erickqalves Erick Q. Alves

Amaldiçoada Marta vive reclusa em seu apartamento. Após anos evitando ao máximo qualquer contato ela se vê forçada a deixar o exílio para o funeral da mãe. Buscando uma forma de controlar a habilidade que a atormenta procura ajuda do pai que a abandonou, mas logo se arrepende dessa decisão, acabando perseguida por estranhos e presa com um homem instável.


#16 in Fantaisie #2 in Fantaisie urbaine Interdit aux moins de 18 ans.

#drama #baixa-fantasia #fantasia
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Luto e esperança

Marta acendeu o último cigarro, perguntando se deveria fumá-lo naquele momento. A última coisa que queria era precisar sair para comprar algo que não planejou. Ela não deveria ter fumado tanto naquela semana.

A jovem soprou uma fina fumaça azulada, encobrindo as imagens na tela do computador. Os dias antes da entrega de um trabalho sempre a deixavam ansiosa, em especial com um projeto tão grande. Olhando para os desenhos, sem vê-los de verdade, ela percebe que os pensamentos inconvenientes voltam a aparecer.

As vibrações do celular a assustam trazendo a jovem de volta para realidade, o coração dela acelerou ao atender a chamada de vídeo deparar-se com a mãe.

Livia sorriu ao vê-la e Marta correspondeu sentindo o peito se apertar. Já faziam mais de dois anos que a mãe estava internada e Marta nunca havia a visitado, as chamadas de vídeo acalentavam a saudade, mas nunca seriam capazes de matá-la por completo.

— Boa noite, mãe. — Disse, tentando disfarçar a tristeza. — Como está se sentindo? Conseguiu comer alguma coisa?

— Boa noite, meu amor. — Respondeu Livia, com a voz rouca. — As enfermeiras me fizeram comer um copo d'água que chamaram de sopa. — Livia riu um pouco, antes de engasgar e começar a tossir. — E você meu bem? Não tem trabalhado demais, não é? Nada de ficar sem comer de novo.

Marta sorriu desconfortável, ela mal conseguia se lembrar da última vez que havia dormido, quem diria quando fez uma refeição decente.

— Como vão os trabalhos? Conseguiu terminar o projeto da concessionária? — Perguntou Livia, mudando de assunto.

— Só faltam alguns ajustes. — Respondeu Marta. — É o site em que mais passei tempo trabalhando, pelo menos o pagamento vai compensar, talvez até consiga me mudar para perto e te visitar mais.

Livia sorriu e bateu algumas palmas animadas para parabenizá-la. O brilho em nos olhos da mãe pareceu aumentar e Marta torceu para que, dessa vez, ela estivesse melhorando.

— Você tem saído? — O tom de Livia se tornou mais sério, aquele assunto era delicado. — Sabe que não pode só guardar toda a comida que conseguir e se isolar do mundo. Precisa ver outras pessoa, respirar ar fresco, tomar um sol.

Marta permaneceu em silêncio por um momento, sentiu o peito voltando a se apertar, sabendo como aquilo iria acabar.

— Mãe. — Marta engoliu em seco. — A única pessoa que eu ainda mantenho contato é você, a senhora sabe o sofrimento que é sair de casa. Por essa maldita coisa que me persegue sempre que toco em alguém.

Ela respirou fundo, só de pensar na infeliz habilidade recebeu a fazia querer sumir. Marta se arrependeu por não ter guardado o último cigarro para mais tarde, aquele seria o momento perfeito para encher o cérebro com nicotina.

— Eu sei, meu bem. — Respondeu Livia, surpreendentemente calma. — Você me disse como é difícil confiar nos outros e como é ruim sair de casa, mas você precisa disso. Tenho certeza que se tentar você consegue meu bem, mesmo que seja difícil no começo.

A jovem suspirou, por um momento ela acreditou que aquela conversa poderia terminar de uma forma diferente, mas sempre acabavam no mesmo lugar, ela não estava tentando o suficiente.

— Tudo bem, mãe. — Respondeu desanimada. — Ainda tenho que terminar o projeto da concessionária antes de amanhecer, amanhã a gente se fala mais, pode ser?

— Claro, meu bem. — Respondeu Livia com um sorriso doce que fez Marta se arrepender por ter mentido. — Mas vê se não vai ficar sem dormir por causa do trabalho, boa noite, meu amor.

— Boa noite, mãe.

Assim que encerrou a chamada Marta pôs as mãos sobre os olhos, aliviando o ardor após tantas horas de trabalho e escondendo as lágrimas da sala vazia. A pior parte nas discussões com a mãe é que Marta sabia que ela estava certa, precisava tentar mais, precisava enfrentar a situação, porém nem Livia sabia por onde deveria começar.

Suspirando ela deslizou as mãos pelo rosto, até chegarem aos curtos cabelos crespos, precisava de um cigarro. Ela olhou para o relógio, ainda tinha alguns minutos antes das dez, se corresse conseguiria chegar no mercado antes que fechasse.

Em um impulso de coragem Marta pegou a carteira e deixou o apartamento.

Mesmo ela morando próximo ao centro a rua estava pouco movimentada. Marta se sentiu um pouco mais confiante em sair, talvez aquele fosse um bom horário para passear, talvez até pudesse tornar caminhadas como aquela um hábito, seria um ótimo começo.

Distraída com a brisa, que não sentia há tempos, ela não percebeu o pequeno grupo que se aproximava, esbarrando neles e acabando por cair sentada na calçada fria.

— Opa! Desculpa, moça. — Disse um dos jovens, estendendo a mão para ela.

Sem pensar Marta a segurou, no pouco tempo que levou para se levantar ela pode absorver alguns pensamentos do jovem, coisas horríveis sobre a aparência dela e como ela deveria estar drogada.

Assim que se pôs de pé Marta afastou a mão do jovem, parando de ouvir aqueles pensamentos terríveis. Com um sorriso debochado o rapaz balançou a cabeça e se foi junto aos amigos, deixando-a para trás com as coisas que havia absorvido. Ele provavelmente a esqueceria em breve, enquanto Marta levaria anos para apagar por completo havia escutado.

Agoniada ela esfregou os braços, tentando afastar a estranha sensação que o toque de outras pessoas sempre traz. Ao sentir uma lágrima escorrer ela a secou rapidamente, mas não pode remover os pensamentos que vieram junto com ela.

"Você sabia que não devia ter saído." Pensou ela, voltando a andar. "As pessoas são horríveis, sabe disso, elas pensam coisas terríveis uma das outras e escondem atrás de sorrisos falsos."

Marta balançou a cabeça, sabia que os pensamentos estão certos, porém ainda os odiava, não queria pensar sobre aquelas coisas, apenas poder fumar em paz.

Para a sorte da jovem o mercado ainda estava aberto, as compras que pediu estavam agendadas para chegar dali à uma semana, então, por garantia, Marta decidiu levar pelo menos dez maços. Na fila, atrás dela, dois garotos compravam bebidas, Marta não conseguia lembrar-se de já ter feito algo do tipo na idade deles, apesar de não ser muito mais velha.

Os dois já estavam claramente bêbados, falando alto e perturbando os outros clientes na loja. Marta pegou suas compras e saiu apressada da fila, mas não antes de um dos rapazes empurrar o outro que acabou por esbarrar nela. Os pensamentos de Marta se tornaram confusos, a fazendo perder o equilíbrio e cair sobre uma prateleira.

O rapaz se prontificou em ajudá-la, pegando a mão da jovem e perguntando se ela estava bem, porém Marta não conseguiu responder, os pensamentos desesperados do jovem invadiam a mente dela.

Confusa a jovem o empurrou, antes de vomitar pelo chão todo. Sem olhar para trás ela deixou a loja, enquanto o rapaz gritava pedindo desculpas.

Mesmo desorientada Marta logo se viu de volta ao prédio onde mora. A mente confusa da jovem se tranquilizou percebendo que aquele pesadelo estava prestes a terminar.

Apertando a sacola contra o peito ela subiu no elevador segurando as lágrimas como pode.


●●●


O celular de Marta fez toda a mesa tremer, acordando-a assustada de um sonho que já não conseguia mais se lembrar qual era.

Se levantado rápido ela foi até o celular e, sem olhar quem ligava aquela hora, atendeu irritada.

— Quem é? — Perguntou enquanto bocejava.

— Boa noite, meu nome é Marina, sou do Hospital Memorial Álvaro Santos. Com quem eu falo? — Respondeu uma voz um tanto nervosa, fazendo o peito de Marta se contorcer.

— Marta Moreira da Silva. Minha mãe piorou?

Um silêncio desconfortável pairou na chamada, do outro lado a mulher suspirou, ela não queria estar fazendo aquilo e Marta já podia imaginar o que viria.

— A situação da Livia piorou nas últimas horas. — Ela respondeu por fim. — E, infelizmente, ela veio a falecer...

Mesmo já esperando essa notícia a algum tempo, ouvi-la trouxe um impacto muito maior do que poderia imaginar. Respirando fundo Marta continuou a ligação o mais calma que pode, perguntando tudo que precisaria fazer naquele momento.

Assim que a chamada encerrou toda barreira que havia criado para se controlar desabou. Marta chorou alto, como não fazia desde a infância, não havia ninguém para consolá-la naquele momento.


●●●


Por dois dias Marta precisou lidar com a morte da mãe, enquanto enfrentava um mundo repleto de pensamentos sombrios. Porém nenhum desses dias se mostrou pior do que o velório.

Enquanto o corpo da mãe era exposto para pessoas completamente estranhas à ela, Marta buscava formas de escapar dos que buscavam dar-lhe os pêsames, evitando aqueles toques carregados de pena.

Por sorte, após a última pessoa tentar consolá-la, ela pode sentar-se em paz em um canto, observando de longe o rosto sofrido da mãe. A morte podia não ser o melhor caminho, mas Livia vinha sofrendo a tanto tempo que Marta não conseguia se lembrar com exatidão a quanto tempo estava doente.

Marta sorriu com tristeza, queria demais se despedir de forma adequada da mãe, acariciar a pele escura e enrugada, sentir o cheiro dos cabelos uma última vez. No entnto não havia como saber o que aconteceria tocasse Livia, poderia acabar morrendo por não existirem mais pensamentos para absorver. Também existia a chance de nada acontecer e essa era a opção que mais a assustava, Livia era a única pessoa que ela se sentia confortável em tocar. Os pensamentos da mãe podiam ser duros, mas nunca eram cruéis, ela era o porto seguro da jovem.

— Olá, minha flor. — Disse uma voz doce, de repente.

Marta ergueu o olhar assustada, secando as lágrimas que nem havia notado. Diante dela estava uma senhora de olhar cansado, que não parecia muito saudável.

— Meu nome é Maria, — ela explicou, — sou... era amiga da Livia.

Marta nunca a havia visto, mas se lembrava da mãe falar algo sobre ela, elas foram colegas de quarto por um tempo.

— É um prazer, Marta. — Ela respondeu com um aceno de cabeça.

Maria permaneceu ali, parada, a encarando, o constrangimento de ambas era claro e Marta sentia que a senhora se preparava para dizer algo delicado.

Após o que pareceu uma eternidade Maria começou a procurar algo na bolsa que carregava, buscando por um item perdido na clara bagunça de alguém carregando coisas demais.

De repente Marta pode ver os olhos da senhora brilharem, seja lá o que ela procurava, finalmente havia encontrado. Maria retirou um envelope cinza amassado da bolsa e o estendeu para a jovem.

— Livia pediu que eu entregasse para você quando esse dia chegasse. — Explicou, com a voz trêmula. — Ela me disse que você deveria ler quando estivesse desesperada por ajuda e não houvesse para quem pedir ajuda.

Tremendo Marta estendeu a mão para pegar o último recado que Livia deixava para ela. Por um momento as mãos das duas se tocaram e os pensamentos de Maria invadiram a mente da jovem.

“Se ela tivesse visitado a mãe, pelo menos uma vez, eu não teria que fazer isso.”

Marta não conseguiu esconder a surpresa ao ouvir aquilo, porém Maria não pareceu perceber que a jovem havia absorvido os pensamentos dela. Ela agradeceu por a mãe não ter contado para ninguém sobre aquela maldita habilidade.

Até o fim do velório Marta permaneceu no canto, abraçando a carta da mãe, lutando contra as lágrimas, ciente que, no momento em que as deixasse correrem, não teria mais controle sobre si mesma.


●●●


O ar pesado pelo cheiro de cigarro do apartamento preencheu os pulmões de Marta, a acalmando um pouco. A mente da jovem girava acelerada, mesmo após todos os acontecimentos ela ainda não conseguia aceitar que não veria mais a mãe, alguém que sempre esteve lá e, de repente, nunca mais estaria.

Ela sentou-se no sofá, encarando a parede e acendeu um cigarro. Há anos ela sentia ter atingido o fundo do poço, mas, somente agora, percebia que não havia mais para onde descer.

As lágrimas vieram, incontroláveis, como esperado. A jovem respirava pesado entre os soluços, sem se dar ao trabalho de tentar secar o rosto, já sabia que ficaria muito tempo naquela situação.

E já havia se passado um longo tempo quando uma pequena ideia ressoou na mente da jovem, um pequeno brilho de esperança surgiu em meio aquele mar de desespero.

Dentro do bolso da jovem ainda estava a carta que Livia havia deixado para ela.

Marta não havia dado muita atenção para a estética da carta antes de guardá-la, devido a situação. Estava em um envelope comum, lacrado com cera, adornado por uma abelha dourada, o animal favorito das duas, mesmo que Marta tivesse medo dele na infância. Aquele pequeno sinal de afeto apertou o peito da jovem. As únicas palavras no envelope estavam na letra arredondada da mãe:

"Para a minha alegria"

Um sorriso trêmulo tomou rosto o de Marta por um momento, enquanto ela era esmagada pela saudade.

Com delicadeza, para que o lacre não quebrasse, ela abriu a carta, ansiosa em saber o que dizia:

"Olá, meu amor. Nunca fui muito de escrever, então, provavelmente, só está lendo isso porquê não conseguimos mais nos falar. Quero que saiba de algumas algo antes de eu ir para sempre. Você sempre será o meu maior orgulho e alegria nesse mundo, mesmo que as vezes você não acredite nisso. Me preocupo por estar se isolando tanto nos últimos anos, isso não é bom para você. Sei que não gosta de tocar nesse assunto, mas precisamos cutucar essa ferida, em algum momento as coisas podem piorar e você não vai mais conseguir se esconder. Existe alguém que pode ajudar, mas só caso não haja mais nenhuma esperança e você esteja completamente sozinha nesse mundo. Ele se chama Luis e tem uma habilidade parecida com a sua, talvez ele possa te ajudar com o que você chama de maldição. Foi difícil encontrá-lo, ele não costuma morar no mesmo lugar por muito tempo, nem quer ser encontrado, não sei os motivos dele, mas tenho certeza que não é por coisa boa, tome cuidado, meu amor. Sei que ele já não é mais o mesmo homem que conheci anos atrás.

P.S.: Ele é seu pai."

Várias partes estavam manchadas de lágrimas, tanto de Marta quanto as já secas de Livia. Cinco linhas antes do post scriptum foram riscadas até que ninguém pudesse lê-las, Livia se esforçou para esconder seja lá o que tivesse escrito.

Junto a carta havia um pequeno bilhete com um endereço e uma foto de Livia, de anos atrás, segurando Marta no colo. Ao lado delas havia um homem sorridente que a jovem nunca havia visto, porém ainda lhe era familiar de alguma forma.

Só poderia ser o pai dela, mais uma lágrima correu pelo rosto da jovem, em um misto de tristeza e esperança.

Livia nunca falava sobre o pai de Marta e ela aprendeu, mesmo muito nova, que aquele era um assunto delicado. Porém, nos últimos momentos, ela lutou contra aqueles sentimentos para dar uma nova esperança à jovem. Marta sentiu que não merecia uma mãe tão gentil.

21 Août 2022 20:01:24 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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