AA Partager

"3 pra trás entrega os taco, ou não". — Parte 1

Eram meados de 2008 e eu estava no meu auge. Havia conseguido entrar na faculdade que queria, trabalhava no laboratório de arqueologia, era um universitário cheio de saúde, vontade, energia e sonhos. Nada poderia me parar. Mesmo com todos os problemas e dificuldades para me manter em uma universidade privada, estava numa fase que eu nem imaginava que, naquela época, seria possível existir.

Vida vai, vida vem, como estava prestes a completar meus 18 anos, chegava a hora de me alistar para o Exército Brasileiro. E eu era pura confiança. Capaz que eu, com a vida projetada daquele jeito e todo aquele futuro brilhante pela frente, serviria ao quartel. Eis que o dia da apresentação se aproximava. Entre o período que eu descobri que precisaria comparecer ao quartel, até o dia da primeira apresentação, juntei o máximo de documentos que comprovavam que, naquela altura do campeonato, naquele momento específico da minha vida, servir seria um grande atraso para mim.

E já adiando que não adiantou.

Após algumas visitas cujo intuito era analisar minhas capacidades físicas e cognitivas, chegara o derradeiro dia: O dia da entrevista. Munido de uma pasta com meus documentos, aguardava um dos tenentes me chamarem. Lembro que aquela manhã era um misto de sol entre nuvens, com algumas pancadas de chuva que só serviam para punir os conscritos que aguardavam o fatídico momento de descobrir o seu destino, assim como eu.

As chamadas estavam acontecendo por ordem alfabético, e como meu nome se inicia com a letra H, estava acostumado em estar no meio da tabela. Esse ponto sempre me trouxe certo nervosismo, já que ficava sempre na expectativa quando os nomes com a letra G acabavam de ser chamados. Não existem muitos nomes com a letra H, porém existem alguns, e isso impede a combinação “HI” de ser a primeira a ser chamada. Lembro desse dia ser assim, tensão, vontade de sair correndo, um pouco de soberba por ter meus documentos e talvez uma pitada arrogância? Quem sabe. Mas eu tinha certeza, a certeza mais do que absoluta, que naquela manhã, após a conversar com o tenente, eu sairia vitorioso.

E finalmente venho a chamada. Cheguei com um sonoro bom dia e um sorriso no rosto. Fui recebido com um: “Tá vindo pro dentista, conscrito? Fecha essa tua cara que eu não quero saber quantos dentes tu tem na boca.” Não me abalei. Como o ordenado, tirei o sorriso da cara e comecei a responder às perguntas. Eu sabia que não era um espaço para gracinhas ou oposições, precisava fazer com que ele não “pegasse no meu pé” e assim sairia logo para continuar minha maravilhosa vida de universitário.

Após responder algumas perguntas básicas sobre nome, escolaridade, se gostaria de servir ou não, esta que fora respondida copiosamente com a palavra “NÃO. NÃO e NÃO”, o tenente dobrou os braços e meteu um: “Então tá, muito bom.” E essa foi a minha deixa para tomar a palavra. Lembro-me de começar falando que ali não era um local para eu falar da forma que, naquele momento, estava fazendo. Lembro-me de agradecer a oportunidade e de pedir permissão para continuar falando (exatamente como diz a cartilha do bom militar…). Após ter minhas confirmações, comecei a explanar o porquê não era benéfico para mim, e muito menos para o exército, que eu estivesse lá. Deixei claro todos meus planos, deixei claro que estudava pela manhã, que era um aspirante a bolsista na área de arqueologia, que não podia perder a oportunidade, já que eu possuía um caro financiamento. Falei, falei e falei. O tenente, atento, balançava a cabeça e parecia concordar com tudo. Enquanto eu falava, ele observava os documentos, fazia algumas perguntas sobre meus afazeres, se mostrava interessado, o que, confesso, me enchera de esperança. Ao final de tudo, o tenente fechara minha pasta de documentos e olhando na bolinha preta do meu olho, disse:

“Muito bacana tudo isso, mas eu também estudo e estou aqui, fica tranquilo. :)”

E foi assim que foi a primeira vez que precisei dar um passo atrás. Larguei a história, larguei a arqueologia, perdi a primeira bolsa, destruí meu financiamento e assim por diante. Porém, devo dizer que tive sorte. A vida me ensinou cedo que os planos não passam de uma tentativa nossa de controlar o inevitável. Aí me falam: “Ai, mas é só um ano…” Exatamente, meus caros. Um ano que me fez, não apenas, entrar num vórtice de escolhas, onde tudo que parecia certo era errado e vice-versa. Foi um ano ruim? Horroroso, eu diria. O pior de todos, porém mesmo assim agradeço por aquele ano, pois se não fosse ele, hoje eu estaria muito mais perdido do que estou ou estive. Lá aprendi o que eu realmente eu não gostaria de fazer, como eu não gostaria de ser. E é aquilo: Tá no inferno, se abraça com o capeta. Dei o meu melhor, e tenho orgulho disso. Tem vezes que apenas temos que aceitar o que momento nos traz, e é aí que precisamos levantar a cabeça e encontrar forças para nos redescobrirmos. É difícil? É duro? Injusto? Sim, sim e sim. Mas você consegue superar e consegue se reerguer para reencontrar novamente seu verdadeiro “eu”.

17 Août 2022 00:45:42 0 Rapport Incorporer 4
~

O dia que "venci perdendo"

Eis que eu estava lá para mais uma apresentação do planetário inflável. Um breve resumo: Para quem não conhece, o planetário inflável é um domo (inflável hehe) que você entra dentro para acompanhar uma apresentação de aproximadamente 20 - 25 minutos (normalmente eu passava dos 40) sobre astronomia e criação das constelações através da história contada. As apresentações eram ótimas, normalmente o público interagia, fazia perguntas, colocações e etc… Entretanto, a história que vou contar, com certeza, foi uma das que mais me marcou. Lembro-me desse dia muito bem.

Um casal que viera do centro-oeste do Brasil comprara ingressos para a primeira apresentação de um dia de domingo, um horário muito bom para quem realmente gostaria de acompanhar e interagir com o show. Como era um horário de pouca adesão, conseguíamos dar uma atenção extra para quem adquiria esses ingressos no final de semana pela manhã.

Ainda faltavam 10 minutos para iniciarmos os trabalhos, e ambos estavam lá, impacientes, olhando o relógio e com uma cara de: “pô moço, não da pra começar antes?” Lembro-me que a moça usava um chapéu redondo de abas longas e que, assim que cheguei vestindo meu jaleco amarelo, ela abriu um sorriso gigantesco, e comentou que o chapéu tinha a mesma cor. Tudo estava se encaminhando para ser uma manhã perfeita.

Pedi para que eles aguardassem um pouco, eu ligaria os equipamentos e logo os chamaria para a sessão. A resposta foi um direto: “Ok moço, sem pressa, viemos só para isso.” Devolvi a resposta com um sorriso e entrei para preparar tudo. Os equipamentos demoravam uns 5 minutos para ficarem prontos e estabilizados, nesse meio tempo, eu aproveitava para fazer alguns exercícios de voz e repassar algumas coisas que achava interessante trazer na apresentação. Embora existisse um roteiro, sempre preferi o improviso e, como aquela sessão seria para apenas duas pessoas, achei interessante deixar o fluxo da apresentação ditar o nosso ritmo.

Após todos os pormenores, chamei o casal. A moça tomou a dianteira, e assim que entrou no domo soltou um efusivo: “Uau! Caceta!”

O rapaz foi mais comedido, e abriu um sorriso um pouco desconcertado.

A apresentação seguiu e, conforme eu falava, percebi que algo não estava funcionando muito bem, como disse antes, apostei em minha capacidade de leitura, que, me perdoem, para essa situação, sempre foi aguçada, mas que dessa vez, por cargas d’água, até então, havia me deixado na mão.

Normalmente a apresentação era dividida em duas partes: A parte teórica que possuía conteúdos voltados a física das estrelas, dados, números, distâncias, tamanhos e assim por diante. Algo incrivelmente majestoso que se confirmava com vários “uaus” quando eu soltava a informação que dentro do sol caberiam algo em torno de 1,3 milhões de planetas Terra. Mas, naquele dia, naquele domingo de manhã, naquele maldito domingo de manhã, não foi o caso.

Então me desesperei. Gaguejei. E fiz a coisa mais anticlímax que poderia existir naquele momento, soltei um: “Pessoal, tá tudo bem?” E prontamente recebi a resposta que eu tanto temia. Um efusivo: “Não”.

Meu mundo caiu.

Eu nunca havia passado por uma situação daquelas. Na real, eu nunca sonhei que isso poderia acontecer comigo, ainda mais daquela forma. Como assim não estava tudo bem. Onde eu errei? O que eu falei de errado? SEMPRE foi muito bom. ABSOLUTAMENTE SEMPRE.

A apresentação seguiu para a segunda parte que falava sobre mitologia. Particularmente, minha favorita. Trazia temas como a construção do mito, o surgimento da linguagem, a importância da história falada na formação do ser humano moderno. Além disso, eu escolhia uma ou duas histórias que eram contadas levando muito em conta, apontamentos históricos, bibliografias e etc… Existia uma estudo por trás daquela apresentação. Horas e horas, dias e dias. Só que naquele dia, mesmo com todo o preparo, mesmo com toda vontade, não rolou.

Terminei a apresentação e os dois ainda estavam lá com uma cara emburrada, provavelmente pensando que seu dinheiro fora jogado no lixo. Agradeci, pedi desculpas e disse que caso eles quisessem deixar algum feedback, poderiam utilizar a caixinha de comunicação que ficava na entrada do museu. Eu estava desmoralizado, destruído e deixava trespassar isso.

Depois de minha triste fala, a moça, muito educada, agradeceu e disse: Não era o que a gente imaginava, moço. Mas obrigado.

E é isso. Não era o que eles imaginavam. Não é o que eles queriam assistir. O problema, de fato, não era eu. E acredito que esse é o ponto. Tem vezes que por mais que nos esforcemos, trabalhemos duro e nos doemos, não funciona. As coisas não dão certo, as pessoas não gostam, os resultados não chegam da forma que gostaríamos, parece que falta algo. Mas a real é que pensando nessa história novamente depois de tanto tempo, percebo que na maioria das vezes nós, DE FATO, não somos o problema. E mesmo que por qualquer motivo que seja não dê certo, temos o dever de nos sentirmos felizes e satisfeitos que demos o nosso melhor. A sociedade nos ensina que “aceitar a derrota” é um papo para pessoas que são perdedoras, que não tem vontade de vencer, que estão fadadas à derrota. O tempo passa e eu cada vez mais acredito que a vitória está na sua capacidade de se fazer feliz e bem. Se você está satisfeito, se você deu o seu melhor, e para os outros isso não foi o bastante, ok. Tudo bem.

O negócio é seguir em frente sem fazer mal a ninguém e, principalmente, se respeitar. Afinal, você deu duro, você se esforçou, você fez o seu melhor, e ninguém sabe disso melhor que você mesmo.

9 Août 2022 14:01:12 4 Rapport Incorporer 7
~

Suas escolhas são maiores que o destino

Os dados rolaram sobre a mesa e o resultado foi o pior de todos. Se existisse um universo onde a pior da pior das histórias acontecesse, ele seria o nosso. Éramos 5: O cavaleiro; o bárbaro; o ladrão; o arqueiro e o clérigo. Um grupo perfeito, unido, impassível. Não tínhamos medo de nada. Estávamos prontos para lutar contra tudo que tentasse nos interromper. Éramos o terror nas ideias do mestre que narrava a história. Nada, absolutamente nada poderia nos parar.

A aventura era o disco dos três, nosso objetivo era encontrar a última parte do tal do disco, artefato mágico que seria responsável pela invocação de um antigo deus maligno, e assim, consequentemente, salvar a humanidade das garras tenebrosas do mal. Resumindo, era uma noite em que sairíamos como os heróis do mundo, os maiorais. Era a noite perfeita.

As escolhas eram simples: matar o vilão e libertar o local onde estava a última parte do disco. Nós já havíamos passado pela pior parte e agora, mais do que nunca, nada poderia nos deter.

Apenas as nossas próprias escolhas.

E foi isso que aconteceu. Decidimos que seria melhor se não matássemos o vilão. A ideia era aprisionar o dito cujo e arrancar dele tudo que pudéssemos de informações. Uma burrice sem fim, afinal, estamos falando em salvar o mundo. No final das contas conseguimos a tal da última parte do disco, porém, sob pena de um custoso preço dentro de nosso mundo imaginário. Ao fim da noite, ou melhor, no início da manhã do outro dia (era muito comum atravessarmos as noites jogando), estávamos tristes, porém satisfeitos. Mesmo fazendo as escolhas que depois julgamos serem erradas, tínhamos a tranquilidade de que elas haviam sido feitas em grupo e que era o que realmente achávamos que era o certo. E isso já bastava.

Durante toda nossa vida fazemos escolhas que julgamos erradas mesmo que achemos que estas sejam as certas, e isso faz parte. Mas é triste pensar e lembrar de quantas dessas escolhas que na real talvez fossem as certas e eu achei que eram erradas, e isso tudo, graças ao tão temido pré-julgamento. É muito fácil falar que estamos adaptados a lutar contra os julgamentos da sociedade, que não ligamos para o que os outros pensam, que cagamos para tudo que está à nossa volta, mas na realidade é necessário um esforço absurdo para tentar fugir disso. Quando falamos sobre esse assunto, a primeira coisa que vem em nossa mente é algo relacionado a aceitação social, mas gostaria de ir um pouco mais além. Me refiro sobre as escolhas da vida, aquelas bem complicadas e duras. Aqueles medos que estão lá dentro e protegemos com todas as nossas armas, receosos que até mesmo nossos principais vínculos nos julguem da pior forma. Dentro de todas essas questões, carrego duas reflexões que me auxiliam demais quando percebo que estou imerso dentro destes medos. Inclusive, uma delas me ajudou muito a aceitar que eu, sim, poderia colocar meus textos para o mundo ver.

  • A primeira é: Confie nas pessoas que você ama, elas te amam e não, não querem o seu mal. Caso elas queiram, olha só… Elas não te amam. E claro, caso você não ame ninguém, confie em você mesmo. Acredite, você é a única pessoa que nunca vai querer o seu próprio mal. Por mais que muitas vezes não pareça, o amor próprio está guardado em algum lugar aí dentro.
  • A segunda: Existe espaço para a individualidade de todo mundo. Alguém vai querer ouvir você cantar, tocar sua música, fazer sua arte, até mesmo conversar. Não existe essa de “não vou fazer porque tem gente melhor” e blá blá blá. Alguém em algum lugar está pronto para te receber de braços abertos.

Acredite nas suas escolhas. Tente milhões de vezes e demore 20 anos para se encontrar, caso for preciso. Mas não deixe que ninguém diga que você está fazendo algo errado quando o assunto é a sua própria vida.

Suas escolhas são maiores que o destino, pois são elas que vão te levar para esse lugar que não sabemos onde fica. Certas ou erradas, elas são as NOSSAS escolhas e fazem parte da nossa história. São as únicas coisas que realmente são nossas.

6 Août 2022 17:35:34 2 Rapport Incorporer 11
~

A massa com galinha da Noemi Terezinha

Faltavam 3 dias para minha vida mudar completamente. A vinda para outro continente, outra realidade, outra vida, é algo que não sai da sua cabeça. As escolhas que você precisa fazer, ficam te martelando, martelando e martelando. Parece que tudo que você quer, ou parece impossível, ou errado. Só que é aquilo, tem uma hora que você precisa parar de se esconder da vida, se não o tempo passa e você não conseguiu fazer 10% do que queria. Naquela altura, eu já tinha me “despedido” de quase todo mundo, e mesmo assim a ficha estava muito longe de cair, parecia que eu estava deixando bilhões de coisas para serem resolvidas, entretanto, no meio de toda aquela loucurada, eu tinha uma certeza:


Eu precisava comer, pela última vez, a massa com galinha da Noemi Terezinha.


E sim, eu sabia que seria a última vez.


Nessa época eu morava no centro de Porto Alegre e a viagem até o gentil apartamento de minha vó durava em torno de 20 minutos. Lembro-me de durante o caminho, pensar e repensar por inúmeras vezes que eu PRECISAVA pedir a receita da macarronada para ela, já que gostaria muito de tentar reproduzir “a famosa” em minha nova casa.

Tudo corria bem, até que a realidade fez o trabalho de me dar um banho de água fria. Conforme o carro ia se aproximando do apartamento dela, eu percebi que talvez aquela , de fato, fosse a última vez que eu estava fazendo aquele caminho para exclusivamente ver a veia. E esse pensamento fez eu perceber, também, que aquele seria um dia de muitas “últimas vezes”. Talvez seja por isso que eu tenha deixado essa como a última questão para se resolver, a última visita que eu fiz para alguém, o último “compromisso” no Brasil.

Chegamos no portão. Estranhamente, os motoristas do Uber nunca acertaram o local do prédio de primeira, já que o mesmo fica em uma esquina meio estranha, triangular. Só que naquele dia não. O Uber foi certeiro, uma flecha precisa que me acertou e tirou a oportunidade de pensar e fazer, novamente, as escolhas certas. Na real, eu queria muito que daquela vez ele tivesse errado, pois aí eu teria mais uns dois ou três minutos para refletir que, sim, seria a última vez.

Como de praxe, aos berros, pela última vez a chamei: Noemi! Noemi! E este era apenas um, do infinito cardápio de nomes que ela tinha: Noemi, Terezinha, Noemi Terezinha, Vó, Tetê, Vó Tetê, Tereza, Dona Tereza, Vozinha… E assim por diante.

Da janela ela me atendeu com seu tradicional “oi”, impossível de imitar. Ela tinha um pouco de problemas com o controle do portão, embora fosse muito boa com tecnologia. Possuía um Tablet para ver seus vídeos no YouTube e um celular touch, este que a trazia alguns problemas de manejo, já que de acordo com ela, seus dedos eram grossos e isso fazia com que a tela não reconhecesse seus toques.

Entrei no pátio com o portão semiaberto e, ainda gritando: Noemi! Noemi! A vó dizia que eu gritava demais. E acho que é verdade…Haha

Abri a pesada porta de ferro e subi as escadas de concreto alisado. Naquele momento minha cabeça era uma filmadora, não queria perder nenhum detalhe.

Subi os dois jogos de escadas e logo me deparei com a porta do apartamento entreaberta.

E lá estava ela.

Camisa azul com um ou dois botões desabotoados na parte superior, cabelos mais grisalhos do que castanhos e um sorriso muito grande no rosto. Ela estava feliz em me ver, pois também sabia que aquela poderia ser a última vez. Afinal, ela mesmo dizia que estava chegando no final de sua jornada na terra. Nunca quis acreditar, mas, naquele dia algo fez com que eu acreditasse nisso. Tem coisas, sentimentos e sensações, que não podemos lutar. Apenas aceitar.

A recepção foi a mesma de sempre. Abracei-a forte e lambi toda sua testa. Ela falava sorrindo e feliz: “Para guri! Tu tá louco! Não! Não me lambe! Sai daqui! Sujou toda minha testa! Onde já se viu lamber as pessoas!

Depois do meu tradicional “oi vó”, larguei minhas coisas na mesinha da sala e ela foi para cozinha, conversamos sobre como a pandemia fez mal para todos (muito para ela), conversamos sobre minha viagem para Suécia, como era longe, como era frio e como, talvez, eu demoraria para voltar.

Após ter posto o celular para carregar, andar um pouco pelo apartamento, ver as fotos da família que estavam nos porta retratos, falando com ela, decidi voltar para a cozinha.

E foi chegando lá que fiz uma das melhores escolhas da minha vida.

Minha vó, de costas para a porta, começava a preparar o peito de frango para o macarrão. Botei os pés na cozinha, e sem querer perder o momento, falei: Noemi! Pensa rápido! Olha a foto!

E ela virou.

Sorrindo como sempre, feliz como sempre.

Seus olhos fechados na foto, fizeram com que ela quisesse que eu apagasse. Jamais.

Essa foto ilustra a lembrança que eu tenho de um dos pedaços mais importantes da minha vida. Pois não é apenas a última foto que tirei dela, mas também a possibilidade de pensar em coisas como: Crie momentos felizes.

Aquele era para ser um dia triste, era a última vez. Mas, com certeza, foi a melhor última vez de todos os tempos. Foi a nossa última vez. A última vez que nós criamos e fizemos ser perfeita. Saí de lá “tristemente feliz”. Saí de lá com a certeza de que eu poderia ser feliz no outro lado do mundo e que ela, realmente, queria que eu fosse feliz. Saí de lá sonhando com aquele almoço que, como sempre, foi mágico.

Saí de lá e acabei esquecendo de pegar a receita. Mas feliz por, pela última vez, ter comido a massa com galinha da Noemi Terezinha.

3 Août 2022 14:32:56 0 Rapport Incorporer 8
~
En savoir plus Page de démarrage 1 2