Laura Orfeo Seguir historia

A
Alex Lorenzo


Em Várzea, uma mulher misteriosa chega para se eternizar na memória de seus moradores e apenas uma pessoa confrontará quem ela realmente é. Esse conto de mistério reúne suspense, ação e romance dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial.


Cuento Todo público.

#revelações #romance #segunda-guerra-mundial #violência #fantasia #mistério
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Várzea

O caso estranho que vou contar aconteceu há muitos anos atrás. Algo que vivi na pele e que ainda não consigo compreender muito bem.

Eu costumava rezar na igrejinha. Uma construção de meados do século XIX, erguida pelos escravos da fazenda Magalhães que recebera imigrantes após a Lei Áurea e assim se formou o povoado de Várzea, de gente de fora e de libertos da terra. A igrejinha tinha uma fachada pintada de branco com as bordas das janelas em amarelo. Dentro, exibia no altar a imagem do santo e também uma cruz pendia do centro do teto alto. O mais alto que já vi. A cruz de madeira ficava presa por uma corrente que vinha de uma coluna de madeira do teto e se ligava à argola de ferro afixada na extremidade superior do toco vertical da cruz. Eram madeiras escurecidas, grandes e pesadas. Do modo como foi colocada, a cruz parecia que flutuava no ar, intocável. Não existiam assentos abaixo dela, apenas, o chão coberto de pedras polidas fabricadas na própria fazenda e o comprido tapete vermelho que ia da entrada até o altar. Os bancos da igreja eram poucos e rústicos.

A cruz foi uma ideia do padre Benício. Ele afirmava para o povo fervoroso de Várzea que ela deveria estar dentro do templo e não do lado de fora, assim como o Redentor precisava ficar dentro do coração das pessoas. O povo ficava abismado com o madeiro que atraía muita gente para ouvir os sermões. Atentos, a maioria dos fiéis ouvia as pregações em pé, embora não entendêssemos o latim do jovem padre.

A fazenda Magalhães tinha de tudo, porcos, vacas, bois, patos e galinhas. Além, é claro, de cultivo de café. A maioria das pessoas trabalhava para o Dr. Percival Magalhães, o atual dono da fazenda, viúvo enxuto, de pele avermelhada pelo sol e olhos azuis claros. Tinha seus cinquenta e poucos anos e exibia com orgulho bigodes grisalhos e exuberantes que lembravam a crina de um cavalo. Era um tempo bom, os trabalhadores ganhavam algum dinheiro e podiam cultivar para si a terra fértil.

Num belo dia de primavera, lá pelo ano de 1944, se não me falhe a memória, a paz do povoado acabou. Pelo menos, em minha opinião. Acabou por duas razões: a primeira, a convocação. Eu estava na praça e vi um carro com oficiais que corria na frente, seguido por um caminhão com alguns soldados e sargentos. Os veículos do exército pararam na pracinha dos Libertos. Lá, filas de rapazes aguardavam para se alistarem. Lutariam contra aquele homem, não me recordo o nome, aquele ditador que usava um bigodinho aparado dos lados e vestia um uniforme militar com uma estampa de uma cruz quebrada nas quatro pontas. Eu vi a foto dele num cartaz do nosso governo. Diziam que ele ficava gesticulando e gritando histericamente para uma multidão de pessoas de pele clara e cabelos dourados. Comentaram lá na capital que essas pessoas o aplaudiam quando ele discursava. Aí, eu me pergunto: será que entendiam bem o que ele dizia? Bom, realmente não me lembro do nome dele, mas sei que é por causa dele que estão roubando Pedro Luiz Trindade de mim. Antes de completar dois anos do nosso namoro, Pedro foi convocado, raspou os lados da cabeça e se preparava para viajar ao estrangeiro, para lutar contra esse tal “Bigodinho Descarado” e seu exército endoidecido. Lá estava eu, ao lado de Pedro, vendo os militares que o separariam de mim. Meu coração tremeu dentro do meu peito, senti que foi construído um muro da noite para o dia. Um muro dividindo nós dois, esmigalhando nossas esperanças. Acredito que as mães e as namoradas desses jovens também se sentiram em migalhas. Pedro acenou, foi o último a subir no caminhão.

Com poucos meses da partida de Pedro, as cartas cessaram de chegar. O carteiro não trouxe mais nenhuma e sempre fazia cara de dó para mim. Eu entendi. A cabeça ficou a mil e eu só pensava nele. Até que não queria mais comer, nem ajudar minha mãe a arrumar a casa. Somente queria dormir.

Um dia, fui até o trilho do trem, descalça, cabelos esvoaçando ao vento morno. Naquele dia, eu usava o vestido que Pedro me deu de presente quando fiz quinze anos. Era a coisa mais linda! Ainda podia sentir o perfume que Pedro colocou nele. Fiquei em pé sobre o trilho, braços abertos, olhando para o horizonte. Senti o vento sacolejar o vestido. Resignada, esperei o maquinista passar ao meio dia, mas o trem não veio. Isso nunca acontecera antes. Jamais o trem deixou de apitar e soprar sua fumaça pelo vale de Várzea. Cansada, sentei-me. Passei quase o dia todo acomodada ali nos trilhos, na esperança do trem passar e me levar para o mundo onde eu acreditava que Pedro estivesse.

Antes que a noite viesse, fui para casa. Dois dias depois, fiquei sabendo que o trem estava avariado. As peças eram caras e não o iriam consertar, pelo menos nos próximos meses. Justamente no dia em que decidi partir desse mundo! Então, achei que eu era especial. Talvez a minha vida tivesse um propósito maior, foi quando me tornei freira. A madre dizia que eu era bela, parecia a Santa. Encontrei, naquele dia, sentido para a minha vida. Então, apareceu Laura Orfeo Fränz, eis a segunda razão!

Ela era estrangeira, falava um português com sotaque carregado. Veio fugida de algum país frio que o tal do “Bigodinho Invocado” conquistou. Ainda me lembro do primeiro dia em que a vi. Tinha um vestido de seda verde-claro que costumava usar e também um chapéu com uma fita verde-escura, um colar de pérolas descansava em seu pescoço esguio. Em volta da cintura, uma fita branca. Usava luvas delicadas e um par de sapatos pretos igualzinho ao que desejei, certa vez, na Casa do Comércio quando fui à capital. Ela era ruiva, alta e charmosa. Olhos verdes, cabelos exuberantes. Os lábios carnudos estavam sempre retocados por um batom vermelho sangue. Andava imponente. Por onde passava, arrastava os olhares dos homens, mesmo os dos casados!

Ela se “apaixonou”. Não me surpreendi quando a vi com Dr. Percival. Deveria ser bem o tipo dela, apaixonar-se por homens de posses. Foi tudo muito rápido. Antes de completar um ano de sua chegada, ela estava casada. Mesmo sendo muito religioso e querendo o cerimonial na santa igreja, Dr. Percival cedeu à vontade de Laura. Após casar-se no civil, a comemoração foi num arraial improvisado, sob as bênçãos de uma curandeira dos arredores da fazenda, numa noite linda, com lua cheia e céu estrelado. Ela vestia um véu com três tons de cinza. Eu fiquei escandalizada, mas a população endeusava Laura Orfeo. Tudo o que ela vestia ou calçava, as mulheres desejavam. Já os homens pareciam hipnotizados com sua aparência. Ela encantava a todos, menos a mim. Desde o primeiro instante que a vi, eu a detestei. Também acho que ela sentiu o mesmo.

Doutor Percival simplesmente a adorava. Fazia tudo o que ela queria. Dispensou as arrumadeiras e passou ele mesmo a fazer os serviços domésticos! Veja só! Queria se dedicar completamente à esposa sem que ninguém se intrometesse. Seus desejos ficaram reduzidos a ela, Laura Orfeo. O fazendeiro quase não saía mais do casarão. Encarregou Januário de seus afazeres da fazenda e vivia somente para sua amada. Todos achavam que o doutor morria de amores por ela, mas ele estava é morrendo de verdade! Estava mais magro, pálido e seus ombros se inclinavam para frente. As olheiras eram profundas, parecia que ele não dormia há semanas. Mesmo assim, parecia feliz e trabalhava de manhã à noite, limpando a casa, cozinhando para ela e massageando seus pés.

Nas raras vezes que o encontrei, Dr. Percival carregava um discreto sorriso no rosto e seu semblante tinha um aspecto cadavérico. As veias das mãos e do pescoço pareciam saltar e o silêncio tomou conta de sua boca. Outrora falador, agora andava entre nós com um silêncio lúgubre. Em poucos meses de casados, ele veio a falecer. Amanheceu morto na cama e logo foi enterrado. Ninguém questionou nada, acharam mesmo que chegou a hora dele. Laura convenceu a todos que ele falecera do coração.

No dia do enterro, Laura chorava demais. Era consolada por todos, menos por mim que desconfiava daquelas lágrimas com cheiro de ferrugem. Sim, o odor dela parecia a de ferro igualzinho ao do trilho do trem. Apesar de parecer abalada com a morte do marido, ela parecia mais robusta de quando chegou à Várzea.

A irmã de criação do Dr. Percival passou a morar no casarão da fazenda e a tomar conta de Laura. Dondinha era seu nome, uns dez anos mais nova que o irmão. Uma mulher extrovertida e solteirona. Coincidentemente, minha madrinha. Morava na capital. Comprou uma casa com dinheiro que o irmão dera a ela da parte da herança que lhe cabia. Na verdade, bem menos do que ela tinha direito, mas ela não reclamou. Trabalhava como telefonista, porém largou tudo para ajudar Laura, atendendo a um pedido de uma carta que o fazendeiro mandou três semanas antes de falecer. Os afazeres domésticos eram todos dela, enquanto Laura fazia crochês o dia todo. Dondinha fazia tudo o que Laura mandava, sempre obediente. Por diversas vezes, eu encontrava com minha madrinha na feira, até o dia em que Dondinha já não apareceu mais.

Passados vários dias desde o último encontro com minha dinda, eu e a madre Rosária decidimos ir ao casarão visitá-las. Chegamos de charrete conduzida pelo meu primo Toninho, dois anos mais velho que eu e apaixonado por mim. Ele ficou esperando enquanto eu e a madre chamamos pelas moradoras à porta da casa. Cansadas de esperar, entramos no casarão para ver como andavam as coisas, para sabermos se Dondinha e a viúva estavam bem de saúde. A madrinha estava vestida a trapos, esfregando o chão com uma das mãos, com um olhar “morto” em direção à parede. Já Laura estava trancafiada em seu quarto e nem nos atendeu. Batemos na porta, porém ela disse que ainda estava de luto e não queria conversar com ninguém. Respeitamos e voltamos a estar com Dondinha. Ela nos serviu café e bolo de fubá. Disse que Laura era uma flor de pessoa. Eu questionei se Laura a ajudava nos afazeres domésticos, mas ela respondeu que Laura Orfeo Fränz era muito delicada para serviços pesados e acrescentou que a dona da fazenda passava o tempo lendo livros esquisitos e muito velhos, costurando bonecos e hidratando a pele macia com leite de cabra e mel na banheira da primeira esposa do falecido. É claro que me indignei, mas madre Rosária mandou que eu me calasse. No caminho de volta, a madre disse que eu estava com ciúmes de Dondinha, por ser minha madrinha e só ter amores por Laura. Disse que meu coração estava cheio de pecado. Engoli a seco, imaginando que até madre Rosária estava possuída de encantamento por Laura Orfeo. Nós a deixamos no convento e eu segui de charrete para casa dos meus pais. Morria de saudades deles que estavam realizados por eu ter me tornado freira.

No caminho da casa dos meus pais, Toninho confessou que Laura abriu a janela e eles ficaram se olhando. Ele disse que nunca viu mulher tão bela, de uma beleza diferente, hipnotizante. Não sustentei a conversa com meu primo. Senti foi muito ciúme dele! Crescemos juntos e Toninho sempre quis me namorar, mas eu nunca me imaginei beijando a boca de um parente, que dirá me casar com um rapaz de minha família! Para mim, Toninho era apenas um irmão que nunca tive. Era ingênuo e muito simples, seus sonhos moravam em Várzea. Eu, mesmo sendo freira do interior, me imaginava rodando o mundo, inclusive queria ir ao Vaticano conhecer o papa. Por um instante, tive a impressão de que Toninho estava encantado.

Passados alguns dias, algo estranho aconteceu. Toninho entrou correndo pela igreja, interrompendo a homilia que padre Benício fazia naquela manhã quente de domingo. Anunciou que Dondinha estava morta e seu corpo pairava dentro do casarão. O rapaz tremia e chorava, consternado. O padre o repreendeu, achando que Toninho tivesse bebido muita aguardente e procurava atrapalhar a reunião dos crentes. Mas todos sabiam do temperamento pacífico do rapaz e que ele nem gostava de bebida forte. Então, o povo convenceu Padre Benício a dar crédito às palavras anunciadas. Persuadido, o padre liderou a caminhada para o casarão. Ao chegarmos, todos nós vimos Dondinha limpando as escadas externas da casa com um belo sorriso no rosto. O pobre do Toninho foi ridicularizado. Envergonhado, negou-se a retornar conosco, permanecendo na propriedade de Laura.

Semanas se passaram. Ninguém mais viu Toninho e eu insisti com madre Rosária para voltarmos ao casarão. Fomos a pé e levamos muito mais tempo. Ao chegarmos, encontramos Toninho e Laura na frente da casa. O rapaz estava apenas com as calças compridas e descalço, embaixo do sol do entardecer, tirando água do poço. As costelas estavam desenhadas sob sua pele morena. Em poucas semanas, o rapaz robusto acostumado com a vida da roça estava esquelético! A madre evitou olhá-lo, mas eu me aproximei dele, reparando o quanto parecia anêmico. Toquei minha mão em seu rosto frio e cinzento. Ele sequer olhou para mim. Seus olhos sem brilho e roxos estavam acorrentados a um único foco, Laura Orfeo. Trêmulo, o rapaz saiu da minha frente, carregando horizontalmente em seus ombros um pau de madeira cujas extremidades pendiam baldes cheios de água. Ele caminhou lento com certa dificuldade e entrou no casarão.

Laura colocou uma mão sobre a outra e apoiou o queixo, encolheu os ombros e inclinou a cabeça para o ombro esquerdo. Suspirou e sorriu para mim. Não um sorriso de boas-vindas, mas com escárnio e zombaria. Meu rosto se enraiveceu e não adiantou as repreensões de madre Rosária para que eu me portasse benevolente. Chamei por Dondinha. Esbravejei o nome dela e de Toninho para que saíssem da casa, porém não fui atendida. Indaguei à Laura sobre eles. Ela falou que Dondinha estava descansando e acrescentou que havia contratado Toninho para os afazeres domésticos. Eu me escandalizei de novo, como poderia uma recém-viúva de luto colocar um rapaz dentro de casa? Olhei para madre Rosária e ela simplesmente abaixou a cabeça e mandou que eu cessasse aquele interrogatório tolo. A madre concluiu que tudo estava bem, tomando o caminho de volta, mas eu me neguei a acompanhá-la. Fiquei diante de Laura, olhei com fúria em seus olhos e antes que eu pudesse vomitar tudo que eu pensava sobre ela, senti algo estranho. Parecia que minha cabeça estava mais leve, não só minha cabeça, mas todo meu corpo. Uma sensação de prazer se apossou de mim e tive vontade de entrar na casa, aliás, eu ouvia uma voz que me mandava entrar. A cada passo, mais eu sentia prazer que irradiava por minha coluna e terminava nas extremidades do meu corpo. Eu tentei resistir, juro. No entanto, aquilo era mais forte e, ao mesmo tempo, eu desejava me sentir desprotegida, completamente vulnerável, desejando entregar meu corpo àquela sensação misteriosa e profana. Andei até o meio da sala. Laura ficou diante de mim e passou sua mão macia em meu rosto. Dessa vez, foi ela quem olhou profundo nos meus olhos castanhos. Então temi e o medo me ajudou a reagir, comecei a lutar contra o meu desejo de estar sob o poder de Laura Orfeo, mas minha força era pouca. Tentei levar minha mão para a cruz pendurada em meu pescoço, mas acho que minha fé foi pequena. Laura apenas sorriu como se fosse capaz de ler meus pensamentos, de sentir meus desejos. Ela disse que eu não deveria resistir. Que era inútil. Que milhares jamais conseguiram. Ela tocou meus lábios e aproximou seu rosto do meu pescoço. Dentes caninos se projetaram. Foi quando percebi o que aconteceu com Dr Percival, Dondinha e Toninho. Eu estava lá, pronta pra fazer o que ela bem entendesse, rendida ao seu poder, seu encanto, seu apetite.

Um grito me fez voltar à razão e em seguida perdi minhas forças, caindo no chão. Madre Rosária estava com a cruz em riste, a dois passos da entrada do lado de fora da casa, proferindo palavras em latim, repreendendo. Meu coração se encheu de esperança. A freira atravessou o limiar da entrada proferindo palavras santas. Por instante, senti a agonia de Laura, mas algo mudou e Laura já não parecia perturbada. Madre Rosária começou a tremer, sua mão direita mal segurava o crucifixo prateado. Talvez a madre estivesse fraquejando e ali Laura encontrou forças para reagir. À medida que Laura se aproximava, madre Rosária se curvava, a língua da minha tutora enrolou, ela sufocava. O crucifixo caiu no chão, tinindo no assoalho de madeira. A madre já se encontrava de joelhos. Laura a levantou pelo pescoço com uma só mão a colocando diante de si, deixando seus pés se debaterem. Madre Rosária convulsionava e não tinha forças para aliviar a pressão que sofria no pescoço. Eu não tinha forças para me levantar, não dentro daquela casa tenebrosa. Comecei a me rastejar até a porta que estava aberta para gritar, suplicar ajuda. Antes que pudesse atravessar o vão da porta, senti um pé sobre minhas costas. Era Toninho, ou o que um dia fora meu primo. O olhar dele era apavorante. Parecia mais como uma coisa ambulante, um zumbi talvez. Eu só sei que quando vi Laura se embebecendo no pescoço de madre Rosária, uma força de vontade tomou conta de mim e me debati ao pé de Toninho. Acho que ele aliviou a pressão porque quis, por um instante tive a impressão de que ele sofria e lutava contra o controle de Laura. Consegui me livrar do pé de Toninho e me jogar pelo vão de entrada que se tornou o de saída. Corri como jamais havia corrido na minha vida, só então me dei conta de que já era noite e que o último filete de luz havia desaparecido. Quanto mais eu me afastava da casa, mais forte me sentia e somente tinha um objetivo: chegar à igreja e pedir ajuda ao padre Benício. Corria desesperada, em busca de um atalho, sentindo os galhos finos do matagal machucando minha pele. Tropecei em alguns momentos, mas me levantava com mais obstinação para chegar ao meu refúgio. Seguidas vezes, olhei para trás e sentia no meu coração que estava sendo perseguida, embora não avistasse ninguém. Quando cheguei ao largo, atravessei a pracinha dos Libertos, olhei para trás, ela estava lá! Olhei ao redor e não havia absolutamente ninguém e só então me dei conta de que aquele dia era o do ato de penitência, dia em que os fiéis deveriam ficar reclusos em seus lares rezando e jejuando de meio-dia até meia-noite.

Entrei no templo, bufando. As velas estavam acesas no altar e nos castiçais. Umas sete dúzias delas em diferentes lugares e posições. Eu imaginava que aquele ser profano não se atreveria, mas para meu desespero Laura Orfeo entrou no templo pisando em solo que para mim era sagrado. A feição dela continuava a mesma, os lábios levemente zombeteiros, olhos penetrantes. Caminhava calma sobre o tapete vermelho, com ar triunfante. Minhas pernas e braços estavam todos cortados pelo matagal e pequenos filetes de sangue brotavam. A roupa de noviça estava rasgada e já não havia mais cruz pendente no meu pescoço. Eu que estava no tapete vermelho senti minhas pernas fraquejando e caí. Rastejei-me de costas, assustada, acuada e ferida para a lateral do templo numa tentativa desesperada e até patética de fugir pela janela.

Inesperadamente, uma ventania passou a ser constante no sacrossanto lugar. Os bancos começaram a flutuar e a girar com velocidade em torno de Laura, chocavam-se, espatifavam-se. Laura exibia poder! A coluna de madeira do teto não estava suportando o balançar frenético da cruz, as velas foram se apagando uma a uma, até sobrar uma única que teimava em reluzir aos pés do Santo.

Laura parou no meio da igreja, sobre o tapete vermelho, logo abaixo da cruz pendente. Eu só vi a coluna principal de madeira da armação do teto ceder e a cruz cair. Foi tudo tão rápido que pensei: “é o fim de Laura Orfeo”, mas ela sumiu e reapareceu a minha frente; se não foi isso, foi algo parecido! A cruz quedou no meio da igrejinha. Por instantes, acreditei que ela fosse tombar para o lado de Laura, esmagando-a, porém tombou para o lado oposto.

Eu ainda tinha esperança. Só vi Laura voltando seu rosto para mim, pronta para destruir minha existência. Foi nesse momento que fechei meus olhos e pensei nas poucas palavras em português que padre Benício já falara: fé, esperança e amor, dessas três as que me importavam mais eram a esperança e a fé. Então, senti o calor, o calor do fogo que tinha tomado o tapete, olhei mais adiante e vi o altar em chamas, lembrei-me da última vela que teimava em viver, que reluzia e que provavelmente caiu quando a cruz impactou o chão. Aproveitei a breve distração de Laura, por causa do fogo e alcancei uma estaca de madeira, resto dos bancos estilhaçados. Levantei-me com todas as minhas energias e quando Laura se virou para mim, estoquei-a com todas as forças no coração dela. A mulher grunhiu de dor, sua bela face agora revelava o que ela realmente escondia. Um rosto hediondo e horripilante substituiu o outrora rosto cobiçado de Laura. Olhos esbugalhados pareciam saltar de sua face seca, a pele sedosa do belo corpo transformou-se num couro purulento e medonho. Nem sei o que era Laura. Uma bebedora de sangue com poderes sobrenaturais? O zumbi de uma bruxa? Uma parasita do inferno? Não importava, Laura Orfeo era somente degradação.

Ela titubeou e se moveu para trás, caindo sobre a cruz que estava em chamas. Em seguida, a coluna de madeira do teto se rompeu e caiu sobre aquele monstro. Mesmo debaixo dos escombros, ela grunhia. O calor do fogo era acompanhado do estalar crepitante e do cheiro da fumaça. Milagrosamente, o teto não me atingiu, mas meu pé ficou preso. Eu me esforçava para me libertar, não queria morrer tostada ao lado daquela criatura. Por mais que me esforçasse, não conseguia e a fumaça me sufocava. Eu me deitei chorando, não desejando morrer. Antes de desfalecer, vi o vulto de uma cabeça surgindo por entre a fumaça. Padre Benício conseguiu me resgatar.

Ainda nos braços do padre, recobrei minha consciência e pude ver aquele fogaréu quase tocando no céu. O povo de Várzea estava ao redor da igrejinha, todos de mãos dadas fazendo um grande círculo. Foi tudo muito rápido, mas o suficiente para saberem e se unirem.

Agora, Laura Orfeo era apenas uma memória.

Sentada no banco da praça dos Libertos, eu vi o caminhão do exército, seguido por um carro militar. Para minha alegria, o primeiro que saltou foi Pedro Luiz, sempre afoito. Ao me reconhecer, ele correu em minha direção. Nós nos abraçamos tão apertado que não queríamos desatar. Enfim, quando começamos a conversar ele falou que o “Bigodinho Ensandecido” havia sido derrotado e que a tirania havia sucumbindo nos países frios do outro continente.

Sentada numa pedra, na colina da linha férrea, eu vi o trem passando. O maquinista ao ver eu e Pedro abraçadinhos debaixo do sol de meio-dia logo tratou de apitar. Suspirei. Nós nos olhamos. Foi o beijo mais longo da minha vida.

Padre Benício decidiu fazer seus sermões em português, dialogar com suas ovelhas, compartilhar sua fé de modo mais racional possível. Sentados nos novos bancos estavam Toninho e a irmã de Pedro, lado a lado, encantados um com o outro. Dondinha vestia uma bela roupa e tinha o semblante carinhoso de sempre. Madre Rosária acenou para mim, aprovava minha escolha de haver entregado meu coração para Pedro.

A igreja estava cheia. Na nova igrejinha, erguida pelo povo, a nova cruz foi colocada dentro, acessível, tocável. Símbolo de sofrimento e de amor.

Rio de Janeiro, Várzea, 31 de outubro de 1946.

Mariana Lorenzo Trindade.

27 de Octubre de 2019 a las 23:47 0 Reporte Insertar 1
Fin

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