drigocardoso Rodrigo Cardoso

"Você não precisa odiar alguém para ser violento, só precisa de um boa razão e uma boa dose de sangue frio." Essa é uma lição difícil de esquecer. Na cidade dos imigrantes, cada tribo trouxe consigo os seus criminosos. Alguns perigosos, outros nem tanto. Alguns emulavam os crimes da sua terra natal, outros se reinventaram completamente. Mas entre assaltos, extorsões, brigas e assassinatos ninguém foi tão complexo ou se destacou tanto quanto esse grupo de homens, a Máfia Ítalo-Americana.


Criminalité Déconseillé aux moins de 13 ans.

#Sicília #eua #violência #Organização-Criminosa #Lei-Seca #crime #máfia
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Prólogo

Na cidade dos imigrantes, cada tribo trouxe consigo os seus criminosos. Alguns perigosos, outros nem tanto. Alguns emulavam os crimes da sua terra natal, outros se reinventaram completamente. Mas entre assaltos, extorsões, brigas e assassinatos ninguém foi tão complexo ou se destacou tanto quanto esse grupo de homens: a Máfia Ítalo-Americana.

Este é um conto sobre a violência. Mas poderia ser uma história real.


Nova York, 27 de julho de 1989.


Desceu do carro assim que ele parou no estacionamento externo do hospital, pediu para que seus homens o aguardassem na recepção, queria subir sozinho, não iria causar um incomodo para família do enfermo, eles não precisavam de algo assim agora e não seria do seu feitio. A identificação no hall de entrada. Os passos rápidos e firmes para um homem que em breve completaria 80 anos. A pressa em reencontrar o velho amigo só era aplacada pelo receio da sua reação em vê-lo nas últimas em uma cama de hospital. Não pôde deixar de se sentir um tanto egoísta, pois sabia que uma boa dose do seu medo era pelo fato de saber que, aquele encontro, lembrava-o de que ele próprio chegaria ao seu final em breve. Sempre achou que conforme avançasse pelos anos de vida, de alguma forma, se sentiria preparado para morte, mas agora só podia pensar que isso, na verdade, soava como uma grande mentira. O fato é que, a ideia da morte, lhe causava um tremendo medo.


Quando a porta do elevador se abriu no andar de destino, um mar de homens e mulheres, adultos e crianças inundou sua visão, todos judeus. Mesmo que os quipás não denunciassem, ele saberia apenas pelos pequenos trejeitos daquelas pessoas que escancaravam sua comunhão.

Poucos ali o reconheceram, e esses, fizeram questão de virar a cara em uma careta hipócrita que ignorava que, na verdade, mesmo sem um quipá, ele era muito mais parecido com o velho parente daquela multidão do que eles próprios. A maioria ali, apenas pensou ser um velho e inocente amigo.


Deu uma última olhada no buque de flores que trazia, queria garantir que havia mesmo escolhido as flores mais bonitas para aquele grande amigo, mesmo que agora não houvesse como substitui-las. Entrou no quarto.


— Gigio! Você finalmente chegou! Entre! Entre! — a voz enfraquecida pela doença era quase um sussurro.


— Eu viria apenas na próxima semana, mas me disseram que talvez você não passe desta — ele brincou com o amigo, mas logo notou que a piada soou de muito mal gosto entre os filhos e filhas que cercavam o pai deitado naquela cama.


O amigo riu, da melhor forma que pôde.


— Não dê bola para eles, Gigio. Esses pobres coitados não têm um pingo de senso de humor. Vamos saiam, saiam... quero ficar a sós com o meu irmão Gigio. Depois de alguns minutos de protestos da família, aquele homem impôs sua vontade e conseguiu que todos saíssem do quarto. Os amigos estavam a sós agora.


— Ah, Gigio, que bom que você veio, ver você faz me sentir vivo novamente.


A ideia da morte veio à cabeça de Gigio outra vez, para ele era justamente o contrário.


— Sim, eu sei, Gigio, eu estou morrendo, não precisa lembrar-me disso com este olhar compadecido e amedrontado. Eu estou em paz, tenho lido o Talmude e me preparado. Você com esta mania de achar que é meio-judeu, meio-cristão acaba não sendo nem uma coisa nem outra. Pois lhe digo, trate de encontrar logo uma fé, ou esse seu medo da morte nunca o abandonará. Está é a única solução para homens como nós, com tantos pecados.


Giovanni D'Angelo apenas encarava com ternura o amigo em seu leito final. O câncer havia vencido aquele homem que insistia em escapar da morte tantas e tantas vezes.


— Talvez se tivéssemos apostado antes, você não tivesse fumando tanto e não estaria aqui agora.


— Deixe de bobagem, Gigio. Um homem não pode fugir do seu destino, este é o meu. O homem tentou sentar se na cama, mas o máximo que conseguiu foi por sua cabeça um pouco mais para o alto no travesseiro, então fingiu querer apenas exatamente isso.


— Sabe do que vou sentir falta, Gigio? Vou sentir falta da nossa história, vivemos tudo o que vivemos para no fim acabarmos assim. Morremos, viramos um nome em uma lapide e, com o tempo, nossa história é esquecida.


— Vou me encarregar para que a nossa história não seja esquecida, vou mandar fazer um livro dela, ha, fraynd, vos ton ir zogn? (hein, amigo, o que me diz?) — brincou Gigio, tentando arrancar mais um sorriso do velho sobre a cama.


— Sabe que não é má ideia, Gigio, não seria realmente uma má ideia, ver a cara de espanto e pavor dos meus filhos. Eu pagaria para ver isso, e você sabe como é difícil tirar um tostão de um judeu. — o velho tentou rir, mas não conseguiu, apenas fechou os olhos por um instante, por alguns segundos, que fez Gigio pensar que aquelas haviam sido suas últimas palavras.


Quando aquele homem combalido abriu novamente os olhos, pegou a mão de Giovanni, e o encarou bem nos olhos com aquele mesmo olhar malicioso e dardejante que olhava diretamente para a sua alma.


— Estou indo, Gigio, mas não esqueci, você ainda me deve uma. — desta vez seus olhos fecharam-se para não abrirem novamente.


— Eu sei, Abe. Eu sei.

22 Mai 2020 15:45:25 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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