Era uma vez um rei Seguir historia

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C Clark Carbonera


Era uma vez um rei...


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#reinos #rei
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Capítulo único


Os aldeões vinham em centenas pela estrada de terra batida. Gritos e urros, vozes ensandecidas que exigiam sangue, que exigiam apenas paz para não sofrerem qualquer tipo de perseguição que as sombras malignas pudessem perpetuar.

O homem no alto do castelo não conseguia culpá-los do medo.

– Sua Majestade, senhor. Eles estão chegando. Precisamos partir para sua segurança, essa é a última chance que temos de...

– Basta, Faren. Quantas vezes mais terei que dizer que não sairei deste castelo!

O guarda real, que velou pela segurança daquele rei pelos últimos trinta anos, aprumou os ombros e sustentou o olhar do seu senhor, e o que encontrou lá, pesou não só em sua armadura, mas em seu coração também.

Os gritos de fora já não eram tão abafados. O barulho de porretes de madeira e pequenas espadas era também distinguido agora entre o rebuliço da população. O rei voltou-se para a janela, apoiando as mãos no parapeito de pedra e sentindo o frio que vinha delas apesar da primavera não se demorar a chegar por lá.

O som de passos apressados, alguns de ordens gritadas apressadamente e de portas sendo abertas e fechadas também chegou ao aposento do rei.

– Faren! – outro guarda se apresentou em tom firme. – A passagem já está aberta e três grupos de guarda já foram enviados ao portão principal. Se não formos agora é capaz de não haver mais tempo depois.

Faren cerrou os dentes e as mãos. Não queria que as coisas terminassem daquela forma. O juramento ao seu rei ultrapassava qualquer vínculo que possivelmente poderia ou quereria criar com qualquer outra pessoa, e disso ele sabia muito bem antes de ter aceitado a tarefa de guarda-real. Os anos de convivência com o rei ensinaram a ele várias coisas, tanto sobre si mesmo quanto sobre àquele a quem servia, sobre suas qualidades e seus defeitos.

– Suas ordens permanecem as mesmas, meu rei? – Faren já sabia a resposta antes de mesmo de formular a perguntar em voz alta, mas isso precisava ser feito mesmo assim.

– Sim, continuam as mesmas. – se dirigiu ao guarda recém-chegado. – A rainha, os filhos e os sobrinhos devem ser retirados do castelo, agora. E nenhum sangue há de ser derramado.

O guarda demorou-se a olhar para o seu comandante procurando uma anuência, ainda que isso indiretamente pudesse ser interpretado como uma traição, afinal se o rei lhe dera uma ordem, apenas o rei podia desobrigá-lo de tal ordem, mas aquele deslize, ainda que observado pelo rei, não tocou usa dignidade, era-lhe compreensível dadas as circunstâncias em que agora viviam.

As feições do guarda mostraram incredulidade ao ver Faren dar um aceno breve e firme com a cabeça. Ele, então, voltou-se para a porta e deu um meio passo, parou abruptamente, mas não olhou para trás, sabia que isso seria uma afronta às ordens que acabara de receber, tanto do rei quanto do seu comandante. Apressadamente empurrou a porta, fechando-a depois, para cumprir as ordens.

O rei e Faren soltaram um suspiro leve. A turba de aldeões enfurecidos chegara ao portão principal. Ambos ouviam os gritos de ordem dos guardas, vários já estavam a postos na muralha, nenhum armado com arcos nem flechas.

O rosto envelhecido e os olhos distantes e úmidos do rei contrastavam com os cabelos fartos e ruivos na cabeça. As sobrancelhas se uniam de uma forma que Faren nunca viu. Pensou em desviar o rosto ao ver as lágrimas silenciosas rolarem pelas bochechas do rei, e não demorou muito a fazer isso e a sentir que queria chorar também.

– Majestade, não há necessidade de ficar aqui como sacrifício. O Castelo de Açor já consentiu com seu asilo, com o apoio dele nada disso será necessário. Usemos a passagem e...

– Quantos bastas eu terei que dizer para que cale essa sua boca, guarda.

Mas apesar das palavras, a rispidez não transbordava de sua língua, como fazia quando uma ordem sua não era acatada corretamente. O cansaço e a desistência em resistir eram visíveis por todo ele, até suas roupas pareciam sem o brilho e a farta riqueza habitual, mesmo que as joias o decorassem da maneira que a rainha achava ser necessária.

Os guardas no portão principal resistiam bravamente contra as investidas no portão de carvalho grosso reforçado com tiras de aço. O rei se perguntou brevemente se seus guardas não usariam armas contra seus aldeões da forma como ordenara, ele conhecia o que o medo da morte poderia fazer com um homem, mesmo um homem treinado, e era contra a morte que aqueles guardas agora precisariam resistir sem machucar ninguém, ou se isso acontecesse, sem que fosse em demasia.

Seguindo o olhar do seu rei, Faren, conhecendo-o como o conhecia, falou com um misto de orgulho e dor.

– A maioria pode ser feita de burros e de bêbados ocasionais, mas eu mesmo os treinei e sei do que são capazes. Uma vez dada a ordem, a ordem será cumprida. Até que o último caia.

O rei apertou as pedras do parapeito, fazendo os nós dos dedos ficarem ainda mais brancos e a pele parecer ainda mais fina.

– Se eu ordenasse que fosse com a rainha e os outros, o que faria?

Faren se continha para não correr pelas escadas do castelo, cruzar os pátios e estábulos, e sacar a espada contra cada uma daquelas pessoas, mas seu rei ordenara que isso não fosse feito. Nenhum aldeão seria morto ou machucado pela lâmina do rei. Ele foi educado e se educou para seguir qualquer ordem vinda dos lábios do seu rei. Engoliu em seco e sentiu as mãos tremerem levemente. Não. Ele não deu a ordem. Não deu a ordem. Ao levantar os olhos, viu que o rei o observava com um novo pesar.

O portão finalmente abriu uma brecha considerável e os aldeões urraram ainda mais, como se tivessem acabado de capturar o próprio rei. Faren fechou os olhos com força, sentia o suor percorrer suas costas por baixo da armadura.

– Vá.

A voz do rei era tranquila, soava como um pai que liberta o filho para uma longa viagem a uma terra distante. Faren sacudiu a cabeça como um cavalo irritadiço.

– Não. Jurei protegê-lo com minha vida. Se minha morte for causa disso, será uma causa abraçada com virtude e lealdade.

Ainda mais, aquilo não era uma ordem, não exatamente...

– Faren, esta é uma ordem. Vá.

Faren respirou fundo e ruidosamente, desembainhou a espada e deu dois passos até seu rei, encarando-o com fúria e determinação, e ergueu a arma. O rei observou atônito todos os movimento rápidos e firmes, e olhou a espada caindo pela janela até o telhado de uma torre mais baixa que servia de depósito para as ferramentas dos estábulos. Ele fechou os olhos e suspirou. Sabia que Faren era teimoso, mas não tanto assim.

– O drama era mesmo necessário?

Faren ergueu o queixo orgulhoso e ignorou o tom jocoso do rei.

– Posso perguntar o mesmo, meu rei.

Os guardas agora gritavam para formação de uma barreira humana a fim de conter aqueles que já conseguiam passar pelo portão quebrado a machadadas.

O rei apertou o topo do nariz, uma veia saltava em sua têmpora.

– Se ao menos tivesse a certeza de que minha esposa e os outros estão seguros...

– Os únicos que conhecem a passagem somos nós, Konstantin, Arian e Mikele. E nenhuma das crianças sabia, então não tinha como elas darem com a língua nos dentes. Até os de Habichtsburg desconhecem como chegaremos até lá em segurança.

– Sim. Ele me pareceu mesmo meio desacreditado de que conseguiríamos uma façanha dessas – ele deu de ombros tão levemente que nem Faren notou. – Talvez seja exatamente por isso que nos deu apoio, porque achava que não conseguiríamos sair daqui.

– Por que ainda falamos como se estivéssemos nós dois com eles?

Os dois ficaram em silêncio. O vento soprava os últimos frios do inverno e o cheiro dos pinheiros invadia o quarto do rei de forma bem mais amigável que o retumbar da luta lá debaixo. Tanto o rei quanto o guarda permaneceram em silêncio ao lado da janela, calculando quanto tempo levaria para que a guarda do castelo aplacasse a ira dos aldeões ou para que os aldeões invadissem todos os aposentos até encontrar o rei.

– Mesmo que a guarda resista e os aldeões não avancem mais por hoje, sua Majestade não seguirá pela passagem?

– A raiva deles não vem pela minha pessoa, nem pelo meu título, Faren. Sabe disso muito bem. Não é raiva nem ódio o que vemos lá embaixo e ouvimos aqui de cima. Aquelas pessoas têm medo. Um medo legítimo de mim e da minha família e não posso culpá-los por nada disso.

– São ingratos, isso sim. Depois de todos esses anos como rei deles, eles têm a audácia de clamar pela cabeça de quem os alimentou e os protegeu.

– Sim. Sim, eles têm. E eu tenho a audácia que lhes dar minha cabeça em troca das de minha família. Não posso culpá-los pelo que eu sou, Faren.

– Mas eles podem?

O rei virou-se para o pátio novamente, observando a luta entre os guardas e os aldeões, sem de fato vê-la. Ele estava distante, enxergando algo que Faren não conseguia enxergar e isso o irritava do fundo do coração.

– Hoje eles têm medo, mas mais tarde o medo dará lugar à compreensão e nenhum sangue precisará ser derramado...não mais...

Um alarido de júbilo cortou o vento frio depois que a barreira humana de guardas foi furada e deu vazão a uma torrente de aldeões pátio adentro. Pronto. Era aquilo. Não um julgamento feito por um conselho, não uma doença incurável que daria o trono para o próximo herdeiro da linhagem real, não um confronto em batalha na proteção do seu reino. Não. Não foram essas as causas da queda de um rei.

Faren respirou profundamente, seguindo seu rei, fechou os olhos da mesma forma que ele, sentiu uma vibração inquietante vir da turba enraivecida e tentou não sentir ódio, raiva ou medo. Mas era difícil. O rei postou uma mão em seu ombro.

– Aceite, Faren, e ficará tudo bem. Eu prometo.

Ele sentiu a segurança e a tranquilidade que vazavam do rei para ele como ondas de uma maré plácida de verão. Lágrimas passaram sem qualquer aviso por suas pálpebras fechadas. Será que seu rei estava chorando também? Ele não saberia dizer, pois seus olhos se mantiveram fechados até quando a multidão invadiu o aposento. Se seu rei sentiu algum golpe desferido contra ele, Faren também não saberia dizer, pois não sentiu ele próprio o momento em que sua alma leal foi levada, tamanho era o amor que sentia vir do seu rei.


28 de Diciembre de 2019 a las 23:59 0 Reporte Insertar 1
Fin

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C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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