Mago dos Videogames Seguir historia

lebloncarter Leblon Carter

A história narra as férias escolares de Felipe nos anos 90. Durante esse período, ele volta a visitar o antigo fliperama de seu bairro, onde passava boa parte do seu tempo antigamente. Lá, ele conhece Emerson, o garoto que roubou seu título como o Mago dos Vídeo Games. Com o decorrer da narrativa, Felipe e Emerson vão se aproximando cada vez mais e percebendo que as afinidades entre os dois não é presente apenas nos jogos eletrônicos, mas também no amor.


Cuento No para niños menores de 13.

#descoberta #amor #Colegas #amigos #romance #amizade #anos90 #fliperama #jogo #juvenil #adolescente #conto #fanfic #gay
Cuento corto
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Mago dos Videogames

Era uma tarde ensolarada em um pequeno bairro próximo ao centro da cidade. O verão havia chegado e com ele as férias escolares. A época do ano pela qual Felipe esperou angustiosamente. Suas notas não tinham sido as que seus pais almejavam, e por esse descuido, ficou sem ganhar seu videogame.

Foram dias e noites de choro até que os três entrassem em acordo. Se as notas de Felipe conseguissem atingir a média sete, receberia o presente no final do ano e poderia jogar durante toda as férias de verão.

Porém, como seu cérebro não estava muito apto para a matemática e biologia esse ano, não conseguiu tirar nenhum número acima de quatro. Como castigo, além de ficar sem o videogame, é obrigado a passar suas férias em casa. E não há frustação maior para um adolescente de quatorze anos do que não ter absolutamente nada de instigante para contar sobre suas férias para os amigos na volta às aulas.

Seu pai trabalhava em uma fábrica de autopeças de carro e sua mãe cozinhava em uma casa de repouso. Mesmo estando sozinho em casa, Felipe não encontrava nada de interessante para fazer. Seu videogame tinha sido um sonho nos últimos nove meses e tudo com o que ele contava naquela época do ano. Nada poderia satisfazer seu desejo. Nem os jogos de tabuleiro guardados por sua mãe e nem a bola de futebol ganha de presente de aniversário de seu pai.

Por um breve momento, surgiu a terrível ideia de ir brincar na rua ou ir à praça mais próxima para se entreter um pouco. Esqueceu que seus pais deixavam o portão trancado e seus vizinhos à espreita caso Felipe tentasse sair de casa. Ambos se preocupavam muito com sua segurança e integridade. Qualquer medida de proteção, mesmo que similar a cárcere privado, era bem-vinda por eles.

Porém, Felipe nunca foi do tipo ingênuo. Suas artimanhas já não eram surpresa para seus pais. Mesmo com pouca idade, planos mirabolantes sempre rondaram sua cabeça. Ao folhear a mais recente revista de videogames do ano, encontrou em uma das páginas sua mais nova obsessão. O árcade Deadly Resigns tinha sido lançado há pouco menos de quatro meses. O mais novo jogo de luta que deixou adolescentes de todo o bairro babando. Ele lembrou na hora dos intervalos entre aulas que passou conversando com seus amigos sobre quem seria o primeiro a vencer o jogo. Promessa essa que não tinha conseguido cumprir até então. Foi nesse momento que a ideia de fugir até o fliperama no centro da cidade surgiu em sua mente.

O portão não era alto e seus vizinhos estavam ocupados de mais conversando entre si, regando as plantas do quintal ou preparando o almoço para prestar atenção nele. Seu cofrinho continha moedas de todos os valores. Seu pai quem depositava uma nova todo dia lá. Ele não sabia, mas na parte de baixo havia um furo. Furo esse pelo qual Felipe conseguia tirar uma moeda toda vez. Nunca passou por sua cabeça a razão pela qual o cofrinho ficava mais leve a cada dia.

De uma só vez, ele sacou quatro moedas de vinte e cinco centavos cada. O suficiente para quatro fichas no fliperama. Seu único medo era de que o jogo não tivesse chegado em sua cidade ainda. Por não ser muito conhecida, tudo sempre chegava mais tarde. O que se tornava novidade para eles, era ultrapassado para o resto do mundo. Com seu tênis mais novo, uma bermuda cinza e uma regata branca, se esforçou ao máximo para pular pelo portão de aço com grades longas e estreitas. Com um pé em cada grade, impulsionou seu corpo para cima e depois saltou. Graças ao tênis, sua queda foi amortecida. As molas pressas próximas a sola deixavam seu caminhar macio e silencioso. Em sua mão direita estava a revista de jogos do ano de mil novecentos e noventa e cinco.

Algumas pessoas circulavam na rua. Por ser uma cidade pequena e pouco habitada, todos ali se conheciam. Foi difícil para Felipe tentar se manter anônimo todo o tempo. No fundo ele sabia que se seus pais descobrissem que ele pulou o portão de casa para ir jogar fliperama, perderia para sempre suas chances de ganhar um videogame.

Demorou cerca de quinze minutos até que ele chegasse ao centro da cidade. Uma praça esverdeada com enormes árvores que criavam sombras gigantescas e dezenas de comércios deixava o lugar mais vivo. Mais à frente ficava o fliperama. Em seu letreiro, palavras iluminadas e chamativas com detalhes em neon. Duas batidas com ambos os pés no chão antes de entrar se tornou o movimento da sorte de Felipe. Foi assim que ele garantiu a vitória no último campeonato de Pacman do fliperama.

Quando sua mão tocou a maçaneta e girou, um pequeno sino no alto da porta soou por todo o lugar. Um homem mais velho, aparentando ter por volta de vinte anos, olhou direto para onde ele estava.

– Felipe! Pensei que tinha esquecido daqui. Nunca mais apareceu – disse o jovem, surpreso ao vê–lo ali novamente. – Voltou para ganhar mais um campeonato de Pacman?

– Foi mal! Fiquei preso na escola. Precisava tirar notas boas para conseguir ganhar o videogame que meus pais prometeram.

– Pelo visto, não deu muito certo – disse, soltando uma leve gargalhada. – Como conseguiu vir sem ser supervisionado pelo seu pai? Lembro que ele sempre te acompanhava em tudo. Até mesmo nas finais do campeonato.

– Digamos que eu vim para cá de uma maneira não convencional. Precisava conferir uma coisa.

– Hm, não me diga que está atrás dele?

– Sim. Já chegou? Por favor, diz que sim. Estou ansioso faz meses. E sem meu videogame, esse fliperama é minha única salvação.

– Sim, ele chegou. Deadly Resigns, o jogo mais esperado do ano. Está aqui há apenas duas semanas e pouquíssimas almas tiveram o prazer de desfrutar de seus quatro botões embutidos.

– Quatro? Isso é novidade, não é?

– E não é só isso. Os gráficos estão sete vezes mais realistas que qualquer um. Fora a caixa de som acoplada que consegue ser maior que todos os outros árcades juntos. Me custou uma bela grana. Porém, vale a pena. Já desperdicei horas do meu fim de expediente nessa belezura.

– Não diga mais nada, Junior. Apenas pegue o meu dinheiro e me entregue as fichas. Hora de desenferrujar.

Felipe entregou as quatro moedas de vinte e cinco centavos para Junior e logo em seguida quatro fichas metálicas foram despejadas sob a palma de sua mão. Outros jovens jogavam nos árcades ao lado. Corrida, RPG e aventura. Todos se desdobravam nessas três categorias. O árcade que fez com que Felipe pulasse o portão de casa se encontrava há poucos metros dali. No fundo do corredor estreito e apertado. Os outros jovens do local mantinham seus olhares fixos para a tela. Mal piscavam. Cada fechada de olho significava uma vida perdida e uma ficha gasta.

Seus dedos vibravam antes mesmo de tocar nos controles. Ao se aproximar da tela, pode ler com clareza as opções expostas no menu de seleção. Ela pedia que a ficha fosse inserida para que o jogo fosse liberado. E assim Felipe o fez. Colocou para dentro a ficha de metal e foi logo para a seleção de personagens. Escolheu o mais descolado, na concepção dele. Um android com parafusos no topo da cabeça e o corpo blindado por uma armadura dourada impenetrável. Ele derrotou um, dois, três, quatro personagens em sequência. Perdeu duas fichas, mas chegou ao chefão final. Deu um salto para cima, agachou, soco, soco, soco, chute alto, chute baixo, meia–lua para frente e bloqueio. Combinação que ficou gravada em sua mente.

Com isso, conseguiu vencer o jogo. Quando os créditos rolaram e letras subiram para que seu nome fosse posto no placar de vencedores, notou algo estranho. A maior pontuação pertencia a um tal de “Mago dos vídeos games”. O número era quase o dobro do que Felipe tinha conseguido durante a jogatina.

– Algum problema? – perguntou Junior, ao notar a expressão de estranheza no rosto de Felipe. – Não conseguiu derrotar o chefão final? Muitos já reclamaram da dificuldade dele. Até tentei reconfigurar o árcade, mas foi sem sucesso.

– Não. Não é isso. Quem é esse tal mago que possui a pontuação mais alta? Impossível conseguir algo assim com apenas duas semanas. Tem certeza que não há nenhum tipo de Hack aqui?

– Claro que não. Isso iria queimar o filme do meu fliperama. Todos os árcades são protegidos contra qualquer tipo de vantagem que possa dar ao jogador. Imagine a treta que eu teria se as pessoas acreditassem que os campeonatos foram forjados com Hack? Ninguém mais iria querer jogar aqui.

– Temos que tirar isso a limpo. É impossível que alguém tenha feito uma pontuação tão alta em tão pouco tempo de prática. Você o conhece?

– Ele veio aqui algumas vezes apenas para zoar. Tem cara de ser aquele tipo de garoto rico que mora do outro lado da cidade e que vem para cá apenas por curtição. Aparece geralmente de tarde. Talvez venha amanhã.

– Vou tentar vir para ver se ele é realmente bom como aparenta. Talvez ele esteja apenas usando algum truque ou falha no jogo para vencer.

– Se isso for verdade, ele ficara banido desse fliperama para sempre. Ou eu posso triplicar o valor das fichas dele. Odeio esses caras manés.

– Pode deixar, Junior. Se ele estiver trapaceando, vamos arrebentar a boca do balão. Nunca mais o mauricinho vai querer pisar nesse lado da cidade.

No dia seguinte, após seus pais saírem para trabalhar, Felipe tratou de correr para o fliperama. Já estava de tarde e, como ele previu, Junior o esperava na porta de entrada para recepciona–lo.

– Ele está lá no fundo. Não quis confronta–lo na hora que chegou porque todos os garotos do bairro foram correndo para vê–lo jogar. Pensei em dizer algo, ou apenas proibi–lo de entrar, mas seria injusto sem nenhuma prova em mãos. Preciso de algo concreto para que eu possa bani–lo.

– Ele não pode ser tão bom assim. Mesmo que todos os outros estejam lá babando ovo dele. Ninguém consegue acumular experiência tão rápida em um jogo lançado há pouco tempo.

– Toma – exclamou Junior, entregando uma das fichas do fliperama para ele. – Use em uma das máquinas próximas e tente descobrir o que está acontecendo.

– Certo. Vou ir para a do Nitro Kart. É a mais próxima de onde eles estão.

Felipe foi até o final do corredor do fliperama onde um aglomerado de jovens ficavam em volta de uma máquina que emitia luzes brilhantes e sons ensurdecedores. Todos vibravam a cada novo soco que o adversário levava. Felipe inseriu sua ficha na máquina mais próxima e fingiu se concentrar no jogo.

Seus olhos estavam mais atentos para quem estava apertando os botões da máquina ao lado do que na escolha de seu carro. Com o grito de torcida de todos ali em volta, o chefão final foi derrotado. Os mais velhos do lugar, dois garotos de aproximadamente dezesseis anos, o ergueram no alto e passearam com seu corpo minúsculo sobre os ombros por todo o fliperama.

Na tela de créditos, sua segunda vitória tinha sobreposto o nome de Felipe, que agora se encontrava em terceiro lugar. Ele não compreendia o que demais tinha acontecido. Os movimentos que usou, os personagens que escolheu, os adversários que derrotou e os cenários pelos quais passou foram os mesmos. Nenhuma trapaça ou truque foi utilizado. Pelo menos, não que ele ou metade do bairro tenha visto. Talvez apenas suas habilidades tenham se sobressaído. Uma técnica ou outra que Felipe ainda não tinha aprendido. Tempo era o que não lhe faltava durante as férias de verão. E seria nisso que ele gastaria metade do seu dia dali para frente.

Quando os dois adolescentes o colocaram no chão, Felipe pode ver mais de perto seus traços. Ele usava uma bermuda jeans, uma camiseta branca com listras azuis e um tênis tão claro que nenhuma mancha sequer podia ser vista. Seu cabelo era loiro escuro e tinha uma franja que ficava jogada para o lado esquerdo de seu rosto. Sua pele tinha tons de vermelho cereja, como se tivesse ficado exposto ao sol por muito tempo.

Felipe o analisou por algum tempo e, quando o olhar de ambos se cruzou, ele tratou de virar seu rosto novamente em direção a tela do árcade que fingia se concentrar. Depois de alguns minutos, todo o alarde pela vitória do menino novo se esgotou. Felipe já havia gastado a ficha entregue por Junior e nada do que os dois tinham especulado se tornou, de fato, verdade.

Como já estava de noite e seus pais não demorariam a voltar, tratou de sair do fliperama o mais rápido possível. Ao cruzar a porta, deu de cara com o garoto em frente a ela com um pacote de jujubas em mãos. Suas mandíbulas mastigavam suavemente enquanto seu olhar rondava todos os lugares próximos dali. Felipe tentou passar reto e ignorar o fato de que não era mais o jogador número um do fliperama, mas um leve assovio atraiu sua atenção.

– Cara, você sabe onde tem uma loja de conveniências próxima daqui? Preciso levar uma caixa de sabão em pó para o meu pai. Tentei procurar em todos os lugares, mas não encontro.

– Acho que tem uma descendo a rua, porém, leva uns dez minutos até chegar lá. Vai cansar sua perna indo a pé.

– Sem problemas. É caminho de casa. Obrigado pela ajuda – disse o garoto, se virando em direção a rua da qual Felipe havia lhe mencionado.

– Espera! Você é aquele tal mago dos vídeos games? – perguntou, já sabendo a resposta.

Uma leve levantada de sobrancelha foi o suficiente. Um ar profundo tomou conta de seu peito antes mesmo que algo fosse dito.

– Eu mesmo. Estava me apreciando lá dentro junto com os outros?

– Não. Só queria saber quem era o novo número um do fliperama. Perder um título de respeito sempre deixa o ego machucado.

– Ah, você é aquele tal de Felipe que ganhou o campeonato de Pacman e tinha o nome no topo do ranking de praticamente todos os árcades?

– Exato. Não sou de me gabar, mas eu cresci vindo aqui. Manter esses recordes meio que se tornou minha obrigação. Ainda mais agora que eu não consegui meu videogame.

– Tá falando do novo Atari? Ganhei de presente mês retrasado. Deadly Resigns foi o primeiro jogo que eu comprei.

– Você tem esse jogo em casa? O mesmo que está jogando aqui?

– Sim. Eu costumo jogar todo dia. Claro, agora que estou de férias. Meus pais não me deixam ligar o videogame em dias que tenho aula. Se fosse assim, não iria mais querer ir para a escola.

– Se você pode ficar de boa em casa jogando sem que ninguém te perturbe, por que vem até aqui?

– Não é óbvio? O desafio. A única competição que tenho dentro de casa sou eu mesmo. Nunca há ninguém para superar ou vencer. Além do próprio jogo. Eu já tinha vindo aqui algumas vezes com o meu primo. É o fliperama mais próximo da minha casa.

– É por isso que você é tão bom. Você tem praticado. Junior e eu tínhamos pensado que era algum hack ou algo assim.

– Hack? Sou totalmente contra isso. A única vantagem que levo contra vocês é a prática. Já descobri todos os pontos fracos dos personagens e qual movimento rende mais pontos para o placar final.

– Quando eu tiver o meu videogame e puder praticar o dia todo como você, talvez volte a ser o número um do fliperama e ter meu nome no topo dos rankings.

– Você não precisa esperar até ter o seu próprio videogame. Eu tenho dois controles. Você poderia ir lá em casa praticar.

– Seus pais não vão brigar? Os meus odeiam quando eu levo alguém lá em casa sem avisar antes. Minha mãe sempre diz que quer preparar alguma coisa gostosa para comer e meu pai gosta de ficar na sala tomando cerveja e assistindo futebol sem ser atrapalhado.

– Não. Os meus são separados. Minha mãe mora em outra cidade e meu pai gasta mais tempo no banco onde ele trabalha como gerente. Só volta para casa de noite.

– Ah, tudo bem. Quando você está livre?

– Amanha? Podemos nos encontrar aqui no fliperama e depois vamos para a minha casa. Vou te mostrar como um verdadeiro campeão joga.

– Você só vai conhecer um campeão de verdade quando me ver com o joystick na mão. Quero ver se sua prática funciona apenas com árcades onde a máquina controla o personagem.

– Haha! Veremos isso amanhã. A propósito, meu nome é Emerson.

– Felipe – retrucou, com um forte aperto de mãos.

– Me encontra aqui as duas da tarde e vamos para a minha casa.

– Numa boa. Até amanhã, mago.

Felipe e Emerson se despedem, partindo um para cada lado da rua. Com a noite caindo, ele tratou de apressar o passo antes que pudesse ser pego em flagra por seus pais e seu encontro com o mais novo amigo fosse arruinado.

Na data e horário combinados, os dois se encontraram em frente ao fliperama. Graças ao calor que estava fazendo em plena sexta–feira de tarde, Emerson pagou um sorvete de morango a caminho de sua casa para Felipe. Nem mesmo as bermudas e camisetas regatas impediam seus corpos de transpirarem.

Durante a longa caminhada, diversos assuntos diferentes surgiram. A banda com as melhores músicas, o programa de TV preferido, o videogame mais legal de todos. Emerson tinha quatorze anos e estudava em um colégio há quarenta minutos de sua casa.

Todo dia, no período da manhã, uma vã escolar ia busca–lo em sua porta. Diferente de Felipe que precisava caminhar todos os dias até o portão de sua escola. Caminhada que levava vinte minutos de ida e volta. A maioria do trajeto era despercebido graças a conversa com seus amigos. Igual estava sendo com Emerson. Ele nem sequer percebeu quando as árvores da praça no centro da cidade foram trocadas por prédios e fábricas industriais.

Não demorou muito a chegar em uma rua repleta de casas iguais as quais Felipe assistia pela televisão. Todas inspiradas no estilo americano. Parecia um festival de cores. Amarela, azul, vermelha, branca, com muretas, jardins e garagens.

– Não se espante. Não é tão alegre quanto aparenta. Por isso eu gosto de ir para o outro lado do bairro. Aqui é tudo muito parado. Sem graça ou diversão alguma. Todos só ficam dentro de suas casas ouvindo rádio ou assistindo televisão. Eu costumava brincar de pega–pega, amarelinha ou futebol com meus antigos amigos do outro bairro, mas desde que me mudei para cá, fiquei mais recluso em casa. Por isso foquei tanto nos videogames – exclamou Emerson.

– Sua rua parece até que saiu de um filme ou seriado. Tanta cor consegue deixar qualquer um daltônico.

Os dois pararam em frente a uma casa marrom com listras brancas. Três janelas mostravam um pouco do vislumbre do que se escondia lá dentro. A enorme porta da garagem estava fechada. Passando por uma cerca cumprida que circulava todo o terreno e grama a sua volta, Emerson tratou de tirar de seu bolso uma chave prateada presa em um cordão.

Do lado de dentro tudo estava tão limpo que qualquer pó trazido por Felipe seria sentido no ar no mesmo instante. Quatro batidas no tapete de boas–vindas com cada pé para remover resquícios de lama ou barro foi a única exigência de Emerson. A geladeira foi seu primeiro objetivo. Uma garrafa de água gelada foi servida em dois copos por ele. Felipe pegou um e Emerson o outro. A sede se mostrava tanta que nem um intervalo para respirar foi necessário.

Após isso, os dois atravessaram a sala de estar. Um longo sofá de camurça ocupava quase que todo o espaço. A janela servia de iluminação natural para o lugar. O quarto de Emerson ficava mais a frente. Uma cama de solteiro com lençóis que cobriam todas as suas pontas se tornou assento para os dois. Do lado havia uma estante com jornais, livros e revistas sobre videogames. Uma mesa para estudos com luminária e apoio para a escrita dos deveres de casa deixou Felipe com inveja. Estudar em cima da mesa de jantar nunca foi uma opção muito agradável. Um ventilador preso ao teto fazia com que o ar circulasse de forma mais fluida e natural.

– Fica à vontade. Quer comer alguma coisa?

– Não, obrigado. Você tem muitos jogos? – perguntou Felipe, olhando direto para o Atari em cima da cômoda logo a sua frente.

– Até que não. Deadly Resigns foi o primeiro que eu comprei. Também tenho Pacman, mas seria covardia jogar contra alguém que já ganhou o campeonato do fliperama.

– O que posso dizer? Esse título nem mesmo você vai conseguir arrancar de mim – murmurou Felipe, soltando uma leve gargalhada.

Emerson ligou o videogame e calibrou a televisão. Entregou um joystick para Felipe e ficou com o outro. Não demorou muito até que a pancadaria rolasse solta. Os personagens se socavam, chutavam, arremessavam objetos ao redor do cenário. Sempre quando o outro caia, o vencedor fazia uma pose de vitória. Felipe colocava as duas mãos na cintura, estufava o peito e olhava para o alto, imitando um super–herói. Emerson fazia o moonwalker para trás. Acabou acertando a quina da cama duas vezes na primeira tentativa.

Uma pausa para o lanche deixou os dedos, já inchados de tanto apertar o mesmo botão em sequência, descansarem um pouco. Os dois comeram algumas bolachas de chocolate guardadas no armário com um copo de leite. Não demorou muito até que a rivalidade no videogame voltasse. A jogatina durou cerca de trinta minutos.

Os dois estavam sentados um ao lado do outro sobre a cama. Entre um movimento ou outro, os finos pelos de suas pernas se tocavam. Toque suficiente para deixar ambos com o coração palpitando. Às vezes, parecia proposital. O controle impulsionava seus corpos para mais próximo do outro a cada partida. Felipe olhou para Emerson e tentou focar em seu rosto enquanto apertava desenfreadamente o mesmo botão para executar o golpe especial do personagem.

Queria saber se ele tinha sentido o mesmo ou se era apenas coisa da sua cabeça. Não demorou muito até que ele olhasse para Felipe:

– Que foi? Aconteceu alguma coisa?

– N–não. Apenas me distrai. Vamos continuar?

– Tudo bem – respondeu Emerson, sorridente. – Que tal fazermos uma aposta?

– Aposta? De que tipo?

– Quem perder a próxima partida vai ter que pagar dez fichas na próxima ida ao fliperama. Topa? – indagou ele, estendendo a mão.

– Moleza – concordou, selando o acordo com um aperto de mãos.

Os dois voltaram a focar suas retinas já cansadas ao televisor a frente. Não demorou muito até que suas pernas voltassem a se tocar. Acompanhado disso também estavam seus cotovelos. Que, uma vez ou outra, cutucava o ombro do colega ao lado. Felipe já sentia algo aumentar no interior de sua bermuda.

A concentração já não era mais uma palavra que poderia agregar seu subconsciente naquele momento. O foco ficava cada vez menor na tela que emitia imagens aleatórias e maior na forma que Emerson precisava os botões do controle. Sua respiração, a jogada de cabelo, o sorriso a cada golpe perfeito, as pequenas veias que se sobressaltavam na mão graças ao sangue que exercia um tremendo esforço para continuar funcionando.

O foco de Felipe estava totalmente nisso. Tanto que acabou perdendo a aposta. Seus olhos nem sequer notaram quando a barra de vida de seu personagem chegou a zero.

– Perdeu feio. Dois rounds seguidos, para ser mais exato! – se gabou.

Tudo o que Felipe conseguiu fazer foi olhar novamente para a tela e depois para Emerson. A vitória tinha deixado um gosto doce em sua boca. Um gosto que Felipe queria experimentar. Ele inclinou sua cabeça que foi levemente impulsionada por seu corpo em direção a ele.

Seus olhos fecharam e tudo o que ele conseguiu enxergar foi uma imensidão escura a sua frente. Os pequenos lábios vermelhos salivavam por algo que pudesse toca–los. Felipe sentiu quando uma respiração mais profunda se aproximou de suas narinas. Aquele frágil pedaço de carne encontrou com os seus e uma leve lágrima escorreu por entre sua virilha. Sua mão deslizou pelo ombro de Emerson e se entrelaçou com a dele. De sua mão esquerda, sentiu o joystick escorregar e atingir o chão. Barulho que despertou ambos do transe. Ao abrir os olhos, Felipe viu seu rival e atual amigo se desvencilhar de sua investida e afastar o rosto calmamente. Seus lábios estavam vermelhos como seu rosto. Seu olhar assustado se estendeu até alcançar a porta, e não precisou dizer nada para que Felipe entendesse a mensagem.

– Desculpe! – disse ele, se levantando e partindo em direção a porta de saída da casa.

Seus olhos misturavam medo, aflição, culpa e arrependimento. A noite já havia caído sem que ele percebesse. Os passos foram apressados para que pudesse chegar em casa sem levar uma bronca ou castigo. Na rua de sua casa, conseguiu ver de longe a luz da cozinha acesa através da janela. O pior já o aguardava, pensou. Dito e feito. Quando o primeiro pé adentrou o corredor da casa, não demorou muito até seu pai saltar de cima do sofá para recepciona–lo.

– Onde você estava, Felipe? – indagou um homem alto, velho, com uma barba por fazer e a camiseta desabotoada em três botões. Uma garrafa de cerveja na mão esquerda acompanhava seu breve discurso.

– Pai! Eu estava no fliperama jogando. Não foi nada demais – respondeu, tentando escapar com o olhar e evitar que as lagrimas fossem vistas.

– Nada demais? Sabe o quão preocupado eu estava? Sua mãe ainda não voltou do trabalho. Poderia ter acontecido o pior com você indo até aquele fliperama. Essa foi a última vez que saiu sem autorização. A partir de manhã vou começar a construir um muro em volta daquele portão para que você não pule. Até que ele esteja pronto, está de castigo. Vai ficar no seu quarto sem rádio, televisão, fliperama ou qualquer coisa que seja divertido.

Felipe não discutiu. Estava cansado de tentar dialogar com seu pai sobre o fliperama ou se divertir com os amigos da rua. Qualquer coisa era perigosa demais na concepção deles. Em tudo o que ele conseguia pensar era no Emerson e em quando veria ele novamente. Sabia que o fliperama seria sua única e última chance e nada podia atrapalhar isso.

Seus olhos ainda estavam vermelhos pelas lagrimas da madrugada e a noite mal dormida. Pela manhã, Felipe tentou levar tudo na normalidade. Sua mãe preparava o almoço e seu pai pensava em uma maneira de construir um muro maior para o portão. Sábado. Dia de folga para os dois e de pesadelo duplo para Felipe. Em seu cofrinho de natal ainda restavam algumas moedas. Após o almoço, esperou seu pai adormecer no sofá escutando o jogo de futebol e sua mãe ir para o quintal na parte de trás para lavar roupa. Seria a última vez que ele pularia aquele portão. E Felipe o fez sem hesitar.

O fliperama ficava há poucos metros dali. Seus pés doíam graças a rapidez com que usou para chegar até lá. Junior, como de costume, estava no balcão. Não ficou surpreso ao ver Felipe ali logo cedo.

– Felipe! Veio para mais uma tarde de jogatina? – exclamou.

– Não. Quero dizer, talvez. Você viu o Emerson por aqui? – sussurrou, tentando não ser descoberto.

– Quem é Emerson? – sussurrou de volta.

– O mago dos vídeos games. Ele está aqui?

– Ah! Sim. Está lá no fundo. No mesmo árcade de sempre.

– Hm. Obrigado. A propósito, me dê dez fichas – ponderou.

– Para que tudo isso? Quer quebrar um novo recorde ou apenas testar todos os jogos do fliperama?

– Anda logo – suplicou, aflito.

Junior pegou as moedas entregues a ele em troca das dez fichas metálicas. Felipe foi até o fundo do fliperama, onde Emerson mergulhava insanamente em seu jogo. Dessa vez, não havia uma plateia para assisti–lo. Era apenas Felipe quem o admirava jogar. De sua mão, ele selecionou uma ficha e encaixou na superfície abaixo do árcade. Emerson arqueou a sobrancelha ao vê–lo ali. Mesmo que surpreso, um leve sorriso tímido surgiu no canto de sua boca.

– O que você está fazendo aqui? – perguntou, tentando não desvencilhar seu olhar da tela luminosa.

– Tem espaço para um segundo jogador? – retrucou, assumindo os controles que estavam do lado direito.

– Talvez. Vai perder e sair correndo de novo?

– De jeito nenhum. O título desse fliperama ainda é meu.

– Bom saber. E que tal se fizermos outra aposta?

– Outra aposta? – murmurou, atônito, antes mesmo que pudesse selecionar seu personagem na tela inicial do jogo.

– Se eu ganhar, você me diz porque fez aquilo. Combinado?

– A-acho que sim – concordou, nervoso. – E se eu ganhar?

– Você faz de novo.

16 de Octubre de 2019 a las 04:57 0 Reporte Insertar 0
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Leblon Carter Escritor de APEC e QALSA 🏆 Número #1 dos mais vendidos na minha cabeça 💊 Esquizopoc 🎈 EU SOU O CENTRO DO UNIVERSO E POSSO PROVAR 💥

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