Blue Martell Blue Martell

Anos se passaram desde a Batalha de Shadowfell e cada um presente na batalha havia seguido seu caminho, e Gungnir preferiu a calma do Reino Branco para executar seus estudos em magia. Como um dos pupilos remanescentes e detentor do grimório de Gringo Damaro, era seu dever estudar tudo que pudesse. As coisas mudam quando Aragorn, o Guerreiro da Batalha do Dragão, surge em um dia atípico para tirar sua paz.


Fantaisie Médiévale Déconseillé aux moins de 13 ans.

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Escolhas em Um Dia Atípico

Alguns itens eram necessários, mas ele tinha quase todos. Pó de Meia Noite, cristais do Monte Sathnenzy, erva de Santerian, faltavam mandrágoras… Onde conseguiria mandrágoras? Talvez em Siruth Kar tivesse, ele costumava conseguir por lá, mas estava tanto tempo longe da cidade natal que não sabia como as coisas estavam, se era época de colheita.


Largou a pena e o pergaminho e desceu as escadas da Fortaleza Branca. O dia estava um tanto quanto agradável e as pesquisas andavam relativamente rápido. Ao fim das escadas, notou que a cidade estava mais movimentada que o normal. Dirigiu-se o mais próximo da entrada que o primeiro andar permitia e viu alguns elfos olhando curiosos, com pausa em seus afazeres também, e observando a entrada assim como ele. Um cavalo branco se aproximava em uma velocidade moderada, com seu cavaleiro de armadura e elmo com longas penas vermelhas. Ah, não…


Ah, não.


Ele conhecia bem aquele elmo, vira-o proteger várias pessoas de dano radiante algumas vezes. Compreendia que estava realmente muito bem para seu gosto, o dia. Algo havia de acontecer para o universo entrar em equilíbrio e lhe trazer um mau humor peculiar.


Viu um elfo apressado com uma carta de apresentação se prostrar diante do cavaleiro e ao mesmo tempo que ele apoiava a cabeça no punho esquerdo e rolava os olhos, o elfo começou a ler o pergaminho.


— Elfos da Cidade Branca, aqui apresenta-se Aragorn, guerreiro da Batalha do Dragão e por todos os seus mais inomináveis títulos. Ele ficará em sua ilustre presença durante alguns dias conosco.


— Ótimo, mande Zaryel também, o próprio Dracarys, se puder! — esbravejou baixinho. — O bastardo do Aragorn na Fortaleza Branca! Era só o que me faltava…


Deu as costas, até esqueceu o que tinha de fazer lá embaixo. No meio do caminho para sua sala lembrou-se, e deu a volta mais uma vez enfurecido. Ainda bem que os boticários ficavam mais abaixo e não teria que cruzar com ele.


Chegando próximo ao boticário mais perto, entrou sem nem mesmo se anunciar, o elfo que estava atrás do balcão se assustou levemente e deixou cair alguns rolos quando ele entrou. Olhou mais atentamente e notou ser Avalon, um elfo vermelho que tinha chegado pouco antes dele, interessado em aprender, alegava, e acabava de ocupar o serviço de cuidar dos boticários. Um mero iniciante curioso nas artes curativas. O que era uma surpresa, de fato. Elfos vermelhos eram sempre considerados de pouca calma e elevado temperamento, mas Gungnir nunca se deixou levar por esses preconceitos.


— Senhor Gungnir, me assustou — disse ele, se apressando a recolher os rolos com uma risada sem graça. — Erh, que bom que veio, suas encomendas acabaram de chegar numa caravana importante. Disseram que ela veio acompanhada do grande…-


Silêncio. — disse, conjurando a magia. Não suportaria mais alguma coisa relacionada a Aragorn que fosse. Ele tinha o poder de despertar em Gungnir o mais poderoso dos ódios


O elfo se assustou perante a magia conjurada, sentindo as cordas vocais perderem som e o abalo em ver seu semelhante, sempre silencioso e compenetrado, com um semblante levemente incomodado e até raivoso, diria, foi de arregalar os olhos.


— Desculpe-me, mas eu não gostaria de ouvir nada sobre Aragorn, está bem? — disse, desfazendo a magia. Viu Avalon engolir em seco e dar um sorriso constrangido.


Um silêncio se instalou na sala sem influência de magia, realmente não sabia o porquê de ter sido tão drástico com o rapaz, mas argh! As coisas sempre davam errado com Aragorn por perto, ele sempre os arrastava para situações de dificuldade que sempre atrapalharam os planos dele. Se bem que eles não estavam juntos há muito tempo...


As aventuras sempre seguem suas linhas, mas há alguns desvios que nos levam a pontas de fio desalinhadas, pensou consigo.


— Bem, elas chegaram. Daqui a pouco as provisões chegarão aos boticários, e eu entregarei assim que puder. Afinal, as ocupações do festival em homenagem ao grande Arag… Erh, ao grande guerreiro, estão ocupando o tempo dos demais. A doce princesa esteve muito feliz com essa ocupação. Como sabe, ela ama festas e convidados. — disse, enquanto arrumava alguns frascos na prateleira que dizia “antídotos”.


Gungnir não conseguiu evitar um sorriso de canto discreto, Aragorn era, apesar de todo seu entojo por ele, inegavelmente um homem de beleza considerável e um guerreiro auspicioso em todos os aspectos. A princesa era jovem e com certeza ávida por histórias de fora do Reino Branco, e com certeza ouvira falar dele. Se ela soubesse que Aragorn adorava as serviçais de tavernas, tão simples e sem apegos por riquezas, até as mais doces e molhadas princesas de seu reino natal, ela saberia se aprumar melhor para o que estaria por vir.


— Ela está noiva, não está? Do clérigo que nos acompanhou na primeira vez… — disse mais para si do que para Avalon, sempre revisitando suas certezas.



— Não sei dizer se é do tal clérigo que acompanhou vocês da primeira vez, afinal, não estava aqui, estava? — disse Avalon risonho, encorajado pela abertura do outro. O Senhor Gungnir era conhecido por sua inteligência, feições rígidas e por sua imprevisibilidade. Não conhecia um elfo, em seu pouco tempo de estadia naquele local, que houvesse trocado mais que poucas palavras com o Renascido do Caos. — Mas bem, acredito que o anel no dedo dela não seja feito de pantomima, não é? Deve ser um cavaleiro respeitoso, um lorde, no mínimo.


— Que tal o Escolhido de Atena? Ele está bom para você?


Avalon desequilibrou alguns frascos, quase deixando-os cair, olhando para o mago de forma embasbacada e surpresa.


— Você diz…? Aquele.. O que carrega o dever de Atena e seus favores? Até sua lança?


Acenou em concordância, vendo Avalon aproximar-se da bancada a qual estava com o antebraço apoiado, levemente curvado até.


— Esteve com ele, senhor? Na Batalha com Bael, o demônio? Dizem que até a Princesa dos Oceanos estava lá!


Ouvir, de certa forma, o nome de Ynarthian fez aquecer seu coração. A companheira de batalha, há muito longínqua de si, ainda fazia seu nome. De vez em quando, Maugrim vinha até sua janela na Fortaleza trazer cartas enormes, mas de pouco conteúdo. Ynarthian nunca foi fácil de decifrar, mesmo para o mais próximo amigo e amor, e depois de sua ida para Marinha, seus caminhos se separaram. Sempre ria quando os outros se referiam a ela dessa forma exagerada. “A Princesa de Siruth Kar”, “A Elfa da Batalha das Três Pontes”, “A Empata das Mil Emoções”. Todos nomes que ela construíra para si, com a força de seus braços e o poder que ela possuía. Para ele, porém, ela sempre seria a Narphyn, que roubava narcisos e amoras de olmeiro do jardim real para suas poções, a que socou Kall no final da noite na taverna dos anões para ganhar uma aposta, a que dera parte de sua vida para salvá-lo em Shadowfell… Ainda hoje acreditava que as pessoas a viam do jeito errado.


— Gostaria de ir comigo no festival hoje, Avalon?


Viu as bochechas do elfo vermelho ganharem cor, e ele levar a mão direita ao cotovelo esquerdo.


— O senhor deseja me levar? — disse-lhe, com a voz trêmula.


— Sim. Será bom conversar com um companheiro de raça neste dia amaldiçoado com a presença de Aragorn. Nos encontramos à noite? — Exclamou, já saindo do boticário, deixando um Avalon extasiado e chocado para trás. — Estarei nos meus aposentos, e não esqueça das minhas mandrágoras!


Chegou ao pátio novamente, vendo Aragorn com sua armadura reluzente, todo polidez e cumprimentos, e pensou quanto tempo levaria pra ele estar destruindo tudo ou caindo na porrada com qualquer pessoa que seja.


Seguiu para seu quarto, para um bom tempo na água e de leituras. Quando Avalon chegasse, ele já teria terminado de transcrever três compêndios de magia, se as águas corressem como de costume. Talvez o compêndio de Salazar demorasse mais, devido a poção que precisava para compilar as cinquenta e oito sacras de Silavari, mas ele conseguiria com um pouquinho mais de esforço. Havia o compêndio de Rizastralvard também, o qual ele encontrou nas montanhas do Reino Azul, em sua última visita. Depois da morte de Órion, o cargo de Arquimago de Siruth Kar havia sido-lhe oferecido várias vezes, frente ao prestígio que tinha com toda Valeran. Mas ainda havia coisas que ele precisava fazer, coisas a pesquisar, lugares a conhecer.


Uma pena não ter ido a Valir Kandel visitar Ynarthian, talvez conhecer o veloz Sangue do Arco Resplandecente. As ninfas da região realmente lhe fascinavam. Até a amiga, em seus rompantes de poder no início, eram uma grande caixa de curiosidades insaciáveis para Gungnir. Houveram vezes, como a de Kalindor, que ela havia desmaiado em seus braços pela carga enorme de emoção presente nas fortalezas. Ela ficou um dia quase todo desacordada, e ainda quando acordou, estava péssima. Um poder a qual Gungnir sentia curiosidade, mas de forma alguma inveja. Suas emoções eram algo catalogado e muito bem organizado para coisas de fora entrarem e bagunçar todo seu enorme trabalho. E não haveria de ser outra forma, senão…-


Toques na porta o interromperam. Ora, mas quem seria?


Afastou os compêndios sem olhá-los, e saiu da tina de água gelada com certa pressa, quase escorregando perto das cortinas do cabideiro. Lembrou-se de perguntar "Quem bate à porta?" E ouviu um sonoro e polido "Avalon, senhor." Como Avalon? Pegou o roupão com certa rigidez e abriu a porta, dando de cara com o elfo em trajes vermelho-vinho drapeados com couro fervido, sinetas e alguns ilhoses dourados, que refletiam em seus cabelos brancos longos que trazia em solto com algumas tranças singelas e uma feição de expectativa.


— Avalon, tão…

— Aqui está, senhor. Mandrágoras! — disse-lhe, estendendo o vaso com vários ramos frescos da planta.

— Mas Avalon, por…

— O Senhor irá assim para o banquete? Ouve-se falar por aí de sua ousadia, de como luta, mas eu jamais achei…-

— Avalon, por favor! — disse, aumentando um pouco a voz, tomando o vaso de suas mãos de maneira delicada e pondo acima da cômoda próximo a porta, se lembrando de quantas vezes teve a roupa queimada em batalhas. — Está cedo ainda, ainda nem deve ter começado a papagaiada de Aragorn.


— Mas senhor, a lua já vai alta.


Gungnir olhou a janela distante do quarto enorme e suspirou em aquiescência, em um tom de derrota, quando viu estrelas pintando o céu enluarado já bastante escuro, com nuvens esparsas e uma bela vista, diga-se de passagem. E se perguntou quanto tempo realmente se passou anotando e escrevendo… Velhos hábitos não mudam, de fato.


— Me perdoe, Avalon. Parece hábitos de um estudioso não morrem. Não vi o tempo passar. Se importa em esperar eu me trocar pra sairmos?

Com a aquiescência do elfo, seguiu.


Havia lugares que Gungnir não tinha raízes, lugares a qual ele não pertencia e lugares que lhe incubiram aonde estar. Mas ele era ele, tinha passado coisas que até o firmamento julgaria inacreditáveis. Mas estava aqui, e vivo. Tanto quanto as estrelas caem do céu. E não se apresentaria perante a corte branca menos do que era.


Conjurou a magia que lhe permitia estar em Siruth Kar, mesmo não estando. Siruth Kar sempre o receberia quando estava prestes a querer voltar.


Entrou na mansão, vagando por araras de um closet que representava mais suas fases do que nunca. Escolhera um manto negro, recheado com galhos de ônix reluzentes que abria em cadarços cristalinos e castanhas que enfeitiçariam o mais controlado e disfarçado ladino já existente, quanto o lago mais puro de sua cidade natal.


Quando saiu, Avalon teve esforço em medir sua incredulidade. Estava lindo, tanto quanto a beleza que havia em seus antídotos, tão difíceis de conseguir. Estava orgulhoso em conseguir manter tanta compostura diante de tal beleza.


— Podemos ir então?


Avalon só conseguiu forças para aquiescer em concordância, e andar a seu lado logo em seguida. Seguiram em corredores, sempre em silêncio. Com ele admirando a curiosidade eterna de Gungnir, e como alguém tão calmo e sereno podia lutar com deuses e demônios, sempre com compêndios na mão tão ágeis e poderosos quanto o próprio dono. Ao mesmo tempo que Gungnir era o guerreiro das sombras, renascido do caos, mago dos mais poderosos e herdeiro do conhecimento dos oceanos e mais inumeráveis títulos, ele ainda era o elfo que visitava seu boticário dia e noite, totalmente dedicado a seus estudos, louco pela noite e por vento fresco. E qualquer resquício que fosse de sua cidade natal e com quem se importava.


Quando Avalon saiu de seus pensamentos, chegaram ao salão, intensamente decorados com lustres de cristal, alaúdes e harpas, geralmente era o que se tinha numa festa élfica, ficou mais entediado do que esperava.


Aragorn, ao lado da princesa Kanthyn Brien, esquivava-se com maestria de uma jovem que tinha os olhos brilhando para um poderoso guerreiro, seja ele quem fosse. Do outro lado do salão, encontrava-se Velkan, sereno e altivo ao lado da vívida Khalmya, que rodopiava e ria com quem quer que fosse, em sua magnífica espontaneidade.


Avalon, tão acostumado aos lados mais desafortunados do salão, se viu em uma cadeira de prestígio ao lado de Gungnir, diferente do pão e do sal destinado aos plebeus.


O baile seguiu em sua infinita tediosidade. Danças, rituais, pontos de altivez da monarquia. Avalon encontrava-se encantado com tal maestria no povo mais alto em se entediar com coisas que alimentariam um povo inteiro.


— Venha comigo, rápido.


Avalon assustou-se com tal contato repentino, até prestes a atacar se não tivesse visto os cabelos platinados e as castanhas reluzentes e exageradas. Viu em sua mão um odre de cristal, com um líquido dourado e pequenas esferas douradas. Deu a mão em uma confiança quase insana, em correrias por corredores que não imaginava conhecer, tamanha a restrição de tais cômodos. Quando chegaram aos jardins reais, Avalon encontrava-se ofegante, enquanto Gungnir não havia desorientado um fio de cabelo sequer.


— Pelo Fogo, como consegue? Eu tenho certeza que meus pulmões vão explodir.


Gungnir riu, em cima de uma grama cuidadosamente talhada.


— Quando você sobreviver a duas mortes, saberá o que eu digo e passo, Avalon.


O próprio apoiou a mão nos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Enquanto olhava para baixo, Gungnir espalhava uma toalha de linho roxa, que Avalon notou assim que olhou ser um artigo extremamente luxuoso, proveniente do reino dos anões, acreditava, com fios de ouro bordados ruidosamente. Que sempre espalhavam lufadas delicadas de ouro quando achava necessário, quase sensciente.


— Não dê atenção ao tapete. Sente-se, e pegue algo da cesta. Não o vi comer desde que chegou ao meu quarto.


Só assim Avalon notou a cesta delicada, que emanava cheiros deliciosos. Ou seria sua fome uma circunstância atenuante?


— Senhor Gungnir, como…?

— Quantas vezes devo pedir que não me chame de senhor?

— Quantas vezes eu tiver senso de classe. — disse isso, aos risos, enquanto pegava a garrafa com o líquido dourado de cima da toalha, recentemente largada.


— Então… — Disse Avalon, tentando afastar o silêncio desagradável. — Se me permite perguntar, por que me chamou? Um evento de gala como este…


— A bem da verdade, fui sincero desde o início. Sua companhia seria uma benção neste dia amaldiçoado pela presença de Aragorn.


— Por que essa aversão? Dizem que ele derrotou um dragão!


— E também é extremamente desagradável, pungente e tão pedante que eu não poderia encontrar uma magia suficiente para proteger minha mente de tal arrogância.


Avalon se calou, absorvendo as informações novas. Seria tal herói realmente tão ruim de conviver ? Sentindo a garrafa sair de sua mão, eu uma reação totalmente atrasada de mãos encolhidas em um puxão habilidoso e delicado.


— Heróis não são essa camada de justiça, tenacidade e brilhantismo a qual histórias contam. Há escolhas, Avalon. Ao qual, na maioria, eu não concordei enquanto estava ao seu lado. — disse-lhe, sorvendo do hidromel.


— E por que permaneceu então?

— Sabedoria. — retrucou, limpando a boca com as costas da mão. — Por que eu aturaria alguém como Aragorn sem benefício algum? É curioso que um anjo como ele tenha interesses mortais.



Avalon abriu a boca, numa expressão chocada que Gungnir vira poucas vezes, uma intensidade de incredulidade raramente vista. Gostou disso.


— Oh, então é verdade? Ele é um filho de Zeus?

— Um dos muitos, você quer dizer. A bem da verdade, pelo meu conhecimento, Zeus flerta com tudo que fala.

Avalon engasgou com o pãozinho que havia acabado de comer, tentando recuperar o fôlego que permitiu seu corpo tomar.

— E você achava que não? — Gungnir riu, não acreditando que um elfo estudioso não soubesse disso. — Há alguém neste continente ou fora dele que não ache que Aragorn é tudo, menos humano?


Avalon ficou calado, absorvendo as palavras. Um filho de Zeus, realmente era uma honra…


— Então não vejo motivo pra não gostar dele.


Gungnir explodiu em risadas. Numa demonstração de emoções que Avalon não havia visto em toda sua estada no Reino Branco.


— O que é tão engraçado, senhor?

— Senhor, senhor… Toda vez esse senhor. Apenas Gungnir, certo?

— Oh, certo. Gungnir… Qual a graça?


As plantas ao redor dançaram com uma brisa sutil, e ambos ouviram o crocitar agudo, alto demais pra noite tão afunda que já ia.


Quando Avalon viu, seu pãozinho já pela metade foi roubado por um falcão que pousara no ombro de Gungnir, que comia enquanto chiava pra ele de um modo nada amigável. O mago cessou sua risada de maneira gradual assumindo um ar curioso.


— Maugrim, o que faz aqui? Tão temperamental quanto… — Disse Gungnir, antes de ser interrompido pela segunda surpresa da noite.


O baque surdo na mureta do jardim se fez presente, e duas massas disformes se embolaram no chão com gemidos de dor.


Quando Gungnir viu os cabelos azuis e a roupa cerúlea, quase demonstrou mais emoções que seu bom senso permitia. Logo sentiu os braços esguios ao seu redor, o cheiro de sal e mar, quase podia sentir o gosto de narcisos. Tão típicos de Siruth Kar…


— Pelo amor de Deus, Ynarthian! Nunca mais venho com você! O que diabos vocês tem contra cavalos? Essas viagens planares são uma verdadeira desgraça!!


Gungnir sentiu os braços soltá-los e o cheiro abandonar-lhe em pequena intensidade, ouvindo a voz que ultimamente só ouvia quando lia suas cartas.


— Teve sorte de eu ter trago você, Leonel. Você entrar no castelo das aprendizes no meio da meu teste sem ser notado já foi um feito e tanto! Sabe que nosso forte não é bem… A furtividade. Mas e você? — disse ela, finalmente se dirigindo a mim. — Cabelos longos, cartas longas, imagino que seu poder também tenha se alongado. Que falta você fez, meu irmão! Mas ele… Quem é ele?

— Oh, permita-me. Este é Avalon. — disse Gungnir, ainda não superando o choque de tê-la tão próxima.

— E agora eu conheço com o fio do meu arco, não é, Gungnir? Poderia dizer até o nome de sua mãe! — disse ela, com exasperação. Não consegui disfarçar o riso discreto.

— Eu sei, eu sei, calma…

Ela mal ligou para o que eu havia dito, e se aproximou de Avalon, estendendo a mão.

— Olá, sou Ynarthian. A quanto tempo conhece Gungnir? Aquele que veio comigo é Leonel. Você tem cabelos brancos também… — continuou, girando ao seu redor. — Roupas vermelhas… Um elfo vermelho, Gungnir?

Ela olhou pra mim com aquele olhar. E um risinho que fez eu corar ligeiramente.

— Ora, não é isso! Pare já!

— Mas eu não disse nada… — respondeu-me, fazendo eu perceber que tinha me exposto mais do que pensei. Tentei-a distrair.

— Mas me diga, como chegaram aqui? Por que vieram?

— Nos disse que planejava testar a poção de ambrósia. Eu dei a ideia de o visitar, chamei Leonel e Kall, porém não sei se o outro conseguiu chegar ainda.

— Ora, eu cheguei sim. Porém a festa estava deveras interessante.

Quando virei-me, Kall estava lá. Com anéis nos dedos com pedras do tamanho de ameixas, coberto de colares e uma coroa de prata adornada de flores feitas de cristais de cores doces. Uma castanha reluzente e dourada pairava no céu de vez em quando com ele a jogando pro ar.

Vi Ynarthian olhar pra ele entre raiva e alegria, uma incógnita que talvez nem ela soubesse responder. E o abraçou, colando os narizes logo depois, ouvi um sonoro "como é bom ver você!" seguido de um sorriso de Kall, que era demasiado contido para uma declaração tão aberta.

Assim que se soltou dele, vi-a voltar pra mim outra vez, agarrando no meu ombro e desatando a falar. O que me deixava contente em apenas ouvir.

— Mas então, como tem sido sua estadia aqui? Faz tanto tempo que está aqui. Ou será que faz muito tempo que estou lá? Aqueles ninfas são tão caladas, tão sedentas em "entre em contato com seu interior" e etcetera. Sei que preciso disso, depois do que aconteceu em Kalindor, porém pelas águas, eu não aguento mais.

E se soltou de mim, rasgando um pedaço da saia bem trabalhada em linho azul cerulean, soltando o cabelo, que já lhe chegava às panturrilhas, jogando as presilhas que o prendiam em uma estátua, as acertando bem nos olhos

— Ah, bem melhor. Eu não aguentava mais, meu irmão.

Repentinamente, ouviram sons de alaúde e violino, o que denotava uma música mais calma. Viu os olhos dela brilharem e ela passar as maos pelo próprio corpo, surgindo em um vestido com pedras de cristal no formato de estrelas e luas, de fato as que mais gostava. E indo saltitando até a porta.

— Vamos, não vamos perder essa oportunidade, não é?

Todos se entreolharam, com um sentimento de riso e descrença, rindo contidamente e seguindo a princesa. Afinal, quem mais seria capaz de arrastar todos eles para um baile?


Avalon, o único a quem não fazia parte do bando, se sentiu deslocado e até constrangido, nunca vira ou achara que os heróis de Valeran seriam gente tão… Comum. O Herói dos Humanos, Leonel, ao que percebera, tinha medo de portais. Gungnir, que sempre admirara, parecia ainda mais como ele, alcançável, belo… e extremamente como um baú de surpresas. Um elfo tão familiarizado, tão natural, tão… Interessante. Ele não conseguia conter seu brilho ao olhá-lo. Ynarthian, A Princesa dos Oceanos, quem julgava conhecer pelas histórias, até esta o surpreendeu, com uma vivacidade sutil e tão humana quanto não era. Kall, de que pouco falava e pouco se escondia, era ainda mais. Ora, ele nem o sentiu chegar.

Ainda faltava um. E ele se encontrava naquele salão, ao lado da princesa.



°°°


— Não, não. O dever vem acima de tudo, com toda certeza. Saber nossos limites, conhecer nossas fraquezas… Esse é o cerne da verdadeira força. E só por meio dela podemos conseguir justiça.


O rei prestava atenção em suas palavras, porém a princesa Kanthyn Brien, ao seu lado, não poderia estar mais longe no que tange escutar de fato. Os cabelos ruivos, a certeza no falar, a paixão ferrenha pela proteção dos menores. Dizer que estava encantada pelo paladino era pouco, ela estava mais do que arrebatada a ponto de nem usar a aliança. Estava com um vestido a qual o decote em Y chegava-lhe a barriga delgada, os cabelos, trançados e perfumados, enfeitados com ilhoses cravejados de diamantes. Ela estava mais do que bela, porém completamente entregue ao sentimento do descobrimento e da liberdade.


— Devo dizer que sua sabedoria me surpreende. Faz valer a lenda a qual tem seu nome, filho de Zeus. — disse o rei, cortando os pensamentos de Kanthyn, que já se aprumou na mesa de volta, vendo o que estava por vir.


Os instrumentos musicais, tão doces e imberbes, cessaram no salão com apenas um movimento do polegar do rei, que achava estar na hora da celebração tão tradicional. A hora de compartilhar o fruto, a hora de todos estarem unidos como a criação assim permitiu. Olhares agudos de expectativa se viraram a eles e Aragorn se viu numa mesa sem nenhum igual.


— Meus valiosos súditos, cada um de vocês é imprescindível para nós. Hoje temos o prazer de ter uma presença digna de nossa companhia e deleite. O Grande Aragorn, filho de Zeus, está entre nós e nos prestigia, assim como nós o prestigiamos. A honra dos elfos brancos reflete a sua sabedoria e calmaria.


Com mais um movimento, uma travessa de prata desceu do lustre de cristal em uma sutil névoa branca, carregando em cima um fruto denso e rústico, parecia mais importante do que a floresta lá fora, mais importante que o castelo. Se Aragorn fosse julgar, parecia até mais importante que ele. Ao mesmo tempo que se sentia mais do que parte de um círculo importante e se considerava digno, essa dignidade também mostrava que aquele não era um ritual comum, afinal, apenas os mais próximos se consideravam importantes o suficiente para se aproximar. Vestidos pendentes de diamante, esmeraldas e rubis, jóias com pedras do tamanhos de maçãs em pescoços albinos, brincos em orelhas pontudas que chegavam a cinturas delgadas e tecidos com a maciez que deuses jamais poderiam julgar. Mesmo sendo um celestial, aquilo pareceu um tanto quanto… Exagerado. E olha que estava acostumado com exageros.


Desceu os degraus em expectativa, afinal, parecia algo importante. o rei começou a entoar uma canção élfica suave já em sua frente, que foi repetida pelo povo atrás dele. Viu a princesa descer os outros degraus, sempre olhando pra ele e descendo a mão pelo corrimão de madeira. Bebeu resignado do copo, abafando um sorriso. Para uma jovem que não conhecia nada do mundo, ela parecia saber muito bem onde direcionar seus rasos conhecimentos.


Se reuniram todos em uma cúpula e no meio, a tábua prateada. Ficou à esquerda da princesa, em um sinal de importância. Esquadrinhou o salão, num mero reflexo, e teve que conter sua aura em surpresa ao ver cabelos azuis longos surgindo em sua vista. Não conseguiu não piscar algumas vezes em descrença. Fazia realmente muito tempo. Tantas mudanças que não haveria como enumerar todas elas, a única que conseguiu de imediato era a de que ela não estava sozinha. O humano dos humanos estava ao lado dela, assim como o mago estranho e o malditinho do ladino morto-vivo. Um elfo vermelho ao qual não conhecia também estava lá, assim como o elfinho verde de estimação que andava com eles desde a visita a Faywild. Havia tantas mudanças e ainda assim, a energia neles permanecia a mesma.


Porém, curiosamente não tão bom quanto a empata de cabelos azuis, Aragorn aprendeu ao longo do tempo que identificar sentimentos não era algo supérfluo, mas sim bastante útil. Se houvesse atentado a esse pequeno detalhe das criaturas ao seu redor, haveria de ter evitado estragos grandes, como a da imunda bruxa Ygritte que traíra a si e sua mãe ao mesmo tempo naquela emboscada junto a Zaryel. Se naquela ocasião houvesse atentado aos detalhes, a malícia nela quase imperceptível, as coisas poderiam ter sido bem diferentes. Essa situação não se repetiu com Varys, graças a experiência anterior, e assim seguiu no aprendizado de ler criaturas que antes julgava inferior. E isso o levou a Fortaleza Branca aquele dia, notando alegria demais no elfo azul, que lhe ria e olhava quase que com desdém.


Já havia presenciado muitos sentimentos por parte de Gungnir. Raiva, desprezo, tédio… mas nunca alegria, gana. Mas o que diabos estava havendo?


Foi tirado de seus devaneios com o fruto encostando em sua mão. Provou-o levemente e passou ao lado. Estava distante da tal cerimônia e isso não deveria estar acontecendo. Seu foco era um só e deveria permanecer assim.

Ora, por que eles tinham que chegar logo agora enchendo sua cabeça de questionamentos que nada lhe trariam de benéfico? Se antes era uma dúvida, agora era certeza que ter se desvinculado do grupo era o melhor que havia feito. Não que tivesse escolhido, mas o firmamento sempre agia conforme a própria vontade e essa vontade era lei. Não via um grupo como aquele tendo o mesmo convite que ele, ainda mais na Fortaleza Branca. Havia alguma coisa de errado e ele ia descobrir o que era.


Assim que a cerimônia acabou, tomou seu lugar novamente ao lado do trono real, com uma taça de hidromel singela na mão. Álcool não era um de seus caprichos, porém aquele ali era sem igual e se permitiu um gole ou outro. No entanto, a bebida tomou leve tons de amargo quando viu a arqueira dançando com a rasme folhinha de Faywild. Torceu o nariz. Não que lhe causasse algo, afinal Ynarthian nunca fora apaixonada por si, nem ele por ela, e sim Rastok. Porém, houve outras coisas e... Argh, que diferença fazia?! Não era de sua conta. A princesa ao seu lado falava algo, mas ele não conseguia escutar e nem queria, a bem da verdade. Quando a voz do rei soou, ele fez um esforço magistral para prestar atenção e tirar os olhos do salão, onde sua curiosidade agora se debruçava sobre poltronas prateadas ao lado do mago, que ria e gesticulava enquanto ela somente ria um riso genuíno, tão brilhante quanto…-


— Você concorda? — ouviu finalmente o rei perguntar.

— Perdão?

— Ela mudou desde que veio aqui. A sua atenção foi roubada por causa disso.

Aragorn se supreendeu com tal pessoalidade. Afinal, o rei era tão altivo, tão distante… Mas mesmo assim não conseguiu não afirmar em certeza a inegável verdade.

— Porém ela ainda usa o arco que lhe dei. — o rei continuou. — Trouxe a leveza que a impetuosidade dela precisava. Nunca imaginei que uma criança como esta fosse invadir a mente de um dos meus conselheiros mais próximos. Ainda não a perdoei por isso.

— Ela fez o quê? — retrucou Aragorn com exasperação. Isso parecia algo ousado demais, até para alguém como Ynarthian.

— Parece que quem não conhece ela não sou eu, no fim das contas… Kanthyn, sempre com serenidade, lembre-se disso — disse ele se dirigindo a filha e se levantando — Quanto a você, filho de Zeus, foi interessante conhecê-lo. Nem sempre o que se fala sobre um herói é o que se pode esperar dele. Porém, foi uma surpresa boa você ser quem é. Espero que compreenda mais sobre você esta noite. E foi-se, deixando um Aragorn confuso e curioso para trás.



°°°


—… E então eu me assustei, deixando cair as vinhas que eu levei semanas tratando. Tudo por causa de um pombo que bateu na janela da torre. Eu tentei recuperá-las, porém não restou quase nada. De hoje até o fim dos meus dias amaldiçoarei aquele maldito pombo. Raízes de aruana brava são uma desgraça para conseguir para um maldito pombo estragar tudo e… Você não entende nada do que eu estou falando, não é?


— Não. — disse Ynarthian, sorvendo mais três goles de hidromel. — Mas eu aprecio demais a sua raiva. Quer quebrar alguém na porrada? Meu arco é seu, sabe disso.

— Você só diz isso porque sabe que eu nunca "quebraria" alguém na porrada.

— Certamente. Mas até aí ninguém é perfeito, meu caro. Sempre espero mudanças de você.


Olhei pra ela incrédulo, mais por costume do que surpresa de fato. Ynarthian era uma praga. Os cabelos azuis, os vestidos festivos e a cara de donzela escondiam muito bem o demônio que se apresentava com sorrisos e gracejos. Ela balançou a garrafa no meu rosto (seria a décima ou décima primeira? Havia há muito perdido a contagem.) como quem não quer nada. Era uma ocasião especial, afinal, por que não uns goles? Já havia bebido um tanto de nada junto a Avalon.


E por mencionar o dito cujo, este estava tão absorto em conversa com Kall, Akemi e Leonel que era até surpresa pra ele o jovem dos boticários falar tanto. Estavam sentados em almofadas enormes e gesticulando. Decidiu calar-se e tentar ouvir mais, pegando finalmente a garrafa de Ynarthian que já prestava atenção neles há algum tempo. A primeira voz a se sobressair foi a de Leonel, tão delicada quanto uma feira em ascensão.


—… Mas se há uma marca, isso já não seria uma espécie de aliança? Quero dizer, é uma marca corporal. Jamais irá sair.

— É indelicado da sua parte supor que a marca aparecerá justamente em um local não-íntimo. — respondeu Avalon. — Donzelas, ou no caso, moças comprometidas não devem andar por aí com seus… Lugares a mostra. — completou, um tanto quanto sem jeito. — Por isso que ainda assim mantemos a tradição de se usar alianças.

— Mas se usam alianças, para que serve a marca então? Isso parece mais algo ruim do que bom. Na minha terra chamamos isso de chagas das tavernas, sabia? — disse Kall, brincando com uma pérola que ninguém sabia de onde veio.

— Mas que ultraje! Não é uma marca de promiscuidade, é algo enraizado no ser, uma prova de amor.

— Ué, as chagas das tavernas também não são. São marcas de diversão, só que o problema é que quem tem não foi muito atento na hora de se divertir.

— Ai, pelo Fogo! Me dê essa garrafa aqui! — disse ele, tomando a garrafa de Leonel e sorvendo até o final.

— Ele sabe que isso é cerveja barata da sua taverna? — perguntou o guerreiro, extremamente preocupado com a integridade do elfo.

— Ei, essa cerveja não é barata! Eu fiz com todo o carinho para trazer pra cá e beber enquanto roubo as pessoas. É artesanal, tá? Tem sentimentos! — retrucou o ladino, extremamente ofendido.

— De que é feita mesmo?

— Ué, o de sempre. Uma boa água, lúpulo, malte… e eu adicionei um pouco de raízes de valeriana na fermentação, dá um gostinho legal!


Isso chamou a atenção de Gungnir. Que imediatamente cuspiu o hidromel que estava bebendo fazendo todo mundo olhar para ele imediatamente.

— Valeriana? Você disse Valeriana?

— Sim, valeriana. É um ótimo ingrediente, tem as pencas em Bradok desde que a gente expulsou os demônios de lá, eles estavam plantando não sei porquê.

Assim que Kall terminou de falar, Avalon deixou a garrafa cair, que entornou seu conteúdo pelo chão de mármore branco. O elfo soluçou e caiu pra trás, rindo e colocou um braço em volta de Gungnir.

— Ih, caí. — balbuciou, rindo horrores e soluçando. — E você, vai cair do céu pra mim quando, estrela? — Questionou um Avalon muito estranho e risonho.

— Ai, francamente… Era só o que faltava. — Gungnir disse se aproximando, exasperado. Levante-se. Consegue levantar?

— Só se você me carregar, meu príncipe.

— Eu não sou príncipe, seu destrambelhado. Sente-se. Argh, isso vai ser um inferno!

— É pra eu sentar no inferno e em você? Parece bom, meu príncipe.

— Pare de me chamar de príncipe!


A situação era deveras chocante para todo mundo, o primeiro a reagir foi Kall, que sem querer, cortou o clima com a curiosidade sobressaindo.


— Mas que diabos…-

— Foi a Valeriana. — disse Ynarthian, que explodiu em riso e entornou o que seria a primeira da segunda parte da dúzia de garrafas da noite. — Fazem os elfos ficarem… engraçados, como pode ver. Por isso não consumimos, só em poções soníferas e para dor. Você acabou de meio que envenená-lo. Ele vai ficar assim por um tempo. — concluiu, levantando e pegando a garrafa do chão.

— Será que dá alguma coisa se eu beber também?

— Não! — disse um Gungnir exasperado, com um elfo a tiracolo.— Você vai me ajudar a levá-lo ao quarto dele, nada de elfos bebendo valeriana, fui claro? Nada!

Ynarthian murchou perante aos amigos e declarou:

— Ele sempre corta meu barato.

— Vamos logo!

— Está bem, está bem! Estou indo! — Disse, seguindo e apoiando o curandeiro nos braços.


O silêncio perdurou nos que sobraram. Kall e Leonel não eram tão próximos quanto as fofocas faziam parecer, alguns acreditavam até que eles tinham um envolvimento amoroso. Porém, além das batalhas e missões, situações de companheirismo para eles fora desse mundo de salvar a humanidade e coisa e tal, eles pouco conversavam e a bem da verdade, era até difícil achar algo que os ligavam além disso. Leonel, apesar de vir da parte baixa de Bradok, assim como Kall, ascendeu como cavaleiro. Era talentoso e nobre até demais, foi tutorado pelos Irmãos Will e hoje era conhecido como o novo Merlin, depois da missão deles em Shadowfell. Já Kall foi arrastado até o olho do furacão, cresceu como monge em Baróvia, e saiu de lá justamente porque essa vida não lhe apetecia, queria aventuras e viver a vida como ela era, sem orações e devoção a quem ele jamais havia visto, e foi exatamente o que a vida lhe deu, crueldade e sangue nas ruas escuras de Bradok lhe ensinaram como um bom ladino deveria agir e em quem confiar, ou melhor, em quem não. Farejar ouro e confiança era uma dádiva, talvez sua vida de monge não tivesse sido tão desperdício, no fim das contas. Esse faro também funcionava para diversos tipos de conflito, assim como o que farejava em Leonel naquele momento.


— Mas bem, voltando ao assunto inicial…— Disse Kall, chamando a atenção de um Leonel vago e distante. — Falávamos de alianças, e a falta de uma em seu dedo desperta minha curiosidade, mas a marca em seu pescoço jamais sairá, então suponho…

— Não há nada… Pra supor. Miya foi um conforto e um presente, mas nada mais que isso. Ela sabia, eu sabia. Isto nada mais é que algo enraizado nos elfos. Uma magia arcaica e somente isso. Você mesmo disse. E estava lá quando estive com ela. Sabe que saí do Reino Verde para Shadowfell sozinho.

— Ah, qual é, largue esse tom melancólico. Ela não foi a primeira mulher da sua vida e nem a última. — retrucou, com um pouco de azedume por aquele tom mórbido logo depois de sorver o pouco que restou da sua amada cerveja. — Foi a primeira elfa, imagino, mas ela foi um caso, algo de momento. Não é?

Leonel demorou a responder, viu-o balançar a garrafa diversas vezes antes de ouvir a voz hesitante do guerreiro:

— Não se trata de ser a primeira elfa ou a primeira mulher, é que… Sei lá, não deveria ter acontecido. Sinto que acabamos juntos mais por ideação do que de fato querer. E isso me agonia. Carrego a marca de uma mulher que não significou nada e eu com certeza signifiquei algo para ela. A primeira noite deve ser aquela que lhe traz sorrisos, não tédio e amargor quando se lembra. Ao menos espero que ela não se arrependa…


Kall sorveu o resto da bebida o mais rápido que podia. Quando foi que eles pararam de tratar tudo com levianidade e passaram a ter conflitos tão… Mundanos? Um dia estavam lutando contra demônios e noutros estavam bebendo e se amargurando por terem transado levianamente, tipo, quê? A vida deles era isso agora? Se preocupar com relacionamentos e não espadas? A bem da verdade, não era a melhor pessoa para aconselhar. Talvez Ynarthian, porém, dependendo do humor da elfa capaz dela aconselhar Leonel a transar com outra e esquecer a primeira. É, de boa, realmente Ynarthian não. Talvez…


— Ei, Aragorn!


O celestial olhou para si e estreitou os olhos, sentiu a aura e quase riu. Será que ele sabia? Nah, senão não estaria vivo, ao menos não inteiramente.


Foi até ele com os pés leves. Seria engraçado, vai? Bastante até. Chegou perto, colocando as mãos nos ombros cobertos de pano fino e elegante, falando bem perto dele, que se afastou com a tacinha que segurava o máximo que pôde.


— Nosso amigo Leonel precisa de uns conselhos. E quem melhor que o Príncipe de Arbórea para ajudá-lo?


Aragorn se desvencilhou dele sem dizer uma palavra. Que má vontade para com os velhos amigos! Ele só o havia roubado duas vezes!


— Deixa eu deixar uma coisa clara, Kall de… onde quer que seja. Eu, Aragorn, não tenho nenhum motivo para gostar de você. Não me importa nenhum pouco sua vida. Portanto, um aviso pela boa vontade que você tem pela justiça, por mais torpe que seja: Não. Toque. Em. Mim.


Kall bebeu o que faltou e baixou a garrafa com um sorriso ladino, como de sua origem. E respondeu com um tom de voz calmo e risonho.


— Acho incrível como se passaram tantos anos e você ainda acha que procuramos sua mera aprovação ou que sequer ligamos pra ela. Faz anos, Aragorn, supera. Para um celestial, e olha que conheci alguns, você é tão patético que chega a ser risível. Eu não perguntei se gosta de mim, perguntei se tem algum conselho para Leonel. Mas se você é tão pedante e ingênuo ao ponto de se abrir com um companheiro de batalha que mal lhe viu e que com certeza não lhe tem um pingo de apreço e que, cá entre nós, mijaria no seu copo por umas belas moedas ou simplesmente pelo fato de saber que você está bebendo algo que vem de mim, a escolha é sua.


E se virou. Odiar seres seja celestiais ou infernais fazia tão parte da sua rotina que até sentiu falta. E odiar Aragorn e pisar na cara dele como um bom humano seria um prazer, mas ainda não era hora, e não ali também. Já havia gastado sua cota de crédito no Reino Branco, iria se comportar dessa vez.

Chegou ao lado de Leonel ouvindo passos atrás de si, sabia que ele viria, mas não iria ficar por perto aturando os cabelos ruivos e a arrogância internalizada em casa fio longo.


— Aí, mano, tô vazando. Vou dar uma volta e depois passo aí, quando o Senhor sou filho da Justiça sair daqui, tá?

Leonel o olhou confuso e depois olhou para trás de Kall e viu o dito "filho da justiça" se aproximando com uma cara de poucos amigos.

— O que disse a ele? Está com uma cara horrível. Parece vir brigar comigo totalmente de graça.

Mas antes de dar qualquer justificativa a Leonel, Kall escorregou de sua mão como ouro na mão dos vivos e saiu pela mesma porta que entraram, exatamente quando Aragorn chegou em si com uma sobrancelha arqueada.

— Olá, Leonel, há muito não o vejo, mas tenho ouvido bastante sobre você. — disse o deva, de uma forma totalmente engessada.

— Olha, sei lá o que ele disse a você, realmente não acredite. Kall é meio perturbado, sabe.

— Não, não. — viu-o rir, desfazendo o azedume no rosto. — Eu realmente desejava saber de você, principalmente. É um nome bastante influente, e foi um dos que conheci pessoalmente. É bom ver um rosto conhecido à frente dos humanos.

Calou-se e observou-o falar de si, era um tanto estranho ver a flutuação de humor e Aragorn… Calmo.

Não dizendo que o anjo era tempestuoso, até porque seria redundante, todos os locais por onde passaram o mal perseguia Aragorn como carcaça atrai corvos. Onde o mal estava, ele estava do outro lado com uma espada na mão. Mas em situações cotidianas, Aragorn não era calmo, muito menos complacente. Raros os momentos o vira sorrir, conversar. Até o irmão Rastok era mais espirituoso, mesmo que pro lado do mal, do que a figura que estava ao seu lado com uma feição quase serena.

— Mal lhe pergunte, mas… e você? Está diferente.

Aragorn riu com a taça junto a si antes de responder.

— Ah, com certeza aconteceram muitas coisas. Mas nenhuma delas importa muito. Apenas que há crescimento e resiliência em todas elas. Às vezes pensamos muito no que já ocorreu que esquecemos que o passado são como as águas pela quais navegam os marinheiros: elas correm e não voltam mais. O que passou, passou.


Refletiu naquelas palavras. Estaria pensando demais em tudo? A preocupação, peso de títulos… Era incrível como ele sabia o que lhe dizer sem nem mesmo ter lhe feito uma pergunta, e ele resolveu fazer mais uma:


— Virou telepata também no meio disso?

Ele riu. Aragorn riu. E aquilo era tipo ver a lua cobrir o sol de dia.

— Bem, sim. Mas neste momento, o único poder que usei foi em reconhecer um rosto confuso. Relaxe, Leonel. Às vezes, o peso está mais em você do que nas responsabilidades. Me diga apenas como vai sua vida.

— Eu... Não sei. Realmente aconteceram muitas coisas, é difícil explicar.

— Quando estiver pronto, se um dia estiver, converse comigo.

E se foi. Sem fazer pergunta nenhuma e em uma simplicidade quase alarmante. Quem era aquele? Aragorn não era e que o céu despencasse caso estivesse errado. Levantou, largando a cerveja no chão.



°°°

— Não, já chega, eu imploro. — disse Akemi, risonho e tossindo. — Meus amigos me esperam e seria rude de minha parte…

— Ora, meu príncipe. Está conosco, não é, meninas? — respondeu Alfhea, rainha das dríades da floresta de Meurim.

Um coro de vozes femininas seguiu, risonho e um tanto quanto fumacento. Todas elas pareciam fazer eco.

— Não, eu realmente devo ir. Há essa hora…-

— Akemi? — Kall chegou, coberto de colares, com uma taça de ouro coberta de arabescos incrustada de pedras da lua e uma expressão incrédula. — E aí? Boa noite, senhoras. Eu cheguei mas tô saindo fora. A gente se encontra depois, tá? Chega lá com a gente depois.

— Não! — retrucou Akemi, exasperado. — Foi uma boa noite, Alfhea. Eu preciso mesmo ir. — chegando perto de Kall, tirou todos os colares mais rápido do que o primeiro conseguiu se desvencilhar, por já estar pra lá de Amdon. — Devolvam isso, se puderem, alguém deve estar procurando.

E saiu puxando Kall, suspirando mais que devia.


Quando estavam a bons corredores longe do jardim, Kall falou:


— Eu só deixei você me tirar as jóias porque gosto muito de ti. Senão teria te tacado a taça quando vazia. E fiquei surpreso, quem diria… — completou, bebericando o resto que tinha na taça e girando ela nos dedos.

— Sei que não faria isso, sei que me ama e sei que veio me buscar para alguma coisa. O que é? Não quero roubar ninguém no salão, já vou logo adiantando.

— Não vim buscar você, vim ver você. — disse Kall com uma voz afetada. — Tu ficou com os almofadinhas desde a manhã, e olha que eu cheguei bem mais cedo que todo mundo!

— Cara, eu ainda sou príncipe. E fiquei levando bordoadas a manhã inteira. Mamãe diz que perdi minha classe e aquela maldita da Senhora Noelle fica me corrigindo sempre que pode. Você acha que perdi minha… Pricipesquidade?

— Mano, para de viajar, tu tá de boa.

Riram horrores porém o engasgar de Kall com a bebida cortou as risadas.

— Você tá bem? — disse um Akemi preocupado mas ainda risonho.

— Ei, se você visse cabelos azuis dançando pelo corredor, o que diria?

— Que Ynarthian tá encantando mais um pobre coitado iludido. Por quê?

— Bem, Gungnir não é um coitado, muito menos um pobre. — disse Kall, indicando com a garrafa dois indivíduos se esgueirando pelos corredores como quem não queriam ser vistos.

— Oh, espere, pelas barbas de um Eladrim velho, não! Você acha que eles…?

Kall o olhou com aquela cara.

— Ah, está mentindo pra mim!

Ele reforçou a cara e Akemi retribuiu, com um riso exasperado.

— Não pode ser! — disse risonho. E em um acordo implícito, resolveram seguir os dois. E nem notaram que cabelos ruivos vinham a seu encontro com sombrancelhas arqueadas de curiosidade.


Cruzaram tantos corredores quanto foram capazes, com Akemi usando as habilidades ganhas em anos de patrulheiro. Onde diabos Gungnir e Ynarthian, tão espalhafatosos como sempre foram, conseguiram evoluir em furtividade nesse período de tempo?


— Kall, realmente não sei onde estão. Não os consigo sentir.

— Ah, mas eu sim.

— Como?

— Nem tudo é magia, meu bom. — disse ele, apontando pra uma garrafa no fim do corredor.


Viram a porta por trás brilhar em azul, e se aproximaram devagar. Quando mãos geladas pegaram na nuca dos dois.


— E os dois vão interromper por quê?


Kall e Akemi pularam pra trás com o absurdo toque do celestial. Aragorn, com os braços cruzados depois de largá-los, os olhava com uma expressão de surpresa.


— Você veio diretamente do inferno? Eu mal senti você! — Disse Kall, exasperado pelo toque e pela arrogância em pessoa. Akemi se escondeu nas costas do amigo porque não sabia se esse era o Aragorn bom ou mau.

— A culpa não é minha se você bebe ao ponto de relaxar a guarda. — retrucou o celestial, não suprimindo em nada sua aura. — E a folhinha aí se empolga tanto ao ponto de só pensar em caçar ao invés de se proteger também.

Um estrondo metálico foi ouvido ao lado de Aragorn, que rangeu os dentes com o susto se encostando aos outros dois mais do que gostaria com a figura que pousou ao seu lado descendo do teto sombreado


— Parece que não é só ele que se concentra apenas em caçar. — Leonel sentenciou, jogando a garrafa de cerveja pro canto e seguindo para a porta azulada com o olhar dos três, furiosos, em suas costas.

— Ei, espera! — disseram em uníssono, se entreolhando e logo depois agarrando Leonel pela capa, que voltou pra trás quase tropeçando.

— Não sabemos o que eles estão fazendo aí! Não podemos entrar assim! — disse Akemi.

— A folhinha tem razão. — completou o celestial, recebendo um olhar ranzinza do elfo. — Pode ser… Algo… Como dizer…

— Eles podem estar fazendo coisas que tu não queira ver, tá entendendo? Por isso não queríamos ver, pra início de papo. Só ouvir. — terminou o ladino.

— Ótimo então! — exasperou-se o guerreiro.

Seguiu-se uma pausa grande de silêncio, com todos só ouvindo o que parecia ser nada.

— Ora, eu não ouço nada. — disse Leonel.


A porta abriu-se repentinamente, com todos pulando para trás ao ver uma cabeleira azul pela fresta da porta.


— Será que dá pra vocês fazerem menos barulho e entrarem de vez, já que querem ver tanto assim?


Se olharam por alguns instantes e entraram, se acotovelando e bufando uns para os outros.


O silêncio foi sepulcral quando adentraram a sala. Parecia que o calor e a leveza haviam ficados todos lá fora. Havia um caldeirão enorme borbulhando no meio da sala, a única luz proveniente vinha dele e por mais que as bolhas estourassem na superfície, não havia fumaça alguma.


— Por Arbórea, o que é isso? — Aragorn foi o primeiro a perguntar.


Por mais que o celestial houvesse encarado alguns terrores na vida, bem mais que alguns, havia algo naquilo que deixava-o apreensivo.


— Está claro que é uma poção, seu bobo da corte.— retrucou Kall de mal grado, — Ai! — levando um pescotapa logo em seguida que o fez ranger os dentes e se jogar em cima do celestial.


Os dois se embolaram, gritando impropérios um para o outro. Leonel teve que intervir e separar os dois, que ainda se olhavam com fúria. Porém, a curiosidade falou mais alto e ambos se aproximaram mais do caldeirão. Ynarthian encontrava-se escorada no batente da janela enquanto Gungnir mexia numa bolsinha de couro.


Ele trouxe uma raiz ao caldeirão com cheiro acre, que ao ser jogada liberou um forte odor adocicado e enjoativo.


— O que colocou aí? — o ladino questionou.

— Raiz de mózsja. Ela ajuda a adiar o processo enquanto eu não tiver as mandrágoras prontas.

— Mandrágoras? Em que estado? Secas?

— Sim, as que Avalon me trouxe ainda estão frescas, porém preciso delas secas e moídas para a poção funcionar — o mago olhou de soslaio ao curandeiro, que estava jogado em sua cama de dossel, dormindo a sono solto.

— Ah, não seja por isso. — disse o outro, desarolhando um vidro com mandrágoras secas e moídas e despejando dentro do caldeirão.


A poção parou de borbulhar, tomou tons arroxeados e começou a girar. Gungnir olhou pra ele com olhos estarrecidos enquanto todos se afastaram do caldeirão, apreensivos. Ynarthian se aproximou de Gungnir já com o arco em riste, o colocando para trás dela enquanto ele apertava seus ombros, dirigindo a palavra a Kall.


— Por todo o conhecimento do mundo, o que você fez?! — disse o estudioso, em seguida olhando para o teto, onde a luz da poção bruxuleava e tomava formas.

— Eram mandrágoras, como você disse. Fiz uma gentileza.

— Você tem certeza do que está dizendo?!

— Tenho, inferno. Eu mesmo plantei e colhi, ninguém chegou perto dela. São do meu quintal!

— Seu quintal em Bradok?! VOCÊ JOGOU MANDRÁGORAS SOMBRIAS NA MINHA POÇÃO?!


Todo mundo olhou para o ladino, que ainda conservava o olhar de tolo e que logo mudou pra compreensão. Mas não havia tempo para preocupações quando as formas no teto se tornaram conhecidas e todas emergiram no caldeirão, que explodiu em fumaça adocicada, jogando-os contra parede.


Quando a fumaça se dissipou, nenhum deles tinha mais álcool no sangue. O sangue fervia com a adrenalina para suprimir qualquer coisa que fosse, tudo que restou foi apreensão com a figura acima do caldeirão. Ela era esguia e alta, o vestido reluzia em pequenas pedras preciosas, todas com engrenagens e números, uma diadema repousava sobre sua cabeça acima de longos cabelos brancos, a pele negra reluzia com a luz do luar como única fonte de luz. Quando ela falou, os ouvidos de todos começaram a sangrar, por mais suave que fosse sua voz.


— Quem foi o responsável por isso?


Ninguém, nem mesmo Aragorn, conseguira responder. O peso da aura era grande demais.


— Você, proveniente de Arbórea. Como permitiu chegar a isto?


Aragorn jamais conseguiria responder, mesmo que quisesse. A divindade se afastou com a mesma rapidez que se aproximou.


— E você, filho do caos? Conheço o ser que lhe deu a vida. Como, em nome dele, ousa romper algo sagrado?! E ainda usa essas amarras como controle! Solte-as!


E com um gesto de mão, ela soltou as amarras de Gungnir. As paredes explodiram com o poder do caos e cada um foi jogado para um lado. Ela o suspendeu no ar como se fosse uma marionete.


Todos, à medida que se recuperavam do enorme choque foram levantando.


Kall surgiu próximo às árvores do jardim, numa nuvem negra com um corte na testa que sujava seu rosto, Akemi apareceu logo depois numa aura verde, mas não parecia estar no melhor estado. Leonel apareceu do lado dos dois, tirando as ombreiras que ficaram imprestáveis e as jogando em qualquer canto do terreno, convocando o cajado de Merlin. Ynarthian surgiu numa nuvem azul ocre ao lado dele, exibindo os braços arranhados pingando sangue, mas com o arco em riste. Aragorn, mais a frente, conjurava a espada enquanto um som de osso foi ouvido, ele colocava o ombro no lugar ao mesmo tempo que conjurava as asas com uma cara de poucos amigos. A situação não era, nem de longe, propícia.


— Escolha, filho do Caos. Escolha um deles imediatamente.

— N-Nã… pos… — o esforço para falar era demais. A aura dela era muito pesada.

— Ah, não pretende escolher? Esplendoroso. Então, eu, Lasmirien, escolho por você.


Um portal com padrões surreais surgiu acima de Gungnir, que foi arremessado como um boneco de pano. E sumiu.


A deusa encarou os olhares estupefatos e disse, com a voz vibrante.


— A culpa é inteiramente de vocês.











23 Mai 2021 20:30:35 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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