brendalf Brenda Bezerra

Em algum lugar no espaço e tempo tudo surgiu, dando contraste ao nada, batizando-o e adicionando camadas de luz ao seu véu leitoso e escuro, que preenchia a vastidão insípida desde sempre. O nada é primordial...


LGBT+ Sólo para mayores de 18.

#morte #lgbt #original #301 #universo-extraordinário
1
2.3mil VISITAS
En progreso - Nuevo capítulo Cada 30 días
tiempo de lectura
AA Compartir

The Search.

Ele acordou como em um dia comum e como em um dia comum se ergueu, coçou os olhos e se espreguiçou erguendo os braços como um gato esguio, e tocou o chão gelado com as pontas dos dedos, como uma bailarina.

Quando os músculos tensos relaxaram ele sentiu o corpo amolecer, os calcanhares acompanharam os dedos e ele sentiu as ranhuras entre a madeira enquanto contraía-os em um exercício involuntário, uma memória motora, que o fazia se sentir em casa dentre todos os lugares do mundo.

Os passos seguintes também não diziam muito sobre nada, ele caminhara até o banheiro, pegara sua escova de dentes e colocara pasta demais, começando o esfregar leve e preguiçoso contra o marfim pouco polido, se ancorando à porta do cômodo e observando o céu através da grande janela oval de vidraça embaçada localizada entre a cama e o banheiro, sobre um recosto cafona de um azul desbotado que lhe lembrava tempos simples de uma infância padrão.

Virou-se de súbito para desfazer-se do conteúdo em sua boca, enxaguou-a na pia, molhando o rosto com a água gélida e sentindo a pele repuxar em protesto. Penteou os cabelos de um jeito organizado, mantendo os fios da frente molhados e uniformemente unidos, apontados para trás. Saiu se despindo, se olhou nu no espelho e contemplou sua natureza, as pequenas marcas pelo dorso, os ossos acentuados do quadril, a tez pálida e as cicatrizes acinzentadas nos joelhos e canelas -resultantes das quedas juvenis-, as marcas dos suspensórios nos ombros e os pelos finos que se faziam presentes aqui e ali, acompanhando o preto sóbrio de seus cabelos.

Se sentou no chão com as peças de roupa à mão, encarou mais de perto os olhos amendoados enquanto colocava a camisa e as meias, sentia-se como em um dilema interno, porém apenas observava uma concordância pacífica de quem o fitava, as sobrancelhas unidas em duvida transmitiam mais curiosidade do que medo, o autoconhecimento parecia ultrapassado mesmo assim. Observou o relógio sobre o móvel e se apressou, erguendo-se e abotoando o ultimo botão do colete, passando os braços pelo casaco pesado que escolhera na noite anterior deu dois passos longos até a mesinha ao lado da cama, abriu a primeira gaveta e de lá retirou o seu ultimo pequeno tesouro, fruto de um furto familiar, retirado as escondidas de uma das caixas do escritório de seu pai.

O cachimbo brilhante era branco, destoando de todas as peças que escolhera trajar naquela manhã. O colete castor, o casaco e calça pretos, as meias e pele cinzas e os sapatos de um marrom espelhado compunham um visual que combinava com tudo a sua volta, com o seu quarto de papel de parede manchado, com o céu enevoado, com as casas lá fora e com as pessoas que via. Tudo estupidamente sóbrio esperando uma gota de cor no horizonte. Acendeu-o imitando todos os que vira usando o artefato, engasgou de leve com a fumaça quente que lhe queimou as pregas vocais e lhe tirou o marejar dos olhos, obstinado tentou mais uma vez, sentindo-se mais poderoso sob o efeito daquela aura imponente que o objeto o dava, abriu a janela e observou a fumaça sair e encontrar a umidade densa que se prendia ao ar, deu mais uma tragada, apreciando a sensação uma ultima vez, deixou-o sobre a banqueta azul e colocando mais uma perna para o lado de fora se jogou.

A altura não era grande o suficiente para fazê-lo pensar, era com o que ele contava, não queria se arrepender e mesmo que no fim o tempo parecesse parar para si, não o fez. Quando seu corpo se chocou contra o chão em um baque surdo ele não viu nada, apenas ouviu alguns gritos e sentiu, sobre toda a adrenalina que mantinha seu corpo quente, algumas gotas geladas que lhe tocavam a face.

O mundo congelou e ele estava morto, não sabia se esperava algo, provável que nada ou talvez o ardor da danação eterna, mas por fim, entre o fixar de pupilas âmbar, só havia escuridão.

25 de Septiembre de 2020 a las 04:20 0 Reporte Insertar Seguir historia
0
Continuará… Nuevo capítulo Cada 30 días.

Conoce al autor

Brenda Bezerra Nossa existência deforma o universo, isso é responsabilidade.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~