guilhermerubido Guilherme Rubido

Depois de algum tempo de convivência, algumas das manias do gato de Michel - um siamês chamado Mancha - começam a irritá-lo profundamente, até o ponto em que, descontrolado e possuído por ódio, ele tenta pegar o bichano. Porém, essa perseguição acaba tendo um fim desastroso.


Horreur Interdit aux moins de 18 ans.

#medo #conto-de-terror #horror #junji-ito #terror #288 #edgar-allan-poe #stephen-king
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O Gato Maldito

Michel odiava aquele gato estúpido.

Bem, não era exatamente verdade. Pelo menos, não a princípio...

No começo, o gato – batizado sem muita criatividade de “Mancha” – era rei e, ele, Michel, era um pobre escravo que atendia todas as suas necessidades. Se Mancha se virasse de barriga para cima, pedindo carinho quando Michel chegava perto, Michel o fazia sem reclamar, encantado com a fofura do bichano. Caso Mancha o acordasse aos miados, às 5h da manhã de um dia frio e cheio de névoa, pedindo comida desesperado, Miguel não tinha nada a fazer a não ser encarar o ar gelado e o sono, levantar-se e ir encher o pote de ração e água.

Porém, um ano se passou e o comportamento do gato – que devia ter já seus quatro anos quando chegara à casa de Michel –, que antes era encarado com naturalidade e paciência, passou a ser um fator de extrema irritação. Cada miado, cada momento em que o gato se enrolava em suas pernas, pedindo desesperado por comida como quem não comia há anos, cada coisa que ele derrubava, cada lugar indevido que ele subia... Minha nossa, Michel já não aguentava mais. Toda vez – independente da hora do dia ou do quanto o gato já tivesse comido – que Michel ia até a cozinha, Mancha se levantava, vindo de onde estivesse, e começava a se esfregar em suas pernas, pedindo por mais comida, sem desistir até que seu pote ficasse, outra vez, cheio. Michel se segurava para não o chutar ou gritar com ele, já que jamais podia ir à cozinha em paz, sem que ele visse importuná-lo. Em certo ponto, passou a sentir certo prazer em desafiar Mancha. Em, mesmo diante de suas súplicas – ordens, mais pareciam a Michel –, não colocar mais comida, até que considerasse a hora certa. Nos dias em que procedia dessa maneira, Mancha ficava irritado. Saia pulando pela casa, arranhando e derrubando as coisas. Quando Michel passava pela mesa da sala, sem ver que Mancha estava deitado de baixo de uma das cadeiras, levava arranhões de uma patinha que surgia das sombras.

Porém, era aquela mania que mais irritava Michel... a mania que os gatos têm de ficarem deslizando por nossas pernas; enroscando-se em nossos calcanhares e fazendo com que as pessoas, tentando evitar pisar ou chutar os animais, tropeçassem e cambaleassem. Mancha parecia ter prazer em fazer Michel tropeçar.

A rotina naquele dia fora quase a mesma de sempre, mas, dessa vez, Michel não conseguira se segurar:

Às 5h da manhã, Mancha começou a miar pelo quarto. Ainda sonhando, Michel ouviu o gato pular em cima das mesas e móveis, derrubando canetas, controles e tudo que visse pela frente. Depois que se cansou, Mancha saltou em cima da cama e, miando e fungando, deitou-se sobre o peito de Michel, que acordou assustado ao sentir as garras das patinhas de Mancha perfurarem seu peito através da camisa. Mancha, como todos os gatos do mundo, gostava de afofar com as garras os lugares onde deitava. O problema era que por baixo daquele tecido da camisa estava a pele de Michel.

— Tá, tá, tá! — Michel levantou-se irritado, lançando para longe as cobertas e Mancha no processo. — Minha nossa, que bicho INSUPORTÁVEL!

Ele falou enquanto caminhava até a porta do quarto, pisando com força a cada passo. Com a cauda erguida, Mancha o acompanhou orgulhoso, dançando pelos pés de Michel e o cutucando com a cabeça.

Era um gato siamês, gordo e de olhos azuis intensos. Enquanto caminhava, a cauda estalava de um lado para o outro como um chicote macio e Michel sempre tinha de tomar cuidado para não pisar nela, já que estava sempre balançando em todas as direções. Ele já tentara fechar a porta do quarto quando ia dormir, mas simplesmente não funcionava. Quando Mancha subia ao segundo andar e se deparava com a porta fechada, a primeira coisa que fazia era se sentar e começar a miar até que Michel fosse recebê-lo. O problema era que ele não desistia caso não conseguisse que Michel abrisse a porta. Começava a enlouquecer. Arranhava a porta e mordia-a por baixo, destruindo-a loucamente. Em pouco tempo desse experimento, a parte de baixo da porta ficou toda detonada, roída até a metade, revelando a madeira desfiada do interior. Por esse motivo, Michel passara a deixar a porta aberta, como deixara essa noite.

— Vou te contar, viu... — Michel foi reclamando e xingando pelo corredor.

Mancha o seguiu pelo caminho todo, miando sem parar, como um naufrago gritando por ajuda ao avistar uma embarcação na distância. Ainda sonolento, Michel começou a descer os degraus da casa. Estavam frios como gelo e, lá fora, o vento deslizava pelas ruas, assobiando pelas frestas das janelas. As luzes da casa estavam apagadas, mas o alvorecer lá fora começava a lançar suas primeiras nesgas de luz pela sala escura.

Depois de tanto tempo com Mancha, Michel aprendera a descer as escadas sempre com uma das mãos bem segura no corredor. Era uma tarefa arriscada fazê-la de outra maneira. Mesmo assim, naquela manhã, cometeu o erro de levar a mão ao rosto para coçar um dos olhos, que estava embaçado pelo sono e pelas remelas.

No mesmo instante, a ponta de um dos seus pés encostou em algo macio e peludo. Era o rabo de Mancha e, antes que o pé afundasse totalmente, Michel tentou jogá-lo para o lado, o que fez com que seu tornozelo virasse e ele tropeçasse, rolando escada abaixo. Com a movimentação, Mancha disparou como uma bala, fugindo assustado do barulho.

Quando parou no chão da sala, estropiado e fervendo de raiva, seu corpo inteiro doía. Havia batido com o cotovelo na quina de um dos degraus, o que fizeram com que seu braço formigasse e ficasse dormente, com ondas de choque sendo lançadas braço acima. Quando olhou para o lado, ainda caído no chão, viu que Mancha o encarava do alto, sentado altivamente sobre a superfície de vidro da mesa da sala. O rabo estalava, batendo forte contra o vidro, e aqueles olhos azuis o encaravam, solenes e vidrados em sua aura hipnótica. As pupilas dilatadas e negras vibrando no mar azul enquanto zombavam de Michel: “você podia ter quebrado o pescoço”.

Gemendo de dor, Michel se levantou, possuído por uma raiva profunda:

— Quer me matar, seu desgraçado! — Ele gritou, tentando agarrar Mancha pelo pescoço, que saltou para longe dali.

Há um ano atrás, Michel jamais faria isso. Ficaria irritado, é claro. Teria vontade de matar Mancha, mas, no fim, não faria nada; remoeria a raiva até que ela passasse. Agora... ah, agora as coisas eram diferentes. Ele sentia o ódio ferver em seu peito, e ele quase podia se imaginar agarrando o pescocinho do bichano, apertando até que o sangue escorresse; o prazer secreto que ele sentia ao projetar essa imagem, seus dedos afundando lentamente na...

— Para com isso, seu idiota.

Michel murmurou baixinho para si mesmo, repreendendo-se pelos pensamentos horríveis que haviam passado por sua mente. Sabia que estava errado. Que, de alguma forma, Mancha não sabia o que estava fazendo. Mas, mas... às vezes parecia que sabia, não parecia?, ele se perguntou. Às vezes, quando Mancha fazia algo de errado e Miguel tinha de gritar, parecia... parecia haver um brilho de divertimento sádico naqueles olhos redondos e vítreos do gato; a cauda estalando de um lado para o outro, como a ponteira de um metrônomo... sacudindo como se dissesse: “venha me pegar, garoto. Venha! Eu sei que você quer... É tudo que você precisa, não é? Uma desculpa para colocar as mãos em mim. Para fazer o que quer sem culpa. Então venha, venha me pegar...”. Mas Michel nunca cedia. Às vezes chegava a segurá-lo. Agarrava-o pelo cangote e lhe dava uns tapas fracos. Porém, não tinha forças para ir além disso, por mais que o ódio lhe fizesse cerrar os dentes e tremer os punhos. Por mais que, nos momentos de fúria por Mancha ter derrubado um enfeite de vidro de um móvel, seu cérebro fizesse imagens sombrias dele socando-o, chutando e sabe Deus o que mais, ele não conseguia. Mordia os dentes e esperava se acalmar.

Certo dia, Michel estava colocando a louça na máquina e teve de ir à área de serviço ao lado para pegar o sabão que precisava para liga-la. A porta da máquina estava abaixada, já que ele estava colocando as coisas lá e, quando foi passar por ela, Mancha surgiu da porta da cozinha, passando pelas pernas de Michel distraidamente. Michel se desequilibrou e quase escorregou, mas conseguiu se apoiar na parede a tempo. Segurando-se com uma mão, ele olhou para baixo:

A porta aberta da lava louça estava sob ele e, brilhando como lanças contra o sol, as facas na cesta de talheres apontavam afiadas para cima, bem abaixo de sua barriga. Essa foi por pouco, Michel pensou, soltando-se da parede. Cacete, foi por muito pouco...

Isso tinha acontecido há mais de um mês. Ainda assim, desde esse momento ele passara a ter um medo quase que paranoico daquelas facas na pequena cesta de talheres. Às vezes, quando tinha de se abaixar para colocar os pratos na prateleira de baixo da máquina, via as facas bem próximas de seu rosto e, com um pavor furtivo deslizando pelas suas costas, imaginava: e se eu escorregar? O que aconteceria comigo? O pensamento era terrível, porque era real. Um passo em falso e pronto: uma faca atravessaria seus olhos ou bochecha. Ele repetia este processo todos os dias e, quando algo se torna rotina, tendemos a ser descuidados. Perdemos o respeito e o transformamos em algo mecânico. Perdemos o respeito ao perigo pulsante que existe em cada detalhe.

E lá estava ele outra vez, enchendo os potes de Mancha e se preparando para separar copos, pratos e talheres.

— Vamos, seu faminto — Michel falou, indo em direção à cozinha, onde os potinhos de água e comida estavam dispostos ao lado da máquina de lavar louça. — Vou colocar logo sua comida. Pela sua fome, tenho certeza que não foi você que comeu toda aquela comida que coloquei antes de dormir, né?

Mancha miou e se sentou. Quando Miguel pegou o pote e as rações lá dentro chacoalharam contra o plástico, Mancha empertigou-se e, correndo, foi para os pés de Michel, miando sem parar enquanto fazia um “8” ao redor dele. Michel abriu a tampa e, no mesmo instante, Mancha enfiou as garras em seus shorts afim de escalá-lo, como se não aguentasse esperar até a comida chegar no pote. Tinha de pegá-la ali mesmo, das mãos de Michel.

— Pelo amor de Deus, calma, Mancha! — Michel falou, tentando colocar a comida no pote, mas Mancha ficava passando na frente a todo momento, batendo com o rabo em sua cara.

Por fim, Michel colocou a comida no pote e foi em direção à pia. Conseguia ouvir o gato raspando a comida, o pote se arrastando no chão cada vez que o focinho de Mancha ia contra o fundo de plástico. Faz parecer que não come há anos, Michel pensou, enxaguando os pratos e xícaras para leva-los à máquina de lavar louça.

Quando se virou de volta, Mancha estava sobre a pia, a cabeça baixa olhando fixamente para um copo de vidro.

Psssssssssssssss!!!! — Michel sibilou como uma chaleira, gritando na única língua que os gatos pareciam entender. — Não ouse fazer isso.

Mancha levantou a cabeça e olhou para ele com indiferença. Michel andou em sua direção, pronto para matá-lo. Antes que pudesse alcançar o gato, a pata avançou pela pia e empurrou o copo pela borda, que se espatifou no chão, lançando cacos de vidro para todos os lados. Mancha saltou da pia e saiu correndo dali. Por reflexo, Michel tentou inclinar-se para pegá-lo quando o bichano passou rápido ao seu lado, mas, em seu movimento, esqueceu-se do copo quebrado.

Ele gritou e xingou quando um caco de vidro rasgou a pele de seu dedão, alojando-se lá dentro como uma pérola transparente. Praguejando e se equilibrando em um pé só, já que o outro ardia e latejava sem parar, Michel puxou um banquinho da mesa atrás dele e se sentou. Gemendo de dor, colocou os dedos em formato de pinça e, como um cirurgião, deu início ao processo de extração. Era grande. E parecia ter entrado fundo. Doía pra cacete.

— Gato do inferno — ele resmungou, ensandecido de raiva, mas com o dedão gritando de dor para que ele tirasse aquele vidro dali. — Vou te matar, seu desgraçado... Se aparecer na minha frente, juro que te mato...

Contudo, Mancha não apareceu naquele dia. Escondeu-se em algum canto da casa e não saiu mais. Michel tentou encontra-lo por um tempo, louco para pelo menos dar uns tapas na bunda do gato. Sentiria prazer dessa vez. Mataria o filho da puta por ter feito aquilo com seu dedo. E, toda vez que a raiva parecia amainar, a dor pulsante de seu dedo inchado fazia tudo voltar, tão intensamente como se jamais tivesse deixado de existir. Um lembrete pululante.

Contudo, ele não o achou.

Mancha só viria a aparecer no próximo dia, talvez esperando que o temperamento intempestivo de Michel já tivesse passado.

Depois de colocar a louça na máquina, Michel subiu para se deitar, esquecendo-se de ligar e fechar a porta da lava louça.


***


Ele dormiu com a porta do quarto fechada aquela noite.

Na superfície, dizia a si mesmo que era só para evitar problemas. Para não acordar cedo com Mancha destruindo as coisas do quarto. Contudo, em seu íntimo... ele sabia. Sabia do desfaio sorrateiro que escorregava por trás daquele simples ato: me dê UM motivo! Mie, arranhe, escale e coma a maldita borda da porta! Assim vou ter uma razão pra te esganar.

E assim aconteceu. Ele abriu os olhos e olhou para o teto branco, onde o ventilador girava em zumbido baixo. Em silêncio, ouviu o estalar áspero da porta sendo mastigada, puxada e arranhada. No mesmo instante, uma cólera incontrolável inflamou seu peito de uma só vez. Seu rosto ardeu, quente e vermelho, e uma cortina pareceu enevoar seus olhos, cegando-o para todo o resto.

— Ah, seu filinho da puta, agora eu vou te matar! — Ele atravessou o quarto e, de uma só vez, abriu a porta.

Mancha havia se afastado e agora o encarava do fundo do corredor, os olhos azuis cintilando na escuridão, zombando e se divertindo com a situação de Michel.

— Você gosta disso, não é? — as palavras escorreram pela boca de Michel, empapadas em um uma malícia sombria. Ele foi se aproximando aos poucos de Mancha, que ficou parado, balançando o rabo solenemente: — Sabe que não pode, mas faz, só pra me perturbar a paz, seu gato maldito...

Michel foi se aproximando lentamente, até que, conseguindo diminuir a distância, saltou com um grito em direção ao gato.

— Vem aqui!

Mas Mancha deslizou para o lado, rápido demais para que as mãos de Michel pudessem alcançá-lo. Miando, o animal começou a descer as escadas, fugindo de seu dono.

— Desgraçado — Michel falou, descendo os degraus correndo atrás de Mancha.

Ainda na escada, ouviu o som de coisas caindo no chão da cozinha. Fez a curva da escada e, passando rápido pela sala, alcançou a cozinha, onde se deparou com Mancha caminhando sobre a pequena mesa. O gato havia derrubado os sacos de pães e o pote de manteiga estava caído no chão, aberto e com um bloco de manteiga deslizando para fora. O frasco de azeite estava deitado sobre a mesa, o óleo escorrendo sem parar pela toalha. Parecendo usar seus últimos momentos de euforia, Mancha estava inclinado sobre a mesa, afofando freneticamente a toalha com as patas. Suas unhas dilaceravam o tecido, lançando fiapos e pedaços inteiro da toalha pelo ar. O animal era como um balão, onde o ar cheio de pressão era liberado de uma só vez em um momento de loucura insana.

Àquele ponto, Michel já não raciocinava mais. O pano vermelho de fúria que havia recaído sobre seus olhos tampava tudo. Murmurando e xingando de forma incompreensível devido a forma como cerrava seus próprios dentes em ódio, ele avançou em direção à mesa, contornando a porta aberta da lava louça, onde os pratos e talheres brilhavam sob o sol da manhã que entrava pela janela da cozinha.

Antes que pudesse agarrá-lo, Mancha saltou da mesa para a pia, derrubando um prato que estava apoiado na borda onde pousou. O prato se espatifou com um som estridente e Michel virou-se para acompanhar o fugitivo, que caminhava empertigado, com corpo e rabo empinado, como se andasse por uma passarela de moda.

Com uma investida rápida e um grito de “Te peguei, seu maldito!”, Michel conseguiu agarrá-lo, empurrando-o contra a parede atrás da pia. Uma mão envolveu o pescoço do gato e, a outra, a barriga, os dedos pressionando forte para que o felino enfurecido não conseguisse se soltar. Ele se debateu e Michel apertou ainda mais. Olhava para o gato enquanto ele se debatia. Os olhos de Michel estavam esbugalhados, inchados por uma raiva que acumulara durante meses, e uma mistura de sorriso e esgar de ódio se contorciam em seus lábios, revelando e escondendo os dentes como um animal. Até que, por um breve momento, enquanto olhava Mancha se debater, sentiu uma mistura de pena, culpa e vergonha. Não, não, não!... Ele repetiu para si mesmo. O que estou fazendo? Meu Deus do céu, o que estou fazendo?!

Seu aperto aliviou um pouco, os dedos se afastando aos poucos do pescoço de Mancha.

Foi o suficiente para o gato que, com um esgar selvagem e um sibilar ofídico, contorceu-se e saltou no rosto de Michel, guinchando e arranhando.

— Sai de mim, seu bicho do demônio! Sai de mim!

Ele gritou, cambaleando para trás enquanto Mancha descascava seu rosto com as garras afiadas. Michel sentia seus lábios inchando, ficando quentes enquanto o sangue escorria. Uma das garras curvadas de Mancha acertaram seu olho direito, prendendo-se na pálpebra como um anzol e, ao sair, rasgando-a de cima a baixo, o que o fez berrar de dor. As patas traseiras do gato, em busca de apoio e um base para continuar ali pendurado, arranhavam sem parar o pescoço e o peito de Michel. O rosto de Mancha – colado ao de Michel –, era uma máscara macabra e sorridente; sombria, contorcida em uma cólera irrefreável. Puro ódio.

Os olhos brilhavam estaticamente.

Quando finalmente conseguiu segurar o gato e jogá-lo para longe, seu rosto havia se transformado em uma colcha de retalhos, ardente e sangrenta. Ao arremessar o corpo gordo de Mancha, Michel pendeu para trás e, sem conseguir se segurar em algo para se equilibrar, caiu de uma só vez.

Atrás dele, a porta aberta da lava louça o aguardava. Uma garganta grande e gorda, cheia de dentes afiados e serrados.

As facas perfuraram suas costas e coxas.

Como um porco abatido de barriga para cima sobre uma bandeja prateada, Michel começou a sangrar e se debater. À medida que as facas iam deslizando mais e mais fundo, as serras gastas rasgando a pele e a carne, enquanto o sangue vertia em esguichos e filetes vermelhos, o corpo de Michel ia escorregando, descendo cada vez mais próximo dos cabos de madeira das facas, que manchavam e escureciam, mergulhados no sangue quente que escorria.

No tampo aberto da máquina de lavar louças, sangue, água e sabão se misturavam em poças que ondulavam a cada gota que despencava sobre elas.

Como um cálice profano de sacrifício.

Michel não teve tempo de gritar. Soltou apenas um gemido débil de pavor quando viu que estava escorregando e, quando de fato caiu de costas e sentiu as perfurações na parte traseira de suas coxas, seu peito exalou, liberando um suspiro frágil, que se prolongou em um silvo que poderia ser fala, grito ou simplesmente o abatimento da dor.

Ele ficou por um tempo ali, ouvindo o silêncio zumbir em seus ouvidos, interrompido apenas pelo som gotejante abaixo dele. Não tinha forças para se mover. No início, ele tentara, mas as facas haviam encravado fundo demais, e toda a força havia se esvaído de seu corpo. O mundo estava embaçado, desfocando e se duplicando diante dele. Sua garganta estava entupida de sangue. Cada respirada se tornava uma golfada; um gargarejar sangrento e borbulhante.

De repente, sentiu algo pesado saltando sobre seu peito, o que o fez gemer, já que seu corpo deslizou ainda mais sobre as lâminas. Um som áspero e constante começou. Com esforço, Michel ergueu um pouco a cabeça. O máximo que conseguia.

Lá estava ele.

Com o pescoço levemente inclinado, Mancha estava sentado, lambendo com sua língua áspera o sangue do pescoço de Michel, que escorria pela boca, descendo pelos lábios cortados e inchados. Os olhos azuis do gato estavam erguidos, olhando diretamente para as pupilas vazias de Michel. Os olhos felinos de Mancha brilhavam, vidrados e maliciosos, doentios e incandescentes como dois faróis. As pupilas finas e mesmerizantes como as de uma cobra.

Enquanto encarava aqueles olhos, o mundo ao redor de Michel vibrou e chacoalhou. Uma sensação terrível de medo, pavor e pânico era emanado daquelas gemas celestes, jorrando em ondas hipnóticas que tomavam o ambiente e a mente.

Michel tentou gritar de pavor, remexendo os braços para afastar o gato. Não pela dor que sentia. Mas pela presença da criatura em seu peito. Era pesada. Muito pesada. Emanava uma aura sombria. Queria-a longe dele. Que ele morresse. Mas que morresse em paz. Ele se debateu, tentando inutilmente se livrar do gato. Joga-lo para longe. Porém, nada adiantava.

Mancha ficava ali, observando com seu olhar.

Duas gemas brilhantes e profundas, aprisionando dentro delas tudo que captavam.

Em seus últimos momentos acordado, Michel sentiu uma coisa perfurar sua garganta. Ficou aliviado ao saber que uma faca finalmente o libertaria a daquela dor e, acima de tudo – Deus do céu! Obrigado por isso! – da presença daquilo.

No entanto, não era uma faca que perfurava seu pescoço.

Eram os dentes de Mancha.

26 Septembre 2021 19:26:15 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
4
La fin

A propos de l’auteur

Guilherme Rubido Olá, que bom que conseguiu chegar até aqui. Seja muito bem-vindo. Por favor, tire o tênis e sinta-se em casa. Parece que começou a chover. Consegue escutar? É uma chuva daquelas... Teremos muito tempo até que pare. Sendo assim, escolha um assento e fique confortável. Aqui veremos muitas coisas horríveis, então, prepare-se. Tem café quente na mesa e bolachas no armário de cima (não mexa no de baixo, não vai gostar do que tem lá dentro). Caso goste do que viu, não se esqueça de deixar uma gorjeta (like) ou comentário para o escritor, ele agradece pela sua cooperação. Para o caso contrário, deixe um comentário com sua reclamação, estamos sempre tentando melhorar. Espero que se divirta. :)

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Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
O modo que você descreve as cenas é encantador. Sou fã =)
September 26, 2021, 22:52

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Obrigado, Arnaldo. Uma honra ler isso vindo de você! Abraço! October 02, 2021, 04:32
~