asheviere Marianna Ramalho

Após um terrível confronto causado por uma mentira, Elyn e Arcaent foram forçados a deixar o lugar em que viviam. Agora, o feiticeiro fugitivo e a princesa assassina procuram um novo lugar para se estabelecerem, enquanto evitam o estigma da magia por onde passam e aprendem mais um sobre o outro. [Spin-off/sequência da história "Desarranjado", das Drabbles de 2020]


Fantaisie Médiévale Déconseillé aux moins de 13 ans.

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O Futuro e o Passado


Elyn sempre dormia repousando a cabeça em seu peito. No começo, Arcaent estranhava. Não que ele não gostasse da proximidade, muito pelo contrário. Mesmo que houvesse duas camas no quarto, acabavam sempre aninhados nos braços um do outro, num encaixe quase perfeito. Quase perfeito. Felizmente, conseguiu não acordá-la enquanto tirava o braço debaixo dela, já desconfortável. Um preço pequeno a pagar por aquela calmaria suspensa no tempo.

Estavam sem rumo há pouco mais que uma semana, quando a torre fora incendiada pelos soldados do Príncipe Oizus. Em um desses dias, Arcaent, não sabia bem como, percebeu: Elyn gostava de ouvir seu coração. Desde o dia em que ele quase deixou de bater. Desde o dia em que Elyn deitou-se ao seu lado pela primeira vez, que nada tivera do encanto ou paz que ambos desejavam, apenas o horror de um futuro incerto, ouvindo-o enfraquecer a cada batida. Assustada demais para se levantar, pois, caso se afastasse, podia nunca mais voltar a ouvi-lo.

O fantasma daquela noite acompanharia ambos, porém, de maneiras diferentes. Arcaent era assombrado pelo futuro, como sempre foi. Desde quando bruscamente roubaram-no da infância e da família, ele desejava saber com antecedência o seu destino. Os deuses, porém, julgaram-no indigno de receber o dom da vidência, e, em vez disso, ele criava sensações falsas e tentava construir algo real e sólido ao seu redor. Durante sua educação, aprendeu a controlar os medos e os receios, a abdicar mesmo de seus desejos e segurança. Mas agora não caminhava sozinho, e a insegurança do desconhecido voltara a assombrá-lo.

Já Elyn era assombrada pelo passado. Ela sempre sorria quando olhava em sua direção, mas logo sua atenção se desviava dos olhos de Arcaent para a queimadura na lateral do rosto dele, causada pelo golpe de Oizus com a arma improvisada de uma haste de ferro quente, e o sorriso se esvaía lentamente até restar apenas a lembrança. A queimadura melhorava a cada dia e não deveria durar mais que um mês, mashavia culpa em seus olhos, a presença sufocante do “e se…?” E se ele tivesse morrido por causa do seu plano? Da sua farsa? Arcaent esperava que isso parasse quando as marcas desaparecessem, mas não tinha certeza. As queimaduras no rosto e no braço desapareceriam, mas a cicatriz no abdome ficaria para sempre, pois o golpe havia sido grave demais para uma curandeira destreinada conseguir remediá-lo em um único feitiço. E Arcaent temia ver aquele olhar toda vez que Elyn notasse a cicatriz.

Batidas violentas na porta interromperam seus devaneios, acordando Elyn, que levantou-se com a azoada brusca, deixando para Arcaent a sensação da abrupta ausência sobre seu peito. Ainda atordoada pelo sono, demorou a lembrar-se de onde estava, e olhou para ele em busca de respostas.

— O que houve?

— Vocês disseram que só passariam a noite! – gritou o estalajadeiro, do lado de fora. Elyn esfregou os olhos, olhando pela janela o céu ainda escuro, com apenas uma faixa alaranjada no horizonte.

— Ainda está amanhecendo!

— Ou seja: a noite acabou. Vão embora!

Ainda deitado, Arcaent observou em silêncio Elyn, de joelhos na cama, cerrar os punhos encarando a porta, indignada com aquele tipo de tratamento que para ele era comum. O ódio explícito era novidade para ela, que sempre escondera sua natureza e nunca havia conhecido um feiticeiro para ouvir dele como seu povo era tratado. Arcaent segurou seu pulso com delicadeza, atraindo sua atenção para ele, e a sentiu relaxar sob seu toque, conformando-se.

— Já estamos de saída – informou, mantendo o tom neutro. Satisfeito, ouviram o dono do lugar se afastar. Arcaent voltou preguiçosamente o rosto para Elyn, despretensioso. – Bom dia.

A resposta foi um sorriso cansado, assentindo.

— Bom dia, Arcen. Se bem que podia ter começado melhor… – comentou, com um gesto irônico em direção à porta.

— Para mim começou bem – respondeu, levantando-se e lamentando não poder passar mais tempo ali com ela nos braços. Ela permaneceu imóvel por mais tempo, reunindo a coragem necessária para abandonar uma cama quente e enfrentar o dia. Apenas observou Arcaent ajeitar a camisa branca sobre o torso, pegando o manto e conferindo se todos os pertences estavam prontos.

— Eu preciso de 5 minutos acordada para começar a raciocinar direito, não me apresse – alertou antes que Arcaent falasse qualquer coisa. Ele reprimiu um riso. Era bem menos tempo do que ele mesmo precisava, por isso ele fazia questão de acordar antes.

— Como está a perna?

— Já disse que não precisa se preocupar.

Mesmo assim, Arcaent insistiu. Como sempre. Durante os primeiros dias de viagem quase não avançaram, ele ainda não estava recuperado para se esforçar tanto, e Elyn tinha dificuldades de andar pelo ferimento na perna esquerda, apenas conseguindo se afastar um pouco de Ryioniss e Prusvart quando arranjaram cavalos, e todos os dias ele insistia em inspecionar o ferimento. Ajoelhado ao lado da cama, ele trocou as faixas da perna de Elyn, concentrado. Elyn apenas assistiu em silêncio seu trabalho. Mordeu o lábio, tentando distrair-se do ligeiro desconforto que os cuidados atenciosos de Arcaent lhe provocavam. Não fora ela quem quase morrera naquela torre.

— Sabe que se continuar assim, eu vou me acostumar mal… – murmurou, em um aviso divertido.

— Acho que vou arriscar.

A perna estava se recuperando bem. Os cortes na mão é que estavam curando lentamente, pois qualquer gesto ou movimento atrasava a cicatrização. Arcaent ofereceu a mão para ajudá-la a levantar, e Elyn respondeu com um revirar de olhos e um sorriso sarcástico, estendendo os braços.

— O que é isso? – perguntou ele.

— Eu disse que ia me acostumar mal – respondeu, dando de ombros, e continuou com um tom dramático: – Eu sou feita de vidro e estou ferida, não posso andar! Você vai ter que me levar…

Arcaent suspirou. Já tinha aprendido que não havia hora certa para as brincadeiras de Elyn. O sol ainda nem nascera por completo, e lá estava ela, zombando de sua preocupação. Às vezes era difícil manter-se sério na presença dela, sorrisos teimosos sempre insistiam em reagir aos comentários espirituosos. Como agora.

— Está bem – disse, vendo um olhar confuso surgir nela. E alertou: – Vai se arrepender.

— O que…? – Antes que pudesse completar a frase, Arcaent passou os braços por trás dela e a ergueu. Surpresa, Elyn se remexeu, tentando recuar, sem sucesso, então enlaçou os braços em volta de seu pescoço com firmeza. – Eu… Eu estava brincando, me coloca no chão!

— Você está ferida, não pode andar.

— Ha, ha, engraçado… Sério, me solte agora.

— Por quê? Não me diga que isso lhe assusta. Eu não deixaria você cair.

— Eu já vi você sem camisa, não confio nesses braços! – respondeu, e apesar do tom de voz nervoso, viu o brilho de diversão nos olhos dela. Não havia mesmo hora certa…

— Parece que você consegue andar muito bem.

Arcaent estendeu os braços e a soltou de repente, arrancando-lhe um pequeno grito assustado, antes dela aterrissar de costas na segurança macia do colchão. Então Elyn riu, mas arremessou o travesseiro nele, fingindo irritação.

— É assim que você trata uma donzela ferida? Que tipo de cavalheiro você é?

— Não sou. Cavalheiros são os heróis das histórias. Esqueceu que o feiticeiro é o vilão?

— Não esqueci. – A resposta veio um pouco mais séria do que ele esperava, mas ela logo disfarçou. – Você me soltou porque viu que não aguentaria nem sair do quarto, né? Confesse!

— Vou jogar você por cima do ombro e vamos assim até os cavalos se não parar.

Elyn não chegou a responder o que seria certamente uma ameaça, pois, atraído pelas risadas, o estalajadeiro retornou, batendo furiosamente na porta para expulsá-los. Dessa vez esperou para garantir que iriam embora de imediato, recebendo de Arcaent o pagamento devido pela noite, enquanto Elyn apenas o encarava sem questão alguma de fingir cordialidade. Ela notou que o homem era bem menos agressivo quando não havia uma parede separando-os dele. Mal encarou Arcaent ao receber o dinheiro pela noite na furda, mas nada mais, nenhum comentário hostil.

Porque, mais do que ódio, ele tinha medo de feiticeiros. Pessoas como Arcaent. Pessoas como ela.

— Não se envenene com esses pensamentos. – Arcaent sussurrou, enquanto saíam, como se pudesse ler a sua mente. Ou talvez fosse o seu coração, que em tão pouco tempo ele já lia tão bem.

— Como consegue não se ressentir?

O silêncio pensativo permaneceu apenas o bastante para alcançarem os cavalos. Arcaent, que lhe oferecera o braço para ajudá-la a caminhar, afastou-se para selá-los e preparar seus pertences para a viagem.

— Acho que não consigo – disse, por fim. Com as mãos em sua cintura, auxiliou Elyn antes de montar o próprio cavalo. – Mas qual a outra opção, ser aquilo que pensam de nós e mostrar que eles têm razão?

— Somos o que dizem de nós – citou, em voz baixa, a frase de um dos livros que tanto estudavam, as palavras carregadas pelo vento suave que precedia o início da jornada. Nem todos os livros salvos da torre eram sobre a prática da magia. Alguns eram sobre uma filosofia antiga e desconhecida para ela.

Arcaent sorriu com melancolia.

— Essa frase pode ter dois significados. Estou curioso. Com qual deles você se identifica?

— No momento, não com o bom… – admitiu.

Elyn gostaria de ter a integridade e resiliência de dizer que não sentia revolta alguma pela desconfiança que receberam em toda cidade e aldeia pela qual passaram, assim que as pessoas viam o cajado de Arcaent ou o colar em seu pescoço, que Arcaent tanto insistiu para que escondesse, mas que ela recusara.

Era cansativo. Então, às vezes ela pensava essas pequenas coisas… Que se o estalajadeiro os destratava, então não deveriam lhe pagar. O que ele faria? Os confrontaria? Nem sequer conseguia encará-los quando estavam na sua frente. Mas pequenas vinganças movidas pela raiva poderiam guiá-la a coisas maiores. Às vezes ela também pensava nessas coisas maiores… Que se uma vila não permitia que usassem o poço mesmo depois de meio dia de viagem sob o sol, poderiam fazê-lo secar…

E ao perceber o que pensava, enchia-se de culpa. Porque era tão tentador ser o que diziam deles. Ao menos seriam odiados com motivo.

— Você não é uma pessoa ruim por sentir raiva, Elyn. Todos sentimos no começo.

A diferença era que a maioria descobria ainda criança que aquele seria o seu futuro, quando ainda não eram capazes de causar mal algum, e, ao tempo de começarem a praticar aquela arte, já tinham aceitado tal futuro, já tinham alcançado maturidade suficiente para sentir a corrente da magia fluir por seu corpo e sua alma sem caírem na ambição pelo poder e a força. Arcaent se perguntava como Elyn podia ter descoberto que era uma feiticeira sem nunca ter chamado atenção dos mestres da Yrilla. Apesar de toda a relutância que tinha com relação aos mestres, pelos menos Yrilla recebia com seriedade a responsabilidade pela formação de seus aprendizes.

Assim que o pensamento surgiu, Arcaent tratou de apagá-lo de sua mente. Como podia desejar, por um instante que fosse, que Elyn tivesse passado pelo mesmo que ele?

— Já ouvi histórias sobre muitos feiticeiros poderosos, e agora que sei como é para vocês… nós… – corrigiu-se. Ainda soava estranho para ela. – Eu só consigo pensar… Por que aceitam?

Era uma pergunta perigosa e de consequências muitas vezes impiedosas. Mas era Elyn quem a perguntava, portanto Arcaent não se preocupou. Tinha visto alguns feiticeiros seguirem por caminhos tortuosos antes de deixar Yrilla, mas mesmo antes de começarem a questionar a forma que viviam, faltava algo neles que Elyn tinha em abundância. Dignidade. Honra. Suas dúvidas não eram sinal de tentações, mas apenas a revolta recém-descoberta de uma injustiça secular.

— É estranho como revidar parece errado e certo ao mesmo tempo. Eu não gosto de pensar essas coisas – admitiu.

— Se fôssemos julgados pelo que pensamos, não haveria um inocente sobre a terra… – Arcaent respondeu, a atenção distraída ao horizonte, onde o sol começava a banhar os campos abertos e as florestas distantes. Havia algo na aurora que ele apreciava sem saber o motivo, muito mais do que ao pôr do sol. Ainda estava um pouco frio, mas as capas eram proteção suficiente. Mantendo os cavalos alinhados, Arcaent voltou-se para Elyn. – Sei que você cresceu com ideias horríveis sobre praticantes de magia e imagino que não seja fácil desenraizar todas as acusações sobre sermos ardilosos, malignos ou qualquer coisa assim. Mas você sabe quem é, e nada no mundo tem força para mudar isso sem sua permissão. Nem mesmo a Magia.

Elyn absorveu as palavras em silêncio. Ele era bom em tranquilizar seus receios.

— Foi você quem escreveu toda aquela sessão de “autoajuda” nos livros, não foi? – zombou. Adorava a ameaça do sorriso em seus lábios quando Arcaent tentava permanecer sério ao ouvir suas besteiras.

— Está chamando uma filosofia milenar de “autoajuda”?

— Não estou errada e você sabe. – Elyn abriu o mapa que haviam arranjado, mudando de assunto. – Acho que não vamos passar em outra cidade por pelo menos dois dias… A menos que a gente vá na direção de Sircell.

Arcaent suspirou. Não tinham por que se preocupar. Estavam bem abastecidos, ele não queria desviar-se para chegar mais cedo a outra aldeia. De qualquer forma, não disse nada. A aurora ainda dava lugar ao dia pleno, e era muito cedo para recomeçarem aquela discussão.

4 Janvier 2021 23:33:51 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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