Histoire courte
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Eu tava dando uma olhada nessas listas idiotas sobre dicas para ser um bom escritor (como se isso existisse) e o primeiro conselho era, justamente, não começar uma história descrevendo o cenário. Por meio minuto, eu fingi que aquilo era a bíblia do escritor amador, abri uma fanfic qualquer com ortografia péssima e uma penca de favoritos e disse “esses merdas têm razão”.
Depois mandei tudo às favas, pensei em Sylvia Plath deslizando para dentro do forno com a boca cheia de comprimidos, na sinceridade crua de Bukowski, e comecei a escrever isso.
O começo é uma referência a uma fanfic que escrevi quando tinha lá meus 14~15 anos. O nome é “dez metros de altura e mais tantos de indiferença”, talvez vocês encontrem por aí, perdida em algum lugar.




Era alto, muito alto. E como se não bastasse, era escuro, também. Do tipo que não se dispersa nem com uma ou duas lâmpadas brancas, dessas que começaram a se popularizar por aí de uns anos pra cá.

As velhas amarelas sempre me soaram mais bonitas, mas eu concordo com os avanços e o planeta não pode morrer por culpa da minha estética ultrapassada.

Enfim, era escuro, tinha cheiro de desconforto e um perigo subtendido, mas talvez, não, justamente por isso, eu me sentia bem por lá.

O cenário não enchia os olhos, não havia luxos, nem sequer um banco para sentar, a cerca era baixa e folgada pronta para despencar serra abaixo com quem quer que estivesse por perto. Os carros passavam com as ferragens estralando e muito provavelmente, um pai de família dentro dizendo com uma voz arrastada a mulher e aos filhos Não desacelere em curvas fechadas, amores, ou vocês vão capotar. Os pneus rasgando a vegetação rasteira no meio da estrada, como se não fosse nada. Vez ou outra, parando para tirar uma foto com a serra ao fundo, enevoada e indomável como sempre.

Como se alguém se importasse.

Era incrível como as pessoas insistiam em estragar belos cenários com a imagem de si mesmas. O planeta estava morrendo, eles trocavam as lâmpadas, deixando a indústria de carne gastar duzentos litros d’água em um hambúrguer e os EUA continuavam jogando fumaça no céu enquanto falam ei, ei, pegue o ônibus e deixe esse ar mais limpo.

E as famílias insistiam em parar no meio da estrada para tirar uma foto da serra com a porra de uma cabeça de gado em decomposição ao lado. As moscas eram um incômodo e eles reclamavam, mas a varejeira gorda e a mutuca se mantinham como as únicas certas nesse mundo inteiro.

Merda, eles esmagaram a velha Ipomea com aqueles pneus lisos, esperavam o quê? Um parabéns?

De certo. Ninguém gostava de ser repreendido. Não fazia bem pro ego.

A mijada do potó no meu antebraço ainda ardia, eu passei as unhas sem saber muito o que fazer. É, acontecia, não sarava tão cedo.

E ali, ou em casa, era o menor dos meus problemas.

Os faróis altos vinham como um feixe duma nave alienígena, é, você não conseguia paz num fim de mundo assim. Ele passou avoado, e buzinou quando me viu. Eu meio que pulei, fiquei com um filho da puta entalado na garganta e dei as costas. Ele devia se achar o bonzão, mas nunca pretendi me jogar no capô do carro dele, de qualquer forma. Não dou moral a essa gente.

Pedro Sampaio tocava alto no bar lá de cima. E era um lugar agradável, até. A dona te deixava pegar as cajaranas do pé da frente, se você pedisse com jeitinho. Eram amargas, mas depois de um tempo qualquer um se acostumava.

Uma garrafa de plástico escorregou até os meus pés. Transparente e amassada. Dizem que o mar tem mais plástico do que peixe e, é, a terra não tá muito diferente.

Chutei a garrafa, esperando que ela caísse na cabeça de alguém. Sabendo que, se caísse, o karma ia me fazer sentir duas vezes mais dor.

O vento frio bateu violento, arrancou meio milhão de folhas e se foi sem dizer mais nada. A rasga mortalha lá no pé de algaroba gritou, abrindo as asas brancas e passando por cima do mundo como um vulto cinzento no meio da noite.

Por certo, alguém ia morrer na casa de sítio lá perto. Rezei em silêncio, os velhos dali eram legais.

Alguma coisa se arrastava na curva à frente. No meio do asfalto, devagar. Uma lusinha azulada apareceu, eu me inclinei pro lado, só por estar sem fazer nada mesmo.

Um cara. Não levantava as chinelas do chão para andar, e eu lembrei imediatamente de uma professora velha, falando que pessoas assim nunca vão ser nada na vida porque tem preguiça de até levantar os pés. Eu odiava o som desse arrastar, mas passei a gostar e até fazer depois disso. Ninguém nunca vai ser nada na vida, e ela, coitada, era burra demais pra não perceber isso nem depois de sessenta e tantos anos de existência.

Quis conversar com ele só por isso, mas aí ele colocou a porra da lanterna na minha cara, e repensei a ideia.

Mas aí, baixou a luz azulada, deixou no asfalto, e eu vi. Não era por culpa dos curativos que cobriam uma parte grande do rosto, não, era por algo além. Eu vi a tristeza, ela pareceu me ver também, mas não disse “oi”.

Ele também não.

E eu não era ele, e na maior parte do tempo, não andava com os pés arrastando, então disse.

— Olá.

De repente, tive receio de ele voltar a apontar aquilo na minha cara, eu certamente quebraria o resto dele se o fizesse. Acho que meu pensamento chegou por telepatia, porque ele não o fez.

— Oi.

A boca nem se mexeu, juro, e o olhar continuava disperso.

Como se não me visse.

Ele se aproximou, e quanto mais se aproximava, mais distante ficava, até eu sentir o cheiro de cachaça barata.

Era podre, mas apesar de tudo, ele não parecia bêbado, só estranho.

A lanterna, com o gancho pendurado em seus dedos, não iluminava mais nada além de um pequeno círculo no chão preto. Era um chaveiro, na verdade, daqueles com luz normal, negra e laser. Tinha um adesivo de cachorro pregado perto dos dois botões.

Ele pôs as mãos sobre a cerca. Os nós dos dedos ficaram brancos. Ele não jogou o corpo para frente, como uma criança idiota faria, em vez disso, ficou reto, tão reto que parecia até antinatural.

A coruja gritou de novo. Ela estava animada na noite.

— Quanto tempo você acha que demoram até encontrar um corpo por aqui? — Perguntou, e estranhamente, eu já tinha a resposta na ponta da língua.

— Se você for alguém importante, uma semana. Se for um Zé ninguém, vai depender de quanto sua família pague à polícia, ou se o caso for pra algum jornal de outra cidade.

— É, pensei que ia ser assim, mesmo.

— Pra quê você trouxe essa porra? — Apontei a lanterna ainda ligada. O mato seco devia estar gostando da atenção.

—Eu queria ver caso tivesse alguma cobra no caminho...

— Gosta delas?

— Não. Tenho medo.

— Ouvi dizer que basta fazer barulho para espantá-las.

— Éé... — Ele desligou a luz branca, foi para a negra, ficou apontando para algum lugar lá embaixo. A luz nem chegava, claro, era só um chaveiro.

A lua não era cheia. Minguante. Eu nunca mais tinha olhado o céu, mas ele continuava lá. E sempre soava como a primeira vez, pra mim. Banal. Tão banal, até perceber que você conhece mais o telhado de casa do que aquela coisa que sempre esteve lá em cima.

Tudo se mantinha no breu total. Mesmo eu não conseguia enxerga-lo por completo.

— O que você veio fazer aqui? Perguntei, porque aquela meio que era a minha área. Pelo menos, nunca tinha visto mais ninguém por lá.

Ele desligou a lanterna, finalmente. Mas deixou pendendo nos dedos. — Vim pensar. E você?

— Já chegou a uma conclusão?

— Não é inteligente responder uma pergunta com outra...

— É, eu não sou.

— Eu acho que a vida dói.

— Mas ela é linda.

— É, a dos outros.

— Você me pegou.

Ele quis rir, aparentemente, mas no final, só um arzinho mais exaltado escapuliu do nariz.

— O que você veio fazer aqui? — Insistiu. Ele tinha cara de ser insistente, mesmo.

— É a minha área.

— Que mentira.

— Ora, por que?

— Isso não existe. Canto nenhum pertence a ninguém e ninguém pertence a canto nenhum.

— É um bom ponto. Eu... acho que gosto da vista, e da sensação que ela passa.

— Só isso?

— Eu acho que você sabe do resto.

Ele escondeu o chaveiro na palma da mão, olhou os pés escuros abaixo. — Eu não queria, mas... — Suspirou. — Vai ser pior se continuar.

Cravei meus dedos na carne do braço. Minhas unhas eram praticamente inexistentes, então nem machucava. — Entendo.

— Não... Você parece diferente.

Uau.

Silêncio.

— Quer ir lá em cima? — Movi o queixo para o alto, ele entendeu o gesto, claro. O som continuava alto. Devia estar o inferno por lá.

— Posso te acompanhar, mas não vou comer. — E tinha uma pontinha ácida nessa frase. Eu arfei, num riso murcho.

— Claro. Se você não se incomodar em me escutar vomitando no caminho de volta.

— Bulimia?

— Tipo isso.

— Nunca consegui.

— Ééé...

Anitta gritou alguma coisa. Jogaram uma latinha, ela vinha por aí, despencando mundo abaixo até se enroscar em alguma coisa.

Pelo menos era um dos meus. Eu me sentia estranhamente confortável. Geralmente, não era essa a sensação que as pessoas me causavam.

Eu queria ver o rosto dele. Dali, só conseguia distinguir uns poucos traços, principalmente os curativos brancos.

— Qual é o seu nome? — Ele perguntou.

Eu não vi motivos para não responder. — Mikaela. E o seu?

— Hm. Yuuichiro. — Ele ligava e desligava o laser. — V-você se importaria se eu fizesse agora? — Se inclinou levemente para a frente, pela primeira vez.

Eu podia ver o brilho molhado dos olhos.

— Sim.

— Ah... Desculpe. — As mãos escorregaram para longe da cerca, quis dar as costas, mas eu segurei no último minuto.

— Espere um pouco.

— Se você quer me bater, seja rápido.

— Por que eu faria isso?

— Acho que é o procedimento padrão.

Olhei o escuro ao redor. — Vem comigo. Prometo que não tem cobra. Nem assassinato.

Eu não tinha esperanças, claro. Ninguém aceitava meus convites, eu era estranho demais. As pessoas meio que tinham medo, acho. Uma vez o namorado de uma colega começou a falar comigo, eu respondia. No terceiro dia, ele disse que tinha ouvido falar de mim, da minha cara fechada, mas não se importava com o que os outros diziam e quis me conhecer.

Mandei-o à merda, com todo aquele complexo de salvador dos isolados, e nunca mais dirigi a palavra.

Mas aí, ele, o menino, não o filho da puta

(Talvez esse menino fosse um filho da puta. Eu ainda não sabia. Sempre tendi a pensar assim, com esperança, apesar de externar por aí que ninguém presta e o mundo é um erro sem salvação)

Disse o improvável:

— Tudo bem.

E eu quase explodi por dentro.

Talvez ele pensasse em cobras e assassinato, e eu estivesse caindo na armadilha, mas no pior dos casos, só ia me poupar de mais trabalho e um título incômodo.

Meu pai não gostava dessas coisas. Uma vez, quando eu tentei, ele me olhou enquanto minha mãe gritava na cozinha e disse

O que os outros vão pensar disso?

E eu pensei em tudo que já me falaram, e na única vez que contei algo a ele. Algo horrível, sem dúvidas, as crianças no primário são cruéis.

Ele me respondeu um “não ligue”.

E ficou vermelho de raiva dez anos depois, quando um colega disse que meu cabelo era bem gay.

O primeiro foi um xingamento, o segundo, acho que não. Mas pesou mais, por algum motivo.

Ah, os gatos continuavam transando...

— É por aqui.

Nós descemos mais um pouquinho, até uma abertura no meio da faixa estreita de mato perto do paredão da estrada. Ele estava hesitante, então eu me enfiei primeiro. Os gravetos mais finos quebravam, estalando acima da voz rouca de MC Sapão. Nada se arrastava, só os mosquitos me beliscavam.

Ele entrou logo atrás.

— Se emburaca aí. Ninguém vê a gente por aqui. — Sentei num lugar qualquer. A sensação do mato pinicando através da roupa me era incômoda, porém suportável.

Ele fez o mesmo, mais longe, meio desconfiado. — Por que veio pra cá?

— Lugares assim dão uma sensação boa, como se eu não existisse, sabe? Fique quieto e você vai entender.

— Você não queria existir?

— É, tipo isso.

— Por que?

— Sei lá... Pra não gastar os recursos do planeta?

Então ele riu. Durou meio segundo. Até me perguntei se tinha acontecido mesmo.

— Mas não é contigo morrendo que os problemas vão acabar.

— É, mas o que eu posso fazer? Sou sozinho na revolução.

— Todo mundo é só... — Ele se encolheu sobre si mesmo, as mãos agarradas aos joelhos e o rosto fitando o chão.

Era um consenso, então não acrescentei mais nada. — Me empresta sua lanterna?

Ele me passou. — Vai fazer o que com isso? — E grunhiu quando eu coloquei a luz branca em seu rosto. Doía na vista, então acabei trocando pela negra, e a face dele ficou parecendo ainda mais doentia.

Mas os olhos continuavam os mesmos, e eram bonitos. Um verde escuro difícil de encontrar.

— Eu queria te ver. — Mudei para o laser, fiquei zanzando com ele por ali.

Os gatos continuavam trepando.

— Ah...

— Provavelmente estou sendo muito invasivo, mas o que foi isso na sua cara?

Ele tocou a bochecha coberta por um curativo. Não se demorou na resposta. — Uma discussão em casa.

— Ah sim...

— O cheiro também.

Não respondi. Pelo menos, não tão rapidamente.

Então ele levantou, súbito, quando percebi, já estava de pé.

— Ei, espere... — Segurei o tecido da calça. Ele deixou sair um soluço engasgado com aquilo. Foi tão feio quanto o possível.

— Por o quê?

— Nada mudou desde que você saiu de lá.

— Mas é a minha obrigação. Eu sou filho, tenho que ficar.

— Tanto faz você ficar agora ou amanhã. Vai acabar do mesmo jeito.

— Por que fala como se entendesse tanto?

— Porque na verdade eu sou burro e não entendo nada.

Eu sei que ele vê. Se não antes, no momento. Minhas pernas tinham as cicatrizes escuras de quando meus pais me jogaram do carro. Havia algo entre nós, também. Gente quebrada sempre se encontra por aí.

— Mas antes repete teu nome, e me deixa ver tua cara uma última vez.

— Pra quê isso?

— Pra te encontrar em alguma rua, um dia.

Ela jogou o chaveiro. Tirando o verde dos olhos, consegui pensar facilmente nuns quatro moleques com quase a mesma cara.

— Yuuichiro Amane.

— Tá bom, cara. Valeu. — Ele ia perguntar de todo jeito, então me adiantei. — Mikaela Shindo.

— Eu tô sempre na parada de ônibus do alto, naquela perto da favela. Brota lá de noite... o escuro é tanto, parece que ninguém existe. — A voz dele tremia. — Só não sai me procurando pelo nome, faz favor. Meus pais podem descobrir e não gostar. Pode me chamar de Yuu, em vez disso.

Ele me ajudou a levantar. Foi um alívio. O meu mundo girava rápido ali. Sempre ia na onda dessas meninas de Tumblr, queria saber como elas conseguiam passar dias sem comer.

— Sei que é meio longe, mas aparece aqui qualquer dia. A área é minha, mas pode ser sua também.

— Ah... — Saiu baixo, surpreso. E eu nem o conhecia, podia me arrepender, mas no momento, também sabia como era triste não se sentir pertencente a lugar nenhum.

Eu nunca me senti. Nem ali, e ninguém nunca me disse o contrário, porque seria mentira. Mas eu sei como era, e nunca desejei isso a ninguém.

— Foi bom não existir com você. — E foi a coisa mais gentil que alguém me disse na vida. Ele fungou, e eu sabia, sabia como tudo doía por dentro.

O cheiro de bebida devia ser desconfortável a ele, também. Se encolhia sobre si mesmo.

— Eu tenho que voltar...

— Eu sei. — Invadi seu espaço pessoal sem nenhuma vergonha. As feridas nos meus dedos ardiam com o suor, e consegui sentir o relevo da cicatriz no pulso dele quando procurei o contato da mão.

Minha falta de ar voltou com tudo, o que só piorava a dor no peito. Ele me olhou, e eu me vi ali, mas não era hora para ser egoísta.

— É meio louco, mas o mundo ainda tem salvação, sabe? Você deve ter também...

Yuuichiro se agarrou a mim como se fosse uma criança. Enfiou o rosto no meu ombro e chorou alto. Parecia escorrer a tristeza de uma vida ali. Eu fiquei sem reação por um momento, mas ele não precisava de um boneco inerte ao lado.

No início disso tudo, quando prometi desistir de mim, quis ser útil aos outros, também.

Tudo doía, e nunca ia parar.

Yuuichiro chorava no meu ombro, e eu, para não fazê-lo, olhei o céu.

Nada mudou. Nunca mudará.



Notas
Olha o ateuzinho de merda citando salmo genérico no título de uma história tão meia boca quanto kkkkkkkkkkkkk
Crianças de deus, o salmo é esse aqui:
Busquei o Senhor, e ele me respondeu;
livrou-me de todos os meus temores
é isto, não bebam sangue de virgens e nem forniquem antes do casamento (mas quem quiser, pode)
10 Juillet 2020 00:06:49 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Bar-t-t-tender Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca

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