asheviere Marianna Ramalho

Para onde vão as coisas que perdemos durante a vida? Desde as mais insignificantes até as que carregam as lembranças mais fortes, o Curador do Museu das Coisas Desaparecidas trata de receber a todas com o mesmo esmero. Até que os caprichos misteriosos de seu Museu entregam em sua porta uma criança. A situação incomum o faz contemplar verdades que ignorava sobre o Museu e sobre si mesmo. Afinal, ele também era só mais uma daquelas coisas perdidas. [Shortfic - 5 capítulos.]


Fantaisie Déconseillé aux moins de 13 ans.

#angst #amizade #museu #fantasia
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O Curador

Havia um "não lugar", fora do plano da existência e fora do tempo das coisas, para onde convergiam todas as correntes do universo. Todas as coisas perdidas fluíam em suas correntes como as folhas levadas por um rio e lá chegavam, entregues aos cuidados de alguém que não tinha nome. Era um homem que, independentemente de quem o visse, sempre pareceria pertencer a outra época. Bem vestido em tons de cinza e marrom, de olhar sóbrio e respeitável, ele ocupava todos os seus momentos com os objetos que as correntes lhe entregavam, guardando-os onde, apesar de não pertencerem mais a ninguém, podiam sentir o que era ser especial. As poucas pessoas que o viram, sem saber quem era ou o que de fato fazia, o chamavam apenas de Curador, por sempre parecer tão dedicado ao seu Museu.

Muitos visitavam o Museu das Coisas Desaparecidas, intencionalmente ou não, conscientemente ou não. A maioria visitava enquanto dormia, em seus sonhos, pois as lembranças eram tudo o que restava dos pertences que lhes eram mais caros. Poucos percebiam o Curador do Museu sempre trabalhando por perto, verificando se tudo estava em ordem. Ele também nem sempre podia ver os visitantes, mas sabia que estavam lá, pois, do contrário, qual seria a razão de um museu? Mesmo um que não existisse da mesma forma que os outros, com seus tijolos feitos de lembranças, e o cimento, de culpas antigas. As janelas não abriam, pois não havia "fora", mesmo que dos fundos do prédio pudesse ver um poço distante em um campo sempre escuro sob uma noite sem estrelas, e que o som das ondas de um mar que não existia ecoasse através das paredes.

Não é possível dizer há quanto tempo ele era o Curador daquele estranho Museu. Era errado tentar estimar, mais errado ainda sugerir que ele sempre teve essa função. Não havia tempo, não havia sempre, não havia antes ou depois. Tudo o que havia era agora, e o agora era sempre igual.

Mas, em um "agora" mais importante que os outros, algo inusitado aconteceu. Os passos do Curador ecoavam em um ritmo neutro, firmemente apático, analisando os objetos recém chegados. A maioria das coisas eram comuns para o Curador do Museu das Coisas Desaparecidas. Relíquias de família, rascunhos artísticos descartados, talentos desacreditados, promessas não cumpridas e esperanças destruídas. Mas no fundo, atrás de todas essas coisas, havia uma criança.

O Curador hesitou ao vê-la ali, encolhida entre os objetos descartados como se, assim como eles, não tivesse nenhum valor no lugar de onde viera. A menina não levantou o olhar. Abraçava as próprias pernas, com a testa franzida em uma preocupação que criança nenhuma deveria precisar experimentar. Como ela parecia não vê-lo, ele quase pensou que pudesse ser uma visitante. Mas o Curador sabia bem a diferença entre os visitantes e as coisas desaparecidas do seu Museu. O silêncio se estendeu, ainda mais denso e notável que antes. Ele não se moveu, nem a menina, e mesmo com a inexistência do tempo, logo ficou claro que a situação constrangedora estava durando demais.

Tudo o que havia ao redor ficou esquecido. Unindo as mãos nas costas, o Curador inclinou-se com aquela expressão séria, tentando decifrar o enigma da criança. Ele não tinha a noção necessária para tentar estimar sua idade. Era pequena, frágil e estava com medo. Isso lhe importava. O vestidinho claro estava sujo de terra e grama; os braços expostos, cheios de arranhões que julgou terem sido causados por galhos. Havia um pouco de sangue nas mãos como se tivesse tentado aparar uma queda ou várias. E o olhar de quem estava completamente sozinha.

— Eu acho que prefiro não saber por que você está aqui… – A menininha não levantou o rosto, continuou abraçando as pernas junto ao corpo. Parecia estar com frio, mesmo que o Museu nunca fosse frio ou quente demais. – Não prefere ir para um lugar mais confortável? – chamou, esperando que ela se levantasse. Tinha certeza de que ela lhe ouvira, mas em vez de responder, apenas se encolheu mais.

O Curador olhou ao redor, ansioso, como se em um lapso de consciência esperasse que alguém surgisse do vazio daqueles corredores para cuidar da situação em seu lugar. Obviamente, ninguém apareceu. Suspirou, encarando o fato outra vez. Estava genuinamente desconfortável com a ocorrência incomum, não porque a presença de outra pessoa o desagradasse, mas porque ele conhecia seu Museu bem o bastante para saber o que significava estar dentro dele.

— Eu… já volto.

Afastou-se, o ritmo familiar de seus passos calmos destoava da urgência que achou que deveria sentir. Estava desacostumado com urgências, ainda que o som das ondas no mar inexistente e o assobio do vento que não vinha de lugar algum não fossem capazes de se fazer ouvir acima da celeuma de seus pensamentos, ele se movia com a mesma calma letárgica de sempre. Talvez até acreditasse que o Museu estava lhe pregando peças, se não soubesse que os sentidos do corpo não podiam mais enganá-lo. Mesmo assim, retornando ao corredor com uma manta nos braços – um belíssimo trabalho de bordado colorido, costurado em algum lugar por uma mãe dedicada como um presente para seus filhos –, o Curador quase esperava que a criança não estivesse mais lá. Aliás, era seu maior desejo, se alguma vez já desejou algo… Desejava estar enganado.

Mas a criança ainda estava lá, encolhida, tremendo de frio, com o olhar desamparado fugindo do seu. Ela desviou o rosto ao ouvi-lo se aproximar, mas não recuou quando ele se ajoelhou e a cobriu com a manta.

— Sinto muito se você sentir cheiro de cinzas.

Todas as coisas no Museu eram perfeitas, mas traziam vislumbres do lugar de onde vieram. O Curador podia sentir o cheiro de fumaça quando tocava naquela manta, e sabia que o belo trabalho fora arrancado de sua família com a rapidez da tragédia de um incêndio, e com a mesma rapidez, duas crianças haviam se tornado órfãs. Nada chegava até ali sem história. Nada, talvez, exceto ele.

Provando novamente que o ouvia, a menina inspirou uma vez, mas não sentiu cheiro de nada. Apenas enterrou a metade do rosto na manta em um gesto desanimado, deixando os olhos de fora.

— O senhor não precisa se preocupar comigo… – falou, a voz envergonhada abafada pelo tecido. Ela alisou as mãos, ansiosa, antes de continuar. – Minha mãe disse que vai voltar logo.

— Entendo…

Dessa vez, quando a menina levantou o rosto, foi o Curador que desviou o olhar. Ainda ajoelhado, apertou o tecido das calças em um gesto de desconforto. Novamente, quis que alguém surgisse dos corredores vazios para salvá-lo daquela conversa. Olhou para um lado, depois para o outro, mas tudo ainda era tão vazio quanto sempre foi e sempre seria. Inspirou fundo e aceitou que aquilo era apenas mais um de seus deveres.

— Há quanto tempo… sua mãe… – formulou, com dificuldade de recuperar aqueles conceitos em sua memória. A menina deu de ombros, apoiando a cabeça sobre os joelhos recolhidos junto ao peito. Ao que parecia, perguntas sobre o tempo eram difíceis mesmo para quem não pertencia àquele lugar. – E… onde ela lhe deixou esperando?

A menina arregalou os olhos marejados, só então percebendo onde estava.

— Era uma floresta! Eu… Como cheguei aqui? Ela vai ficar brava porque não esperei!

— Shh… calma, não precisa se desesperar – falou o Curador, mas sua voz soou tão fraca que não convenceria a si mesmo. Levantou a mão como se quisesse tocá-la. – Posso?

A menina estranhou, mas não recuou quando ele pôs a mão em seu ombro. O cheiro de grama fresca o invadiu, bem como o frio da exposição à noite que não alcançava o interior do Museu. Não era uma surpresa que ela estivesse tremendo. Sentiu na pele o orvalho das plantas, e uma respiração muito leve mal se fez ouvir.

Engoliu em seco, mas forçou um sorriso calmo.

— Não se preocupe, sua mãe não vai brigar com você… Feche os olhos e veja, você ainda está lá.

Após dizer isso, afastou a mão com rapidez, mas o nó em sua garganta não aliviou com o fim do contato. Não teve coragem de explicar para a menina o que significava estar em seu Museu. O Curador testemunhava muitas tragédias pelos objetos perdidos, como o incêndio que lhe trouxera a manta ou o naufrágio que deixou em sua porta um ursinho de pelúcia encharcado. E cada um deles lhe trazia pesar, mas não daquela forma.

Objetos perdidos não eram o mesmo que crianças abandonadas.

A menina ergueu as sobrancelhas, confusa.

— Como posso… estar aqui e lá? Que lugar é esse? Onde nós estamos?

— Não é um lugar, e nós não estamos – respondeu, levantando-se. – Mas eu o chamo de Museu das Coisas Desaparecidas, e sou seu Curador.

— Um museu? – perguntou, a preocupação substituída por uma curiosidade inocente que não lhe deixou perceber que agora era parte do acervo como qualquer outra coisa dentro daquelas paredes imateriais.

— Sim… – Sem explicar mais, desviou o olhar novamente. Em um gesto vago, sinalizou que precisava ir. – Tenho coisas a fazer, mas se quiser, pode sair daí e me acompanhar. Podemos conversar, eu lhe conto a história das exposições.

O olhar animado revelava a tentação da proposta, mas logo desapareceu. A menina balançou a cabeça, apreensiva.

— Não, acho que não… Preciso esperar minha mãe voltar.

— É claro… Na verdade, andar por aqui não afeta o lugar onde você está, então… – Ele parou de falar ao ver novamente a confusão no rosto da criança, que aparecia sempre que a natureza metafísica da existência do Museu era mencionada. Normal. Ele também ficaria confuso, se já não tivesse desistido de entender. – Se precisar de mim, é só chamar.

— Qual o seu nome?

— Nome?

— Como posso lhe chamar se não sei seu nome?

— Eu não tenho mais.

— Todo mundo tem um nome!

— É mesmo? E qual é o seu?

— É… – A confiança desapareceu ao perceber que não lembrava a resposta. Mas não quis admitir depois de garantir que todos tinham um nome, então disse: – Eu não devia contar para estranhos.

— É verdade. Bem… De qualquer forma, garanto que é fácil me encontrar se precisar.

Ele se sentiu errado a cada passo que deu. Mas ela era só mais uma coisa desaparecida em seu Museu, e ele tinha outras centenas para cuidar. Forçou-se a se afastar, também desaparecendo a sua maneira em algum daqueles corredores.

Deixando a criança ainda mais sozinha do que já estava.

27 Novembre 2021 20:42:48 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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