alexlorenzo Alex Lorenzo

Algumas porções da humanidade sobreviveram após um conflito nuclear. Em meio ao novo mundo “High Tech, Low Life” que se emergiu, um garoto milionário de dezesseis anos quer descobrir o que existe além das fronteiras do confortável Setor J. Lugus Esteves se depara com uma realidade hostil e cruel. Contudo, a maior descoberta de sua vida ainda está por se revelar...


Post-apocalyptique Déconseillé aux moins de 13 ans.

#gatilho #drama #revelação #violência #tortura #distopiabrasil #gangues #3020 #3021 #mutação #futurista #futuro #pós-apocalíptico #planeta #família #novo-milênio #monstros #mutação-genética #conto #adolescentes #aventura #ação #luta #cyberpunk #mutantes #escravos #clones #distopiabr #distopia #ficção-científica #sci-fi #ficção
Histoire courte
0
2.2k VUES
En cours
temps de lecture
AA Partager

Revelar

“Toda a compreensão súbita é a revelação de uma aguda incompreensão.”

Clarice Lispector



Melody caminhava a passos firmes com o uniforme usual. Os cabelos estavam longos e alaranjados, os olhos verdes. Podia mudar a cor dos cabelos e dos olhos quantas vezes quisesse. Na maioria da vezes, o laranja era a cor predileta do combate. O corpo modelo realçava a feminilidade da ginoide, sua vestimenta de luta era uma combinação de preto e amarelo. Ela rodopiava um bastão metálico e tecnológico, revestido de borracha prateada. Seu andar desfilante encontrou um ponto de parada no meio da quadra do ginásio de uma escola abandonada, depredada pelo tempo com pichações coloridas e buracos assimétricos. Melody parou no meio da quadra, sorriu e disse:


— Preparados para serem castigados, meninos?


Axel e Andher olharam um para o outro. Estavam diante dela na beirada da quadra com roupas compridas emborrachas, metalizadas, adaptadas com protetores de borracha preta nas articulações. Hiovel estava sentado numa cadeira planadora, flutuando a trinta centímetros do chão, ávido por ver seus irmãos lutarem com a ginoide, depois que ele fez alguns ajustes no sistema operacional da “madrinha”. Os irmãos mais velhos levantaram os bastões tecnológicos e avançaram gritando palavras de combate contra Melody. Ela apenas se defendia dos golpes dos garotos. Um bogotóin a sua frente flutuava emparelhado numa distância de dois metros do seu rosto. O pequeno aparelho esférico multiuso exibia, através de uma projeção holográfica azulada, uma dupla de comentaristas fuxiqueiros que falavam à respeito do prefeito Dado Guerra, fazendo chacotas e ironias com as últimas decisões políticas. Melody ria ao mesmo tempo em que atacava e se defendia das investidas de seus aprendizes.


***


Nuvens espessas cinzadas se deslocavam pelo céu com os ventos fortes e gelados que vinham do mar. Lugus Esteves estava agasalhado, andava com as mãos no bolso, olhando para cima. Os olhos azuis claros se escureceram num tom mais fechado com a falta de luminosidade daquela manhã. O cabelo cacheado prateado estava úmido em razão do borrifadores automáticos que existiam na gigantesca colmeia de vidro com exóticas plantas ornamentais. Reparou as nuvens, contou os pequenos raios intermitentes, sentindo a ventania resfriar seu nariz. Espirrou duas a três vezes e limpou os fluidos com seu cachecol. Apostou que o dia seria daqueles, chovendo por horas. Andava retirando as folhas secas das belas plantas ornamentais cujos vasos ficavam em volta da casa, cobertos por um painel transparente que filtrava a chuva ácida e irradiava luz artificial. O bogotóin, que flutuava a dez palmos acima de sua cabeça acompanhando-o, tocava uma música num ritmo extenuante. Caminhava pensativo. Naquela manhã, completou-se cinco anos que a mãe jazia em coma, imersa no áiveo, internada no cômodo de saúde da mansão. Ele tinha onze anos quando ela sofrera um acidente. Como num ritual inconsciente, fitou um olhar perdido para o calendário eletrônico afixado na parede: 23 de julho de 3020.


— Seu idiota! Só vive com a cabeça em outro mundo. Devolve meu bogotóin! — Chelotti gritou, ajustando o suspensório nos ombros.


A irmã, cinco anos mais velha que Lugus, sempre se apresentava com uma maquiagem abundante: batom em gradação roxa, pálpebras multicoloridas com detalhes neon e maçãs do rosto avermelhadas.


— Vo-você te-tem mu-muitos. Pooor que faaz que-questão de-de-desse? — Lugus indagou mais alto e com o estalar de dedos fez a música alta desaparecer.

— Porque o Pucki estava com a mamãe no dia do acidente.

— Ma-mais um mo-motivo pa-para eu fi-fi-ficar com ele.

Chelotti se aproximou da esfera tecnológica e fez uma gesticulação com cinco breves paradas.

— O que-que é isso? O si-sinal dos antigos?

— Sim, seu idiota! O sinal da Cruz.

O emparelhamento do bogotóin passou para Chelotti que o desativou, colocando-o no bolso.

— Mé-mé-merda! Eu não sa-sabia que era esse o si-sinal de ca-captura. De-deixa eu ficar com ele?

— Calma, relaxa. Cada vez que fica nervoso você fica desse jeito. Vou pensar no seu caso. Agora, vai tomar seu remédio, irmãozinho. Já está na hora. — a entonação da voz ficava entre o deboche e a preocupação.

Lugus respirou fundo e contou até dez. Concentrou-se e protestou:

— Já to-tomei, Pucki já in-injetou em mim. Pa-para de me chamar assim, não sou mais aquele ga-garotinho que você tratava como um robozinho. Se-sei de muita coisa, já sou homem!

— Sabe o quê? Só porque tem um bigodinho ralo, e pelos debaixo do braço não quer dizer que já seja um homem de verdade.

— Ó-ó-ó-ó-ó.

— Calminha, irmãozinho. Se concentra e fala.

— Olha aqui! Eu compreendo muito mais coisas agora que o papai está me preparando para assumir a teraempresa. Sei como devo tratar, descontaminar e comercializar a água. No futuro a Fonte da Vida será muito maior do que hoje. — Sorriu feliz e suspirou por não ter gaguejado.

— O que sabe sobre as coisas lá de fora? — Chelotti perguntou depois que percebeu que Lugus parecia mais calmo e confiante.

— Q-Que tem outras casas como a nossa, co-colegas chatos e aeromóveis planando por aí.

— Seu idiota. Eu me refiro ao que tem fora do setor J.

— O-outros setores. As pessoas parecem felizes.

— Você é mesmo um tonto.

— Po-por quê?

— O que nos ensinam são mentiras. A Rede Mãe que acessamos para estudar tem um caminho viciado. Só vemos o que eles querem que vejamos. Só aprendemos o que eles querem que aprendamos. Entende?

— Eu não estou en-entendendo.

— “Eu não estou entendendo”. — Chelotti remedou o irmão caçula gesticulando como um palhaço robô, fazendo caretas.

— Tirou o dia pa-para implicar comigo?

— Se acha que já é homem, por que não sai do nosso conforto e vai conhecer a “selva” que existe nos setores como o A, o B ou o C? Sai da campânula!

— Eu-eu te odeio, su-su-sua chata! Não vo-vou sair daqui. Não preciso provar na-nada.

— Tudo bem bigodinho ralo, mas se eu te ver outra vez com meu bogotóin predileto, juro que vou fazer você engolir ele! — Chelotti tapou os ouvidos, saiu apressada com os cabelos prateados esvoaçados pelos ventos, escutando resmungos ininteligíveis.

Na colina do terreno da propriedade dos Esteves, Lugus já não olhava mais para o céu. Impressionado e curioso, mirava o distante Pão de Açúcar, parcialmente ofuscado pelas nuvens. Sabia que em regiões próximas ao Cristo Redentor ficavam os tais setores referidos pela irmã.


***


Axel e Andher estavam estirados no meio da quadra recuperando o fôlego. O treino durou quase três horas e eles buscavam alguma energia remanescente do corpo para se levantarem e irem embora. Hiovel se deslocou parando a cadeira próxima aos irmãos, olhando para eles.


— O que foi Hiovel? Que cara é essa? — Axel indagou, sentou-se no chão, colocando os cotovelos sobre os joelhos. Andher também se sentou.

— Estava pensando, enquanto vocês lutavam... será que um dia, vou conseguir lutar como vocês?

Andher sorriu confiante e falou:

— Claro. Assim que você conseguir andar. Depois, vai se exercitar e depois você vai...

— Mentira! — Hiovel interrompeu. Suspirou e com os olhos marejando, disse: — Vou ficar para sempre preso nessa porcaria de cadeira!


Axel se levantou e saiu de perto deles.


— Por que você faz isso? Não foi culpa do Axel.

— Eu sei. Eu só queria desabafar, mas toda vez que falo algo sobre o que eu gostaria de fazer, ele se sente machucado.

— É difícil pra ele também. E você tem o direito de querer desabafar. — Andher tentou conciliar as posições.

— Se pelo menos o Axel conseguir achar a peça que falta do exoesqueleto mecânico, eu poderei andar novamente. Já tem mais de um ano que ele prometeu que conseguiria.

— Ele vai no Lixão quase todos os dias atrás dessa peça. Precisa dar um tempo pra ele. São montanhas e mais montanhas de peças descartadas. É bem difícil mesmo, mas não é impossível.

— Preciso manter a esperança. Desculpa querer desabafar.

— Não precisa pedir desculpa. Ninguém teve culpa de nada. Foi um acidente. Daqui a pouco o Axel volta. — Andher falou se levantando, limpando o tecido do uniforme na altura das coxas e do traseiro.


Melody estava deitada no alto, numa das colunas horizontais de ferro que se ligavam às verticais. Continuava assistindo ao seu programa quando o bogotóin emitiu o alerta de chuva ácida. Pulou do alto de uma altura de quinze metros, ao impactar o chão com os pés, flexionou levemente os joelhos.


— Vamos garotos, chuva ácida em trinta minutos.

Ao ver Melody no chão, Axel se aproximou e perguntou:

— Como fui no treino?

— Melhorou a performance em um por cento.

— E eu? — Andher perguntou.

— Em três por cento.

Andher sorriu e fez uma cara de superioridade para o irmão.

— Sua avaliação está errada. O Andher não luta melhor do que eu!

— Você é mais habilidoso, mas o golpes do Andher são mais potentes podendo destruir a defesa do adversário e definir a luta.

— Poderia dormir sem essa. Só porque é o mais velho não quer dizer que seja melhor. — Andher deu risadinhas provocantes.

— Canta vitória, vai. Ainda tem muito treino pela frente.

— Parem de discutir meninos. Se tomarem banho com a chuva já sabem as consequências. Direto para a aeromoto.

Hiovel acoplou a cadeira na lateral da aeromoto.

O veículo ascendeu bem alto na vertical, a inteligência artificial programou a rota da aeromoto para o fluxo migratório do Setor A. Melody pilotava enquanto Axel e Andher estavam deitados e esvaídos na carroceria.


***


O bogotóin emitiu alerta de chuva e Lugus dirigiu-se para o prédio da academia onde raramente frequentava. Não queria ver a cara de Chelotti tão cedo. A chuva caiu e o rapaz ficou olhando pelo vidro da janela. Ela caía forte, dessa vez, trazendo a surpresa do granizo que salpicava barulhento o chão e os telhados. O fenômeno raro fez o rapaz pensar sobre quando o planeta poderia se ver livre daquela acidez tóxica. Nas suas divagações sonhadoras ele ouviu risadas. Uma dessas era com certeza a de seu pai, a voz grave e apressada sanava qualquer dúvida. Pisando com cautela no assoalho morno, Lugus chegou próximo ao cômodo reservado para as esteiras ergométricas. Arregalou os olhos, sentiu uma dor aguda na barriga. A súbita revelação o levou a incompreensão do momento, a imagem refletida nos diversos espelhos do salão exibia Morgan Esteves agarrado com sua assessora, compartilhando risadinhas. Depois, beijou-a profundo na boca. A única coisa que ocorreu na cabeça do rapaz foi de correr e sair daquele lugar o mais rápido possível, colocou um capacete de corrida. A coloração das gotas de chuva e as pequenas pedrinhas na cor ferrugem encharcava-o da cabeça aos pés. Ele entrou na mansão pingando, lavado por uma sujeira que ardia sua pele. Os olhos vermelhos eram tanto do choro, como da irritação provocada pelos respingos da chuva.

Chelloti, que bebia uma xícara de café ofertada pelo seu robô colomim, sentada confortavelmente no sofá, levantou-se depois da última golada apressada e passou a perseguir o irmão pela escada de acesso ao segundo andar. Lugus continuou correndo, passando por diversos aposentos vazios até o final do corredor. Entrou no quarto onde a mãe morava há cinco anos. Ela flutuava num líquido especial rosado que ajudava na distribuição de fracas e ininterruptas descargas elétricas que mantinham os órgãos vitais em funcionamento, além de conduzirem oxigênio para o sistema respiratório e renovarem os tecidos da pele. A roupa especial branca só deixava o rosto de fora.

O rapaz encostou a testa no vidro do áiveo, numa tentativa fantasiosa de se comunicar com ela, seja pela “força do pensamento”, seja pelos toques codificados que fazia com a ponta dos dedos toda vez que a visitava.


— Eu não acredito que tomou banho de chuva! Por que não chamou um mini planador automático? — Chelloti perguntou, colocou as mãos na cintura e continuou: — Lamento. Eu sempre esqueço que não quer mais pilotar ou andar sozinho em veículos.

— Eu vi-vi o pai. — Lugus falou, sentando-se próximo à base metálica do áiveo, ignorando as observações da irmã.

— Viu o quê?

— Vi-vi ele be-be-beijando aquela a-a-assessora, a Mikaela.

— Foi só isso?

— O que-que quer dizer com “fo-foi só isso”?

— Você acha que o senhor Morgan iria ficar todo esse tempo sem alguém?

Lugus olhou para a irmã como se ela falasse o maior dos absurdos.

— Então vo-você sabia?

— Claro.

— Por que nu-nunca me-me contou?

— Por causa do estado que você se encontra agora. Com pena da mamãe, de si mesmo e daqui a pouco com raiva do papai e de mim por não te contar.

—Isso na-não é ce-certo.

— Você tem dezesseis anos, mas sua cabeça parece ser de doze.

— Vo-você tem razão.

— Eu sempre tenho razão.

— Eu sou mesmo um idiota.

— Até que fim reconheceu. Você nem gaguejou nessa frase. — Chelotti falou revirando os olhos.

Lugus se levantou e foi para o seu quarto, enquanto Chelotti se aproximou do áiveo. Ela reparou as milhares de bolhas de ar, surgindo, dançando e estourando. Beijou o vidro, depois falou:

— Pobre mamãe. Não tinha que ser assim.

Ficou algum tempo no quarto vendo os registros de imagens da época antes do acidente pelas projeções de Pucki, momentos felizes. Ao sair, teve a impressão de ter ouvido um tilintar.

Chelotti estava terminando seu desenho na imagem holográfica de um cavalo em tamanho real. Seu dedo indicador fazia as vezes de um pincel e o painel holográfico de cores incrementava a obra de arte. O bogotóin recém comprado, com uma versão mais moderna, era capaz de superar as imagens holográficas azuladas e projetar imagens coloridas ao gosto do usuário, artista ou não. Infindáveis cores e tons compunham um cavalo em 3D. Ela ficou fascinada por seu próprio cavalo malhado de crina dourada, porém faltava algo para Chelloti gritar de emoção. Tocou na testa da imagem do equino que passou a trotar em seu quarto, em círculos, com elegância imponente. Chelotti subiu na cama, pulou e bateu palmas, quando o robô colomim a interrompeu:

[Lugus não se encontra na propriedade dos Esteves. O chip reserva do antebraço do senhor Morgon foi encontrado a duzentos metros do portão eletrônico. Lugus está fora do setor J.]


***


A chuva estava fraca, quase terminando. Lugus andava na lama com um calçado mecatrônico, protegido por uma capa amarela impermeável de última geração e uma calça com uma malha interna que vedava a passagem da água. Examinou o corte recente no seu próprio antebraço, cauterizado pelo bogotóin que mais prezava, Pucki. Agachou e tocou na oleosidade colorida sobre a lama marrom-barrenta. Trouxe um pouco dela no dedo indicador e a cheirou. Fez cara de nojo ao sentir o cheiro de peixe podre, sacudiu o dedo e limpou o resto na roupa. Seguiu pela estrada percebendo plantas de tonalidade cinza e árvores mortas com galhos secos retorcidos.

Um pouco mais a frente, percebeu um aero cargueiro planando a sessenta centímetros do chão. Escondeu-se no primeiro abrigo, atrás de uma construção linear decadente, da época das guerras cibernéticas. O aero cargueiro parou próximo a um fundo e amplo buraco retangular no chão. Uma porta larga se abriu, fazendo um barulho grave e seco. Amontoados de corpos foram ejetados no buraco, num local onde estava escrito numa placa de madeira: Fazenda Soubirous. Um veículo planador de dimensões pequenas se aproximou apresentando um símbolo de identificação familiar. Um braço mecânico movimentou-se vomitando fogo contra o monte de cadáveres. A chama podia ser vista refletida nas íris do rapaz que estava de olhos esbugalhados, assustado, sem fazer ideia de quem foram aquela gente toda.

Continuou a caminhada com o coração acelerado, experimentando um sentimento misto de medo e de prazer ao descortinar o incompreendido. Não conhecia aquelas paisagens caóticas. Após duas horas, aproximou-se de abrigos feitos de escombros batidos, armações de madeiras, plásticos resistentes, ferros sinuosos e restos de paredes. Não disfarçou o desconforto.

O barulho de aeromóveis, que passavam a alguns metros acima de sua cabeça, não o incomodava tanto quanto o olhar das pessoas do Povo do Chão. Alguns homens estavam em pé em volta de uma fogueira, aquecendo as mãos e as pontas dos narizes. Ao fundo, um homem magro com argolas nas orelhas colocava lagartos num espeto, encharcando-os com sucos aromatizados. Lugus acelerou os passos, depois que o bogotóin capturou as imagens das pessoas, talvez ele quisesse registrar seu passeio de reconhecimento. Sentir-se-ia mais seguro se houvesse algum drone rondal, mas se perguntava do porquê de nenhum deles pairar por aquelas bandas.


— Ei, garoto! Espera.

Lugus olhou para trás, retirou do bolso um estojo cilíndrico retrátil. Acionou-o, transformando-o num bastão. Um pouco trêmulo, empunhou uma das extremidades.

— Calma garoto. Não sou da guerra, sou da paz.

— Eu acho que te vi, um pouco atrás. — Lugus falou, baixando a guarda.

— Qual seu nome?

— Lugus.

— O meu é Roas. Vou te dizer algo... você não pode sair por aí registrando a imagem das pessoas. Nós não gostamos, entende?

— De-desculpe se isso foi ofensivo. Não tive a intensão.

Roas sorriu e falou:

— Onde você mora?

— Mo-moro no Setor J.

— Setor J? — Roas arregalou os olhos.

Lugus reparou o cavanhaque e o rosto bonachão do homem que beirava uns trinta anos.

— Garoto, andando sozinho por aí, você não está seguro. Posso te ajudar. O que veio fazer no Setor A? Algo em especial?

— Eu nunca sai do Setor J. Quero conhecer novas pessoas e lugares. Quero me sentir independente.

— Você encontrou a pessoa certa. Conheço cada palmo desse setor. — Roas se aproximou, fechando a mão direita e estendendo-a na horizontal.

Lugus fez o mesmo, tocando na mão de Roas, selando o cumprimento. Disse:

— Você me guiará?

— Claro. Adoro ajudar as pessoas. Eu nasci pra isso. É um dom especial que eu tenho.

— Ouviu isso, Pucki? — Lugus perguntou olhando para a esfera flutuante que pousou na palma de sua mão.

— Pucki?

— Sim. É o nome do meu bogotóin. Na verdade, é o da minha irmã, mas eu me sinto dono dele também. Ela esqueceu ele no quarto da mãe. É uma longa história.

Roas tentava não rir, mas suas expressões faciais o traíam.

— Quer dizer que seu bogotóin tem nome?

— Sim.

— Deixa pra lá. Onde quer ir?

— Vocês tem algum zoológico? Aquário? Parecem que encontraram novas espécies aquáticas.

— Nem queira saber sobre novas espécies aquáticas! Deveria ser bom na época dos antigos quando as maiores espécies eram as baleias. Hoje em dia, elas são refeições fáceis do Leviatã.

— Leviatã?

— Sim, rapaz. Uma criatura marinha que visita a baía de Guanabara de tempos em tempos. Dizem que ela é horripilante.

— Para onde vamos?

— Não temos esse tal de zoológico, nem aquário, mas temos uma arena.

— Uma arena?

— Uma arena de luta. Chamamos de Arena Briga de Galos. Apostas, sabe? Vou te levar lá.

— Deve ser bem bizarro. É como nos jogos virtuais?

— Não, garoto. É muito melhor. É ao vivo.

Roas conduziu Lugus por vielas intermináveis, como se fossem labirintos que espreitavam o inesperado. Isso, de certa forma, aguçava-o dando a ele uma sensação prazerosa da dopamina que atiçava todo seu corpo. Num primeiro momento, o garoto enjoou-se com os cheiros de fumaças das mais variadas, das adocicadas às cítricas, das amadeiradas às rançosas, mas depois os odores misturavam-se e já não lhe causava embrulho no estômago. Chegaram num beco sem saída e Roas mostrou um acesso ao subsolo. Lugus se negou a prosseguir, era uma entrada com a exposição de um crânio de um bode, paredes acinzentadas e tochas ornamentais em forma de garras com fogo diuturno. Ao ver um grupo de garotas descendo, concordou em continuar seguindo seu guia, afinal, a sua ideia de ser homem passava pelo crivo de conhecer uma delas. Confortou-se em saber que era dia, arrepiou-se ao imaginar como seria aquele local durante a noite. Contudo, sentia-se encorajado a desbravar as fronteiras de seus medos e do limite da visão que tinha do Distrito 22S43O e do mundo. Na medida em que descia as escadas, ouvia uma música frenética, a mesma que Pucki tocava no início da manhã. Ele sorriu e seu nível de desconforto se abstraiu quando começou a dançar no ritmo dela, numa grande pista de dança bombardeada por luzes neon. Adorava aquela música, sentia-se energizado com ela. Roas ficou fora da pista de dança, conversando com dois homens que tinham alturas acima da média, cabelos ruivos e roupas em couro. Lugus se aproximou de uma garota que já estava dançando, imitou os movimentos dela, frente a frente. O sorriso dela foi o propulsor para que ele dançasse num ritmo mais acelerado, era a primeira vez que fazia algo sem obedecer as regras do pai. Começou a pular e seus movimentos já não estavam sincronizados com as batidas rítmicas. O rapaz cerrou os olhos e sua inquietação expansiva passou a incomodar as pessoas. Algumas pararam de dançar, outras se afastaram. Em sete minutos ninguém mais dançava na pista. Observavam Lugus ao som da música, de olhos fechados e corpo acelerado. A maioria das pessoas tirou o bogotóin do bolso e passou a registrar a cena. O eufônico interrompeu a música. Ao abrir os olhos, Lugus percebeu que era o centro das atenções. Dezenas de bogotóins pairavam ao redor dele, sincronizados, faziam movimentos lentos de translação. Estava ofegante, suado, olhando não somente as esferas tecnológicas flutuantes, mas também as pessoas com risadas debochadas e comentários pejorativos. A garota que o interessava já não estava mais em seu campo de visão.


— Pessoas lindas, vamos voltar ao ritmo. Eufônico, devolve o som! — Roas falou alto, pegou Lugus pelo braço e foi retirando o garoto na medida em que o eufônico liberou um novo ritmo e o ambiente foi tomado por uma fumaça artística.

— E-eu fi-fiz alguma coisa de e-e-errado? — Perguntou ao mesmo tempo em que limpava os fluidos das narinas com o antebraço.

— Não esquenta rapaz, as pessoas aqui não estão acostumadas com pessoas como você.

— O q-q-que quer dizer com-com isso?

— Digamos que você é bem sofisticado...

Lugus entendeu a ironia e fechou a cara.

— Não fica assim, garoto. Vamos procurar a Maviana, a variante responsável pelas apostas.


***


Maviana estava beijando um de seus clones escravos quando Roas a interrompeu com delicadeza. As pessoas conheciam o jeito temperamental dela e o poder que tinha no submundo, a aproximação deveria ser dócil.

— Bispa Maviana, minhas congratulações. — Roas se aproximou, fazendo um mudra de encontro com as duas mãos, entrelaçando os dedos.

A bispa se levantou e olhou séria para Roas, depois fixou o olhar em Lugus que se sentiu constrangido.

— ¿Lo que quieren?

— Seu humilde admirador deseja apostar em Cachorro do Mato.

— ¿Como vas a pagar?

— O meu amigo fará isso. — Roas falou, dando tapinhas nas costas de Lugus.

— Eu?

— Lugus, por favor, não irrite a bispa Maviana.

Maviana colocou a mão sobre o balcão de vidro, impaciente, começando a bater as unhas retráteis feitas de metal. A outra mão acariciou o próprio cabelo curto azulado.

— Quanto devo apostar? — Lugus perguntou, olhando para Roas.

— Dez moedas de prata de cinco Pekus, é a aposta mínima. — Roas informou.

— Eu não tenho moedas.

Os olhos puxados de Maviana pareciam saltar de tanto ódio. O calçado em plataforma cresceu verticalmente e a bispa parecia que cortaria a garganta de um dos dois quando Lugus disse:

— Tenho Gíons.

Maviana sorriu. Sem que ela solicitasse, o clone escravo lhe entregou um dispositivo metálico hexagonal luminescente. Lugus colocou seu antebraço um pouco acima do pulso e o valor monetário foi liberado.

— Buena Suerte.

Lugus sorriu e se afastou depois que Pucki recebeu a sequência numérica de confirmação. O rapaz se afastou, seguindo o sorridente Roas. Ele informou ao rapaz que Maviana era Líder dos Guerreros del Caos, responsável pelo controle das apostas e do lucro das lutas. Boa parte dos lutadores eram clones escravos treinados para a vida de violência, adestrados por ela desde mais novos. Lugus tentava esquecer a imagem do olhar invasivo daquela humana variante.

A arena ficava num nível abaixo de onde estavam, local amplo por onde passavam os canos de esgoto da cidade e os dutos de escoamento das chuvas ácidas constantes. Existia ali um colossal aparelho desumidificador e oxigenador que tinha um ruído constante e alto, mas que funcionava dando condições mínimas de permanência embaixo do solo. Por baixo do distrito viviam algumas populações do Povo do Chão, num submundo com regras próprias e modos de vida proibidos na superfície. Uma dessas proibições era a luta na Arena, prática constante no submundo. Ela tinha a forma circular com corredores e assentos concêntricos, tendo um palco de luta no meio.

Centenas de pessoas já estavam próximas às suas cadeiras, em pé, entoando um canto de lamúria. Batiam objetos nas colunas de sustentação. Lugus se arrepiou ao ver toda aquela gente e ouvir o canto terrificante. Pareciam estar numa espécie de êxtase. Avoengos, variantes e clones apresentavam-se com seus rostos sérios, mãos no peito.

— O que estão fazendo? — Lugus perguntou ao seu guia.

— É uma espécie de preparação do ambiente, de harmonização de energias para receber a alma do sucumbente que alimentará a Energia Etérea do ciclo de lutas.

— Eu na-não entendi, Roas.

— É combate até a morte!

— Vo-você não me fa-fa-falou sobre isso.

— Claro que não. Se eu tivesse falado, você não estaria aqui.

— Quero me-meus Gíons de volta!

— Impossível. Maviana te degola na frente de todos.

— Porque fe-fez isso?

— Não disse que queria conhecer o que existe fora do setor J? Então, cale a boca e assista.

Os lutadores entraram ovacionados pelo público. O primeiro lutador a entrar no palco de lutas foi Mão-Pelada. Ele não vestia camisa e transluzia tatuagens poligonais regulares, em amarelo-neon, no tórax e nas costas. O segundo lutador, Cachorro do Mato, vestia calça e jaqueta de couro, sem mangas, com algumas fileiras horizontais de pequenos pendentes metálicos de caveiras caninas. Eles traziam, em cada uma das mãos, facas curvas que lembravam esporões. No início, encaravam-se apenas à média distância, com os corpos inclinados um para outro, num movimento ao redor do palco.

Mão-Pelada utilizava uma máscara de couro preta apenas em volta dos olhos. A cabeça estava raspada nas laterais, com uma faixa central de cabelos prateados eriçados da testa à nuca. Ele atacou primeiro, dando golpes com as mãos esticadas que não alcançaram o oponente. As palmas de suas mãos transmitiam uma toxina que lesava o sistema nervoso central. Cachorro do Mato esquivou-se dos golpes iniciais e revidou com um único golpe que arribou a parte superior do braço de Mão-Pelada. Atingido, recuou dois passos e ajeitou a calça militar verde-oliva. Dessa vez, Cachorro do Mato avançou apostando na pequena vantagem, abriu a mandíbula mecânica que se destacava no rosto junto com as íris vermelhas. Fazia isso para intimidar, mostrando que era capaz de arrancar o braço com uma única mordida.

— Mão Pelada é o sem camisa. Ele é o desafiante. A maioria apostou no outro. Vamos torcer para ganharmos uma boa grana. — Roas falou, depois que pegou um pedaço de carne mal passada que um clone escravo distribuía aos espectadores.

Lugus recusou enojado quando viu sangue escorrendo do pedaço de carne que Roas pegou. Ficou reparando as pessoas no público até encontrar Maviana. Ela, no mesmo instante, olhou para ele como se soubesse que ele a observava. Lugus se assustou com o sorriso macabro dela, mas seu coração quase saiu pela boca quando o público gritou em uníssono. Ao olhar para o palco, Cachorro do Mato estava estirado no chão, convulsionando. Lugus começou a tremer e saiu correndo procurando uma saída. Roas o perseguiu.

— Onde pensa que vai, garoto idiota!

— E-e-eu q-quero sa-sair daqui, não a-a-aguento mais. — Lugus começou a tossir.

— Garoto, se você não se acalmar, vou arrancar o chip do seu braço na marra.

— Vo-você na-não é q-quem eu pensei.

Roas pegou Lugus pelo casaco e o jogou na parede, pressionando-o. Os ruivos chegaram muito rápido tampando a boca de Lugus levando o rapaz à força, enquanto Roas os seguia, certificando-se de que mais ninguém viesse atrás. Arrastaram-no através de um corredor longo, com luzes fracas. Chutaram uma porta e entraram jogando Lugus no chão.

— Vai ser dócil e entrar dentro da gaiola ou prefere o modo mais difícil? — Roas falou, revistando e retirando do bolso do casaco amarelo, o bogotóin e o estojo cilíndrico retrátil.

Lugus entrou na gaiola.

— Bom garoto.

— Q-que va-vão fazer co-comigo?

— Maviana vai decidir. Temos boas opções: vendê-lo como escravo para pessoas milionárias dos Potentados Unidos do Leste. Já imaginou conhecer um continente com uma cultura muito diferente da nossa? Ou, pedir resgate para Morgon Esteves dono da Fonte da Vida.

— Co-como sabem?

— No momento que pagou, descobrimos tudo sobre você e sua família.

— Me-meu pai va-vai mandar os Guardiões do Distrito a-a-atrás de vocês.

— É verdade. Mas temos uma terceira opção.

— Q-Qual?

— Traficantes de órgãos.

Lugus sentiu a perna bamba. Um súbito suor frio. Sentou-se no chão.

— E-eu preciso do me-meu remédio.

— Que remédio?

— In-susu-lina. — Lugus falou com tremedeira no corpo.

— Insulina? Onde está? — Roas perguntou.

— No-no Pucki.

— Pucki? — Um dos ruivos perguntou com deboche.

— É o nome do bogotóin dele. — Roas falou e jogou a esfera para cima que foi acionada pelo movimento. Fez o mesmo com o próprio bogotóin para que pudesse monitorar Pucki.

Os ruivos começaram a rir. Um deles se sentou numa bancada, acomodando a pança protuberante para rir melhor. Pucki, automaticamente, escaneou Lugus através de um feixe retangular de luz azulada, calculando a dosagem. Voou direto para o braço do rapaz e ejetou uma agulha, inoculando insulina sintética. O bogotóin de Roas flutuava emparelhado com Pucki. Lugus fez sinal para que Pucki retornasse a Roas que o pegou e o colocou sob um aparelho refletor. Pucki ficou flutuando em giros constantes, atraído pela energia.

— Seu grande babaca! — Lugus gritou, ergueu-se e cuspiu acertando em cheio a cara de Roas que sorriu e enxugou a saliva com a manga da camisa.

— Eu fui legal com você e é desse jeito que retribui?

Roas fez sinal para seu bogotóin que pousou no painel externo de controle, uma caixa que ficava acoplada na parte externa do teto fechado da gaiola. Roas fez um sinal e gaiola retraiu por movimento lento até que Lugus ficou sentado, sem poder se mexer.

— Deixe-o assim até a chegada de Maviana. — Falou para os ruivos e completou: —agora vou pegar o valor monetário da luta, já que copiei seu código de confirmação. — Roas falou e já no vão da porta gritou para Lugus:

— Não deveria ter saído do Setor J.

1 Mai 2021 20:16:34 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
0
À suivre…

A propos de l’auteur

Alex Lorenzo Olá, sou o Alex. Carioca. Amante de literaturas, com desvios de predileção por fantasia medieval. Curto novelas de ficção científica, com distopia, melhor ainda. Viajo por contos de quaisquer modalidades, seja estilo Stephen King, seja Machado de Assis. Escrevo por terapia, por amar. Nas horas vagas, desenho. Meu sonho é desenhar meus próprios personagens. Bom, se quiser conversar, sugiro uma xícara de café com biscoitos amanteigados. Abraços!

Commentez quelque chose

Publier!
Il n’y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~
Hydrus
Hydrus

Hydrus é um universo alternativo. Em 3019, através de uma convenção interconglomeral, o planeta Terra foi rebatizado passando a se chamar Hydrus. O novo nome se originou da nova realidade. Após a grande guerra nuclear do tempo dos antigos, o planeta Terra sofreu intensas mudanças climáticas decorrentes da contaminação radiotiva e dos gases tóxicos. A chuva passou a ser constante, a cada dois ou três dias chovia um dia inteiro. Dutos foram construídos para escoarem as águas e o volume dos oceanos se avolumou cobrindo 87% do planeta. Esse fenômeno era chamado de Hydrus pelos cientistas dos séculos passados e se popularizou. Nesse mesmo ano, reconhece-se oficialmente uma nova sociedade. Um novo mundo surgira para o novo ser humano que além de sofrer alterações genéticas agregou a alta tecnologia ao seu corpo, ao seu modo de vida, à sua cultura. Contudo, Hydrus está longe de ser o paraíso, é na verdade formada por uma sociedade global distópica que procura compreender a si mesma, ao outro e a tecnologia, buscando valores que possam mediar o convívio pacífico na nova sociedade emergente. En savoir plus Hydrus.