haruka_sama Haruka Fujoshi

Percy Jackson se tornou um cara recluso, sem jeito com pessoas e amargo. Escondido em um apartamento velho no Harlem, sua rotina é resumida a um ciclo vicioso: acordar, matar monstros, faculdade, culpa. Dormir, se tiver sorte. Em uma de suas incontáveis noites de insônia, às três da madrugada, alguém bate à sua porta. Ao decidir que atender seria a melhor opção, é surpreendido ao perceber que aquele parado ali não era uma ameaça — ao menos não por enquanto. Nico Di Angelo, então, com sua espada de estígio firme no punho, murmura as cinco palavras que iriam virar o novo mundo de Percy de cabeça para baixo: — Eu, hm... Preciso de ajuda.


Fanfiction Livres Interdit aux moins de 18 ans.

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Quando um problema bate à sua porta às 3 da madrugada




Percy Jackson estava parado na frente da pia de mármore preto quando ouviu as batidas a porta.

Ele estranhou.

Muito.

Primeiro porque eram quase três horas da madrugada. Segundo porque praticamente ninguém o visitava mais. Terceiro: eram quase três malditas horas da madrugada, pelos deuses.

Ele fazia uma caneca de café e tentava não pensar em sua vida. Era difícil não pensar na própria vida, ainda mais quando ela estava daquele jeito, tão bagunçada e sem sentido. E também, é claro, porque a vida era sua.

Mas ele tentava.

Seu movimento foi automático: enfiou a mão no bolso. A simples caneta esferográfica, aparentemente barata e comum, estava em mãos. Quando Percy destampou, no entanto, surgiu ali uma lâmina reluzente de noventa centímetros do mais puro bronze celestial. Anaklusmos, Contracorrente, o que você preferir; sinceramente, seu nome não importava muito naquele momento. O que importava eram seus sentidos, ativados como uma máquina à pleno vapor, o TDAH lançando ondas de euforia, o coração batendo rápido.

Percy estava pronto para a luta.

Segurou com firmeza o punho de couro e abriu a porta.

Com a espada levantada, preparado para desferir um arco mortal em qualquer górgona, Minotauro ou testemunha de Jeová que fosse, Jackson arregalou os olhos ao perceber que aquele parado ali não era um inimigo em potencial.

Pelo menos não por enquanto.

Era Nico Di Angelo.

O visitante tinha se afastado com a agilidade de um semideus bem treinado, levando o corpo esguio para o outro lado do corredor antes que a espada do filho de Poseidon fizesse um estrago bem pior do que um simples corte de cabelo.

Percy, por sua vez, baixou sua fiel companheira antes do golpe ser de fato desferido. Nem sabia como tivera forças para fazê-lo, mas talvez o choque o houvesse travado a ponto de não simplesmente cortar a suposta ameaça em fatias pequenas o bastante para fazer a porra de um tartar.

Até mesmo sua voz saiu estranha, quiçá um pouco esganiçada:

Que?

— H-hey.

Eles se encararam por alguns segundos. Nico estava visivelmente desconfortável, meio ofegante pelo susto e colado à parede oposta do lugar escuro. Uma de suas mãos estava pronta para sacar a temível espada negra de ferro estígio. Percy não se encontrava de uma maneira tão diferente, embora sua versão de colado a parede fossem os nós dos dedos apertados firmemente ao cabo da própria arma.

Di Angelo nunca fora bom com pessoas, e Jackson também tinha desaprendido completamente a ser (não que um dia houvesse realmente sido bom, você sabe. Só que, hm, digamos que ele já tenha sido bem melhor com essa coisa de socializar do que era atualmente).

— Uh... boa noite. — Falou. Boa noite? É sério? Fazia mais de um ano que não via a cara do filho de Hades, quase o matou naqueles poucos segundos de interação e a primeira frase completa que saía de sua boca era boa noite? Franziu o cenho. — O que você quer?

Ok, ele estava apenas piorando mais e mais as coisas. É Percy, bem a sua cara mesmo.

Nico murmurou algo que ele não entendeu (e que, sinceramente, não estava afim de entender). Em seguida, o mais novo limpou a garganta e murmurou outra vez, porém num tom mais audível. A voz era um pouco rasgada, como se ele não estivesse acostumado a falar tanto. As mãos se afastaram do ferro estígio, mas não paravam quietas, rodando o anel de caveira no dedo comprido. Os olhos não encontravam os de Percy de jeito nenhum.

— Eu, hm... preciso de ajuda.

Percy piscou algumas vezes, finalmente se dando conta do mundo à sua volta. Ambos estavam no corredor do prédio velho, de madrugada, com armas muito perigosas à mão. Com um movimento, a espada voltou a ser uma simples caneta esferográfica. Inspirou, refletindo se aquilo era uma boa ideia. Abriu passagem para dentro de seu apartamento e disse:

— Entra.


...


Nico não parecia nada à vontade, e Jackson se sentia desconfortável demais para pôr em palavras ou para apenas tentar aliviar a tensão. A última pessoa de sua outra vida que o havia visitado tinha sido Grover. O sátiro passava por sua moradia, às vezes. Trazia poucas ou nenhuma notícia do acampamento (aquele bode conhecia Percy muito bem), mas falava bastante sobre Juníper e sobre seu trabalho como mensageiro de Pã, que o cobrava cada vez mais, enquanto comia algumas latinhas de cerveja ou Coca-Cola que Percy guardava (especialmente para o outro, mas nunca admitiria aquilo). Ah, e claro: evitava ao máximo aquele assunto.

Mas isso? Isso tinha sido há mais de três meses. Pelo que sabia, agora Grover Underwood estava em algum lugar da Califórnia, combatendo seja lá o que estivesse causando tantos incêndios, bem longe do Harlem. Quando o filho de Poseidon queria ver sua família, era ele que ia à moradia de Sally Jackson. Os amigos da faculdade viviam reclamando sobre como Percy quase não os deixava ir a seu apartamento. Ele era um cara meio recluso.

Engoliu seco.

— Pode tirar seu casaco e se sentar, se quiser. Quer... quer comer alguma coisa?

E desviou para a cozinha. Por algum motivo, queria evitar ao máximo aquela conversa. Queria evitar ao máximo olhar nos olhos do rapaz, queria evitar ao máximo pensar em sua vida (ou ao menos aquela que agora denominava debilmente como outra vida). Droga.

Abriu a geladeira.

— Olha, hm... tem... tem lasanha congelada, yakisoba de ontem, Coca, bolo azul, cerveja. Eu fiz café também. Uh, dois pedaços de pizza. É.

Ele olhou para trás.

A cozinha tinha um portal bem largo, de madeira escura, de forma que a sala era perfeitamente visível. Nico estava parado não tão longe da porta pela qual entrara, ainda girando o anel de caveira. Ele parecia querer sair correndo ou apenas vomitar. Percy o compreendia completamente.

— Hm, eu... eu aceito a lasanha, por favor.

Di Angelo era como um filhote de cachorro largado. Os cabelos dele estavam desgrenhados como sempre, mas maiores. Ultrapassavam um pouco os ombros caídos. Ele parecia estar alguns centímetros mais alto, também. Usava um novo casaco de aviador (o outro havia sido rasgado num encontro nada amigável com Licaón, o primeiro licantropo, mas o atual era igualmente enorme e puído). Com muita timidez, tirou o agasalho. Trajava uma blusa preta com caveiras dançantes desenhadas e a espada de ferro estígio pendia ao seu lado. Uma corrente fazia as vezes do cinto.

Era exatamente o mesmo semideus que Percy se lembrava.

— Tá. — Respondeu o filho de Poseidon, sem muita cerimônia. Pegou a lasanha e a pôs no micro-ondas. Voltou para a sala, derrotado. Não queria conversar, não queria ir ao acampamento, não queria outra missão louca.

Só queria ficar em paz.

Deu alguns passos, parando a menos de um metro do garoto. Nico pareceu encolher-se em si mesmo.

— Me dá isso. — Percy apontou para o casaco. Hesitante, Di Angelo ofereceu a peça de roupa a ele. Jackson a tomou com mais irritação do que pretendia, levando-a até uma cadeira de ferro que estava ao lado do sofá azul escuro. Enquanto ajeitava o agasalho no encosto do assento, sentia o olhar do filho de Hades lhe perfurando as costas, de maneira que disse (outra vez, bem mais irritado do que pretendia): — E pelo amor dos deuses, Nico, senta logo.

Primeiro não ouviu nada. Depois pequenas passadas receosas, e por fim um farfalhar de tecido contra tecido. Em seguida, o próprio Percy se sentou, o mais afastado possível do outro.

Sem rodeios, disse:

— Ajuda com o que?

Nico olhava para as próprias mãos inquietas. Pela primeira vez desde a chegada do jovem, o anfitrião reparou nele. Não o tinha feito antes, talvez pelo fato de toda a luz existente na sala estar vindo da cozinha e do corredor que dava para os quartos, já que a do próprio cômodo estava apagada.

Talvez fosse apenas porque não queria reparar.

Mas ele o fez.

Nico parecia abatido e magro, muito magro. Os olhos, pouco escondidos pelos cabelos negros, tinham olheiras enormes, como se esperassem por um sono decente há bem mais de uma semana. As bochechas estavam mais fundas do que o recomendável e os braços, apesar de portarem certos músculos pelo trabalho árduo de um semideus em tempo integral, pareciam mais finos do que deveriam. Sabia que a probabilidade de as costelas estarem visíveis de um jeito preocupante era alta. Quanto tempo por semana aquele moleque passava sem comer?

— Um notebook.

— O que?

— Preciso de ajuda... pra pegar um notebook.

Percy franziu o cenho outra vez.

— Por que não compra outro? Sabe, existem milhares de notebooks no mundo.

Nico apertou os lábios, como se subitamente quisesse dar um tapa na cabeça do outro.

— Não desse. Definitivamente não um desse.

— O que tem de tão especial nesse?

— Esse é do meu pai.

Jackson engoliu seco. Não tinha memórias muito boas do pai do italiano. Não, não tinha mesmo.

— Mas... eu? — Ele questionou depois de um silêncio considerável. — Por que eu? Sabe que... que não sou o mais indicado. Você tem amigos que com certeza poderiam te ajudar. — Se segurou para não dizer outros amigos. Dizer outros implicaria numa conclusão de que ele também era um, e ele não era um. Não mesmo. Provavelmente não era mais o amigo de ninguém do acampamento, não além de Grover e talvez Quíron. Amigos não abandonavam os outros, ainda mais na situação em que todos se encontravam depois da batalha, depois da perda de... de pessoas importantes.

Ele não era o único a ter sido ferido com o fim daquela confusão, nem de longe. Mas como um mesquinho, como um egoísta cabeça de alga como apenas ele podia ser, agiu como se fosse o único atingido. Fugiu. Se escondeu ali, naquele apartamento velho que cheirava a mofo, frequentando a faculdade de biologia marinha, fingindo ser uma pessoa normal e tentando não explodir o prédio ou pôr fogo em algo.

Então não, ele não era a pessoa mais indicada. Não mesmo.

— É que... você foi minha melhor opção. Mas se não puder ajudar, eu vou entender. — Disse a voz baixa. Melhor opção? Desde quando Perseu Jackson era a melhor opção para algo? Deuses, ele mal conseguia ler um texto normal sem embolar toda sua mente.

— Hazel? — Sugeriu.

— A Hazel está... ocupada. — Nico disse toda a frase como se estivesse tentando engolir algo realmente amargo e horrível. O de olhos verdes resolveu não questionar.

— Reyna? Vocês são tão amigos. Quer dizer, você é tipo um irmão pra ela.

Um suspiro de cansaço puro saiu pelos lábios alheios. A voz que chegou a seus ouvidos parecia ser antiga, esgotada. Parecia a voz de uma pessoa que já havia visto de tudo no mundo, e não a voz de um mero garoto de dezessete anos. Não que Di Angelo fosse um mero garoto, é claro, mas aquela voz... não lembrava nem vagamente a voz do moleque irritante jogador de mitomagia.

Isso trouxe certo pesar a Percy.

— Reyna é uma pessoa bem ocupada, Percy. E não falo com ela faz um tempo. Na verdade, não falo com o outro acampamento faz um tempo. A comunicação tem estado... hm, deixa pra lá. — Ele passou a mão pelo rosto.

Percy ergueu uma sobrancelha, mas não questionou.

— E o Jason? Desde aquele dia... digo, foi a amizade mais estranha que já vi, mas vocês estavam tão próximos e...

— Ele está estudando, Percy. Tipo, bem longe daqui. Começou a faculdade faz pouco tempo, depois de Piper e ele se separarem.

Percy arregalou os olhos, mas não comentou nada. Piper e Jason separados? Talvez aquilo o tivesse surpreendido ainda mais do que a visita inesperada.

Tentou pensar. Um namorado. Nico não tinha um namorado? Aquele curandeiro, filho de Apolo.

— Will? — Questionou, por fim.

Nico franziu o cenho e apertou as mãos. Jackson temeu que o outro enfiasse sua espada no chão e trouxesse do submundo um guerreiro esqueleto aleatório, mesmo que estivessem longe da terra firme, lá no quarto andar.

Felizmente ele não o fez.

— Will e eu... não é mais a mesma coisa. — Respondeu ele, devagar.

— Oh.

Silêncio.

O micro-ondas escolheu esse exato momento para apitar.

— Vamos para a cozinha? — Resmungou o filho de Poseidon, louco para beber seu maldito café.

Di Angelo balançou a cabeça lentamente.


...


Nico comia como se não visse alimento com tanta frequência, coisa que Percy não se surpreenderia se fosse verdade. Ele tentava ser educado enquanto garfava a lasanha congelada como se fosse um filé mignon feito por algum renomado chefe francês. Percy sentiu certa simpatia, mas mesmo assim ainda queria estar sozinho.

Alguma parte de si gritava, dizendo que era bom finalmente estar próximo a um companheiro de acampamento, mesmo que esse companheiro fosse Nico e eles dois não tivessem um histórico tão bom assim (e isso aplicando um belo eufemismo, é claro). Entretanto, ele tentava reprimir esse sentimento.

Eu queria ficar sozinho e ponto. Para de pensar, merda!

Quando estava sozinho, as pessoas não lhe olhavam com aquela cara de enterro. Com aquela cara de Hey, Percy, eu sei que você passou por muita coisa, sinto muito. Não. Ele não queria que ninguém sentisse muito. Ele só queria beber um café.

Mas Di Angelo, naquele instante, não era uma companhia ruim. Ele parecia muito interessado em sua lasanha congelada, e em nenhum momento desde que chegara havia lhe lançado um olhar de pena. Não. Nico estava acostumado com a morte. Talvez por isso Jackson não tivesse batido a porta na cara do garoto assim que ele apareceu no corredor. Por isso e porque ele sabia que, se Di Angelo estivesse com vontade, poderia surgir nas sombras do pé da sua cama, como uma assombração.

Olhares de irritação, cansaço, hesitação, desconforto? Isso ele podia relevar. Tranquilo.

Percy coçou seu pouquíssimo prelúdio de barba e bebericou a bebida escura.

— E... por que esse Notebook importa?

Esperou Nico engolir a lasanha.

— Porque não é um aparelho comum, eu acho. Meu pai não me deu muitos detalhes. Ele disse apenas que contém coisas importantes, coisas que podem fazer o curso do mundo permanecer ou ser alterado... Olha, não sei o que ele quis dizer com isso, mas curso do mundo? Me pareceu... Importante, talvez.

Jackson suspirou, fechando os olhos.

Não queria mais explicações sobre o que era aquela merda. Aquilo já bastava. Sinceramente, porque os deuses não lidavam com seus próprios problemas mesmo? Era sempre assim: semideuses, lutem nessa missão impossível por algo que é minha culpa, blábláblá. Sua recompensa? Sei lá, eu não te transformo num hamster, o que acha?

No fim, ele sempre aceitava. Já tinha sido transformado num hamster, e a experiência não fora nada legal.

— E como sumiu? Aliás, você faz alguma ideia de onde está esse tal notebook?

Nico bebeu um gole de sua latinha de refrigerante. Parecia enrolar um pouco, como se temesse dizer o que tinha a ser dito.

— Uh... acho que sei onde está. Tem... tem um restaurante. Não é tão longe daqui. Servem comida etíope, estão fechados faz uns dias. Mas cheira a monstro, sabe. — Uma curta pausa. — Bom, eu estava, hm... por aí. Então meu pai me chamou. Aparentemente alguém o roubou, algum monstro muito esperto ou um semideus ambicioso demais. Eu não sei.

— Quem teria poder para roubar algo do seu pai? Talvez outro deus?

Nico hesitou.

— Eu não sei. De vdade. er Mas estive andando por aí, como eu disse, e... creio que nossa melhor opção seja esse restaurante. — Desconversou.

Percy encarou o outro. Pela primeira vez, Nico olhou em seus olhos.

— Isso é outra armadilha?

— O que? Não, Percy. Deuses, não. Eu só... preciso muito da sua ajuda.

Jackson não se convenceu.

— Por quê? Digo, você é muito forte. Pode invocar um exército sozinho, Nico. Você é o rei fantasma.

Nico suspirou outra vez. Percy bebeu mais um gole do café, suas sobrancelhas franzidas ao limite.

— Há muitos monstros naquele lugar. Eu não daria conta, e estou... muito cansado. Por favor.

Percy passou a mão pelo rosto e bagunçou os próprios cabelos. Ele ajudaria Di Angelo, é claro. Mas ele teria aula na segunda-feira e, deuses, ele não podia morrer e perder a droga da aula. Teria provas dali a uma semana. É, estava fora de cogitação essa coisa de morrer ou se ferir gravemente. O senhor Hudson não lhe daria pontos extras nem se ele chegasse na faculdade sem uma das pernas e com um tiro no ombro.

— Eu te ajudo.

Nico soltou um som que deveria ser de satisfação.

— Obrigado.

E então voltou a comer. Percy não sabia se a tal satisfação do garoto se devia ao fato de que ele aceitara ajudá-lo ou apenas pelo fim da conversa, que o dava passe livre para voltar à sua lasanha.

Jackson terminou o café. Estava frio, fraco e cheio de açúcar. Horrível. Ao menos ele tinha cumprido sua vontade.

— Nico?

— Hm?

— Como descobriu onde moro?

Nico ficou tenso. Em seguida, fez algo inesperado: deu uma risadinha. Curta. Quase despercebida, talvez até um pouco forçada.

— Sally?

Percy bufou e passou as mãos pelo rosto. Fazia tanto sentido que ele quase ficou com raiva.

— Cara, não adianta. Mãe, por favor, se alguém me procurar não diga onde to morando! Ela diz claro meu filho querido, e cinco minutos depois sai dando meu endereço pro primeiro que aparece!

Di Angelo riu mais. Mais que a curta risadinha, apenas, nada exagerado. Ainda era o Rei Fantasma: tinha uma reputação a zelar.

Enquanto Nico bebia a Coca-Cola, num ar um pouco menos tenso do que antes, Percy cometeu uma das muitas gafes da noite, e talvez a pior. Ele disse essas cinco palavrinhas:

— Você ainda está no acampamento?

Silêncio. Nico encarava o final de sua lasanha como se ela estivesse recitando um daqueles haicais péssimos de Apolo:

Esse fodido

Disse uma coisa

Muito burra!

— Hm... Você sabe... Meio que sim, meio que não. — Ele murmurou hesitante. Sem mais risadas curtas dessa vez.

Não, Percy não sabia. Que tipo de resposta era aquela?

— Você... — começou a dizer, mesmo que não soubesse o que iria dizer, para início de conversa. Por sorte, Nico o interrompeu:

— Por favor, não pergunte.

— Ok.

Silêncio outra vez. A essa altura, Nico já havia terminado sua lasanha, então cutucava um mini-pedaço de carne moída com seu garfo. Jackson sabia que ele não queria entrar naquele assunto.

Pela primeira vez na madrugada, o filho de Poseidon percebeu que, desde que Di Angelo chegara daquela maneira abrupta e inesperada, ele tinha cultivado muito mais perguntas do que respostas.

— Quer dormir aqui?

Merda. Tinha que parar de não pensar antes de dizer coisas. Ele não devia ter perguntado isso. Digo, desde o começo ele não queria simplesmente chutar Di Angelo (e, deuses, qualquer um que pudesse aparecer)?

Digo, ofertar aquilo era complicado. Percy teria que encontrar uma toalha para que Nico tomasse um banho, procurar um cobertor limpo no armário, emprestar uma roupa que certamente ficaria enorme no garoto magro (demais), entregar a ele um de seus travesseiros... Jackson já não sabia mais fazer esse tipo de coisa. Não sabia.

Mas sabia que era cruel chutar Nico pela porta às três e muitas da manhã, tendo ciência de que lá fora fazia algo em torno dos quinze graus e de que qualquer monstro, até mesmo a porra de uma Quimera, poderia estar em um beco da cidade pronto para devorar a cabeça bagunçada da cria de Hades.

Di Angelo hesitou.

— E o Notebook?

Percy o encarou.

— Nico, sabe que horas são?

O outro pareceu pensar um pouco.

— Hm, bom, é de noite. Talvez sejam, uh... não sei... umas oito horas agora?

Jackson desviou o olhar, encarando um ponto acima da cabeça de Nico, na parede azul petróleo atrás dele. Observou o relógio branco por alguns segundos antes de responder:

— Cara, nesse momento são, hm... 3:48h da madrugada.

Nico corou, como se só então percebesse que tinha aparecido ali tão tarde. Tentou disfarçar sua reação. Percy, mais uma vez, não se surpreenderia se o outro não houvesse mesmo percebido o horário.

— Oh... Me... Me desculpa.

— Tudo bem.

E, de novo, aquela quietude incômoda. Di Angelo voltou a rodar o anel de caveira. Percy passou a observar as próprias cutículas, como se elas de repente atraíssem muito seu interesse. Devagar, a voz baixa soou:

— Eu aceito... Claro, se não for atrapalhar.

Percy Jackson inspirou, refletindo rapidamente se aquilo não era uma má ideia. Antes que pudesse se refrear, ouviu a própria voz:

— Sem problemas. Não vai atrapalhar em nada, não.

Oh, deuses. Ele só queria beber seu café em paz.


I know there's someone at the door

They called for help, of this I'm sure

But do I want to say goodbye

to all the glowing eyes

Glowing Eyes – Twenty One Pilots

14 Février 2021 03:09:36 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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