emvicente E. M. Vicente

Algo de estranho aconteceu no mundo. Criaturas trevosas tomaram o lugar do Homem sobre a terra e um mistério no sol causa morte instantânea. A noite nunca foi menos segura quanto agora, e algo mais ameaçador do que seres quase indescritíveis perambula lá fora em busca de saciar um credo bizarro. Sem qualquer resposta clara e sem um norte para seguir, Jonathan Martins lidera seu pequeno grupo pelo caos do novo mundo enquanto enfrenta memórias dum passado obscuro e busca proteger a todo custo o último laço de sangue restante em sua vida. Uma luz no horizonte pode se tornar sua última esperança para longe da loucura sem precedentes que mudou fatalmente a natureza.


Horreur Interdit aux moins de 18 ans.

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Um

Dentro do ambiente escuro e empoeirado, Jonathan Martins e seu amigo, Rubens, arrastaram um sofá e bloquearam a porta de entrada da sala com ele, da singela casa onde se abrigaram agora. Logo após, junto de outros, Jonathan verificou as janelas e outras portas do restante dos cômodos. Nenhuma delas deveria permanecer aberta. Com suas lanternas em mãos, o grupo se dispersou para checar, brevemente, cada área da casa, que não era mais que cinco, contando com a sala onde estavam. Todas as janelas já estavam cobertas com lençóis, assim como as gretas das portas, talvez pelo antigo residente, que, por sorte, não se encontrava ali. Mas não foi possível verificar um dos locais, pois a porta se encontrava emperrada. A porta do provável banheiro. E a deixaram de lado por um momento.

Rubens pegou uma vela gasta pela metade sobre um criado-mudo, onde havia mais três, dentro de um copo de vidro, e acendeu-a com o isqueiro Bic azul que pegou emprestado de uma garota, Isabel, e então a pôs de volta sobre o móvel, e o ambiente foi tomado por uma luz laranja e por sombras altas projetadas nas paredes. Lurdes, uma das mulheres do grupo e esposa do rotundo Rubens, apagou a lanterna que trazia e guardou-a na mochila nas costas do marido, bem como os outros fizeram, guardando-as em suas próprias mochilas que traziam. No momento em que adentraram na casa, fecharam os três guarda-chuvas que portavam e os deixaram num canto, antes de barrarem a porta.

Uma chuva leve apertou e, junto desta, também havia algo lá fora, ainda era possível de se ouvir, quase confundido com o som dos pingos. Não era um rosnado, nem urro, e nem um grasno duma ave. O som mais próximo que aquilo se parecia era com algo que se arrastava por uma superfície molhada; rastejava. Uma coisa pegajosa se arrastando por uma superfície úmida, com grande atrito... E estava lá fora. Aquilo veio de longe e deveria continuar seguindo, porém, parou, bem ali, na porta da residência onde se refugiavam, talvez atraídos pelo urro do motor do carro de Jonathan assim que chegaram. Era um assombro aos ouvidos, trajando agonia em aspecto sonoro.

Rubens abraçou Lurdes.

Isabel parou ante a porta, apontando seu revólver lustroso, prata, em tal direção. Ela puxou o cão da arma e se preparou para atirar, caso preciso. Rubens sugeriu que fossem para os quartos e se trancassem, no caso de a porta ser quebrada ou escancarada. Jonathan discordou. Sair pelos fundos seria melhor, ele sugeriu; pela porta dos fundos da cozinha, mesmo não tendo certeza do que havia lá. Não queria ficar encurralado num cômodo. Mas naquele momento, pediu para que guardassem silêncio. Isso bastaria como noutras vezes.

Um trovão rugiu.

Jonathan parecia uma estátua olhando para a porta com a mão esquerda aberta e estendida à altura da cabeça. Os ruídos lá fora se intensificaram. Pedia apenas que esperassem. Algo tocou a porta, o que causou o gemido da madeira. Atrás de Jonathan, Rubens, abraçando sua mulher, clamou a Deus. Mas, após alguns minutos apreensivos, os ruídos não foram mais perceptíveis. Porém a chuva continuava forte. Fora isto, tudo estava mais tranquilo. A adolescente empurrou o cão do revolver para frente e baixou-o em seguida, guardando-o por dentro de sua calça jeans preta, na parte da frente.

— Desgraçados — ela sussurrou.

— O importante é não ficar apreensiva — Jonathan lhe disse. — Ou pode errar.

— Tô ligada.

— Sei que é difícil, mas tem que estar preparada.

— Cê acha que eu ainda não tô?

Jonathan sentiu decepção na voz da filha.

— Não. Não é isso — tocou breve o ombro dela. — Relaxa.

A garota não disse nada, e Jonathan prosseguiu:

— Preferia mil vezes você com aquele celular na mão o dia inteiro do que com essa arma. Mas...

— É. Eu sei. Esse tempo já era.

Isabel se encaminhou para o sofá que barrava a porta, baixou a mochila de couro das costas e deixou-a sobre o assento, sentando-se em seguida no braço do móvel. De pele clara e cabelos como carvão, escorridos, caindo abaixo dos ombros, ela suspirou.

— Saudades de ouvir música, só isso — ela falou.

Isabel levou a mão ao bolso da jaqueta e tirou de lá um maço de Marlboro Reds e o isqueiro Bic. Imediatamente, Jonathan tomou o objeto das mãos dela. Isabel exigiu de volta seu maço. Um trovão ecoou após o clarão azul do relâmpago. Jonathan fez que não e enfiou o maço no bolso frontal de sua calça jeans.

— Não adianta fazer birra — ele disse. — Eu falei e está falado.

Carrancuda, Isabel permaneceu calada, mantendo os olhos marrons claros para o lado.

— O que vamos fazer, Jon? — questionou Rubens Esteves, que costumava chamar Jonathan da forma contraída. Era um sujeito meio robusto, com entradas evidentes nos cabelos escuros.

Jonathan inspirou e se voltou para o amigo aos fundos, agora sentado na outra poltrona com a esposa. Ela no assento e ele no braço deste. A sala era grande o bastante para caber dois caminhões com certa folga. Era uma casa de paredes pintadas de um azul tênue, quase cinza. Mas apresentava rachaduras. O teto era forrado na cor branca, com um globo giboso para a luz que não mais funcionava. Houve um dia em que alguém depositara um bom dinheiro em decoração e reforma para aquele lugar. Porém, nos dias em que estavam vivendo, nada daquilo significava algo, a não ser mais um refúgio. E portas e janelas resistentes eram tudo o que importava agora.

— Vamos esperar — respondeu Jonathan. — Dar um tempinho.

Retirou sua mochila militar e deixou-a sobre o sofá que barrava a entrada. Sentou-se e bufou. Inclinou-se para trás, correu a mão pelo rosto claro e pela barba espessa. Fechou os olhos com as costas das mãos seguradas sobre estes, e ficou assim por um instante. Imagens fragmentadas de tudo o que passara veio à sua mente, porém, ele desejava mesmo era não pensar em nada, não naquele momento. Adelaide. Este nome o perseguirá até o fim de sua jornada. Este nome e a face da qual ele pertencia. Um abafadiço fardo de suas inconsequentes inconsequências passadas. Uma cruz que há muito vinha tentando se libertar.

— Será que aqui é seguro? — perguntou Rubens. — Queira Deus. Já não aguento mais lá fora.

Jonathan, ainda com os olhos fechados, respondeu de forma afirmativa ao amigo. Era seguro, sim. Precisava ser. Em todos os lugares que estiveram antes, a sensação de segurança era praticamente a mesma. Não mudava muito. Era arriscar ou nada. Qualquer lugar com teto e quatro paredes parecia perfeito, desde que a luz do dia não entrasse, e desde que aquilo lá fora permanecesse lá fora. Até o momento em que não for mais seguro, qualquer lugar é seguro. Ele estava contando que ali fosse por mais tempo possível.

De olhos fechados, Jonathan escutou Isabel bufar ao seu lado. Ela riscava o isqueiro e brincava com a chama, passando com a palma da mão bem próxima da mesma. Aquele barulhinho do riscar era irritante. Sua cabeça desejava sossego. Adelaide habitava nela, e muitas outras coisas. Mas não fez nada. Não mandou Isabel parar. Rubens conversava alguma coisa com Lurdes sobre uma das últimas paradas que fizeram antes de chegar ali, em uma loja de conveniências. Enquanto todos coletavam comida e qualquer resto de gasolina nos carros parados, usando uma mangueira para puxar, ele encontrara algo que julgara ser especial, perto de um corpo torcido no chão. Enfiou a mão no bolso do casacão marrom e tirou de lá um crucifixo de prata.

A mulher riu. Lurdes Esteves já carregava o sobrenome do marido há mais de 21 anos. Qualquer um diria que era uma mulher frágil, pelo seu porte físico. A tez clara contrastava com os olhos verdes. Mesmo com a idade que ambos já possuíam, eles pareciam um mero casal de jovens, sempre grudados.

— É para você. Para substituir o que você perdeu. Queria esperar até que tudo ficasse mais tranquilo, então...

Ela o agradeceu e pegou o objeto, o acariciando com o polegar.

— Não tem o mesmo valor — ele disse. — Mas...

— Tem, sim, querido. Agora tem, sim.

Rubens concordou e a beijou nos lábios. Jonathan sempre achou que eles combinavam. Eram da mesma faixa de idade, dos quarenta anos, e ambos sempre se deram bem pelo que podia se recordar, e mesmo quando havia brigas era por coisas banais e não durava nada. Iam sempre a cultos juntos e organizavam retiros de Carnaval entre ‘’irmãos’’ da igreja São Cristóvão que frequentavam, para lugares mais tranquilos na cidade de Teresópolis, onde viviam. Porém gostavam de ir mesmo para a chácara do velho tio de Rubens. Tio Régis, que apenas não fazia uma lasanha melhor do que a de Lurdes. Por vezes Jonathan participara junto a Adelaide e de uma pequena Isabel na época, mais por insistência da esposa, porém também acabava gostando. Eram bons momentos de uma boa época.

A chuva começou a estiar. Isabel se levantou e foi até a janela, afastou o lençol, preso com pregos. Precisou arrancar uma parte do tecido presa, e deu uma olhada pelas gretas. Não conseguia ver muito, tanto pelo fato de ser noite quanto pela chuva que, apesar de leve, dificultava a visibilidade.

— Porra — ela praguejou.

Jonathan se aproximou e perguntou a ela o que via. A garota sugeriu que ele visse com seus próprios olhos. Jonathan tomou o lugar dela na janela. Merda, ele pensou. A fonte dos ruídos ainda se encontrava perto. Não dava para ver muito, mas avistou um vulto se movendo mais à frente, algo esguio. E estava do outro lado da rua, onde conseguia notar uma Parati velha, parada, ao lado de seu Honda WR-V. Pressionou os olhos para ver com mais acuidade e notou bem quando a coisa esguia se recolheu para dentro da janela do carona daquele carro velho. Jonathan se afastou com as mãos sobre o rosto.

— Merda.

— Ainda estão lá fora? — perguntou Rubens ajustando seus óculos Retrô redondos, um tique que possuía. — Pela sua cara...

— Parece que sim — disse se voltando para o amigo. — Dentro de um carro parado lá fora.

— Dentro do seu carro?!

— Não. Não que eu tenha visto, pelo menos. Era só um, pelo que vi.

— Mas podem muito bem ter entrado em seu carro, né?

— Não. Eu tranquei as janelas. Esqueceu?

— Mas eles podem quebrar, não é?

— Sim, Rubens, sim. Mas pelo que vi, estão intactas. As que pude ver. A chuva atrapalha.

— Senhor amado — falou Lurdes baixando a cabeça. — Isso nunca vai ter fim?

Rubens a tomou pela mão.

— Relaxa, amor. Vamos passar por tudo isso. Essa provação um dia acaba.

— Precisamos ficar em silêncio agora — disse Jonathan. — Mais cedo ou mais tarde eles vão embora.

— Eu não contaria com isso — falou Isabel no sofá. — Não todas às vezes. A nossa sorte é que ainda temos um pouco de comida e de água, senão, estaríamos ferrados.

— Não — sussurrou Jonathan. — Eles vão embora. O sol logo irá nascer, e eles voltarão para seus buracos.

— Mesmo assim, pai. Isso não vai acabar. Vai ser assim pra sempre agora.

— Não diga isso, menina — interveio Lurdes. — Meu marido está certo. Acredite que passaremos por essa peleja.

A garota fez que não.

— Ai. Nem vem com essa, Lurdes — cruzou os braços. — Estamos nessa há quanto tempo? Faça-me o favor, né. Deixa dessa merda e vê se cresce.

A mulher, boquiaberta, encarou seu marido e, em seguida, voltou-se para Jonathan. O homem soube logo a razão de aquele olhar de cobrança pela parte de Lurdes e seu amigo. Eles esperavam uma atitude dele para com a sua filha. Jonathan então se voltou para a garota e a repreendeu. Exigiu que pedisse desculpas pelo que disse à mulher. Porém, a jovem se afastou e foi para outro cômodo. Coube a Jonathan retratar-se por ela.

— Me desculpem. Eu fico muito envergonhado por isso.

— Eu sei que ela é uma boa moça — disse Lurdes. — Mas ela nunca havia sido tão atrevida comigo como agora.

Jonathan correu a mão pelo cabelo preto e bufou.

— Essa situação, sabe? Eu vou conversar com ela.

— Converse mesmo — disse Rubens soando compreensivo. — Isso pode fazer bem.

Jonathan assentiu.

Antes de ir, ele pegou uma vela dentro do copo e acendeu-a com a chama da outra e então seguiu pelo corredor. Entrou na primeira porta à direita. Mantinha a vela ligeiramente inclinada, e alguns pingos de cera caíam no chão. Assim que adentrou, fechou a porta. Caminhou até a mesa com a televisão de Led sobre, parecida com a que havia na sala, porém, menor, e pôs a vela sobre o móvel.

Jonathan parou ao lado da filha, que observava a janela coberta por um edredom azul que estava pregado. Havia alguns objetos por ali: um violão sobre a cama, caixas de remédios para dormir, um porta-retratos sobre o armário de cabeceira – que mostrava um homem gordo, uma mulher e uma garotinha loira posando juntos em um parquinho – e uma pilha de revistas de cosméticos também sobre o armarinho.

Jonathan sentou-se ao lado da filha, que riscava o isqueiro, brincando com a chama.

— Vim conversar.

— Vai devolver meus cigarros? — disse enquanto riscava o isqueiro com uma mão e alisava sua sobrancelha com o dedo da outra, de cabeça baixa. Jonathan sabia que ela fazia isso quando estava nervosa.

— Isso faz mal. Tenho que falar quantas vezes?

Isabel deu de ombros.

— Sei por que começou. Não precisa disso.

Ela riu, encarando a chama do isqueiro. Parou de mexer na sobrancelha.

— É claro que preciso.

Jonathan fez que não.

— Destratou a Lurdes daquele jeito. Por que fez isso?

A menina não respondeu.

— Alguém precisava dizer a verdade a ela. Mostrar a realidade.

— Que verdade? Que realidade?

— Que está tudo perdido e estamos fodidos.

Jonathan soprou ar pela boca fazendo que não.

— Não fala assim.

— O quê? Fodidos? Mas é mesmo, ué.

— Não pode dizer uma coisa dessas. Você não sabe. Não pode magoar as pessoas assim. Tem que respeitá-las. Foi para isso que eu a eduquei.

A garota riu.

— É, né Tá bom então.

Jonathan sentiu sarcasmo, mas não disse nada.

— Eu queria descansar um pouco. Pode ser?

Jonathan viu que aquela conversa não chegaria a lugar algum.

— Certo. Descansa então.

Ele tocou o ombro dela.

— Não vou te encher. Mas saiba que a Lurdes ficou muito chateada.

Isabel não disse nada.

— Te amo — ele acariciou o ombro dela e se levantou.

Encaminhou-se para a porta e disse:

— Pode ficar com a vela.

Tocou a maçaneta e no exato mesmo instante, ouviu uma batida na porta. Abriu-a. Era Rubens.

— Preciso que veja uma coisa — disse.

Jonathan seguiu seu amigo de volta até a sala. E Isabel acabou indo junta. Lurdes estava na poltrona com uma mão sobre a testa, parecia atordoada. Jonathan continuou seguindo Rubens, que levava uma vela. Entre a sala e a cozinha havia outro corredor. Cruzou por ele e parou diante à porta, a que estava emperrada. Mas agora se encontrava entreaberta. Um terrível odor esfaqueou suas narinas. Não pensou duas vezes em cobri-las com o braço e se afastar um pouco.

— O que é isso? Que porra tem aí dentro?

Mesmo da pequena abertura da porta dava para ver que o local estava bem escuro, como se não possuísse janelas ou nada do tipo.

— A Lurdes precisava ir ao banheiro — respondeu Rubens ajustando seus óculos. — O único cômodo que a gente não checou foi este, já que a porta estava difícil de abrir. Só podia ser o banheiro. Não tentei forçá-la tanto antes, quando verifiquei, mas forcei agora. Então me deparei com isso daí.

Jonathan segurou na maçaneta e empurrou a porta com o ombro e, aos poucos, ela foi abrindo mais. Algo razoavelmente pesado estava causando certa resistência, impedindo-a de abrir normalmente; algo que estava no chão. Com o esforço necessário, Jonathan conseguiu. Ainda mantinha a mão no nariz. Seus olhos estacionaram sobre a silhueta robusta caída no piso. Pediu a vela de Rubens emprestada. Era uma das últimas velas que ele havia pegado dentro do copo de vidro na sala.

Jonathan entrou primeiro, seguido por Rubens, mas ordenou a filha que aguardasse do lado de fora. Ela deu de ombros, parando recostada contra a parede, de frente para a porta. Jonathan, primeiramente, agachou-se ao lado do corpo — em um alto estágio de putrefação — e direcionou a luz da vela próximo ao rosto azul-esverdeado do morto. Alguns respingos de cera caíram sobre ele. Não obteve a melhor das visões. A face encontrava-se irreconhecível e encoberta de sangue. Os maxilares não existiam mais, e sua boca era um grande buraco, tal como o topo de sua cabeça careca, que possuía um enorme rombo. Jonathan então elevou a chama da vela, iluminando o topo da porta, onde haviam manchas de sangue coagulado esborrifadas em seu decorrer, e até mesmo no teto branco havia alguns respingos secos.

Jonathan levantou-se, direcionando a luz para tudo a seu entorno. Gotas de sangue decoravam as paredes azulejadas mais próximas ao cadáver. O vitrô estava bloqueado por uma toalha imunda, pregada à parede. Sobre a privada, jazia uma agenda aberta e ao lado de uma vela gasta, já quase no fim. Jonathan a pegou e correu brevemente os olhos nas anotações e logo a entregou a Rubens.

Abaixou e pegou a arma da mão do morto, uma espingarda de calibre .32, de canos justapostos. Revistou os bolsos, à procura das munições, mas não as achou. Então ele checou as câmaras e notou que também estavam vazias. Mesmo assim, levou a arma. Deixando o banheiro, encaminhou-se de volta para a sala. Rubens deixou a agenda sobre o criado-mudo e foi até Lurdes, na poltrona, e pegou na mão dela. Isabel assentou-se no braço do sofá vermelho que barrava a porta.

— Bem, gente — Jonathan apagou a vela e a pôs de volta dentro do copo de vidro —, o sujeito morto no banheiro... Não há dúvidas de que ele se matou.

— Se matou? — Lurdes o encarou com espanto. — Jesus! Como alguém é capaz de fazer algo assim?

— Simples — disse Isabel. — Ele não aguentou a pressão. Acho que ele ficou muito tempo preso aqui com aquelas coisas lá fora e sem poder ver a luz do dia e resolveu dar um jeito da melhor forma que ele conseguiu. Acontece.

— Acho que ele tinha família — falou Rubens. — Têm algumas fotos pela casa. Meu Deus. Para ele ter feito isso consigo mesmo... Devia estar muito atribulado.

Enquanto Rubens falava, Isabel foi até a janela, passando a espiar lá fora pelas gretas. A chuva estava ainda mais leve agora, do mesmo jeito como quando chegaram a casa.

— Verdade — Lurdes falou.

— Acho que ele estava mesmo muito perdido — falou Jonathan deixando a espingarda encostada no armarinho. Então se virou e foi até sua filha na janela. — O que está vendo agora?

— Agora, não vejo muita coisa. Tudo está muito parado. Não vejo nenhum movimento no carro. Mas, com certeza, os putos estão lá em algum lugar.

— Não adianta ficar vendo — falou Lurdes. — A gente vai ficar aqui por um tempo, não é?

Jonathan assentiu. Fazer aquele lugar valer era uma das prioridades, mas a outra era se livrar do corpo. O cheiro de podridão já era um problema, mas não dos piores. Pediu a todos que ajudassem a achar as caixas com as munições. Tinha certeza de que havia alguma pela casa. Os quartos foram revirados: armários, guarda-roupa, tudo. Lurdes então encontrou cinco caixas, quatro fechadas e uma delas aberta, no fundo do guarda-roupa, e as entregou a Jonathan.

Enquanto procuravam, também acharam pilhas, uma lanterna – embora já tivessem suas próprias – três guarda-chuvas, incluso um de criança, e uma bandoleira, que Jonathan pegou. Voltaram à sala. Jonathan apanhou sua espingarda recostada no armarinho e lhe acoplou a bandoleira, deixando-a novamente recostada. Ele não sabia explicar como o sujeito tinha uma espingarda dessas em casa, mas isso não importava para ele. Em seguida, pegou uma vela do copo, acendeu-a e foi à cozinha espaçosa, deixando-a sobre a mesa. Abriu a geladeira. Não havia nada além de duas garrafas de água, um pote pequeno de mel, latas de atum e de salsichas abertas e outras fechadas na porta, um pote de macarrão e queijo. Cheirava mal. Abriu um dos armários e viu mais alguns enlatados e massas. Mas também viu outra coisa. Seus olhos brilharam.

— Seu grande filho da putaele sussurrou ao achar a garrafa de Red Label ainda pela metade.

Destampou-a e sentiu o aroma. Sua boca salivou. Estava prestes a voltar a provar o sabor adocicado que lhe trazia lembranças amargas. Não resistiu. Olhou em direção ao vão que dava para a sala. Não vinha ninguém. Isabel conversava com Lurdes e Rubens sobre o lugar. Então virou a garrafa na boca.

Estava meio quente. Mas não se importou, bebeu mais um pouco; então parou. Imagens vieram à sua mente. As razões de suas vergonhas. Apertou o vidro quase ao ponto de quebrá-lo. Depressa, foi até a pia e esvaziou o resto da garrafa. Sua mão tremia no processo. Quando acabou, sentiu-se um pouco aliviado. Virou-se de costas para a pia, se recostou nela e correu as mãos pelo rosto.

Ocultado dentro de sua blusa, havia um pingente prateado; puxou-o para fora e segurou-o em sua mão. Era do tipo customizado, contendo o nome Adelaide, que havia pedido para fazer dias depois em que se casaram. Por você. Por vocês, pensou. Guardou o objeto na camisa e cerrou os olhos. Suspirou. Precisava conter o aperto no peito sempre quando a imagem do rosto da mulher vinha à sua cabeça. Um rosto que o afogava em culpa e o fazia lutar para chegar à margem e respirar. Mas às vezes, desejava ser tragado para as profundezas.

Tocou a aliança em seu dedo anelar da mão esquerda.

— Me perdoe — sussurrava para si mesmo. — Por favor, me perdoe.

Estava tudo guardado em um baú sombrio, nas masmorras de sua mente. Um sentimento que ainda perdurava e machucava mais do que qualquer ferimento carnal, como da torção de pele que aplicou em seu braço ali, de olhos fechados. Apertou a pele, por cima da blusa, com os dedos até uma dor aguda surgir. Chegou a gemer baixo, mas sentiu um leve alívio. Porém sabia que era temporário.

Abriu os olhos, viu a porta ao fundo, uma que já havia checado mais cedo, quando chegou a casa. Caminhou até ela. Estava trancada e continha um pano cobrindo sua greta, embaixo, o que Jonathan achava um exagero. A chave estava na fechadura. Ele não pensou em abri-la antes, mas, agora, conjecturava em fazê-lo, mas sabia que provavelmente era o quintal. Teve uma ideia. Aquilo poderia ser a solução para alguns problemas. O homem girou nos calcanhares e voltou à sala.

— Rubens... — chamou enquanto pegava sua arma, recostada no criado-mudo. — Preciso de sua ajuda, amigão.

— Para quê? — questionou assentado no braço da poltrona, ao lado da esposa.

Pela bandoleira, Jonathan lançou sua arma nas costas, como se estivesse vestindo uma mochila em apenas um dos ombros.

— Quero checar uma coisa lá fora. Vamos começar a agir... Agora mesmo.

26 Mars 2021 20:28:46 2 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá! Tudo bem com você? Faço parte do Sistema de Verificação e venho para parabenizar pela Verificação da sua história. Nossa, cara, eu realmente não sabia nem por onde poderia começar esse comentário, isso porque eu já fiquei animada com tantas coisas no corpo do texto, que queria falar sobre tudo de uma vez. Pensando nisso, eu decidi em começar por essa incrível, chamativa, única e criativa sinopse. Ela simplesmente, de longe, transmite toda a terrível tensão que vem carregada em cada linha, mostrando que não se passa apenas de palavras ao vento, e sim que alguém, da qual podemos observar de bem perto, está em uma caçada. Sério, eu nem consigo colocar em palavras tudo o que eu senti apenas lendo esse pouco e da premissa que o texto prometia. Eu simplesmente amei, de verdade. Bom, vamos lá. A coesão e a estrutura do seu texto estão simplesmente cativantes! Eu achei fantástico a forma que você colocou um assunto tão envolvente em uma história tão “pesada”, mas que durante a leitura, ela fica cada vez mais e mais atrativa. Tudo que tem um começo, tem um meio e um fim, e a forma que você trabalhou na hora de desenrolar o enredo, ficou show de bola. A história ficou incrivelmente bem estruturada, e só de ler o inicial dela (sinopse, tags,TITULO) já da aquela animação no leitor que procura pelo gênero x, você arrasou nesse ponto. Quanto à gramática, tem uns pequenos apontamentos em: "A noite nunca fora menos segura agora" em vez de "A noite nunca foi menos segura quanto agora"; "não fora possível de verificar" em vez de "não foi possível verificar"; "o ambiente fora tomado" em vez de "o ambiente foi tomado" - é importante lembrar que o pretérito mais-que-perfeito é o passado do passado na história, se não ficaria com dois tempos e isso não é legal. Mas no geral, são apontamentos que não atrapalha de uma forma negativa a leitura. No mais, desejo a você sucesso e tudo de bom! Sua história é um máximo e aposto que muitos outros leitores irão gostar tanto quanto eu. Abraços.
September 09, 2021, 15:34

  • E. M. Vicente E. M. Vicente
    Oi. Agradeço pela avaliação. Vou corrigir os erros. Estou sempre relendo, em busca de coisas para melhorar. Isso que você apontou, eu não sabia, senão, já teria corrigido. É um incentivo saber que gostou. Grato. September 11, 2021, 19:17
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