crazyclara Crazy Clara

Abandonados, sem destino, os excluídos, os mal falados. Os esquecidos, os sem razão, os enganados e arrasados. Aqueles que precisam de uma única chance. Aqueles que querem apenas um momento para se provarem. Sem donos, sem líderes. Apenas uma família. Keigo é escalado para uma investigação onde tenta se infiltrar no submundo das corridas do Japão e descobre que gosta mais do trabalho do que deveria. É totalmente inspirado em Velozes e Furiosos. E adivinha quem é o Paul Fuckin Walker?


Fanfiction Anime/Manga Interdit aux moins de 21 ans.

#corre #lênão #sério #nãolêisso #dabihawks #hawks #dabi #bnha
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Prazer, Hawks

Estamos acompanhando o resgate ao vivo, Sakamoto. São imagens impressionantes. Podemos ver Todoroki Enji sendo levado pela equipe médica enquanto os bombeiros não conseguem apagar as chamas. Nossa equipe está tentando obter detalhes, mas podemos ver que é o marco de uma era, pessoal. No auge de sua carreira, Todoroki Enji, o grande e voraz Endeavor, se envolveu em um acidente, uma tragédia, e agora só podemos desejar que não tenha sido tão grave quanto parece. A corrid- Explodiu! O carro explodiu! Estamos vendo imagens ao vivo dessa… dessa tragédia, e parece só piorar!


~º~


Trocou o pirulito de lado na boca.

A estrada era muito escura, perfeito para desencorajar desavisados e um bom sinal para quem quer desaparecer. Não literalmente, não se importava de estar visível para o mundo. Aquela era uma pausa para o trabalho.

Sua companhia era o som do motor e o volume alto das notas iniciais da música. Seus dedos batiam no volante pontualmente com a melodia.

But every song’s like gold teeth, grey goose, tripping in the bathroom. Blood stains, ball gowns, trashing the hotel room. – Keigo abriu um largo sorriso e fala na direção da janela. – We don’t careee. We’re driving Cadillacs in our dreams.

O carro vizinho ao seu tinha duas ocupantes que o olharam com curiosidade. Os sorrisos vieram em seguida, espelhado por Keigo, mas que voltou a dar atenção para a estrada e acelerar.

A bem da verdade, conhecia tão bem o caminho que poderia se desligar e o carro seguiria sozinho. Mas era precisamente a viagem que apreciava tanto. O motor. O vento. A velocidade. O poder de uma máquina sob suas mãos e pés.

Preferia as longas viagens pelo país. Raras, mas muito apreciadas, pois não acabavam tão cedo quanto o itinerário para pontos da vizinhança.

Não a sua vizinhança. Eram conhecidos territórios estrangeiros para si. Estava se acostumando com os pontos, as referências, os códigos, os contatos. Se havia lago que Keigo fazia como ninguém era se misturar.

Estacionou na primeira vaga que conseguiu. Sabia que mais para frente não haveria espaço, dominado por veículos dos que viravam o dia na praia ou aqueles com status o suficiente para que algum minion reservasse um lugar.

Saiu do carro e encaixou os fones na cabeça. A atenção que teve foi imediata. Olhares ladinos, alguns interessados e outros desconfiados. Um e outro rosto conhecido para quem ele acenava com um sorriso.

— Ei, loiro!

O chamado veio junto de um forte tapa em suas costas. Kamiji lhe exibia um sorriso voraz de dentes pontiagudos que parecia ir de orelha a orelha, emoldurado por mechas verde limão de um penteado ainda sem nome no dicionário de Keigo.

— Burning! – tirando o pirulito da boca, sorriu de volta já com um braço em torno da cintura dela. – O que manda?

Ela se apoiou em Keigo com uma intimidade crua e direta, separando as pernas de modo que uma das suas ficassem entre as dela e todo o seu corpo se apertasse ao dele. E raro era aquele que fosse capaz de dizer algo negativo sobre a beleza de Kamiji, tudo no seu físico era beleza, força e sedução. O próprio Keigo teve dificuldade em se manter em foco quando os seios roçaram em seu peito e o hálito de groselha tocou seu rosto durante o sussurro.

— Eu ganhei o passe livre de recomendar qualquer pessoa que eu quiser para a corrida principal de hoje a noite. – o sorriso dela aumentou. As mãos dela ficaram à vontade subindo por sua camiseta, a empurrando para cima e provocando uma mais que agradável queimação em sua pele. – Eu quero recomendar alguém, mas esse alguém parece tão, tão, verde ainda. Pode apodrecer em vez de amadurecer. – dedos fortes se apertaram em seus bíceps com ameaça iminente enquanto o rosto bonito se inclinava cm falsa delicadeza. – O que devo fazer?

Apesar dos murmúrios de incentivo que conseguia ouvir direcionados a eles, Keigo sabia que não havia nada de sexual naquela interação. Pelo menos não da parte de Kamiji, ele ainda estava pensando se deveria se sentir excitado ou ameaçado.

— Eu tenho certeza que essa fruta verde está muito pronta para amadurecer. – respondeu com um sorriso a altura do de Kamiji. Em seguida se inclinou para ela, o braço mais apertado em sua cintura e centímetros separando seus lábios. – Me deixa mostrar o que sei fazer.

— Uh. – ela assobiou e jogou a cabeça para trás, liberando uma alta gargalhada. Então se soltou de Keigo lhe deu mais um tapa nas costas. – Certo, loiro! Você tem uma vaga garantida para hoje, não venha sujar meu nome fazendo merda. Ouviu, novato?

— Alto e claro, esquentada. – lhe dirigiu uma piscadela e voltou a colocar o pirulito na boca. – Com quem vou correr?

— Faço melhor se te mostrar. – ela o chamou com o dedo, já se virando e seguindo para a trilha que levava à praia.

Keigo se deteve alguns segundos a observando andar com o vestido curto e botas de couro acima dos joelhos. Sua caminhada era confiante e muito, muito bonita de se assistir. Em outra situação poderia observá-la pela beleza. Naquela só estava se dando tempo antes da tempestade.

Respirou fundo e a seguiu.

— Começando pelo peixe pequeno, Gentle. – Havia tanto desprezo na palavra que Keigo achou que ele pingou da boca de Kamiji. – Correr mesmo ele não corre, mas não dê bobeira perto dele, ok? Ele gosta de bancar o suicida jogando o carro nos dos outros.

— E quem o convidou?

— Alguém com um senso de humor do caralho que ainda vai ter minha mão enfiada na cara dele. Segundo, Magne. Ela é boa e ela cai pra matar. Não pense em pegar leve com ela ou subestimá-la, ela vai te comer vivo. Tem um novato que chamam de Grand que deve ser mais novo que você. Não sei de nada dele, só que parece confiante demais. Me faça o favor de não quebrar a cara com ele, ok? Na boa, vou rir se isso acontecer. O que você fizer já vai ser vantagem para mim.

Avançando pela trilha, podia ver os carros nas vagas vips, acima do rochedo. Eram maiores, brilhantes, mais coloridos e enfeitados, salvos uma e outra exceção sóbria. Na praia, não só a quantidade de pessoas aumentava, como os sons, as fogueiras e o cheiro de bebida e cigarros.

— E as estrelas da noite. – continuou Kamiji, espiando Keigo sobre o ombro. – Setsuno, Hojo e Tabe, e eu espero que a essa altura já tenha ouvido falar deles, ou tiro o convite agora mesmo.

— Assisti os três correrem em Osaka. – respondeu com um sorriso, ampliando o passo para ficar ao lado de Kamiji. – Avançam e atacam em equipe, sei do perigo.

— Muito bem, eles aceitaram a entrada de carne nova apenas por isso, então, meu querido, cuidado com sua bunda. Eles estão atrás de sangue.

— E sou a única carne nova?

— Além do Grand, há mais um que não chegou até eu ir te buscar. – e em um segundo, o sorriso cresceu feroz no rosto dela novamente. – Slidding, trouxe meu campeão!

O chamado Slidding também já era um rosto conhecido de Keigo, mas nunca havia se apresentado oficialmente. Ele era uma caricata figura com um constante meio sorriso que poderia irritar ou causar medo, dependendo do humor ou a quem fosse direcionado. Naquele instante, ele foi de Kamiji para Keigo.

Ele estava em uma roda de conversa com rostos também familiares, e todos olharam com diferentes níveis de curiosidade para Keigo com um simples gesto de Kamiji.

— Outro convidado. – disse Slidding. – Como devo anunciá-lo?

Keigo não hesitou. Nem em sorrir e nem em se apresentar.

— Prazer, Hawks.

O nome deslizou fácil por seus lábios, dito com a verdade absoluta como se o houvesse recebido em seu batismo.

— No plural? – perguntou uma mulher com saltos que não deviam ser tão confortáveis na areia.

— Sou a revoada inteira. – baixou a cabeça em uma sutil, mas elegante reverência.

— E onde está sua máquina, Hawks? – perguntou um homem de cabelo cinza e penteado estranho. Não que ele pudesse julgar a estética alheia.

— Precisei deixar no início da trilha.

— Sem vigilância? – a mulher tornou a falar. Havia um desprezo disfarçado com doçura em seu tom. – Se tiver algo minimamente valioso nele, não pode deixar sem proteção, querido.

— A parte mais valiosa nele, sou eu. – aumentou seu sorriso. – Garanto.

Podia ver em suas expressões. Não davam o mínimo de credibilidade para ele. Devia parecer mais um mauricinho metido que havia tentado se jogar no mundo da ilegalidade para irritar o papai rico. Estava contando que pudesse manter essa imagem por mais tempo e fazer cada um subestimá-lo o suficiente para permitir que chegasse perto. Mais perto. E mais perto.

— E agora eu dobro minhas apostas! – Kamiji colocou as mãos na cintura, encarando o grupo de cabeça erguida. – Curious já tem o campeão?

A mulher perfeitamente confortável em seus saltos na areia sorriu ladina.

— Prefiro poupá-lo hoje.

Kamiji estalou a língua.

— Certo, Hawks. – Slidding sorriu. Mas ele sempre sorria. – Esteja pronto em quinze minutos e vamos para o ponto de partida. Burning, pode atualizá-lo com as regras?

— É claro! – e Keigo recebeu mais um tapa da mão pesada nas costas. – Vamos te preparar, loiro!

Dar as costas a um grupo que ele sabia que estavam falando de si era como disponibilizar suas costas para serem fuziladas. Quanto mais conseguisse parecer vulnerável, melhor.

— A corrida daqui é simples e um clássico e é sua área. Quero te ver voando, ok? – Kamiji ergueu a mão, apontando para o alto da colina, onde luzes de holofotes dançavam pelo céu. – Começa lá, com os competidores enfileirados. A parte mais difícil é o início: não ficar para trás na fila. A estrada é estreita, cabem três de vocês e olha lá. Se cair, sai daqui em um rabecão. E já aconteceu isso, foi muito problema envolvido e as corridas pararam por um tempo. Para o meu bem, para o seu e para o bem disso tudo, nada de cair, ok?

— Eu não caio, eu voo, amor. – piscou para Kamiji, o que arrancou uma alta gargalhada dela.

— Por deus, eu escolhi o homem certo! – ela inclinou para o lado dele, a cabeça apoiada em seu ombro e o sussurro de groselha lhe alcançando no âmago. – Todoroki escolheu.

Keigo sorriu, dessa vez com orgulho.

— Ele também escolheu a mulher certa.

Kamiji estava infiltrada há dois anos e, de início, nem ela ou Keigo sabiam um do outro. Com sua chegada há três meses no circuito de corridas ilegais, Burning havia investigado Keigo de perto, como Keigo investigou Burning. Apenas dois meses depois, Enji os apresentou oficialmente e concordaram de que eram páreos para esconder as identidades com excelência para se manterem na mesma missão.

Ainda que tecnicamente fossem colegas da mesma operação, não eram parceiros. Aquela era a primeira interação direta entre Hawks e Burning depois que ele fez uma particular boa corrida em Sapporo. Burning era conhecida pelo temperamento volátil e empreendimento aleatório em novatos com boa sorte. Hawks era uma peça perfeitamente calculada para o papel.

E como boa patrona, Kamiji apresentou os nomes de importância daquela noite enquanto seguia de carona com Keigo. As regras. A etiqueta. Os pontos de interesse. Os tipos de carros. Ela era uma enciclopédia de informações internas.

— O trio de ouro tem problemas com velocidade. Eles ganham é na distração conjunta. Se conseguir passar dos três e ter uma margem de segurança, essa corrida é sua. Vire na esquerda. – ela indicou, não que fosse necessário. A fileira de pessoas com acessórios fluorecentes guiavam o caminho. – Não deixe Gentle do seu lado ou ele te empurra. Não dispute força com Magne, o carro dela é blindado e muito, muito pesado. E não pense que ela não vai pegar você na velocidade, ela-

— Tem turbos, eu sei. – completou. – Fornecidos pelo nosso garoto prodígio.

— Inocente até que provemos o contrário. Mas sim, os melhores turbos. Seis deles, pelo que consegui contar na última corrida. Eu só não posso dar nada de Grand. Não sei nada do moleque.

— Quem o indicou?

— Slidding só chegou com o nome dele. Até onde sei, pode ter sido alguém de cima, então já sabe.

Nova figura de interesse. Novo contato a se aliar.

— É aqui mesmo.

O ponto de início da corrida estava cheio. Carros faziam um semicírculo em torno do topo, fazendo um anel de luz onde pessoas e os carros competidores se alinhavam. Os espectadores eram todo tipo de figura em diferentes níveis de sobriedade. Os carros eram cada um a sua moda.

Estacionou como o último carro da direita, com a frente voltada para a estrada. Kamiji saltou do carro com os braços erguidos como uma grande torcedora confiante e Keigo a seguiu com um sorriso. Em parte era apenas teatro, mas outra parte era certo orgulho de poder colocar o carro que ele mesmo havia montado ao lado dos demais.

Havia um certo padrão. Precisavam ser personalizados em algum nível e era comum a preferência por cores neon, o que não foi nenhum suplício para Keigo. Um Civic modificado, laranja com adesivos de grandes asas vermelhas, uma em cada lateral. Afinal, tinha que fazer jus a sua alcunha.

O carro de Magne também era óbvio, além de ser grande, ter os símbolos de negativo atrás e positivo na frente como grandes adesivos vermelhos. Três dos carros, um ao lado do outro, tinham os mesmos símbolos de máscara da peste no para-lamas, o que o fazia deduzir de que eram o trio maravilha. Os outros dois não eram tão óbvios, tendo neon e cores gritantes cada um a seu modo.

— Oh, ele é tão lindo!

— Ele é muito lindo.

De início, pensou se tratar dos espectadores. Até se virar e ver as duas pessoas apoiadas no carro de positivo e negativo o olhando. Uma delas era alta com cabelo vermelho comprido. A outra parecia uma colegial com uniforme de marinheira. Sorriu para elas e elas sorriram de volta.

— Você é convidado de quem? – perguntou a mais baixa.

— De Burning. – acenou com a cabeça, sorrindo. – Sou Hawks, a carne nova.

— Oh, não olhe assim para mim! – a mais alta fez uma inútil e caricata tentativa de se esconder atrás da mais baixa. Além de ser maior em todas as formas, ela ainda não fazia muito esforço, espiando Keigo sobre a cabeça da amiga. – Toga-chan, ele está dando em cima de mim?

— Ele só está sendo educado. – Toga deu tapinhas carinhosos na mão que a amiga apoiou em seu ombro. Então ela sorriu, um sorriso estranhamente muito parecido com o de Kamiji, largo e afiado que Keigo poderia jurar que carregava planos de matá-lo e não fazia questão nenhuma de esconder isso. – Seja bem-vindo, Hawks. Espero que seja esmagado.

— Cadê meu campeão?! – ouviram o grito de Kamiji, mesmo sob toda a torcida ao redor.

Keigo viu como sua deixa e dirigiu a maior delas uma piscadela. Já estava dando as costas, mas ainda ouviu um gritinho e uma agitação, seguido de sussurros entusiasmados.

Kamiji estava no centro do círculo junto de outras seis pessoas. Um deles era Slidding, agora equipado com chamativos patins nos quais ele se equilibrava fazendo a tarefa parecer fácil.

Dos demais, só conhecia três. Não por ver seus rostos, mas pelas máscaras da peste que usavam, pretas e com rústica costura vermelha. Os protagonistas da noite e passe de entrada de Keigo para o mundo das corridas.

E ficou claro pelos seus olhares que Keigo lhes parecia apenas uma piada.

Que o subestimassem. Quanto mais, melhor.

Assim que chegou perto, Kamiji lhe deu o terceiro tapa nas costas da noite.

— Entregue. Me divirta, Hawks! – e ela se afastou antes que Keigo pudesse falar qualquer coisa.

A mulher de cabelo vermelho se juntou a eles. Era mesmo Magne. Ela ajeitou o cabelo nervosamente por alguns instantes, claramente evitando olhar na direção de Keigo enquanto todos faziam suas avaliações iniciais.

— A corrida começa com a queda desta moeda. – Slidding exibiu uma engrenagem do tamanho da palma de sua mão que definitivamente não podia ser confundida com uma moeda. – Assim que ela tocar o chão, a largada é permitida. Saiam antes disso e estarão desclassificados imediatamente. É terminantemente proibido o uso de armas de fogo ou qualquer outro instrumento para lançar projéteis ou quaisquer objetos ou substâncias em seus oponentes. Usem seus carros e nada mais. A corrida termina no cruzamento da avenida. Quem chegar primeiro será o vencedor. Dúvidas?

Keigo negou, como os demais. Sliding então gesticulou para os carros estacionados.

Viu Kamiji acenar e gritar vivas junta da torcida enquanto montava em uma moto como carona. Ela e outros espectadores usaram carros e motos para descerem a trilha enquanto os competidores entravam em seus próprios carros.

Keigo sentou-se em seu carro.

Passou o cinto.

Ligou o motor.

Apoiou a mão na marcha.

Seus pés testaram os pedais, sem sair do lugar. Fechou os olhos, sentindo e ouvindo a vibração do carro, lhe dando todos os detalhes que precisava. A tranquilidade de um lugar comum que dominava.

Abriu os olhos.

Sliding fazia círculos diante dos faróis enquanto os poucos espectadores restantes ficavam entre aplaudir ou ficarem entre amassos. Ao lado do seu carro estava o grande carro cinza. Com os vidros baixos, pôde ver Magne prendendo o cabelo. Ao notar que estava sendo observada, seu rosto ficou vermelho e ela olhou para o lado. Keigo sorriu de canto e voltou a observar Sliding.

Por alguns minutos, foram as únicas coisas que aconteceram, com o som do motor dos outros carros vez ou outra rosnando impacientes. Minutos depois, ouviu um distante chiado do rádio na mão de Sliding. Não pôde distinguir as palavras com o som dos motores, nem a resposta de Sliding que levou o rádio perto da boca. Ele deslizou para frente dos carros e exibiu a engrenagem. Os gritos da torcida aumentaram e os motores rosnaram mais alto. Não pôde se conter ao também fazer seu motor vibrar.

A engrenagem foi lançada e o tempo seguiu lento para Keigo.

Os sons ficaram amortecidos. Ouvia sua pulsação na cabeça, a respiração lenta e profunda. Suas mãos estavam geladas e firmes, uma no volante e outra na marcha. Havia um frio distinto descendo por sua espinha, se ampliando em seu peito até se alojar em todo seu tronco.

A engrenagem caiu.

Keigo arrancou.

O caminho estreito e estar na ponta lhe deu uma óbvia desvantagem inicial que superou ao acelerar mais rápido que os demais. Por consequência, esbarrou no carro de Magne e o som alto de metal arranhando foi dolorosamente ouvido do seu. Mas os segundos já passaram e já estava avançando pela trilha.

Um carro, do centro, ainda conseguiu acompanhá-lo lado a lado. Houve uma colisão lateral entre o dele e o seu, sobreposto apenas por uma maior entre os carros de trás. Não deu atenção para mais nenhum além do próprio, trocando a marcha e variando os pedais.

Na trilha caberiam três carros se sincronizados. Na atual circunstância, Keigo mal cabia com o segundo carro lhe fazendo pressão para colidir com as árvores. Acelerou. Seu carro era mais leve, não tinha chances com conflito de força.

A primeira curva estava a seu favor. Trocou a marcha e fez o drift jogando todo seu volante para a direita. A traseira de seu carro conseguiu fazer o outro se afastar mais e perder a direção. Acelerou, voltou o volante para o lugar, trocou a marcha. Viu uma violenta colisão do carro cinza com outro vermelho, mas logo vinham os três carros siameses o seguindo como augures.

Segundo drift. Assim que começou a fazê-lo, houve uma colisão atrás de si e por um segundo quase perdeu a direção. Girou o volante e girou mais uma vez fazendo a curva para o outro lado, emendando a direção. Acelerou assim que se estabilizou e faróis altos o cegaram pelo retrovisor. Não olhou mais uma vez, assim como não se deixou ser tocado outra vez. Assim que tomou distância, não havia mais nada que pudesse segurá-lo.

A trilha estava iluminada por espectadores e seus celulares e roupas fluorecentes. A estrada na base da colina era ladeada por carros coloridos e mais espectadores balançando bastões de luz. Keigo passou por eles tão rápido que provavelmente havia deixado apenas um rastro de laranja e vermelho contra a noite e só depois que alcançou o cruzamento voltou a diminuir a velocidade. Uma curva perfeita e barulhenta, tatuando o asfalto com seus pneus.

Kamiji foi a primeira que distinguiu, já que ela estava no teto de um dos carros batendo palmas e gritando. Sorriu para ela, mas permaneceu no carro até que os demais carros chegassem.

Com sólidos trinta segundos depois de si, o carro de Magne venceu a distância com seu turbo ligado, seguida de perto pelo Camaro negro e então de dois do trio de ouro. Sem ter os outros a vista, Keigo saiu do carro enquanto as dúzias de estranhos se aproximavam para congratulá-lo.

Keigo aceitou apertos de mãos, high-fives, cartões com telefones, meios abraços e beijos muito próximos de sua boca. Alguém jogou cerveja para o alto e acabou ficando sob oos respingos também. Preferia ter a cerveja na mão, mas não se incomodou. Recebeu o regojizo de de braços abertos, até sentir o quarto pesado tapa naquela noite.

— Alguém aqui ainda duvida que eu consigo encontrar trigo entre joio?! – o sorriso dela parecia ainda maior que mais cedo. – Pois escrevam aí, bando de bunda mole: esse vai fazer seu nome internacionalmente!

Houve vivas, berros de incentivo, mas também umas distantes vaias e risadas debochadas. Keigo procurou por elas e as encontrou num grupo próximo dos carros do que restou do trio. Eram mais pessoas com máscaras que olhavam em sua direção com vários sentimentos, nenhum positivo.

Keigo era bom em muitas coisas, muito bom em outras e excelente em algumas. E uma das coisas que fazia com excelência era provocar, e por isso exibiu um sorriso largo para todos eles. Sem surpresa, viu a raiva flamejar entre os mascarados. Kamiji seguiu seu olhar e gargalhou.

— Não adianta fazer cada feia, foi o Gentle que empurrou o garoto de vocês! – Ela gritou na direção deles e lhes mostrou os dois dedos do meio. – Perdedores de merda! Chupa!

Por acaso, Keigo olhou na direção do Camaro quando ele se abriu. E não conteve a expressão confusa quando viu um adolescente deixar o carro. E por alguma razão aquele rapaz lhe parecia muito familiar. Alto, olhos grandes, cabelos encaracolados e negros, um sorriso brincalhão… o qual não enganava Keigo. Havia uma coisa visceral por trás, disfarçada de simpatia.

Sliding se aproximou da multidão ainda sobre seus patins e Keigo apenas supunha que ele havia pego carona com alguém até ali. Pela distância, não conseguia saber sobre o que falavam, mas os sorrisos eram constantes e igualmente falsos.

Como sinal, Kamiji deu um último tapa nas costas de Keigo.

— Vou pegar meu dinheiro. – ela riu alto, abrindo caminho para Sliding e o garoto. – Obrigada pelo lucro, Hawks!

Keigo também queria ver o que havia com aquele adolescente e o que achava de tão familiar nele. Quando estava a um segundo de dar um passo para segui-la, Magne praticamente surgiu ao seu lado, rosto vermelho e mãos nervosas.

— Foi c-claramente muita sorte sua! – ela lhe apontou com o indicador, como se o acusasse de algo. – E não pense que esqueci que quase arranhou meu bebê. Bem feito para o seu!

— Eu não podia subestimá-la! – sorriu se voltando para ela.

— Ainda bem que não subestimou! Humpf. – ela cruzou os braços. Toga, que estava logo atrás dela, se aproximou rindo. A imagem de uma hiena passou pela mente de Keigo.

— Achei que nunca mais fosse te ver, Hawks-kun. – ela falou. E a imagem da hiena foi substituída pela de uma boneca assassina.

— Ah, não pense mais assim, Toga-chan. Vim aqui para ficar muito tempo.

— É? – ela direcionou u olhar de deboche ao seu carro e voltou a rir para Hawks. – Não parece.

Keigo se deu conta de que ainda não havia olhado os danos em seu carro. Quando o fez, podia jurara que a dor era física. Havia arranhões profundos no lado esquerdo, de um para-choque ao outro. Também tinha amassados na parte traseira, mas de longe muito mais simples que o estrago na sua lataria esquerda. Nem queria testar se a porta ainda abria e arriscar que ela caísse no meio da estrada.

— Sua pintura ficou todinha no meu bebê e eu digo que foi bem feito. – comentou Magne em um tom que não poderia ser chamado menos que infantil, mas que fez Keigo rir genuinamente.

— Me avisaram, mas não levei muito a sério que seu carro era casca grossa.

— Pois saiba que ele é muito mais que isso. – Magne cruzou os braços e ergueu o rosto com orgulho. – Magia do Dabi.

Lembrava-se desse nome. Vagamente, das anotações de Kamiji.

— Dabi? – franziu o cenho. Com a multidão migrando sua atenção para outros gritos de apostas, a conversa isolada ficou mais fácil enquanto carros, motos e pessoas voltavam a circular da estrada para a praia.

— Você tem uma equipe, Hawks-kun? – Toga deu um passo a frente, parando a um metro de Hawks. Ela não era tão mais baixa que ele ou Kamiji. E por alguma razão, Keigo pensava que ela havia crescido em periculosidade, como se houvesse encontrado um pequeno escorpião.

— Tenho a Burning. Ela quem me recomendou.

— E quem é seu mecânico?

— Sou… eu mesmo, para falar a verdade. – riu de nervoso, mais uma vez se dando o vislumbre do estrago que fez no carro. Seriam boas longas horas de reparo, sem falar na verba para as peças.

Toga riu. Mais um passo foi dado na sua direção. Keigo já começou a pensar em como conseguiria afastá-la de si. Não havia estabelecido limites quando aceitou se disfarçar de criminoso, mas trocar cantadas com uma possível menor de idade não era uma coisa que estava disposto a fazer sob nenhuma hipótese.

Mas ela apenas lhe estendeu um pequeno retângulo de papel.

— Endereço do nosso mecânico. Diga que é amigo da Toga e da Magne e ganhará um desconto.

— Sou um amigo? – sorriu com surpresa e aceitou o papel.

— Ei, maluca, já acabou?

A voz macia veio de um ponto atrás de Keigo. Ela fez Toga sorrir empolgada e Magne corar como um tomate.

— Ei, Dabi! Estávamos falando de você.

Keigo se virou e não foi difícil encontrar a fonte. Ele estava ao lado de uma moto, segurando o capacete. De primeiro momento, achou que fosse uma máscara, mas percebeu ser apenas o rosto dele. Grandes e rugosas cicatrizes contornavam suas feições, tornando difícil distinguir quanl era sua expressão naquele momento.

Era tão indelicado encarar, claro. E estava tentando encontrar uma boa explicação para não fazê-lo. Talvez encontrasse algum momento, talvez não. Sua linha de raciocínio foi interrompida por outro chamado, dessa vez mais urgente e mais distante.

— POLÍCIA! POLÍCIA!

Um grupo de três motociclistas passou pelo grupo, ecoando o chamado. E começaram a repetir ao redor.

A medida que o chamado se espalhava, a conversa e animação se encerrou, substituído pela movimentação urgente para saírem dali.

Magne foi direto para o carro. Toga se virou e correu para o homem das cicatrizes.

O homem em questão observou Keigo por um par de segundos, antes de se virar e subir na moto logo atrás de si. Toga montou com um salto na garupa.

— Até mais, Hawks-kun!

Keigo não se deu tempo para despedir, mesmo que a curiosidade o houvesse congelado por instantes.

Correu para seu carro e se jogou para dentro. Entre a cacofonia da fuga, Keigo ainda tentou seguir Toga e Magne com o olhar, ou encontrar Kamiji em meio à cores e luzes. Ela provavelmente já devia ter ido mais rápido que ele.

Seguiu pela estrada da orla da praia por alguns quilômetros junto de outros fugitivos. Na primeira cidade, tratou de se separar dos demais e só teve alguma sensação de segurança quando alcançou Tanabe horas depois. Sendo madrugada, ainda conseguiu um pouco de discrição, uma vez que tudo em seu carro seria um berrante anúncio de que estava metido em coisas ilegais e tentando se misturar em cidadezinhas.

A casa era pequena, de dois andares sendo o primeiro apenas uma garagem. Perfeita para tudo que precisava no momento e com despesas pagar pela delegacia.

Só relaxou depois que saiu do carro e fechou a porta da garagem.

Respirou fundo. Felizmente esse tipo de jornada não era diária, ou teria problemas em se manter acordado. Perseguindo um grupo itinerante, uma das grandes dificuldades era ter um QG útil e discreto. Discreto o quanto possível, já que dirigia um carro laranja.

Parou ao lado de seu carro e observou os danos mais uma vez. Enji não ia gostar dos números e provavelmente sua folha de pagamento estaria dolorosa de se olhar.

Suspirou e pegou o celular enquanto entrava na casa.

Está atrasado, Takami.

— Boa noite para você também, chefe. – riu enquanto tentava sair de seus sapatos usando uma mão. – Eu precisei dar uma volta pra distrair outros competidores. Meu primeiro pensamento chegando aqui foi você. Nem fui comer!

Ele rosnou qualquer coisa e Keigo conseguiu visualizar perfeitamente o lindo rosto irritado com rugas entre as sobrancelhas. Segurou o riso, mas se permitiu sorrir, já que ele não era visto.

Kamiji disse que conseguiu contato com os membros do All For One.

— Magne e Toga. – abriu a geladeira e pegou uma lata de cerveja antes de fechar a porta com o pé. – Simpáticas, Toga me chamou de amigo e… – colocou a mão no bolso, vasculhando até encontrar o pedaço de papel. – Me passou um cartão.

O papel era um cartão de visita surpreendentemente profissional. Preto, com uma engrenagem branca no centro formando as iniciais AFO.


AFO

Serviços de mecânica automotiva personalizada


Havia um telefone e o verso estava vazio. Perguntou-se o porquê de ninguém do time ter conseguido um daqueles até o momento.

— Ligo para eles amanhã para ver se consigo desconto no conserto do meu carro, que tal? – caiu sentado no sofá.

Você bateu o carro?! – pôde sentir as labaredas pelo celular. Para se proteger, deixou o cartão de lado e abriu a lata de cerveja.

— Eu ganhei a corrida… em troca de alguns arranhões. Consegui algum status e Kamiji pode me colocar em alguma coisa mais relevante na próxima.

Você está sendo mais caro do que vale.

— Qual é, você sabe que não, fui até econômico! Só reformas, nenhuma peça nova. Manutenção é normal, ainda mais em corridas ilegais.

Kamiji consegue ser mais cuidadosa, você triplicou os gastos dessa operação em três meses.

— Chefe, assim você me magoa. Acabei de conseguir uma abertura que ninguém conseguiu ainda, certo? Na minha segunda corrida com esse carro maravilhoso fornecido com sua boa vontade. Não é um sinônimo do meu bom trabalho?

Só valerá alguma coisa se tiver algo sólido além de cartões de visita. Nomes, locais, fornecedores. E se esse conserto valer um carro novo, pode esquecer qualquer fornecimento de verba. Sairá do seu salário.

— Meu próximo passo é te mostrar tudo por dentro, chefe. Prometo que tudo valerá a pena.

Mais um som irritado e a linha ficou muda. Keigo riu. Enji ganhava um charme redobrado quando estava ranzinza. Imaginava todo aquele mau humor focado em outra tarefa para tirar o estresse e só o pensamento o deixava quente. Bebeu três longos goles de cerveja.

Apoiou os pés na mesa de centro e olhou o cartão caído no assento ao lado.

Tinha uma desculpa para aproximação. Não costumava dar crédito à sua aparência pelas suas conquistas, mas se Toga e Magne gostaram de seu rosto o suficiente para querer que ele se tornasse um cliente, não era ele quem reclamaria. Não agora que poderia dar algum agrado ao chefe gostoso.

Um chefe gostoso casado, precisava se lembrar. Também não fazia seu feitio acabar com casamentos. Mas nada o impedia de fantasiar com castigos e recompensas.

Riu e bebeu o resto da cerveja.

19 Juin 2020 21:31:44 1 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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Artemísia Jackson Artemísia Jackson
Clarinha isso tá maravilhoso, você é realmente muito boa em tudo que faz, desde desenhos até histórias, eu te venero. Vou biscoitar aonde puder, porque tu merece, E QUE HAWKS MARAVILHOSO É ESSE, TÃO CHARMOSO, UI UI Só continua, mulher, nossa, amei, PERFEITO!
June 19, 2020, 22:20
~

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