mschneider21 Margot Schneider

O conto verídico, extraído do livro Estórias que a “Escola se Esquece de Contar” de autoria de Margot Schneider, lembra quem foi o famoso índio Araribóia, explica como o Brasil pôde se expandir tanto e o porquê foi tão influenciado por diferentes culturas europeias logo no começo de sua história. O texto também relata como foi que os Bragança subiram ao trono de Portugal e porquê a família real resolveu se estabelecer no Brasil.


Non-fiction Tout public.

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Histoire courte
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Os primeiros europeus no Brasil

"A História tem demonstrado que os mais notáveis vencedores normalmente encontraram obstáculos dolorosos antes de triunfarem. Eles venceram porque se recusaram a se tornarem desencorajados por suas derrotas."

B. C. Forbes (4)


Mesmo depois da cidade do Rio de Janeiro ser fundada pelos portugueses, alguns dos franceses invasores ainda insistiam em não deixar o lugar. No dia 18 de janeiro de 1567, o então governador geral do Brasil, Mem de Sá, mandou reforços para expulsar os restantes dos persistentes (insistentes) franceses de vez de lá. A última batalha deste capítulo da história aconteceu definitivamente em 20 de janeiro, dia de São Sebastião, no Outeiro da Glória e por isso São Sebastião passou a ser o padroeiro (protetor) da cidade. Um mês depois Estácio de Sá morreu por causa de uma ferida séria no rosto causada por uma seta indígena, durante esta última luta entre portugueses e franceses.

Ainda que a povoação do lugar fosse somente um precário (frágil, incerto) acampamento militar, o Rio de Janeiro já nasceu com o status (posição ou situação social hierárquica, classificação) de cidade, não tendo nunca antes a denominação de povoado ou vila, como a cidade de São Paulo.

Como gratidão por sua ajuda e lealdade, logo depois que os franceses e os índios Tamoios - que eram aliados dos franceses - foram derrotados, o índio Araribóia, cacique (chefe) dos Temiminós e aliado de Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá, recebeu a sesmaria (1) de Niterói como presente da Coroa Portuguesa (rei de Portugal). Niterói é uma cidade vizinha à cidade do Rio de Janeiro e a palavra Niterói quer dizer “água escondida”. Araribóia se deixou ser batizado, se tornou cristão e adotou o nome de Martim Afonso, em homenagem a Martim Afonso de Sousa, fundador da primeira vila do Brasil, a vila de São Vicente.

Tudo seguia bem para Araribóia até o ano de 1572 quando o governador Mem de Sá faleceu e o rei de Portugal, Dom Sebastião decidiu dividir o Brasil em dois governos: o Norte, com sede em Salvador, comandado por Luís de Brito e Almeida; e o Sul, com sede no Rio de Janeiro, comandado por Antônio de Salema. Salema que já estava na Bahia só foi para o Rio de Janeiro em 1574, depois da chegada de Brito de Almeida a Salvador. Ainda antes de Salema partir, os dois novos governadores do Brasil fizeram juntos um relatório de dez artigos sobre a liberdade dos índios.

Pouco depois da união dos índios tupiniquim com os portugueses derrotar a união dos índios tupinambás com os franceses em 1567, a matança dos índios tupinambás remanescentes (que restaram) se iniciou. Mulheres tupinambás foram submetidas a escravidão e velhos e doentes foram “passados a fio de espada” (assassinados) conforme palavras do próprio governador do Rio de Janeiro, Antônio de Salema.

O que acontecia pelo mundo afora por esse tempo...


1572 - É publicado o poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. Ano da morte de Mem de Sá, o terceiro Governador Geral do Brasil. Na França em Paris ocorreu o Massacre da noite de São Bartolomeu, no dia 24 de Agosto de 1572. Foi uma noite sangrenta onde muitos líderes de huguenotes (protestantes da França) foram assassinados a mando da família real francesa.

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A mesma boa sintonia que aparentemente Araribóia tinha com Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, não ocorreu certamente com Antônio de Salema. Quando Salema foi tomar posse do governo, muito cordialmente Araribóia se deslocou de Niterói até o Rio de Janeiro para a cerimônia (festa) oficial. Quando chegou, já cansado de tanto andar, sentou-se à moda indígena, ou seja, com o tronco sobre as pernas cruzadas. Sem fazer qualquer esforço para ser tolerante com outros costumes, Salema repreendeu (chamou a atenção) Araribóia pelo jeito como estava sentado. Então o índio que se sentiu mais ofendido do que o governador respondeu: “Minhas pernas estão cansadas de tanto lutar pelo seu Rei, por isto eu as cruzo ao me sentar, mas se isso o incomoda, não mais virei aqui!”. E assim o fez. O cacique Araribóia voltou para Niterói e nunca mais pisou no Rio de Janeiro. Acabou morrendo afogado em 1574 por mais estranho que isso pareça uma vez que ele era índio e de litoral. Este foi também o ano que Salema tomou posse do governo. Salema ficou até 1577 governando metade do Brasil.

Araribóia era um homem de grande valor e de forte personalidade. O famoso escritor brasileiro José de Alencar se inspirou nele quando escreveu “O Guarani”(2).

Araribóia é considerado portanto o fundador da cidade de Niterói, e uma grande estátua sua foi erguida em uma praça no centro da cidade, fronteira com a estação das barcas. Os olhos da escultura de Araribóia estão voltados para a Baía de Guanabara e a cidade de Niterói que sempre estiveram sob sua proteção. A antiga sede da prefeitura municipal tem o nome de Palácio Arariboia em sua homenagem.

A divisão do Brasil em dois grandes territórios com dois governadores não trouxe bons resultados como se esperava. As capitanias se isolaram ainda mais umas das outras querendo cada uma delas defender apenas seus próprios interesses o que vagarosamente (de maneira devagar) causava o desmembramento do Brasil como um todo. Por essa razão em 1577, Dom Sebastião voltou atrás em sua decisão e resolveu novamente reunificar o governo geral do Brasil instituindo Salvador como sede (lugar onde funciona uma administração, um governo) do Governo Geral. Salema voltou a Portugal para ocupar um outro cargo por lá e em 1578 o Brasil tinha um novo e único governador geral, Lourenço da Veiga.


A União Ibérica


A península Ibérica é aquela ponta extrema no lado esquerdo do mapa da Europa que compreende os países de Portugal e Espanha. A península Ibérica era desde o ano 711 d.C. (depois de Cristo) invadida pelos árabes, conhecidos como mouros. Os Mouros entravam na península pelo norte da África e pelo estreito de Gibraltar. Ainda em briga para expulsar os Mouros dali, da península Ibérica, o jóvem Dom Sebastião, rei de Portugal resolveu ir a Marrocos, no norte da África para lutar contra eles e no ano de 1578, durante uma batalha em Alcácer-Quibir, o rei português simplesmente sumiu. Não demorou muito para os portugueses admitirem que o rei certamente havia morrido durante a luta. Como Dom Sebastião não tinha filhos, assumiu o trono seu tio-avô e cardeal Dom Henrique, um homem já de idade avançada. Por ser um homem da igreja, Dom Henrique não podia se casar, nem ter filhos. Assim sendo, logo que ele morreu, no término (final) de dois anos após assumir o lugar de Dom Sebastião, Portugal ficou sem um rei. Dom Henrique foi o derradeiro (último) monarca da casa (neste caso, casa se refere à dinastia) de Avis. Filipe II, rei da Espanha, país vizinho à Portugal era neto do falecido rei de Portugal Dom Manuel I e por causa deste parentesco, se viu no direito de abocanhar (morder, “tomar para si”) o reino de Portugal junto é claro, com todas as suas colônias. Foi assim que surgiu a União Ibérica, com dois países, Portugal e Espanha, tendo por certo tempo um único governo. Por longo tempo Portugal estaria atrelado (preso, dominado) a Espanha.


Uma vez que Portugal e Espanha agora tinham um único rei, não havia mais porquê observar o limite de terras para um e para outro país imposto pelo tratado de Tordesilhas. Isso permitiu que o Brasil se expandisse sem quaisquer problemas para o lado oeste da América do Sul.

O que acontecia pelo mundo afora por esse tempo...


1582 - O Papa Gregório XIII implementa o calendário gregoriano. O calendário Gregoriano é o que usamos na maior parte do mundo. Alguns países como China, Israel, Índia, Paquistão, etc. usam outro calendário para contar seus dias.

1587 – Morreu Maria Stuart da Escócia, executada na Inglaterra.

1590 – Invenção do primeiro microscópio por Janssen.

1605 – Miguel de Cervantes publicou seu livro “Dom Quixote”.

1606 – Descobrimento da Austrália pelo navegador holandês Willem Janszoon.

1608 – Invenção do Telescópio. Não se sabe ao certo quem o inventou.

1610 - Luís XIII da França se tornava rei com apenas nove anos de idade, mas ainda não governava de fato. Passou a governar mais tarde, aos 16 anos.

1618 – Início da Guerra dos Trinta Anos.

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Tanto a Coroa - rei de Portugal e Espanha - quanto caçadores de escravos, pedras e metais valiosos organizaram expedições para explorar o Brasil adentro. Quando estas expedições eram financiadas (pagas) com o dinheiro dos cofres públicos, ou seja, pagas e apoiadas pelo governo da colônia em nome da Coroa de Portugal eram chamadas de Entradas. Quando estas expedições eram pagas com dinheiro privado (que não é público), ou seja, quando eram iniciativas particulares de uma ou mais pessoas que com recursos próprios buscavam obtenção de lucros, eram chamadas de Bandeiras. Daí vem o nome Bandeirantes, que nada mais eram do que exploradores do sertão (interior) do Brasil que tinham por objetivo capturar índios para fazê-los escravos, ou achar pedras ou metais preciosos, como ouro e prata para vender e obter lucro.

Como a Holanda era amiga de Portugal mas inimiga da Espanha, agora com a União Ibérica, o país não via mais motivo para não invadir também um pedaço do Brasil. E assim a Holanda o fez. Holandeses atacaram o litoral do nordeste do Brasil e se fixaram por lá durante 25 anos, principalmente em Pernambuco e na Paraíba. Depois de anos de lutas entre lusos (portugueses) e holandeses, a Holanda resolveu finalmente deixar o Brasil e assinar em Haia (cidade da Holanda) em 1661 um tratado onde reconheciam a soberania (domínio) portuguesa sobre o nordeste brasileiro.

Três reis espanhóis, os três de nome Filipe, governaram Portugal antes do país reconquistar sua autonomia (independência). Na época do terceiro Filipe, a população de Portugal tinha impostos (dinheiro à pagar regularmente ao governo) tão altos que o próprio rei espanhol sentia que já não podia confiar nos nobres portugueses. Filipe III, o último rei espanhol de Portugal era detestado pelos comerciantes (aqueles que fazem comércio, que vendem algum produto), já que eles não enriqueciam por ter que pagar pesados impostos ao rei da Espanha. Antes de tirar o rei explorador do trono português, Portugal havia de encontrar um novo rei. Pessoas da nobreza de Portugal que queriam a separação das coroas de Portugal e Espanha se reuniram secretamente e organizaram uma rebelião contra o governo espanhol. De comum acordo ficou decidido que o nome mais indicado para assumir a coroa portuguesa era o do nobre Duque de Bragança.

Foi então que em dezembro de 1640 uma revolta (rebelião) contra o governo espanhol foi comandada pelo Duque de Bragança que se proclamou o novo rei recuperando finalmente a autonomia do país. O Duque de Bragança, cujo primeiro nome era João, seria o quarto João a passar pelo trono de Portugal, por isso era referido como Dom João IV de Portugal e seu cognome (apelido) era “O Restaurador”. O cognome “Restaurador” é claro, já que o Duque de Bragança foi quem restaurou (recuperou, restabeleceu) a independência do país.

Foi o fim da União Ibérica e o início da monarquia da dinastia (3) de Bragança. A dinastia de Bragança foi a que reinou no Império do Brasil mais tarde, entre 1822 e 1889.

O que acontecia pelo mundo afora por esse tempo...


1648 – Fim da Guerra dos Trinta Anos.

1651 – Thomas Hobbes, um matemático, filósofo e teórico político inglês publicou seu famoso livro “Leviatã”.

1792 – A guilhotina foi usada pela primeira vez na França. Em 25/04/1792, La Marseilhaise foi composta, definida como a marcha militar dos revolucionários e é hoje o Hino Nacional da França.

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Graças a sua posição estratégica no litoral sul do Brasil a baía de Guanabara ganhou rapidamente importância com o desenvolvimento da mineração. Metais e pedras preciosas eram procuradas e encontradas no Brasil e levadas em grande quantidade à Coroa - reinos de Portugal e Espanha. Com excessão dos índios, os europeus mandavam tudo o que podiam ao velho continente. Do porto do Rio de Janeiro saíam ouro e diamantes e entravam tanto produtos manufaturados (feitos à mão) como escravos trazidos da África. Graças a essa grande movimentação, em 1763 a cidade se tornou novamente a sede do Governo Geral, desta vez única, no lugar de Salvador, até o ano de 1960 quando a capital do Brasil foi transferida para Brasília, no centro-oeste do país.

Depois de muitos anos, com o surgimento do ambicioso (aquele que quer alcançar algo grande, que quer sempre mais) general Napoleão Bonaparte na França, toda a Europa se viu ameaçada. Vendo-se obrigada a fugir de Portugal, no fim do ano de 1807, a família real, que tinha um príncipe regente (que governava), Dom João VI, já que sua mãe, a rainha Dona Maria estava louca, migrou (mudou) para o Brasil junto com 15.000 pessoas entre parentes, nobres e empregados e em 1808 depois de passar um mês em Salvador na Bahia, continuou viagem e resolveu se estabeler na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Estava desse modo garantido por certo, o progresso da cidade maravilhosa.


Glossário e Notas:


1 – Sesmaria: No Brasil colônia existia o sistema de capitanias hereditárias, que eram grandes lotes de terra que se extendiam desde o litoral até o limite estipulado pelo Tratado de Tordesilhas. Estes lotes de terra eram dados a alguns nobres portugueses para que eles governassem, colonizassem, protegessem e desenvolvessem a região com recursos próprios, ou seja, arcando com os gastos (assumindo os gastos). Essa foi a melhor forma que o rei de Portugal encontrou para promover a ocupação da terra no Brasil sem onerar (tributar, sobrecarregar os gastos) a Coroa, uma vez que todos os gastos ficavam a cargo do donatário. A sesmaria era uma subdivisão da capitania com o objetivo de que essa terra fosse melhor aproveitada. Ou seja, o donatário dividia sua capitania em pedaços menores de terra e distribuía estas sesmarias à colonos que prometessem cultivar, povoar e tomar conta desse pedaço de terra.

2 – O Guarani: é um famoso livro do falecido escritor José de Alencar, publicado em 1857 e que levou o brasileiro a fama.

3 – Dinastia: Série ou sucessão de soberanos pertencentes à mesma família.

4 – B.C.Forbes: foi um jornalista de finanças escocês, fundador da famosa revista Forbes, uma revista de economia e finanças norte-americana. A revista é publicada duas vezes por semana e é conhecida principalmente por lançar frequentemente uma lista das pessoas mais ricas do mundo.

9 Mars 2021 11:55:36 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Margot Schneider Margot Schneider é o pseudônimo adotado pela escritora brasileira, nascida em Santos. Mudou-se para São Paulo, estudou Ciências da Computação o que lhe permitiu mais tarde trabalhar como desenvolvedora de sistemas de informação na Suíça, onde mora desde o ano 2000. A escritora adora tocar piano, violão, ler, viajar, conhecer gente, conversar, aprender outras culturas, novas línguas e atualmente só usa os computadores para trocar e-mails e escrever, mais uma paixão descoberta.

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