monilovely Sai Daqui

Para os habitantes de South Park, eles eram nada mais que um estorvo, ou simplesmente dispensáveis. Eles não faziam cerimônia sobre o quanto não os queriam ali, sobre o quanto os desprezavam. Mas eles tinham mais o que fazer do que se importar.


Fanfiction Sólo para mayores de 21 (adultos).

#rebstella #gregstophe #dip
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Trouble

Era difícil ser estrangeiro em um país estranho. Eles podiam viver nos Estados Unidos há muitos anos, porém, mesmo assim, sempre haveria uma parte deles que sentiria saudades de casa, da terra onde nasceram, fosse qual fosse. A exclusão social que sofriam também não ajudava muito nesse aspecto, pois só os lembrava ainda mais do quanto eram diferentes e o quanto não encaixavam naquela sociedade tão diferente da deles. Coisas que para eles era normal, para seus colegas de classe transpareciam como completos absurdos, podendo variar de suas roupas para a forma como agiam. Tolerância parecia ser uma palavra desconhecida para as pessoas daquele país do qual tanto se vangloriavam por ser “a terra dos livres” e toda essa ladainha. Na realidade, eles não tinham nem a capacidade de cuidar da própria população direito e ainda queriam se meter na vida dos que vinham de fora, como se eles tivessem culpa por serem diferentes - o que, convenhamos, é a lógica mais estúpida para se detestar alguém.

Serem chamados de irrelevantes não era incomum. As pessoas não se importavam muito com a existência deles ou o que faziam; alguns, não duvidavam, gostariam que eles estivessem mortos. Não os incomodava a esse ponto, pois lidavam com esse tipo de situação há muitos anos. O preconceito entre seus colegas americanos com estrangeiros esteve presente desde o terceiro ano, talvez até antes, então não é como se não houvesse tempo para eles se acostumarem. A sorte que tinham era de terem uns aos outros, assim, não ficariam sozinhos; muito embora essa tenha sido sua realidade por muito tempo. Nem sempre era fácil, mas eles achavam um jeito de sobreviver.

Mesmo assim, o fato de que ninguém gostava deles tornava as coisas incrivelmente constrangedoras quando, por exemplo, queriam ir ao cinema e eram impedidos de entrar.

- Isso é ridículo. - Estella cruzou os braços e franziu o cenho, dando as costas ao vendedor de bilhetes.

- Algum motivo pra não nos deixar entrar? - questionou Gregory, mantendo o sorriso mais educado e falso que conseguia naquele momento de estresse.

O vendedor franziu o cenho e manteve-se firme em sua posição.

- Eu sinto muito, mas não permitimos gente cafona.

Estella voltou a se virar para o bilheteiro, piscando os olhos lentamente, como se estivesse com dificuldade de entender.

- Cafona?

- Eu acho que ele está falando de mim. - disse Pip, abaixando o olhar.

Todos os olhares se voltaram ao adulto da cena, incrédulos.

- Cara, se você queria morrer mais cedo, era só ter falado. - ironizou Christophe ao perceber Damien ranger os dentes.

- Será que não podemos sair juntos uma vez sem fazer barraco? - a britânica reclamou, levando o dedo indicador e o polegar à testa.

- Se as pessoas dessa cidade parassem de ser tão cornas ficaria mais fácil. - ironizou Gregory com os braços cruzados.

- Não é nossa culpa que você é mal comido, cara. - Christophe completou, dando de ombros.

O homem, que já tinha o cenho naturalmente franzido, parecia um demônio ao franzir mais ainda a testa e ranger os dentes para os estrangeiros.

- Deem o fora daqui!

Gregory arqueou uma sobrancelha. Tinham acertado em cheio e agora que não iriam ao cinema mesmo. Em seguida, deu de ombros e apenas acompanhou os demais de seu grupinho para longe do estabelecimento.

Não era de todo um problema, já estavam acostumados, mas, ainda assim, a situação não deixava de ser incômoda e estressante, principalmente quando cobravam o grupo todo ao mirar em um. Já haviam discutido sobre o assunto diversas vezes, sabiam o quanto machucava saber que desprezo os seguia em razão de um; doía. Embora diferentes, já tinham passado por tanta coisa juntos que eram praticamente inseparáveis - em um nível mais saudável que o grupo de Stan, pelo menos. Se alguém se machucava, não levava muito tempo para que os outros ficassem sabendo e alguém se ofendesse, propriedades fossem quebradas ou algo pegasse fogo. Às vezes os três.

- Parece que não vamos ao cinema hoje. - ponderou Pip em voz alta, apertando a manga de seu casaco entre os dedos. Seu tom havia saído da forma mais cabisbaixa naquele dia, e, por Deus, se isso não deixou todos do grupo ainda mais estressados com o ocorrido.

Damien franziu o cenho e, envolvendo a cintura do namorado com o braço, arqueou uma sobrancelha.

- Me chamem de antiquado, mas da última vez que eu olhei, uma montanha de escombros e corpos em chamas não era considerado um cinema. - disse com o nariz empinado, provocando uma breve confusão entre os outros estrangeiros.

De repente, algo explodiu dentro do cinema atrás deles e várias pessoas saíram correndo de lá com os cabelos pegando fogo.

Todos pararam de caminhar para observar o desastre que aquele lugar tinha se tornado, espantados, enquanto o anticristo mantinha um sorriso satisfeito em seus lábios. Ah, como era bom tacar fogo em seus inimigos…

Os outros, no entanto, não pareciam muito felizes.

- De novo: será que não podemos sair juntos uma vez sem fazer barraco? - urrou Estella, jogando os braços aos céus, irritada.

- Não me olhem assim. Eu sou legalmente obrigado a colocar fogo nas coisas. - o anticristo cruzou os braços. - Reclamem com meu advogado.

Já faz aproximadamente seis meses que Estella estava naquele país e, até agora, ainda lhe espantava a forma como aqueles garotos lidavam com seus problemas - não que ela fosse julgar, pois, se pudesse, faria pior. Quando eles chegaram a mencionar para ela que as pessoas de lá faziam de tudo para, em suas palavras, “colocá-los em seu devido lugar”, pensou que era um exagero, mas ela se surpreendeu ao ver até onde eles estavam dispostos a ir apenas para encher o saco deles.

Gregory, taxado como o metido do grupo, raramente era levado a sério e suas respostas durante a classe eram sempre recebidas com reviradas de olho ou risadas.

Christophe, sendo o mais violento e agressivo dentre eles, era para quem todos recorriam quando queriam encher o saco de alguém, geralmente em razão de assustar um terceiro aluno e isolá-los ainda mais; era ele quem tinha a fama do “personagem misterioso” que todos suspeitavam vender drogas no beco da esquina e quem tinha mais chance de trabalhar como assassino de aluguel - a única parte que eles realmente acertaram.

Damien era um caso mais complicado devido a seu status como anticristo; o problema acontecia acobertado pelas lições de religião e todo o blá-blá-blá com o qual todos estão acostumados a esse ponto. Pessoas falavam por suas costas fazendo-se passar como lições das aulas de educação religiosa; acima de tudo, lembravam-no daquilo que mais o deixava nervoso, mesmo depois de tudo que aconteceu naqueles anos: o peso que seu status tinha sobre a vida de Pip. Independentemente de quantas vezes insistisse que não, ele sabia o quanto seu destino o preocupava e como aquela falação toda o deixava inseguro, o que, em retorno, deixava ele inseguro.

E, Deus, nem deixem-na começar a falar de Pip. Os rapazes diziam que agora estava melhor do que antes, porra, então ela nem queria saber o que acontecia antes. Se o bullying na escola já não fosse o suficiente, ela acabou por descobrir o quanto ele passava sufoco em sua casa da pior maneira possível.

Parando pra pensar, sim, eles precisavam fazer barraco sempre que saíam juntos, ou ninguém os levaria a sério.

Com a ideia de irem ao cinema indo por água abaixo, os estrangeiros fizeram algumas mudanças em seus planos e foram para a loja de café Tweek Bros. Decisão estranha, visto que nenhum deles gostava de café.

Fizeram os pedidos - bolinhos de canela, porque café ninguém merece - e se juntaram numa mesa aos fundos da loja para conversar. As pessoas os encaravam enquanto passavam, provavelmente por eles estarem rindo alto demais, mas não é como se eles tivessem reparado; estavam concentrados demais em sua pequena bolha de conversa para isso.

- Eu juro, se ela continuar batucando a porra da caneta na mesa, eu arranco a mão dela fora com a caneta. - resmungou Christophe; reclamava de uma garota em sua aula de geografia que vivia batucando a caneta da mesa, tirando sua atenção da aula, ou qualquer outra coisa que estivesse fazendo no momento, mas esse não era o ponto.

Se eles resolvessem algum dia fazer uma lista de todas as coisas que os estressavam nas aulas do ensino médio, seria suficiente para medir uma avenida inteira.

- Independentemente de qualquer coisa que faça, nunca vai superar o que o Damien fez com a Senhora Prinz. - caçoou Gregory, apoiando a bochecha sobre a palma da mão.

- Ela mereceu. - o anticristo murmurou enquanto dava uma mordida em seu bolinho. - Ei, vocês vão no jogo hoje à noite?

- Ugh, não fale de boca cheia, seu monte de vísceras de elefante morto. - Estella revirou os olhos.

Ignorando-a - e franzindo o cenho com o insulto nojento - voltou os olhos carmim para Gregory e Christophe, que remoíam a pergunta.

- Não sei, cara. - o francês deu de ombros. - Se eu não tiver nenhum trampo pra fazer, talvez eu vá. Sinceramente, não tô a fim.

- Então somos dois. - completou Gregory. - Por que vou perder meu tempo vendo um jogo que nem me é interessante? Não vou ganhar nada com isso…

- Eu vou. - a britânica cortou-o na metade.

Os quatro garotos encararam-na com os olhos arregalados.

- Você vai? - Pip perguntou retoricamente, genuinamente surpreso. Estella, que vivia reclamando de tudo que seus colegas faziam, estava de fato consentindo em ir à um jogo de futebol do qual nenhum deles fazia parte? Alguém alerte os céus, pois o mundo estava acabando.

Estella deu de ombro e, após dar uma mordida em seu bolinho, continuou:

- Disse pra Rebecca que ia. Acho que ela quer ir pra festa de vitória que vai ter depois. - mais uma mordida e só restou o papel no qual o bolinho veio. - Engraçado a forma como eles estão tão confiantes com a vitória que já até planejaram a festa. Idiotas. - revirou os olhos e cruzou os braços, não recebendo uma resposta direta dos garotos, que estavam ainda processando a pilha de informações que Estella jogou sobre eles.

Ninguém entendia muito bem qual era o lance de Estella com Rebecca. Elas começaram a ficar há alguns meses atrás, porém as coisas que faziam juntas quando saíam já passou dessa linha há muito tempo. Elas saíam juntas para fazer compras, com as amigas de Rebecca, ficavam juntas à tarde na escola para estudar, lanchavam juntas e até foram à uma festa do pijama juntas. Isso não é o tipo de coisa que se costuma fazer com um ficante, mas sim com amigos próximos ou talvez namorados.

Era como se fosse Gregory e Christophe tudo de novo. Principalmente considerando que elas também tinham o costume de se pegar no meio do corredor, na frente de todo mundo - apesar de que esse hábito partia mais de Rebecca do que da loira, mas isso é irrelevante.

- Ugh, resolvam logo esse rolo de vocês. - Christophe revirou os olhos. - Ninguém aguenta mais essa merda.

- Agora você sabe como nós nos sentíamos com vocês dois por perto. - o anticristo murmurou, mais resmungando para si mesmo do que para a mesa.

Pip, que ouviu o comentário, escondeu a risada atrás da palma da mão.

Estella, no entanto, revirou os olhos - quantas vezes alguém revirou os olhos nesses últimos cinco minutos? - e bufou. Se tinha algo que a incomodava além da conta, era quando as pessoas resolviam se intrometer em seu assuntos e vida pessoal. Mesmo quando eram seus amigos, ela preferia que os assuntos sobre ela e Rebecca ficassem entre ela e Rebecca.

- Não tem nenhum “rolo” entre nós. - cruzou os braços.

Gregory soltou ar por entre os dentes. Conhecendo Estella já há bastante tempo, não estava surpreso pela postura defensiva que a britânica tomou, por mais que todos já soubessem o que se escondia por trás daquela carranca e olhar frio.

- Estella, você gosta dela mais do que só como uma ficante. - sorriu de canto. - Admite logo e corre atrás da sua garota antes que algum vagabundo venha e leve ela embora.

Se tinha uma coisa que Gregory nunca superaria provavelmente era o fora que Wendy deu nele quando tinha oito anos. Nem Pip, nem Damien, nem Christophe, muito menos Estella estavam presentes quando aconteceu, mas, pela forma como ele sempre conseguia trazer aquele assunto para a roda de conversa, devia ter sido algo horrível.

Mas, em realidade, não, ele só era rancoroso mesmo.

Debaixo da mesa, Christophe chutou a perna de Gregory com força, sujando suas calças com a terra de seu sapato. A reação foi imediata.

- Seu desgraçado! Essa calça é nova! - exclamou, curvando-se para, desesperadamente, limpar a sujeira.

Christophe cruzou os braços e franziu o cenho, perdendo a paciência.

- Devia ter pensado melhor antes de me cornar na frente dos outros, seu filho da puta. - cuspiu com seu sotaque francês, provocando risadas na mesa.

Aqueles dois não tinham jeito mesmo. Todo dia a mesma coisa: Gregory tendo seus ataques de mimimi e Christophe tendo que ser aquele a puxar as rédeas para parar a fera. Era complicado de aguentar, principalmente quando eles encerravam as discussões com pegação, até mesmo em público, mas os demais já estavam acostumados. Além de que adoravam mostrar seu apoio ao relacionamento do inglês e do francês. Eles eram tão lindos juntos, e Damien e Pip esperaram tanto tempo por isso, não tinham como reclamar.

- Ok, eu estou farto! - bradou Mr. Tweak de repente, se aproximando da mesa dos estrangeiros, que, apesar da falta de educação e da interrupção, deram ao homem irritado toda sua atenção. - Vocês vão pedir alguma coisa pra beber ou vão ficar só fofocando e comendo bolinhos?

Os estrangeiros se entreolharam com sobrancelhas arqueadas e olhares confusos, alguns indignados.

- Somos clientes como qualquer outro, imbecil. Nós pagamos por isso. - rebateu Christophe sem paciência alguma. A última coisa que ele estava com vontade de fazer naquela tarde era lidar com mais adultos chatos.

Mr. Tweak, contudo, também não estava com vontade de lidar com um bando de adolescentes chatos entulhando sua loja.

- Isso é uma loja de café! Nós fazemos café!

Gregory arfou e arregalou os olhos, levando uma mão ao peito.

- Gente, mentira! Eu jurava que vocês faziam coca-cola. - ironizou, fazendo seus companheiros rirem e deixando o dono da loja ainda mais irritado. Estranho como as pessoas só se irritavam quando eles estavam por perto.

- Chega! Ou vocês pedem bebida ou vão ter que encontrar outro lugar pra vadiar!

- Vadiar? - Estella murmurou para si mesma, incrédula.

Pressentindo uma turbulência e o conflito surgindo, Gregory ergueu as mãos em um ato de rendição e disse, sua voz, calma:

- Está bem, está bem. Podemos só pedir duas águas então! - Mr. Tweak franziu o cenho, porém, antes que pudesse falar, o inglês sorriu de canto e o encarou de soslaio. - De fato, você disse bebida, não disse que tinha que ser necessariamente café.

Se o cliente tem razão, ele tem razão.

Ao menos o estavam pagando.

Assim que o adulto se afastou da mesa, Damien soltou um suspiro e apoiou o queixo na mesa.

- O apocalipse agora não soa tão ruim. - murmurou com um grunhido.

Gregory concordou com a cabeça e, embora os demais nada dissessem, sabia que concordavam também.

Enquanto a água não chegava, eles separaram algumas xícaras que Gregory estava a carregar consigo - ele era um homem bem preparado - e as distribuíram, uma para cada um.

- Você tem as folhas de chá, né, Chris? - perguntou seu namorado, encarando-o de soslaio.

O francês tirou o cigarro, o qual não estava aceso, da boca e franziu o cenho.

- Acha que sou retardado de esquecer a porra das folhas? - bradou, já colocando a mão no casaco em busca da maldita planta. - Só vamos precisar da água.

E ela chegou como um torpedo. Diretamente na cabeça de Pip.

- Ai! - gemeu alto, imediatamente levando as mãos ao lugar atingido e pressionando com força.

Todos os outros presentes na mesa arregalaram os olhos em espanto pelo susto.

- CARA, MAS QUE PORRA?! - gritou Christophe.

- Vocês não queriam água? - retribuiu Mr. Tweak do outro lado da loja, apertando a segunda garrafa na mão e com o cenho franzido. - Pois toma!

Ah, mas alguém ia morrer hoje.

Damien pegou a segunda garrafa arremessada em pleno ar antes que esta tivesse a mais remota chance de atingir qualquer sólido. Ele teve que controlar toda sua raiva para não esmagar aquele pedaço de plástico e derramar água no chão inteiro.

Não. Havia prioridades maiores.

- Você tá bem, Pip? - perguntou ao loiro, que mantinha as mãos pressionadas na lateral da cabeça e uma expressão de dor no rosto.

- Eu acho que os pontos abriram. - removeu a mão brevemente do machucado, os olhos azuis arregalando ao ver o sangue acumulado na palma. Um pouco mais escorria pelo lado de seu rosto, e uma pequena poça ao redor do machucado, onde os pontos estavam, tingia seu cabelo de vermelho.

- Jesus Cristo! - Estella exclamou, horrorizada.

- Dá pra alguém trazer gelo aqui, por favor? - gritou Gregory, levemente desesperado. Estella teria rido de sua voz esganiçada se não fosse pela situação alarmante.

Até que alguém chegasse, Pip teve que recorrer à pressionar a boina na região aberta para tentar parar o sangramento, o que deixou o tecido todo sujo.

Os pontos não tinham sido resultado de algum acidente ou por ele ter sido desastrado - embora essa também fosse uma boa causa de seus machucados. Não. Ele levou esses pontos pela última vez que alguém jogou algo em sua cabeça. Ele não sabia quem era ou porque o fez - se é que precisavam de alguma razão para querer vê-lo sangrando no chão -, mas cá estavam: Pip com a cabeça cortada e sangrando, como se tivesse voltado ao terceiro ano, quando qualquer golpe desferido contra ele era o suficiente para cortar sua pele.

Na verdade, não era tão difícil fazê-lo sangrar. Com o tanto de vezes que ele bateu a cabeça em alguma coisa - ou bateram na cabeça dele com alguma coisa - quando era criança, a região se tornou mais sensível do que seria considerado normal. Talvez fosse esse o motivo de mirarem tanto na sua cabeça em específico quando o queriam machucar.

Passos apressados correram até a mesa, e os estrangeiros tiraram os olhares de Pip por um segundo para ver Tweek com uma bolsa de gelo em mãos, encarando-os com os nervos à flor da pele.

- Desculpe pelo meu pai, pessoal. - desculpou-se, entregando a bolsa de gelo nas mãos de Damien, que fez questão de olhar torto pra ele. - Ele não tá tendo um dia bom hoje.

Embora sorrisse, eles sabiam que não havia preocupação com eles em seu olhar. Ele só estava preocupado com a ideia de Damien deixar seu humilde estabelecimento em chamas, só por aquela afronta. A relação de Pip e do anticristo não era desconhecida por ninguém, e eles também não tentavam esconder, o que, por si só, já era um aviso para que as pessoas não se metessem com o garoto britânico se não quisessem acabar carbonizadas.

- Precisam de mais alguma coisa? - o viciado em café perguntou, mas Pip negou com a cabeça.

- Está tudo bem. Eu consigo me virar. - disse ao puxar sua mochila em sua direção.

Tendo passado por isso tantas vezes antes, Pip já conhecia de cor os passos para enfaixar uma região machucada. Só precisava aguentar até que pudesse ir ao hospital novamente para acertar os pontos soltos. Por sorte, não foram muitos. Ainda bem que ele não saía de casa sem um rolo de gaze no bolso.

Enquanto Damien auxiliava o namorado a enfaixar o machucado, os outros três estrangeiros tomaram as garrafas de água e despejaram o líquido gelado nas xícaras e Christophe tirou algumas folhas de dentro de um dos bolsos de sua blusa.

- Eu espero que isso aí não seja maconha. - disse Estella, encarando as folhas verdes.

Christophe soltou ar por entre os dentes.

- Maconha é pra fracotes que não sabem lidar com a vida. - cuspiu enquanto colocava as folhas dentro da água.

- Está muito convicto em sua opinião pra alguém que fuma. - rebateu Estella, tentando colocar-se acima do francês, mas Christophe franziu o cenho, como se ela tivesse acabado de falar o maior absurdo que ouviu em toda sua vida.

- Tu acha que eu tenho cara de alguém que fumaria maconha depois de toda a putaria que a família do Stan fez?

- E eu lá sei o que ele fez? - rebateu novamente, fechando a cara.

Antes que o francês pudesse dizer qualquer coisa a mais, Gregory riu.

- É verdade, você não estava. O pai do Stan resolveu começar um negócio de maconha há alguns anos atrás e causou o maior tumulto na cidade. Vou admitir, eu quase fiquei com pena do Stan por ter que morar naquela casa horrível de fazenda com o imbecil do pai dele.

Com as vozes de seus amigos ecoando no fundo de seus ouvidos, não sendo seu foco no momento, Damien terminou de enrolar os curativos pelo ferimento que a garrafa abriu na cabeça de Pip.

- Pronto. Não está como novo, mas é o que temos pra hoje. - afagou com cuidado os cabelos do britânico, certificando-se de que não encostara na parte machucada, e beijou-lhe a bochecha, seu coração um pouco mais leve com seu sorriso.

- Obrigado.

Mesmo após terminar de enfaixar, Damien não conseguia tirar seus olhos de Pip, assim como o britânico não conseguia tirar os seus de belo e majestoso azul dos dele. Isso acontecia com certa frequência na verdade; o casal se aproximava o suficiente um do outro para se perderem no brilho do olhar do contrário, isolando-se completamente de tudo e todos que estivessem ao seu redor. Na rara ocasião que Damien estivesse com os nervos à flor da pele, seus poderes podiam escapar debaixo de seu controle e as coisas ao seu redor ficavam à mercê do quão distraído estivesse. Estella já havia visto isso acontecer duas vezes. Três se contar com o agora.

Vento soprava delicadamente as mechas de cabelo do britânico, mas este não pareceu perceber, estando concentrado demais no carmim reluzente das órbitas de Damien. Nada mais era que apenas uma brisa, facilmente despercebida por qualquer um que estivesse tão próximo da fonte quanto ele estava. Contudo, seus amigos não eram idiotas, e a tempestade que se formava dentro da Tweak Bros não passou despercebida.

- Agora que vocês já terminaram, - começou Gregory, encarando os dois com naturalidade apesar da situação incômoda. - Será que pode fazer o favor de esquentar nosso chá, por favor?

O anticristo virou a cabeça para o lado para encarar Gregory, que tinha um sorriso por toda a extensão dos lábios.

Sim, Damien, nós vamos fazer chá no meio de uma loja de café. - eles diziam.

Os ventos imediatamente diminuíram, o transe entre os dois amantes, quebrado. E embora irritado por terem estragado o clima entre ele e Pip, Damien virou-se para o outro inglês, calmo, como se nada tivesse acontecido, e estendeu a mão.

- Manda pra cá. - o anticristo sorriu, suas mãos já ardendo em chamas.

Ah, os benefícios de ser amigo do filho do capeta. Onde quer que fossem com Damien, contanto que trouxessem tudo que precisavam, sempre tinham um jeito de tomar suas drogas, digo, chá diário. Só precisavam de xícaras, água e algumas folhas. O calor ficava por conta do anticristo.

Enquanto seu namorado tratava de ferver a água, Pip desviou o olhar da mesa, apertando a bolsinha de gelo em sua mão e imaginando onde poderia esconder a cara para fugir dos olhares que seus amigos o davam pelo canto dos olhos. Eles não tinham nenhuma malícia neles, muito pelo contrário, mas o pequeno britânico não podia evitar de ficar constrangido e com o rosto todo vermelho, ainda mais quando até Estella os acompanhava.

Quando o chá ficou pronto, Pip foi o primeiro a pegar.

- Você só pode estar de brincadeira comigo! - ouviram o pai de Tweek gritar da área de funcionários, bem na hora que terminaram de repartir as xícaras entre eles.

- Pai, cala a boca! - Tweek gritou logo em seguida. - Você quer morrer? Quer que eles queimem a porra da loja inteira e que a gente morra queimados vivos?! Fica com a boca fechada!

Sentados em frente à Pip e Damien, Christophe, Gregory e Estella trocaram olhares entre eles, compartilhando do sentimento de desconforto que aquela situação trazia. As pessoas daquela cidade eram muito estranhas.

- Deus… - a loira murmurou, fuzilando a porta de funcionários com os olhos.

Ao contrário dela, Damien tinha um sorriso exuberante nos lábios.

- Ah, eu adoro quando as pessoas têm medo de mim. - tomou um gole do chá antes de continuar. - Posso não causar o apocalipse, mas ser filho de Satã tem suas vantagens.

Gregory exalou ar pelo nariz, sorrindo.

- Indubitavelmente. Agora, você quer quanto açúcar no seu chá?

O anticristo deu de ombros e encarou o líquido quente com um olhar entediado.

- Só um tá bom. Não gosto de nada muito doce.

Os estrangeiros então voltaram à suas típicas atividades de quando saíam juntos, finalmente deixando o incidente de lado e permitindo a atmosfera de se erguer novamente. Riam e discutiam enquanto levavam as xícaras quentes aos lábios, compartilhando do relaxamento que um bom chá de camomila trazia. Nada mudou muito nos últimos meses que andaram os cinco juntos; Estella se adaptou especialmente bem, considerando tudo pelo que passaram - o que não é todo mundo que consegue, então, palmas para ela. Com o tempo, as idiotices que eles faziam juntos se tornava cotidiana; seja algo brotando do inferno pelos poderes de Damien ou alguma teoria da conspiração que se revelou realidade, uma hora tudo se torna chato ou comum. Os momentos que passava com Rebecca eram um bom remédio para isso, na verdade.

A conversa continuou por algum tempo até ouvirem o celular de alguém vibrar. Era o de Christophe.

- Merda. - o francês xingou ao fitar a tela, sotaque carregado. - Minha mãe tá me chamando de volta. Tenho que vazar.

Poucos segundos após se erguer, foi acompanhado por Gregory, que não desgrudou os olhos dele.

- Eu te acompanho. - disse, não exatamente pedindo por uma permissão.

Christophe deu de ombros e pegou a mochila, sem fazer cerimônia em colocar sua parte do dinheiro na mesa e espremer a bunda na cara de Estella enquanto saía da mesa. Gregory, no entanto, foi um pouco mais delicado, pedindo licença à britânica ao invés de praticar aquele ato vulgar.

- Nos encontramos à noite no estádio então? - perguntou Damien.

- Claro. Não quero deixar de ver o Stan perder. - disse Gregory com um sorriso exuberante no rosto. - A gente se vê.

Quando os dois rapazes deixaram a loja de café, Estella voltou a sentar em seu lugar, olhos arregalados e expressão de quem quase morreu.

- Traumatizou? - o anticristo a provocou, sorrindo maldosamente.

- Sapo nojento. - arrepiou, desesperadamente bebendo seu chá para se acalmar. - … Mas até que ele tem uma bunda redondinha.

Pip praticamente jogou a mão sobre a boca para conter o riso.

Damien nem tentou.

(...)

Christophe analisava cautelosamente a forma como a mão de Gregory se agarrava em sua cintura, suspeito de seus movimentos estranhamente desleixados. Ele já era naturalmente suspeito de praticamente tudo ao seu redor, mas com Gregory… Tinha que tomar cuidado extra. Baixar a guarda nunca deveria ser uma opção.

- Eu não preciso que você me siga sempre, sabia? Não sou criança. - repreendeu o francês, encarando o namorado entre pálpebras semicerradas.

Gregory apenas deu de ombros e olhou para o lado.

- Não vejo o que há de tão mau em me deixar te acompanhar até a entrada da sua casa. Ou você só tem medo que sua mãe descubra sobre nós?

Se Christophe fosse ser sincero, um pouco dos dois. Ele não queria companhia até em casa, pois sabia se virar sozinho, e não queria que sua mãe soubesse. Mas ele não precisava ficar expondo isso toda vez que o inglês dava uma de mãe neurótica e o seguia para todos os lados.

- Mesmo que ela soubesse, não poderia me impedir nem se tentasse. - estalou a língua no céu da boca e cruzou os braços, sutilmente tentando afastar seu corpo do loiro, que estava estranhamente colado em si.

É claro que ele podia simplesmente dar um passo para o lado e deixar bem na cara que estava incomodado, mas, conhecendo a natureza insistente de seu parceiro, sabia que não daria em nada. Ele o conhecia bem demais.

- Não sei, não. Sua mãe pode ser bem assustadora quando quer.

Christophe tragou seu cigarro e abaixou a cabeça, cansado. Pensar em sua mãe adoidada o deixava exausto antes mesmo que pudesse focar em uma memória específica - e ele tinha muitas.

Sua mãe não era exatamente a melhor mãe de todas, digamos. Ela podia ser amorosa e cuidar dele como uma mãe faria, e era até legal que ela não o chutou pra fora quando ele fez dezoito anos, como todos os outros faziam, mas ela estava muito longe de ser perfeita. Ela não respeitava suas opiniões, criticava suas crenças - e o punia quando ele as expressava quando ela estava por perto -; alguém o salve caso política e ideologia se tornassem assunto na mesa de jantar! Se ele franzisse o cenho na direção do teto, era todo o seu dinheiro suado tomado de suas mãos e um tapa pesado na cara. Fumar dentro de casa? Um cigarro que seja que ela encontre em seu quarto e não é só o dinheiro que ele perde, mas também sua pá, corda, mapas e qualquer outra coisa que ela possa encontrar que seja de valor à ele.

Se ela algum dia ficasse sabendo de seu relacionamento com Gregory? Ele nem queria imaginar o que poderia acontecer. Talvez ela tentasse o esfaquear, da mesma forma que fez quando ele ainda estava em seu útero. Aquela mulher era completamente surtada.

Em realidade, sua casa mais era uma prisão que uma casa. Ele não podia fazer qualquer coisa contra as regras que já era recebido com um tapa e algum tipo de castigo, geralmente envolvendo a tomada de todo o seu dinheiro. O que ela fazia com ele? Christophe não tinha a menor ideia. Na verdade, não estava certo se queria saber.

Ele podia contar mais do que duas vezes todos os dedos das mãos as ocasiões em que sua mãe teve algum tipo de surto, de tão problemática que era a situação.

Teve ainda uma vez que Gregory agarrou sua bunda e atrapalhou toda sua linha de pensamento.

Ah, espera, isso foi agora.

O rosto de Christophe se contorceu em uma mistura de surpresa e desgosto, não sabia exatamente como descrever. Mas sabia que devia ter mantido a guarda alta quando perto de Gregory.

- Tira a mão daí. - ele grunhiu entre dentes, seu tom, ameaçador, mas Gregory não fez mais que sorrir com o canto da boca.

- Eu sinto muito, my darling, é que é tão difícil resistir à você. - murmurou em seu ouvido com a voz grossa, abraçando sua cintura possessivamente, como se para prendê-lo ali. De repente, o francês percebeu seu tom amolecer e seus toques passarem de pervertidos à delicados, como uma carícia suave. - Não pense muito sobre sua mãe. Assim que nos formarmos, vamos alugar um belo apartamento nas melhores partes de Denver e deixar essa cidade da montanha pra trás. Seremos só você e eu. Assim como nos velhos tempos. E talvez o Pip, o Damien e a Estella, se eles quiserem passar pra tomar um chá. Parece bom, não?

Gregory fazia ótimos planos, sempre muito bem calculados e de execução sem um detalhe fora da curva. Quando ele planejava algo, tenha certeza de que ele encontraria um jeito de tudo sair exatamente da forma que ele mandou. O que era bom, pois Christophe gostou muito daquele plano.

O francês tirou o cigarro da boca e pressionou um terno e rápido beijo nos lábios do inglês, evidentemente pegando-o de surpresa pela expressão em seu rosto.

Ele quase ficou bravo pela forma como Christophe continuou andando como se nada tivesse acontecido, mas não podia quando ele tinha um sorriso tão orgulhoso em seu rosto. Isso quase o irritava ainda mais, ao mesmo tempo que o encantava.

- Aqui tá bom. - disse uma vez que chegaram na rua de sua casa. Ela ainda estava um pouco longe, mas não podiam correr riscos.

- Então te verei mais tarde. - Gregory respondeu, tomando a mão de Christophe na sua e beijando seus dedos. - Te amo.

- Gay.

- Olha quem fala. - riu, puxando as bochechas do namorado e selando seus lábios em um beijo desengonçado.

Enquanto o francês voltava para casa e Gregory seguia na direção contrária, a ideia do namorado continuava a flutuar em sua cabeça, perturbando seus pensamentos.

Morar juntos em Denver, só ele e Gregory…

Um sorriso cresceu em seus lábios, mostrando os dentes que prendiam o cigarro.

Ele mal podia esperar.

(...)

Damien nunca foi muito fã de esportes. Não via exatamente a graça de ver um monte de estranhos correndo igual retardados atrás de uma bola. Talvez a única parte divertida fosse ver as pessoas se machucando, mas, com Stan no time deles, raramente era alguém de quem ele tinha mais ranço se machucava nessas partidas; portanto, inúteis.

Seus olhos carmim assistiam entediados Stan correr com a bola e dar cotoveladas nos jogadores que tentavam pegá-la dele. Nos degraus abaixo dele, seus amigos, que já largaram o esporte há muitos anos, torciam e gritavam por Stan, enlouquecidos. Como Damien dissera: um bando de retardados.

Seus amigos também não estavam se divertindo. Gregory não tentava sequer esconder o desdém pelo esporte, observando os jogadores com o maior desinteresse que Damien já viu em seu rosto. Christophe nem estava prestando atenção, usando o tempo que tinha, em que todos estavam distraídos, para estudar seus mapas e fazer algumas anotações do campo. Quem sabe? Talvez fosse útil no futuro. Estella estava entretida, mas não pelo jogo. Ela frequentemente inclinava-se para frente e cutucava o ombro de Rebecca, sussurrando algo em seu ouvido e ambas rindo em seguida, a única circunstância em que a britânica sorria em um cenário tão tedioso assim. Damien não sabia exatamente o que estavam falando, mas provavelmente não tinha nada a ver com aquele esporte ridículo.

A única pessoa que parecia estar se divertindo era Pip, que torcia junto aos demais e batia palmas quando o time de Stan marcava pontos. E, ainda assim, ele conseguia sentir que Pip também estava cansado. Quando não estava torcendo e apenas encarava os jogadores correndo, suas olheiras ficavam mais visíveis, assim como as pálpebras tremendo, tentando não se fechar. Ele não tinha dormido bem na noite passada.

Suas mãos frequentemente tocavam as faixas em sua cabeça, ocultando seu ferimento e os pontos que estavam por baixo. O risco de eles enroscarem no tecido era alto se não fosse tirado com cuidado, mas, após o incidente na Tweak Bros naquela tarde, ele decidira manter a faixa ocultando o ferimento para caso os pontos abrissem novamente. Não ajudaria muito, mas conteria um pouco do sangue e o daria tempo para ir ao hospital sem que desmaiasse de anemia.

Damien conseguia se recordar bem da época em que Pip jogava no time de futebol americano. Ele o contou uma vez que não fazia a menor ideia de como jogar aquela merda, simplesmente copiava os movimentos dos outros e fazia o que o mandavam fazer. O que incluía não usar um capacete por “falta de recursos”.

“O meu ovo” - dizia Damien outra e outra vez sempre que Pip o contava a razão de chegar todo roxo para a escola no dia seguinte. Ele não conseguia colocar em palavras o quanto vê-lo machucado o irritava, e sempre fez questão que Pip soubesse.

Ele largou o esporte aos nove anos.

Quietamente, Damien esticou a mão em seu ombro, cutucando-o para chamar sua atenção, e o puxando pela cintura para encostar a cabeça em seu ombro. Não aguentava ver aquela carinha de sono, e o jogo também não o acrescentaria nada além de memórias ruins, então não faria diferença.

Assim que encostou a cabeça em seu ombro, Pip adormeceu. Ele estava realmente cansado e não foi tão difícil assim pegar no sono, mesmo com tantas pessoas gritando ao seu redor.

- Ele tá bem? - perguntou Gregory à Damien do outro lado da fileira.

- Cansado. - balbuciou enquanto acariciava os fios loiros com delicadeza.

Às vezes o preocupava o quanto Pip aparecia com olheiras e o cabelo bagunçado na escola. Seu desempenho caía nas aulas e ele deixava de aproveitar muitos momentos bons por conta disso, e os chás que tomavam não ajudavam muito.

Pelo menos, nesse curto momento em que ele ficaria adormecido, Damien poderia se certificar de que seu sono fosse bem aproveitado.

Tomando todo o cuidado para não deixar sua cabeça pender para frente ou para trás, ele passou o polegar por debaixo de seus olhos e fez suas olheiras desaparecerem, apenas um pequeno milagre para compensar aquele dia difícil.

- Esse jogo tá uma merda! - Christophe grunhiu, cruzando os braços e batendo as costas na arquibancada.

- Realmente, esse jogo não tem a menor graça. - disse Gregory, juntando-se ao grupo de reclamações. - Qual o sentido de correr atrás de uma bola e fazer pontos, de qualquer forma? Eu poderia estar estudando a essa hora.

- Ou dormindo. - o francês sugeriu.

- Ou dormindo.

Com um suspiro, Damien voltou o olhar à quadra enquanto acariciava os cabelos de Pip com uma mão. Enquanto eles estavam sentados naquela arquibancada suja, vendo um jogo pelo qual não se interessavam, qualquer outra coisa podia estar acontecendo; Damien podia estar em sua casa vendo televisão, dormindo, torturando almas ou aproveitando um momento íntimo com seu namorado, mas não, ele estava ali, sujando sua bunda e perdendo seu tempo com algo que nem era de seu interesse.

- Podíamos pegar o carro e vazar. - o anticristo disse sem pestanejar. - Ninguém vai sentir nossa falta aqui mesmo, podíamos ocupar nosso tempo com algo melhor, o que acham?

Entreolhando-se, como sempre faziam quando tomavam uma decisão em conjunto, Christophe deu de ombros e Gregory apoiou a cabeça na mão.

- Não é como se estivéssemos fazendo algo melhor, né?

O anticristo se virava para acordar o namorado adormecido quando Gregory chutou as costas de Estella, quase fazendo-a cair em cima de Rebecca.

- O que foi, caralho?

- Vamos dar uma volta, esse jogo tá uma bosta. Tá a fim?

Estella franziu o cenho, ainda irritada com o britânico a tendo chutado, mas mesmo assim, afastou a poeira da roupa e se levantou.

- Você me deve uma roupa limpa.

Gregory estalou a língua no céu da boca e cruzou os braços, ofendido.

- Não devo nada, meus sapatos são limpos.

- Vamos logo ou eu desisto. - ela estava prestes a subir os degraus restantes da arquibancada quando, subitamente, foi parada pelo braço de Gregory. - O que?

- Chama a sua garota pra vir com a gente.

- Nós somos só somos ficantes, ela não é “minha garota”. - disse, fazendo aspas com os dedos.

- É, mas não vai fazer progresso nenhum ficando parada e esperando que as bênçãos caiam do céu. Se quer que ela pense mais de você, tome você a iniciativa.

Estella ficou visivelmente surpresa com a audácia de Gregory - apesar de ele sempre ser do tipo audacioso sem filtro para conversas. A forma com que ele falava de seu relacionamento com Rebecca, como se tivesse toda a certeza do mundo, era irritante ao mesmo tempo que assustador. Como ele poderia saber coisas sobre seu relacionamento que nem mesmo ela sabia?

Apesar de que ele tinha sim um ponto. Rebecca era tímida, óbvio que não tomaria a iniciativa. Se Estella quisesse chamar sua atenção, teria de ser ela a dar a cara a tapa.

Não que Estella quisesse, é claro, de forma alguma!

Mas também não quer dizer que ela não conseguiu convencer a morena a abandonar o jogo com ela.

Subindo até o último degrau da arquibancada para saírem sem serem notados, um a um, os garotos foram pulando em direção ao chão, aterrissando em segurança graças aos ventos invocados do anticristo. Escaparam com relativa facilidade, por sorte sem ter que lidar com ninguém enchendo o saco deles sobre não dar suporte à própria escola. Era uma das únicas vantagens em serem irrelevantes para seus colegas.

Eles seguiram em seu pequeno grupinho até a calçada, onde finalmente estavam longe o suficiente para respirar e não ter medo de serem abordados por seus colegas insuportáveis.

- Aqui eles não nos alcançam mais. - disse Gregory em voz alta, mais refletindo sobre a situação do que contando uma novidade. - Então, Rebecca, acho que essa é sua primeira vez saindo com nós cinco juntos, não é? Seja bem-vinda.

A morena sorriu, corando de leve.

- O-obrigada.

Afastando-se da visitante do grupo, Gregory recebeu uma cotovelada de Christophe no braço.

- Não vai assustar a menina logo na primeira vez saindo com a gente. - avisou ele, ao que o inglês franziu o cenho.

- Esse seu mal-humor também não vai ajudar em nada, mon chèr.

- Parem, vocês dois. Não é hora de ficar gritando no meio da rua. - repreendeu Estella ao perceber a DR se formando na sua frente. Virou-se para Rebecca e parou ao seu lado. - Não liga não, você se acostuma.

- Está tudo bem - ela respondeu com um sorriso. - Já andei com pessoas piores. Eles na verdade me parecem bem divertidos.

Estella ergueu as sobrancelhas.

- É sério?

- Sim. Você sempre sorri quando está com eles. Imagino o quanto devem ser importantes pra você.

A britânica silenciosamente rezou para que ninguém tivesse ouvido, porém, é claro que, sempre enxeridos, alguém teria escutado.

- Aww, a Estella nos ama. - Gregory brincou, dramatizando com as duas mãos entrelaçadas ao lado do rosto.

- Cala a boca, seu saco de urina de macaco!

Por mais que ela odiasse admitir, Rebecca estava certa. Aqueles imbecis se tornaram seus melhores amigos antes que ela pudesse impedir. Simplesmente havia algo neles que a fazia se sentir incluída, apesar das gozações e comentários desnecessários. Ela sentia que pertencia à algum lugar quando estava perto deles e, querendo ou não, ela se apegou ao sentimento.

Só acontece que as brigas e gritos faziam parte de sua rotina diária, e com aqueles meninos não era exceção.

Rebecca sorria enquanto observava Estella discutindo com um dos britânicos loiros, o qual ela acreditava ser Gregory. Ela nunca havia de fato pertencido à algum grupo, não da forma que Kyle e a própria Estella pertenciam. Andar com as garotas era mais próximo de ser um caso de amigos de lancheira do que algo verdadeiro, diferente do que ela esperava ter com a britânica.

Ela gostava de Estella. Gostava muito. E ela sempre parecia tão feliz quando andava com os outros meninos que Rebecca simplesmente não podia evitar de querer aproveitar daquela felicidade também.

De tanto que a britânica falava quando saíam juntas, já tinha a imagem deles bem definida em sua mente.

Gregory era sempre descrito como o riquinho chato do grupo, sempre querendo meter o nariz onde não é chamado e dando a opinião quando ninguém pediu. Mesmo assim, era uma pessoa legal com quem sabia que Estella se identificava, além de ter, lá no fundo, um bom coração.

Christophe era o mais estressado, gritando palavras obscenas para Deus e o mundo e descontente com a vida que levava. No geral, não falava muito, e quando falava, era para maldizer alguém ou algo que o incomodou. Um tanto inconveniente, mas Rebecca sabia como Estella admirava sua convicção de proteger seus amigos e mudar o mundo. Ouviu dizer que ele teve grande destaque na guerra do Canadá, e ele só tinha oito anos na época!

Francamente, Damien a deixava nervosa, afinal, não é todo mundo que tem que conviver com o anticristo indo pra sua escola. Apesar de tudo, Estella a garantiu que, apesar do exterior misterioso e magia amedrontadora, ele era um amorzinho quando o assunto era Pip.

Rebecca não teve muito contato com as pessoas daquela escola para entender a razão de todos odiarem Pip. Até onde ela percebeu, ele nunca fez algo errado, exceto mandar um monte de alunos para a enfermaria após os jogos de queimado. Estella dizia que ele era um doce, tão doce que chegava a ser enjoativo e irritante, mas ela continuava a andar com ele mesmo assim. Ela disse que, quando chegou na escola, ele foi o que a melhor recepcionou; foi amigável e paciente com ela e deu frequentes sermões em Damien quando ele acabava a afastando. Ela disse também que eles já foram namorados por alguns meses, mas aquele era um assunto proibido.

A morena não socializava muito com os garotos em geral, mas havia algo em Pip que lhe chamava a atenção. Talvez eles tenham feito algum trabalho juntos quando eram crianças…?

Ela não gostava de se lembrar daquela época, não carregava boas lembranças, mas sua curiosidade em descobrir era tanta que, mais de uma vez, se pegou encarando o casal a sua frente por tempos demasiadamente longos.

E, Deus, quando Estella havia lhe dito que Pip e Damien eram um casal pegajoso, ela não imaginava que era tanto. Rebecca havia pego, mais de uma vez, Christophe e Gregory se pegando no corredor da escola, mas eles sempre foram mais físicos, os outros dois eram diabetes do pior tipo.

O ritmo da cauda de Damien acelerava sempre que ele tinha a chance de passar o braço pela cintura de Pip, que retribuía colocando a cabeça em seu ombro. Eles sussurravam coisas um para o outro que Rebecca não conseguia escutar, mas, pela expressão de adoração em seus rostos, podia apenas imaginar o quanto de açúcar estava entrando em sua corrente sanguínea só de olhar pra eles.

Em algum momento, Damien conseguiu distrair Pip e usar o rabo para roubar sua boina, colocando-a sobre a própria cabeça. Ele parecia um jornaleiro. Não era ruim, mas também não combinava com a década em que eles viviam.

- Como estou?

O britânico soltou uma risada e pressionou os lábios na bochecha do namorado.

- Você está maravilhoso, meu bem. Ah! - Pip soltou um grito quando Damien o pegou no colo estilo noiva e começou a rir quando o mesmo encheu seu pescoço de beijos. - Damien!

- Ei, sem pegação no meio da rua! - o francês gritou, apontando o dedo para os dois.

- Olha quem fala! Vocês vivem se atracando no meio do corredor da fucking escola! Me deixa carregar o meu namorado, caralho!

Estella revirou os olhos com a encheção de saco dos garotos e Rebecca riu, simplesmente os seguindo até o carro Damien.

- Carro bonito. - elogiou Christophe, abrindo a porta de trás e se sentando na outra ponta.

- Valeu, eu sei.

- Eu não acho que tem lugar pra todo mundo. - Pip murmurou, colocando-se no lugar do passageiro.

- Eu já tenho meu assento reservado! - exclamou Gregory, se colocando no colo do francês.

- Você é um imbecil. - Christophe revirou os olhos, mas enlaçou a cintura do namorado de qualquer forma.

Partindo com o carro pelas ruas, o pequeno grupo de amigos seguiu em direção à floresta, um dos únicos lugares onde seus colegas insuportáveis não iam. O lugar era mais frequentado pelos góticos ou alguns grupos de jovens aqui e ali que vinham para fumar, mas, com o jogo acontecendo, todos viriam para mostrar respeito para a escola e toda aquela ladainha que todos estavam cansados de ouvir.

Pararam o carro à beira da estrada, bem próximo de onde um rio corria por entre as árvores, um lugar onde os estrangeiros sempre iam para ficar reclusos de seus colegas imbecis.

Eles seguiram ao rio a pé, tomando todo o cuidado para não se perderem em meio às árvores.

Rebecca estava um tanto nervosa, nunca tinha ido àquelas áreas, e, percebendo isso, Gregory se aproximou da morena e colocou uma mão em seu ombro.

- Não precisa ficar assustada, nós conhecemos esse lugar. É um dos nossos lugares favoritos para ficarmos sozinhos. Ninguém vem pra cá, especialmente a essas horas.

Embora ainda um tanto relutante, a morena seguiu calada, apenas tentando prestar atenção no caminho e trocando olhares com Estella, que parecia muito certa do que estava fazendo. Porém, quando enfim chegaram ao local, um rio largo e calmo que mais se assemelhava a um lado, ela começou a ficar nervosa de novo.

- Vocês vão entrar aí? - questionou ela.

- Não se preocupe, é seguro. Já verificamos. - Gregory assegurou mais uma vez enquanto retirava suas roupas, ficando apenas com suas boxers, assim como os outros garotos faziam.

- M-mas com suas roupas de baixo?

- Obviamente. - respondeu Christophe, jogando suas vestimentas no chão.

Um a um, os garotos foram entrando, ou menos, foram empurrados por Damien para dentro da água, que, com um estalo de seus dedos, não estava gelada. Estella foi a última a entrar, demorando a se despir pelo vestido que usava.

- Não se preocupe, Rebecca. Ninguém aqui é hétero. Não vamos ficar olhando pra você. - provocou Damien, recebendo um jato de água na cara do namorado.

- Eu não tenho certeza…

Ela brincava com as mãos na frente do corpo, seus dedos batendo em nervosismo. Mil e uma possibilidades de as coisas darem errado passavam por sua cabeça, e eram muitas coisas!

Rebecca estava quase amarelando quando, dando-lhe um susto, Estella surgiu do meio da água.

Seus longos cabelos loiros foram jogados para trás como um chicote, a água escorria de sua pele branca e pálida como se fosse guiada por suas curvas, sinuosas e reluzentes sob a luz da lua que batia em seu rosto, quase como uma figura divina.

O coração de Rebecca parou em sua boca e ela engoliu em seco, completamente pasma.

Estella afundou na água e log emergiu mais uma vez, seus olhos azuis encarando diretamente os castanhos de Rebecca por entre sua pálpebras semicerradas, tão seduzente.

- Você vem?

- E-estou indo! - ela disse quase que no mesmo segundo.

Gregory balançou a cabeça enquanto sorria. Elas claramente estavam a fim uma da outra. E seus amigos reclamando que ele e Christophe não se assumiam.

Enquanto Gregory e Christophe se aproximavam das garotas para puxar conversa e nadarem juntos, talvez até tentar dar uma força para elas, Damien e Pip se isolavam cada vez mais, subindo o rio por um canal um tanto estreito.

Os cabelos loiros de Pip ficavam tão lindos debaixo d’água, eram como se estivessem flutuando com o vento, do jeito que ficava quando Damien se perdia em seus olhos e ativava os próprios poderes sem perceber.

Céus, ele o amava tanto…

Pegando suas pernas e colocando-as por cima dos ombros, o anticristo emergiu com o namorado sentado em seu cangote e suas mãos segurando forte em seus cabelos pretos.

- Não precisa segurar tão forte, eu não vou te pagar um boquete.

Damien riu ao sentir Pip, provavelmente com o rosto vermelho, dar um tapa do lado de sua cabeça.

- Não fala essas coisas aqui! - ele exclamou. - Não estamos sozinhos! A Rebecca é convidada!

- Quer dizer que se estivermos sozinhos eu posso te pagar um boquete de verdade? - sorriu malicioso, erguendo a cabeça e vendo que, de fato, Pip estava vermelho. Só que dessa vez ele riu ao invés de lhe dar um tapa.

- Você é ridículo! - brincou, puxando seu rosto com as mãos e beijando seus lábios. - Pode.

Nenhum dos outros quatro percebeu a escapada do casal na hora, muito concentrados em outra coisa.

Estella deu uma risada alta ao ver Rebecca se segurando em seus ombros desesperadamente, quase como se tivesse medo da água.

- Você não sabe nadar? - perguntou ela, recebendo um balanço rápido de cabeça como resposta. Rebecca não sabia nadar.

Por ter pais tão protetores, ela nunca teve a chance de aprender a nadar quando pequena, apesar de eles se tornarem mais liberais com o passar dos anos. Ela ainda passava a maior parte do tempo dentro de casa ao invés de sair com amigas e fazer trabalhos em grupo, a única exceção sendo Estella, cuja existência seus pais não sabiam, pois ela escapava escondido de casa ou nem mesmo saía da escola. Fazer natação não era uma opção naquela casa, qualquer coisa que envolvesse a permissão de seus pais não era uma opção naquela casa. Portanto, obviamente, ela não sabia nadar, por isso o desespero para permanecer acima da água e conseguir alguma firmeza nos ombros de Estella.

Isso e para poder tocá-la sem a situação ficar estranha.

A água estava um pouco gelada, mas a pele dela era quente debaixo de seus dedos, quase como um cobertor, mas bem mais macio e escorregadio. Seus cabelos loiros grudavam em seus ombros e costas, algumas gotas ainda escorrendo desde o topo da cabeça de volta para a água. Rebecca podia passar o dia inteiro olhando para ela.

Gregory e Christophe já estavam ficando de saco cheio só de passar três minutos encarando aquelas duas de cu doce. Pobres Damien e Pip que tiveram que lidar com eles de cu doce por tanto tempo.

- M-meus pais n-nunca colocaram eu ou meu irmão numa aula. - ela gaguejou. - E-eu não sei nadar…

Gregory revirou os olhos.

- Vocês podem simplesmente… - ele nadou para mais perto e ajeitou os braços da morena no pescoço de Estella, colocando-as uma de frente para a outra e de uma forma que a água não batesse no rosto de Rebecca. - Melhor?

Quase perdendo-se no olhar azul de Estella, Rebecca assentiu com a cabeça.

Com um sorriso, Gregory enfim se afastou, puxando Christophe pela cintura para fazer o mesmo. O objetivo era deixá-las à sós, talvez fosse ajudar em alguma coisa.

- Realmente acha que vai que funcionar? - o francês arqueou a sobrancelha.

Dando de ombros, Gregory enlaçou os ombros do namorado e beijou suas têmporas.

- Não custa nada tentar. Elas são um pouco mais reservadas, deixa elas. - ele rapidamente selou seus lábios nos de Christophe e entrelaçou as mãos em seus fios castanhos. - Quer tentar encontrar alguma coisa jogada no fundo?

(...)

Ele estava tremendo. Uma dor insuportável martelava em sua cabeça, seus gemidos desconfortáveis apenas contidos pela mão em sua boca e o total constrangimento que sentia.

Por que seu pai o tinha arrastado pro inferno? Por que ele não podia ter ficado na terra?

A cada gemido alto e rangido da cama abusada, envoltos pelo som de chicote, mais aumentava a vontade de Damien de cavar um buraco no chão e morrer.

Se aturar a relação de seu pai e Saddam durante o dia já era horrível de tarde, de noite conseguia ser ainda pior. Eles transavam literalmente a noite toda, fazendo o máximo de barulho possível e obrigando o pobre anticristo a ouvir coisas que ele jamais gostaria de ter ouvido em toda sua vida, sobretudo aos oito anos de idade.

De repente, o barulho parou, e a voz de seu pai ergueu as orelhas pontudas de Damien como que por instinto.

- Ah não! Eu esqueci que o Damien estaria em casa!

Seu coração parou. Ele dormia no quarto logo ao lado do do pai, por isso o barulho de tornava ainda mais insuportável, apesar disso, seu pai nunca tinha se importado com o fato de ele estar ouvindo ou não.

- Damien? Hah! Aquele garoto não comeria alguém nem se tentasse!

Damien conteve ao máximo seu grunhido. Era incrível como a cada dia que passava a voz de Saddam se tornava ainda mais irritante.

- Saddam! - seu pai repreendeu.

- Olha, me perdoe, Satã, mas ele é um pirralho. Ninguém gosta de pirralhos.

- É, mas não precisa ficar falando isso quando ele está aqui do lado!

Sua raiva de repente desapareceu, substituída com uma imensa vontade de chorar.

Seu pai o achava um pirralho?

- Por que você não manda ele pra terra de novo? Não temos mais um segundo de sossego depois que esse moleque voltou pra cá. Ele só fica resmungando e reclamando o dia inteiro igual a um vagabundo!

- Eu não posso simplesmente mandá-lo de volta, sem mais nem menos, Saddam, não é assim que funciona.

Ele estava compactuando com a ideia?

Até o presente momento, em todo o tempo que seu pai manteve relações com Saddam, Damien nunca tinha se sentido tão pequeno.

- Só diz alguma daquelas coisas bíblicas que você sempre fala: “Você tem que agir como um anticristo de verdade, blá-blá-blá”. Ele é uma criança burra, obviamente vai cair.

O silêncio tomou o ambiente e deixou o pequeno anticristo ainda mais indignado. Seu pai não ia fazer nada? Ele tinha chamado seu filho de burro na frente dele, sabendo que ele podia ouvir, e ele não ia fazer nada?

- Eu não sei se é uma boa ideia… Ele não cairia em algo tão óbvio assim.

As lágrimas que ameaçavam escorrer caíram como uma cachoeira por suas bochechas. Damien estava completamente desiludido. Seu pai não ia fazer nada. Ele ouviu claramente todas as coisas que Saddam disse e insinuou sobre ele, sobre seu filho, e ele não ia fazer nada.

Todo esse tempo, todo esse esforço para que seu pai visse a pessoa horrível que Saddam era, foi tudo para ele ser traído no final. Seu pai escolheu um namorado ditador abusivo ao invés do próprio filho.

Um estrondo ecoou pela casa com o chute que Damien deu em sua porta. Ele não se importava que eles soubessem que ele estava acordado, nem que o ameaçassem com broncas, pois não ficaria ali nem mais um minuto para ser tratado desse jeito. Ele estava cansado.

Quando Satã saiu pela porta do quarto, apenas com um lençol cobrindo seu corpo nú, Damien já havia usado seus poderes e desaparecido do inferno.

- Damien, espera!

Nenhuma resposta veio do anticristo, visto que este já se encontrava a mais de quilômetros de distância.

- Viu? Ele é só um pirralho chorão! - Saddam cruzou os braços e negou com a cabeça, como um pai decepcionado.

- Saddam! Ele é meu filho!

- E daí? Ele tem que aprender qual é o lugar dele. Isso não é problema seu.

O rei do inferno calou-se, processando a linha de pensamento que o namorado o estava oferecendo.

- Talvez você esteja certo. Talvez eu deva deixar o Damien se virar sozinho por um tempo; ganhar independência vai ser bom pra ele.

Vitorioso, Saddam sorriu.

- Viu? Eu sei do que estou falando. Agora vamos cuidar da nossa vida e voltar pra cama.

Encarando o exato ponto onde Damien havia se teleportado, Satã suspirou.

- Ok, mas nós vamos só dormir agora. Eu… Não me sinto no clima pra continuarmos.

- Tá tudo bem, cara. Temos tempo amanhã.

Sem dizer mais nada, os dois voltaram a se deitar na cama, mas enquanto o rei do inferno de fato pegava no sono, o ditador iraquiano não conseguia, ou melhor, não queria. Estava enfurecido por, mais uma vez, ele passar uma noite sem chegar ao vigésimo round.

Maldito Damien, sempre estragando suas noites de diversão. Ele não aguentava ter que aturar aquele pirralho chato por nem um minuto, quem dirá todos os dias. Se o perguntassem, ele agradeceria à alguém por ele ter ido embora. Foda-se que Damien era o anticristo ou o filho de Satã, ele só queria quebrar seu recorde de fodas, não que o filhinho de papai que era Damien pudesse entender o que aquilo significava.

Coitada da pessoa que ele decidisse comer, com certeza seria a pior foda de toda sua vida.

(...)

- Ah! Para! Faz cócegas! - Pip gritou, engasgando para conter as risadas que ameaçavam deixar sua garganta, e o anticristo só conseguia sorrir enquanto enchia a pele sensível de seu pescoço de beijos, um atrás do outro, sem um segundo de sossego. - Damien!

As mãos pálidas deslizaram por sua cintura enquanto seguia uma trilha de beijos de volta aos lábios do britânico. As risadas pararam, substituídas pelos ocasionais suspiros que escapavam quando apartavam os lábios. Suas mãos trilharam seu caminho aos cabelos negros do anticristo, entrelaçando os fios entre seus dedos.

Não era justo. Ele era o anticristo, ele era um demônio. Não tinha nenhuma forma de Pip resistir à suas tentativas de sedução.

Suas mãos geladas, deslizando por suas pernas, apertaram a parte de trás de suas coxas e puxaram-no para si, colando seus corpos. Na segunda vez em que seus lábios deslizaram pelo pescoço do britânico, ele derreteu completamente. Seu bom senso foi para a casa do caralho, com poucas chances de retornar.

Dedos molhados entrelaçaram-se com os fios negros, sem incentivar ou impedir o anticristo ao deslizar por seu peito, as pontas de seus dedos gentilmente massageando ao redor de seus mamilos e seus ouvidos deleitando-se com os gemidos que deixavam a boca de Pip.

Inferno, ele podia estar por cima, mas o britânico não tinha ideia de como o tinha na palma da mão.

Foi apenas quando sentiu Damien começar a baixar suas boxers que Pip começou a hesitar. Querendo ou não, eles estavam em um lugar aberto. Qualquer um poderia aparecer ali e pegá-los naquela situação comprometedora. Não que ninguém soubesse do que faziam, mas pensar que eles seriam o assunto mais falado da escola pelo próximo mês era muito constrangedor.

Colocou a mão sobre a de Damien, parando seus movimentos e rapidamente atraindo seu olhar curioso.

- Eu não estou certo de que este seja o lugar apropriado para isso, Damien. - disse, sua voz saindo um pouco trêmula pela vergonha.

- Não ligo. - o anticristo respondeu rapidamente, atacando os lábios do britânico sem lhe dar a chance de responder.

Os pensamentos de Pip voltaram se nublar, seu consciente perdendo-se quase que completamente para a sensação das mãos de Damien percorrendo seu corpo e sua língua invadindo sua boca e entrelaçando-se a sua. A sensação era como eletricidade, correndo por todo seu corpo como se de um fio se tratasse. Ele conseguia vagamente sentir o atritar da cintura de Damien com a sua, seus sentidos começando a aflorar. Ele não aguentaria manter o autocontrole por tanto tempo.

- E se alguém nos vir? - insistiu, separando seus lábios. - Seremos presos por atentado ao pudor.

Damien quase soltou um grunhido, cansado de todo o cu doce de seu namorado, mas manteve o sorriso charmoso e sedutor nos lábios, sabia o quanto Pip adorava seu sorriso.

- Isso se nos virem.

Embora voltando a atacar os lábios de Pip sem descanso, seu argumento perdurou em sua cabeça. Estavam em um lugar público, seus amigos a poucas nadadas de distância, e, embora ele não fosse muito do tipo que esconde o que faz, sabia como o britânico preferia manter as coisas para si mesmo. E como não poderia considerando que mora em uma casa com mais outras sete pessoas, onde um segundo de privacidade já era muito? Talvez pudesse fazê-lo um favor de uma forma que agradasse a ambos.

Puxando seus lábios de volta para si, agarrou Pip pela cintura e o trouxe junto à ele de volta para a água, arrancando uma arquejada de seus pulmões pelo susto. Pip segurava em seus ombros com força enquanto batia as pernas para manter-se na superfície.

- Coloca as pernas na minha cintura e segura no meu ombro. - guiou Damien, seus braços firmes em sua cintura. O britânico assentiu e fez como foi mandado, enfim conseguindo estabilidade, além de sentir o membro de Damien o cutucando por debaixo das boxers. Mas já? - Assim fica mais privado. Melhorou?

Pip encarou fundo nos olhos do anticristo e assentiu com a cabeça. Ele estava completamente perdido.

Damien apertou os braços ao redor de sua cintura, ambos compartilhando gemidos pelo atrito entre suas intimidades. O cheiro de água e mato misturava-se com seus perfumes, uma combinação um tanto enjoativa, mas eles estavam demasiadamente mergulhados no prazer envolvente e intoxicação que era ter pele contra pele que sequer conseguiam prestar atenção ao seu redor.

Pip subia e descia no colo de Damien, guiado por suas mãos e forte pegada. Suas mãos tremiam em seus ombros, quase o desequilibrando não fosse pela forma com que arranhava sua pele úmida.

O prazer consumia sua mente, nublando completamente aquela vozinha que sussurrava que aquilo era uma má ideia, e viciava seu corpo naquelas sensações tão deliciosas.

A água tornava um pouco difícil de se segurar, frequentemente fazendo o britânico deslizar do colo do anticristo, que quase fincou as unhas em suas coxas para mantê-lo estável.

- Segura mais forte. - grunhiu Damien enquanto tentava manter o ritmo e o atrito entre seus membros.

- Eu tô tentando! - Pip rebateu com a voz alta, agarrando-se aos ombros de Damien como um coala.

Baixos gemidos escapavam de suas bocas conforme seus movimentos aceleravam, mas fazer barulho não era uma opção. Seus amigos estavam praticamente ao lado deles, além de que qualquer um poderia passar por ali e pegá-los naquele momento íntimo. Mas, na verdade, aquilo era tudo parte da graça, o que tornava tudo mais divertido, muito embora Pip jamais fosse admitir.

Ele estava à beira de seus limites, rosto enterrado no pescoço de Damien, afogando-se em seus sentidos. Seus movimentos se tornavam cada vez mais erráticos e afobados, subindo e descendo em um ritmo descompassado, ambos querendo atingir logo o orgasmo. Não tinham exatamente a noite toda para aquilo, não que não pudessem continuar mais tarde.

Damien atacou vorazmente os lábios de Pip ao sentir atingir o clímax, aquela familiar sensação de adrenalina seguido de êxtase percorrendo cada pontinha de pelo de seu ser, e foi rápido em levar uma mão por baixo da cueca do britânico e masturbar seu membro rígido, elevando-o acima do ápice.

As mãos trêmulas do loiro mal conseguiam se apoiar nos ombros de Damien após o orgasmo, acabando por ter que depender da força do próprio anticristo para continuar naquela posição. Sua respiração estava descompassada e, mesmo com água os cercando por toda a parte, o suor contaminava sua pele, grudando os fios loiros em sua testa e lateral do rosto. Mas, ainda que cansado, Damien o mantinha preso aos seus lábios em um demorado beijo, invadindo sua boca com a língua enquanto as mãos, agarradas à sua pele, apertavam suas coxas e sua bunda, marcando a pele branca com um vermelho irritado.

- Não tão forte. Eles vão perceber. - Pip sussurrou, ainda com falta de ar, ao afastarem os lábios.

Grunhindo, Damien deu uma última apalpada na bunda durinha de seu namorado e o ergueu pelas coxas, colocando-o sentado em seus dedos entrelaçados e com as pernas presas ao redor de sua cintura para aconchegá-lo naquela posição.

O britânico apoiou-se nos ombros de Damien, ficando bem mais alto que ele, a ponto de seus cabelos loiros caírem e cobrirem seu campo de visão lateral. Suas mãos, livres após apoiar o braço nos ombros do namorado, acariciavam seus cabelos igualmente encharcados, um sorriso em seu rosto.

A forma como o azul dos olhos de Pip reluzia sob a luz da lua era simplesmente hipnotizante, e o ângulo em que Damien estava só deixava seu namorado ainda mais lindo.

- Eu adoro te ver daqui de baixo. - murmurou e beliscou os lábios do britânico com os seus. - Eu te amo tanto, Phillip.

Damien foi então pego de surpresa pelo riso de Pip, que não fazia o menor esforço para esconder.

- Qual é a graça?

- Você me chamou pelo meu nome. - sorriu. - É alguma ocasião especial?

- Todos os dias com você são ocasiões especiais, meu anjo. - Damien rebateu com a língua no canto da boca.

Pip riu novamente. Seu namorado era tão brega, mas ele amava cada pedacinho dele e tudo que vinha junto. Incluindo os flertes melosos e declarações de amor açucaradas.

Além do que, Pip sendo Pip, não podia reclamar de algo apenas por ser cafona, já que todos o zoavam até hoje pelas roupas que insistia em vestir.

- Para. Você vai me deixar com diabetes. - provocou com um suave beijo em sua bochecha. - Talvez seja melhor voltarmos, não quero que eles descubram que viemos pra cá pra você se esfregar em mim.

- E te dar diabetes.

- E me dar diabetes.

Damien voltou a colocar Pip na água e os dois nadaram o mais discretamente possível de volta ao local onde seus amigos estavam, esperando que ninguém tivesse notado a ausência deles.

Mas não era assim que funcionava.

- Onde vocês estavam? - Gregory foi o primeiro a questionar, um sorriso no canto da boca.

- Não te interessa. - rebateu Damien.

- Ninguém aqui é virgem, tá? - bradou Christophe, do outro lado. - Não se façam de santos que todo mundo sabe que vocês não são.

Gregory riu e ambos ele e o parceiro continuaram a provocar o segundo casal. Contudo, Estella não opinou, seu foco em outra coisa completamente diferente.

Com os braços ao redor dos seus, a britânica guiava Rebecca pela água, os movimentos calmantes contra suas costas enquanto ela tinha a visão perfeita da água batendo no peito da morena.

Estella nunca pensou que viria a adorar tanto uma relação tão doce e terna quanto a que tinha com Rebecca. Desde que começaram tudo isso, a morena tinha deixado claro que não queria nada sério com a britânica; estava apenas a procura de alguém com quem se divertir. Porém, ela sentia uma verdadeira conexão com ela. Saíam juntas com frequência, conversavam por mensagem, às vezes até lanchavam juntas. Eram melhores amigas. Havia algo em Rebecca que chamava a atenção de Estella, como se ela realmente a entendesse, como se aquele momento, as duas abraçadas, sorrindo uma para a outra com corações nos olhos, fosse destinado à ela, e ela não conseguia se sentir desapegando daquilo.

Merda, ela não podia estar se apaixonando por Rebecca. Não com as condições que estabeleceram para aquilo ser possível pra começo de conversa.

- Algo errado, Estella? - a morena perguntou, seu sorriso desaparecendo. - Você parece preocupada.

Saindo do transe, a loira abriu um sorriso torto.

- N-não, eu só… Estou divagando.

- Se eu estiver fazendo algo de errado, por favor, me avise. Você fica tão mais linda com um sorriso no rosto.

Era oficial, Estella estava fodida.

23 de Abril de 2020 a las 00:01 0 Reporte Insertar Seguir historia
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