anncaroll Ana Ferreira

Após serem escolhidos como os novos membros da Escola de Magia Crawford, onde serão preparados para se tornarem parte da Sociedade dos Corvos, a maior sociedade de Magos do mundo mágico, os cinco jovens vão perceber que nada daquilo é o que esperavam. Imersos em uma rede de segredos e mistérios, o ressurgimento de uma força antiga coloca a ordem vigente e a magia em risco e eles são forçados a se unir com forças esquecidas e partir em busca da verdade.


Fantasía Todo público.

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I

A biblioteca era um dos maiores cômodos da casa. Situada no final do corredor oeste, as altas paredes marrom escuras se erguiam altas e imponentes. À frente, uma sequência de estantes de madeira chegavam quase até o teto, consumidas por milhares de livros de todos os tamanhos e assuntos. Aquele costumava ser o seu lugar preferido quando era menor. Elas ocupavam todas as paredes, exceto uma, com três grandes janelas que se distendiam do chão de carvalho até o topo, permitindo uma visão clara do céu brilhante e da cobertura da copa das árvores. Os feixes de luz salpicavam o lugar em alguns pontos, impedindo que as cores escuras tomassem conta. Suspirando, ela adentrou a biblioteca. A respiração era baixa, regulada, os batimentos eram compassados. Ela mantinha um olhar decisivo, as íris âmbar fixas em seu caminho. Com a cabeça erguida, a ponta dos cabelos ondulados raspando o tecido folgado da camisa branca nas costas, ela alisou a saia vermelho xadrez, retirando quaisquer resquícios de grama que pudessem ter ficado. Com o canto do olho, notou sua figura refletir como um borrão no chão recém envernizado. Tentou sentir falta daquele lugar, das memórias, mas não achou nada, não havia nada para ser encontrado. Era fora, de fato, expulsa dali quando tudo se tornara adulto demais, fechado demais.

Na mesa do outro lado do quarto, duas pessoas acompanhavam-na atravessar. O homem estava sentado atrás do móvel, o estofado dourado reluzindo atrás dos cabelos ruivos. Suas mãos estavam entrelaçadas e seu queixo, erguido. De longe, seus olhos eram escuros e impassíveis e seus lábios formavam apenas uma fina linha. Não havia cenhos franzidos, mas o ar em seu entorno era pesado, esmagador, uma densa camada de palavras não ditas e segredos não contados que tomava qualquer um que se aproximasse demais. Ao seu lado, em pé, embora uma cadeira semelhante repousasse intocada, a mulher tinha um semblante mais suave e acolhedor. Os lábios vermelho vivo se contorciam no início de um sorriso, sua cabeça não estava erguida como os outros, mas ela não precisava daquilo para fazer sua presença e autoridade serem sentidas. O vestido verde escuro era justo ao seu corpo esguio, do mesmo tom de seus olhos, fixos na garota que se aproximava.

Exceto pelos três, o cômodo estava vazio. A garota conseguia ouvir sua respiração e o tintilar dos sapatos ecoando, passando pelas frestas dos livros. Toda a compostura fazia a ocasião parecer especial, importante, ainda que ela achasse que não fosse. O que poderia haver de especial em algo que todos já sabiam que iria acontecer? Seu olhar se manteve na paisagem do outro lado do vidro, onde sua mente ainda permanecia. Teve vontade de fechar os olhos e invocar a sensação da brisa, do sol em seu rosto, aquecendo-o, da grama sob si, mas não o fez, apenas continuou andando até parar a alguns passos da grande mesa no centro, as mãos ao lado do corpo. De relance, olhou para as cadeiras entre as quais estava e percebeu que seu pai fazia o mesmo, mas de uma forma mais autoritária. Ela se sentou, ponderando se deveria ser a primeira a falar.

– Mãe. Pai. – arriscou e aparentemente acertou.

– Brenda. – retribuiu seu pai. Distante e sisudo.

– Filha. – sua mãe era a única impedindo que a conversa se tornasse constrangedora ou se limitasse a monossílabas.

– Assumo que saiba por que está aqui. – seu rosto voltou a encarar seu pai e suas sobrancelhas grossas.

– Bom, não é essa a conversa que os pais costumam ter com os filhos. – ela deu um sorriso irônico e cruzou as pernas. O clima pareceu ficar mais pesado e suas feições se retraíram, lembrando-se de que a tolerância de seu pai era baixa e que chamas poderiam incender a qualquer momento. Do lado oposto, seu pai contorceu o canto da boca. Humores incompatíveis, era o que costumava pensar. Os olhos oliva eram doces, mas duros. Ela tomou as mãos de Brenda nas suas. O homem pigarreou.

– Você sabe por que está aqui, tornemos isso sério. – sua voz grave encheu o cômodo. A garota suspirou antes de acenar com a cabeça. O momento que se repetia diariamente em sua mente, mas que parecia longe, como um sonho agora se desenrolava. Não precisava nem mesmo tentar se lembrar das palavras, o discurso estava há muito encravado.

– A cada dezoito anos, cinco jovens dessa idade são selecionados para entrar na Escola e Academia de Magia de Crawford, onde irão aprender a prática e a arte da magia. Sim, pai, eu conheço a tradição. – ela deu uma pausa antes de continuar – Você foi escolhido, mamãe foi escolhida, Helena foi escolhida. Está no meu sangue.

Seus olhos finalmente pousaram sobre a carta e o selo vermelho na ponta. Estava mais próxima de si do que de seus pais, mas ela já sabia o conteúdo, não precisava dela para saber seu futuro. Não iria mentir dizendo que não queria aquilo, Crawford, magia, porque queria. Poucos tinham acesso aos privilégios de aprender magia. Aquilo acelerava seu coração e iniciava algo dentro de si, ela queria tudo aquilo, apenas gostaria de poder ter sido uma escolha sua.

– Então está ciente das responsabilidades que a acompanharão daqui para a frete. Não nos decepcione. – Brenda pensou ter sentido sua voz amenizar na última parte, um sinal de afeto, porém os olhos castanhos escuros permaneciam indiferentes. Ela não pode evitar se não deixar as palavras ressoarem em sua mente. Seus pais não queriam só que ela fosse boa, queriam que fosse tão boa quanto eles – e sua irmã – haviam sido, talvez ainda melhor.

– Farei meu melhor, sempre faço. – disse e ergueu o queixo. Seus pais sorriram simultaneamente. Brenda relaxou os ombros, sorriu de volta e se levantou lentamente.

– Esteja pronta até o cair da noite. – ela já sabia quanto tempo tinha, sabia de todos os detalhes, mas ouvir a realidade ainda era um baque. Algumas horas era tudo o que tinha para se despedir de quem era, ou fora até aquele exato momento. Apenas concordou com a cabeça e saiu, sem focar no fato de que estava vendo aquele lugar pela última vez em anos.

No longo corredor, assim que estava fora do alcance de visão, se permitiu recostar na parede e respirar fundo, o tapete estilo passadeira sendo desalinhado por seus pés. Brenda mordeu o lábio inferior com força e ali ficou por algum tempo, braços cruzados, encarando o lustre no teto.

Segundos depois, estava novamente deitada na grama do jardim da frente. Uma clareira se abria metros a frente. As árvores farfalhavam com o vento e folhas caíam ao seu redor. Tinha tirado os sapatos, que agora se encontravam jogados em algum canto, e sentia a grama aparada fazer cócegas nos espaços entre os dedos. De olhos fechados e com uma expressão calma, ela sentia o sol em seu rosto e pensou que gostaria que aquela fosse sua última lembrança de casa antes de partir, em vez das quatro paredes beges de seu quarto. Franziu o cenho quando a luz banhou de banhar e aquecer seu rosto e abriu os olhos, esperando ver alguém a mando de seu pai, mas sorriu quando encontrou um rosto familiar, também sorrindo. Ravi era a única pessoa que vivia perto dali, ainda que perto fosse longe e impedisse que eles conseguissem passar o dia inteiro juntos, fazendo nada em um canto qualquer. O vento balançava seus cachos negros, embaraçando seu cabelo. Ele não se importava.

Sob o sol, sua pele parecia mais viva, mais reluzente e pequenas estrelas douradas dançavam em seus braços e bochechas. Deitados lado a lado, ombros tocando, nenhum deles precisava dizer nada, já sabiam de tudo. No silêncio, depois que as risadas e suspiros cessaram e restara apenas o assovio do vento, a verdade se debruçava sobre si e Brenda sentia como se devesse falar alguma coisa, mas com os lábios entreabertos, as palavras pareciam terem ficado presas em sua garganta. Engoliu em seco, mas Ravi tomou a dianteira, ainda de olhos fechados, as mãos juntas em sua barriga.

– Por favor, não diga nada. – Brenda se apoiou no cotovelo, ficando de lado para encará-lo.

– Eu ainda não disse nada.

– Mas estava pensando – ele estava certo. Ela queria simplesmente soltar as palavras em um redemoinho sem nexo, como se aquilo fosse aliviar o peso de deixa-lo para trás. Ravi jamais poderia acompanha-la, ele não fazia parte de uma linhagem que tivesse uma gota mínima de magia, ele não poderia ir para Crawford com ela. – Apenas... – sua voz engasgou e ele abriu os olhos. Sob o sol, o âmbar das íris poderia formar uma galáxia inteira. Pensou ter visto eles marejarem. – Apenas não torne isso mais difícil, Bren.

– Não estou fazendo nada, você sabe que não é uma escolha minha.

– Mas se tivesse que escolher, ainda assim escolheria ir. Não faz diferença. – ele parecia magoado. Seu coração pesava. Ela não queria deixar a única pessoa com quem se importava, além de seus pais, para trás. No entanto, queria a magia e tudo o que Crawford tinha a oferecer. Talvez Ravi estivesse certo, talvez não houvesse diferença, não quando todos os caminhos levavam ao mesmo lugar. Brenda suspirou.

– Você sabe que ainda continuaremos amigos, não sabe? – ela voltou a encarar o céu, as nuvens se movendo como a espuma nas ondas do mar. Ouviu a grama ao seu lado. Ravi agora estava de pé.

– Você diz isso agora, mas não pode ver a verdade, não quando ainda está presa a uma fantasia. – ela se levantou num pulo, ficando cara a cara. Seu coração estava acelerado agora, ainda que machucado com as palavras. – Nem se lembrará de mim quando finalmente entrar na Sociedade.

– Nós dois sabemos que isso não é verdade.

– Então – ele se interrompeu subitamente, mordendo o lábio inferior. Seu olhar agora estava desviado, fixo no verde abaixo. Quando levantou a cabeça, uma coragem e uma certeza momentâneas irrompiam em seu rosto. – Fuja comigo.

Brenda sentiu suas pernas ficarem bambas e um terremoto tirou o chão debaixo. Seu estômago se contraiu e sua garganta ficou seca. Seus lábios estavam separados, mas apenas ruídos ininteligíveis saíam. A figura de Ravi, que antes estava apenas a centímetros de seu próprio corpo, estava a quilômetros de distância, sua voz havia se tornado um mero eco distante. Ela piscou algumas vezes até recobrar os sentidos e a consciência, embora ainda não conseguisse raciocinar direito. O pedido fazia cada parte sua estremecer e suas têmporas latejarem. O sol desaparecera atrás de algumas nuvens e a brisa parara, fazendo-a sentir o frio. Respirou fundo e se recompôs, firmando os pés e levantando a cabeça. Ravi permanecia a sua frente, mas não demorou muito para que o silêncio se fizesse de resposta e seu olhar caiu, a coragem esvaecendo. Se arrependeu de ter dito qualquer coisa, mas não tinha mais volta, então permaneceu com o pedido.

– Ravi, você sabe que não posso, não é assim que as coisas funcionam.

– E como é que as coisas funcionam, Brenda? – ela engoliu em seco novamente. Em sua voz, seu nome completo parecia áspero, bravo. – Me diga como funcionam.

– Eu não posso simplesmente abandonar Crawford, eu fui convocada, não ir seria uma desonra a minha família. – respondeu, agora mais firme. Suas mãos, que estava junta das de Ravi, os dedos entrelaçados, se soltou ao lado do corpo, e então os braços cruzados sobre o peito. – Além disso, para onde iríamos? Não me diga que sabe, porque sei que não.

– Você está certa, não sei, mas descobriria, em vez de ficar presa com um monte de Magos antiquados, repetindo feitiços como discos riscados.

– Ravi, por favor, não quero brigar com você, não hoje. Não quero ir embora sabendo que você me odeia. – suplicou. Eram amigos desde que se entendiam por si. Tombou a cabeça para o lado. – Por favor – repetiu, podendo ver como o amigo lutava para tomar uma decisão. Ela esperava que fosse a decisão certa. E continuou – Olha, eu prometo que voltarei para te ver em todas as oportunidades que tiver. Prometo que terá todas as minhas férias. – ele a olhava, incerto, mas esperançoso. Brenda estendeu a mão esquerda, o mindinho esticado. Promessa feita, inquebrável. O garoto sorriu e repetiu o gesto, entrelaçando seu dedo ao dela.

Na clareira, as árvores observavam a cena, se perguntando qual deles seria o primeiro a quebrar a promessa.

As peças restantes estavam amontoadas no canto do guarda roupa. Ela não levaria tudo e deixar algumas roupas lá significaria uma chance de voltar. Depois de terem jurado fisicamente, nenhum dos dois havia dito nada, Ravi apenas voltara para sua casa, se afastando com as mãos no bolso da calça e os cabelos ao vento. Agora não havia mais sol, apenas a lua pendendo no céu. As cortinas estavam fechadas a os lençóis da cama, esticados. O abajur na cabeceira estava apagado. Parada na soleira da porta, a mala ao seu lado, deu uma última olhada no cômodo, absorvendo o máximo que podia, e após fechar a porta, desceu a escada em espiral até o centro da casa, onde seus pais esperavam. Sua mãe ainda portava o mesmo sorriso daquela manha, porém, diferente do que encontrara na biblioteca, seu pai agora parecia mais aberto, com os ombros relaxados e os olhos mais abertos. Seu cenho não estava franzido e havia um pequeno sorriso no canto de sua boca. Ravi não estava ali. Ela se aproximou mais, soltando a mala no meio do caminho e estendendo os braços para um abraço. Sentiu os braços deles, um de cada, em suas costas e aprofundou o abraço. Sentiria falta daquilo, sim. Sentiu as lágrimas se amontoarem em seus olhos e desfez o enlaço, mantendo apenas o sorriso.

Tentou se lembrar se aquele momento era semelhante ao que havia imaginado nos últimos anos, mas não conseguia se lembrar. Aquele momento superava qualquer outro possível. Um calafrio percorreu seu corpo e seu estômago se retraiu de ansiedade. A porta da casa estava aberta, mas quando Brenda atravessasse a soleira, não pisaria no jardim. Quando passasse pela porta, não estaria mais em casa e quando olhasse para trás, não veria mais seus pais ou sua casa. Seus pais e o diretor de Crawford haviam enfeitiçado a porta e os portões da escola para que, quando cruzasse a linha, estivesse finalmente na escola de magia. Brenda observou as árvores da clareira a sua frente se dissolverem na escuridão da noite. Imaginou se em Crawford também seria noite, a mesma noite e a mesma lua que agora via cintilar. Respirando fundo, agarrou com força a alça da mala e enterrou as unhas no tecido. Cada passo era mais difícil que o anterior e ela não parecia chegar a lugar algum. No limite, prendeu a respiração e fechou os olhos. Mesmo depois de colocar o pé no chão, não abriu os olhos. Mas sabia onde estava, conseguia ouvir as vozes murmurando ao seu redor.

Até então, apenas os sons tornavam a atmosfera diferente daquela de sua casa. Não conseguia mais sentir a presença de seus pais atrás de si, apenas o vazio. Mas com os olhos finalmente abertos, Brenda se deixou ficar atordoada com a paisagem que se estendia diante de si. Estava parada no meio do caminho, em uma grande e aberta passagem de árvores. O ladrilho abaixo de seus pé era feito de pedras irregularmente cortadas e colocadas. Algumas das árvores se contorciam sobre a passagem, formando pequenos arcos em alguns pontos. Não havia mais ninguém ali, apenas ecos. Brenda olhou para trás, porém sua casa já não estava mais ali. Seus pais, Ravi. Ela havia deixado tudo o que conhecia para trás.

Ao longe, havia um grande portão de ferro, trancado. Do outro lado, também ao longe, uma enorme construção de pedra e tijolos se erguia. Havia duas grandes torres circulares nas pontas, cujas vidraças, mesmo de longe, eram grandes. No centro, havia um grande prédio retangular à frente, com uma enorme porta no meio, aberta. Os prédios laterais anexos continha longas fileiras de janelas altas com grandes peitoris de mármore. Grande parte do edifício era feita de pedras marrons e cinzas justapostas de uma maneira monumental, o que fazia a escola parecer, na verdade, um castelo antigo. Brenda prendeu os pés no chão, maravilhada com tudo que estava vendo. Não tinha certeza de como imaginara Crawford, mas não era aquilo. Jamais chegaria perto da realidade. Todas as vezes que desviava, seus olhos voltavam a fixar o prédio. Uma animação tomou conta de si e ela não pode evitar senão sorrir largamente. Seu cabelo esvoaçava ao vento e no silêncio da noite, ela conseguia ouvir as folhas das árvores se movendo.

Respirando fundo, ela deu alguns passos a frente, o sorriso cada vez maior e aberto, em direção ao prédio.

Estava em Crawford.

17 de Abril de 2020 a las 22:30 0 Reporte Insertar Seguir historia
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