é o quarto em si que alguns temem e evitam.


Paixão


O amor é exercido com a mente;

Paixonite sente-se com o coração.

A eternidade de um lapso é paixão;

Amor são tais lapsos eternamente.


A arte serve para chorar as lágrimas que não cabem no coração, e para rir os sorrisos que não cabem no corpo.


Vesper



Será que é nessas horas desoladas que nosso eu imaterial parece que poderia, e deveria, desgarrar-se dessa matéria claustrofóbica do nosso corpo, matéria que resume a miséria do mundo? São nessas horas silenciosas que a mente quer ir-se embora junta com o sol; com esse astro que, ao partir, explode em cores violáceas cravadas de ouro, deixando a terra muda e ensombrada, num silêncio de criança desamparada pelo pai; nesse alívio de emoções e cismas que saem e esvaziam o coração para se transformarem em pranto, tornando-se cristalizados e dispersos no espaço. Assim quisera eu, evaporar na noite meus pesados sentimentos, para que os mesmos surgissem renovados e livres sobre meu corpo flébil e adormecido.


Pueril


Explode, refulge em mil erupções

Meu dourado coração de criança,

Quando a multicolorida esperança

Tinge a Arte de eternas emoções.


Grandes asas



Ó Sonho Azul, inspiração amada!

Cujo dom de muitas asas me deste.

Perdoa se o vôo dessa arte alada,

Não ergue-se tanto quanto quiseste!


Despeito


Críticas não sobem sequer ao meu joelho.

Se quer tirar o cisco do olho, faça assim:

Ao invés de vir e falar olhando pra mim,

Tape a boca e abra o olho ao espelho.


Hipocrisia


Por que amigo, te enamoras da verdade,

E queres dela um beijo apaixonado?

Quando o gosto amargo da falsidade

Em teu lábio ainda está impregnado?!


Olhar



Já vi o chão tapetado de flores,

E imaginei um micro-céu de estrelas;

Vi aves com muito mais cores,

São tão poucos a reconhecê-las!

Vejo a próspera humanidade

Produzindo suas mil invenções,

Mas nelas não há luz de verdade

Que se iguale a essas sensações.

Sinto sensações nas flores,

Sinto sensações nas aves,

Sinto carícias suaves

Em sua música de amores.

Mas não sinto do homem o coração.

Míope aos detalhes, indiferente;

Não sinto o brilho de sua mente,

Nem colorido na compreensão.

Já vi árvores jovens e antigas,

Hostis, imponentes ou singelas;

Algumas eram tristes, outras amigas,

Mas nada pulsa mais do que elas.

Já espiei o solo e suas miudezas;

O simples fungo que renova a vida;

Os seres da sinfonia desassistida…

Um rico mundo de infinitas belezas!

Já vi o exemplo dado por Deus,

Que no homem há muito murchou,

Ser ostentado em crentes e ateus,

Cuja voz ao sair da boca se calou.

Ouvi a Santa Lei ser proferida

De peitos jovens e dos idosos,

Do palco, do covil e da ermida.

Ecoavam discretos ou vigorosos…

De bocas fartas e de mendigos;

De lábios medíocres e de vultosos.

Vi causas grandes em frágeis mãos,

E muitas palmas a propósitos vãos.

Mas as flores ainda brilham no chão,

E as estrelas no mundinho só meu…

Tão ofuscantes são ao meu coração,

E tantas, que tonto logo se encheu.

Tão sublimes são as cores das aves,

Tão eloquentes as vozes do chão,

Que o som dos murmúrios suaves

Calam a filosofia do homem vão.

Pois ele é um eco preto e branco

Clamando uma vida modorrenta.

Cimentam o coração no flanco,

E na mente a cobiça pavimenta.

Vejo a triste realidade atual

Aos pés da natureza murchando,

Pois se rebaixam de modo banal,

A seres irracionais se igualando.

Têm originalidade morta e muda.

Meu seio à morte é impassível.

Sua afronta artificial e desnuda

É mera usurpação invisível.

Mas as estrelas, flores e aves,

Suas meras fantasias acrescem,

Sugerem e sussurram suaves

O que os humanos nem parecem.


Dois corações


Entre o senso e a emoção

Vivo em lágrimas desfeito.

Por ter na cabeça um coração

E outro coração no peito.


À natureza


Grita ao meu espírito

Aquela que é muda.

Aos ouvidos eu grito

Daquela que é surda.

Calada, me diz tudo…

E ouvindo-a falar

Devolvo e ainda escuto

O que já deu e vai me dar

À tua doce voz me calei

Quando teu pranto sorvi,

E só pranteando, eu sei,

Pagar-te-hei o que pedi.


Do contra


Pra você eu serei exatamente o que você pensa que eu sou.

Para os 'preto no branco', sou uma pintura impressionista; para os coloridos serei transparente; para as rosas serei sonhadoramente azul; para os que 'se dizem' azul, serei lilás, a fim de mostrar que a natureza de todo homem é equilibrada; para os que se acham branquinhos, serei negro como o riso da ironia; serei branco para os que acham que estão no vermelho; serei 'verde raíz' para os que acham que a riqueza está no alto; serei criança para as crianças, mas não serei adulto para os que se julgam adultos_ o primeiro que quis ser dono do próprio nariz hoje governa o mundo, e eu detesto política; serei culto para os que reconhecem, mas serei ignorante às mentes cujo espaço é limitado, preconceituoso ou estereotipado; serei palhaço aos que são sérios demais; aos burros, serei o cocheiro. Finalmente, para Deus, serei o que muitos também tentam ser_ virtuoso. E para o Diabo serei o que todos são_ imperfeito.


Estereótipos


O falso opõe-se às leis naturais,

Qual opõe-se a vida à morte fria.

Mas nem ela nem o frio são reais,

Qual as aparências da fantasia.


O valor do caráter foi trocado.

O homem tornou-se artificial.

Estereotipou aos gays o veado

E o arco-íris distinto e natural.


Faz o nome mais que a essência,

Desvirtuando gente e animal,

Ao compararem eles na aparência.

Faz o feio ser belo, o bom ser mal.


Melhor equilibrar a firmeza de leão

Com a realeza do cervo a coroar,

Do que viver latindo como cão,

Cujo valor e brio tem que provar.


Triste, ver tudo desequilibrado:

Do metido a santo já me cansei;

De quem tenta ser macho forçado;

E quem por via da moda é gay.


"Hábitos não fazem um monge".

Nem "lobo em pele de ovelha".

Quem sob peles se esconde

Não vira dentro o que assemelha.


Se não existe conteúdo legítimo

E de qualidade para ostentar,

De nada adianta, se no íntimo

A intenção é somente maquiar.


É só disfarce para o teor escasso.

Estereótipo é ilusão, não é lei.

Quem usa disfarce é palhaço.

Mas só a natureza atesta um rei.


Inteireza


Sou aquilo que falo;

Sou aquilo que pinto;

Sou aquilo que penso;

Sou aquilo que sinto.

Amar só um pedaço,

É amar parte de mim.

Sou todo, não sou bagaço,

Pra mendigar-me assim.

Ouça minhas palavras,

E junte às minhas cores;

Atente às minhas ideias

E sinta meus amores…

E plante-os, se tens espaço.

Não posso dar partes de mim.

De nenhuma flor me desfaço,

Pois não sou flor, sou jardim.


Amizade


Ah! Quem me dera

Que os amigos fossem flores.

Ah! Quem me dera

Cultivar esses castos amores.

Ah! Quem me dera

Que todas florissem pra mim

Então as pusesse

Todas em um imenso jardim.

Se esse jardim quisesse,

Todo ele seria sorrisos.

Pois eu talvez pudesse

Ser árvore pra esses amigos.


Alvorecer