kyoongni pamo oc.

Eu hesitei. E no instante que me foi dado para pensar, não apertei o gatilho. Chanyeol tinha razão, eu pedi por aquilo. Pedi para sentir a luz do sol. Várias e várias vezes. Eu só tive medo de perdê-lo nessas decisões, e acabei me perdendo na escuridão.


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

#chanbaek #exo #baekyeol #Mercenários
Cuento corto
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Aperte o gatilho

Na minha profissão, hesitar não era uma ideia a ser ponderada. Um piscar de olhos valia uma vida, significava perder milhões. E eu não estava para perder dinheiro mesmo que meus dedos ficassem cada vez mais gelados ao redor da arma. Se eu fosse religioso o bastante e tantos anos dentro da igreja quando criança valessem muito no meu agora, diria que eu estava entre a cruz e a espada. E nunca me pareceu tão atrativo ter uma para cravar no peito alheio e ver os olhos escuros perderem o brilho gradativamente, como uma rosa murcha com o mormaço do verão. Não era satisfação pessoal, mas sim uma prova de que eu não teria mais um motivo para hesitar. Ainda que não somente eu o quisesse morto, a respiração alheia ao menos fraquejava perante a ameaça de seus miolos mancharem a parede descascada daquele beco sem saída no torpor da madrugada.

E quando por meus lábios escapou um suspiro e o indicador deslizou pelo gatilho — eu quase podia escutar o roçar no metal, como um aviso sobre o quanto eu estava errando — um ruído quase inaudível eu ouvi. Em poucos segundos estávamos empatados e eu também corria o mesmo risco que ele. Por um suspiro, eu estava à beira do perigo. Mas não exatamente com medo da morte, talvez com medo de apertar o gatilho e me sentir, pela primeira vez, culpado. Encarei-o como se ele fosse o precipício temido por muitos. Como se os detalhes de seu rosto fossem uma avalanche pronta para destruir as estruturas aclamadas como sólidas. Estávamos cruzando um caminho perigoso, acredito nisso desde que uma foto de câmeras de segurança foi mostrada com o sussurro “ele te vale uma boa grana”.

Eu poderia ter negado, mas não quis negar. Um matador de aluguel é muito mais que detalhes de um passado inconsequente cheio de nuances que jamais estarão postas à mesa para uma solução confortável a todas as partes. Eu só não poderia esperar tantas armadilhas de minha própria mente bem treinada e acostumada com o fato de que uma vida rompida pelo crime me vale dinheiro. Fui posto naquele lugar com a falta de esperança de poder sair sóbrio. Não havia nenhuma substância ilícita, contudo eu já conhecia a sensação de perigo ao estar com ele, e me manter naquela encruzilhada apontando uma arma para ele enquanto uma também era apontada para mim, era a mesma coisa que atiçar a adrenalina e me encher de morfina para aparar a dor.

— Não precisa me matar. — A voz era tão carregada, me parecia que ele sentia a mesma cólera que eu naquela situação.

Mais um suspiro e as pálpebras tremeram. Por dentro das luvas, as mãos suavam, a pele pinicava como a primeira vez que as mãos grandes foram capazes de me fazer tocar o céu. O sangue corria rápido e eu podia ouvir o coração bater acelerado próximo ao ouvido. Eu estava ficando alterado ainda que a mesma posição rígida e o corpo coberto pelo sobretudo fosse o suficiente para acobertar o inferno barulhento dentro de mim. Um suspiro escapou de meus lábios, o sopro quente se condensando em frente ao meu rosto e distorcendo, por ligeiros segundos, a imagem dele em frente aos meus olhos. Assim tudo se tornava muito mais fácil. Mas ainda não era o suficiente quando dentro de mim existia um poço de recordações dolorosas e alucinantes ao lado dele.

— Na verdade, eu preciso — respondi, inclinando levemente a cabeça para o lado numa nítida expressão de contrariedade. Apertei os dedos ao redor do cabo da arma alongada pelo silenciador.

— Então por que ainda não o fez? — perguntou encarando meu rosto, buscando qualquer indício de uma hesitação que pusesse em dúvida meu trabalho.

Park Chanyeol nunca foi o melhor em disfarçar o que realmente queria e naquele momento não estava agindo diferente, porém eu estava mais empenhado a tentar descobrir o porquê de sentir um sopro na nuca avisando que algo estava muito errado. Os dedos dos pés dentro da bota encolheram no passo que dei para mais próximo dele, o atrito do solado com a poeira da ruela o deixou em alerta, e pude ver os dedos grossos e longos pressionando a própria arma prateada. Então, senti o silenciador tocar em sua testa úmida de suor. Engoli em seco o bolo de lágrimas que era quase imperceptível dentro de mim. Ele piscou lentamente, como se estivesse ponderando o ato seguinte: abaixar a própria arma vagarosamente, me deixando como único alvo da dominância na situação. Sobre meus olhos em alerta para cada movimento dele, Chanyeol travou a arma novamente e voltou a escondê-la atrás de si, abaixando o casaco de moletom grande para cobrir o volume.

— Você pode estourar minha cabeça agora. Ninguém vai ouvir e terá tempo o suficiente para desovar o corpo em qualquer lugar antes de darem conta do meu sumiço. — A mandíbula de Chanyeol travou enquanto ele praticamente rugia as palavras entredentes. As mãos grandes e fortes envolveram o meu pulso e parte da arma junto aos meus dedos. Ele apertou, me fazendo vacilar com o corpo para frente, e eu não soube ao certo o que dizer sobre a reação de ter medo de apertar o gatilho.

Olho no olho pela primeira vez desde que o encurralei naquele beco. A sensação de adrenalina era muito mais forte ao ponto de sentir o peito doer de tão acelerado que estava. Ele puxou o ar com força. E suspirou com os lábios cheios entreabertos. Eu estava a ponto de pedir por misericórdia porque o toque dele era quente e eu podia sentir através da luva — no maior engano mental de que eu não estava relembrando de como éramos loucos ao nos embolarmos pela cama na sede do outro, na luxúria de um amor proibido expressado pelos corpos suados, fervendo, se esfregando, se chocando, se apaixonando.

— Atira, porra! — grunhiu mais alto, fazendo minha respiração tremer e meu corpo metaforicamente fraquejar em hesitação. — Acaba com essa perseguição de uma vez. De algum jeito eu vou acabar com uma bala na cabeça — falava como se aquilo fosse um martírio próprio, uma verdade que o perseguia todos os dias. Meus lábios tremeram e mais ar se condensou entre nós. Ele estava ofegante, mas não parecia cansado. Ele estava tão nervoso quanto eu pensei que não estaria alguns minutos atrás. — Atira e arranca minha cabeça para levar de bandeja aos teus chefes, pau mandado.

— Cala a porra da boca, Chanyeol. — Minha voz era rouca e seca, como minha garganta estava. Meu corpo sucumbiu à vontade de me aproximar mais e agora quase nenhuma distância nos separava. Pressionei com mais força o cano do silenciador na testa úmida e meu dedo tremeu sobre o gatilho. Eu pude notar o pomo de Adão subindo e descendo ao passo que os dedos grossos pressionavam meu pulso. — Eu sempre te avisei pra não ficar no meu caminho. — Ele riu amargo e eu ergui a sobrancelha.

— Você ainda não percebeu que a gente sempre vai se cruzar nessa merda de vida que temos, Baekhyun? — Deixei que ele escorregasse meu braço e, consequentemente, a ponta do silenciador pelo rosto até alcançar o próprio peito. Engoli em seco quando ele pressionou a arma no lado esquerdo. Meu corpo foi mais para frente e eu já podia sentir o calor dele emanando sem controle contra meu corpo, debaixo de temperaturas baixas de uma madrugada. — Atira aqui e acaba de uma vez com essa sina que eu tenho de sempre te encontrar, mesmo que nas piores ocasiões.

Tudo que eu podia concluir naquele momento era que ele tinha razão. Não tinha uma palavra melhor para definir o que tínhamos: sina. Mesmo que puxássemos para longe, nos chocávamos na volta e sempre doía. Sempre machucava porque éramos pessoas horríveis, e nosso melhor passatempo era nos destruir com a inverdade de que teríamos paz. Vivíamos como gato e rato ainda que fosse a primeira vez que apontei uma arma para ele. Chanyeol fazia de tudo para colocar o chapéu branco e ser um dos mocinhos. Eu, por outro lado, vivia numa armadilha e vida sem muitas saídas a não ser fazer o que melhor sabia: matar.

E foi isso que havia nos juntado. Foram anos com um parceiro que sabia tão bem quanto eu que nada mais era tão importante quanto pôr dinheiro no bolso independente se alguém tivesse que morrer. Todos morrem. Todos partem dessa para melhor (ou pior?) em algum momento, por algum motivo — nós não éramos Deus, quem sabe uma ferramenta que ele usava para colocar um ponto final naquelas vidas nada inocentes. No fim, não me sentia culpado. Até que Chanyeol começou a pensar que algo estava errado.

Nossos destinos foram cruzados cedo e a sede por aventura era muito maior que a prudência. Dois jovens buscando por liberdade e dinheiro, muito dinheiro. Nada era melhor que oferecer nossos serviços para aqueles que não queriam diretamente sujar as mãos. Juntos, éramos como Bonnie e Clyde vagando pelas mais diversas ruas da sujeira, do crime, buscando algo que nos completasse bem mais que um e o outro. O prêmio era o dinheiro e os meios eram rolar na cama, gemer de prazer e pedir para ele continuar me usando com seu corpo quente sobre o meu, sua boca molhada sobre minha pele e seu gosto tomando conta do meu paladar.

Eu ainda me lembro de mais de cinco anos atrás, quando ele me deixou dentro do quarto de um hotel barato no meio da estrada. E não havia nada além de um bilhete colado na cabeceira da cama bagunçada depois de uma noite onde ele havia me deixado suplicar pelo meu próprio prazer: “adeus”. Talvez eu estivesse sentindo o que senti ao ler aquela simples e tão significante palavra. Era exatamente daquele jeito: hesitação e desespero. E só precisou de um suspiro para que eu desabasse em lágrimas sobre a cama. Naquela rua, só precisou de um suspiro para que minha mão fraquejasse e eu me visse sem coragem de apertar o gatilho. Ele continuava mantendo a porra do cano em direção ao peito e me olhava com os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Minhas pálpebras tremeram e a visão dele ficou embaçada à medida que lágrimas finas cortavam minha bochecha, quentes e salgadas.

— Atira — murmurou, querendo soar mais firme, mas sendo nada mais que um cão medroso encolhido contra a parede. — Atira. — Tive dúvidas se ele havia sussurrado novamente ou se era a voz insistente na minha cabeça mandando eu concluir meu trabalho.

O que Park Chanyeol era para mim agora se não mais que um dos alvos daqueles que me pagariam?

Tudo soava diferente dessa vez. Nos últimos anos, era muito mais fácil tê-lo por perto. Quando eu menos esperava, ele estava sentando-se ao meu lado em uma mesa de bar, pedindo aquela cerveja que parei de tomar porque só tinha sentido se o gosto dela fosse misturado ao dele. Como alguém que sabe como mover as peças de seu jogo de xadrez, ele só bastava me olhar para que nossos corpos já estivessem suando e se enroscando de novo. E eu não ousava perguntar o motivo de ter ido embora porque eu também fui, eu amassei o pedaço de papel amarelado e virei as costas ignorando minha própria dor. Ele foi primeiro, ele fez o mais fácil. Então, essas vezes se repetiam. Ele sabia que eu continuava com o meu, o nosso, trabalho, e mesmo conhecendo o vilão, Chanyeol nunca finalizou a história. Ele ia e vinha, me olhava e me tomava, e eu era o Rei que, embora importante, era controlado pelos jogadores.

Nenhuma palavra, apenas toques — só olho no olho, bocas se chocando e corpos suados em um hotel de quinta, um banheiro de um bar e na minha casa quando ele colocava em prática o que o ensinei sobre destrancar fechaduras. Ele me esperava nu, completamente entregue ao que dizia respeito ao nós de antes. E eu via em seus olhos que, entre as duas vidas, a melhor era quando eu o jogava na cama e usava seu corpo para o meu prazer.

Nunca mais houve um adeus.

Nunca mais houve um nós.

E por isso, eu me dei a certeza que nunca chegaria ao ponto de precisar pôr um fim ao tormento. Apontar uma arma para a cabeça dele me parecia um pesadelo durante uma noite cheia de sonhos. Era sufocante, mas também me aliviava por me fazer ver que nada seria tão simples por muito tempo.

Chanyeol afrouxou o aperto ao redor do meu pulso, me surpreendendo ao enfiar os dedos nos cabelos da minha nuca. Aquele toque era tão familiar e me dizia tanta coisa que fui incapaz de segurar mais uma lágrima rolando por meu rosto. Quando fazia isso, eu sempre sentia que ele estava precisando de mim e não conseguia colocar isso em palavras. Acredito que por medo de elas se tornarem uma ameaça. Ele apertou, e com um suspiro quase desesperado, abaixei a arma parecendo que meu braço pesava toneladas.

— Eu te disse tantas vezes para ficar fora do meu caminho, Park — falei como um alerta, não só para ele, mas para mim também. — Porra, se quer ser o bonzinho dessa história, fica longe de mim porque os caras maus querem uma bala enterrada na tua cabeça e eu sou a arma. — As palavras saíam em tom de aviso, mas com a voz rouca tudo me parecia melodramático. Travei a pistola contrariando o que eu estava querendo expressar.

— E estão te comprando para isso — disse me puxando para anular completamente a distância de nossos corpos e dos rostos. Meus lábios entreabriram, puxando o ar quase desesperado. Vaguei o olhar pela boca, pelo desenho do nariz, notando a pele ligeiramente úmida do suor e pintada pelas sardas quase não aparentes. Subindo mais, o encarei. — Foge disso, Baekhyun — pediu, sereno como a noite. — O que te adianta ganhar para depois saber que irá perder tudo porque precisa viver nas sombras?

— Foi por esse motivo que disse adeus? — De novo, puxei o ar, entorpecido com o jeito que estávamos conectados um ao outro pelo olhar, pelas palavras… pelos sentimentos.

Talvez em algum momento eu tenha pensado em como ele reagiria quando eu tocasse naquele assunto. Várias saídas encontrei em meio a conversas sem muita lógica, principalmente a que ele ia embora e não me diria por quê. Porém, ele não me parecia tentar se esquivar, não parecia com medo de responder. A falta de coragem partiu de mim, no fim de tudo, que nunca tive a audácia de perguntar o motivo de um dia ele ter dito um adeus, e depois ter voltado várias e várias vezes para me bagunçar.

Chanyeol engoliu em seco, e em nenhum instante desviou o olhar do meu. Eu gostava de como ele era, acima de tudo, puro. Ele era preto no branco e isso me atraiu desde que o vi pela primeira vez. Segredos todos têm, mas Chanyeol nunca precisou realmente tê-los apenas para si. Suas mãos me puxaram mais, nossas bocas estavam a um triz de se tocar e eu pagaria para sentir a dele de novo. Quem sabe assim minha cabeça se livrasse da neblina e voltasse aos eixos para que eu pudesse concluir meu trabalho.

— Eu nunca disse adeus para você e sim para o que fazíamos — revelou com pesar, o mesmo que estava no meu peito, e me livrei quando busquei por um sinal que fosse de inverdades naquele olhar e não encontrei. — Eu precisava me afastar porque sabia que você tentaria me convencer do contrário. Eu não queria continuar — o interrompi com a voz rouca e sussurrada, fechando os olhos.

— Você se afastou de mim, Chanyeol.

— E foi doloroso ter que fazer, por isso eu voltei o mais rápido que consegui. — As pontas dos dedos alheios acariciavam meus cabelos e aquilo fazia me sentir em casa. Deitado numa rede, aproveitando a brisa do campo, com ele deitado sobre mim. Onde tudo começou. — Eu não queria te deixar, mas foi preciso pra mim. — Ele tocou a ponta do nariz no meu, resvalando bem devagar para me trazer aquela sensação de calma por dentro com o carinho.

— Por que está falando isso só agora? — Ergui a mão livre para segurar o pulso dele, sem a mínima intenção de afastá-lo. A outra mão era como um equilíbrio para me manter na realidade quando eu sentia o cabo da arma firme na palma dela. — Por quê? — Suspirei com os lábios entreabertos, sentindo a boca dele roçar na minha vagarosamente. Eu estava no meu próprio inferno e ele parecia tão lindo quanto o paraíso.

— Porque é o fim da linha para eu e você.

Aquilo me parecia ter tantos significados. Me dava medo, mas me soava extremamente satisfatório também. Era onde os nossos passos paravam. Mas se estivéssemos juntos, talvez eu continuasse muito bem.

Eu fui tomado por Chanyeol no meio do caminho enquanto avistava o horizonte e desejava que ele também estivesse lá. Senti aqueles lábios nos meus, quentes, sabendo exatamente o que fazer para me arrancar um novo suspiro. E eu o acompanhava naquela loucura porque nessa vida a gente só consegue levar conosco as memórias, e ter Chanyeol nas minhas era o maior exemplo de que aprendi, errei, acertei, me machuquei e também amei e fui amado. Me deixei levar como se fosse inocente aprendendo por meio de uma história de romance com final feliz mais clichê possível. Me senti abrindo um livro e sorrindo a cada parágrafo, tudo por causa dos lábios dele nos meus.

Meu corpo todo formigava na vontade de ter muito mais que nossas línguas roçando, a ponta dos dedos me tocando e nossos corpos clamando por mais que um beijo quente como aquele. Sempre era assim. Eu sempre necessitaria de muito mais de Chanyeol sabendo que ele me daria, como um pai fazendo todos os gostos de seu filho mimado.

Já não sabia ao certo o que me colocou naquela ruela sem saída, porque aceitei o trabalho. Já não me fazia mais sentido segurar aquela arma na intenção de acabar com ele e, no fim, guardar mais dinheiro. Já não compreendia porque nos separamos se talvez eu sempre quisesse, no fim, fugir daquele mundo com ele. Me soava injusto como tudo havia se moldado e como alguma força maior tinha caprichado para nos cruzar toda vez.

E, de fato, era o fim da linha. Eu podia ouvir as sirenes ao longe, elas estavam se aproximando e eu ainda me sentia dopado com a boca de Chanyeol na minha. Era o fim da linha. A trovoada arrepiando-me a coluna, as gotas grossas de chuva molhando-nos no breu da madrugada enquanto segredávamos aquela paixão de novo. Eu não quis parar e Chanyeol não hesitava em envolver meu corpo, me mostrar que ele estava ali para me proteger — por mais divertido que fosse quando na verdade eu estava sempre em sua retaguarda. Só demos um fim quando precisamos buscar por ar e, ainda assim, era próximo ao outro que isso parecia mais fácil. Abraçados, eu o encarava, a chuva nos encharcando, um aviso dos céus para toda aquela conversa de recomeço. Os cabelos pretos caíam na testa e pingavam nas bochechas, os lábios cheios estavam vermelhos e molhados. Ele era, para mim, como um rifle para um caçador.

— Por que fez isso? — perguntei puxando o ar com força entre as palavras, água da chuva topando em meus lábios, minha roupa encharcada, e o importante era que eu estava colado a ele, sentindo o corpo grande no meu, me perdendo nele como a chuva se perdia naquela imensidão de terra.

Eu quase podia ver os carros com suas luzes vermelhas e azuis iluminando todo o quarteirão, cercando-nos como se estivessem em busca da mais rara gota d’água no deserto. Famintos, sedentos. Eles teriam dois assassinos atrás das grades, pois meu corpo doía esmagando-se na cruel realidade que me punia.

— Porque — me interrompeu enfiando os dedos nos meus cabelos de novo, me apertando contra ele e juntando as próprias sobrancelhas. — Uma vez você me disse que queria viver à luz do sol, lembra? — Engoli em seco com o ligeiro sorriso trêmulo que ele me deu. — Era eu e você viajando para mais um serviço e… eu lembro — murmurava com o tom desesperado, e se não fosse pela chuva grossa que caía sobre nós, com certeza eu poderia ver as lágrimas da mesma espessura manchando as bochechas sem cor. — Você me disse que queria, Baekhyun. — Ele suspirou, os ombros movendo-se pesadamente para baixo, os lábios trêmulos nitidamente necessitando dos meus. Ele estava aliviado.

E, por mais estranho que fosse, eu também me sentia. Soltei a arma no chão, os respingos de água da poça próximo aos nossos pés batendo em minha bota. Por mais uma vez, senti seus lábios nos meus com apenas um selar celebrando um futuro reencontro. Era o fim da linha para mim e para ele. O ponto de partida para o nós. Me afastei com passos pesados para trás à medida que os pneus eram freados contra o asfalto da rua principal, as botas polidas dos policiais batiam no chão, as armas prontas para dispararem a qualquer movimento não ordenado. Juntos, erguemos os braços, pondo as mãos atrás da cabeça.

— Eu não posso te proteger nessa — sussurrei mais para mim do que para ele e achei que seria quase impossível ele escutar. E talvez ele nem tenha ouvido minha voz, apenas soube exatamente como eu me sentiria com aquilo tudo.

Eu não tinha medo de viver onde a luz do sol me seria distorcida, mas eu sei que Chanyeol se sentia muito mais feliz com a brisa no rosto, as flores do campo, nossa felicidade livre de jogos.

— É minha vez de te dar cobertura — dizia à medida que os passos dos policiais ficavam mais próximos e algumas vozes eram ouvidas, se afastava da parede e ficava ao meu lado com as mãos para trás da cabeça. — Dessa vez, eu te protejo. — Um nó fechou minha garganta e eu me senti sufocar nas lágrimas que caíam e tentava prendê-las.

— Parados! — Tinham nos encontrado onde percebi que o preto e branco poderia ser muito mais atraente. — Senhor Byun e Senhor Park, estão presos pelo assassinato do secretário de estado Kim Soon ocorrido em setembro de 2013. — Nossos pulsos colocados para trás das costas e presos pelas algemas. Olhei-o mais uma vez e os orbes de cor castanha também me encaravam como se a chuva não nos manchasse. — Vocês têm o direito de se manterem em silêncio. O que for dito será usado no tribunal. Em caso de não terem condições para pagar um advogado, o Estado oferece defesa pública.

Mais um suspiro. Meu corpo foi curvado para frente e uma mão pesada me mantinha daquele jeito enquanto minhas botas se ensopavam nas poças de água e melavam na terra molhada. Apertei os olhos fechados, deixando as lágrimas irem embora junto às gotas de chuva.

Eu hesitei. E no instante que me foi dado para pensar, não apertei o gatilho. Chanyeol tinha razão, eu pedi por aquilo. Pedi para sentir a luz do sol. Várias e várias vezes. Eu só tive medo de perdê-lo nessas decisões, e acabei me perdendo na escuridão. Nossas vidas foram pautadas pela ganância e nos tornamos mestres naquilo, mas não precisávamos traçar nosso destino com a mesma ferida que se abriu quando percebemos que, embora houvesse o dinheiro, estávamos vazios.

Dessa vez, o deixei na retaguarda e ele não hesitaria em atirar.

24 de Abril de 2020 a las 20:14 0 Reporte Insertar Seguir historia
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Fin

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pamo oc. Espelho em minhas histórias um mundo particular cheio de sentimentos. Apaixonada por cada parágrafo, cada palavra e personagem.

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