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dissecando

Uma visão enigmática, incomum sobre como seria um super-herói na nossa realidade. Mas calma : quem já leu algo meu, sabe que há algo perverso nas sombras...


Cuento No para niños menores de 13.
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SUPER




Eu o assistia todos os finais de semana, sentado no chão da sala com um Cheetos numa mão e um copo de coca na outra. Meu pai estava no trabalho naquele horário, e minha mãe preparando o almoço na cozinha enquanto cantarolava qualquer coisa dos Ramones. Não dava para saber muito bem qual música, — afinal o inglês dela não era lá essas coisas — mas dava para sacar que eram sim os Ramones. Ela gostava de rock, era jovem e me dizia que eu era tudo em sua vida.

Na época eu não entendia muito sobre o amor ( até hoje ainda não sei muito bem o que é isso ) mas sabia que era algo bom, natural, recíproco.

Então podia se dizer que eu também amava o Trovão Negro. Ele vinha voando pelos céus, com uma roupa preta por completa e uma fisionomia de quem estava puto da vida. Um de seus braços ficava estendido, com o punho fechado, enquanto o outro se mantinha preso junto ao corpo. E era exatamente o seu punho fechado que atingia a tela no fim da abertura, estilhaçando tudo e fazendo surgir o nome Trovão Negro ao fundo, em letras garrafais e brilhantes.

Eu sempre sorria de euforia, quase derramando a coca e deixando o queixo sujo de farelo. Os episódios tinham em média trinta minutos, quase sempre com uma lição de vida em suas conclusões. Confesso que não me recordo muito bem que lições eram estas, afinal o que de fato me chamava a atenção eram as batalhas épicas do Trovão. Obviamente elas nada mais eram que cópias mal feitas de seriados gringos, mas puta que pariu! Era lindo, empolgante, e eu amava aquilo tudo. Enquanto as outras crianças brincavam na rua, de pique ou jogando bola, eu me mantinha estático diante da TV, quase sem piscar. O Trovão era meu melhor amigo na época de minha infância.

Nunca imaginei que em algum dia o encontraria de novo.




Estava começando o meu trabalho como estagiário na casa de repouso Vila do Idoso, quando fui apresentado ao senhor Jânio Paredes. Imediatamente reconheci aquele nome ; aquele era o nome do ator que interpretava o Trovão Negro, ao menos era o que eu me lembrava.

Bem, talvez fosse apenas alguém com o mesmo nome, algo muito comum e que não seria um espanto se de fato acontecesse. Mas a minha empolgação era quase visível, de modo que meu coração pareceu aumentar suas palpitações.

Eu esfreguei as mãos por dentro dos bolsos do jaleco e acompanhei a enfermeira Graziela, uma menina linda de cabelos cacheados e que cheirava como pêssego. Sei que pode não ser uma comparação muito boa, mas era exatamente assim que ela cheirava. E minha mãe sempre dizia que meu pai tinha aquele cheiro, deixando ele feliz e fazendo-o beijá-la inúmeras vezes. Creio então que fui capaz de explicar o meu ponto de vista.

Nós andamos por um amplo corredor, conversando um pouco sobre o lugar e um pouco sobre nós mesmos. Claro que era eu quem perguntava mais. Por alguma razão, o homem parece demonstrar interesse na mulher primeiro, mesmo que lá no fundo todo homem saiba que isso é pura bobagem, e que todo mundo quando sente atração tenta dar o primeiro passo independentemente do sexo.

Ela me levou até uma sala ampla, com porta dupla, e só depois que entrei é que pude perceber que se tratava de um quarto. Havia uma cama grande ao fundo, arrumada, uma TV de 32 polegadas presa a parede branca e aquilo era tudo.

— Aqui é o quarto do senhor Jânio, — me disse Graziela, apontando para o ambiente assim como um mordomo apresenta a suíte de seu patrão. — Ele é uma pessoa muito tranquila, acho que é o mais tranquilo de todos, aliás. E a duas coisas que precisa saber sobre ele... — os olhos dela se fecharam, tentando se lembrar de meu nome.

— Pedro, — falei, um tanto decepcionado por ela não ter se lembrado.

— Isso, Pedro. Não sei se você lembra da série Trovão Negro, que passou na TV uns anos atrás?

Meu coração disparou. Eu quis gritar que sim, que obviamente lembrava daquilo, que eu era o maior fã daquele super-herói e que não perdia um episódio sequer. Mas tive que me conter. Ali eu era um estagiário, um homem em preparação, alguém que esperava ansioso por uma oportunidade. Sendo assim, apenas fiz que sim com a cabeça e disse :

— Conheço, é claro. Me lembro de algo a respeito.

— Pois bem, o senhor Jânio interpretou o herói naquele seriado. Hoje ele está com oitenta e oito anos de idade, um pouco fraco e sofrendo de Alzheimer. Ele quase não se lembra de quando trabalhou na TV. E isso até que é uma vantagem para nós e para sua própria saúde.

— Desculpe, mas... como sofrer de Alzheimer pode ser uma vantagem?

Graziela sorriu, mas não exibiu os dentes. Os lábios pintados de batom vermelho apenas se espicharam um pouco. Ela olhou para o chão, depois para mim e me pareceu ter respirado fundo. Seus braços estavam para trás, abraçando a própria cintura.

— Essa é a outra coisinha que quero que saiba, — ela disse. — Jânio Paredes é capaz de voar.




Naquele instante, eu pensei honestamente em sorrir e dar as costas. Achava que por alguma razão estava sendo vítima de uma pegadinha, o tipo de coisa que todo novato sofria quando entrava para trabalhar ali. A ideia até que não era ruim, apenas de mau gosto ; afinal ela era feita com base na antiga profissão de Jânio, e isso era uma jogada inteligente. Mas por ele sofrer de Alzheimer a coisa se tornava intragável, desastrosa, quase antiética.

Preferi apenas sorrir de leve, olhar em volta e só depois perceber que Graziela não estava sorrindo. Ela estava me olhando fixamente, agora com as mãos enfiadas nos bolsos.

— Acha que estou brincando, não acha?

— Sinceramente... não posso pensar outra coisa.

— Não tem problema. Comigo aconteceu a mesma coisa. Quando entrei aqui dois anos atrás, o enfermeiro Leandro me contou exatamente o que acabei de contar pra você. A diferença é que sorri tanto que quase perdi a vaga.

— Certo. Então ele admitiu que era uma piada e tudo se resolveu. Foi mais ou menos isso, não foi?

Para minha surpresa, Graziela não admitiu que estava brincando. Ela permaneceu com um semblante sério, me encarando e parecendo não estar disposta a ceder. Confesso que no momento admirei a força de vontade dela em manter a piada confiável. Talvez outra pessoa já tivesse desistido e aberto um largo sorriso, batendo nas minhas costas e dizendo : poxa, quase pegamos você nessa.

Só que Graziela não fez isso. Ela permaneceu firme, os belos olhos me encarando de uma maneira que seria sexy em outra situação.

Então decidi acompanhar.

— Está me dizendo que na época do seriado eles não utilizavam efeito algum, e que o senhor Jânio voava de verdade?

— Correto. Mas ao contrário do que muitos pensam, voar não é legal. Não para humanos. A quantidade de força que o corpo exige, é quase fatal. O coração acelera até quase explodir. Na época, o senhor Jânio gravava exageradamente. Os produtores queriam que ele permanecesse no ar por muito tempo, e isso fez com que seu corpo ficasse exausto, quase deteriorado. A capa que ele usava era apenas parte do figurino. Voar era algo natural.

— Mas como isso nunca foi noticiado, ou espalhado por alguém?

— Os anos 80 eram uma outra época, — disse ela, ainda com seriedade. — Ninguém possuía uma câmera no celular, por exemplo. Nem sequer um celular, na verdade. Os produtores fizeram um acordo de silêncio. A equipe inteira fez o mesmo. E o dinheiro que a série conquistou fez o resto. O silêncio pode ser comprado, sabe como é.

— Caramba. E ele tem família?

— Tinha. Boa parte faleceu. Acho que possui uma irmã viva em algum lugar, mas deve estar tão velha quanto ele. Nunca se casou. Nada de filhos, também.

— Isso é uma loucura...

— Os idosos aqui não sabem de nada que lhe contei, — ela falou, me interrompendo sem constrangimento algum. — Nem podem saber. Apenas a equipe médica está à par. Quem o trouxe para cá foi o criador da série uns vinte anos atrás. E como lhe falei, o dinheiro compra silêncios. Então sabe bem como ninguém aqui dá com a língua nos dentes.

A sensação de estar sendo vítima de uma brincadeira já não existia mais. Por alguma razão, ela havia desaparecido. Um assombro estava em seu lugar, uma perplexidade que eu não conseguia identificar. Quando se é criança, voar é um sonho. Todo mundo fantasiou com isso alguma vez, voando pelo céu com a capa do super-homem tremulando sobre as costas. Mas então eu era um adulto, um enfermeiro estagiário que queria apenas um salário e um emprego digno. Ouvir que alguém era capaz de voar, dava arrepios.

Passei uma das mãos nos lábios e disse :

— Onde ele está agora?

— Um dos enfermeiros está lhe dando banho. Logo será trazido para cá.

— Olhe, Graziela, se isso for uma piada... essa é a hora de dizer.

Mas ela não disse. E eu fiquei cara a cara com o senhor Jânio cinco minutos depois.




Ele era um homem comum, com um e oitenta de altura, mais ou menos. Cabelos grisalhos, uma barba rala, negro. Havia um enfermeiro ao seu lado, lhe trazendo pelo cotovelo. O sujeito conversava alguma coisa com ele, baixinho. Jânio parecia gostar, pois pude perceber que estava sorrindo. Os dois caminhavam devagar, entraram no quarto lentamente e só então que enxerguei os pequenos pesos enrolados nos calcanhares de Jânio.

— E isso?

— Precaução, — disse Graziela. — Se a mente dele desperta de repente, ele simplesmente sai voando. O Alzheimer nos ajuda nessa parte. Ele não é capaz de lembrar de sua capacidade.

— Me ajude aqui, Grazi — pediu o enfermeiro. Ele já estava ajeitando o senhor Jânio na cama.

O enfermeiro erguia uma das pernas dele, enquanto Graziela erguia a outra, com certo esforço. Eu não perguntei, mas calculei que cada peso daquele deveria possuir uns quinze quilos. E isso para um idoso de quase noventa anos era muita coisa.

Eles terminaram de colocá-lo sobre a cama e Jânio olhava para o enfermeiro ainda com um sorriso simpático no rosto. Provavelmente estava lembrando da conversa que haviam tido a pouco no corredor.

— Uma soneca, senhor Jânio? — perguntou o mesmo enfermeiro.

— Só os velhos dormem a tarde. Estou pensando em sair por ai pra paquerar.

Graziela e o enfermeiro sorriram. Também sorri, não pude segurar. Na verdade, estava visivelmente emocionado de ver o meu herói tão de pertinho. Acho que qualquer um sentiria a mesma coisa. Eu tinha em minhas lembranças a imagem do Trovão Negro cortando os céus ao meio, numa posição muito semelhante ao super-homem, mas de um jeito completamente dele. O Trovão me parecia mais másculo, mais eficaz, um homem pronto para matar o inimigo se fosse preciso. Já naquele quarto, deitado sobre uma cama imensa e com pesinhos nos tornozelos, Jânio Paredes me lembrava o ator Morgan Freeman no filme do quebra-nozes.

Sinceramente não achava que ele era capaz de voar. Uma parte de mim ainda pensava que tudo tinha que ser uma piada, que até o próprio Jânio deveria estar participando, que até mesmo ele deveria ser o mentor daquilo tudo. Ainda havia algo parecido com medo em mim, uma coisa que me dizia que nada ali era natural, que coisas assim não deveriam existir.

Estava pensando em todo tipo de coisa quando ouvi uma voz firme me chamar não pelo nome, mas de rapaz. Olhei para frente e vi Jânio apoiado nos cotovelos, me encarando.

— Pois não?

— É novo aqui, filho? — e escutar o meu herói me chamar de filho foi deslumbrante, quase mágico.

Demorei quase dez segundos para raciocinar, então respondi com uma voz fraca, engasgada.

— Sou... sou sim, senhor. Me chamo Pedro Rosales.

— Nem diga seu nome, pois provavelmente já o terei esquecido daqui cinco minutos. Eu tenho Alzheimer.

— Compreendo, senhor.

— Vai cuidar da minha ala, aqui no asilo?

— Vou, sim.

— Bem, — disse Jânio, começando a ajeitar o travesseiro e desviando o olhar. — Então pode começar me deixando ir dormir. Desisti da ideia de paquerar. Essas mulheres de hoje me dão preguiça.

Todos demos risada, e Jânio se virou para o lado puxando o cobertor.




Praticamente durante um mês, fiquei supervisionando a ala leste. Nada foi revelado sobre eu estar participando de uma pegadinha em tempo recorde, uma brincadeira capaz de durar dias ou até meses. De modo que já estava convencido, e para mim o senhor Jânio era mesmo alguém com habilidade para voar.

Durante esse período, vi outros tipos incomuns pelos outros quartos da casa de repouso. Certa vez, cumprimentei uma idosa que estava sentada em uma cadeira de balanço. Ela virou a cabeça para mim e revelou um tumor facial que ocupava metade de seu rosto. Senti um arrepio na nuca, dei as costas e segui pelo corredor vazio. Mesmo com minha formação médica, ver certas coisas me deixam com uma sensação de mal-estar ; é como olhar apenas para a doença, sem ver o ser humano debaixo da superfície.

Numa de minhas caminhadas, acabei me deparando com Graziela. Ela estava linda, escorada no parapeito e segurando uma xícara de café com as mãos em forma de concha.

Me aproximei e puxei assunto.

— Está uma bela manhã, não é?

— Sem dúvida. Um pouco frio, mas até que eu gosto.

— Me diga uma coisa, Grazi. Você já viu o senhor Jânio... bem, você sabe aonde quero chegar.

— Honestamente, não — ela disse, largando a xícara sobre o parapeito. — Mas isso não significa que não seja verdade. Caso contrário estou sendo vítima de uma brincadeira há dois anos. Mas já vi uma coisa estranha.

— O que?

Ela bebeu um pouco de café e devolveu a xícara para o parapeito.

— Ele estava sem os pesos nos tornozelos na ocasião. Daí eu o vi flutuar. Por longos seis segundos eu o vi flutuar, Pedro. E sabe o que mais? Ele nem percebeu. Continuou caminhando, sem tocar os pés no chão.




Naquela mesma semana, encontrei com o senhor Jânio no pátio do asilo. Ele estava sozinho, olhando para um beija-flor que voava e bebia o néctar de uma rosa no jardim. Haviam outros idosos próximos a ele, mas nenhum deles estava conversando com o Trovão. Ao que parecia, o herói era mesmo um sujeito solitário.

Assim que cheguei um pouco mais perto, meus passos atraíram a sua atenção e ele apontou o olhar na minha direção. Seu rosto tinha um aspecto magro, compenetrado.

— Como vão as coisas, Jânio?

— Nem lá, nem cá — me disse ele, exibindo belos e grandes dentes brancos. O beija-flor ao notar a minha aproximação, se afastou e voou para longe.

— Sempre que venho até o pátio, vejo você sozinho. Não quer mesmo encontrar uma namorada, não é?

— Ser sozinho tem suas vantagens. A propósito, quem é você mesmo?

Pela quarta vez naquela semana, disse meu nome ao Trovão. Senti a mesma dor que nas outras vezes. Não gostava de vê-lo daquela maneira, esquecido e esquecendo de tudo que podia. Eu sabia que cada super-herói tinha o seu ponto fraco, mas aquilo era diferente. Eu já havia visto ele ser esmurrado e jogado das maiores alturas na minha infância, mas nada me dava tanta aflição quanto vê-lo daquela forma. Por um rápido instante, quis retirar o peso de seus tornozelos e lhe dizer que era capaz de voar. Que saísse pelos ares naquele mesmo momento, deixando tudo e todos para trás. Recuperei meu bom senso a tempo de ouvi-lo terminar a sua justificativa sobre as vantagens de ser solitário.

— E não preciso dar explicações a ninguém nessa vida. O mundo é apenas meu, meu caro Alexandre.

— Pedro.

— Como disse?

— Eu me chamo Pedro. Não quer entrar e jogar uma partida de dominó?

— Valendo o que?

— Se eu vencer, vou passar o resto do dia no seu pé. Não vai ser solitário até a meia-noite, cowboy.

Ele analisou silenciosamente a situação. Enquanto o fazia, me encarava com olhos fixos, sem piscar. O mesmo olhar que ele fazia quando estava no alto de um prédio, observando o inimigo.

Pouco tempo depois, abriu um sorriso e disse :

— Fechado. Você vai perder, só por isso concordei.

Não lembro ao certo se perdi ou não, mas lembro de estar com o Trovão no exato momento em que o fogo começou na cozinha, no primeiro andar.




Às nove e vinte da noite, quase todos os idosos já estavam dormindo. Fiquei surpreso ao me deparar no quarto com o Trovão, sentado ao lado de sua cama e jogando conversa fora. Olhei para o relógio em meu pulso e não acreditei que já era tão tarde, que o tempo havia acelerado de modo tão rápido.

Naquela terça-feira, meu expediente seria até as dez horas da noite, pois havia trocado o meu dia de descanso com a enfermeira Sabrina, uma senhora bastante simpática que tinha o hábito de dizer “ degavar “ ao invés de devagar.

De qualquer modo, estava contente. Gostava de conversar com o Trovão, mesmo que muitas de nossas conversas fossem esquecidas por ele no dia seguinte ou horas depois. Devo admitir que me sentia um tanto chateado por não podermos conversar sobre o seu seriado ; isso não era proibido, mas era bom de ser evitado sempre que possível. Vez que outra, Trovão tinha lapsos sobre aquela época. E nessas ocasiões, nunca estive presente quando ele mencionou alguma coisa sobre o seu dom. Se é que de fato chegou a falar a respeito.

Ele estava deitado em sua cama, com as pernas erguidas sobre uma pilha de travesseiros. Em seus tornozelos, os pesinhos de quinze quilos repousavam enroscados e presos com velcro. Certa vez, Graziela me dissera que aqueles pesos antes eram de vinte quilos cada. Mas como Trovão estava mais velho e com o corpo mais desgastado, eles haviam baixado para quinze. Ele ainda era capaz de andar utilizando eles, mas tinha dificuldades para erguer os pés. Diziam que era melhor assim.

Trovão estava assoando o nariz com um lenço, depois já o estava guardando no bolso frontal de seu pijama quando ouvimos um estrondo. Eu estremeci em cima da cadeira e olhei em volta.

— Isso foi uma explosão? — perguntei praticamente para mim mesmo.

— Com certeza, — falou Trovão, e quando olhei na direção de sua voz ele já estava sentado sobre a cama. — Foi aqui dentro do asilo. Não veio do lado de fora.

— Por Deus. Fique exatamente onde está, ok? Eu preciso verificar os outros quartos e o que está acontecendo.

— Vá direto para o primeiro andar. A coisa foi lá embaixo.

Fiz um sinal de positivo com a cabeça e comecei a correr.




Quando desci as escadas, meu corpo ficou sem reação. Fiquei paralisado entre o primeiro e o segundo degrau, agarrado no corrimão e com o queixo caído. Tudo que meus olhos viam, era destruição ; naquele instante, não fui capaz de saber o que de fato estava acontecendo, apenas que praticamente tudo no primeiro andar estava sendo devastado pelo fogo.

As paredes laterais haviam sido destruídas, e consegui ver com muita dificuldade através de uma cortina de fumaça, um braço se erguendo da pilha de tijolos. Era como um cadáver saindo da sepultura nos filmes de mortos-vivos.

Gritei. Alto, tão alto que meus ouvidos se inflaram. Finalmente percebi que meu corpo estava começando a se mover, e quando me dei conta já me encontrava diante do local onde antes existia a cozinha. Labaredas de fogo farfalhavam por todos os cantos, consumindo o chão, as paredes e o teto. O calor era infernal, insuportável. Em poucos segundos eu sentia o suor escorrendo pelo meu corpo, encharcando meu rosto.

Passei o pulso na testa e recuei. No movimento, acabei tropeçando nos escombros e quase cai. A fumaça estava se espalhando depressa, subindo cada vez mais, ocupando cada pedaço destruído ou intacto do asilo. Era difícil respirar, de modo que comecei a tossir de vinte em vinte segundos.

A claridade provocada pelas chamas deixava o ambiente com uma cor alaranjada, disforme, embaçada. Não dava para enxergar praticamente nada, mas era possível sentir um cheiro forte, de fumaça, cimento e morte.

Tinha uma certa noção para que lado estava indo, e assim que adentrei no corredor me deparei com ele quase que todo consumido pelo fogo. Era possível escutar alguns gritos ( a maioria deles dos enfermeiros que estavam de plantão ) e todos eles me provocaram um calafrio nos ossos. Comecei a me sentir impotente, com o desespero se apossando de meu corpo. Em um momento de completa irracionalidade, avancei sobre o fogo cobrindo apenas a cabeça com os braços até chegar diante de uma porta.

Ela estava entreaberta, com a fechadura pendurada, derretida. Ergui uma das pernas e terminei de abri-la com um chute. Dentro do quarto, encontrei a idosa com o tumor facial atirada ao lado da cama. Ela estava com uma camisola branca chamuscada, caída com um dos braços sobre a cabeça. Corri em sua direção e comecei a virá-la.

Não precisou muito para ver que um caco de tijolo havia perfurado um de seus olhos. Ainda assim tentei reanimá-la, não obtive sucesso e sai com ela nos braços. Corri o mais rápido que pude até o jardim. À deitei sobre a grama, fiz uma oração rápida e olhei para trás ; a parte frontal do asilo era agora como a entrada de um túnel em chamas. Apenas a parte superior ainda resistia, mas aquilo seria por pouco tempo. As chamas já começavam a se espalhar, subir pelas paredes em labaredas violentas. A cor antes esverdeada cedera lugar a um preto fosco, carbonizado. Uma nova onda de pânico fez o meu corpo congelar, e de repente me vi paralisado, ajoelhado diante do corpo da idosa sem vida. Fechei os olhos, acho que chorei momentaneamente e me levantei.

Tentei correr, mas minhas pernas cederam e acabei caindo. Tornei a ficar de pé, senti o calor do fogo queimar o meu rosto e aquilo pareceu me acordar.

Minhas pernas se afirmaram, e eu corri alucinadamente para dentro do asilo em chamas.




Cruzei o hall de entrada sem me importar com o fogo.

Acabei queimando meu antebraço esquerdo, mas a dor não me incomodou. Não fazia ideia o quanto estava doendo, mas fiquei brevemente anestesiado. Sabia que nada poderia ser salvo no primeiro andar, então olhei para a escadaria e corri sem me importar com mais nada. No caminho, acabei tropeçando num bloco de concreto e quase cai em meio as chamas. Assim que me senti à salvo, olhei outra vez e vi que na verdade havia tropeçado no corpo de um dos cozinheiros.

Não pude saber quem ele era, pois sua cabeça havia sido estraçalhada e mais parecia um borrão avermelhado.

Segui em frente, subindo os degraus de dois em dois. O calor estava me acompanhando, e aquilo me assustou. Dava para sentir as paredes muito mais quentes, e a fumaça evaporando pelo corrimão. Minha esperança era poder socorrer todo o pessoal do segundo andar, mas tinha ciência que a escadaria logo iria ceder.

Procurei não pensar naquilo, e quando percebi já estava diante de um pequeno aglomerado de idosos na subida do corredor.

Todos estavam assustados, olhando em volta e cobrindo o nariz com as mãos. Me aproximei e peguei um senhor pelo cotovelo. Ele tossia e abanava a outra mão diante do rosto.

— Precisamos sair daqui! —gritei para todos. — Mas é preciso ir com calma, sem exaltação. A escada está frágil, e pode ceder a qualquer momento. Um por um, quero que desçam e sigam em linha reta. O caminho está livre, mas é preciso ter cuidado. Entenderam?

Eles resmungaram qualquer coisa, e logo depois encaminhei o primeiro até a beirada da escada. Os outros nos seguiram, e aguardaram logo atrás.

— Desça devagar, — falei, e de repente alguma coisa estourou no andar debaixo e todos pulamos e recuamos um pouco. — Assim que descer, vá o mais depressa possível na direção da saída. Fica logo em frente, é só seguir. Está tudo certo?

O homem disse que sim com a cabeça e começou a sua fuga. Acompanhei cada passo seu, escutei os degraus estalando e senti o estômago encolher. Em seguida, puxei o próximo e dei as mesmas instruções. Fiz a mesma coisa por mais oito ou nove vezes, até que escutei a escadaria estalar e depois ceder, engolindo uma idosa para um mar de chamas. O grito dela ecoa até hoje em minha cabeça.

Recuei cerca de cinco passos, levando os idosos que restaram comigo com os braços abertos. O calor evaporava abaixo de nós, nos sufocando, fazendo com que a maioria se escolhesse no chão. Tentei dizer mais algumas palavras, mas a voz foi sumindo, ficando fraca, desaparecendo em meio a tosse. Minha visão foi aos poucos cedendo lugar à escuridão, apenas recebendo pequenos flashs das chamas que já avançavam pelo corredor.

Quando percebi, meu corpo já estava deitado. Em uma última tentativa de me manter acordado, notei que o chão foi ficando para trás, se afastando lentamente. Senti alguma coisa me erguendo pelas axilas, e depois apaguei.




Deitado sobre a grama do jardim, quase não podia enxergar. Me sentia confuso, sufocado, e então tossi. Minha visão ia e vinha, quase como um farol que ascendia e apagava. Quando era capaz de ver algo, via apenas o céu escuro repleto de estrelas. Virava o rosto, tudo se apagava outra vez e então a visão voltava. Daí eu via ele trazendo alguma coisa pelos braços, assim como me trouxe.

Ele vinha do céu, devagar, e descia delicadamente. Fui ainda capaz de ver essa ação por mais uma ou duas vezes, antes de desmaiar. Sendo que na última, vi claramente o Trovão Negro largar o corpo de um senhor ao meu lado e depois subir aos céus com o punho erguido.




Acordei na cama de um hospital.

Não sabia bem o que estava acontecendo, e minha cabeça doía, ferroando como se dezenas de abelhas estivessem me picando. Resmunguei um pouco de dor, abri os olhos e enxerguei uma silhueta que parecia feminina.

— Calma, procure relaxar — disse a voz da silhueta. A voz era de Graziela, sem dúvida alguma. — Procure não se mover tanto.

— Aonde eu estou?

— No hospital. O asilo foi destruído por um incêndio que teve início na cozinha.

— Onde... quantos mo... não sobreviveram?

Senti uma mão delicada acariciar a minha testa. Esse é o único momento agradável de qual me lembro em minha estadia internado no hospital.

—Deixe isso pra depois. Você precisa descansar, Pedro.

— Eu vi, Grazi. Tenho certeza que vi.

— Do que está falando?

— O Trovão Negro. Eu vi... — e acabei dormindo com a imagem dele subindo para os céus.



Duas semanas se passaram e eu ainda estava me recuperando. Já não estava mais internado, e minha mãe passava os dias comigo em minha casa no norte. Gostava de tê-la perto de mim. Me fazia lembrar da época da infância, ainda mais quando ela preparava macarrão com almôndegas e cantarolava alguma música dos Ramones. Mesmo aos sessenta e quatro anos, o gosto musical dela não havia mudado. Acho que todo mundo deveria se sentir assim alguma vez na vida. Como se a infância viesse nos visitar para uma tarde de lembranças.

O incêndio no asilo fora provocado por um vazamento de gás. Foi noticiado durante uma semana sem parar nos jornais do país inteiro. Doze idosos sobreviveram milagrosamente as chamas, sendo que todos eles ( incluindo eu ) foram encontrados desacordados no jardim do asilo.

Trinta e oito foram declarados mortos, entre pacientes e funcionários. Só que eu sou o único que sei que este número é na verdade trinta e sete.

Há uma lápide com o nome de Jânio Paredes no cemitério Estadual, eu mesmo fui até lá para prestar as homenagens. Segundo me informaram, um caixão vazio foi enterrado, pois o corpo de Jânio não pôde ser resgatado dos escombros. O calor das chamas derreteu o seu corpo, eles noticiaram.

Então que assim seja. Sabe, costuma ser assim mesmo com os super-heróis. E você também não precisa acreditar em mim, ou em cada palavra que contei. Afinal, eu sou apenas um fã.


30 de Octubre de 2019 a las 06:44 3 Reporte Insertar 7
Fin

Conoce al autor

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Publica!
Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Parabéns pela qualidade da sua história. Achei fantástico todos os temas que você escolheu trabalhar. Usar o POV em primeira pessoa pode ser arriscado, mas você se saiu bem. Conseguiu dar um ar de veracidade para o personagem, ajudando a estabelecer bem a personalidade dele. Foi muito bom acompanhar o desenvolvimento, desse garoto que cresceu impressionado com um herói, até se deparar com esse mesmo herói atravessando sua última fase na vida. A ideia de que o ator realmente podia voar foi um toque surpreendente! Assim como vários elementos: a abordagem tão boa dos anos 80, essa critica ao uso excessivo e invasivo dos celulares no qual vivemos hoje, a ideia de que dinheiro se sobrepõe a quase tudo e compra o silêncio das pessoas. Seu texto nos traz muitas reflexões! E esse herói? Que posso dizer? Alzheimer é uma doença ingrata, tive contato com uma pessoa padecendo desse mal e é bem isso: tem momentos em que a gente repete a mesma informação várias vezes em minutos, porque elas esquecem. É triste pensar que as pessoas lutam tanto e correm o risco de esquecer lentamente de tudo o que as fez chegar até ali. Tudo e todos... também destaco o seu Português, que está em um nível elevado. A estrutura dos parágrafos está muito harmoniosa, e isso facilita a leitura. A descrição não é excessiva, vem na medida certa. E esse finalzinho misterioso fechou com chave de ouro. Parabéns.
7 de Noviembre de 2019 a las 06:24
Ayzu Saki Ayzu Saki
Meu Deus, isso foi tão bacana de ler.
4 de Noviembre de 2019 a las 20:01
MiRz Rz MiRz Rz
Olá! Eu sou a MiRz. Estou passando para dar um recadinho de parabenização pela Verificação da sua história! Achei incrível a forma que essa história desenrolou, pois quando pensamos em super-heróis, pensamos neles jovens, fortes e bem... heroicos. Mostrar um cara normal que tenha um dom extra e que ficou velho e debilitado humanizou lindamente o personagem, parabéns pela criatividade ao desenvolver essa narrativa! A escrita está ótima, só há dois detalhes que são mais dicas do que outra coisa e fica a seu critério mudar ou não, um deles é a acentuação no “o que?”: nesse caso o “o que?” segue a regra do “por quê?”, quando a expressão vier na interrogativa sendo seguido pelo ponto de interrogação, o “e” é acentuado, sendo a forma correta “o quê?”. O segundo detalhe é que em alguns momentos do texto, o ponto-e-vírgula veio espaçado entre as palavras ao invés de junto da palavra que o antecede. Como eu disse, são coisas muito pequenas que não atrapalham o entendimento do texto, portanto não há a necessidade da sua história ser posta “em revisão”, é apenas um toque mesmo! ;) No mais, o conto está ótimo, eu realmente adorei sua história! Tenha uma boa semana!
30 de Octubre de 2019 a las 13:53
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