saaimee Ana Carolina

Natal chegando e trazendo com ele a ansiedade dos planos para a data. Anthony pensava sobre isso quando percebeu que não era o único passando por esse problema e que, talvez, seu amigo estivesse em uma situação ainda pior. → Capa tirada do site: pixabay.


Histoire courte Tout public. © Todos os personagens aqui pertencem a mim e TsukiAkii. Portanto postar/reproduzir esta estória em qualquer página sem a minha autorização é completamente proibido. Plágio é crime e eu tomarei providências.

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Histoire courte
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Capítulo único

Suspirando pesadamente, o rapaz olhava para os pés inquietos. Parado em frente a uma porta esculpida, Anthony se preparava mentalmente para bater contra a madeira e encarar o rosto que o receberia.

Seu estômago parecia dançar dentro de seu corpo, refletindo o nervosismo que sua mente criava. Procurando por uma saída, ele olhou para a esquerda vendo o homem alto de longos cabelos negros parado ao seu lado.

Sua face estoica, sem nenhuma emoção a ser expressada, observava a janela. Anthony não tinha como adivinhar o que estava pensando e, naquele momento, até desejou ser como ele.

Jyrki olhou em sua direção quando percebeu o olhar insistente, confuso, levantou uma sobrancelha como se perguntasse “não vai bater?”

Balançando a cabeça, Anthony se virou para frente mais uma vez. Era inútil esperar que Jyrki entendesse o que seu corpo estava passando. Chegava a ser ridículo até para o próprio Anthony se sentir assim.

Claro, estava nervoso porque estava prestes a entrar na casa de Relliane, entretanto também sabia que não estava ali por ela. Tinha sido convidado por Jamey, e era só com isso que deveria se preocupar.

Hesitante, seu punho fechado bateu duas vezes contra a porta e, silenciosamente, sua mente implorou por calma.



Tudo começou quando, dois dias atrás, os três estavam fazendo uma pesquisa no laboratório e o silêncio tomou conta da sala.

Jamey estava molhando as plantas na pequena estufa nos fundos, Anthony estava apoiado sobre a mesa enquanto Jyrki observava o relatório de uma nova espécie que tinham encontrado durante a semana.

Os olhos cansados de Anthony se desviaram para o armário, procurando por algo para se distrair. Viu as prateleiras coloridas por folhas e viu um papel rabiscado na parede ao lado. Dias riscados em um calendário o fez perceber que estavam há uma semana de distância do natal.

Um “oh” escapou de seus lábios alto o suficiente para fazer os outros dois olharem em sua direção.

Ele percebeu a dúvida em seus rostos e balançou a cabeça afirmando que não era nada demais.

— Eu só lembrei que a gente tá perto do Natal.

— Ah... – Jamey exclamou e logo sorriu, colocando o regador no armário. — Eu nem tinha notado.

— Com tanto trabalho eu também esqueci... – seus olhos vagaram pela sala enquanto sua mente mostrava imagens de planos que ainda tinha que fazer. — Preciso preparar as coisas.

— O que vai fazer?

— Vou pra casa do meu pai depois da festa aqui – explicou com um tom carinhoso. Depois ponderou por uns instantes antes de falar novamente. — Tava pensando em voltar pra cá e passar a virada de ano com a Blood. Mas preciso falar com ela antes.

Sua última frase foi seguida de um riso nervoso que fez suas bochechas ficarem vermelhas. Estava acostumado a passar as festas comemorativas com os amigos, por isso mudar os planos agora o deixava ansioso, porém feliz.

Seus olhos se levantaram vendo o rosto curioso de Jamey e o olhar sério de Jyrki sobre ele. Na hora não entendeu o motivo de tanta atenção, mas depois percebeu que os dois não eram como ele e durante esse tempo iriam ficar longe um dos outros.

Uma pontada em seu peito o fez perceber só agora quanto tempo tinha passado desde de começaram as pesquisas e como tinham se tornado tão próximos durante tantas preocupações.

Anthony tinha passado mais tempo dentro do laboratório com eles do que em sua própria casa. Então, pela primeira vez, ficar longe deles pareceu errado.

— Eu não entendo isso.

A voz de Jyrki quebrou o silêncio, atraindo olhares confusos.

— O que? – Anthony perguntou, se ajeitando na cadeira.

— Esses planos que fazem durante essa data. Existe algum motivo para essa mudança que os vivos demonstram?

— Ah... – o alado suspirou, era difícil explicar isso para ele. Jyrki não tinha sentimentos para entender a comemoração como os demais podiam. — Acho que é um dia que passa um sentimento diferente.

— Hm?

— Você nunca comemorou o Natal?

A pergunta de Jamey fez Anthony parar de se contorcer e encarar Jyrki, curioso. O mais velho, entretanto, apenas observou o loiro deixando sua pergunta vagar por sua mente.

— Eu não sei o que é comemorar.

Os olhos dos dois se arregalaram. Sabiam que isso era esperado de Jyrki, entretanto o ouvir dizendo isso era quase doloroso, ainda mais para criaturas como os dois que vivam comemorando tudo o que faziam.

— Comemorar é quando você fica feliz por- – Anthony se interrompeu quando percebeu que falar isso não responderia nada. Jyrki não sabia o que era felicidade. — Ah...

— Quando a gente acha uma nova planta, sabe? – Jamey falou devagar, pausadamente como se ele mesmo estivesse pensando sobre o assunto. — A gente comemora.

As sobrancelhas de Jyrki se uniram e seus olhos se desviaram para a espécie sobre a mesa. Estava claro a confusão em seu olhar mostrando para ambos que aquilo não ajudou em nada. Afinal, encontrar uma nova espécie significa mais trabalho e mais perguntas para responder, e apenas isso.

De repente, aquela seção de análises de relatórios se tornou um momento de reflexão sobre sentimentos. Nenhum deles dizia mais nada, estavam com a cabeça cheia de perguntas. Anthony coçava a nuca percebendo que não tinha um jeito certo de colocar suas explicações, Jamey encarava a mesa abrindo os lábios e fechando quando notava que não ajudaria dizendo aquilo e Jyrki fitava a planta se perguntando como eles sentiam isso só por trabalhar.

— Ah! – A voz surpresa de Jamey atraiu as atenções. — E se a gente fizesse algo pra comemorar? A gente vai ficar longe por um tempo no natal, né? Então podia fazer algo... pra comemorar esse ano...

Seu tom foi se tornando mais tímido conforme falava, era como se estivesse incerto do que sugeria ou que, pelo menos, a ideia tinha soado melhor em sua cabeça.

Anthony encarou pensando na possibilidade. Era excelente! Seu coração parecia feliz de novo afastando aquele neblina que a distância da data queria ofuscar. Sem falar que teriam a oportunidade de ensinar algo novo a Jyrki.

— Sim! Vai ser ótimo!

O entusiasmo de Anthony trouxe um sorriso contente ao rosto de Jamey. Jyrki entretanto apenas olhou sem entender razão para aquilo.

— Aí você vai poder entender como é que funciona.

— Eu participo das festas na vila e mesmo assim não consigo entender – o mais velho retrucou em um tom desconfiado.

— Tá, mas essa vai ser diferente! – Anthony reforçou. Os olhos de Jyrki o questionava, mas ele ignorou. — Até porque a gente nunca fez uma festa pra gente.

— Verdade – Jamey concordou ajudando Anthony a se explicar.

Jyrki sabia que não adiantava falar de lógica com eles naquele momento. Também sabia que se recusasse seria ainda pior.

— Ah... Façam o que tem que fazer — balançando a cabeça, voltou a analisar o relatório enquanto os dois se juntavam para pensar nos preparativos da comemoração.



Eles só não esperavam que a “festa” seria na casa de Relliane, onde mora Jamey.

Agora, parado em frente à entrada, Anthony se arrependia de não ter insistido mais para fazer a comemoração em sua casa. Ele sabia que não tinha mais motivos para ficar preocupado em estar próximo da mulher, entretanto não conseguia explicar isso para seu coração culpado.

De repente, a porta se abriu. O alado rapidamente arrumou a postura, segurando a respiração.

De trás da porta a mulher de longos cabelos loiros e olhos esmeralda apareceu. Anthony nem teve tempo de reparar no vestido de festa que usava, seus olhos apenas encarava o rosto sério dela a sua frente.

— Oi...

Trêmulo, cumprimentou. Ela, porém, apenas suspirou dando passagem para entrarem.

Jyrki por outro lado, olhou rapidamente em sua direção sem demonstrar nada, nem mesmo suas sobrancelhas raivosas de sempre.

Logo que passaram pela porta encontraram Belial arrumando as coisas na mesa da sala. Seus olhos se encontraram e Anthony ficou surpreso de não ver a expressão irritada no rosto dela. Ao invés disso, viu olhos surpresos e lábios que pareciam querer perguntar coisas.

— Oi, Belial – o alado falou, recebendo um aceno tímido como resposta.

Ele sabia que aquela reação incomum da jovem não era para ele, afinal seus olhos estavam grudados em Jyrki. Pensou que, ele também estaria surpreso em ver o mais velho ali, se estivesse no lugar dela.

O som de passos descendo as escadas atraiu os olhares. O coração de Anthony se acalmou quando viu o rosto amigável de Jamey. Pela primeira vez desde que saiu de casa, sentiu seu corpo relaxar. Jyrki por outro lado continuou o mesmo, nada daquilo parecia chamar sua atenção.

— A gente chegou cedo?

— Não. Acho que chegaram na hora – respondendo, ele parou ao lado deles. Logo, seus olhos viram Relliane se aproximando da sala e seu sorriso aumentou. — A gente fez algumas coisas pra parecer uma festa.

— A gente? – Anthony perguntou, se virando. Sua resposta foi respondida ao ver as duas mulheres paradas atrás dele. — Oh...

De repente, seu coração se agitou novamente. Ele finalmente percebeu a roupa delas combinando com a deles no clima de festa e sua ficha caiu.

Um risada sem jeito escapou seus lábios ao notar que elas fariam parte da festa. Relliane notou sua reação, mas não disse nada.

Não era como se ele não as quisesse ali, era só que, agora, ele sabia que ficaria atento a tudo que dissesse para não incomodar ninguém.

Claro que sabia que Jamey tinha a melhor das intenções e assim como Anthony e Jyrki eram uma família para ele, Relliane e Belial também era. Em uma data assim, juntar os dois lados era natural. Foi por isso que Anthony fez seu melhor para sorrir e afastar os pensamentos ruins de sua mente. Iria comemorar o dia com eles por qualquer motivo que fosse.

Sentando-se todos nos assentos da sala, eles deram início ao que seria aquela festa. Entretanto foi só nesse momento que perceberam que não tinham planejado o que fariam agora.

Todos os olhos na sala se espalharam, desviando a atenção de um lado para o outro, de cima para baixo, todos se evitando.

Jyrki parecia impaciente com aquela situação. Suspirando fundo, sem nem se importar com a impressão que passava, começou a falar.

— Será que alguém pode me explicar o porquê estamos fazendo isso?

Sua voz alta e grossa demandava uma resposta imediata. Anthony engoliu rispidamente sabendo que talvez o que quer que dissesse não soaria bom o suficiente.

— Pra te ensinar a celebrar as coisas...

— Desse jeito? – Apontando para o clima tenso da sala, onde ninguém queria dizer nada, Jyrki esperou pela resposta. Anthony forçou um sorriso sem saber como fugir de sua acusação.

— Ah, eu-

— Era sobre natal, né? – Cortando a tentativa inútil do alado em se explicar, Jamey falou distraído. — Quando eu falei com a Relliane, a gente acabou fazendo uns doces de natal.

— Sério?! – Anthony exclamou surpreso. — Ah… Se eu soubesse tinha feito algo também.

— São só biscoitos – explicou rindo do jeito tristonho do alado. — Mas o que eu tava pensando é que a gente tem uma razão pra comemorar o natal, né?

— É...

— E se o Jyrki não entende isso, então é porque ele não tem uma razão.

Seu comentário fez todos se virarem na direção do mais velho. Jyrki os observou esperando que continuassem com a reflexão antes de poder dizer qualquer coisa.

O comentário de Jamey fazia sentido e causou um alvoroço em suas mentes buscando por respostas que poderiam ser motivos para Jyrki comemorar, já que nada em sua visão era relacionado ao sentimental, mas a necessidade de encontrar respostas.

— Por que você celebra o natal, Anthony?

A voz suave da mulher sentada em uma poltrona do outro lado observando o rosto focado de Anthony, atravessou a sala, atraindo os olhos dele. O rapaz precisou piscar três vezes antes de entender a pergunta.

— Eu?!

Ele não esperava que Relliane o perguntasse tal coisa, porém percebeu que ele era a pessoa mais falante da sala e talvez ela estivesse querendo mudar clima do local com sua ajuda.

— Ah... Porque é uma data que eu posso ver meu pai e a gente conversa sobre tudo – respondeu, refletindo devagar e deixando lembranças de anos passados tomar sua mente. Um sorriso surgiu. — Porque eu posso ir pra casa e parece que tô vivendo minha infância de novo e.... Porque eu tenho amigos aqui!

Ele riu sendo acompanhado do sorriso do Jamey. Logo se virou para Jyrki e sorriu, o mais velho entretanto não mudou a expressão, mas deixava claro que estava interessado em ouvir mais. Depois se virou para Relliane que o olhava seriamente.

— E você?

— Eu não comemoro.

— Oh?

— É só... mais uma data – suspirando pesadamente respondeu antes de tomar um gole de água. — Não tem nada de especial.

— É assim que eu vejo.

A voz de Jyrki quebrou o clima curioso na sala. Relliane o observou. Seus olhos negros a fitavam como se quisessem ver através dela. A mulher se sentiu obrigada a desviar os olhos, como se fugisse do próprio reflexo a observando de volta.

De alguma forma, ouvir aquelas palavras a fez se sentir estranha.

— Não é que eu não tenha sentimentos para não entender o natal, eu só... – balançando a cabeça se perguntou porque estava falando isso. Não precisava se explicar para eles, mas mesmo assim continuou. — Eu não vejo razão nisso.

— A gente tem uma agora!

A voz contente de Jamey atraiu seu olhar. Seus olhos antes frustrados agora observavam o rapaz com calma, quase carinhosamente.

— E qual seria? – Perguntou com um ligeiro sorriso sarcástico no canto dos lábios.

— Estarmos juntos.

Seu comentário a pegou de surpresa. Seus olhos ligeiramente se abriram mais do que o normal e seus lábios se fecharam. O rosto sorridente de Jamey fez seu coração dar um salto. “Estar juntos” se repetiu em sua mente. Lembranças de um passado distante atravessaram seus olhos.

Algo dentro dela gritava culpa, mas seu rosto resolveu mostrar compaixão. Um sorriso cortou seus lábios.

— Essa já não é uma razão para celebrar?

Ele continuou e ela só pode acenar positivamente. Anthony percebeu a mágoa escondida atrás de seus olhos e naquele momento também forçou um sorriso.

Ele não sabia a história toda sobre a morte de Jamey, mas reconhecia um olhar de culpa quando via. Algo dentro dele dizia que ela não deveria se sentir assim, mas não tinha palavras que pudessem representar isso.

Se virando para o lado, viu o rosto de Belial encarando a mesa de centro.

— Diz, Belial, – Anthony chamou, assustando a mulher — você já celebrou o natal?

— Não – respondeu rápido e depois voltou a olhar para a mesa. — Mas eu nunca tinha pensando nisso como uma razão.

— Hm?

— Eu achava que o natal era só um festa como todas as outras – respondeu sincera, depois levantou a cabeça para olhar para Anthony. — Quando eu acompanho o Mestre para a casa dele nessa época, eu fico do lado de fora, porque não gosto de me aproximar deles – se explicou vendo Anthony concordar, — mas… eu ouço o barulho. A gritaria da mãe dele discutindo com ele e… Tem as risadas.

De repente ela parou de falar. Tanto Relliane quanto Anthony a encaravam. Era como se pudessem ver um sorriso escondido por trás de sua face pensativa.

— É quente lá – voltou a falar e depois suspirou confusa. — É um sentimento estranho.

Seu comentário parecia incomodado, o que fez Anthony rir. Não por maldade, mas por achar divertido a forma como ela demonstrava o sentimento.

— É isso, esse é o sentimento de natal.

— Por que é assim?

De repente, a voz de Jyrki entrou no meio da conversa. Todos se viraram para ele. Como poderiam explicar isso?

Anthony tomou um momento e depois começou a falar o que vinha em sua mente.

— Talvez porque tá chegando no final do ano e isso faz a gente se sentir vulnerável – foi sincero, porém suas palavras só deixaram o homem mais interessado. — Hm, tipo, se a gente parar pra pensar no ano todo a gente vai ver o quanto nós sobrevivemos.

Jyrki o olhou e viu em seu rosto um brilho que não conseguia entender.

— A gente viu muito, viveu muito, perdeu muito, mas estamos aqui! – Completou quase com um grito. O entusiasmo em sua voz chegava a ser ameaçador para o mais velho, porém parecia ser compreendido pelos outros. — Temos cicatrizes, mas estamos de pé. E juntos.

Jyrki viu Anthony se virar para Jamey e ambos compartilharem um sorriso vitorioso. O homem os encarou pensando e repensando. Sua cabeça corria perguntas que o deixava irritado.

— É isso que eu não entendo – finalmente falou. As atenções sobre ele não o incomodava mesmo que os rostos parecessem preocupados. — Como você pode ficar feliz quando passamos por tantas coisas? Como pode ser grato?

— Ah-

— Como consegue ser feliz com a vida? Como… Como consegue ser feliz?!

Sua voz era rápida e seu tom alto. Para qualquer um aquilo poderia soar perigoso. Um homem sem sentimentos e confuso como Jyrki poderia causar um desastre sem sentir qualquer remorso. Entretanto nenhum deles parecia abalado.

Eles sabiam que Jyrki estava querendo entender e era em momentos assim que ele parecia lutar contra si mesmo para conseguir ouvir as vozes fora de sua cabeça.

— Depois de tudo o que viu, de tudo o que viveu, tudo o que perdeu... – seu tom abaixou e seu semblante se tornou cansado. Anthony e Jamey já tinham visto isso antes. Era uma expressão dolorosa para eles. — E você sabe que tem coisa pior para acontecer.

Belial estava com os olhos saltados. Era a primeira vez que via o rosto do homem se contorcer daquela forma. Relliane observava curiosa, quase surpresa.

Anthony tomou um tempo e então sorriu. Jyrki ficou ainda mais confuso.

— É por isso que a gente celebra.

— Que...

— A gente não vai viver pra sempre, Jyrki. Nós somos frágeis e qualquer momento pode ser o nosso último aqui – Anthony explicou. O sorriso ainda no rosto, mas a voz distante da felicidade. As palavras do mais velho tinham o acertado, mas não o faziam desistir. — É verdade que o natal é só mais uma data! É uma desculpa pra gente olhar pra todo mundo ao redor e lembrar...

Anthony se virou olhando para os outros e de repente as palavras fugiram de seus lábios.

Ele estava ali, sentado com criaturas que nunca esperava olhar no rosto. Ele estava ali depois de ter derramado lágrimas sobre o sangue daqueles que não conseguiu salvar. Ele estava ali e não era mais quem costumava ser.

Um riso distorcido fugiu de seus lábios. Sua garganta ardia tanto que pensava que ia explodir em choro. O alado precisou tomar uns segundos antes de falar algo.

— Cada momento curto foi motivo pra mudar tudo isso. Bom ou ruim, tudo importou para as coisas valerem a pena.

As palavras dele fez o homem se calar. Suas sobrancelhas pareciam tristes, mas seu rosto estava sério. Nada em Jyrki era uma coisa só, por isso ninguém o entendia. Não dava para ler seus pensamentos, apenas esperar que falasse por vontade própria.

Vendo o amigo abaixar a cabeça, Belial suspirou. Não dava para comparar aquele cena com nada, mas mesmo assim não parecia o Jyrki que ela conhecia.

— Você mudou – sua voz tímida cortou o silêncio da sala.

Ele levantou os olhos em sua direção. Calado, observou os olhos grandes dela brilharem e seus lábios se moverem querendo falar mais.

Ela tinha o mesmo brilho que Anthony.

— Você também.

A resposta dele a pegou de surpresa. Estava esperando que iria suspirar e virar o rosto, mas ao invés disso continuou olhando. Belial sentiu as bochechas ficarem vermelhas. Jyrki sentiu as sobrancelhas relaxarem.

— Eu não digo isso de uma forma ruim – continuou e depois desviou o olhar para Relliane. Ela não mudou o expressão, apenas o encarou de volta. — Talvez seja o que você mereceu.

O comentário não fez sentido. Ela até pensou em perguntar o motivo daquilo, mas o alado interrompeu antes.

— Acho melhor dar uma pausa, né? – Anthony comentou.

Claro que disse isso pensando no clima pesado na sala, mas também foi pensando em seu próprio coração que parecia que ia pular para fora do peito de tantos sentimentos.

Relliane entendeu a mensagem e suspirando se levantou.

— Vou pegar os biscoitos.

— Ah, quer ajuda? – Sem pensar, Anthony se ofereceu. Relliane o olhou e então balançou a cabeça.

— Não precisa-

— Eu ajudo...

Belial falou em cima da fala da outra. Depois se arrependeu. Relliane a observou abaixar a cabeça como uma criança e apenas sorriu.

— Ah... Pode ser que eu precise de ajuda.

A ruiva levantou os olhos e logo ficou vermelha quando viu Relliane a olhando. Anthony observou as duas saindo e então fingiu estar magoado.

— Eu não presto pra mais nada hoje em dia...



Na cozinha, Relliane separa os biscoitos nos pratos enquanto Belial aquece as bebidas. Tinham feito chocolate quente aproveitando o tempo mais frio. Todos sabiam que Jamey e Jyrki não poderiam comer, mas mesmo assim separaram os pratos como um símbolo para participarem da festa.

Relliane olhou para o lado e viu os olhos contentes de Belial observando a bebida.

— Está gostando?

Sua pergunta parecia inocente, mas fez a mulher se assustar. Engolindo rispidamente, ela coçou o canto da mandíbula pensando no que dizer.

— Ah... não sei se é isso.

— Hm?

— Eu... acho que tô feliz, mas não sei porque.

Relliane a olhou, dessa vez não podia responder a pergunta sozinha. Belial suspirou e se virou para ela.

— É o sentimento estranho do natal – respondeu tentando disfarçar o sorriso no canto dos lábios.

Relliane a assistiu, surpresa. Para a loira essa festa parecia tudo, menos natal, entretanto ver Belial contente com aquilo a fez notar como a mulher era simples.

— Sabe, eu fiquei pensando sobre o disse desse sentimento – falou vendo a outra se virar para ela completamente prestando atenção — acha que sentiria isso se fosse comigo para minha casa?

— Eh?!

— Ao invés de ir com o Tobias, você quer passar o natal comigo?

O pedido fez o coração da jovem disparar. Seu rosto estava pegando fogo e seus olhos arregalados. Relliane não podia negar que sua reação era adorável.

Levou alguns instantes até a ruiva notar que precisava responder.

— Sim! Quero!

Seu exagero foi tão natural que a loira acabou sorrindo.

— Eu falo com o Tobias depois... agora vamos voltar pra sala.

— Tá...

Nem demorou para voltarem e entregarem os doces para cada um, entretanto as reações contentes de Anthony fazia parecer que estava comendo a melhor comida da vida.

Jyrki observou o prato, mas preferiu assistir aos outros comendo e ver como cada um reagia. Achava interessante o efeito que a comida causava nos vivos.

Depois de todo aquele clima de reflexão e questionamento, ninguém ali parecia desconfortável com a presença um do outro. Na verdade, estavam se sentindo em casa.

Anthony já estava fazendo suas piadas bobas que fazia Jyrki revirar os olhos, Belial já estava torcendo o nariz para Jyrki e Relliane não se segurava na postura de ordem de sempre.

Sem nem perceber estavam vivendo o sentimento da véspera de natal onde o conforto aquece os corações.

Anthony se virou e viu Relliane observando Jamey. Os olhos do alado atraíram a atenção dela. Sem jeito ele sorriu, como se agradecesse por permitir que isso acontecesse. Ela não foi responsável por nada disso, mas mesmo assim acenou com a cabeça como se dissesse o mesmo para ele.

— Oh?

A voz confusa de Jamey atraiu os olhares. Eles viram o rapaz se levantar e não entenderam até olharem na direção que ele apontava.

— Tá nevando?

Anthony ouviu a pergunta e se levantou com ele. Os demais acompanharam confirmando a suspeita.

Felizes como crianças Anthony e Jamey seguiram para fora sem pensar em mais nada. Não tendo o que fazer sobre isso, os outros os acompanharam.

Lá fora o frio fazia suas bochechas queimarem, também havia mais neve do que esperavam indicando que já fazia tempo que estava caindo. E mesmo assim não impediu os dois de saírem correndo.

Rindo sem motivos, os dois seguiram deixando a neve cair sobre suas cabeças. Belial os assistiu e sem perceber seguiu seus passos.

Não era a primeira vez que viam a neve, mas havia algo de estranho naquele dia que fazia parecer mágico.

Relliane os observou balançando a cabeça, depois se virou para o lado e viu Jyrki parado ali, olhando para eles. Não havia nenhum expressão em seu rosto, também não havia nenhum barreira que a impedia de se aproximar.

— Você parece confuso.

A voz curiosa o fez se virar. Ele a encarou. Não a via mais como uma ameaça e naquele momento sentia que poderia falar com ela.

— Estou pensando.

Ela se calou o observando e então deixou um riso curto escapar. Ele se virou para ela confuso.

— Não é fácil ficar perto do Anthony, né?

— Ah... Ele é irritante.

— É, isso também – concordou com um sorriso e depois se virou para olhar para os três. — Mas não é disso que tô falando.

— Hm?

— Ele não percebe como é tolo – sua voz parecia pesarosa como se pudesse ver coisas ruins em seu futuro. — Não sabe esconder os sentimentos.

— Ah, é... – assentiu e então suspirou. — Ele me mostra faces que eu não entendo.

— Aha, mas quer entender.

O comentário o fez se virar. Se não fosse estranho, ela diria que podia ver uma fagulha de sarcasmos em seus olhos.

— Isso não é uma pergunta? – Falou a vendo erguer as sobrancelhas.

— Não.

Aquilo o incomodou porque ela não estava errada. Ele se virou para frente e, relutantemente, assentiu.

— Eu quero respostas... Eu sei que ele vai me ensinar.

Eles não disseram mais nada. Não tinha o que dizer. Ao invés disso assistiram os três jogando neve um no outro enquanto gritavam.

Era bobo ver aquele bando de adulto agindo como crianças, mas era exatamente isso que fazia os dois continuarem assistindo, vendo algo que não viam todo dia.



Mais tarde, Jyrki chegou em casa depois de se despedir dos outros.

Ele seguiu direto para o quarto encontrando Hades deitado na cama com um livro na mão.

— Achei que ia demorar mais?

— Ah... Começou a nevar e eles resolveram correr na neve – Jyrki explicou trocando de roupa. — Anthony se machucou no meio do caminho.

— Eh?! Foi grave?

— Não. Ralou a mão.

— Ah... Aí resolveram parar?

— Mais ou menos isso… – suspirando, se sentou ao lado dele na cama. — Acho que ficaram cansados de tanto correr.

A resposta fez Hades rir. Ele conseguia imaginar a cena. Depois ele olhou para Jyrki e viu seus olhos o encarando seriamente.

— Eh? Que foi?

— Ah... – Jyrki balançou a cabeça e depois começou a falar, confuso. — A gente passou por muita coisa, mas ainda estamos aqui.

Hades não disse nada. Aquele comentário não era algo que esperava, entretanto não achou que deveria interromper.

— Eu nunca pensei sobre o natal e essas celebrações porque sempre tomei tudo por garantia... – sua mão segurou a do outro enquanto continuava. — Eu nunca vou morrer e você sempre vai estar ao meu lado... É o curso natural, nada para se comemorar. Porém as coisas mudam. Toda hora e… Eu nunca vejo.

— Jyrki?

— Eu nunca… percebi que você é a minha razão para celebrar.

O comentário quase fez o coração de Hades saltar para fora. Jyrki não mudou a expressão, afinal estava apenas dizendo o que vinha em sua mente. Honesto como sempre. Era mais como se estivesse encontrando suas respostas do que fazendo declarações.

— Talvez… Talvez você seja o mais próximo que eu vou chegar desse sentimento de natal que eles falam.

Hades sentiu os olhos arderem e um sorriso incontrolável tomou conta de seu rosto. Ele não tentou se segurar quando seu corpo pediu que se jogasse sobre os braços do outro.

Jyrki não entendeu o motivo para tanta agitação. Por instantes, ficou parado sentindo o calor cobrir seu corpo gelado. Por instantes, ficou em silêncio ouvindo um soluço tímido contra seu ouvido.

Hades era tudo o que Jyrki nunca poderia ser, sua sensibilidade e carinho pelos outros eram um mistério para o homem, porém isso nunca o incomodou.

Não sabia o porquê se expressava daquela forma por palavras que respondiam suas próprias perguntas, porém, naquele momento sentiu seus lábios tremerem nos cantos e deixou seus braços se enrolarem ao redor dele tentando retribuir algo que nem sabia o que era.

24 Décembre 2020 23:42:00 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Ana Carolina Mãe de 32 personagens originais e outros 32 adotados com muito carinho, fanfiqueira nas horas vagas e amante das palavras em período integral. Apaixonada demais e, por isso, sou tantas coisas que me perco tentando me explicar. Daí eu escrevo. ICON: TsukiAkii @ DeviantArt

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