mercysstw Marci

Nesta one-shot da saga KingKiller ( O Nome do Vento e O Temor do Sábio, do excelentíssimo autor Patrick Rothfuss), trago-lhes apenas mais uma noite da vida de Kote, o hospedeiro. Um homem que se tornou um vestígio de tempos gloriosos, uma casca vazia e triste, alguém que perdeu tudo o que tinha, uma sombra do passado.


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#onomedovento #elnombredelviento #thenameofthewind # #Kingkiller #Rothfuss #Patrick #Bast #Kote #Kvothe
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Marco do Percurso

O silêncio que pairava sobre o ambiente da hospedaria Marco do Percurso era calmamente inquietante e a única distração para Kote, o proprietário do estabelecimento, era polir incessantemente o balcão do bar, livrando-se da mais ínfima manchinha que ousasse macular a madeira perfeitamente envernizada.

Aquela era uma noite como qualquer outra, ou seja, com pouco ou nenhum movimento e, por um momento, Kote desejou ver o salão cheio de damas sorridentes e cavalheiros bêbados, pois assim o hospedeiro estaria demasiadamente ocupado para dar atenção aos seus próprios pensamentos, pois estes o feriam mais do que flechas ou lâminas conseguiriam.

O cheiro de óleo queimado das lamparinas não era propriamente um odor desagradável, porém, serviu como uma boa desculpa para que Kote arrastasse preguiçosamente os pés sobre o piso do salão até parar em frente à porta onde, dando um suspiro cansado, empurrou a madeira escura para assim revelar a escuridão que envolvia o exterior de sua propriedade.

Encarando tudo e nada ao mesmo tempo, Kote encostou a sua cabeça na parede e, ao ouvir um barulho oriundo dos arbustos, pensou que logo veria uma cabeleira negra e um par de olhos azuis emergindo da escuridão, revelando Bast, seu aluno e ajudante. Porém, quem saiu das sombras não foi o jovem de gestos graciosos e sorriso sedutor, mas sim um coelho ágil e assustado, cuja pelagem branca iluminada pelo pálido luar cintilava graciosamente. O animal parou, levantou as orelhas, encarou o homem parado à porta e, ao notar que este não lhe era uma ameaça, seguiu furtivo o seu caminho pela escuridão.

Os lábios de Kote até tentaram se contrair em um leve esboço de sorriso quando o hospedeiro se deu conta do quão absurdo havia sido o seu último pensamento, pois Bast não voltaria tão cedo, já que estava às voltas com uma das moças que lhe espiavam durante os banhos vespertinos. Porém, sorrir era quase impossível para o proprietário da hospedaria, que ao sentir a lufada de ar frio característico das noites outonais, girou sobre os calcanhares e fechou a porta num movimento lento.

Sentindo as mãos frias, Kote caminhou vagarosamente até a lareira e, agachado em frente a ela, estendeu as mãos para o fogo crepitante. Nesse momento, suas características ficaram mais nítidas e qualquer par de olhos mais atentos notaria que aquele homem de feições apáticas e jeito simplório não era um simples hospedeiro.

A pele do rapaz era alva; as mãos eram grandes, fortes e graciosas; os olhos eram – ou melhor – estavam verdes escuros, quase negros e dotados de um vazio agoniante, embora o vazio em seu peito fosse infinitamente maior. O cabelo era ruivo, flamejante como o fogo a sua frente, igual ao de "Kvothe, o sem-sangue", igual ao de sua verdadeira identidade.

No entanto, Kvothe era alguém de quem Kote gostaria de esquecer, embora fosse impossível.

Meneando a cabeça, o hospedeiro levantou-se e encarou o salão vazio, cujo silêncio lúgubre lhe recordava o arquivo da Universidade, onde passava horas estudando e caçando livros para as aulas de seus mestres.

Ao encarar o balcão de bebidas, lembrou-se de quando virava a noite bebendo e jogando cartas com Simmon e Wilem. Uma dolorosa saudade aninhou-se em seu peito ao recordar-se das desventuras amorosas de Sim, dos deslizes que Wil cometia ao falar aturano, das noites animadas na Eólica, das loucuras do mestre Elodin, dos sorrisos doces de Auri, da companhia de Denna… Por Tehlu! Ele sentia saudades até das picuinhas com o asno, ou melhor, com o Ambrose.

Ele sentia falta de tudo, mas principalmente de si mesmo, do rapazinho petulante e astuto que costumava ser.

Olhando para a espada pendurada na parede, as lembranças tornaram-se cada vez mais fortes, indo de momentos agradáveis até momentos que fizeram o seu coração rachar-se dentro de seu peito.

Uma vez atrás do balcão, Kote pousou as mãos sobre a superfície e passou a observá-las. Aquelas não eram mãos de um reles dono de hospedaria e sim as elegantes mãos de um habilidoso músico.

Ah… A música.

A música fora conforto para a sua alma, o acalentou em momentos de sofrimento, o sustentou quando ele pensou que iria desabar e foi sua única companheira em momentos de solidão.

Lembrou-se de seu amado alaúde, dos seus pais, da sua trupe, das noites em que tocava na Anker's, na Eólica, no telhado com a Auri, na floresta sozinho… Recordou-se dos aplausos da platéia, das lágrimas de Simmon, do olhar de Wilem, de seu dueto perfeito com Denna, de seu amor perdido…

Socou a madeira do balcão. Não com raiva, mas com tristeza. Tristeza pelos momentos que já se foram, tristeza por não ter mais a música com o consolo e por ter substituído o seu querido e inestimável alaúde por um pedaço de trapo para limpar.

Tornou a esfregar a superfície envernizada, polindo-a insistentemente. Porém, mesmo com seus esforços, seus pensamentos não o deixavam, causando dores em seu coração quebrado desde os onze anos de idade.

Uma singela lágrima escorreu-lhe pelas faces, pelas feições envelhecidas graças à apatia e caiu graciosamente na madeira polida do balcão, deixando uma manchinha irritante, uma marca de todas as dores que ele procurava esconder até de si mesmo.

Fungando, Kote tornou a esfregar a superfície reluzente com uma mão enquanto a outra lhe secava os olhos, apagando qualquer vestígio de pranto. Ao ouvir um barulho na porta, o homem respirou fundo e continuou polindo, mantendo a tediosa normalidade à qual já havia se habituado.

"Reshi?" disse Bast ao entrar.

"Pois não, Bast?" Kote falou de maneira letárgica, soando tão normal como sempre.

Seu ajudante adentrou o recinto. A blusa branca amassada, as pequenas folhas verdes destacando-se em suas madeixas negras, o nó de sua calça parcialmente amarrado e as marcas roxas em seu pescoço indicavam que a noite havia sido boa, tão boa que chegava a ser digna de uma repetição.

"Ainda há tempo para uma aula?" indagou o moreno.

" Não, Bast. Não estou disposto." respondeu o ruivo e seu aluno franziu o cenho.

"Mas Reshi…" Bast tentou falar, notoriamente espantado com a atitude de seu mestre, que levava as aulas muito à sério.

"Mas nada, Bast." Kote pousou delicadamente o pano sobre o balcão e caminhou até as escadas, fazendo um gesto de enxotar para Bast. "Amanhã continuaremos, não há pressa. Afinal, sempre haverá outro dia."

Sem dar chances para que o aluno se manifestasse, Kote subiu os degraus até chegar em seus aposentos onde, sem encarar o seu baú tritrancado, deitou-se em seu leito e ali deixou-se abraçar pelo silêncio. O silêncio de três partes, o silêncio de uma sombra do passado, o silêncio de um homem que espera a morte.

10 Juin 2021 02:36:08 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

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 Silva Silva
Ei Patrick, se precisar de ajuda com o terceiro livro temos uma forte candidata. Marci que coisa linda 😍 Pra mim foi como literalmente ver um capítulo do livro de tão bem escrito isso aqui está. Rapidinho me vi imerso na Pousada, nos pensamentos de Kote e suas angústias do passado. Tudo descrito com esmero e carinho por uma leitora de obra incrível. Se todas as fics fossem nesse nível, o mundo seria outro, na real kkkk Gostei especialmente da cena com o alaúde e de tudo que ele evoca no personagem do Kote. ❤️ A presença do Bast ao fim dá margem para continuações e seja de você ou do Patrick, o mundo necessita! Parabéns ❤️❤️❤️
June 11, 2021, 00:38

  • Marci Marci
    Aaaaaa que comentário amorzinho❤❤ Fico imensamente feliz que você tenha gostado, sério mesmo❤ Muito obrigada pelos elogios à minha escrita, fico muito agradecida de verdade❤ Bem, sobre a continuação... Pat, me contrata por favor kkkkkk ❤❤ Eu estou pensando seriamente em escrever uma continuação agora dando mais ênfase na relação Mestre × Aluno do Bast e Kote, mas confesso que tenho medo de me empolgar demais e acabar fazendo um spin off da continuação ( graças às inúmeras teorias que tenho kkkk) enquanto espero em posição fetal o nosso queridinho Pat resolver dar sinal de vida e publicar o terceiro livro para sanar as nossas dúvidas. Abraço ❤❤❤ June 11, 2021, 00:43
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