lara-one Lara One

Você sabe a real intenção dos políticos, da religião, da propaganda? Das informações em massa? Sabe realmente a verdade? Onde está o inimigo? Você vive sua rotina: levanta, trabalha, estuda, dorme, e todos os dias são sempre a mesma coisa. Mas e se amanhã o sol não nascesse? Carros e ônibus não funcionassem? Nenhum meio de comunicação disponível? Nenhuma maneira de saber o que está acontecendo, nem de sair de casa? Você estaria preparado? Bem vindo ao Purgatório. O aviso foi deixado. Quem tinha ouvidos ouviu. Agora é tarde. A ceifa começou...


Fanfiction Series/Doramas/Novelas Sólo para mayores de 18.

#paranormal #fanfics #x-files #arquivo-x #mulder #scully
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S06#27 - PURGATORY - PARTE I

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Purgatório: Lugar de purificação das almas dos justos. Latim § purgatio § limpeza.

"E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele."

Apocalipse 12,9




INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.


ANO DOMINI - 2005

Igreja de São Sebastião – Virgínia – 10:21 A.M.

[Som: Era – Ameno]

O padre eleva o cálice, o consagrando. Igreja cheia. Diversas pessoas com camisetas de protestos contra a violência. Algumas famílias enlutadas que choram. Representantes de diversas religiões e movimentos sociais.

Victoria, com quase quatro anos, no colo de Scully. Ela sentada ao lado de Meg, Bill e Tara, essa tentando fazer Matthew ficar quieto, puxando a orelha do garoto. Scully olha para a capela. Vê Mulder sentado num banco olhando pensativo pra imagem de Cristo.

SCULLY (OFF): - O homem já foi ao espaço, construiu armas atômicas e químicas, aviões, meios de transportes rápidos, naves espaciais, satélites, telefones, computadores pessoais, eletrodomésticos portáteis e obteve avanços científicos nas mais diversas áreas do saber humano... Sem contar as invenções criadas a partir da descoberta da eletricidade e dos átomos, invenções também que nós estamos acostumados a usar em nossos lares todos os dias, sem nos darmos conta da importância que teriam se nos faltassem hoje. Como um simples vaso sanitário, um fogão a gás, a água que sai pela torneira ou a luz que acendemos no interruptor.

Scully olha para o celular de Bill sobre o banco.

SCULLY (OFF): - Algumas dessas invenções surgiram há muitos séculos, entretanto, em pouco mais de um século, o homem descobriu coisas que em todos os milhões de anos de evolução nem sonhava descobrir. Iniciou-se tudo isso com a Revolução Industrial e culminou com a era da Revolução Tecnológica. Essa pergunta pra Mulder e eu tem sua resposta, que ainda não é aceita pela ciência. Mas é uma pergunta que não se cala dentro de muitas pessoas: Como o homem pode ter descoberto tudo isso sem ajuda alguma? Não houve entre nós mentes geniais demais para serem apenas seres humanos? Nestas questões, toda a nossa paranoia começa e termina, sem termos respostas concretas.

Scully olha para Victoria que observa curiosa pra todo lado.

SCULLY (OFF): - Hoje, o homem conhece e manipula o genoma humano. O "Quarto Poder", o poder da informação, é a forma de poder mais perigosa e mais manipulada nos dias atuais. Com o advento dos computadores, telefones celulares, internet, as pessoas se comunicam com o mundo inteiro, fornecem e recebem informação, porém até que ponto as informações são verdadeiras? Na mídia, na comunicação, sempre tivemos manipulação dos fatos e com a amplitude dessa tecnologia, a manipulação da verdade passa a ser mais fácil de ser feita. As tecnologias diversificadas que facilitam nossa vida também servem para a destruição da própria espécie e das que conosco habitam. O homem provou ser inteligentemente o suficiente para evoluir em conhecimento, entretanto provou o contrário em sua evolução espiritual e emocional. Matamos indiscriminadamente as espécies que habitam conosco nesse planeta e também matamos a nossa própria espécie. Depredamos nosso meio ambiente e vivemos com sede insaciável de sangue quando ligamos o noticiário na televisão.

Scully olha para as famílias nas primeiras filas. Mulheres enlutadas que choram. Algumas seguram fotos de soldados jovens.

SCULLY (OFF): - Pouca gente percebe que os acontecimentos descritos nas Escrituras Sagradas já começaram. Eles caminham lentamente em direção a destruição. Nada podemos fazer diante da ira que assolará nosso planeta. Devemos guardar nosso coração dos sentimentos ruins e das atitudes egoístas, viver nossa vida de acordo com as palavras de Cristo e lembrar das promessas de Deus. As pessoas ainda ambicionam o poder. Mal sabem elas que o amor é o maior de todos os poderes.

Scully ergue o rosto. Vira-se para trás. Vê uma comitiva de cardeais e arcebispos sentados. Scully sorri. Mas tira o sorriso do rosto, ao ver sentado na igreja, entre os religiosos, The Gold Coin. Ele olha para Scully abrindo um sorriso debochado e pisca o olho.

VINHETA DE ABERTURA: VERITAS ADSUM ADESSE




BLOCO 1:

Orion Publishing & Entertainment Associates – Washington D.C. - 7:15 P.M.

Coin sentado em seu escritório, num terno elegante, assinando papéis. Batidas na porta.

SECRETÁRIA: -(EMPOLGADA) Senhor Alberthi, aquele ator que o senhor esperava chegou. Fred alguma coisa. Juro que pensei que ele era aquele ator de Lost, o que faz o Sawyer...

THE GOLD COIN: - Mande-o entrar... Senhorita Jones, poderia trazer-nos café?

SECRETÁRIA: -Senhor Alberthi, alguém já falou que o senhor é muito parecido com o Richard Gere?

THE GOLD COIN: -(SORRI) Sem o talento dele, obviamente.

Coin estende os papéis pra ela. Ela os pega.

THE GOLD COIN: -Passe por fax para Los Angeles, aos cuidados do Le Beau. Obrigado.

A secretária sai fechando a porta e dando um suspiro.

SECRETÁRIA: - (MURMURA PRA SI MESMA) Deus! Eu nem acredito que esse homem é solteiro! Lindo, educado, charmoso e rico! Eu queria ser a "linda mulher" dele! Ai, bem que ele podia olhar pra mim, né? Mas é tão tímido e cavalheiro...

Coin, dentro do escritório, dá um sorriso com o canto da boca.

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) Eu sou gay, "linda mulher".

Leviathan entra rindo e fecha a porta. Atira-se no sofá.

LEVIATHAN: -Gostosinha a sua secretária, "Richard Gere", pena que você não curte.

THE GOLD COIN: -Almirante, ela é fã de Lost, talvez você se dê bem com ela. Vamos ao que interessa...

LEVIATHAN: -Mas isso me interessa e muito! Adoro mulher! Melhor criação do Tirano! Se você não curte, deixa os outros curtirem.

Coin se levanta, tira o casaco do terno e coloca na cadeira.

THE GOLD COIN: - A melhor criação do Tirano fomos nós. E vê se curte com cuidado. Se apaixone pra ver o que acontece. Engravide uma macaca dessas e nos iguale a turma da segunda queda e eu mesmo mato você com minhas próprias mãos!

LEVIATHAN: -Calma, General. Calma. Só diversão.

THE GOLD COIN: -A diversão vai começar agora. A verdadeira diversão. Sexo é diversão pra macacada e serve para procriação, não para seres superiores como nós. Não somos animais, sabe o que penso a respeito de sexo, isso é patético! Sexo só serve para me trazer dinheiro com pornografia e espalhar a luxúria na cabeça desses imbecis. E nem venha me dizer que sexo com amor é diferente, pois é duplamente mais abominável! Amor... Quero que o amor se ferre em todas as suas formas!

A secretária bate na porta e entra segurando a bandeja com xícaras e o bule. Coloca sobre a mesa de Coin.

THE GOLD COIN: - Obrigado, senhorita Jones. Estou em reunião, não vou atender ninguém. Está dispensada por hoje, pode ir embora pra casa.

SECRETÁRIA: - Obrigada, sr. Alberthi!

Ela olha pra Leviathan, que sorri e dá uma piscada de olho pra ela. A secretária sai sorrindo, fechando a porta atrás de si. Coin muda sua forma física.Tira a gravata. Abre a camisa social.

LEVIATHAN: - (RINDO) E se ela visse você nessa forma, Johnny boy...

THE GOLD COIN: -Almirante, pare de brincadeiras. Por sua culpa as piadas começaram nesse planeta e tomaram rumo intergaláctico! Eu preciso trocar de camisa, tenho um compromisso. Reunião com todos os Sindicatos do mundo.

Coin abre um armário e pega outra camisa social.

LEVIATHAN: - Quero voltar logo pra Los Angeles, essa cidade é um saco! Não tem diversão aqui! Não precisa de mim pra sair com a Fowley? Acho ela chata e deprimente, mas pelo menos gosta de jantar, dançar e transar.

THE GOLD COIN: - Agora não. Você vai ficar mais tempo por aqui, ainda preciso de você... Pensando bem... Saia com a Fowley. Não a quero na reunião de hoje. Coloca alguma droga na bebida dela pra pensar que ficou bêbada, eu saí e ela perdeu a reunião.

Leviathan serve café para os dois. Coloca muito açúcar neles. Coin troca de camisa, revelando uma cicatriz sobre o coração.

THE GOLD COIN: - Hora de infiltrar nossos irmãos nos Sindicatos Mundiais. A Ordem vai pensar que ainda tem seus braços. Nossos anjos serão nossos olhos sobre os conspiradores. Não confio nos humanos e não quero mais arriscar expor Alberthi. Spender sabe a verdade e só não abriu a boca porque ninguém acreditaria nele e ninguém ali dentro gosta dele.

Coin acende um cigarro e senta-se sobre a mesa. Leviathan bebe o café num só gole.

LEVIATHAN: - Como vamos fazer isso? Como vamos sumir com os verdadeiros? Não podemos matá-los. Sabe as regras. Eu cago pra elas, mas você não.

THE GOLD COIN: - Sabe que desrespeitar regras só nos torna os malvados da história e isso dá mais razão pro papai Tirano, e razão é tudo o que jamais daremos pra Ele!

Coin bebe um gole de café.

THE GOLD COIN: -Eu tenho alguém pra fazer o serviço por nós. Agora tenho certeza de que ele não tem dono. Se não tem dono, pode ser nosso. O Tirano não pode nem resmungar. Regras, não? Os humanos têm livre-arbítrio como nós.

LEVIATHAN: -E quem é o macaco idiota que não tem selo na testa e vai matar os caras todos e fazer o serviço que nós anjos não podemos?

THE GOLD COIN: -Alex Krycek. Aquela tolice do Sindicato pelo menos serviu pra alguma coisa, pra mostrar que o russo tem determinação e pontaria. E pra revelar que ele é uma pedra no sapato que precisa ser removida. Mulder e ele juntos podem desmascarar a Ordem e serem um problema pessoal nosso, entendeu?

LEVIATHAN: - (RINDO) Lúcifer, você é foda! E as Tartarugas Ninjas lá em cima nem poderão encher nosso saco! Queria ver a cara do Miguel, Gabriel, Rafael... Vamos pegar um parente do Splinter!!!

THE GOLD COIN: - Não podem mesmo. Estamos dentro das regras. Alex Krycek vem pra nós, por livre-arbítrio. E eu cuidarei disso pessoalmente.

LEVIATHAN: - E o Mulder? Segue o plano?

THE GOLD COIN: -Primeiro Krycek. Preciso que indique a localização para o macaco russo de onde o Sindicato se esconde. Pra isso siga o sujeito. E então se revele na aparência que eu uso, fingindo não percebê-lo. Ele vai pensar que sou eu e vai seguir você, que vai levá-lo até a sede do Sindicato. O resto... O resto será diversão pura!

Residência dos Mulder - 7:21 P.M.

Mulder sentado no balanço, envolvendo os braços em Scully, que está recostada nele, tomando cerveja. Krycek, sentado no banco, tocando a introdução de Starway to Heaven no violão. Mulder empolgado, observando. Barbara sentada ao lado de Krycek, comendo sobremesa numa tacinha. Krycek solta o violão ao lado.

MULDER: - Fala sério, Rato! Você tirou Led Zeppelin de ouvido? O máximo que posso tocar de ouvido é colocando a orelha nas cordas!O único instrumento de corda que sei tocar é sino de igreja!

KRYCEK: -Mulder, meu pai me ensinou as notas básicas no violão. Eu não tenho teoria musical, não sei ler partitura, nem sei direito todas as notas. Tendo ouvido bom você pega qualquer música.

MULDER: -E o solo?

KRYCEK: - Também, mas aí é melhor saber as escalas das notas.

MULDER: - Eu só quero aprender a tocar alguma coisa no violão. Fazer serenata pra Scully.

SCULLY: - Meu Deus! Tô ferrada!

KRYCEK: - Nunca é tarde, Mulder. O legal é violão clássico, mas é bem mais demorado, envolve partitura e você quer é sair tocando, não vai entrar num conservatório musical. Então faz violão popular mesmo, você aprende mais rápido, por cifras e já sai tocando... Eu quero aprender piano. Desde criança eu tenho o sonho de tocar piano, mas sempre foi um instrumento caro demais.

BARBARA: - Se ele vai aprender ou não, eu não sei. Mas pelo menos o piano ficou bonitinho preenchendo um espaço vazio lá em casa. Se ele tocar "Love of my Life, do Queen" eu acho que vou me derreter feito sorvete no chão.

SCULLY: -Eu nem exijo tanto, se o Mulder tocar "parabéns pra você" no violão, eu já me dou por satisfeita!

MULDER: - Vai, humilha, mulher! Você não sabe do que eu sou capaz! Agora que tenho tempo na vida, só me aguarde. Sai um Fred Mercury nessa coisa?

KRYCEK: - É fã do Fred Mercury?

MULDER: - Rato, Queen é Queen, sempre será a realeza.

Krycek pega o violão, faz a introdução de "Love of my Life". Barbara coloca a mão no peito e resvala sentada pelo banco, revirando os olhos. Scully começa a rir.

KRYCEK: - (CANTANDO) Love of my life, you've hurt me... You've broken my heart and now you leave me... Vai Mulder.

MULDER: -(CANTANDO) Love of my life, can't you see? (OLHA PRA SCULLY) Bring it back, bring it back... Don't take it away from me because you don't know... What it means to me...

Scully envolve o braço no braço de Mulder, olhando-o apaixonada. Ele canta pra ela.

MULDER: -(CANTANDO) Love of my life, don't leave me... You've stolen my love and now desert me... Love of my life, can't you see? Bring it back, bring it back... Don't take it away from me because you don't know... What it means to me... (SORRI) Passo de volta.

KRYCEK: - (CANTANDO) You will remember... When this is blown over... And everything's all by the way... (OLHA PRA BARBARA) When I grow older I will be there at your side... To remind you how I still love you... I still love you...

Barbara olhando pra ele apaixonada, enchendo os olhos de lágrimas. Krycek baixa a cabeça e faz o solo. Mulder dá um beijo no rosto de Scully. Sorri pra ela.

KRYCEK: - Mulder, comigo...

MULDER E KRYCEK: -(CANTANDO) Oh hurry back, hurry back... Don't take it away from me because you don't know... What it means to me... Love of my life... Love of my life...

Krycek encerra a música. Barbara e Scully batem palmas pra eles e assoviam feito tietes. Barbara secando as lágrimas.

BARBARA: - Morri, Ratoncito! É sério. Isso foi lindo!

SCULLY: - É, quem diria! Anos atrás estariam se matando um ao outro, hoje estão aqui juntos e fazendo serenata pra nós duas. Não é melhor assim? A vida não é melhor e mais leve quando o ódio não participa dela?

BARBARA: - Amor é o ingrediente pra tudo, Scully. Sua filha quem me disse isso. Em suas várias fórmulas, ágape, philos ou eros... Os três completam a vida... Faça amor, faça música, mas não faça guerra. Ratoncito, uma pergunta: Fred Mercury era tenor?

Krycek solta o violão.

KRYCEK: - Barítono. Acho que o melhor cantor do século 20 no rock foi o Mercury. Ele cantava qualquer coisa que quisesse. A voz do cara era perfeita.

MULDER: - Parecemos um bando de velhos recordando os tempos antigos...

KRYCEK: - É que tá difícil aparecer coisa boa. Os caras só regravam os velhos ou tentam imitá-los.

SCULLY: - Stones forever! Beatles forever!

MULDER: - É, você tinha sonhos eróticos com o Mick Jagger, que eu sei.

BARBARA: - Já que estamos falando de rock inglês, eu tinha sonhos eróticos era com o David Bowie!

MULDER: -Você não é nova demais pra curtir esses caras todos?

BARBARA: - Uma década de diferença em idade, mas em música é nada. Curti todos eles.

SCULLY: -Que noite maravilhosa! Falar de coisas agradáveis, ouvir música, nada daqueles eternos assuntos e preocupações. Sermos pessoas normais. Adoro isso! Temos que fazer mais vezes.

BARBARA: - A próxima é lá em casa. Devo a comida cubana que prometi.

SCULLY: - E a tal torta de ganache com bombons... Hum...

MULDER: - Pronto, começaram a falar de comida. Depois briga comigo por assaltar a geladeira!

KRYCEK: - Scully, sabia que lá em casa tem assaltante de geladeira também?

BARBARA: - Ai, Ratoncito! Que maldade!

SCULLY: - (RINDO) Aqui tem dois. Pai e filha.

MULDER: - Reclama, mas adora deixar provocações na geladeira, tipo mousse de maracujá!

SCULLY: - Eu te amo, o que posso fazer?

MULDER: - E eu te avisei, Rato. Eu alertei, fui amigo, eu disse que elas começam a fazer sobremesa pra agradar o namorado e quando você vê já virou marido. Eu me vendi por um mousse de maracujá.

KRYCEK: - Sério? Eu me vendi por uma torta de chocolate com ganache...

BARBARA: - Scully, vamos parar de ser otárias e passar menos tempo na cozinha. Eles não ligam mesmo.

SCULLY: - É verdade!

BARBARA: - E eu ainda pensando que podia fazer uma torta de limão...

SCULLY: - Eu ia fazer uma torta holandesa que a Ellen me deu a receita...

Mulder e Krycek se entreolham.

KRYCEK: - Tem como sair dessa, Mulder? Perdi uma torta de limão e você uma torta holandesa.

MULDER: - Pra tudo tem solução, Rato. Faz carinha de pidão.

KRYCEK: - Eu não sei fazer cara de pidão.

MULDER: - Olha aqui, suas duas nanicas ingratas. A gente fez até papel de bobo cantando apaixonados pra vocês. Por pouco eu não tirei a camisa, peguei a vassoura e imitei o Fred Mercury! Nem uma sobremesa pra pagar o couvert? Não tá fácil a vida de artista não!

As duas seguram o riso.

SCULLY: - E agora, Barbara?

BARBARA: - Pois então, Scully... Foi Love of my Life, né? Acho que vale. E você?

SCULLY: - (PENSATIVA/ SEGURANDO O RISO) Hum... Tô na dúvida. Você teve seu Brian May que cantou e tocou direitinho. Se o Mulder tivesse imitado o Fred Mercury...

MULDER: - Pode isso, Rato? Sua mulher gosta de abichalhar você? Porque a minha sente prazer nisso!

KRYCEK: - Olha, "amorzinho", a ideia da Scully até que é interessante. Você com um bigodão sexy e sem camisa, agarrado naquela vassoura e cantando "Love of my Life" de joelhos na minha frente... Até eu faria sobremesa pra você!

Krycek, Barbara e Scully riem. Mulder faz cara de pânico. O celular de Krycek toca. Ele tira o celular do bolso e olha o visor.

KRYCEK: - Lamento, hora de ir. O dever me chama.

MULDER: - E o caso da Rose, aquela que você falou?

KRYCEK: - Nada ainda, Mulder. Enquanto eu não descobrir quem ela é...

MULDER: - Por que não pede pro Skinner colocar no banco de dados do FBI?

KRYCEK: - Ele colocou, mas ninguém apareceu pra reclamar o corpo, nem pra dizer se a conhece.

MULDER: - Concordo com o Donald. Foi mesmo ritualístico. E concordo com você que tem ligação com aquela gente do topo. Muita coincidência, 11 facadas e 11 alvos. Fizeram foi um mandingão pro nosso lado e aquela garota pagou com a vida.

KRYCEK: - Não vou sossegar enquanto não descobrir quem ela é.

SCULLY: - Vocês acham mesmo que essa gente é satanista? Não faz sentido, porque se Coin está com eles, eles devem saber quem ele é, por que fariam essas coisas místicas sabendo que ele não passa de um alienígena?

KRYCEK: - Uau! Scully não era cética e religiosa?

SCULLY: -Eu continuo cética quando é preciso. Mas mantenho a minha fé no Criador. Agora mais do que nunca. Eu tenho medo de cair novamente e aquele desgraçado voltar.

BARBARA: - Concordo, Scully. Não faz diferença alguma se Deus é um alienígena ou não. Ele continua sendo Deus e nos criou. E aquele desasado foi chutado pra fora da festinha e agora quer acabar com os convidados todos.

SCULLY: - Coin me torturou, quase me enlouqueceu, enfiando pensamentos na minha cabeça que não eram meus! Não há nada de místico nessa experiência, ele é um maldito alienígena mesmo, esse é apenas um dos talentos especiais da raça dele. As pessoas ficam discutindo a existência de Deus. A questão não é Deus, a questão é a visão distorcida que o homem tem de Deus. Essa visão é que é realmente questionável.

MULDER: - Aí é que está, Scully. Krycek e eu achamos que nem eles sabem a real natureza do Moedinha. Pensam que ele é humano. Spender sabe. E acho que é o único que sabe. E se abrir a boca...

KRYCEK: - É. Se ele abrir o jogo com quem está lá dentro agora, certamente vão rir da cara dele e entregá-lo ao Coin. O velho é esperto. Ele fica em cima do muro. Sabe que expondo Coin, vai ser pior.

BARBARA: - Eu podia pedir pro Calvin colocar a foto da Rose no jornal virtual. Pessoas do país todo acessam o site.

KRYCEK: - Boa ideia. Ela tem que ter família ou alguém que se importe com ela e que provavelmente a está procurando. Bom, obrigado pela noite, pelo jantar e pela conversa. Mas o dever me chama.

Krycek e Barbara se levantam. Mulder e Scully também.

BARBARA: -O meu também, tenho que me arrumar e ajeitar a pauta pra entrar ao vivo às dez.

MULDER: - Você entra ao vivo na TV direto da sua casa?

BARBARA: - Só pro jornal das dez na Pensilvânia. O das oito eu vou pra Washington com a equipe. Faço um apanhado geral do dia na política e me conecto pela internet com o apresentador. Quando ele me chama, conversamos por vídeo, ao vivo... Obrigada vizinhos, tava ótimo!

SCULLY: - A noite foi divertida. E pelo menos alguém usou o violão empoeirado do Mulder.

Krycek se aproxima de Mulder, enquanto as duas conversam.

KRYCEK: - Não conta nada pra elas ainda. Não vamos estragar a noite das garotas. O cara me mandou mensagem, em quinze minutos vai desembarcar.

MULDER: - Você vai contatar esse cara mesmo? Rato, toma cuidado. Você conhece os caras da "extinta" KGB. Não tem muita diferença pra CIA. Posso ir com você pra garantir a segurança.

KRYCEK: -Vai levantar suspeitas pra elas, Mulder. Melhor ficar por aqui de olho na segurança delas. Ele vai nos dar as respostas que precisamos. Ele me deve uns favores.

Corte.



[Som: Era – Don't go Away]

CARTA ÀS SETE IGREJAS:


ÉFESO -O abandono do primeiro amor.

ESMIRNA - És pobre, contudo és rica.

PÉRGAMO -Rituais idólatras e imoralidade.

TIATIRA -Falsos ensinamentos.

SARDES -Aparências.

FILADÉLFIA - Perseguição.

LAODICEIA-Materialista.


[Imagens dos diversos templos e crenças no mundo]
[Imagens da violência religiosa e segregacionismo religioso]

Corte do som.


Aeroporto de Dulles – Washington D.C. – 8:39 P.M.

As pessoas saem pelo portão de desembarque. Entre elas o homem alto e sério, de feições russas, carregando uma valise. Ele procura alguém com os olhos.

Krycek em pé, com os fones do walkman nos ouvidos, abaixa o jornal que mantinha em frente ao rosto. Olha para o homem. Ele o percebe. Krycek sinaliza com o rosto, indo em direção ao banheiro.

Corte.


O homem russo entra no banheiro. Krycek tira os fones, puxa a arma e verifica os toaletes. O homem coloca a valise sobre o balcão da pia. Abre rapidamente retirando uma fita K7 de um fundo falso. Entrega para Krycek.

HOMEM RUSSO: -Ne tak strashen chort, kak ego malyuyut. (O Diabo não é tão mal quanto é pintado.)

KRYCEK: - (SÉRIO) Vremya pokazhet. (O tempo dirá.)

Krycek coloca a fita K7 no walkman e sai rapidamente.

O homem fecha a valise. Leva as mãos à torneira, lavando o rosto. Um Arcebispo entra no banheiro. O homem fica nervoso. O Arcebispo sorri, lavando as mãos.

ARCEBISPO: - Buona notte.

O homem russo assente com a cabeça. O Arcebispo leva a água aos olhos. O homem russo se direciona para o secador de mãos. O Arcebispo ergue o rosto, olhando-se no espelho. Não tem mais olhos, apenas duas covas negras, sem alma. Vira-se para o homem russo.

Corte.


Papéis espalhados pelo chão do banheiro e a valise revirada. O corpo do homem russo caído no banheiro, o sangue que escorre de suas orelhas, narinas e olhos.

Residência dos Mulder – 9:21 P.M.

Mulder deitado na cama, de cuecas. Scully de camisola, em seus braços, brincando com os pelinhos do peito dele. Os dois entre os lençóis, assistindo TV. Mulder calado, sério, parece estar longe.

SCULLY: - Estou com saudades de Roma... Da próxima vez, passaremos mais de duas semanas em lua de mel. Só em lua de mel mesmo, em outros lugares na Itália. Não gostei de Berlim. Nada contra a Alemanha, é que eu não gostei dos lugares que tivemos que visitar.

MULDER: - ...

SCULLY: - ... Você tem estado muito calado... Mulder, as coisas logo darão certo, quando conseguirmos abrir a nossa própria agência e...

MULDER: - Não estou preocupado com isso. Algo está me incomodando e eu não sei o que é. Estou com uma sensação estranha me deixando angustiado. Não gosto disso. A mesma coisa que eu tive e me fez antecipar a nossa volta pra casa. Tem algo no ar.

Mulder verifica a arma dentro da gaveta. Deita-se.

SCULLY: - Mulder, também ando angustiada. Não temos nenhum problema urgente a ser resolvido. Mas parece que há uma sombra estranha, as pessoas todas andam nervosas, angustiadas, irritadas... Eu me sinto assim também. Victoria também sente porque acorda chorando no meio da noite. Estamos numa época difícil pra se viver. Energias pesadas, guerras, violência, essa loucura climática, os recursos naturais escassos...

MULDER: - E vai ficar pior mais rápido do que pensamos... Vou dormir. Amanhã tenho tanta coisa pra fazer... Vai ficar ouvindo ladainha religiosa?

Os dois trocam um beijo. Mulder se ajeita na cama, se recostando em Scully. Fecha os olhos. Scully faz carinhos nos cabelos dele.

MULDER: - (OLHOS FECHADOS/ SORRI) Hum, faz carinho, faz... Coisa boa dormir assim, grudado em você, ganhando carinho... Adoro ser mimado...

Scully sorri. Fica assistindo TV.

PASTOR (OFF): - Irmãos, vemos um discurso massivo todos os dias, disfarçado, entrando nos lares cristãos. Entidades e organizações que se manifestam a favor de uma nova ordem mundial... Mas vocês sabem o que é isso? É o fim da Era cristã e o nascimento da perseguição aos cristãos como profetiza a Sagrada Escritura. Nova Ordem é a senha para o governo mundial único. Podemos ver todos os dias que a tendência mundial é a formação de grandes blocos econômicos centralizados.

Scully observa atenta.

PASTOR (OFF): - A CEI, Comunidade dos Estados Independentes, antiga União Soviética. O NAFTA, entre Canadá, Estados Unidos e México. O Mercosul da América do Sul e a ALCA, que pretende unir as três Américas e os Tigres Asiáticos. O Plano do Anti-Cristo é incentivar e fortalecer esses blocos para, num segundo passo, promover a fusão de todos eles em um só bloco mundial, com um único governo, uma única lei, uma só moeda, uma só religião... Percebem irmãos? Percebem o quão próximo está o mundo das palavras que São João escreveu na Ilha de Patmos? O demônio está entre nós! A besta está sentada no poder, que é mundano, que leva a perdição, destruição e separação da família. Família é amor. O demônio não quer o amor. Ele quer o ódio.

Scully senta-se na cama.

PASTOR (OFF): - Todos os dias eu tenho visto e vocês com certeza assistem noticiários. Guerras, epidemias novas que surgem, terremotos, filhos que matam pais, pais que matam seus filhos. A falta de amor, a falta de oração, a falta de paciência e compreensão. Como dizem as Escrituras irmãos. Pais se levantarão contra os filhos. Filhos se levantarão contra os pais. Vemos ódio, vidas serem pesadas na balança do dinheiro, da ganância, como se a vida pudesse ser medida! Irmãos, a vida não tem preço! O mundo pede paz, mas o desrespeito e o poder da besta são maiores do que o nosso desejo de paz. O que iremos deixar aos nossos filhos, senão um mundo destruído, assentado sob o trono da besta?

Scully troca de canal.

REPÓRTER (OFF): - ... E B. A. Alberthi, consagrado produtor e empresário hollywoodiano...

Mulder abre os olhos. Scully fecha os olhos, se abraçando nele, com medo.

REPÓRTER(OFF): - Premiado pela ONU este ano, por sua ajuda às ONGs mundiais no combate a pobreza e a guerra...

Mulder desliga a TV. Abraça Scully. A beija na testa.

MULDER: - Estou aqui... Tá bom?

Nervosa, Scully consente com a cabeça. Victoria começa a chorar. Mulder salta da cama e sai do quarto, preocupado. Scully senta-se. Mulder volta com a filha no colo.

MULDER: - Ei, ei, ei Pinguinho? O que foi? Saudade de dormir com seus pais?

VICTORIA: - (BEIÇO/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Iço, papai. O iço!

Mulder olha em pânico pra Scully que arregala os olhos e pula da cama.

SCULLY: - Filha, o "Iço" tá aqui?

VICTORIA: -(BEIÇO/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Nah! O tio Tchek!!!

Mulder e Scully se entreolham.

MULDER: - O que tem a ver o tio Tchek? O Iço tá atrás dele?

VICTORIA: - Sim!!!

Mulder entrega Victoria pra Scully. Entra no closet.

SCULLY: - (NERVOSA) Mulder, o que vai fazer?

MULDER: - Vou atrás do Rato. Eu sabia que eles não iam deixar pra lá o que aconteceu. Krycek salvou a gente, agora eles sabem que ele não voltará mais atrás. Querem matá-lo. Ou talvez já descobriram que ele conseguiu uma coisa muito importante com a KGB.

SCULLY: - Mulder... Que coisa importante com a KGB? A KGB nem existe mais, Mulder!

MULDER: - Scully, acredita mesmo que os russos não possuem mais um serviço secreto, que isso é exclusividade americana? Até Israel têm o Mossad!!!

SCULLY: - O que você e Krycek estão aprontando juntos, Mulder? Hum? Jamais se esqueça de com quem você está lidando! Coin não é humano. Ele é o próprio mal. Talvez haja outra intenção aí que você desconheça!

Mulder veste uma calça jeans e uma camiseta.

MULDER: - Ah sim, o diabo veio cobrar Krycek pelo passado dele. Ou será que veio a serviço do Sindicato?

SCULLY: - Mulder, não estou dizendo isso e não brinque com essas coisas! Estou dizendo que existem outras respostas. Eu disse a você que quando comecei a cair, Coin se aproximou. Entende? Ele não se contenta em matar, Mulder. Ele não mata as pessoas, usa outras pessoas pra isso! Ele rouba! Ele destrói! O prazer dele é ver você mesmo se destruindo! É um jogo pra ele, um divertimento! Ele brinca com sua presa e depois a devora!

Mulder calça os tênis. Coloca a arma atrás das calças. Victoria observando os dois.

MULDER: - Acha que ele está tentando fazer Krycek voltar ao que era?

SCULLY: - Eu não sei, Mulder. Mas nada de bom vem dele! Quando a gente tá feliz e achando que as coisas todas serão maravilhosas, aí ele ataca pra derrubar você. Um inimigo no chão é melhor que um inimigo em pé. Entendeu? Não precisa matar pra derrubar! Ele me destruiu pra atingir você! Quem me diz que não quer destruir Krycek pra atingir a gente? Afinal de contas, se não fosse o Krycek você nunca teria visto a verdade do que fizeram comigo! Ele nos uniu de novo, Mulder! Se hoje estamos tendo essa conversa, é porque Krycek se ferrou pra nos ajudar! Quantos caem se Krycek cair? Percebe o quanto ele se tornou importante em nossas vidas?

MULDER: - Ok, supondo que sua teoria esteja certa. Por que Krycek e não eu? Também tenho culpas dentro de mim e estou no momento mais feliz da minha vida. Hum? Por que Krycek é mais importante do que eu? Por que pegar o Rato primeiro? Por que ele tem coragem de matar?

SCULLY: - Porque Mulder, debaixo desse céu aí em cima, cada um de nós tem sua importância, somos todos filhos do mesmo pai e só Ele sabe o que o futuro nos reserva, a gente não sabe nada. Deus não faz acepção de pessoas. O diabo, menos ainda. Quem faz acepção de pessoas, somos nós mesmos, quando apontamos os erros dos outros com nossos dedos sujos, sem ao menos considerar que todos nós somos mortais e cometemos erros.

MULDER: - É a coisa do atire a primeira pedra quem nunca errou. Eu não posso atirar nem uma lasquinha. Fiz mais merda na vida que qualquer outra coisa. Por isso vou atrás dele. Não vou deixar o Rato na pior. Quando eu tava na pior, foi ele quem me ajudou.

SCULLY: - Mulder, toma cuidado. Por favor...

Os dois trocam um beijo. Mulder beija Victoria e sai. Scully fica aflita.

SCULLY: - Deus, isso nunca vai terminar? Nunca teremos paz?

Victoria bate palmas olhando pra Scully.

SCULLY: - O que foi, Docinho?

VICTORIA: - Mama "espeta"! Ox nah!

SCULLY: - (SORRI) Ah, sua mãe é esperta é? E a filhinha dela também é. Igualzinha a mamãe, com a carinha do papai.

Scully dá um cheiro no pescoço de Victoria, que sorri.


Delegacia de Polícia - 9:38 P.M.

Krycek sentado à mesa, escrevendo numa folha de papel. The Gold Coin entra na sala. Senta-se na cadeira em frente a mesa de Krycek e estende os pés sobre a outra cadeira. Cruza os braços, olhando pra Krycek com deboche e arrogância.

Krycek digita algo no teclado, observando o monitor. Coin se inclina pro lado e assopra a folha de papel que voa para o chão. Krycek pega a folha de papel. Olha pra janela fechada. Dá de ombros e continua digitando.

Coin sorri debochado.

THE GOLD COIN: -Sua vida foi merda em cima de merda, decepção em cima de decepção. Nunca teve direito a nada. Apenas lutas e dificuldades. Apenas restos... Nada dá certo pra você. Agora que encontrou a felicidade, pode perdê-la a qualquer momento para o Sindicato.

Krycek continua digitando. Peter passa por ele.

PETER: - Quer alguma coisa da rua? Vou buscar lanche.

KRYCEK: - Traz o que você for comer.

PETER: - Vai ficar bem sozinho aí?

KRYCEK: - Vou, tá tranquilo. Tô terminando um relatório.

Peter sai. Krycek continua seus afazeres.

THE GOLD COIN: -Sua cabeça tá ferrada, sabia? Acredita realmente que tomar remédios e abrir seu coração pro Mulder, vai ajudar a esquecer tudo? Acha mesmo que pode ter uma vida honesta? Ser uma pessoa comum? Depois de todas as coisas que fez, seu destino é o inferno e nem Barbara salvará você de você mesmo... Se a amasse de verdade e não fosse um egoísta, já teria dado o fora da vida dela... Um único tiro na cabeça e sua dor cessaria. E a dor dos outros também, porque ver sua cara todos os dias traz más recordações a eles, não acha?

Krycek para de digitar. Fica pensativo, incomodado.

THE GOLD COIN: -Você não faz falta alguma ao mundo. Ninguém liga pra você. Sua vida não vale nada. Eles mentem que são seus amigos e que perdoaram você. Mas como alguém pode perdoar as atrocidades todas que você já praticou contra eles? Acha que realmente vai fazer parte do mundo deles? Você é lixo, nasceu pra ser lixo, pra ser nada, pra ser usado e pisado, você não tem sorte e nem nasceu pra ver o sol. Seu destino é a escuridão. A dor. A solidão. O sangue nas mãos. Assassino, mentiroso, traidor, traste desprezível!

Krycek abaixa a cabeça. Suspira triste.

THE GOLD COIN: -Toda a culpa que sente nunca vai aliviar. Vai carregá-la pra sempre. Num momento pode sumir, mas logo vai voltar. E vai terminar louco, se ficar vivo pra isso. Sabe realmente se Barbara está segura? Mesmo com todo aquele aparato de segurança? Ela pode sair pra pegar o jornal, pobrezinha... E acabar tomando um tiro. Ser pega de surpresa... Você sabe como as coisas funcionam nesse meio. Sempre há um Alex Krycek disposto a ferrar os outros.

Krycek põe as mãos no rosto.

THE GOLD COIN: - É questão de tempo. Ela vai morrer. E você vai se culpar por mais pessoas mortas injustamente e lembrar de todas as que você já matou. Não matarás. É um mandamento. Acha que há perdão pra você? Ingenuidade. Deus cria vasos ruins e vasos bons. Você é um dos vasos ruins, é a sua natureza. E nenhum de vocês vai sobreviver por muito tempo se você não fizer alguma coisa. A justiça precisa ser feita. Você sabe o que precisa fazer para que todos tenham paz. Só você pode fazer isso. Terminaria com seu sofrimento, com o sofrimento dos outros... Ou vai passar a vida toda tendo que olhar pro lado e dormindo com um olho aberto. De novo. E de novo. E pra sempre assim. Até meter uma bala na sua cabeça ou ficar louco, a ponto de acordar assustado e atirar em Barbara por engano. Você está enlouquecendo e pode fazer isso. E só se dará conta que a matou quando sair do surto psicótico.

Krycek se levanta, nervoso. Anda de um lado pra outro, perturbado.

THE GOLD COIN: -Faça. Acabe com o mal. Acabe com seus pesadelos e os pesadelos do Mulder. Você deve isso ao Mulder, depois de tanta merda que fez contra ele. Salve a sua vida e a vida dos seus amigos, antes que eles acabem com os sonhos de vocês.

Krycek, num impulso, veste a jaqueta e sai da sala.

THE GOLD COIN: - (SORRI/ DEBOCHADO) Bom garoto. Deveria escutar mais a "sua" mente.


Residência de Barbara Wallace - 10:02 P.M.

No porão, Barbara toda arrumada, maquiada, cabelo impecável, em frente ao computador e a webcam. A TV ao lado ligada, volume bem baixo, onde vemos o apresentador do jornal conversando ao vivo com ela, olhando para um telão.

BARBARA: - Sim, Raymond. O dia aqui em Washington foi marcado por protestos em frente à Casa Branca, onde familiares e organizações de direitos humanos se reuniram para exigirem a volta dos soldados que ainda estão no Iraque. O senador Wendell, líder dos Democratas, foi enfático em dizer à imprensa que a reeleição do presidente George W. Bush foi um atraso para o país, enquanto que o porta-voz do Partido Republicano contra-atacou essas declarações alegando que Saddam Hussein está preso e aguardando julgamento graças às políticas de Bush, e que o povo americano deu sua resposta de aprovação nas urnas.

O apresentador fala alguma coisa.Barbara ajeita o ponto no ouvido.

BARBARA: - O Senador Wendell acusou sim. Ele disse que a plataforma usada pelos Republicanos para ganharem novamente as eleições foram a resposta rápida aos atentados de 11 de Setembro de 2001. Novamente o julgamento de Saddam Hussein foi adiado e isso está sendo interpretado pela oposição como mais uma jogada política dos Republicanos para permaneceram no poder. Mais vídeos e informações vazaram para a mídia sobre a situação das tropas americanas no Golfo Pérsico. No último relatório da ONU, os atentados terroristas contra as forças estrangeiras alcançaram a faixa de noventa ataques diários. Os conflitos civis entre lideranças religiosas xiitas e sunitas ameaçam a estabilidade do Iraque. A guerra já teve seu fim decretado, mas o governo ainda insiste em manter o exército na região. A pergunta que fica para as famílias desses soldados é a mesma: até quando? A resposta só depende do presidente Bush. E ele não parece querer ceder, nem diante dos protestos e da opinião pública.

O apresentador conversa alguma coisa.

BARBARA: - (SORRI) Obrigada, Raymond, mas não acho que mereça o título de "a repórter mais sexy da TV americana"... Tá... (RINDO) Ok, então boa noite e bom descanso para todos os telespectadores e um beijo especial para os meus fãs... O clima aqui tá gostoso hoje, não está frio nem quente... Ok. Boa noite!

O apresentador segue o jornal. Barbara encerra a conversa. Suspira. Coloca as mãos atrás da cabeça.

BARBARA: - Preciso de um banho, minhas roupas confortáveis, deixar um lanchinho pronto pro meu Ratoncito...

Barbara aumenta o som da TV. Cruza os braços.

RAYMOND: -Eu não vou calar a minha boca, essa emissora já me contratou sabendo que eu falo mesmo, eu não tenho papas na língua e tô dançando a macarena pra processo! Acho um absurdo, e você aí do outro lado da tela certamente concorda comigo! Lotes vencidos de vacina para países miseráveis na África? Você, meu amigo, daria vacina vencida no seu filho? Claro que não! Mas para os filhos dos outros que dependem da caridade da indústria farmacêutica pode? Então não deem nada, seus canalhas! Queimem o lixo de vocês! E não o dinheiro do contribuinte! Eles doam essa porcaria para governos africanos, que chegam lá através de aviões do exército americano e que não serve pra nada! Quem paga a conta? Nós. E quem sai ferrado? As crianças da África! Amigo, isso é como jogar o seu lixo no incinerador do vizinho só pra não gastar com gás! Estão jogando o lixo deles na África e nos usando pra isso e o pior de tudo, não estão imunizando as crianças porque elas não importam, são negras e africanas! Eu tenho um recado para o dono desse laboratório: Aplica essa porcaria de vacina vencida nos seus filhos, Robert Robinson!!!

BARBARA: - (SORRI) Adoro esse Raymond... É da velha guarda. Ai, esse mundo tá perdido mesmo, não tem mais senso de humanidade, é só dinheiro, poder... Robert Robinson...

Barbara se levanta, pensativa. Abre a gaveta de escrivaninha. Retira o celular de Rockfell.

BARBARA: - RRO13... Coreia do Sul... Será o coreano... Que não sei se é coreano?

Barbara fica curiosa e empolgada. Pega o telefone convencional. Disca o número que está no celular de Rockfell. Aguarda.

SECRETÁRIA (OFF): - Alô?

BARBARA: - (AO TELEFONE)Olá. O senhor Robert Robinson se encontra?

SECRETÁRIA (OFF): - Quem deseja falar com ele?

Barbara desliga, num olhar incrédulo. Pega rapidamente o celular dela e aperta uma tecla. O número chama e não atende. Barbara desliga e liga pra outro.

BARBARA: - (AO CELULAR) Mulder, é a Barbara. Tentei falar com o Alex, mas ele deve estar em alguma ocorrência. Temos um terceiro nome na organização dos treze. Descobri quem é RRO13. Robert Robinson, ele é do meio farmacêutico. Descobre pra nós? Valeu!


Residência do Diretor-Delegado Kersh - 10:29 P.M.

[Som: Siouxsie & The Banshees - Cities in Dust]

O carro estaciona em frente a garagem da casa. Kersh desce do carro, levando sua valise. Caminha em direção à porta.

Som de tiros disparados. Kersh, baleado, apoia-se na porta, deixando a valise cair ao chão. Cachorros que latem. Luzes que se acendem.

Passos rápidos do atirador, entrando na picape e saindo em disparada pela rua.

Close nos olhos verdes, sem nenhum brilho de piedade. Krycek tira a touca ninja, dirigindo a picape, observando com frieza pelo retrovisor.

KRYCEK: - Agora quem tem uma lista de alvos sou eu.


Residência do Diretor Carter – 11:46 P.M.

A ambulância sai em disparada pela rua. Agentes do FBI espalhados. O diretor-assistente McKenna sai da casa, com as mãos no bolso. Puxa o telefone celular.

MCKENNA: -(AO CELULAR) ... Sou eu, Skinner... Carter foi para o hospital em estado grave. Não temos pista alguma de quem fez isso... Kersh está morto. Sugiro que mantenha sua porta trancada, parece que alguém está fazendo a faxina no alto escalão do FBI.

Corte.


[Som: E Nomine - Padre Nuestro]

Pater noster qui es in caelis.

Sanctificefu nomen tuum.

Adveniat Regnum tuum.

Fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra.

Panem nostro quotidianum da nobis hodie.

Quia Deus es.

Et dimitte nobis debita nostra

sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.

Et ne nos inducas in tetationem.

Sed libera nos a malo. Amem.


[Imagens das guerras nucleares, químicas, mísseis, soldados e vítimas]

[Imagens de miséria, fome, pestes e desastres ecológicos]

Corte do som.


Local Ignorado – 11:55 P.M.

Escritório atapetado, cortinas longas e fechadas. Ambiente de luxo e sofisticação, esculturas, quadros. Câmera passeia pelo ambiente em direção a mesa. Homens de todas as nações, bem vestidos, sentados à mesa redonda. Conversas misturadas e nervosismo. The Gold Coin sentado à ponta da mesa, brincando com a moeda, apenas observando. O Canceroso calado, fisionomia cansada. Strughold fala em alemão com outro homem ao lado dele. Idiomas que se misturam.

THE GOLD COIN: -Como podem ficar preocupados com o que o Vaticano diz? Somos os donos do mundo! Quem será contra nós?

BISPO: - O Sumo Pontífice considerou essas atuais aparições como legítimas.

THE GOLD COIN: - (SORRI) Neurose coletiva de períodos de guerras. De tempos em tempos, pessoas costumam gritar por aí que avistaram a Virgem Maria. Não podem acreditar nas besteiras que a imprensa prega, alertada por um bando de fanáticos religiosos! Sugiro ao Bispo que se dirija ao Sumo Pontífice e diga que, caso insista nisso, vamos ter outro Papa brevemente. O mundo não quer esse tipo de aviso da Igreja Católica Romana. O mundo quer padres cantores que vendam CDs e apologias, igrejas lotadas de discurso e práticas contrárias... Algo pra nós, Spender?

CANCEROSO: -Depois que Mulder e Scully saíram do FBI, incendiamos o porão com todos os Arquivos X. Não restou mais nada.

THE GOLD COIN: - (PISCA O OLHO) Spender, eu "leio mentes". Quer uma profecia? Um corpo tem uma cabeça, mas também tem braços e pernas. Mata-se o corpo, mas a alma fica. A causa não morre, contudo vinga com ramificações mundiais.

O Canceroso leva o cigarro à boca, mão trêmula.

THE GOLD COIN: - Gostaria de pedir a seus governos que estendam apoio à ONU. Precisamos de um mundo melhor, política, econômica e socialmente, para poder sobreviver ao capitalismo. Mais da metade do mundo não têm poder aquisitivo. A questão dos blocos econômicos poderá num futuro próximo envolver um único bloco e uma única moeda. Por que não um único governo? Há a necessidade urgente de uma Nova Ordem. O mundo precisa de ordem nesse caos. E para haver ordem, o controle das massas deve estar sob um único governo, dentro de leis severas...

[Som: Siouxsie & The Banshees - Cities in Dust]

Barulhos e gritos seguidos por sons de tiros. Um guarda costas voa pra dentro da sala e cai morto. Krycek irrompe no ambiente, segurando uma arma, apontando para The Gold Coin. Krycek está fora de si. Os homens ali dentro se entreolham nervosos.

KRYCEK: - Eu sei o que é a Nova Ordem Mundial!

THE GOLD COIN: -(PROVOCANDO) Não sabe. Seu famigerado cérebro de traidor não pode entender isso. Você é burro. Não tem estudo. É apenas um peão idiota, manipulável e descartável. Como outros tantos bilhões de ignorantes nesse planeta. Como eu ia dizendo, senhores... Eis o resultado da falência da educação. Não podemos fomentar educação de qualidade para as massas, devemos cada vez mais fornecer bens de consumo e entretenimento barato. O velho pão e circo romano, muito funcional já naquela época, agora disfarçado de sofá e batata-frita. As massas não podem pensar por si mesmas, porque quando pensam, questionam. E quando questionam, podem se levantar contra nós.

KRYCEK: - Fala por experiência própria, "Lu"? Ganhou conhecimento e se levantou contra Deus?

O Canceroso observa Krycek com curiosidade. Coin sorri debochado, com o canto da boca.

THE GOLD COIN: -E depois dei conhecimento para uma mulher, que como toda mulher, não sabe guardar segredo. Sente-se, Alex Krycek. Há um lugar pra você perto de mim. Basta querer.

Krycek mantém a mira em Coin, enquanto circula a mesa, olhando pra eles, olhos faiscando de ódio.

KRYCEK: -(AOS GRITOS/ ÓDIO) Quantos vai iludir nesse discurso, ahn? Seu discurso e sua cara não revelam o que você realmente é!!!

THE GOLD COIN: - (CALMO)E quem eu sou, Alex Krycek? Tão mentiroso, hipócrita e egoísta quanto você? Ou deveria dizer assassino?

Krycek engatilha a arma com ódio. Mira na cabeça do Bispo. Este faz o sinal da cruz.

THE GOLD COIN: -(SORRI COM O CANTO DA BOCA) Fará isso? Acha que será contra mim concluindo seu ato? O que faz em nome da justiça, só o faz para me ajudar. Assim você só conclui os meus planos...

KRYCEK: - (AOS GRITOS)Rei da mentira!!! Alienígena desgraçado!!! Eu disse que encontraria o buraco aonde vocês estavam se escondendo!!! Mulder e eu queremos viver em paz e enquanto vocês viverem, isso nunca vai acontecer!!! Até religiosos estão sentando nessas cadeiras!!! Vocês são como uma máfia perversa, escondidos em um buraco, decidindo quem morre e quem vive!!!

Krycek aperta o gatilho. Os miolos do Bispo se espalham pela mesa. Os outros se levantam, tentando fugir, mas Krycek atira friamente em cada um deles. Coin, continua sentado, calmo e indiferente, verificando se as unhas estão lixadas. Krycek troca o pente e mira a arma em Strughold.

KRYCEK: -(REVOLTADO/ AOS GRITOS) Você matou Marita e matou meu filho, seu porco nazista! Sequestrou a Barbara e quase matou o Mulder! Sua família maldita vem desgraçando os Mulder desde a segunda-guerra e desgraçou também os Krycek! Por sua causa, meu pai sofreu muito por jamais ter conhecido o pai dele, morto naquele campo de concentração!

STRUGHOLD: -Alex Krycek, vamos conversar... Você não sabe de nada e...

Krycek aperta o gatilho. Strughold cai sobre a mesa, agonizando com um tiro na cabeça. Krycek dispara mais dois tiros. O sangue voa pra cima do Canceroso, que está imóvel, em estado catatônico e fecha os olhos, aguardando sua vez. Strughold morre de olhos abertos. Krycek mira a arma no Canceroso.

KRYCEK: -(PERTURBADO/ AOS GRITOS) Hora da faxina, eu surtei!!! Cara a cara com o último velho do Sindicato das Sombras! O senhor da guerra!!! Se eu não soubesse qual de vocês dois é o demônio, diria que é você, Spender!!!!

O Canceroso acende outro cigarro. Tenta disfarçar as mãos trêmulas. Krycek aproxima-se, mirando a arma na cabeça do Canceroso. O Canceroso fecha os olhos. Krycek então desvia a arma para Coin acertando vários tiros no peito dele. Coin cai para trás com a cadeira. Krycek aperta a arma na têmpora do Canceroso.

KRYCEK: - Abra os olhos, Spender. Morra como um homem e não como um covarde!

CANCEROSO: -(ENGOLE SECO) Não me deixe morrer agora. Tenho pendências a resolver, Alex.

KRYCEK: -(ÓDIO/ AOS GRITOS) Tem medo do diabo, Spender, mas senta-se na mesa de negociação com ele? Você me trouxe pra esse país, mentiu pra mim sobre tudo e todos e me transformou num monstro, me fazendo matar, mentir e enganar gente inocente! Me fez peão num jogo canalha! Se eu não fosse esperto, já estaria morto e nunca teria descoberto a verdade, quem era o real inimigo! Você não tem escrúpulos, velho maldito!

Krycek está surtado. Anda de um lado pra outro, balançando a arma.

KRYCEK: - Desgraçado! Maldito desgraçado! Todas as culpas que eu carrego dentro de mim são frutos das merdas que você me fez fazer, mentindo pra mim, me jogando contra o Mulder e a Scully! (ÓDIO/ AOS GRITOS) Eu devia matar você! Agradeça ao seu filho pela sua vida! É por causa do Mulder que hoje vou economizar a bala que tem o seu nome! Eu já matei o outro pai dele e não quero fazer isso novamente, por mais vil e desnaturado que você seja! Mulder não merece passar por isso de novo, porque no fundo eu sei que ele espera de você pelo menos um pouquinho de paternidade. Se eu pudesse voltar no tempo, sabendo o que sei agora, e tivesse que matar um dos pais do Mulder, certamente seria você!

CANCEROSO: - (ENGOLINDO CULPAS) ...

KRYCEK: - (ERGUENDO-O PELO BRAÇO VIOLENTAMENTE/ ÓDIO/ GRITA) Levanta daí, velho mentiroso e cretino que fodeu com a minha vida, com a vida do Mulder, da Scully e de tantos outros!!! Suma da minha frente, porque não irei poupar você se voltar a sentar-se nessa mesa!!! Entendeu? Se o fizer, eu o caçarei até no inferno!!!

O Canceroso se levanta. Caminha até a porta, Krycek o empurrando. Coin ergue-se do chão na própria cadeira, de braços cruzados, peito perfurado de balas. Olhos cor de fogo.

THE GOLD COIN: - Alex Krycek, seus dias estão contados. Vai morrer muito em breve e vou levá-lo comigo.

Krycek e o Canceroso viram-se para trás, incrédulos. Coin se levanta da cadeira, a roupa furada por balas. Aponta para a porta que se fecha sozinha numa batida. Krycek arregala os olhos.

THE GOLD COIN: - Precisa mais do que isso para matar a nossa espécie. Enquanto vocês, macacos idiotas e imbecis, ficavam olhando para os céus, preocupados com uma invasão alienígena de cabeçudos cinzas... Nós já estávamos aqui entre vocês, desde que vocês eram apenas um casalzinho tolo e apaixonado. Nós somos os seus alienígenas invasores, fomos jogados aqui e este planeta é nosso por direito concedido! Eu não dei uma maçã, eu dei o conhecimento em troca do planeta e a mãe de todos vocês aceitou! Eu quero o que é meu por direito!

Krycek vai recuando de costas, o Canceroso também.

THE GOLD COIN: -Vocês são a escória da criação! A escória desse universo! Vocês não merecem esse planeta! Por mim, vocês nunca teriam existido! E eu vou varrer a sua espécie inteira, como um lixo pútrido e depois vou tomar o que é meu por direito! (GRITA) Crianças!!!!

As sombras saem dos cantos escuros entrando nos corpos mortos, que se levantam, como se nada tivesse acontecido. Krycek arregala os olhos, recuando contra a parede. O Canceroso deixa o cigarro cair ao chão, os dois tomados de terror. Coin vai se aproximando deles. O Canceroso tenta abrir a porta e não consegue. Krycek, nervoso, coloca outro pente, engatilha a arma e descarrega a arma contra o adversário. Coin dá um passo pra trás. Sorri com o canto da boca, e volta a andar na direção deles. Então olha para seu terno cheio de furos e o sangue que escorre.

THE GOLD COIN: - (IRRITADO) Agora você me irritou, rato comunista! Estragou meu terno novo da Saville Row de cem mil dólares!!!

Coin pega Krycek pelo pescoço, apenas com uma das mãos, o erguendo do chão. Olha nos olhos do russo. Coloca a moeda de ouro no bolso de Krycek. O Canceroso fica boquiaberto.

THE GOLD COIN: -(ÓDIO) Olhe nos olhos do inferno e veja a escuridão que eu vi, Alex Krycek!

Krycek fecha os olhos, virando o rosto. O Canceroso tenta abrir a porta, sem sucesso.

THE GOLD COIN: -E diz a palavra fodida aos fodidos porcos, filhos Dele: Os mortos ressuscitarão! Ainda acha que sabe sobre a Nova Ordem, se desconhece a origem dos governantes do seu mundo, Alex Krycek? Nós estamos ao redor de vocês e dentro de muitos de vocês. Graças à vocês mesmos, que nos permitem isso, quando abraçam a escuridão a que fomos condenados. Quem tem ouvidos ouça, mas vocês são surdos como pedras. Nos enxergam como mitos religiosos, cheios de arrogância humana, como se soubessem a verdade de tudo! Acredita realmente que agiu sozinho aqui hoje? Ou alguém naquela delegacia sussurrou o que devia fazer, transformando poeticamente a palavra vingança em justiça? Acho que deveria ter soprado aquele papel da sua mesa com mais força.

Coin solta Krycek que cai ao chão, recuando contra a parede, olhos arregalados e assustado. Os homens do Sindicato, incluindo Strughold, olham para Krycek e o Canceroso. Coin estende a mão e a porta se abre.

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) Abra seus olhos, Alex Krycek. Nós estamos ao redor, sem que possa nos ver. Algumas vezes disfarçados com a forma que quisermos. Nem o "Salvador" de vocês nos varreu daqui.Boa sorte, macaco justiceiro! Você agora é meu!



BLOCO 2:

Residência de Barbara Wallace – 1:19 A.M.

Barbara abre o armário. Retira uma toalha. Caminha em direção ao banheiro. Chuveiro ligado. Vapor. Krycek, em estado de choque, só de calças jeans, sentado na banheira, abraçado às pernas. Barbara senta-se na borda da banheira, olhando pra ele com preocupação.

BARBARA: - Eu disse que deveria pensar antes de fazer o que queria fazer. Você fez, não é? Por isso entrou feito um louco em casa, apavorado e se escondeu no banheiro! E agora está aí desse jeito! Mulder sabe disso?

KRYCEK: - (EM CHOQUE) ... Ele vai me matar. Ele falou. Meus dias estão contados.

BARBARA: -Quem vai matar você?

KRYCEK: -(EM CHOQUE) Eu vou pro inferno... Sofrer torturas novamente... Torturas eternas...

BARBARA: - (NERVOSA) Alex para com isso, você tá me assustando! Sei que foi uma atitude altruísta, embora eu discorde do método. Mas tenho certeza de que todos ficarão aliviados e tranquilos ao saberem que o Sindicato das Sombras não existe mais. Ratoncito, você sabe que vai ter que contar o que fez ao Mulder. E o Mulder vai discordar da sua atitude. Mas se você não contar, ele vai saber pela boca daquela chaminé de locomotiva, de acordo com a versão dele. Então admita que meteu os pés pelas mãos e teve a coragem pra liquidá-los.

KRYCEK: - (EM CHOQUE) Está errada. Eles ainda existem.

BARBARA: - Como assim? Você não os matou? Pensei que...

KRYCEK: - (EM CHOQUE) Eu ajudei Coin... Ele tinha razão... Só servi aos propósitos dele... Queria fazer justiça pra mim e as pessoas que eles feriram... Mas eu cumpri o que ele queria... Ele sabe tudo, prevê tudo, tem tudo calculado desde o dia em que caiu aqui nesse planeta... Estamos todos mortos. Não há como lutar contra eles.

BARBARA: - Alex, do que está falando?

KRYCEK: - (EM CHOQUE) Mais de doze tiros... (RINDO/ LOUCO) Ele nem sentiu nada! Ele não morre! Os olhos cor de fogo... (ASSUSTADO) Ele vai me pegar! Eles estão por toda a parte! Não apague as luzes, eles saem das sombras e tomam seu corpo!!!

BARBARA: - (NERVOSA) Alex, do que está falando? Eu nunca vi você desse jeito! Você não é homem de ficar acuado assim!

KRYCEK: - (FORA DE SI/ QUASE CHORANDO DE MEDO) ... Eles vão me pegar! Vão pegar Spender! Vão pegar todos nós!!! Estão em toda a parte!!! Vão pegar todos nós!!!

Barbara olha assustada pra ele. Krycek sai do chuveiro e vai pro quarto, atordoado. Pega a arma na mochila.

BARBARA: - (TENSA)Alex, pelo amor de Deus!!!! Larga essa coisa!!! Ratoncito, por favor!!!

KRYCEK: - (CHORANDO/ PERTURBADO) Eu não posso mais, Barbara, me perdoa, me entende!!! (BATE NA CABEÇA) Eu tô ficando louco, a voz dele ainda ressoa aqui dentro!!! Eu não aguento mais essa vida!!! Eu nunca vou ter paz, porque eu não mereço, a morte é pouco pra mim!!!

Krycek mira a arma contra o queixo. Barbara se agarra na mão dele, tentando tirar a arma. A arma dispara, passando rente a pele do queixo de Krycek e acertando no teto. Barbara consegue pegar a arma e sai correndo do quarto, trancando a porta.

Corte.


Barbara abre a porta da sala, chorando. Mulder e Scully entram nervosos.

MULDER: -(NERVOSO) Aonde ele tá?

BARBARA: - (NERVOSA/ CHORANDO) No quarto, lá em cima. Mulder, ele não fala nada com nada! Parece que enlouqueceu!!! Eu nunca vi o Alex assim!!!

Scully abraça Barbara. Mulder sobe as escadas correndo.

SCULLY: - Vem, vou fazer um chá pra você.

As duas vão pra cozinha. Scully ajuda Barbara a sentar e vai pro fogão.

BARBARA: - (CHORANDO)Ele disse que mataria todos do Sindicato. Deus!!! Por que eu não desconfiei? Por que não impedi? Eu fico rezando todas as noites pra Deus tirar essas ideias da cabeça dele, para para protegê-lo e ajudar a se perdoar, mas do que adianta? O que eu faço, Scully? Alex é teimoso feito uma mula!

SCULLY: - Continue rezando, a mulher santifica o lar.Não pense que só você tem uma mula teimosa dentro de casa, que faz as coisas sem pensar. Eles sempre querem fazer o certo da pior maneira e sem perguntar pra gente primeiro. Mas não sou cínica pra dizer que não fiquei feliz que alguém tenha acabado com o problema.

BARBARA: - Scully, o problema não acaba! Só muda de problema!

Mulder entra.

MULDER: -Scully, ele não quer falar comigo... Quer falar com você.

Scully fica surpresa. Olha pra Mulder e pra Barbara. Barbara afirma com a cabeça. Scully sai da cozinha. Mulder senta-se. Barbara tenta secar as lágrimas. Mulder coloca a mão sobre a mão dela.

MULDER: - (SORRI) Déjà-vu, Barbara?

BARBARA: - É, Mulder... Você de novo me dando apoio quando o Alex se ferra.

Corte.


Krycek sentado no chão do quarto, todo molhado, cabisbaixo, tremendo e perturbado. Scully passa por ele e vai até o banheiro. Pega um copo de água e uma toalha de banho. Volta. Entrega o copo pra ele. Krycek pega, com a mão trêmula. Scully coloca a toalha nas costas dele. Tira um frasco do bolso e abre, retirando duas pílulas.

SCULLY: - Tome isso. Vai ajudar bastante.

Krycek pega as pílulas, ainda tremendo e toma a medicação. Scully senta-se ao lado dele. Coloca a mão na testa de Krycek.

KRYCEK: - Só você pode entender o que eu quero dizer, Scully. Ninguém mais vai entender.

SCULLY: - Foi ele, não foi? Agora atacou você.

Krycek afirma com a cabeça. Seca as lágrimas. Trêmulo.

SCULLY: - Quando ele estava o tempo todo do meu lado, ficava falando coisas e eu achava que eram meus pensamentos. Também coisas sobre você, me tentando o tempo inteiro, só pra eu cometer uma besteira com você, Alex. Pra machucar o Mulder e afastar vocês dois.

KRYCEK: - Ele cansou de fazer isso comigo também, Scully. Agora faz sentido, eu não sabia que era ele, eu pensava que estava sendo um canalha pensando essas coisas com você... Ele já queria destruir nossa amizade, a nossa união.

SCULLY: - Até que descobri que não eram meus pensamentos. Era ele tentando me fazer acreditar que eu não era digna de nada na vida, muito menos de ser feliz com o Mulder. Uma noite eu surtei em culpas, assim como você, e se não fosse a Ellen, eu teria pulado da janela do apartamento e acabado com meu sofrimento. Não aguentava mais a voz dele ressoando na minha cabeça, remoendo minhas culpas, tirando qualquer esperança de viver. Você estava morrendo num hospital por ter salvo o Mulder e eu estava louca em outro.

KRYCEK: - Ele admitiu. Estava na delegacia comigo, falando coisas, me deixando deprimido, com raiva e ódio. Eu achando que aqueles pensamentos intrusivos que o Mulder falou estavam voltando, mas não era. Era o desgraçado! Não tem como fugir, sabe? Nunca nos deixarão em paz. Eles entraram nos mortos, eu vi!

SCULLY: - Demônios?

KRYCEK: - Sombras negras, eu não sei o que eram, mas entraram neles e os mortos voltaram a viver como num filme de terror! Spender é testemunha. O velho quase teve um treco! Um velho como aquele que já viu de tudo, ficou estático e apavorado. Entende?

SCULLY: - Confesso que pensando nisso, começo a ver que foi pior do que eu imaginava. Então o Sindicato ainda existe, mas não são mais eles. São substitutos nos corpos deles, é isso?

Krycek afirma com a cabeça. Scully envolve o braço nele. Krycek deita a cabeça no ombro dela, chorando. Scully o abraça.

SCULLY: - (EM LÁGRIMAS) Entendo você, Alex. Entendo o que passou, entendo que estava conseguindo superar seus fantasmas, começando a ver esperança e felicidade na vida e de repente aquele desgraçado veio pra cima de você como uma nuvem negra.

KRYCEK: - (CHORANDO)Eu só queria acabar com o pesadelo e fui usado pra começar outro. Eu só queria que a gente tivesse paz, sabe? É bom ter paz. É muito bom ter uma vida comum e ter amigos.

SCULLY: -Sim, é bom ter paz. É bom ter uma vida comum e ter amigos. E eu entendo o que fez hoje.

Ele se afasta. Seca as lágrimas.

KRYCEK: - Eu fiz porcaria de novo, Scully. Eu só sei fazer isso. Nunca vai dar certo, sabe? Até foi legal sonhar, mas eu não mereço nada de bom. Não mereço nem aquela mulher lá embaixo que por minha culpa, está metida nisso. Eu fui atrás dela. Eu a coloquei no jogo!

SCULLY: - Pra ajudar o Mulder. E ajudou. E acabou me ajudando também. E não fosse assim, nunca a teria conhecido, não é mesmo?

Krycek olha nos olhos dela.

KRYCEK: - Fala a verdade, Scully. Você nunca me perdoou. Eu não condeno você.

SCULLY: - Eu já perdoei você. E você também já me perdoou, lembra? Infernizei sua vida.

KRYCEK: - Não conseguiria isso nem se tentasse. Você tem uma natureza boa.

SCULLY: - E tenho meu lado perverso também, como todos têm, Alex. Ninguém é santo. E Coin sabe disso. Pra dizer a verdade, quando olho pra você hoje é como se eu olhasse pra uma pessoa nova que entrou na minha vida, alguém que estou conhecendo, um bom amigo que cuidou de mim quando eu estava louca, que não deixou meu marido cometer besteiras, que se preocupa com seus amigos, trabalha como policial, é compromissado com uma mulher muito inteligente e honesta, conquistou a admiração da minha filha e anima os jantares lá em casa. Cantou no meu casamento... A lista é grande de coisas boas que ele fez. Maior que a outra lista.

Krycek sorri cansado e mais calmo.

SCULLY: -Não olho pra você da maneira como pensa. Aquele Krycek morreu. Nunca mais eu o vi... Não acredite no diabo, ele mente. Acredite na sua amiga aqui, hum? Ela nunca vai mentir pra você... Sabe, quando eu era criança fazia muitas peraltices. Acho que Victoria puxou isso de mim, mas não conta pro Mulder. Um dia meu pai me pegou no flagra. Imagine você que eu peguei o rifle de caça dele e atirei dentro da garagem. Por pouco não "matei" o pneu do carro!

KRYCEK: - E o que ele fez?

SCULLY: - Uma cara séria e (ENGROSSA A VOZ) "Starbuck, vamos conversar". E eu me escapei de conversar! Achei que ele estivesse furioso comigo, afinal, eu fui uma menina má fazendo o que não devia. Então, no outro dia, já arrependida, eu pedi perdão pra ele. E meu pai sorriu e me abraçou.

Krycek sorri.

SCULLY: -Alex, o que quero dizer é que todos nós fizemos coisas erradas na vida. Mesmo adultos, somos eternas crianças errando. Mas quando pedimos perdão e somos perdoados, uma mágica acontece. Você sabe disso. Você já pediu perdão a todos com os quais errou. Mas eu acho que você ainda não sentiu-se livre das culpas porque falta pedir perdão ao seu pai. Aquele lá em cima, entende? Quando você fizer isso, vai perceber o quanto é libertador.

KRYCEK: - Não tenho mais fé, Scully. Desde criança eu perdi a fé.

SCULLY: - Se você sabe que o diabo é real, duvida da existência de Deus?

KRYCEK: - Duvido de mim.

SCULLY: - Quando acordei daquele pesadelo todo que fizeram comigo... Eu não consegui me perdoar. Não podia olhar nos olhos do Mulder. Eu abandonei ele e a nossa filha. Demorei pra voltar pra casa porque eu não me achava digna da felicidade que ganhei.

KRYCEK: - ... Eu disse que só você me entenderia.

SCULLY: - Eu só consegui me erguer pelo amor do Mulder. Por aquele coração bondoso que esquece facilmente as mágoas. E porque pedi a Deus pra me perdoar pelas coisas erradas que eu fiz... Alex, o amor é a maior e melhor arma. Deus sabia disso, por isso nos fez homem e mulher, pais e filhos, famílias, amigos, nos fez precisar uns dos outros. Nem o diabo aguenta o amor. Ele pode resistir a balas e sei lá o que mais. Mas ao amor, ele não pode. Porque o amor supera, o amor perdoa, o amor cuida, ergue, transforma, o amor é um presente de Deus para nós.

Corte.


Mulder serve o chá pra Barbara. Os dois sentados à mesa.

MULDER: - Robert Robinson é dono da Alpha Pharmaceuticals INC., uma empresa americana sediada na Coreia do Sul com um centro de pesquisas endêmicas na China e filiais em diversos outros países do globo. Eles fabricam medicamentos e estudam doenças.

BARBARA: - Ou estudam medicamentos e fabricam doenças?

MULDER: - É, concordo com você. De onde geralmente vem essas pandemias? Robinson tem contratos com o governo americano e com governos de outros países para fornecimento de medicamentos para a saúde pública. Tem uma fortuna avaliada em 200 bilhões de dólares, empresas espalhadas pelo globo e medicamentos patenteados para doenças terminais e que ninguém consegue quebrar a patente deles.

BARBARA: -Ele pode ser mesmo o RRO13?

MULDER: - Com esse currículo, eu não tenho nenhuma dúvida! Temos o terceiro nome do topo. Faltam dez. Temos um na mídia mundial, outro no entretenimento mundial e agora um na saúde mundial. Todas mega corporações com contratos com governos. Você tem razão quando diz no jornal que os Estados Unidos estão se vendendo às corporações. Estamos nas mãos deles.

BARBARA: - Eu sei que não acredita nisso, Mulder. Mas acha que eles chegaram aonde estão sozinhos ou com a ajuda de Lúcifer? Sim, vou dizer o nome real dele.

MULDER: - Depois do que o Rato me contou... Acho que são satanistas sim. Só não sabem que o próprio diabo está entre eles.

BARBARA: - E se soubessem?

MULDER: - Nada mudaria. Apenas ficariam mais felizes e certos de conseguirem mais do que já têm. Essa organização dos treze... Certamente são treze empresários, em treze áreas estratégicas. Não são como no Sindicato, políticos, gente do governo, em cargos importantes... Não, eles são mais, estão bem mais acima, eles ganham com os governos e a política, manipulam os manipuladores. Você pode delimitar mais a sua pesquisa. Sabe que não vai haver outro na área da saúde, mas há certamente um na área de alimentação. Energia?

BARBARA: - Tecnologia... Mulder, eu sei por causa do Rockfell, ele compra empresas de comunicação pelo mundo usando nomes de amigos. Então calculo que isso ocorra geral na organização deles. Se duvidar, eles mesmos emprestam seus nomes, uns para os outros, quando fazem aquisição de empresas, para não chamarem a atenção. Eles englobam empresas, mantém os nomes delas, gente deles como sócios e na verdade estão fazendo cartéis por baixo do pano, dominando áreas de importância vital aos humanos.Algo que se eles decidissem nunca mais entregar o serviço, causaria pânico mundial.

MULDER: - É como vão fazer os governos e os povos rolarem e pegarem o osso quando eles mandarem. Eles são os treze da Nova Ordem Mundial.

BARBARA: - Mulder, é isso! Ordem dos Treze! Aposto que esse é o nome! Mulder, você me deu uma ideia incrível! Eu tenho que ir pra Davos cobrir o Fórum Econômico Mundial. Aposto que todos eles estarão lá. E iniciais vão começar a bater naquela agenda mais rápido que o Mike Tyson num saco de pancadas.

Scully entra na cozinha.

SCULLY: - Os calmantes fizeram efeito e ele dormiu.

MULDER: - Eu nunca tinha visto o Krycek desse jeito. Ele já ficou assim antes?

BARBARA: - Não. Ele estava tão feliz, as coisas estão finalmente dando certo pra ele e...

SCULLY: - Vocês não percebem, não é?

MULDER: - O que a gente não percebe? Que ele surtou? Eu não concordo também com o que ele fez, mas eu posso entender porque ele agiu assim. Acha que não estou feliz? Eu adoraria abrir o champanhe agora mesmo, se isso não tivesse custado a sanidade mental daquele cara lá em cima!

BARBARA: - Achei que ele nunca seria capaz...

SCULLY: - Não, vocês dois não enxergam. Coin fez o mesmo que fez comigo! Se aproveitou da situação pra fazer Krycek cometer essa barbárie e acabar caindo! Eu não disse pra você, Mulder? Ele adora pegar você quando está descuidado, feliz da vida! Se eu gostei do que Krycek fez? Não. Mas vou apoiá-lo! Porque fez por todos nós!

MULDER: - Eu sei que fez por todos nós. Alguém tinha que acabar com esses caras, eu mesmo teria ido com ele se Krycek tivesse me contado o que planejava fazer!

SCULLY: - Ele não planejou, Mulder! Ele foi usado. Foi usado por aquele desgraçado! Ele se aproveita dos seus erros, das suas culpas, dos seus pecados e usa todos eles contra você, de maneira que você pensa que são pensamentos seus, enquanto é ele soprando tentação em seus ouvidos! E não tem nada de religioso nessa história! Ele é um ser de outro planeta, tem capacidades que desconhecemos!

MULDER: - Skinner já ligou nervoso e fazendo perguntas e eu disse pra ele se acalmar que a coisa não era com ele. Eu tô mais preocupado agora é com o Krycek.

SCULLY: - Todas as coisas que Krycek me contou que viu, não me surpreenderam. Eu sei com quem lidamos. O Sindicato não morreu, eles se tornaram imortais. Agora não temos homens lá dentro, temos alienígenas usando seus corpos. E quem poderia detê-los? Deus? Ora desde quando aqueles homens serviam a Deus? Tiveram o que mereceram. Nem Deus poderia ajudar!

BARBARA: - Concordo com você, mas quem levou a pior? Como junto os cacos daquele homem lá em cima, se cada vez que colo a última pecinha alguma coisa acontece e ele se parte novamente? Eu o amo, entendem? Pra mim ele é um ser humano que errou muito na vida e que tem o direito de consertar seus erros, porque todos nós somos imperfeitos e ninguém pode erguer o dedo acusador, pois não está na pele do outro. Ele tentou corrigir seus erros. Da maneira errada, mas ele só fez o que sabia fazer e da maneira que sabia.

MULDER: - ... Eu queria ter feito.

SCULLY: - Você nunca faria, Mulder! Eu não faria! Skinner não faria! E Coin sabia disso. Sabia que entre os que sabem atirar e pudessem fazer o serviço pra ele, apenas Krycek teria essa coragem. Barbara, se ama o seu homem, cole os cacos dele todas as vezes que precisar colar. E compre mais cola. Porque eu colo cacos até hoje. E o Mulder também cola os meus. Cola lá em casa é artigo de primeira necessidade, não pode faltar.

Mulder abaixa a cabeça, sorrindo. Scully coloca o frasco de medicamento sobre a mesa.

SCULLY: - Barbara, dois desses de doze em doze horas. Ele já tomou uma dose, agora vai dormir feito bebê. Se Krycek piorar, me liga. E continue rezando. Amanhã vou atrás do padre.

BARBARA: - Preciso dele aqui.

Mulder revira os olhos.

MULDER: - É? E o que o padre vai fazer? Espalhar água benta pela casa e gritar "sai capeta"? Quanta crendice sem lógica alguma!

SCULLY: - Mulder, não faça piadas da minha fé! Você falando de lógica? Você mesmo já viu coisas sem explicação, anjos, demônios, possessões, espíritos e toda a sorte de coisas e vivia me criticando por ser lógica, esqueceu? Não sei como e nem porque funciona, mas sei que funciona! Um dia teremos uma resposta científica! Talvez a nossa própria filha as forneça!

MULDER: - E a Baba? Ahn? Ela fez umas coisas lá e resolveu daquela vez!

SCULLY: - Respeito a Baba, mas é a minha crença. E a minha crença é católica. E a da Barbara também. Amanhã eu busco o padre.

MULDER: -(DEBOCHADO) Pobre do Rato! Se ainda fosse outro tipo de exorcismo...

Scully fulmina Mulder com os olhos.


4:12 A.M.

No quarto, Barbara, vestida num roupão de banho, pega um cobertor e cobre Krycek. Sobe na cama e recosta-se nele, observando-o dormir. Tira-lhe a franja do rosto. Beija o ombro dele. Tira do bolso do roupão um rosário de contas rosas. Envolve o braço em Krycek, segurando o rosário e fechando os olhos.

BARBARA: - (ORANDO BAIXINHO)Padre nuestro, que estás en el cielo. Santificado sea tu Nombre. Venga a nosotros tu reino. Hágase tu voluntad en la tierra como en el cielo. Danos hoy nuestro pan de cada día. Perdona nuestras ofensas, como también nosotros perdonamos a los que nos ofenden. No nos dejes caer en la tentación, y líbranos del mal. Amén...


11:19 A.M.

Barbara abre a porta dos fundos. Scully entra com um prato embrulhado e segurando a mão de Victoria, que carrega um iogurte fechado, olhinhos inchados de chorar.

SCULLY: - Comecei a fazer aquela sua receita de panquecas. Trouxe algumas.

BARBARA: - Obrigada. Entra aí. Oi, Tory! O que houve? Andou chorando?

Victoria afirma com a cabeça. Scully entrega o prato. Barbara coloca o prato sobre o balcão.

SCULLY: - Sabe a parabólica?

Scully disfarça apontando pra Victoria. Barbara sorri.

SCULLY: - Acho que ouviu Mulder e eu conversando sobre ontem... Tive que deixar a Baba terminando o almoço, alguém aqui entrou em prantos porque queria visitar o tio Tchek que tava dodói e levar um presente. Não sei se é uma boa hora, mas não aguentava mais o berreiro dentro de casa.

Barbara se inclina, num sorriso, passando a mão no rostinho de Victoria.

BARBARA: - Ai, coisinha linda da tia Barbie! Tio Tchek tá sentado lá no jardim. Vai lá, vai!

Victoria sai correndo pela porta da varanda.

SCULLY: -(RINDO) O presente dela: um iogurte!

BARBARA: - (SORRI) Ai, Scully, tadinha! É o presente mais sincero, pode apostar. Dado de coração. Era o que ela tinha pra dar.

SCULLY: - Agora precisamos cuidar com o que falamos lá em casa. Aprendeu a relacionar fatos a nomes.

BARBARA: - Senta aí, eu tô fazendo uma sopinha pra ver se o meu mulinha come alguma coisa.

SCULLY: - Ele tá melhor?

BARBARA: - Não sei o que você falou com ele ontem, mas ele tá bem melhor hoje. Fiquei meio nervosa quando ele acordou, se trancou no banheiro, ficou um bom tempo lá... Eu tentando escutar o que ele tava fazendo, acho que tava falando sozinho... Sabe né? A gente fica uma pilha, eu escondi até as armas dele! Mas tá melhor, já quer ir na casa do Frohike com o Mulder... Desconfio que é "trabalho".

SCULLY: - Deve ser a tal fita da KGB que ele ia conseguir... Por fim nem Mulder lembrou mais disso. O Skinner chamou ele no FBI pra conversar. Mulder disse que só se fosse no Café, naquele prédio ele não entra mais nem que implorem.

BARBARA: - Mulder tá magoado, né?

SCULLY: - Muito... E me deixou curiosa. Disse que tem uma surpresa pra mim. Eu tenho até medo das surpresas do Mulder!

BARBARA: - Vai ver quer casar de novo!

As duas riem.


Pistoleiros Solitários – 3:31 P.M.

Krycek coloca a fita K7 no velho gravador sobre a mesa. Byers, Langly e Frohike o observam. Mulder come sementes de girassol compulsivamente. Langly brinca com uma moeda.

ANDREAS (OFF): - (NERVOSO) Relatório do Agente Andreas Rutinski para a KGB. São 2:38 da manhã. Missão cumprida. Estou na rodovia de acesso a Roma, tentando chegar ao aeroporto rumo a Moscou. 'Eles' estão atrás de mim, posso senti-los. Se alguma coisa acontecer comigo, vocês saberão quando encontrarem esta fita. Se isto for revelado vai causar caos na humanidade e cair com os conceitos que o mundo tem sobre Deus e consequentemente, cai a Igreja Católica, detentora dessa verdade.

Frohike leva a caneca de café à boca. Byers morde os lábios.

ANDREAS (OFF): - (NERVOSO) Sobre o Terceiro Segredo de Fátima: Eles voltarão e todo o mundo verá com seus próprios olhos que não estamos sozinhos no universo. Os anjos a que a literatura bíblica se refere são astronautas, são soldados, são militares prontos para missões de todos os tipos, desde resgate a guerra. Os demônios estão aqui e nos usam para seus propósitos.

Langly dá um sorriso de indignação. Mostra a moeda de ouro pra Krycek. Krycek afirma.

ANDREAS (OFF): - (NERVOSO) Há uma guerra política e milenar travada no universo pelo trono do planeta Sião. De um lado Lúcifer, ou ex-general de Sião e raças aliadas, e de outro o Rei de Sião, ou Deus e aliados. Grande é a ira do general dos exércitos escuros sobre os humanos, porque foram colocados acima dos anjos por Deus e isso acirrou os ânimos. Ele tem diversas formas e nomes. O livro cita Baalberith, que é o mestre da aliança infernal e secretário dos arquivos do inferno. Um demônio de blasfêmia e assassinato, a forma pura de Satã.

Mulder abaixa a cabeça. Krycek olha pra ele confirmando.

KRYCEK: - B.A. Alberthi. Anagrama para Baalberith. Você estava certo, Mulder.

ANDREAS (OFF): - Estou com um livro de capa preta que roubei do cofre da biblioteca do Vaticano, enquanto meu superior, o Bispo Dom Rosso, estava dormindo. A coisa toda escapa da visão religiosa e faz todo o sentido que não podíamos compreender. De acordo com o livro, há planos traçados para levar a humanidade ao caos, e assim conseguirem nossa destruição junto ao criador. A hierarquia desses alienígenas é enorme aqui na Terra e dividem-se em tarefas distintas, pensam, agem e seguem ordens como militares, e estão infiltrados entre nós como se fossem humanos, nas mais variadas camadas da sociedade mundial. Podem mudar de forma, rosto, possuem habilidades que não temos. Sua fisiologia é diferente da nossa, contudo se assemelham a nós. Podem sair de seus corpos e vagar como almas, ficando a nossa espreita e sussurrando coisas que nos fazem agir sem pensar e modificar nosso comportamento...

Frohike olha incrédulo pra Mulder. Krycek fecha os olhos, tenso.

ANDREAS (OFF): - Existe um segundo grupo de anjos na Terra. Foram guardiões do nosso planeta, que também foram banidos por cometeram o erro de se procriarem com humanas modificando a genética e tudo se explica na passagem sobre Noé, o dilúvio e os nefilins. Esses não tem interesse na nossa destruição, ao contrário, lamentam por seu erro e querem clemência. Há uma guerra entre estes e os exilados da primeira queda, uma guerra silenciosa e fria, contudo não menos sangrenta, porque não há na Terra nenhum anjo de Deus para... (ANDREAS GRITA ATERRORIZADO) (SOM DE FREIOS DE CARRO, BATIDAS FORTES DE ASAS E BARULHOS ESTRANHOS)

Os pistoleiros olham assustados para o gravador. Mulder fecha os olhos. Krycek desliga a fita.

KRYCEK: - Levaram o livro que estava com o agente Andreas. Supostamente, seja o que for que o atacou, o Vaticano sumiu com as provas. Como Andreas era padre, rapidamente enterraram seu corpo sem qualquer necropsia.

FROHIKE: - Eu sempre disse que o Vaticano escondia segredos sujos!

BYERS: - Eu não duvidaria da presença de bispos e autoridades católicas sentadas à mesa da conspiração mundial. Religião e política sempre andaram de mãos dadas.

MULDER: - Todos juntos. Católicos, protestantes, islâmicos... Sociedades secretas ocultas. É notório o envolvimento da Igreja Católica com a Maçonaria. Na década de 70, personalidades do Vaticano estavam envolvidas no escândalo financeiro do banco Ambrosiano.

LANGLY: - Vi algo disso no filme "O poderoso chefão 3".

MULDER: - O escândalo foi abafado e em 1978, com a morte de Paulo VI, foi eleito um novo papa: O cardeal Albino Luciani, que adotou o nome de João Paulo I. Esse papa pretendia reabrir o caso do Banco Ambrosiano e da Loja Maçônica P2. Trinta e quatro dias depois de assumir o papado, João Paulo I "morreu".

KRYCEK: - Reagan colocou nas mãos do papa João Paulo II, informações confidencias da CIA sobre o comunismo soviético. Com base nessas informações, João Paulo II mobilizou seus cardeais, bispos e padres da Europa que mobilizaram a população dos países comunistas. Católicos e não-católicos ergueram a bandeira da liberdade e juntos conseguiram derrubar o muro de Berlim. Dois anos depois, a URSS deixou de existir e a Rússia tornou-se uma nação democrática.

MULDER: - Receio dizer que a conspiração contra a qual lutamos todos esses anos se revela cada vez maior e mais abominável. O Sindicato das Sombras é apenas uma das unidades operadoras, existe um sindicato em cada país. Eu não queria usar essa palavra, mas eu terei de usá-la daqui pra frente como forma de nos lembrarmos de com quem estamos lidando. The Gold Coin é a besta. E como profetiza as escrituras, ele está sentado no poder do mundo, gerenciando as cartas todas, entre líderes de nações, religiosos e todo o tipo de homens que sentam-se nas cadeiras desses sindicatos. E eu que acreditava que o nome Sindicato das Sombras se justificava por agirem no escuro. Acredito que se refere a quem servem.

KRYCEK: - A tal Ordem dos Treze. Coin é um deles. Não temos todos os nomes ainda, mas eles são o topo da pirâmide da conspiração. Tudo começa neles.

FROHIKE: - Deixa ver se eu entendi. Aquele lance sobre híbridos serem anjos. Victoria é um deles?

KRYCEK: - Penso que por isso eles a queriam, tanto Coin quanto o Sindicato. Porque ela é filha de um híbrido. Talvez existam mais crianças assim, mas Victoria deve estar mais perto da pureza que eles necessitam.

BYERS: - Então Victoria não é um anjo puro, digamos. Ela é um híbrido mais perto disso. Mas como?

MULDER: - Meu avô, em Auschwitz. Um anjo colocou "algo nele". Que passou pro meu pai. Que passou pra mim. E que eu passei pra Victoria. Ela é mais pura que eu. Por isso Scully disse que apesar de eu ter dois pais, de ser um projeto de laboratório, eu sou mais Mulder que Spender. A família Strughold sabia disso, que aconteceu alguma coisa, só não sabiam se eles haviam alterado os genes do Mulder ou do Spender. Então resolveram me criar com genes dos dois, pra garantir que daria certo. E deu.

LANGLY: - Mas como você sabe que os genes mutados eram dos Mulder e não dos Spender, se nem eles sabiam?

MULDER: - Porque meu avô deixou um diário contando tudo o que passou em Auschwitz. Entregue pelo meu tio-avô antes de morrer, Klaus, que eu nem sabia existir. Por causa do Klaus eu descobri as verdades. Que o pai do Fumacinha o vendeu para os Strughold e o meu pai foi roubado do tio Klaus, pelos Strughold. Eles queriam ficar de olhos neles para futuramente criarem um híbrido, no caso, eu. E Scully é outra história. Porque ela faz parte de um experimento secreto que fizeram com oficiais da Marinha. Scully também tem alteração, só não tanta quanto eu tenho. Imaginem então a nossa filha.

Frohike se levanta, nervoso.

FROHIKE: - Droga, Mulder! Você nunca mais vai poder pregar o olho na vida!

MULDER: - E vocês ainda me criticaram por deixar o FBI. Eu tenho que ficar perto da minha filha. Prestaram atenção no que esse padre falou sobre uma guerra silenciosa entre os anjos da primeira e da segunda queda? Ele não conseguiu concluir o que ia dizer, mas eu já imagino.

BYERS: - Ele disse que não há nenhum anjo de Deus na Terra para...

KRYCEK: - Colocar ordem entre esses anjos? Eles seriam como prisioneiros de facções diferentes dentro de uma mesma prisão?

MULDER: - (NERVOSO) Não havia nenhum anjo pra ser carcereiro. Acho que agora há.

Mulder põe as mãos no rosto e abaixa a cabeça, angustiado. Krycek leva as mãos na cabeça.

FROHIKE: - Espera... Estão achando que Victoria...

MULDER: - Essa é a sina da minha filha, Frohike. E temo que nenhuma das facções goste da ideia.

KRYCEK: - Mulder, calma. Eles ainda não sabem o que ela é. Até descobrirem...

MULDER: - Mas vão descobrir um dia, Rato. E eu temo por ela. E quero ver quando eu contar isso pra Scully, o coração de mãe dela vai surtar. Nossa única filha, nosso milagre...

BYERS: - Posso dizer uma coisa, Mulder? Seu milagre é um milagre para a humanidade. Seu milagre lhe foi dado porque só vocês dois poderiam ser pais desse milagre. Então não tenha medo. Eu não sou religioso, ninguém aqui é. Mas acredito em Deus. Se Ele deu, ele protegerá.

MULDER: - É, pelo menos sei que ela tem um anjo guardião que aparece nas piores horas. Mas uma menina no meio de um bando de marmanjos desasados e sedentos por sangue? Ela nasceu ontem, eles nasceram antes do mundo existir! Tem bilhões de anos de experiência em guerra os separando! Como ela vai colocar ordem sozinha? Ela vai precisar de proteção! E quem vai protegê-la? Eu? Eu não tenho metade das capacidades dela! O guardião dela? Sozinho? Eu não confio em Gabriel, ele conta mais piadas que do que me acalma! Nunca me diz nada, nunca esclarece nada, só diz que não estamos prontos pra verdade.

KRYCEK: - E não estamos, Mulder! A gente não sabe nada! Mas Deus deve ter um plano. Ele não a colocaria nessa enrascada se não tivesse um. Talvez ela chame reforços. Reforços que não podem entrar aqui por algum acordo. Mas que se ela precisar...

MULDER: - Eu não sei, Rato... Quanto mais eu penso, mais maluco eu fico. Por que Victoria não nasceu menino?

FROHIKE: - E que diferença isso faria? Homens são melhores na porrada do que as mulheres? Ela também é filha da Scully, lembra? De você eu não tenho medo, mas eu tenho medo da Scully! Você é alto e frouxo. Scully é baixinha e invocada!

Mulder abaixa a cabeça, dando um sorriso.

KRYCEK: - Mulder, no exército russo, as mulheres eram mais sanguinárias nas batalhas do que os homens. Não é porque ela é menina que será mais sensível e vulnerável.

MULDER: - Eu só sei que estamos vivendo num purgatório. Nem quero pensar quando descobrirmos aonde o inferno começa. Krycek acabou com todos, Coin aproveitou para infiltrar seus anjos. Malditos alienígenas e eu pensando que os cinzas eram os piores!!!

KRYCEK: - Eles fazem os cinzas parecem amadores... Imagina a tecnologia que possuem?

MULDER: - Eu nem quero imaginar, Rato! Talvez não tomaram o planeta ainda porque estão comemorando antes! A gente não tem como lutar mesmo. Isso é briga de cachorro grande. O que podemos fazer é assistir.

KRYCEK: - E eu achando que acabando com o Sindicato, acabaria com nossos problemas.

MULDER: - Sua mulher tem razão, os problemas não acabaram, só mudaram. Aqueles, nós tentávamos lutar contra, mas esses... Nem temos como.

BYERS: - Vai desistir? Podemos expô-los.

MULDER: - (SORRI NERVOSO) É. Muitos pastores e padres fazem isso todas as noites na televisão e a gente chama eles de malucos! O que sobra pra nós? Olha, temos uma visão científica da coisa toda, os demônios são extraterrestres que querem tomar nosso planeta...

FROHIKE: - Para! Entendi. É pior que ler num jornal sensacionalista que Elvis apareceu em forma de nuvem nos céus de Graceland! Por que nosso destino é sempre aparentar loucura?

LANGLY: - Não sei. Mas eu gosto de parecer louco.

Todos olham pra Langly.

LANGLY: - Sei lá. É bom ser louco. Pelo menos temos amigos mais inteligentes, sinceros e fiéis que as outras pessoas.

FROHIKE: - Vou buscar a cerveja. Agora ele mereceu!


5:11 P.M.

Som das risadas de Scully. O corredor de um prédio. Mulder passa em frente a câmera, guiando Scully com uma venda nos olhos.

SCULLY: - O que é?

MULDER: - Deixa de ser curiosa. Você já vai saber.

Mulder para em frente a uma porta.

MULDER: - Preparada?

SCULLY: - Estou.

Mulder retira a venda dos olhos de Scully. Scully olha para a porta. Abre um sorriso, emocionada.

Close no vidro da porta: "X-Files Investigations"

Mulder abre a porta. Estende a mão pra Scully.

MULDER: - Que tal nosso escritório, detetive Dana Scully?

A recepção é um ambiente simples e aconchegante. Uma escrivaninha com computador, poltronas, plantas. Scully fica empolgada.

MULDER: - Falta seu toque feminino. E uma cadeira confortável pra Baba.

Mulder puxa Scully até a outra porta. Abre-a.

MULDER: - Nossa sala.

Scully entra, olhos brilhando de empolgação. Duas escrivaninhas com computadores. O poster de Mulder na parede. Um sofá. Muitas caixas de papelão.

MULDER: - Ainda tem muita coisa pra organizar. Não guardei nada nos armários. Vem aqui, quero que veja isso.

Mulder puxa Scully até a janela. Abre as persianas. Scully abre um sorriso.

MULDER: - Daqui dá pra você ver Washington, se sentir muita saudade. Tá vendo aquelas luzinhas lá adiante? O FBI fica por lá. Sua cafeteria pertinho.

SCULLY: -(FELIZ) Mulder, como eu sentiria saudades de um porão? Isso aqui não é um porão, é um escritório de verdade! Tem ar, tem espaço, vista panorâmica, luz, vida... (FECHA OS OLHOS/ RESPIRA FUNDO) E sem ácaros, poeira, umidade...

MULDER: - E você tem sua própria escrivaninha e um computador só pra você. Com direito a um porta-lápis do Scooby Doo, coisa da Victoria, ela quem escolheu. E você tem direito também a uma rosa. Essa eu escolhi.

Mulder entrega a rosa pra Scully. Scully sorri, aspirando o perfume.

SCULLY: - (RINDO) Hum... Temos até uma cafeteira?

MULDER: - Admita, sou um cara preparado. E caso precisemos dormir no trabalho, coisa não muito rara de acontecer, não vamos dormir sentados no meio de uma pilha de caixas. Temos um sofá também. (PISCA O OLHO) E ele vira cama...

Scully sorri. Olha pra mesa de Mulder. Para o pôster na parede.

SCULLY: - Mulder, isso é enorme!

MULDER: - Você está acostumada com aquele porão apertado...

SCULLY: - O que é aquela porta?

MULDER: - Abra e descubra.

SCULLY: - Mulder, você esqueceu de um detalhe. Não comprou nenhum arquivo? Aonde vamos guardar a papelada?

MULDER: - Abra aquela porta.

Scully abre a porta. Várias estantes com livros, outras com pastas de arquivos. A mesa de reunião abarrotada de caixas de arquivos e papéis espalhados.

MULDER: - Scully, acha que em um arquivo caberiam todos os casos? Precisamos de uma sala só para armazenar as pastas!

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder... (PEGA UM DOS ARQUIVOS NUMA DAS CAIXAS) Isso é propriedade do FBI...

MULDER: - Não é, se você trocar as pastas.

SCULLY: -(INCRÉDULA) Mulder, você roubou todos os Arquivos X?

MULDER: - Não roubei nada. Ganhei de presente de aniversário.

SCULLY: - (DESCONFIADA) Que aniversário? Mulder, quem deu isso a você?

MULDER: - (ASSOVIA) ...

SCULLY: - Mulder, como pode confiar no Fumacinha? O FBI dará falta disso!

MULDER: - Não. Isso são casos sem resolução, que depois da letra X vão para o arquivo morto. Aqui pelo menos eles estão vivos.

SCULLY: -Eu sei, Mulder! Mas você pediu isso a ele?

MULDER: - Não. Ele disse que me devia presentes de aniversário. Estou esperando entrar dinheiro para contratar alguns estudantes que queiram ganhar um extra digitando isso tudo para o sistema. Chega de traças e baratas. Tecnologia, Scully!

SCULLY: - (EMPOLGADA) Temos um sistema?

MULDER: - Temos um sistema, acabou a papelada e as árvores agradecem. Todos os casos vão ficar no sistema, escaneados, digitados, o que for preciso. Quando você quiser saber sobre tal assunto é só apertar a busca e todos os casos que já investigamos sobre isso aparecerão, abertos ou fechados.

Scully se abraça em Mulder.

SCULLY: -(SORRI) Estou tão feliz... Isso é nosso?

MULDER: - (SORRI) Isso é o nosso futuro, Scully. Não quero mais nada com o passado. Agora quero é olhar pra frente.

Eles observam a sala, como duas crianças descobrindo a nova escola. Batidas na porta. Os dois se entreolham.

SCULLY: - (SORRI) Nosso primeiro cliente?

MULDER: - Não seja tão otimista. Não vai ser tão fácil. Acha que tem tantos malucos por aí envolvidos em coisas estranhas?

Scully abre a porta. O velhote parado na recepção, com uma bengala.

LEVI: - Desculpe ir entrando, mas acho que a secretária não está...São os detetives que investigam coisas sem explicação?

Mulder e Scully se entreolham.

SCULLY: - Entre, senhor...

LEVI: - Levi. Eric Levi.

Mulder leva a mão para cumprimentá-lo.

MULDER: - Agentes Mul...

SCULLY: -(SORRI) Detetives Scully e Mulder.

MULDER: - Até me acostumar com isso... Não se perde um hábito de vinte anos do dia para a noite, me desculpe.

Corte.


O velhote sentado de frente pra mesa de Mulder. Mulder sentado em sua cadeira. Scully recosta-se na mesa de Mulder, cruzando os braços.

MULDER: - Como nos descobriu? Praticamente nem abrimos ainda.

LEVI: - Consegui o endereço de vocês através de um amigo. Ele achou um folheto em sua caixa de correspondência. Preciso de ajuda. Acho que vocês podem me ajudar, pelo que dizia o anúncio.

MULDER: - Em que podemos ajudar?

LEVI: - Sou fazendeiro em Mount Airy, sul da Virgínia. E estou com problemas na minha plantação de milho.

SCULLY: - Que tipo de problemas, senhor Levi?

LEVI: - Eu... Eu sei que pode parecer estranho o que eu vou dizer, mas...

MULDER: - Nada é demasiado estranho, senhor Levi. Nosso trabalho é justamente buscar respostas para o que as pessoas consideram estranho. É ajudar a compreender fenômenos que as autoridades não costumam resolver.

LEVI: - Gafanhotos. Tenho problemas com gafanhotos.

MULDER: -(INCRÉDULO) Gafanhotos?

LEVI: - Gafanhotos gigantes, senhor Mulder. Maiores que um homem. Escondem-se na plantação, mas estão lá, eu sei. Os vejo de noite, suas carapaças brilham. Olhos que chamuscam. Estou apavorado! Jamais vi isso em toda a minha vida, não são desse mundo! Optei por não dizer aos vizinhos e vim procurar a ajuda de vocês.

Mulder e Scully se entreolham.


Residência de Barbara Wallace - 5:25 P.M.

Krycek no quarto, abotoando a camisa.

KRYCEK: - Malyshka! Preciso da minha arma. Eu não posso ir pra delegacia sem arma.

Barbara sai do banheiro, enrolada na toalha, cabelos molhados e passa por ele o encarando séria. Entra no closet. Krycek veste o coldre. Barbara sai do closet, num beiço enorme e entrega a arma pra ele.

BARBARA: - A partir de hoje, não quero mais armas nessa casa. Exceto a da polícia. Se quiser manter um arsenal de amantes naquela sua picape, o problema é todo seu. Aqui dentro nada mais de armas. Apenas suas duas esposas.

KRYCEK: - (PROVOCANDO) Amantes? Tá falando só das armas ou tô liberado pra farra? Esposas? Eu só fico com uma, a 9 mm, a outra, a M16, fica na viatura. Sabe de alguma outra esposa nessa casa que eu desconheça?

BARBARA: -Incrível como você consegue passar de fofo a cretino em tempo recorde! Não brinque comigo ou afio minhas unhas de gata na sua cara, Ratoncito!

KRYCEK: - É... O Mulder tinha razão mesmo... Aquela torta de chocolate não veio apenas recheada de ganache, mas de segundas e terceiras intenções...

BARBARA: - (IRRITADA) Você escolhe, Alex Krycek! Ou elas ou eu! Se quiser suas armas, pega todas elas, enfia na... Na droga da sua picape e toma seu rumo! Cansei! Chega!

Krycek fica boquiaberto. Segura o riso. Coloca a arma no coldre.

KRYCEK: - Ok. Vou ficar com as armas.

BARBARA: - Ótimo! Desejo que sejam felizes! Estão no closet, atrás da gaveta das minhas calcinhas.

KRYCEK: -... E por que logo atrás da gaveta das suas calcinhas? Por que eu não ousaria mexer nas suas roupas íntimas e assim não as encontraria?

BARBARA: - Não. Porque caso dissesse que preferia elas, ainda teria algo diante dos olhos para repensar sua decisão.

Ela cruza o braços, aumenta o beiço e vira de costas pra ele. Krycek doido pra rir, morde os lábios.

KRYCEK: - Tá, então vou pegar as armas. Outro dia eu passo e pego as minhas roupas e os meus CD's... Pode ficar com os aparelhos de ginástica e o piano.

BARBARA: - E marque data e hora na minha agenda. Só vou atender você quando eu puder.

KRYCEK: - Ah! Por que assim que eu sair, você vai começar a ficar muito ocupada?

BARBARA: - (BRAVA)Assim que sair, eu vou parar minhas pílulas. Você só volta aqui quando eu estiver ovulando, pra pegar suas coisas e me deixar um filho. Eu avisei, não avisei? Pague o seu aluguel!

KRYCEK: -(SEGURA O RISO) Esqueci que sou apenas um doador de esperma. Não estressa, Malyshka, tem caras melhores aí fora, os meus genes são ruins. Acho mais negócio você ter um filho com um americano, talvez um latino...

BARBARA: - (BEIÇO) Eu quero um filho com genes russos! Svetlana Smith ou Rodríguez não combina!

Krycek veste a jaqueta, olhando pra ela. Barbara num beiço, aborrecida. Krycek sorri, aproxima-se das costas dela e a envolve nos braços. Dá um beijo no ombro dela.

KRYCEK: - Eu prometo que nada mais de armas, tá? Só as da polícia. Só me deixa ficar com meu AK 47 de estimação, eu deixo ele escondido na picape. Tá registrado no meu nome, é uma arma legalizada.

BARBARA: - Acho que entende minha atitude. Eu não quero mais você bancando o justiceiro da turma. Sou eu quem vai ficar viúva. Admiro sua coragem, determinação e seu senso de proteção com nossos amigos. Mas deixa eles se virarem um pouquinho. Eu preciso ser egoísta agora ou vou terminar sofrendo vendo você morto. Só Deus sabe o meu desespero quando vi você daquele jeito ontem! (SECA AS LÁGRIMAS) Eu te amo, Alex, não quero perder você, nem ver você se acabando desse jeito, pode entender isso? Se você sofre, eu sofro junto.

KRYCEK: - Malyshka, eu posso prometer pra você que não vou mais sair por aí atrás de vingança, como eu fiz ontem. Mas não posso prometer que se alguém tentar algo contra a gente ou os nossos amigos, eu não vou defendê-los, ok? Porque Mulder fará isso também. Nós temos um acordo. Protegemos nossas famílias. Você não quer ficar viúva, Scully também não.

BARBARA: - Nunca vamos ser pessoas normais, né? A palavra paz é utopia.

KRYCEK: - Barbara, é nosso destino lutar pelo que acreditamos, pelos que não podem lutar. Você não luta todos os dias escrevendo seus artigos, expondo mentiras, tentando mostrar a verdade pras pessoas? Mulder faz isso de outra forma. Scully faz isso com o Mulder. E eu, tudo o que sei fazer, a minha parte nessa história, é garantir a segurança de vocês pra fazerem isso. Somos um time. Precisamos ceder muitas vezes pelo bem comum. Acha que não fico nervoso vendo você se expor na mídia falando e criticando? Eu fico. Você tá exposta ali nacionalmente, mostrando a sua cara pra todos, criando inimigos e mais inimigos.

Barbara se afasta dele. Abre a gaveta do criado-mudo e volta com algo escondido na mão.

BARBARA: - Dá sua mão aqui.

Krycek dá a mão pra ela. Barbara coloca o rosário na mão dele e a fecha.

BARBARA: - Fique com isso. Minha mãe me deu quando eu fiz quinze anos.

KRYCEK: - Malyshka, eu não posso, isso tem valor...

BARBARA: -Não é uma joia, são apenas contas de vidro. O valor dele está no significado. Sempre me ajudou nas horas difíceis. Sei que sua mãe era católica, apesar de ser uma judia-russa, mas não peço que acredite nisso. Peço apenas que carregue com você no seu bolso. Quero que fique com ele todas as vezes que tiver que sair e o traga de volta pra mim. Só isso.

Krycek veste a jaqueta, coloca o rosário no bolso.

BARBARA: - Lembre-se da sua missão. Tem que voltar vivo sempre, todos os dias, pra trazê-lo de volta pra mim. Nunca esqueça disso.

KRYCEK: - E se... Algum dia... Eu não puder trazê-lo de volta pra você?

BARBARA: - Deus sempre vai trazer vocês dois de volta pra mim. Eu acredito nisso.

Krycek a abraça forte. Solta o ar que parecia preso nos pulmões. Barbara retribui o abraço.

BARBARA: - Bom trabalho pra você. E traz meu rosário amanhã cedo. Deixei um bolo lá embaixo, é pra você e seus colegas. Dá um pedaço generoso pro delegado Norris. Ele salvou o meu noivo.


X-Files Investigations - 5:36 P.M.

Scully serve um cafezinho ao velhote, que de mãos trêmulas, pega a caneca. Mulder segura um lápis, rabiscando uma folha.

LEVI: - Obrigado, senhora.

MULDER: - Poderia me descrever esses gafanhotos?

LEVI: - E-eles... Eles se parecem com gente.

SCULLY: - Gente?

LEVI: - Sim... Pessoas... O rosto é diferente, mais largo, tem olhos grandes e são verdes.

MULDER: - Pernas?

LEVI: - De gafanhotos. Caminham como gafanhotos, sobre as patas traseiras... Não usam roupas, têm uma espécie de couraça no corpo. Uma cauda como escorpião. E asas.

MULDER: -(INCRÉDULO) Asas?

Scully senta-se, prestando atenção.

LEVI: - Sim. Asas. Olha, eu pago o que me pedirem junto com as despesas todas, mas por favor me ajudem.

MULDER: - Já teve contato físico com eles?

LEVI: - Não. Mas eles sabem aonde estou. E eu sei como me encontraram.

SCULLY: - E... Como foi que eles lhe encontraram, sr. Levi?

LEVI: - Pelo cartão de crédito.

Scully suspira desanimada. Mulder leva o corpo pra frente, interessado.


Mount Airy – Virgínia – 7:11 P.M.

Mulder dirige o carro. Scully ao lado, agitando a mamadeira. Passam por um cercado de vacas e uma grande plantação. Victoria na cadeirinha atrás, toda empolgada.

MULDER: - Eu fiz aquele monte de perguntas pra atestar a sanidade mental dele.

VICTORIA: - (OLHANDO PELA JANELA) Vaquinha mama!!!! Vaquinha papai!!! (APONTANDO) Oh!

MULDER: - Não, sem vaquinhas. Não podemos criar vacas no quintal...

Victoria faz um beiço.

SCULLY: - Mulder, ele não me pareceu um velho maluco. Me pareceu muito assustado. Ele deve ter visto algo, mas não significa que foram gafanhotos gigantes. Se fossem gafanhotos, a plantação dele estaria liquidada!

VICTORIA: - Fafanhoto, o Will...

MULDER: - Não estamos falando do seu primo, desconecta do assunto, parabólica... Fafanhoto... (RINDO) ... Gafanhoto!

VICTORIA: - (TODA ATRAPALHADA) Fafanhoto.

Scully sorri. Vira-se e entrega a mamadeira pra Victoria.

SCULLY: - Sem lambança, moça. Não quero ver leite espalhado pelo banco.

MULDER: - Como você é hipócrita, Scully! Já espalhamos tanto leite nesse banco...

SCULLY: - Mulder!!!!!!

Mulder entra na fazenda. A estrada é cercada por milharais. Mulder para o carro.

MULDER: - Sabe a alergia que tenho a milharais. Se alguma abelha aparecer, quero você bem longe!

VICTORIA: - Belha?

MULDER: - Não, não podemos ter abelhas em casa. Se quer abelhas, vá morar com seu avô, ele adora esses bichos. Tem criação deles!

SCULLY: - Mulder!!!!

Mulder e Scully descem. Os dois olham para o milharal dos dois lados da estrada de chão. Mulder sai em direção ao milharal. Scully olha pra Victoria.

SCULLY: - Mocinha, você fica dentro do carro, ok? E não mexa em nada.

VICTORIA: - Tá bom... Nah mexe nada, mama.

Scully entra no milharal atrás de Mulder. Victoria olha para o som do carro, depois olha marota para o milharal. Aponta o dedo para o aparelho que se liga.

[Som: U2 - New Year's Day]

Victoria começa a dançar pulando e se embalando de um lado pro outro na cadeirinha.

VICTORIA: -"Iutiú"! Bono!!! Êeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!

Victoria sacode a mamadeira, voando leite pra todo lado.

VICTORIA: - (CANTANDO/ DANÇANDO) "Niu is dei"...

Corte.


Scully caminha entre o milharal, procurando Mulder.

SCULLY: - Mulder???

MULDER: - Aqui!!!!!!!!!

Scully aproxima-se. Os dois caminham pelo meio da plantação.

SCULLY: - O que o sr. Levi quis dizer com "eles me encontraram pelo cartão de crédito"?

MULDER: - O governo sabe toda nossa vida através de informações de um simples cartão de crédito. E se esse governo sabe, Coin sabe também. Estamos sendo catalogados e numerados por bancos de informações no mundo todo. Ouviu falar do cartão inteligente?

SCULLY: - Sim, há empresas trabalhando na criação de cartões inteligentes que podem armazenar informação dentro de um chip, inserido no cartão de plástico.

MULDER: - Que pode trazer a foto do usuário, os dados de sua carteira de identidade, de trabalho, de motorista, passaporte, cor de pele, dos olhos, dos cabelos, altura e peso, endereço, local de trabalho, filiação e até a sua religião ou a cor preferida de suas cuecas. Ou seja, Scully: No futuro, você não terá como se esconder de nada e de ninguém. Muito menos do diabo.

SCULLY: - ... E a internet? Certamente armazenam nossos dados com o advento dessa coisa de rede social. Ellen saiu do Classmates e me enche o saco pra entrar no tal Orkut!

MULDER: - Isso está começando a virar febre. Estamos em 2005, Scully. Com toda certeza as empresas de tecnologia da informação enviam dados para a NSA, a coisa toda apenas está começando... Pensei nunca mais repetir essa façanha. Por que desconfio que já sei do que se trata?

SCULLY: - Acha que estão usando plantações de milho como esconderijo de bases de manipulação do óleo negro? Mulder, mas já criamos a vacina, o mundo está imunizado!

MULDER: -Eu sei, mas temos que tomar cuidado. Você sabe que eles podem criar uma mutação mais rápida do que os anticorpos que Victoria produz... Scully, impressão minha ou estou ouvindo U2 à distância? Isso não é U2?

SCULLY: -É... Parece a voz do Bono. Acho que vem do nosso carro.

MULDER: - Ela não é uma criança, é um exterminador! Pode ir até lá e mandar o terrorzinho baixar o volume da música ou vai espantar qualquer coisa que se esconda aqui?

SCULLY: - Pelo menos Victoria tem bom gosto musical.

MULDER: - Não sei se é a música, a banda ou a genética materna irlandesa. Vai lá sossegar a fã do Bono, antes que escureça e a gente não encontre nada aqui.


Residência dos Mulder - 10:21 P.M.

Na sala, Mulder estoura um champanhe enorme. Langly apara com uma taça.

MULDER: - Vamos beber e comemorar todas hoje! Além de abrir as portas, já temos até um Arquivo X pra resolver!!!

Scully sai da cozinha com uma bandeja de salgadinhos. Coloca na mesa de centro. Mulder e Langly servem as taças. Byers e Frohike as entregam. Susanne sentada com a bebê no colo, enroladinha, Victoria ao lado olhando pra neném, empolgada. Baba ao lado dela.

BABA: - Não é uma boneca, é um bebê de verdade.

VICTORIA: - Neném! Goto neném!

Susanne tira a mantinha do rosto da bebê. Victoria olha curiosa e sorri boba. Scully se aproxima.

SCULLY: - (SORRI) Neném, filha? Tem um neném na nossa casa? Ela adora bebês.

Scully senta-se ao lado de Susanne. Frohike vai entregando as taças. Ellen sai da cozinha com pratos e Skinner segurando o bolo.

SKINNER: - Aonde eu coloco esse bolo?

SCULLY: - Na mesinha aí mesmo, os pratos também. Mulder, precisamos comprar uma sala de jantar. As visitas quando chegam tem que acampar pela sala! Que vergonha!

ELLEN: - Pense assim, vocês tem muitos amigos. Oh, chegando os atrasados. Sabe como é, casal novo sempre se atrasa... Vivem "ocupados".

Ellen corre e abre a porta. Krycek e Barbara chegam. Frohike entrega taças pra eles.

MULDER: - Ah! Finalmente! Tiveram que atravessar a rua, isso demora muitas horas!

Barbara corre pra perto de Scully e Susanne, já empolgada com a bebê.

MULDER: - Agora sim. Um brinde a X-Files Investigations! Que tudo dê certo!

Todos erguem as taças. Victoria ergue a mamadeira. Skinner se aproxima de Mulder.

SKINNER: - Então já tem um caso pra resolver?

MULDER: - Já. Como andam os ânimos no FBI?

SKINNER: - Três dias de luto oficial pelo Kersh. Mulder, eu sou uma pessoa má se disser que não estou ligando pra morte de um colega?

MULDER: - Não. Porque nunca foi um colega. Foi um traidor sentado numa posição alta só pra ferrar com todo mundo. E o Carter?

SKINNER: - Sobreviveu. Está no hospital, mais assustado que um gato. Mulder, já estão investigando...

MULDER: - Ele não deixou pistas. Me garantiu.

SKINNER: - Sabe que não concordo com isso. Admito, é um alívio saber que nunca mais terei fumaça dentro do meu escritório, nem gente estranha me pressionando, nem o Kersh atrapalhando investigação e colocando minha cabeça na mesa do diretor. Mas Krycek foi longe demais.

MULDER: - Skinner, eu sou uma pessoa má se disser que não estou ligando pra morte deles? Muda o assunto. Krycek está vindo. Ele já está culpado demais. Me diz uma coisa, vai tentar de novo?

Krycek se aproxima deles.

MULDER: - Por causa da reeleição você não teve chances de tentar seu nome pra diretor do FBI.

SKINNER: - É, se não fosse isso, eu poderia estar sentado na cadeira do Carter. Agora é esperar as próximas eleições e torcer para meu nome ser cogitado.

KRYCEK: - Carter escapou?

SKINNER: - É.

KRYCEK: - Droga! Logo o morcego da conspiração? A conta dele extrapolou comigo! Se dependesse do Carter, eu já estaria morto!

MULDER: - E comigo e a Scully? Ahn? Tudo o que ele aprontou com a gente?

SKINNER: - Falo nada... Nadinha. Quero morrer careca se alguma vez eu falei mal do Carter.

MULDER: - Mas eu estava pensando hoje, com mais calma. O Sindicato já era. Seja quem forem agora, não acredito que vão nos incomodar mais. Eles tem mais com o que se preocupar, uma guerra universal.

SKINNER: -Sabe que você tem razão? Será que vamos começar a ter mais sossego?

MULDER: - Acredito que sim. Em relação a eles. Porque Krycek e eu queremos outra briga agora.

KRYCEK: - Uma briga maior. Queremos os cabeças da maior de todas as conspirações.

SKINNER: - Tenho a sensação de que vou perder o resto dos cabelos que sobraram... Por que vocês dois não vão praticar alguma atividade num clube, por exemplo? Por que sempre gostam de correr atrás de encrenca?

MULDER: - (DEBOCHADO) Encrenca? Eu? Rato, você corre atrás de encrenca? Eu não.

KRYCEK: -(DISSIMULADO) Eu? Encrenca? Eu não! A encrenca é que corre atrás de mim!

MULDER: - Por falar nisso, acho que temos outra encrenca. Tá vendo nossas garotas? Scully tá feliz segurando a filha do Byers, mas eu sei que por dentro já está lembrando coisas tristes e a Barbara está completamente empolgada... Melhor tirar as duas de lá!



ANO DOMINI 2006


[Introdução da música: Era – Don't go Away]

"O primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, que foram lançados na terra; e foi queimada a terça parte da terra, a terça parte das árvores, e toda a erva verde".


[Cenas de catástrofes ecológicas e ambientais]


"O segundo anjo tocou a sua trombeta, e foi lançado no mar como que um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar. E morreu a terça parte das criaturas viventes que havia no mar, e foi destruída a terça parte dos navios".


[Cenas do alinhamento interplanetário em forma de cruz.]

[Cenas de erupções vulcânicas]


"O terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas".


[Cenas de um meteoro caindo sobre o mar]


"O quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhante, e semelhantemente a da noite. E olhei, e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia com grande voz: Ai, ai, ai dos que habitam sobre a terra! por causa dos outros toques de trombeta dos três anjos que ainda vão tocar".


[Cenas das cidades destruídas, tomadas pela fumaça dos mísseis]

Corte do som.


X-Files Investigations – 3:21 P.M.

Mulder sai da sala de reuniões com uma pasta na mão. Faz uma fisionomia debochada. Senta-se na cadeira em frente a sua mesa. Cruza as pernas.

MULDER: - Detetive, estou com fantasmas na minha casa. Eles comem todo o sorvete da minha geladeira, porque eu compro sorvete e sempre, "misteriosamente", o sorvete desaparece. Poderia me ajudar?

Corta para a mesa de Mulder. Victoria, já com cinco aninhos, sentada na cadeira dele, abre um sorriso. Usa chuquinhas nos cabelos e rabisca com lápis num bloco. Mulder levanta-se. Aproxima-se dela.

MULDER: - Hum, que desenho bonito, Pinguinho... O que é isso? Uma barata?

VICTORIA: -Nah! Um ET, papai.

MULDER: - Ah, logo vi que era um ET!

Mulder sorri. Vai pra mesa de Scully e senta-se. Começa a trabalhar ali.

VICTORIA: - Papai, que cor tem os ETs?

MULDER: - Uns são cinzas, outros são da cor da gente... Ninguém sabe ao certo.

VICTORIA: - Vou pintar de verde!

MULDER: - Verde? Coitado do ET, está com hepatite?

Victoria ri. Mulder sorri. Pega o celular e aperta uma tecla.

MULDER: -(AO CELULAR) ... Novidades? ... (SÉRIO) Hum... Mas conseguiu gravar as manifestações na casa dos Jensen? ... Não viu nada? Langly, tem certeza de que você, Frohike e Byers sabem realmente instalar câmeras e mexer nessa parafernália toda dentro dessa Kombi ou joguei meu dinheiro fora? ... Eu sei que vocês não são caça-fantasmas! Envia pra mim que vou assistir, eu preciso encontrar respostas pra eles... Certo, nos falamos à noite.

Mulder desliga. Revira as gavetas, reclamando.

MULDER: -Desse jeito não vou ter nada interessante pra dar pra Barbara e o documentário paranormal vai por água à baixo. Um monte de casos de fantasmas e até agora nenhuma prova em vídeo. Não vou colocar minha cara na TV sem evidências gravadas... E sua mãe que não chega, tenho que ir ao banco!

Scully entra com um pacote.

SCULLY: -Cheguei! Alguém com fome?

Victoria pula da cadeira e corre pra perto de Scully.

VICTORIA: - Eu!!!!!!!!!

SCULLY: - Trouxe um sanduíche natural pro seu pai, um hambúrguer e um mousse de chocolate pra você.

MULDER: - Ah e eu não mereço mousse?

SCULLY: - Você está na idade de exercícios e dieta. Não precisa de mousse de chocolate.

MULDER: - Nunca ganho nada, nem trouxe minhas sementes de girassol. Mas pro periquito você sempre leva.

SCULLY: - Pela enésima vez, oIkito não é um periquito, Mulder. É um Agapórnis. Baba e você não entendem nada de pássaros!

MULDER: - Pra mim é periquito. Apareceu como periquito e vai continuar sendo periquito. Aga o quê?

SCULLY: - Agapórnis. Seu nome significa Ave do Amor, pois quando solta no viveiro com outras aves, ela escolhe seu par e o deixa só quando morre.

VICTORIA: - (EMPOLGADA) Par? Mamãe, vamos comprar uma namorada pro Ikito? Ah mamãe, ele vai ficar tão feliz!

MULDER: - Não, este é um agapórnis solteirão convicto. Sem mais agapórnis pela casa ou vamos ter uma criação de agapórnis.

SCULLY: - E daí? Não são lindos? (SUSPIRA) Que amor eterno... São como as araras, Mulder, lembra? Hum? Como nós, eternos parceiros até o fim de seus dias...

MULDER: - Negativo. Se nós não podemos ter uma ninhada, eles não têm o direito de procriar indiscriminadamente na nossa casa só pra debochar da nossa cara!

Scully ri. Entrega o mousse pra Victoria. Victoria abre o mousse.

SCULLY: -(BEIÇO) Egoísta!

VICTORIA: - (BEIÇO) Bobo!

Scully vai pra sala de reuniões.

MULDER: - Ah sim! Uma me chama de bobo, a outra de egoísta e as duas fazem beiço quilométrico! O que vocês querem de mim mulheres? Ahn?

VICTORIA: - Uma namorada pro Ikito.

MULDER: - Eu vou pensar no caso. Scully, eu preciso ir ao banco.

SCULLY: - Eu posso ir pra você, preciso passar na Ellen, vamos negociar outra máquina de café. Baba está no carro me esperando.

MULDER: -(INCRÉDULO) O quê? Baba já devia ter ido pra Carolina exorcizar espíritos! A mulher já ligou duas vezes reclamando! Eu desisto, me demito da função de chefe! Que saudade do Skinner, será que ele não quer vir trabalhar aqui e colocar ordem na coisa, porque ninguém faz o que eu peço e os clientes ficam só nos meus ouvidos! Desse jeito não dá!

Victoria corre até Mulder. Dá uma colherada de mousse na boca do pai. Scully volta pra sala. Os dois disfarçam. Mulder limpa os lábios. Scully olha pra eles.

SCULLY: - Não deu mousse ao seu pai, não é?

Victoria olha pra Mulder. Olha pra Scully. Indecisão.

MULDER: - Não.

VICTORIA: - ... Sim.

SCULLY: - Seus conspiradores! Pelo menos você tem mais caráter do que o seu pai.

VICTORIA: - Só dei um pouquinho mamãe... Olha pra ele, tadinho...

MULDER: - (PIDÃO) É, tadinho, olha pra mim como sou 'tadinho'.

SCULLY: -Bem diz minha mãe que a fruta nunca cai longe do pé. Victoria está para Mulder como peixe pra água. Pode dividir com o seu pai!

Victoria sorri. Senta-se no colo de Mulder, alternando colheradas pra ele e pra ela.

VICTORIA: - Lembra que você me dava comida na boca quando eu era bebezinho? Agora é minha vez, papai.

SCULLY: - Me dá os docs. Algo mais da rua, bwana?

MULDER: - (BOCA CHEIA) Duas dúzias dessa mousse de chocolate.

VICTORIA: - (RINDO) Três!

SCULLY: - Vou é dar duas dúzias de puxão de orelha nos dois.

MULDER: - Ah! Queria te falar uma coisa... Só pra descargo de consciência, dá pra você dar uma olhadinha naquilo pra mim?

SCULLY: - Mulder... Todo mês você me pede para ir até Mount Airy pra ver o senhor Levi. Eu sei que não conseguimos respostas pra ele até hoje, mas não precisa se sentir culpado por isso.

Scully sai. Mulder suspira. Victoria dá uma colherada de mousse pra ele.

MULDER: - Primeiro caso particular e é o único pendente... Como não vou me sentir culpado?

VICTORIA: - ET gosta de mousse, papai?

MULDER: - Eu não sei, mas eu adoro!

Mulder rouba o pote de mousse.

VICTORIA: - (RINDO) Naaaaaaahhhh!!!!


7:18 P.M.

Mulder e Frohike entram no escritório. Victoria no colo de Mulder, com um papel na mão.

FROHIKE: - Desenhou um ET?

VICTORIA: - Sim, Hero! Um ET bem grandão! Do tamanho do mundo!!!

FROHIKE: - (OLHANDO O DESENHO) Ah que bonito! ... Parece uma barata verde com asas...

Mulder solta Victoria. Ela corre pra cadeira dele.

MULDER: - Por que não usa a mesa da sua mãe e deixa a minha em paz?

VICTORIA: -(SORRINDO/ ESCOLHENDO LÁPIS) Porque eu gosto do cheirinho do meu papai.

MULDER: - (PÂNICO) Que criaturinha mais chantagista!

VICTORIA: - (DESENHANDO) Eu não tenho culpa por amar você demais, pedaço de mim.

Frohike abaixa a cabeça, emocionado. Mulder olha ternamente pra filha.

MULDER: - Ok, pedaço de mim. Você sabe como me calar.

Frohike pisca o olho pra Victoria. Mulder vai pra sala de reuniões. Frohike atrás dele. Os dois levam um susto ao verem Krycek sentado à mesa de reuniões, pensativo.

MULDER: - Como entrou aqui?

KRYCEK: -Eu cheguei e Scully precisou sair, então fiquei de babá até ela voltar.

MULDER: - Eu não consigo tirar o caso Levi da cabeça. Sinto que há alguma ligação desse caso dos gafanhotos com o governo. E onde está o governo...

FROHIKE: - Está o demônio. Estou até parecendo um pastor no que ando falando!

KRYCEK: - Scully deixou esse envelope pra você.

Mulder abre o envelope. Frohike pega o celular e aperta uma tecla, enquanto Mulder lê o resultado. Frohike afasta o celular do ouvido. Ouve-se Ramones ao fundo. Frohike leva o celular ao ouvido novamente.

FROHIKE: -(AO CELULAR) Onde estão? Sim, estou com Mulder... Novidades?

MULDER: - Diga pra eles que existem níveis baixos de radiação nas amostras.

FROHIKE: - (AO CELULAR) Ouviram? Abaixa essa droga de música! Sim, níveis baixos de radiação... (DESLIGA) Dois surdos numa Kombi!

KRYCEK: - ... Ontem me seguiram da delegacia num carro negro do governo. Tenho certeza que eram da Nova Ordem. Se vestem como homens, parecem homens, mas são frios, sem sentimento... As roupas... São ternos negros, camisa branca e carregam algum símbolo num cordão ao pescoço... Eu não sei mais quem é demônio e quem é humano, entendem?

Mulder e Frohike olham pra Krycek.

KRYCEK: - Eram... (ESFREGA OS BRAÇOS COM FRIO) E-eu... Eu estou com medo. (RECORDANDO) Quantos caras que estão no poder do mundo são humanos ainda? Você pode imaginar a quantidade de pessoas que morreram e que foram tomadas por essas coisas?

FROHIKE: - O que acha que são as sombras? São demônios mesmo?

MULDER: - O termo invasores de corpos não caberia aqui. Não acredito que pessoas de fora do esquema dele, pessoas não vendidas sofram este tipo de troca. Talvez as que possuam o número da besta. E-eu realmente não sei mais o que pensar. Talvez cada alma vendida, que tenha seu corpo morto, desça ao inferno e alguma alma saia do inferno assumindo esse corpo. É a única teoria que tenho, a da substituição. Como Coin o faz, não sei. Tudo que sei é que não gosto do momento em que estamos vivendo. Eu não quero entrar em política novamente. Mas tenho que dizer que o governo do nosso país está tentando bancar o Império Romano conquistando outros povos e nações e aquele discurso da Nova Ordem me deixa nervoso. Profecias pregam que um governo único regerá o mundo e o homem que sentará no trono desse governo é a besta.

KRYCEK: - O Apocalipse fala da queda da Babilônia. A Babilônia é Nova Iorque. A estátua da liberdade é a prostituta assentada sobre as águas.

MULDER: - (DEBOCHADO) Por que ela é francesa?

Os três riem.

KRYCEK: - Porque faz sentido, a simbologia da prostituta é uma mulher erguendo uma taça. A estátua ergue uma tocha, o que pode ser associado ao formato de uma taça. A prostituta sentará sobre a besta. É lá onde ele se esconde. Onde está a ONU que comanda as maiores organizações de "direitos humanos" do mundo. Direitos falhos, mentirosos, porque a miséria aumenta, as guerras não cessam em nome do dinheiro e do poder. Sentados neste país não vemos nada. Mas se pegar jornais estrangeiros verá que a realidade dos demais países é fome, peste, miséria, desemprego e a cada dia isso aumenta mais por causa da globalização.

FROHIKE: - Então somos protegidos pela besta?

MULDER: - Não leve isso na generalização. Muitos americanos não apoiam as decisões do governo. Sejam democratas ou republicanos. Vou sair.

KRYCEK: - Vou ficar aqui até a Scully voltar. Depois vou pra casa.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah! "Vou pra casa". Agora ele tem casa, não se esconde mais num beco. Amante... A moral da história é que um dia, todo amante vira marido. Tá vendo, Frohike? Reconhece esse sujeito? Não? Pois é, uma nanica jornalista domesticou o rato malvado direitinho! Virou gente! Limpa a casa, faz comida, lava roupa, sai pra dançar e aposto com você que canta ópera pra ela, leva café na cama e ainda faz massagem! Nossa, o perigoso Alex Krycek! Que medinho dele!

Frohike segura o riso diante de um Krycek que fulmina Mulder com os olhos. Mulder caminha em direção à porta da sala rindo alto. Para. Olha para Krycek.

MULDER: - ... Rato, sério. Se não os matasse, eles se matariam. De câncer, de culpa ou afogados no dinheiro. Não pensa mais nisso.

KRYCEK: -Desde aquela noite, ando com pavor de lugar escuro. Há mais de um ano não durmo mais com as luzes apagadas. Admito, eu tenho medo. Ele jurou que me pegaria, me deu até aquela moeda!

MULDER: - E o rosário que Barbara te deu? Hum?

KRYCEK: - Só me deixa mais tranquilo, Mulder. Mas tem horas que nada me deixa calmo. Pelo menos sua mulher estava certa numa coisa. Depois que eu falei com aquele padre, desabafei e pedi perdão pra Deus, me sinto muito melhor.

FROHIKE: - Acho que vou pedir pra Baba fazer uns rituais lá em casa também. Por garantia.

KRYCEK: - (RINDO) É, eu sei bem que rituais você quer fazer na sua casa com a Baba.

MULDER: - (CURIOSO) O que tá pegando que eu não sei?

FROHIKE: - Nada tá pegando, Mulder. Quando pegar, eu aviso você. Se pegar, porque nem a jaqueta de couro tá resolvendo.

MULDER: - Ah, não, de novo? O que tem essa coisa de jaqueta de couro?

KRYCEK: - Mulder, você não tem trabalho não? Eu hoje estou de folga. Anda!

Mulder sai da sala com Frohike. Victoria entra na sala segurando alguns lápis de cor.

VICTORIA: - Tio Tchek, não precisa ter medo deles.

KRYCEK: - (SORRI) Adultos também tem medo, Scullyzinha.

VICTORIA: - Não precisa ter medo. Eles não vão pegar você.

KRYCEK: - E como você sabe disso?

Victoria olha para os lápis de cor em sua mão. Pega o lápis laranja. Mostra pra ele.

VICTORIA: - Pela sua cor. Agora você não tá mais escuro. E tem bolinha que brilha na testa.

KRYCEK: - ???

Krycek fica intrigado. Victoria sai da sala. Scully entra.

SCULLY: - Alex, obrigada por ficar com ela.Encontrei o Mulder, vai sair com o Frohike, levou o carro.

Krycek se levanta.

KRYCEK: - Ficar com ela é um aprendizado. Quer carona? Estamos indo pra mesma rua.

SCULLY: - Claro.

Os dois saem da sala de reuniões. Victoria pintando num papel, sentada à mesa de Mulder.

SCULLY: - Vamos mocinha, hora de ir pra casa, tio Tchek vai nos dar carona. Deixe o ET pra terminar amanhã.

Victoria solta os lápis sobre o papel e sai correndo porta à fora. Krycek e Scully saem.

Corta para a folha sobre a mesa de Mulder. No desenho do ET de Victoria, rabiscos infantis de um alienígena que se assemelha a um gafanhoto com uma cauda de escorpião saindo por entre a fumaça de uma fenda no chão.

Corte.



[Introdução da música: Era – Don't go Away]

"O quinto anjo tocou a sua trombeta,e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; efoi-lhe dada a chave do poço do abismo.E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço,como fumaça de uma grande fornalha;e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar".


Corte do som.


Houston – Texas – 1:21 A.M.

Alguns homens trabalhando nos computadores. Três engenheiros sentados, que observam os equipamentos. Um deles se levanta.

CLARK: - Alguém aí quer café?

STEVEN: - Passo.

JAMES: - Com creme e açúcar.

Clark sai da sala. Os outros dois continuam parados, observando as telas dos computadores. James cochila. Steven meio dormindo.

RÁDIO (OFF): - Kronus II chamando Houston... Kronus II chamando Houston.

James acorda-se num sobressalto. Pega os fones.

JAMES: - Aqui é Houston. Fale Kronus II.

RÁDIO (OFF): - Estamos com um problema.

Steven olha com receio para James.

JAMES: - Qual o problema Kronus II?

RÁDIO (OFF): - Há cerca de dez minutos estamos sendo monitorados por alguma coisa.

JAMES: - Repita, Kronus II.

RÁDIO (OFF): - Estamos sendo monitorados por alguma coisa.

JAMES: - Seja mais específico.

RÁDIO (OFF): - Há alguma coisa aqui conosco, Houston.

JAMES: - (SORRI) Como assim?

RÁDIO (OFF): - Há alguma coisa que está navegando ao nosso redor.

JAMES: - Algum satélite? Lixo espacial?

RÁDIO (OFF): - Sei que vai parecer estranho Houston, mas parece um... Corpo celeste. Os russos também estão vendo.

James e Steven se entreolham curiosos.

JAMES: - Corpo celeste? Kronus II vocês estão tempo demais aí em cima. Estrelas e meteoros não ficam girando ao redor de uma nave. Podem ser restos de algum satélite que está refletindo a luz em meio a poeira radioativa.

RÁDIO (OFF): - Não é bem uma estrela, Houston... Não tem brilho. É opaco, parece... Parece uma bola líquida.

JAMES: - Não detectamos nada em nossos satélites...

RÁDIO (OFF): - Estou dizendo, a tripulação está com medo. Essa coisa está navegando ao nosso redor como se estivesse nos estudando... Está fazendo o mesmo com os russos.

JAMES: - De que tamanho é isso, Kronus II?

RÁDIO (OFF): - ...

JAMES: - Kronus II?

RÁDIO (OFF): - Oh meu Deus... Está se aproximando mais...

JAMES: - Kronus II responda! Quais as dimensões do objeto?

RÁDIO (OFF): - É... É enorme e... Houston está se afastando...

JAMES: - Estão bem?

RÁDIO (OFF): - Houston... Está indo em direção à Terra.

[Som: Era – The Mass]

Clark entra na sala. James começa a suar nervoso.

CLARK: - O que...

STEVEN: - Psiu!

JAMES: - Kronus II repita o que disse.

RÁDIO (OFF): - Está indo em direção à Terra. É enorme. Eu diria que é bem maior do que a lua... Nunca vi isso na vida! ... Ah meu Deus, está voltando pra nós... Houston, pelo amor de Deus, precisamos sair daqui!!!

JAMES: - Kronus II ...

RÁDIO (OFF): - É rápido demais... Está pulsando como uma bolha viva... Meu Deus! São duas! São duas!!!!!!!!!

[Interferência]

JAMES: - Kronus II aqui é Houston, responda.

[Interferência]

JAMES: - Kronus II, responda!... Kronus II está me ouvindo? Aqui é Houston...

O relógio na parede muda o horário digital para 1:21. Apaga-se. Os equipamentos desligam. As luzes também. Os engenheiros entram em pânico. Acionam o gerador de emergência. Não funciona. James caminha até a janela. Deixa a xícara cair ao chão.

A lua cheia, aos poucos, vai sendo coberta por uma sombra, como um eclipse.

Corte.


[Acentuação da música]

Panorâmica da estação espacial. Completamente escura.

Recuo da imagem para o estado do Texas. Completamente escuro.

Recuo da imagem para o país. Escuridão completa.

Recuo da imagem para o planeta Terra. Nenhuma luz sobre ele. Apenas as duas esferas opacas que cobrem o sol e a lua.



BLOCO 3:

Residência dos Mulder – 1:27 A.M.

Scully e Mulder dormem, ele agarrado nela. A porta do quarto é empurrada. Victoria entra, numa camisola de ursinhos e pés no chão. Sobe na cama. Mulder se acorda.

MULDER: -(SONOLENTO) O que foi Pinguinho?

VICTORIA: - Tô com medo, papai.

MULDER: - Sonhos maus?

Victoria afirma com a cabeça.

MULDER: - Quer que o papai conte uma historinha?

VICTORIA: - Posso dormir aqui?

Victoria vai indo pro meio deles. Scully dormindo, vira-se pro lado de Mulder. Mulder solta Scully. Victoria deita entre os dois. Mulder a cobre. Fecha os olhos.

MULDER: - Não precisa ter medo de nada. Papai tá aqui.

Victoria se aninha contra Mulder, colocando o braço dele por cima dela.


6:56 A.M.

Scully desce as escadas num robe, bocejando. Caminha até a cozinha. A água escorre da geladeira.

SCULLY: - Ah não! Que droga!

Scully leva a mão ao interruptor de luz. Não acende.

SCULLY: - Ótimo! Sem luz e sem cafeteira e por consequência, sem fogão e sem café. Por que fui trocar o bom e velho fogão a gás por essa porcaria elétrica?

Mulder entra na cozinha, vestido de calças jeans e um blusão.

MULDER: - O que faz no escuro?

SCULLY: - Sem luz. Mulder, o que você faz acordado a essa hora?

MULDER: - (SORRI) Scully, são quase sete da manhã!

SCULLY: - (ARREGALA OS OLHOS) Está escuro, pensei que era madrugada!

MULDER: - Vou ligar pra companhia elétrica.

Mulder pega o telefone. Mudo.

MULDER: - E sem telefone. Scully, vá colocar uma roupa. Vamos embora, tomamos café no escritório.

Scully sai da cozinha. Mulder vai pra sala. Abre a porta da frente. Sai. Procura o jornal pelo jardim, não encontra. Olha para o céu. Apenas o contorno do sol como num eclipse. Os raios solares estão bloqueados e a luz não atinge a Terra.

Corte.


Na garagem, Mulder abre o carro. Scully entra. Mulder liga o carro. Não funciona. Mulder tenta novamente. Nada. Scully olha pra ele, numa fisionomia de questionamento. Mulder pega o celular. Sem linha. Os dois se interrogam.

SCULLY: - Acha que devemos voltar pra cama e acordar do pesadelo? Mulder, ainda está escuro!

MULDER: - Sem luz, sem telefones, sem carro, um eclipse solar que nem eu sabia que haveria... Não acha estranho isso?

Scully desce do carro. Mulder também. Os dois saem pra fora da garagem. Mulder olha para o relógio.

MULDER: - Scully, são 7:36 da manhã! Mas que eclipse é esse que não termina?

Mulder e Scully olham pra cima.

SCULLY: -(ASSUSTADA) Mulder... Acho que tem alguma coisa errada por aqui.


7:47 A.M.

Krycek abre a porta da frente, com a cara amassada de sono. Mulder nervoso.

KRYCEK: - Mulder? O que houve?

MULDER: - Já deu uma olhadinha na rua?

Krycek sai pra fora. Olha pro céu escuro. Olha para os vizinhos em frente as casas, assustados e trocando informações.

KRYCEK: - Um eclipse? Que horas são?

MULDER: -Quase oito da manhã e não tem eclipse, mas tem alguma coisa acontecendo. Fica esperto. Qualquer coisa, desce pro porão, entendeu?

KRYCEK: - (ASSUSTADO) Mulder, acha que...

MULDER: - Não, não acho e nem você ache nada. Só fica em casa com sua mulher. As pessoas vão começar a entrar em pânico. Eu vou descobrir o que está acontecendo.

KRYCEK: - Me liga quando souber.

MULDER: - Nenhum telefone funciona. Nem luz. Nem internet. Não tem como se comunicar. E a água certamente vai acabar também.

Krycek fecha os olhos.

KRYCEK: - Maldita hora que me desfiz das minhas armas! Mas tenho munição escondida pra uma guerra, caso precise. Só que aquelas coisas, Mulder, elas não morrem com balas!

MULDER: - Rato, me escuta. Eu sei o que falou, mas não sabemos se Coin está por trás disso. Não vi nada sinistro tipo sombras atacando pessoas.Se acha que vai ficar mais seguro na luz, pegue lanternas. Mas não saia de casa. Eu vou pedalar hoje, mas não pra fazer exercícios. Vou até Washington saber alguma coisa do Skinner. Ele já deve estar a par do que tá acontecendo.

KRYCEK: - Quer que eu vá com você?

MULDER: - Não, cuide das mulheres. Fico mais tranquilo. Você tem munição. Eu temo que as pessoas enlouqueçam, entendeu? Scully já destrancou o porão. Caso precisem se comunicar ou fugir, sabe como atravessar a rua.

KRYCEK: - Vou fazer o mesmo.Toma cuidado, Mulder. Leva sua arma. Precisa de munição?

MULDER: -Não. Meu porão também tá cheio delas.


Girassol & Canela Cafe - Washington D.C. – 9:49 A.M.

Ellen serve a mesa. Skinner caminha de um lado para o outro, sonolento. Mulder sentado na cadeira.

MULDER: - Skinner, as pessoas estão indo a pé ou de bicicleta para o trabalho. Não estamos no Canadá, mas a polícia está andando a cavalo. Ônibus e carros parados no meio da rua. Uma confusão dos diabos.

ELLEN: - Mulder, tome um café. Aproveita que está quentinho.

MULDER: - Obrigado, Ellen.

SKINNER: - Saí a pé no meio da madrugada até a Casa Branca.

MULDER: - Que diabos está havendo?

SKINNER: - Apenas especulações, não temos como saber ainda. Carros, ônibus, metrô, helicóptero, avião, nada sai do lugar... Sabemos disso pela boca das pessoas. Estamos sem meios de transporte. E também nenhum sistema de comunicação funciona em todo o país e acredito que em todo o mundo. Nem vídeo-conferência, fax, telefones, internet...

MULDER: - Nem mesmo telégrafo?

SKINNER: - Nem código morse. Falam em atentado terrorista. Só se os terroristas conseguiram apagar o sol e a lua! Mulder, precisa acontecer alguma merda pro governo descobrir sempre que deixou furos em alguma coisa? Precisou haver o 11 de setembro para descobrirem que precisavam de mais segurança em aeroportos. Agora aconteceu isso para descobrirem que não temos meios de nos comunicar entre as instituições governamentais nem pra saber o que está acontecendo!

MULDER: - E os satélites devem ter sido destruídos.

SKINNER: - Possivelmente. Como foram as usinas elétricas e refinarias de combustível. Não temos comunicação, nem qualquer tipo de energia, incluindo a solar, pois aquela coisa lá em cima está bloqueando os raios solares. Ou seja: não podemos saber o que está havendo e nem temos como sair daqui.

MULDER: -(TENSO) O mundo inteiro parou.

SKINNER: - O que sabemos é que há algum tipo de interferência radiônica. Nem rádios a pilha e baterias de carro e celulares funcionam. Os laboratórios meteorológicos estão em silêncio.

MULDER: - E a NASA? Sabem alguma coisa?

SKINNER: -Um cara da NASA veio ao FBI e disse apenas: "Isto era sabido que aconteceria, é apenas o planeta Vênus, que faz essa órbita 'repentina' a cada 10 bilhões de anos"...

Mulder abaixa a cabeça, indignado. Skinner olha pela janela.

SKINNER: - Começou a bagunça. As pessoas estão fugindo com medo. Sabe me dizer o que é aquilo lá em cima, Mulder?

MULDER: - Não é Vênus. Nem é um eclipse. Seja o que for, não é daqui.

SKINNER: - Como assim? Acredita que seja algum artefato...

MULDER: - É uma nave, Skinner. Não posso afirmar com certeza, mas aquilo é uma nave. E o que me preocupa é o que faz tão próxima de nós... Bloqueando a vida sobre a Terra. Se ficar muito tempo lá em cima, também vamos ficar sem comida e sem ar respirável. Vai afetar as plantas e com isso todos os seres vivos.

Mulder caminha até a porta.

SKINNER: - Aonde vai?

MULDER: - Buscar ajuda. Pra segurança de vocês, fiquem em casa. Tranquem as portas. As pessoas vão começar a enlouquecer, depredar e saquear.

SKINNER: - E não temos agentes pra ajudar a polícia, porque nenhum deles consegue chegar ao Bureau. Com exceção de quem mora perto e veio trabalhar a pé.

MULDER: - Nem a polícia vai ter homens o suficiente pra isso. Poucos conseguem chegar ao trabalho. Skinner, se a coisa ferver, pega uma bicicleta, coloca a Ellen e foge pra minha casa. Entendeu?

SKINNER: - Ok, Mulder. Espero realmente que não seja o fim do mundo.

MULDER: - Se for, não tendo zumbis já é lucro!

Skinner olha incrédulo pra Mulder, que sai rindo.

SKINNER: - Impressionante! Queria ter o senso de humor dele!


Pistoleiros Solitários – 10:37 A.M.

Byers sentado na cadeira, vira-se para Mulder.

BYERS: - Eram 1:27 da manhã quando as comunicações foram cortadas. Exatamente à 1:21 pegamos o sinal dessa coisa e a transmissão da estação espacial americana. Quer ler?

Langly entrega uma folha.

LANGLY: - A partir daí não transmitiram mais nada. As comunicações todas foram cortadas. Os telefones ficaram mudos, a conexão caiu, as luzes apagaram.

BYERS: - Mas... Enquanto Frohike captava a transmissão...

LANGLY: - Eu e Byers entramos num satélite da NASA e captamos essa imagem. Imprimimos tudo o que pudemos.

Langly entrega a foto. Mulder observa atento.

LANGLY: - O que procura aí, Mulder?

MULDER: - O culpado por estarmos na escuridão e isolados.

BYERS: - A imagem do satélite está meio borrada. Isso parece uma bolha enorme.

Mulder coloca a foto sobre a mesa e aponta alguma coisa.

MULDER: - Observem aqui... Percebem que há uma parte fosca?

LANGLY: - Onde?

FROHIKE: - (AJEITANDO OS ÓCULOS) Sim, uma pequena parte fosca.

MULDER: - Isso é metálico.

LANGLY: - Metálico?

FROHIKE: - Mulder, não está nos dizendo que essa bolha é uma nave!

MULDER: - Não. Não é uma nave. Não tem tamanho pra ser uma nave.

LANGLY: - O que é então?

MULDER: - A nave mãe... O que me preocupa é qual a civilização que está dentro dela.

Os três observam Mulder de olhos arregalados. Mulder pega a cópia e sai rapidamente, batendo a porta.

LANGLY: - Ele quis dizer que isso é uma nave? Eu ouvi direito? Os Marcianos vão invadir a Terra?

FROHIKE: - Langly, já tomou o seu Prozac hoje? Marcianos não existem!!!


Residência dos Mulder – 12:51 P.M.

Scully analisa as fotos. Mulder procura alguma coisa na gaveta da cozinha.

SCULLY: - Mulder... Posso ser uma mulher comum, como todas?

MULDER: - Como assim, Scully?

SCULLY: - ... Tô com medo, Mulder. Estamos sem alarmes, sem comunicação, e mesmo sem o Sindicato, eu temo pela nossa filha. Nossas armas não vão nos defender daqueles anjos. Acho que vou pegar algumas coisas com a Baba e depois vamos pro porão.

Batidas na porta da frente. Os dois se entreolham.

SCULLY: - Não é o Krycek nem a Barbara. Eles nunca batem na porta da frente.

Mulder puxa a arma da cintura. Caminha até a porta da sala. Espia pelo olho mágico. Dois homens de terno parados. Mulder abre a porta. Scully se aproxima, segurando sua arma escondida nas costas.

HOMEM #1: - Fox Mulder, queira nos acompanhar.

MULDER: - Quem são vocês?

O Homem #2 abre o casaco e retira um maço de cigarros Morley, mostrando pra Mulder. Scully olha pra Mulder, com medo.

MULDER: - E como vamos sair daqui?

HOMEM #2: - Já andou de charrete alguma vez?

MULDER: - Legal. Voltamos ao velho Oeste. Só espero que não atirem nos índios no meio do caminho!


Local Ignorado - 1:36 P.M.

Um velho depósito de munição abandonado. Cercas de arame farpado enferrujado e um velho portão com a placa: Property of U.S.A. ARMY.

Mulder caminha entre os dois homens, entrando no depósito vazio. Os três caminham descendo algumas escadas.

MULDER: - Onde estamos?

HOMEM #1: - Uma antiga base militar americana. Evacuada em 1984 após o fracasso das experiências da vacina.

Corte.


O Homem #2 retira um cartão do bolso e passa na porta de leitor óptico. A porta se abre.

HOMEM #2: - Aqui estamos à prova da energia das ondas deles sobre a Terra.

MULDER: - Então sabem o que está acontecendo.

A caverna escura, iluminada por lâmpadas espalhadas pelas paredes. Mulder observa, receoso. Eles avançam até uma escada. O Homem #1 desce na frente. O Homem #2 empurra Mulder.

Corte.


Eles seguem pelo corredor da caverna. A porta de metal encravada na rocha. O Homem #1 retira um cartão e passa no leitor óptico. A porta se abre revelando uma sala aconchegante. Eles empurram Mulder pra dentro, fechando a porta. Mulder tenta abrir a porta, mas não há fechadura.

CANCEROSO: - Relaxe. Está em boas mãos.

Mulder vira-se rapidamente. Vê o Canceroso fumando um cigarro, sentado numa poltrona. Garganta Profunda serve três uísques.

MULDER: - (SORRI) Você está vivo!

GARGANTA PROFUNDA: - Brindemos a isso, agente Mulder. Vivo, mas fadado a viver escondido pelo resto da vida.

MULDER: - Ex-agente... Não trabalho mais no FBI.

GARGANTA PROFUNDA: - Todos precisamos nos aposentar um dia. Pena que homens como nós não possam escolher nem quando e nem como.

CANCEROSO: - Somos os dois últimos que restam. Todos os outros estão mortos.

MULDER: - Quero saber o que está acontecendo.

A porta se abre. Dois homens empurram Krycek pra dentro da sala. Krycek assustado, tenta entender o que está havendo.

KRYCEK: - O que querem comigo? (OLHA PRA MULDER) Mulder?

Garganta Profunda entrega um copo pra Mulder e outro pra Krycek. Pega um pra si e senta-se no sofá.

GARGANTA PROFUNDA: - Senhores, temos coisas a dizer. Por favor, sentem-se. A conversa será longa. Estamos do mesmo lado.

KRYCEK: - (IRRITADO) Ah, não estamos mesmo! Da onde você surgiu? Disseram que estava morto! Quem me garante que é você mesmo e não uma daquelas coisas demoníacas?

MULDER: - Primeiramente por que nos trouxeram até aqui? Que lugar é esse?

GARGANTA PROFUNDA: - Moro aqui. É bom, seguro e confortável. Resiste a qualquer ataque alienígena ou humano.

O Canceroso se levanta, soprando a fumaça no ar. Gira a estatueta sobre uma mesinha, brincando com ela.

KRYCEK: - (SORRI) Estão com medo, não é? Agora vocês dois são fugitivos desde que o Moeda começou a dar as cartas no jogo.

GARGANTA PROFUNDA: - Na verdade não. Na verdade, ele sempre deu as cartas. Spender e eu custamos a entender o preço dessas cartas e a saber quem ele era. Logicamente estão aqui porque sabem quem ele é. O tempo passa, ele não envelhece. Está com a mesma aparência que tinha há 50 anos atrás.

KRYCEK: - E vocês estão sós. Da minha faxina escapou apenas Diana Fowley e o Carter.

MULDER: - É, sabem como é. A Maga Patológica e o Madame Min sempre se escapam.

CANCEROSO: - Ninguém sabe aonde Diana Fowley está. Coin deve estar protegendo-a.

MULDER: - Há uma nave sobre a Terra. Uma nave alienígena. Eu quero saber o que sabem sobre isso.

GARGANTA PROFUNDA: -Na verdade há duas naves alienígenas. Uma encobrindo o sol e outra a lua.

CANCEROSO: -É outra raça. Talvez queiram apenas nos observar.

KRYCEK: - Mais outra raça? Não poderiam ser mais discretos?

MULDER: - Se quisessem nos observar, teriam entrado em contato. Seriam captados pelos radares. Não sabiam da aproximação deles?

CANCEROSO: - Sabíamos que aconteceria, mas não quando. E não havia como impedir. Nem o Projeto Guerra nas Estrelas poderia fazer isso agora. Fracasso total.

MULDER: - Isso é sério? Vocês realmente tem defesas lá em cima?

GARGANTA PROFUNDA: - Defesas que vão além do que pensa, senhor Mulder. Mas ficaram inoperantes, nossa tecnologia não é páreo pra muitas raças. Precisamos de fontes de energia alternativas, que alguns deles conhecem, mas ainda não dividiram esses segredos conosco.

MULDER: -E se não for o que estamos pensando? E se não estão conseguindo entrar em contato? Talvez estejam apenas com medo da nossa reação, já chegaram na defensiva...

KRYCEK: - Isso é absurdo, Mulder! Uma civilização suficientemente inteligente para construir uma nave desse porte com tamanha tecnologia seria também altamente desenvolvida na comunicação. Eu não vou visitar você metendo o pé na sua porta. Foi isso o que eles fizeram!

MULDER: - E quem vocês pensam que é?

CANCEROSO: - ...Gafanhotos.

KRYCEK: - Gafanhotos? (RI) Essa não!

GARGANTA PROFUNDA: - Se forem os Gafanhotos não sabemos que tipo de armas possuem.

MULDER: - Mas como sabem desses Gafanhotos?

CANCEROSO: - Deveria ter lido mais vezes o Apocalipse, Mulder. O quinto 'anjo' tocou sua trombeta.

Mulder e Krycek se entreolham, nervosos. Mulder empina o copo. Senta-se no sofá. O Canceroso apaga o cigarro.

CANCEROSO: - Por isso eu os trouxe aqui. O que está lá em cima está sob as ordens de Coin. Ele planeja fazer algo contra o mundo. Se acha que sou um mentiroso, não conhece o que ele pode fazer em nome da mentira para sair de herói e conquistar a simpatia das pessoas... Estamos no Purgatório, Mulder. Cada escolha não é mais uma opção... Precisamos de ajuda.

KRYCEK: - Quem diria que eu ficaria vivo pra ouvir isso!

Mulder levanta-se.

MULDER: - Os Greys, que chamamos de cientistas, queriam invadir a Terra, usando pra isso os que vocês chamam de aliens do óleo negro. A intenção dos Greys era material de estudo. Ofereciam proteção e colaboração no desenvolvimento de tecnologias.

GARGANTA PROFUNDA: - Exatamente.

MULDER: - Os Greys usaram o óleo negro para nos dominar, pois já conheciam a espécie, mas nem eles tinham imunidade. Esta espécie alienígena habitava determinado planeta fora do nosso sistema solar. Com a destruição do planeta, milhões de partículas materiais voaram pelo universo carregando essa forma líquida de vida, que habitava rochas. São predadores universais. Onde caem, devastam a civilização atingida. Mas como os Greys chegaram até a Terra?

CANCEROSO: - Especulamos, mas não temos certeza. O que sabemos é que não foi em 1947, com a queda da nave em Roswell. Isso apenas serviu para eles exporem sua existência aos humanos. Eles já nos visitavam antes disso. Acredito que tenham vindo a convite de Coin, ainda nos primórdios da civilização. A raça dos anjos exilados, a que Coin chefia, já estava aqui bem antes do óleo negro, bem ante dos Greys, bem antes de tudo. Foram jogados aqui como castigo. Nosso planeta era uma colônia experimental. Que passou a ser também uma colônia penal.

KRYCEK: - E nós fomos jogados aqui pra quê?

GARGANTA PROFUNDA: - Não fomos jogados, senhor Krycek. Fomos criados. Experiência genética de D.E.U.S. Adão 1, Adão 2, Liliths, Evas, assim por diante...

CANCEROSO: - A sexta extinção será o início de um novo ciclo, como todas as outras extinções. Só sobrevivem as experiências que apresentam bons resultados. Fomos uma experiência que se apresentou próspera. Como outros povos, em outros planetas. Por isso a necessidade de nos polirem até ficarmos o melhor possível.

MULDER: - Ok. Então, com o passar dos anos, a civilização D.E.U.S. vai destruindo as civilizações da Terra, conforme a necessidade de uma evolução... É isso o que pensam? O que é D.E.U.S?

CANCEROSO: - Dominus Erbus Umquam Scintilla. Pode interpretar isso como Senhor do Despertar Eterno da Centelha. Ou criador.

MULDER: - Eu sempre acreditei que a teoria da evolução de Darwin era besteira. Se Scully ouvisse isso, ia rolar no chão!

KRYCEK: - Não... Eu não concordo com isso. Eu não posso acreditar nisso.

GARGANTA PROFUNDA: - O dilúvio de Noé. Atlântida. Ilha da Páscoa. O que não apresenta resultado satisfatório é varrido daqui sem deixar pistas, bem como os que apresentam bons resultados também são levados... É o que chamamos de 'enigmas das civilizações perdidas' ou 'abduções em massa', senhor Mulder. A tradução latina mal feita de 'arrebatamento divino', nada mais é do que a leva final das experiências bem sucedidas.

KRYCEK: - Besteira! Mulder, você não pode acreditar nisso! Nem eles sabem a verdade! Como disseram, são especulações!

MULDER: - Mas são boas especulações! Estamos beirando a nova extinção. E ela está vindo por eles, por D.E.U.S?

CANCEROSO: - Como todas as outras.

MULDER: - Os cinzas não têm imunologia ao vírus do óleo negro.

KRYCEK: - A experiência fugiu ao controle deles. E Mulder conseguiu numa só tacada destruir os planos dos Greys usando a própria arma deles e imunizando grande parte dos humanos.

MULDER: -Por que vocês entraram nessa história toda sobre o óleo negro?

O Canceroso acende um cigarro. Sopra a fumaça nervoso. Mulder acena negativamente a cabeça.

MULDER: - Não, vocês não estão pensando em atacar aqueles gafanhotos lá em cima com óleo negro!!!!!

GARGANTA PROFUNDA: - Nem eu e nem Spender pensamos nisso. Mas Coin planeja atacar.

KRYCEK: - Deixa ver se eu entendi agora. Ele chamou aquelas coisas para depois as destruir. É isso? Não faz sentido!

MULDER: - Ele quer dar uma de herói. Está forjando um ataque falso para conseguir respeito e admiração dos humanos.Maldito desgraçado mentiroso e enganador! Vai levar milhares de pessoas no discurso dele!

KRYCEK: - Vocês não tem a vacina mutada. Eles mutam rapidamente e a vacina que vocês têm não faz mais efeito. Apenas a vacina de Mulder, feita com os anticorpos naturais de Victoria. Isso é loucura!

GARGANTA PROFUNDA: - Senhores, eu não disse a verdade ao Spender na época. Eu vi o que Mulder estava fazendo, mantendo sua mulher escondida numa casa para terem um filho.

Mulder arregala os olhos.

GARGANTA PROFUNDA: - É, eu sabia. O segui e o vi com a agente Scully. E achei melhor ficar calado, senhor Mulder. Desconfiei que você tentaria uma vacina. Ninguém melhor que você faria isso de modo a não machucar ninguém. Eu me encarreguei pessoalmente de observar você. Acha que de outra sorte, você teria ficado oculto, usando um laboratório do governo para fabricar a vacina pelas mãos de Scully e Susanne Modeski? Eu sabia o tempo todo que vocês estavam inoculando pessoas com um retrovírus tirado do DNA de sua filha, usando pra isso corantes alimentícios.

MULDER: - Por que não me dedurou ao Sindicato? Eu estava trabalhando pra vocês e mentindo!

GARGANTA PROFUNDA: - Lembra da nossa primeira lição? Não confie em ninguém. Eu ainda não sabia de que lado Spender ficaria, se do meu ou de Strughold. Eu não arriscaria. Isso servia ao nosso propósito. Caso este dia chegasse, os seres humanos estariam em grande parte imunizados ao óleo, caso alguém acionasse a bomba negra biológica contra uma raça nova. Coin não está preocupado com nenhum humano. Não importa quem morra desde que ele ganhe esta batalha e a guerra final. Não espere ajuda de nenhuma raça. Conte apenas com a nossa.

MULDER: -D.E.U.S. nos largou à própria sorte? Está nos observando pra ver se nos saímos bem de uma guerra interplanetária? Que somos apenas uma experiência? Esta é a verdade de todas as verdades? Ele nos testa para sermos dignos de ser levados a seu planeta?

Eles se calam. Mulder fica olhando pra eles incrédulo. Sorri nervoso. Passa as mãos nos cabelos.

GARGANTA PROFUNDA: - Agora entende o porquê do sigilo absoluto sobre inteligência extra-terrestre? Por que existe um consórcio, onde governos e o Vaticano guardam esta verdade a sete chaves?

MULDER: - ... Quanto mais eu penso em revelar a mentira, mais apavorado eu fico com a verdade.

KRYCEK: - Cada enxadada, uma minhoca!

GARGANTA PROFUNDA: - Diga agora na televisão. Vão chamá-lo de louco. Ou pegue uma das naves ou seres que temos e exponha ao mundo, Mulder. Diga ao mundo que Deus não se importa conosco. Mostre pra eles quem é Deus. Veja as religiões se desmoronando, as pessoas em pânico, as bolsas mundiais despencando como frutas maduras diante de uma tecnologia mais avançada que a de Bill Gates. Esse é o caos, Mulder. Por isso a verdade deve ser escondida para o próprio bem da humanidade.

MULDER: - Mas acham justo que o mundo não saiba disso? E se eles vierem e destruírem tudo? Não estarão dando chance das pessoas se defenderem, porque elas não sabem nem o que está acontecendo!

GARGANTA PROFUNDA: - Mulder... Elas têm o Apocalipse. O tempo está chegando. E quando chegar, eles pensarão nas palavras figurativas da Bíblia. Deixe-os morrer em paz na sua crença. São os planos de D.E.U.S. The Gold Coin vai fazer tudo que está escrito nas profecias. É o quinto selo.

Mulder senta-se. Em seu rosto a fisionomia do pavor. Ele abaixa a cabeça, colocando as mãos no rosto. Krycek senta-se, olhar perdido no nada.

MULDER: - O que vocês pretendem fazer?

CANCEROSO: - Nada pode ser feito. Se aquela nave lá em cima for o que pensamos, ele vai reagir com bombas negras. Temos medo que ele consiga impedir os planos do criador humano, e com isso traga um poderio maior de fogo contra a Terra por parte dos exércitos de D.E.U.S. Se essa raça conseguiu criar seres como nós, imagine a tecnologia de destruição que tem.

KRYCEK: - Se a hora da faxina começou, nenhum de nós vai conseguir parar o aspirador de pó.

MULDER: - Um soldado alienígena me disse pra pensar com o coração. E eu não vou questioná-lo. Talvez as armas que vocês entendam como tecnológicas sejam as mais primitivas e as que funcionam melhor. E talvez as verdades que vocês acham deter sejam apenas fábulas. E se querem saber... Acho que nem vocês sabem a verdade. Eu sei mais do que vocês.

A porta se abre.

MULDER: - A guerra é entre eles e não conosco. Somos o alvo da disputa e por isso mesmo acredito que valemos alguma coisa na moeda interplanetária. Somos uma raça que tem defeitos, mas que também tem muitas virtudes. Não fomos criados pra ser uma experiência! Eu poderia defender essa ideia há anos atrás, mas hoje... Hoje não. Eu tenho a certeza de que fomos criados pra alguma coisa, mas não para sermos macacos ou ratos de laboratório.

Krycek olha com surpresa pra Mulder.

MULDER: - Se os filmes de ficção científica falavam em "invasão da Terra", deveriam começar a se referir ao termo "disputa da Terra". A invasão já começou há muito tempo. Eles estão aqui, entre nós. Mas não da forma como imaginávamos.

CANCEROSO: - Mulder... Proteja sua filha. Sei que não confia em mim, mas eu posso mantê-la aqui com total segurança.

MULDER: - Eu sou pai dela. Protegê-la é a minha tarefa.

Mulder sai. Krycek sai atrás dele.

KRYCEK: - Mulder.

Mulder vira-se.

KRYCEK: - Eu não acredito neles. Eu acredito em você.

Mulder sorri.

Corte.


[Introdução da música: Era – Don't go Away]


"Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra.Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus.Foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem.E o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem".


Geral da cidade escura. O pânico instaurado, pessoas correndo assustadas. Outros saqueiam lojas. A polícia não consegue mais conter a multidão. O exército nas ruas.

Sinais de fogo surgem no céu formando rastros até a superfície da Terra. Sons de explosões. A terra treme. Pessoas sendo pisoteadas pelas outras, todos tentando fugir.


Residência dos Mulder – 7:33 P.M.

A sala iluminada por velas. Mulder sentado com Victoria em seu colo. Krycek anda de um lado pra outro, nervoso, algumas vezes espia pelas cortinas. Barbara sentada e cabisbaixa. Baba afaga a mão dela, a consolando. Scully sentada na poltrona, com a Bíblia aberta sobre as pernas.

SCULLY: - Escutem isso.

Eles se voltam pra ela.

SCULLY: -(LENDO) O quinto anjo tocou a sua trombeta, e vi uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha; e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar.

MULDER: - ... Abriu o poço do abismo... A morada dos demônios...

KRYCEK: -O início da Nova Era. Da Nova Ordem Mundial.

MULDER: - Aquela coisa lá em cima se apagou. Bloqueou o sol. O que vimos cair do céu como rastros de fogo foram as naves pequenas. Aterrissaram sobre a Terra.

SCULLY: -(LENDO) Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra.

MULDER: - Ferrões? Aquelas coisas têm ferrões?

SCULLY: -(LENDO) Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus. Foi-lhes permitido, não que os matassem, mas que por cinco meses os atormentassem. E o seu tormento era semelhante ao tormento do escorpião, quando fere o homem. Naqueles dias os homens buscarão a morte, e de modo algum a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles.

KRYCEK: - São os gafanhotos que os velhos falaram.

SCULLY: -(LENDO) A aparência dos gafanhotos era semelhante à de cavalos aparelhados para a guerra; e sobre as suas cabeças havia como que umas coroas semelhantes ao ouro; e os seus rostos eram como rostos de homens. Tinham cabelos como cabelos de mulheres, e os seus dentes eram como os de leões. Tinham couraças como couraças de ferro; e o ruído das suas asas era como o ruído de carros de muitos cavalos que correm ao combate. Tinham caudas com ferrões, semelhantes às caudas dos escorpiões; e nas suas caudas estava o seu poder para fazer dano aos homens por cinco meses.

Eles se entreolham.

MULDER: - Lembra-se do que o velhote Levi nos descreveu? Eles estavam aqui, Scully! Eles vieram antes pra fazer algo que não conseguimos descobrir a tempo!

SCULLY: -(LENDO) Tinham sobre si como rei o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom e em grego Apoliom.

MULDER: - Dois nomes que se traduzem num só: Lúcifer! (LARGA VICTORIA NO CHÃO) Droga!!!!! O Fumacinha tinha razão! Estão a mando do Coin!

Agora é Mulder quem anda de um lado pra outro. Victoria olha pra ele assustada.

MULDER: - Vamos pensar com a cabeça, ok? Esqueçam qualquer religiosidade cega agora.

SCULLY: - Mulder, agora é que precisamos pensar com o coração, com a alma. Não estou dizendo para ficarmos desesperados, é importante ver os fatos com os olhos da razão, mas não podemos levar isso como uma afronta!

KRYCEK: - Scully tem razão... E os velhos estavam certos nesse ponto. Os gafanhotos estão sendo liderados por Coin.

BABA: - E o que isso significa?

MULDER: - Que não vão destruir e matar. Só irão causar pânico e pavor. Mas o Moedinha vai lutar contra eles para mostrar que é 'bom'. Vai conquistar pessoas com isso e tomar seu lugar como defensor da Terra e um certo respeito sem questionamentos...

SCULLY: - Enfim o reinado dele. Cristãos serão perseguidos. Pessoas serão perseguidas por defenderem a palavra de Deus. O falso profeta que levará milhões a perdição. Numa mentira...

KRYCEK: - Chamada Nova Ordem... Ele vai reger o mundo. E quem for contra...

BARBARA: -Pagará o preço.

SCULLY: - Não devem temê-lo. Não temos que temer o que vem da escuridão. Mil poderão cair ao teu lado, e dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido. Esta é a promessa e eu acredito nela.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Deus, ou seja lá como vocês o chamam, tem seus propósitos. Mesmo que me digam que é uma civilização, que não é o Deus que eu aprendi na minha igreja, ele ainda continua sendo o meu Deus. E ele não vai deixar abandonados os que lutam a seu lado contra essa coisa de nome infame. Nenhum de vocês vai me convencer do contrário. Não podem mudar as escrituras sagradas.

KRYCEK: - Então o que faremos? Estamos vendo a merda toda acontecer!

SCULLY: - Vamos deixar que se cumpra o que Ele quer. Não podemos fazer nada. O que podemos fazer é apenas rezar, ou se preferem, admitir nossas fraquezas pedindo ajuda e proteção. Para nós mesmos e para os outros que amamos ou que odiamos. Somos todos iguais, todos do mesmo pó. Assim está escrito, não seremos nós que mudaremos a Palavra. Não chamo isso de resignação. Eu chamaria essa atitude de respeito e humildade diante das nossas limitações humanas. Se Deus quisesse impedir isso, Ele impediria. Se nos deixou avisados de que nada faria, é porque Ele sabe de algo que não sabemos.

Scully vai pra cozinha. Krycek olha pra Mulder.

KRYCEK: - Rezar? Eu nunca rezei, não é agora que vou salvar minha pele com rezas!

MULDER: - Entenda por rezar o ato de não fazer besteira.

KRYCEK: - ... Então tô morto!

BARBARA: - Vocês dois querem parar? Uma vez na vida podem ao menos dobrar a droga dos joelhos de vocês e esquecerem a porcaria da lógica? Vão lutar contra isso de que maneira, se nem o governo tem armas pra fazer isso? Acham que podem sair atirando em tudo? Temos limitações, somos humanos!

Barbara vai pra cozinha, irritada.

KRYCEK: - Você é um híbrido, Mulder. Um quase anjo. Como Victoria. Ele não vai ceifar sua espécie. Agora eu e os outros, nós somos humanos.

MULDER: - E quem me criou senão vocês? Ahn? E quem criou vocês? Não é mais fácil ele destruir o que vocês criaram do que o que ele criou?

Victoria olha para eles, faz beiço e vai pra cozinha. Baba vai atrás dela.

MULDER: - Impressão minha ou apenas sobrou os machos céticos na sala?

KRYCEK: -Mulder, continuo sendo macho, mas acho que vou pra cozinha.

Krycek vai pra cozinha. Mulder acena negativamente com a cabeça.

MULDER: - Até você me abandonou, "amorzinho"?


Nova Iorque – 9:15 P.M.

Escuro. Correria das pessoas pelas ruas sem ter pra onde ir.

Foco nas patas enormes e com serrilhas que emitem barulho andando pela rua.

Geral da mesma imagem em diversas capitais mundiais.

Pânico, terror e medo.




BLOCO 4:

Uma semana depois...

Residência dos Mulder – 9:34 A.M.

A vela acesa sobre a mesinha ao lado do sofá. Victoria sentada no colo de Scully.

SCULLY: - Então a princesinha beijou o sapinho feio. E ele virou um lindo príncipe.

VICTORIA: - Que nem o papai?

SCULLY: - Hum, seu pai nunca foi um sapo feio.

Victoria ri. Mulder desce as escadas e se aproxima, segurando a arma. Verifica a porta. Senta-se ao lado delas. Tenso. Angustiado.

MULDER: - Não quero blasfemar, mas é injusto! É injusto que não possamos fazer nada! Estamos trancados nessa casa há mais de uma semana!

SCULLY: - Sim é injusto. Muito injusto. Mas a pergunta que deveria fazer é: se não fosse assim, por acaso o mundo faria justiça?

MULDER: - Estou maluco! Aquele desgraçado está tomando o mundo debaixo dos olhos cegos da humanidade, eu sei disso, alguns sabem, mas não temos como impedir! Isso sim é o purgatório! Você sabe os pecados e quer consertá-los, mas não é a hora! Tem que ficar sentado esperando!

SCULLY: - Todos estamos nervosos, Mulder. Há alguma coisa lá fora que não sabemos o que é. Não temos pra onde correr, como fugir. Pessoas gritando, correria, violência...

VICTORIA: - Coisa? Que coisa?

SCULLY: - Nada filhinha. Nada. Mulder, por favor, pare com o assunto na frente dela.

MULDER: - Me desculpe. Eu nunca me senti tão impotente. Um maldito grão de areia! Um nada que nada pode fazer, a não ser ficar aqui sentado e esperar sabe-se lá o quê! Vão ficar cinco meses do tempo terreno ou do tempo deles? Ahn? Pelo menos temos um búnquer, com água e comida, mas sem luz por quanto tempo? Estão se matando lá fora há cinco dias! Não podemos saber de ninguém, não temos comunicação, nem energia e estou enlouquecendo!

SCULLY: - Acha que não estou preocupada? Penso na minha família e rezo por eles. Lembra-se do que o agente Mulder me dizia no porão do FBI?

MULDER: - ...

SCULLY: - Onde está a justiça? Por que é permitido matar e ferir os inocentes? Por que existe tanta maldade no mundo? Por isso mesmo, Mulder. Por isso mesmo, chegou a hora da justiça que nenhum governo fez, que nenhum órgão governamental faria e nenhuma religião. E ela está apenas começando. Coin vai conseguir seu intento. Mas a hora dele vai chegar.

MULDER: - Não está com medo, não é?

SCULLY: - Estou com pena das pessoas, mas não estou com medo. Eles não atacarão os que têm na fronte o selo de Deus. Nem que eu esteja na lista dessas coisas, eu não tenho medo. Estou em paz dentro de mim, agradecendo porque as coisas estão tomando um rumo. Justiça, Mulder. Essa palavra me mantém de pé.

MULDER: - ... Eu queria ver as coisas de um modo mais religioso como você vê. Mas tudo que vejo são aliens invadindo a Terra.

SCULLY: - Vá dormir um pouco. Você está cansado, Mulder.

Mulder se abraça nela e em Victoria.

MULDER: - Não quero dormir. Eu não sei o que vai haver, mas quando aquelas coisas entrarem aqui, que eu esteja do lado das pessoas que eu mais amo na minha vida.


11:14 P.M.

Mulder observa pela janela do quarto. A rua vazia. Nenhuma brisa, nenhum barulho. Uma mulher passa correndo aos gritos, com as mãos nas orelhas. Mulder abre a janela.

GABRIEL: - Feche isso. Não deve olhar.

A janela se fecha sozinha. Mulder vira-se. Gabriel sentado sobre a cômoda, segurando um trompete dourado.

MULDER: - Do que ela fugia?

GABRIEL: - Hum... De alguns bichinhos?

MULDER: - Bichinhos? Como pode ser tão debochado?

GABRIEL: - (LEVA O DEDO INDICADOR AOS LÁBIOS) Psiu! Você fala demais.

MULDER: - (IRRITADO) O que veio fazer aqui? Admirar a vingança do seu chefe? Sim, aquele mesmo que está sentado nesse momento em algum lugar, apenas observando a criação dele se danar! Pro inferno vocês! Tem gente lá fora morrendo! Aquelas coisas não matam, mas eles estão se matando entre si!

GABRIEL: - Se perguntou por quê? Mulder, meu humano estúpido e preferido, quem está se danando é quem procurou a danação. E isso não se refere a um monte de Danas.

MULDER: - ... Minha filha não para de chorar de medo!

GABRIEL: - Você tem a sorte que ela não tem... Ela escuta.

MULDER: - Escuta o quê?

GABRIEL: - O barulho que os gafanhotos fazem. É irritante, acredite.

MULDER: - E por que eu não escuto? Por que Scully não escuta?

GABRIEL: - Ah! A pergunta do milhão. Pense, Mulder. Pense.

MULDER: - Nunca dá respostas...

GABRIEL: - (IMPACIENTE) Porque vocês não têm que escutar! O barulho deles faz parte da tortura! Vê-los faz parte da tortura. Por isso você não enxerga essas coisas lá fora. Só enxerga quem tem que enxergar e quem tem sentidos mais apurados.

MULDER: - Eu? Mais pecador do que eu?

GABRIEL: - Revista pornô no carro não é pecado e nem fetiches sexuais nessa cama de casal.

MULDER: - Não está me dizendo que você fica bisbilhotando o meu quarto na calada da noite!

GABRIEL: - Quem sabe?

MULDER: - Como você pode trabalhar no exército desse cara? Não combina com você! O que quer de mim? Ahn? Aulas práticas sexuais, já que os anjos não tem sexo definido?

GABRIEL: - Apenas vim lembrá-lo que possui algo que me pertence. Guarde consigo até quando for no banheiro.

MULDER: - Mais enigmas... O que vai fazer com esse trompete?

GABRIEL: - (PISCA O OLHO) Tocar jazz?

MULDER: - ... Senso de humor negro!

GABRIEL: - Mulder, isso é apenas o começo do começo do fim. Não é o fim do mundo, ainda está longe disso. Ele vai sentar no poder, levar milhões com ele. Se não sabe a história, nós a deixamos escrita para quem gosta de ler.

MULDER: - E por que não impedem?

GABRIEL: - ... Pra quê? Quer saber? Não há espaço no céu pra tanta gente. Camelos no buraco da agulha. (PASSA O POLEGAR NO PESCOÇO SIMULANDO UM CORTE) Lotação esgotada. Escolha na ponta do dedo. Limpeza. Sem dilúvio dessa vez. Trigo e joio. Livre-arbítrio. Uma maçã podre estraga a caixa toda. Entendeu?

MULDER: - O que é a Nova Ordem?

GABRIEL: - O caos. Há muito tempo está aqui. Pode procurar indícios dela em coisas simples como um cartão de crédito ou a nota de um dólar.

Mulder se vira pra janela.

MULDER: - Não queria isso pra minha filha. Eu só fico angustiado desse jeito porque temo por ela. Eu não sei o que aquele desgraçado quer com Victoria e tenho medo de que tente se aproveitar da situação pra tomá-la de mim.

Mulder se vira. Gabriel sumiu. Mulder suspira.

MULDER: - Será que ele só sabe anunciar desgraça e não se presta nem pra ouvir um desabafo? Que anjo da guarda mais miserável que me designaram!

Victoria começa a berrar. Mulder puxa a arma. Desce as escadas correndo.

[Som: Era – The Mass]

Scully segura Victoria contra seu corpo, a embalando. Mulder olha para a filha, que apavorada olha pra porta aos gritos. Mulder engatilha a arma. A porta cai ao chão derrubada por algo invisível.

Victoria se agarra no pescoço de Scully. Mulder mira a arma na porta, mas nada vê. Fica parado, olhos atentos, sem se mover.

Imagem subjetiva. Vemos a silhueta em frames rápidos de algo movendo-se ao lado de Mulder. Move-se num impacto até Scully, deixando no ar reflexos do corpo, como se o tempo estivesse acelerado. O corpo, uma armadura negra de inseto gigante com nuances verdes.

Victoria arregala os olhos, abraçando Scully que permanece imóvel sem ver nada.

Mulder continua mirando na porta da sala.

Foco na cauda longa com um ferrão que passa pela porta da cozinha, deslizando como cobra. Victoria para de chorar. Mulder entende. Começa a rir de nervoso. Victoria em pânico agarrada em Scully. Mulder ri mais alto, histérico. Scully olha pra ele, derrubando lágrimas e rindo. Mulder se abraça nelas. Beija as duas.


Residência de Barbara Wallace - 11:20 P.M.

Barbara parada, catatônica, olhando pra porta da sala caída no chão. Krycek cai de joelhos, assustado.

Som da porta dos fundos caindo.

Barbara fecha os olhos. Solta a respiração. Olha pra Krycek.

BARBARA: - Fomos poupados...

Krycek cai sentado no chão. Começa a rir como louco. Barbara olha pra ele sem entender.

KRYCEK: - Bolinha que brilha na testa...

BARBARA: - ???

KRYCEK: - Ela sabia. Scullyzinha sabia! Sabia como aquelas coisas identificam quem tem que torturar! Só pode ser isso!

BARBARA: - Alex, não estou entendendo nada!

KRYCEK: - O selo de Deus! É uma bolinha na testa que brilha. Provavelmente algum tipo de energia que emitimos de acordo com nosso estado de espírito. Ela também falou da cor... Energia? Essa menina enxerga a energia das pessoas? Deve ser assim que Coin escolhe, ele também vê a cor da energia das pessoas. Quanto mais negra, mais ele pode se aproximar. Quanto mais clara, mais afastado ele fica. Não há religiosidade nisso, entende? É algo completamente científico! Eles são seres muito mais evoluídos que nós! Veem e ouvem coisas que talvez a gente não consiga por nossas limitações genéticas!

BARBARA: - Tá falando de aura? De foto Kirlian?

KRYCEK: - Toda matéria tem energia, Malyshka. Existe energia positiva e negativa. Quando você está pra baixo, está negativo, quando está pra cima, positivo. Talvez essa coisa de fé que tanto falam é apenas uma maneira de estar pra cima, estar positivo, clarear a energia e permanecer em segurança. Por isso ter fé afasta o diabo! Mulder vai pirar com isso! Que civilização tão adiantada a ponto de saber essas coisas e ver essas coisas? Mulder tem razão, aqueles velhos não sabem mesmo a verdade!


06:31 P.M.

As duas naves espaciais com a sigla da NASA na plataforma de lançamento. A nave um é lançada. A nave dois em seguida. Cada uma para um lado do céu escuro. Homens do governo, NASA e exército observam. O General Willis, meia idade, num uniforme cheio de medalhas, parado ao lado de Coin.

GENERAL WILLIS: - Espero que funcione.

Coin brinca com a moeda, olhando para o céu. Abre um sorriso.

THE GOLD COIN: - Ninguém precisa saber que lançamos mísseis de "hidrogênio".

PRESIDENTE: - Espero que a decisão que tomamos tenha sido acertada.

GENERAL WILLIS: -Em 20 minutos saberemos.

PRESIDENTE: - Um antecessor meu disse o mesmo quando apertou o botão sobre Hiroshima e Nagasaki.

GENERAL WILLIS: -Funcionará, senhores. Nada resiste a bomba negra.

JAMES: - Mas eu não entendo. Essa bomba não precisa ser aceita por eles? Como vão conseguir que eles coloquem a praga dentro da nave?

GENERAL WILLIS: -Mandamos uma mensagem de rendição e um presente.

JAMES: - Mas como? Estamos sem comunicação! Eu nem entendo como conseguiram fazer o lançamento funcionar! E afinal, que praga existe nessa bomba?

GENERAL WILLIS: -Toda a Operação Cavalo de Troia é segredo do Pentágono.

O General Willis olha pra Coin. Os dois disfarçam um sorriso, olhando para o presidente.


Dois dias depois...

A TV ligada. Victoria assiste um desenho. Baba escorada na porta da cozinha, com preocupação, observa Mulder. Mulder sentado na sala, olhos cansados, olhando pra nota de um dólar em sua mão, como quem perdeu a fé.

MULDER: - A pirâmide ocultista maçônica... Acima do olho de Lúcifer está escrito em latim: Annuit Coeptis, que significa: "Ele tem favorecido nossos empreendimentos". "Novus Ordo Seclorum"... Nova Ordem Mundial.

Mulder amassa a nota e atira contra a parede. Olha pra TV desanimado.

TV (OFF): - Moeda corrente no mundo inteiro... O mundo quer você.

MULDER: - Visa, derivação da palavra visto que significa 'visão'. Estamos de olho em você.

TV (OFF): - Voltamos novamente com mais informações sobre o que as pessoas apelidaram de Armagedom. As comunicações estão restabelecidas desde a manhã de hoje... Informação de última hora: o governo americano e a agência espacial informarão em cadeia nacional sobre as causas e consequências desses acontecimentos.

PRESIDENTE (OFF): - Cidadãos dos Estados Unidos da América...

Scully sai da cozinha com uma vassoura. Presta atenção.

PRESIDENTE (OFF): - Nos últimos dias esta nação, bem como todas as nações do mundo, sofreram perdas irreparáveis... Quero ler oficialmente a nota que a NASA, a CIA, o Ministério da Defesa, a NSA, o Pentágono, a Casa Branca e a ONU elaboraram para elucidação desses eventos trágicos que assolaram o planeta.

Scully e Baba sentam-se no sofá.

MULDER: - (PERTURBADO) Pentágono... Cinco pontas... Pentagrama, símbolo do demônio.

Scully olha para ele.

PRESIDENTE (OFF): - Quero dizer que vocês poderão encontrar informações adicionais nos sites governamentais.

MULDER: - (PERTURBADO) W w w... Na numerologia caldeia a letra w é seis. Seiscentos e sessenta e seis, o número da besta.

Scully olha assustada pra Mulder.

PRESIDENTE (OFF): - A NASA mantém uma operação secreta chamada Peace, desde 1998, em colaboração com os países da ONU, utilizando para isto duas estações espaciais, a americana e a soviética. A missão do Peace é liberar no espaço contêineres de energia atômica bem como material bélico que este país e demais nações estão se desfazendo em nome do desarmamento nuclear. No dia 3 deste mês, a NASA avistou um satélite espião que desviou a órbita das estações espaciais americana e soviética. As duas estações colidiram no espaço provocando um efeito que, visto da Terra, parecia a interceptação do sol e da lua, liberando energia atômica dos contêineres, juntamente com poeira e detritos criando uma nuvem ao redor do planeta. O Pentágono admitiu que algum espião infiltrado roubou tecnologia de guerra para os grupos extremistas que lançaram mísseis em direção aos céus, emitindo microondas que afetaram todas as telecomunicações e transportes.

MULDER: - (RINDO) Sempre a culpa é do Oriente Médio... (PÂNICO) Será que é porque Jesus nasceu lá?

SCULLY: - Mulder, acalme sua paranoia!

PRESIDENTE (OFF): - De acordo com pesquisadores de diversos países, o gás liberado dessa radiação e de bombas químicas causa alucinação em algumas pessoas, que afirmam terem vistos criaturas estranhas andando pelas ruas. Isso é completamente normal, e pessoas que não foram afetadas não viram nada. Se você tem esses sintomas procure imediatamente o hospital mais próximo.

MULDER: - (PÕE AS MÃOS NO ROSTO) Impressionante!

PRESIDENTE (OFF): - Portanto, os efeitos catastróficos que vimos, foram causados por seres humanos. Por pessoas que ainda relutam a favor da paz, da democracia e dos direitos humanos. Eu quero declarar, em nome de Deus, que este país não tolerará nenhum tipo de ameaça contra a vida humana. Vamos nos erguer, reconstruir a nação americana e continuar lutando pela liberdade dos povos de todas as nações deste planeta. Seu país precisa de você, de voluntários nos centros de atendimento e informação. Peço a todos que agora se tranquilizem. O que a imprensa chama de Armagedom não foi o final do mundo. Mas o maior atentado da história da humanidade. Que Deus abençoe a América!

MULDER: - Deus??? (DESLIGA A TV) Mas é muito cinismo!!!!

SCULLY: - E tem gente que acredita.

BABA: - Se eu não soubesse de nada, a desculpa seria bem convincente.

Mulder sobe as escadas, indignado.

VICTORIA: - Que foi papai?

MULDER: - Gente mentirosa! Políticos mentirosos! Todo mundo é mentiroso!!! E depois, eu que sou paranoico!

Baba olha pra Scully.

BABA: - O pior de tudo não é vê-lo resmungar. É saber que ele tem razão.


Residência de Barbara Wallace - 5:47 P.M.

Barbara, no quarto, termina de passar batom. Krycek se aproxima, dá um beijo no rosto dela.

KRYCEK: - Não entendi até agora porque me dispensaram hoje, com tanto homicídio pra resolver... O que vai dizer na TV?

BARBARA: -Vou falar sobre a nota oficial do Armagedom. E vou questionar.

KRYCEK: - Segure sua língua, Malyshka. Fale, mas não arrume encrenca.

BARBARA: - E dá pra não arrumar encrenca quando se questiona a verdade?

KRYCEK: - Scully tem razão. Tô noivo do Mulder de saias!

Barbara começa a rir. Krycek ri com ela. O celular toca. Krycek coloca a mão no bolso.

KRYCEK: - Não é o meu.

Barbara olha para o criado mudo. O celular de Rockfell carregando na tomada e tocando. Os dois se entreolham.

KRYCEK: - Eu não disse pra destruir esse telefone? Por que...

Barbara sinaliza pra ele se calar. Atende o telefone, sem falar nada.

GENERAL WILLIS (OFF): - Rockfell, é o General Willis. Reunião da Ordem hoje.

Willis desliga. Barbara olha para o visor: GWO13. Barbara sorri. Krycek olha ansioso pra ela.

KRYCEK: - Então?

BARBARA: - Confirmado. O nome é Ordem dos Treze mesmo. E agora temos um quarto nome: General Willis.

KRYCEK: - E quem é esse cara? Do Pentágono?

BARBARA: -Não... Deve estar bem mais acima. Mas eu vou descobrir... Eu tenho paciência, você sabe disso. Aposto que esse não vai muito nas reuniões, porque só ligou agora. Um ano depois de um telefone perdido e ele não sabia? Ainda liga pro Rockfell nesse número?

KRYCEK: - Vou me lembrar de não trair você, vai ser detetive assim lá na delegacia!

BARBARA: - Não brinque com jornalistas, Ratoncito. Eles escavam coisas que fariam você perder o sono!


Residência dos Mulder - 8:23 P.M.

Victoria deitada na sua cama. Cookie nos pés, Ikito na cabeceira e a coelha Nine se enfia pra baixo da cama. Mulder sentado na cama, fecha o livro de histórias. Scully beija a filha.

SCULLY: - Durma com os anjos, meu Docinho.

VICTORIA: - Você também mamãe.

Scully sai do quarto. Mulder beija Victoria, ajeita a raposinha e o edredom sobre ela. Olha para o animais.

MULDER: - Ok, bicharada, todo mundo fora daqui!

Cookie olha pra Mulder, indiferente. A coelha sai de baixo da cama.

MULDER: - Eu falei já!

Cookie se levanta e sai do quarto. Mulder pega a coelha e coloca debaixo do braço. Coloca o agapórnis em seu ombro. Aproxima-se da porta, deixando o abajur aceso.

VICTORIA: - Papai, pode apagar a luz. Eu não tenho medo.

Mulder sorri. Apaga o abajur e sai, deixando a porta entreaberta. Larga a coelha no chão, que sai pulando os degraus escada abaixo. Coloca o agapórnis no corrimão da escada. Entra em seu quarto. Scully sentada na cama.

SCULLY: - Tirou os animais do quarto dela?

MULDER: - Nunca vi coisa igual, toda a noite a mesma coisa. Ficam ao redor dela até pra dormir!

SCULLY: - ... Paranormais estão na TV dizendo que viram gafanhotos. Mas quem dará ouvidos à paranormalidade e não à ciência na voz presidencial? Barbara criticou e chamou a nota presidencial de insatisfatória.

MULDER: - Desista Scully. Não se torne o que eu era, indagando tudo. Quanto mais você acha que sabe, mais louco você fica. Aprendi que eu não posso salvar todos e nem posso mudar o mundo. Tenho que fazer minha parte, mas não perderei mais o meu sono por isso.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Vou tomar um banho e tentar dormir em paz... Agora pelo menos sei que minha família está bem.

MULDER: - Que tal um chá de camomila pra nós dois?

SCULLY: - Eu aceito.

MULDER: - Vou fazer.

Mulder sai do quarto. Olha pra porta do quarto de Victoria. Caminha até lá. Escuta vozes. Empurra a porta lentamente.

Cookie e Nine deitados na cama. Ikito dorme na cabeceira. Victoria ajoelhada ao lado da cama, com a raposinha ajoelhada do lado dela. Mãozinhas unidas.

VICTORIA: - ... E Papai do Céu abençoa eu, a minha mamãe, o meu papai, a minha vovó, a Baba, a Nine, o Okie, a Molly, o Ikito, tio Tchek, tia Barbie...

Mulder sorri, olhando com ternura pra ela. Sai, deixando a porta entreaberta, sem fazer barulho.

Corte.


[Som: Era - The Mass]

Mulder prepara o chá em duas xícaras. As coloca numa bandeja. Olha para o vaso de rosas. Sorri. Pega uma rosa e a coloca na bandeja. Sente as mãos em sua cintura. Mulder fecha os olhos num sorriso.

MULDER: - (SORRI) Ok, Scully... Também te amo.

Mulder abre os olhos, olhando para a janela. Percebe The Gold Coin no reflexo da janela, atrás dele. Coin se afasta num sorriso debochado. Mulder fica catatônico.

THE GOLD COIN: - Os últimos acontecimentos provaram a você que você não é nada e nada pode fazer contra mim. Estou sendo bonzinho. Me entregue a menina. Vamos selar um pacto. Eu fico com ela. E devolverei a fertilidade de Scully. Vocês poderão ter todos os filhos que quiserem. Uma em troca de todos.

MULDER: - ... Não pode tomá-la pela lei divina do livre-arbítrio.

THE GOLD COIN: - O destino é uma gaiola e o ser humano o passarinho dentro dela com livre-arbítrio para fazer o que quiser... Dentro da gaiola.

MULDER: - Eu não darei minha filha. Não a trocarei por nada deste mundo e nem do seu mundo.

Victoria começa a chorar. Mulder olha para trás. Coin sumiu. Mulder sai da cozinha, subindo as escadas rapidamente. Empurra a porta do quarto de Victoria. Mulder suspira, aliviado. Victoria sentada na cama chorando.

VICTORIA: - (CHORANDO) Ele tá aqui papai!!!!

A porta do quarto do casal se fecha numa batida. Scully começa a gritar. Mulder entra em desespero. Pega Victoria e corre pra porta do quarto.

SCULLY: - (GRITANDO/ CHORANDO) Mulder!!!! Mulder me ajuda!!

Som de coisas se quebrando. Mulder solta Victoria no chão e dá com os ombros contra a porta.

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO) Scully!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder força a porta, mas não consegue entrar. Victoria olha para a escada do sótão. A porta do sótão se abre rangendo, lentamente. Um vento sopra pelos cabelos de Mulder e Victoria. Os dois olham em direção ao sótão.

MULDER: - (GRITA) Não saia de perto do papai!!!!

Victoria se encosta contra a parede. Mulder continua forçando a porta. Scully aos gritos. Victoria chora, chamando pela mãe. Mulder consegue arrombar a porta entrando no quarto.

Scully prensada contra o colchão, aos gritos. A camisola dela vai se erguendo, enquanto ela grita, e unhas invisíveis rasgam sua pele. Mulder corre pra cama.

MULDER: - (GRITA) Solta ela seu desgraçado!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Algo empurra Mulder contra a parede.

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Vá embora!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder não consegue se soltar da parede. A cama range rapidamente, com força, Scully gritando e chorando como se algo estivesse em cima dela a violentando.

SCULLY: - Paraaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!! Paraaaaaaa!!!!!!!

VICTORIA: - (GRITA)Gabriel!!!!!!!!!!!!!!!!!

Victoria abre os braços. Uma luz intensa e dourada cerca a menina. Mulder olha incrédulo pra filha, estarrecido. Os objetos tentam acerta-la, mas rebatem no nada. Os cabelos dela começam a voar.

VICTORIA: - (GRITA/ RAIVA) Eu disse pra soltar a minha mãe!!!!!!!!!!!!!

Todos os vidros e espelhos se quebram. Mulder cai ao chão. O fenômeno cessa. Victoria desce os braços. Scully senta-se contra a cabeceira da cama, chorando, atordoada. Mulder corre até ela, mas esbarra em The Gold Coin que se materializa, o agarrando pelo pescoço, o erguendo do chão.

THE GOLD COIN: - (GRITA) Vou tornar o purgatório num inferno pra você!!!

Scully arregala os olhos. Coin vira-se para trás. Gabriel com a espada na mão, sentado em cima da cômoda. Gabriel pula da cômoda. Coin olha para a espada e recua. Mulder corre pra perto de Scully, que vendo aquilo não acredita. Agarra-se chorando em Mulder. Victoria corre pra trás de Gabriel. Gabriel estende o braço pra trás, a protegendo.

GABRIEL: - Sai daqui garotinha.

Victoria sai correndo do quarto. Gabriel olha pra Coin em desafio.

GABRIEL: - Leia meus lábios: C-a-i f-o-r-a. Eu te avisei.

Coin olha pidão para Gabriel.

THE GOLD COIN: - Irmão... Somos da mesma espécie. Me perdoa. Você segue as leis dele, tem seu coração de anjo... Preciso do seu perdão e da sua ajuda.

Gabriel se aproxima, abaixando a espada. Olha desconfiado para Coin.

GABRIEL: - Vem comigo.

THE GOLD COIN: - Eu o perdoo por ter fechado aquela porta e me lançado neste mundo... Eu o perdoo. Me perdoe. Anjos perdoam.

Coin respira fundo. Aproxima os lábios do rosto de Gabriel, o beijando amavelmente. Gabriel olha pra ele com a ternura de um irmão. Coin abre um sorriso, abraçado em Gabriel. Então leva a mão ao peito de Gabriel. Gabriel tenta recuar. Olhos em pavor. Coin começa a rir debochado. Aumenta a risada, abrindo os braços e segurando o coração de Gabriel em sua mão com longas unhas pontiagudas e negras.

Gabriel recua, deixando a espada cair. Cai ao chão. Olha assustado para o buraco em seu peito. Scully grita apavorada. Coin leva o coração de Gabriel à boca, degustando-o com satisfação enquanto ri. Olha para cima.

THE GOLD COIN: - Você perdeu!!!!!!!!! (RINDO) Você perdeu!!!!!!

Coin joga o coração de Gabriel ao chão. Sai do quarto. A porta se fecha.

Corte.


Coin no corredor olha para a porta fechada. Gritos de Mulder e Scully. Barulhos.

THE GOLD COIN: - (SORRI) Isso meus meninos... Divirtam-se.

Coin olha para o lado. Victoria no corredor, abraçada na raposinha, chora com medo. Coin se aproxima. Agacha-se.

THE GOLD COIN: - Se não vier comigo, vou machucar o papai e a mamãe. Entendeu?

Victoria assente com a cabeça. Lágrimas escorrem dos olhinhos assustados. Coin abre os braços. Victoria se aproxima dele. Coin a toma no colo, num sorriso.

THE GOLD COIN: - Vem, filhote de anjo. O mundo precisa de você. Agora eu serei o seu pai e vou começar a ensinar como deve usar os dons que tem. "Mágica" liberada. Viu como sou bonzinho?

Corte.


Mulder, com um corte feio no braço, mantém Scully atrás de si, afugentando as criaturas negras e aladas que voam pelo quarto, os atacando. Scully puxa a maçaneta da porta, tentando abrir em desespero, gritando por Victoria. Scully olha para trás e vê Gabriel no chão, agonizando. Scully cai de joelhos chorando e rezando, atordoada.

GABRIEL: -Mulder...

Gabriel aponta para a espada. Mulder corre e pega a espada. Os demônios saem voando pela janela aos grunhidos. A porta se abre. Scully levanta-se e sai, caindo pela escada, aos prantos e nervos, gritando pela filha. Mulder se agacha ao lado de Gabriel. Gabriel segura a mão de Mulder. Mulder chora.

GABRIEL: - A chave... Pegue a chave. Precisamos de você... Pense... Pense com o coração... Jamais esqueça o coração... Quem conhece a dor... Conhece tudo...

O corpo de Gabriel transforma-se em cinzas. Mulder levanta-se com um brilho nos olhos. Toma fôlego. Sai correndo, levando a espada consigo.

Corte.


Mulder sai da casa e corre pra rua. Scully no carro dele dobra a esquina, cantando os pneus.

MULDER: - (GRITA/DESESPERADO) Scully!!!!!!!!!!!!!!!!


Estrada Interestadual – Virgínia – 10:02 P.M.

Scully dirige o carro, derrubando lágrimas. Inclina o rosto observando o céu pela janela.

A imensa nuvem de criaturas negras voa por sobre o carro, em direção ao horizonte. Scully os segue, acelerando mais.

SCULLY: -(CHORANDO) Não a minha filhinha... Não a minha filha, desgraçado!!!!!

As criaturas voam mais rápido, afastando-se do carro. Scully afunda o pé no acelerador ao último, mas elas se afastam com rapidez, sumindo na escuridão.

Corte.


Krycek dirige a picape, tenso. Mulder ao lado dele, nervoso, com o braço empapado de sangue.

KRYCEK: - Você tá sangrando muito. Tem certeza de que sabe pra onde ele levou Victoria?

MULDER: - Tenho. E Scully o está seguindo.

Krycek acelera mais ainda.

MULDER: - Ele a levou ao deserto. O abismo que se abriria, conforme diz a Bíblia. É algum portal por onde ele se locomove entre as dimensões da Terra e do Inferno.

KRYCEK: -Maldito desgraçado!

MULDER: - Ele a quer pelos poderes que ela tem. Quer subjugar o mundo com eles.

KRYCEK: - ... Ele quer transformar Victoria... No Anti-Cristo?

Mulder olha pela janela angustiado.

MULDER: - (CULPADO) Eu falhei de novo... Não protegi minha irmã... Não protegi Scully... Não protegi Victoria...

Krycek olha pra espada.

KRYCEK: - O que quer com essa arma medieval?

MULDER: - Ele tem medo dessa espada.

Krycek leva a mão a espada. Tenta erguê-la. Desiste.

KRYCEK: - Que diabos é isso? Parece que pesa toneladas!

Mulder a ergue sem problema algum. Krycek olha-o com curiosidade.

KRYCEK: - Que tipo de metal é esse?

MULDER: - Não sei... Não amassa, não quebra e quando isso acontece, volta a forma normal de novo. Tem uma inscrição alienígena no cabo.

KRYCEK: - E o que diz?

MULDER: - ... Miguel, guardião da Terra.

Krycek olha assustado pra Mulder.

Corte.


Geral da paisagem descampada. Terra, ervas rasteiras. Deserto. Montanhas ao fundo.

Scully para o carro. Desce, puxando a arma. Corre até chegar ao imenso precipício. Scully olha para a ponte de cordas e madeira. Abaixo, um abismo negro. The Gold Coin, num manto negro com capuz, caminha na ponte, levando Victoria nos braços. Victoria desacordada. Coin vira-se, olhando pra Scully. Olhos em chamas.

SCULLY: - (OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS) Deixe a minha filha. Leve a mim, eu mereço ir com você. Fiz coisas erradas, vendi minha alma. Me leve no lugar dela, por favor!

THE GOLD COIN: - Seus genes alterados não chegaram a perfeita evolução dela. Ela é o mais próximo entre o céu e a Terra. E eu a quero do meu lado. Preciso dela para vencer os outros anjos.

SCULLY: - (CHORANDO) Por favor... Ela é uma criança, não sabe a maldade. Eu sei. Eu vi a maldade com meus olhos, com meu coração. Deixe minha filha e leve a mim. Serei mais útil a você.

Scully avança sobre a ponte. Coin continua parado, segurando Victoria.

SCULLY: - (CHORANDO) Por favor... É uma mãe que lhe implora pela vida de sua filha.

THE GOLD COIN: - Outras mães já imploraram pela vida de seus filhos. Mas cada um deles têm o seu destino.

SCULLY: - (CHORANDO) Ela é tudo o que eu tenho. Minha única filha!!!!!!

THE GOLD COIN: - Há muitos anos atrás, outra mãe chorou por seu único filho. Mal entendia ela em seu cérebro e coração humanos, que era a escolha dele, nascer e viver como um macaco imbecil e dar a vida por vocês. Agora vocês não são mais criaturas. São semelhantes Dele. E por isso, eu os odeio!

Scully mira a arma em Coin. Coin sorri.

SCULLY: - (GRITA) Solta a minha filha!!! Não sabe o que uma mãe pode fazer quando vê sua cria em perigo!!!!!!

THE GOLD COIN: - O que acha que pode fazer, humana? Arrancá-la de mim? Pense na felicidade da sua filha. Ela terá o mundo. Nada lhe faltará. Será educada nas melhores escolas. Comerá das melhores refeições. Ela governará este mundo ao meu lado. Regerá nações. Terá todo o poder que quiser.

Corta para a picape que estaciona rapidamente, levantando poeira. Mulder e Krycek descem correndo. Mulder carregando a espada.

Coin distrai a atenção para eles. Scully aproveita e arranca Victoria do braços de Coin.

O céu começa a se tornar negro. Demônios alados surgem do abismo. A escuridão toma conta do céu. Scully corre pela ponte com a filha nos braços. A ponte balança. Scully entrega Victoria nos braços de Mulder. Então volta para a ponte.

MULDER: - (GRITA) Scully, saia daí!!!!

Scully encara Coin.

SCULLY: - Jamais desistirá dela, não é mesmo?

Mulder se desespera. Larga Victoria nos braços de Krycek. Olha para o abismo negro e sem fundo. Olha para a ponte que balança. A terra começa a tremer. A ponte balança mais forte. Scully segura-se nas cordas. A terra se abre aos poucos numa outra fenda, rente aos pés de Mulder, separando ele da ponte e de Scully.

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO) Scully!!!!!!!!!!!!!!

KRYCEK: - (GRITA) Mulder, não!!!!!

Mulder mede com os olhos a fenda no chão. Coloca a espada na cintura. Toma coragem. Recua e salta, caindo do outro lado da fenda. Apoia os pés ao chão, mantendo o equilíbrio.

Scully, de costas pra Mulder, sobre a ponte, mirando a arma para Coin.

MULDER: - (GRITA) Scully!!!!!!!!!!!

SCULLY: - (GRITA) Vá embora! Isto é entre ele e eu!!!

Scully continua mirando a arma. Coin a observa, num sorriso debochado.

SCULLY: - Você destruiu a minha vida. Me fez magoar todos que eu amava. (GRITA) Você me fez conhecer a maldade, agora pague por isso!!! Nunca mais vai tocar na minha filha ou no meu marido!!! Eu vou com você e defenderei minha família das suas garras pelo resto da eternidade!!!!

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO) Scully!!!!!!!!!!!!

Scully vira-se pra trás. Olha pra Mulder com amor e carinho. Os dois trocam o olhar por alguns segundos. Aquele olhar que eles conhecem.

Scully mira a arma na corda. Mulder em choque acena negativamente com a cabeça, murmurando um não. Scully atira na corda que segura a ponte. A corda rompe. A ponte balança, presa apenas numa corda. Mulder desesperado sobe na ponte, agarrado na outra corda.

MULDER: - (GRITA) Scully, não faz isso!

SCULLY: - (GRITA) Sai daqui Mulder! Vá embora!

MULDER: - (GRITA) Não!!!!!!!

SCULLY: - (GRITA) Sai!!!!!!! Eu vou atirar e você vai cair comigo!

MULDER: - (GRITA) Eu caio então!

SCULLY: - (GRITA) Não estou brincando!!!!!!!

Victoria se acorda. Krycek vira o rostinho dela contra seu peito. Scully mira a arma na outra corda. Olha pra Coin.

SCULLY: - (ÓDIO) Nos vemos no inferno.

MULDER: - (DESESPERADO) Scully!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Scully atira na outra corda.

Tela escurece.


Tela abre.

[Som: Era - The Mass]

Mulder pendurado na ponte caída, agarrado nas madeiras, com o braço machucado estendido, segurando a mão de Scully. Abaixo deles o abismo escuro.

SCULLY: - (GRITA) Me solta! Você não vai conseguir me segurar!

MULDER: - (GRITA) Não!!!!!!!!!

SCULLY: - (GRITA) Deixa de ser burro, Mulder! Não tem saída! Ou você me solta ou morre comigo!

MULDER: - (GRITA) Não vou soltar você!

Mulder olha pra cima. Sente a madeira rachando. O desespero é visível. Ele não consegue puxar Scully. O braço sangra mais forte. Mulder morde os lábios segurando a dor, mas mantém a mão de Scully firme. O sangue dele escorre pela manga da camisa até a mão dela.

SCULLY: - (OLHA PRA BAIXO) Me solta!!!!!!!!!

MULDER: - (GRITA/ CHORANDO) Não!!!!!!

SCULLY: - (GRITA) Acabou! Mulder acabou! Salve-se você e me deixe cair, é a coisa certa a ser feita!!!

MULDER: - (GRITA) Se você cair eu caio com você!

SCULLY: - (GRITA) Por que sempre tem que discutir comigo? Mulder, me solta! Se não me soltar, atiro em você!

MULDER: - (GRITA) Atira! Mas eu não vou soltar você!

Scully olha pra baixo. Olha pra cima. Percebe que Mulder tira forças do nada, tentando segurá-la. Mulder solta um urro de dor. Os dedos de Mulder vão se abrindo. Scully olha pra ele com um olhar de amor. Ele não desiste. Mas ela, numa atitude de proteção para com ele, ergue o braço e mira a arma no braço dele.

SCULLY: - (GRITA) Me solta, Mulder!!!! Vou atirar em você!!!

MULDER: - (GRITA) Atira, mas eu não vou soltar você!!!!!

SCULLY: - (SUSSURRA) Me perdoa, Mulder...

Scully ergue a cabeça. Atira no braço de Mulder. Mulder grita ao sentir a bala atravessar seu braço, mas não solta a mão dela.

SCULLY: - (GRITA) Me solta!!!!! Eu nunca culparei você!

MULDER: - (CHORANDO) Não! ... (GRITA) Meu Deus, me ajuda!!!!!!

SCULLY: - Não vai aguentar por muito tempo! Me solta, Mulder! Me deixe ir!!!

MULDER: - Se você for, eu vou com você!!!!

O sangue que escorre de Mulder faz a mão dela ceder. Mulder não aguenta mais, mas não a solta. Grita de dor. Scully solta a mão dele, mas ele não a solta. A mão dela vai resvalando no sangue dele. Mulder num desespero e dor visíveis, tentando tirar forças que já não mais existem.

SCULLY: - Mulder, por favor! Me solta!!!!!!!!

MULDER: -(CHORANDO) Nunca!!!!!

As forças dele estão esgotadas e a mão dela escorrega mais um pouco. Mulder grita desesperado, apenas as pontas dos dedos deles se tocam. Mas as forças lhe fogem e a mão dela escorrega. Scully cai no abismo escuro. Mulder, sem pensar duas vezes, olha para o céu, soltando os dedos da ponte e se lança no abismo, fechando os olhos.


TO BE CONTINUED...

IN HELL...


📷


"Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira".

João 8, 44



28/03/2003




21 de Marzo de 2020 a las 13:46 0 Reporte Insertar 2
Fin

Conoce al autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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