dissecando Edison Oliveira

Após uma noite de farra, um homem acorda em seu quarto e descobre que o chão sofreu uma metamorfose incomum.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.
Histoire courte
1
1.3k VUES
Terminé
temps de lecture
AA Partager

MOVEDIÇO




O primeiro pé que tocou no piso foi o direito, e ele logo foi engolido. Luan sentiu uma coisa úmida e morna encostar em seu tornozelo, e atordoado pelo sono pouco se importou.
Em seguida a sola de seu pé esquentou subitamente, e desconfiado tentou erguê-lo, mas tudo que conseguiu foi sentir a perna sendo segura com força. Tentou uma segunda vez (agora irritado, cego momentaneamente pela escuridão do quarto) e puxou com uma força considerável, obtendo um certo sucesso. Seu corpo tombou para trás e Luan começou a pôr os pensamentos em ordem, todos ainda muito embaralhados pelo sono, a escuridão e a ressaca.
Sua cama estava fedendo a vômito, e seu colchão parecia encharcado na região de sua cintura, o que levou Luan a sentir uma vergonha absoluta de si mesmo. Imediatamente tateou na altura de suas virilhas, e ficou aliviado quando descobriu que não havia se mijado. Pouco se lembrava da noite anterior e do que de fato havia acontecido, mas tinha convicção de que aquele era o seu quarto, pois ainda que o vômito estivesse inebriando o ambiente, seu colchão e seus lençóis possuíam seu cheiro natural. Lembrava-se de estar na taberna do Nélson, a música estava alta e algumas pessoas dançavam sozinhas ou umas com as outras, sóbrias ou no início da embriaguez, todas sensuais e transpirando. Depois disso ele terminou a sua décima segunda cerveja, cheirou uma carreira de pó branco escondido no banheiro masculino, sentado no vaso e alinhando a droga em seu antebraço. Então a noite virou madrugada, uma confusão mental que partia da insegurança ao medo constante, e Luan só lembrava de se enfiar em seu automóvel e de acordar sabe-se lá quantas horas depois, atirado em sua cama e com alguma coisa lhe agarrando pelo pé. Essa coisa era morna e forte, pegajosa como lama. Luan (tentando entender o que poderia ser aquilo), cogitou ter pisado na própria merda. Abandonou este pensamento segundos depois, quando se lembrou da força da coisa. Endireitou-se sobre a cama e tentou — sem obter sucesso, — enxergar o causador daquele momento estranho. Inclinou o corpo para frente, espiou curiosamente através da escuridão e, insatisfeito, quis sentir algum cheiro além do próprio vômito. Nada. Tornou a ficar na posição de Lótus, sentiu uma pontada forte na cabeça e fez uma careta. Sua boca estava seca como um deserto, azeda e com a garganta arranhada. Mais do que nunca quis beber alguma coisa, matar a sede e livrar-se daquele gosto incômodo. Com a cabeça apoiada sobre as mãos, resmungou para o quarto vazio.
— Se existe o fundo de algum poço, este deve ser o meu.
De repente, um barulho. Alguma coisa pareceu afundar, pois, Luan escutou claramente um som borbulhante.
Alarmado, olhou em volta de sua escuridão particular e encolheu-se o mais distante possível do som. Ainda amedrontado, tentou decifrar de onde exatamente aquele ruído teria partido; talvez da direita, ou pouco mais para sua esquerda. Talvez de todos os lados possíveis, já que no escuro, todas as coisas acabam se tornando uma só, de um só dono, algum proprietário maléfico da noite.
— Mas que merda está havendo? — falou baixinho, instintivamente acuado pelo ruído borbulhante.
Em resposta, alguma outra coisa pareceu afundar. Esta mais distante (o guarda-roupas, certamente era ele), rangendo, quebrando e sendo dragado para algum lugar em meio a escuridão. Luan se questionou se ainda faltava muito para o sol nascer e acabar com aquele pesadelo. Desorientado, seus pensamentos migraram mais uma vez para a noite passada, onde a cocaína lhe fez companhia até entrar em seu automóvel. Estaria sofrendo uma espécie de overdose, ou era apenas mais um de seus inúmeros delírios noturnos?
Ele já conversara durante horas certa vez, um diálogo franco e repleto de ofensas, ali mesmo, sentado naquela cama e com os olhos vidrados. A conversa fora bastante reveladora, chocante e em alguns momentos triste, até Luan perceber que não havia mais ninguém junto consigo. Aquilo o fez cair em prantos e atirar um copo vazio na parede. Aqueles delírios já faziam parte de um passado não muito distante, e Luan tinha plena ciência de que eles jamais deixariam de existir, mesmo após frequentar terapia (duas sessões apenas antes de ficar de saco cheio) e engolir a seco alguns comprimidos para dormir. Escutou seu guarda-roupas estalar uma última vez antes de mergulhar para sempre e só então adquiriu forças para gritar. Gritou. Forte e desesperado, na esperança de que algum de seus vizinhos acordasse e viesse em seu socorro. Então, um novo (e preocupante) pensamento nasceu e cresceu em sua cabeça como um tumor;

“Eles sabem que você é um viciado. Sabem dos copos que são jogados na parede. Do volume alto da televisão na tentativa de abafar os seus gritos furiosos. Acha mesmo que alguém dará importância para você agora?”

Isso o fez começar a chorar, encolhido sobre a cama, apertando as mãos contra os olhos. Lembrou-se do revólver calibre 38 que tinha, aquele que comprara para, segundo ele próprio, defender-se de seus “inimigos”. O revólver seria uma boa solução, uma provável saída daquela enrascada, bastava meter a bala no lugar certo e o Senhor estaria lhe esperando no enorme portão dos céus. Essa hipótese começava a se tornar uma realidade possível quando Luan enfim percebeu que o calibre 38 havia afundado dentro de seu guarda-roupa, dragado para as profundezas da inexistência.
Lembrar-se daquilo fez o seu desespero se intensificar, e em um momento de fúria empurrou seus lençóis a chutes para fora da cama. A escuridão do quarto parecia não querer acabar, e aquilo facilitava suas visões abomináveis sobre toda aquela situação. Era uma tela escura, sendo pintada tragicamente diante de seus olhos esbugalhados e rosto choroso. Em certos momentos, queria enxergar o que estava acontecendo; em outros, só escutar bastava.
Começou a mover-se na direção oposta da cama quando ouviu um estalo seco. Parou imediatamente, e então um borbulhar tenebroso surgiu debaixo de si. Luan permaneceu imóvel, amedrontado, quase tocando na própria tensão. O silêncio que se seguiu por mais alguns instantes lhe causou dores ainda mais fortes na cabeça, e quando uma lágrima teimou em lhe escorrer pela bochecha, Luan a secou ferozmente com o pulso. Dois segundos depois, ouviu-se outro estalo e a cama começou a afundar de forma lenta e constante.
Apavorado e sem alternativas, Luan saltou na direção do piso (um mergulho atabalhoado no escuro) e caiu com as mãos estendidas diante de si. Seus dedos logo foram engolidos pelo calor, e Luan berrou, tentando ficar de pé. Esforçou-se para livrar as mãos daquela gosma lamacenta, e sentiu que o calor estava ainda maior, quase insuportável. Então, algo lhe apertou as mãos; com força. Muita força. Luan sentiu seus dedos serem quebrados, gritou, urrou no escuro e quis como nunca erguer o seu corpo, caminhar (ao menos tentar) sobre aquele chão que de modo algum era firme. O piso abaixo de si era agora um lodo, fervente como um caldeirão, forte como algum maquinário hidráulico. Aterrorizado, Luan ainda tentou reagir com seu corpo exausto e em partes destruído, mas percebeu ser em vão.
Na cegueira da escuridão noturna, ainda escutou sua cama estalar e borbulhar atrás de si. E antes que as dores enfim o matassem, Luan foi capaz de ouvir o seu maxilar espatifar, deixando que a noite finalmente se tornasse silenciosa.

19 Juin 2020 19:41:40 1 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
4
La fin

A propos de l’auteur

Commentez quelque chose

Publier!
Wesley Deniel Wesley Deniel
Aterrador ! Como sempre, uma ótima história. Esta, sem dúvida uma das mais sombrias. Grande abraço !
June 25, 2020, 09:06
~