Mar numa concha, céu numa rede Seguir historia

hunterprirosen HunterPri Rosen

Objetos podem carregar significados únicos e conter uma magia especial. A vida de Sofia ao lado do avô, Seu Olímpio, estava repleta de objetos assim. Simplesmente mágicos


Drama No para niños menores de 13.

#morte #luto #infância
Cuento corto
3
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Capítulo Único

Notas Iniciais: História escrita para o desafio mensal (outubro/2019) do @DesafiosFanfics do Spirit, cujo tema é Objetos.

Havia uma lista de itens, sendo que a história deveria conter pelo menos 2. Os objetos que escolhi foram esses (ordem de aparição): rede, concha, balão de gás hélio, antena parabólica, óculos laranja, chinelos Havaianas, vestido branco, velas, unicórnio de pelúcia, roupinha de gato e estetoscópio.

História postada no Spirit e Nyah também.


***

No auge de seus sete anos, Sofia sabia muito bem o que queria da vida: brincar com o vovô Olímpio à exaustão.

Férias e finais de semana com ele eram sempre os mais divertidos. E não só porque o velhinho de traços serenos e sorriso fácil morava numa praia muito bonita, onde a menina adorava tomar sol, construir castelos de areia e pular algumas ondas ao lado do avô, mas principalmente porque Seu Olímpio tinha o poder único de transformar até mesmo um dia chuvoso e cinza dentro de casa em um momento mágico.

Sofia se lembrava muito bem de cada um desses momentos...

Meses atrás, por exemplo, quase não se aguentou de alegria quando o avô a balançou na rede que ficava na varanda. Ele tomou cuidado para que o movimento não fosse tão alto, nem tão rápido, algo que poderia fazer a neta cair e se machucar. Ainda assim, a sensação do vento contínuo no rosto dela foi muito real e prazerosa. Sofia sorriu o tempo inteiro, sentindo-se como um pássaro desbravando a imensidão do céu, voando pelo infinito através do vento. E sentiu-se definitivamente em casa ao mesmo tempo, pertencente àquele lugar e momento.

Quando os braços de Seu Olímpio protestaram ante o esforço repetitivo, ele se acomodou ao lado de Sofia na rede e compartilhou com ela algo que havia encontrado na orla pela manhã.

Sofia ficou simplesmente maravilhada com a descoberta diante dos seus olhos. Nunca tinha visto uma concha do mar tão grande! Só umas bem miudinhas que espetavam seus pés na areia branca, enquanto ela corria das ondas e do avô. Nunca aquele item mágico, gigante e muito belo!

— Quer ouvir o som do mar, princesinha?

Mesmo sem entender como algo assim seria possível, já que o oceano ficava um pouco longe da casa, a menina se viu assentindo com veemência à pergunta do avô.

— Então, feche os olhos. E nada de espiar, humpf!

Sofia apertou as pálpebras com força no mesmo instante, resistindo à curiosidade de descobrir como a mágica aconteceria se apenas uma brecha ficasse aberta.

Seu Olímpio balançou a rede com suavidade, usando os pés para dar certo impulso. O vento voltou a brincar nos cabelos revoltos da neta. O sentimento de liberdade, comum aos pássaros, tornou a pairar sobre ela.

Por fim, Sofia sentiu quando o avô encostou a concha rente à sua orelha e, em choque, ela ouviu. As ondas. O barulho ritmado delas. O mar quebrando nas rochas ásperas e também nas partes mais escorregadias.

— Vovô! — Virou-se para ele de repente, tomada de epifania, olhos arregalados e um sorriso trêmulo. — É o mar numa concha! Como o senhor colocou o mar numa concha? Como conseguiu?!

O velhinho riu até ficar com as bochechas salpicadas de vermelho. Depois, afirmou de um jeito muito sério:

— Um bom mágico nunca revela seus truques, minha cara Sofia. Nunca.

A concha acabou ganhando um novo lar. Na casa da cidade, onde a garotinha morava com a mamãe e o papai. O objeto reinava absoluto sobre o criado-mudo dela, feito uma relíquia muito preciosa. Bom, era exatamente o que significava para Sofia.

Toda vez que sentia saudade do avô, fechava os olhos e ouvia o som do mar só deles. Quando ia visitá-lo, trazia sempre a concha a tiracolo. E os dois se balançavam na rede de novo, dividindo o mar em comum e sentindo o vento do balançar envolvê-los.

Foram momentos especiais sempre, mas não foram os únicos da infância de Sofia ao lado do avô brincalhão.

Certa vez, Seu Olímpio a fizera rolar de tanto rir pelo tapete da sala. Tudo por culpa de um simples balão de gás hélio. Toda vez que a menina pensava em como a voz dele ficou fininha, fininha enquanto cantava Alô, alô, marciano, pegava-se gargalhando de novo.

Por falar em marciano, as hastes de uma antena parabólica, que não funcionava mais, viraram antenas alienígenas, fixadas na careca do vovô com fita adesiva cor de rosa, em outra ocasião. Para completar o visual, Seu Olímpio achou que os óculos laranja de lentes espelhadas azuis combinariam perfeitamente com a aparência de um ET.

Isabela, filha dele e mãe de Sofia, morreu de vergonha ao lembrar quantas vezes ela havia usado aqueles mesmos óculos. Na sua adolescência, duas décadas atrás, quando a moda tinha um aspecto meio... extravagante, por assim dizer.

As duas riram muito do ET Olímpio naquele dia. A barriga de Sofia, inclusive, chegou a doer. E ainda estava meio dolorida quando a avó, Dona Marta, chamou a todos para comerem bolinho de chuva.

Sofia também gostava muito da vovó, dos abraços quentinhos, do cheiro doce e do sorriso carinhoso que sempre destinava a ela.

A menina recordava muito bem como Seu Olímpio ficou triste quando Dona Marta virou estrelinha. Todos ficaram, na verdade. Foi muito repentino. Num dia comum, Dona Marta não acordou para o café da manhã. E nunca mais acordaria naquela casa, naquele mundo.

O vovô parecia perdido sem a mulher ao lado. Sofia sentia sua tristeza na maneira como os chinelos Havaianas se arrastavam pela casa. Com dificuldade, com um pesar estranho, sem o ânimo de antes. Seu Olímpio era como uma flor que havia murchado. Como alguém incapaz de sorrir para a vida de novo, uma vez que seu grande amor não estava mais nesse mundo.

Duas semanas depois dele ter visto a companheira de uma vida com um delicado vestido branco e cercada pela luz de muitas velas, lembrando a imagem de um anjo serenamente adormecido, Sofia conseguiu fazer Seu Olímpio sorrir novamente. Na verdade, teve certeza que o avô soltou um riso engasgado ao ver o que ela tinha feito com o brinquedo favorito dela — presente dele, dado em um dos aniversários da menina.

Sofia simplesmente vestiu o unicórnio de pelúcia com uma roupinha de gato muito pomposa que não combinou em nada com o chifre colorido no meio da testa. Parecia que o unicórnio estava indo desfilar em um carnaval muito maluco!

Até Isabela, que agora vivia com os olhos vermelhos contornados por olheiras profundas, achou graça. Ou, ao menos, ficou tocada o suficiente com a tentativa da filha em tornar o momento de luto mais leve e conseguiu sorrir na adversidade.

Só quem não achou o momento engraçado foi o bichano da casa, um gato preto e exibido chamado Félix. Ele limitou-se a observar a cena com um olhar fixo e impassível, abanando a cauda vez ou outra, como se protestasse. Sofia imaginou que ele não havia gostado muito de ver uma de suas roupinhas tão chiques sendo usada por outro ser. Mesmo que fosse um ser de mentirinha.

Como pedido de desculpas, ela procurou uma caixa de papelão na garagem mais tarde, e Félix a perdoou de imediato. Vovó Marta costumava dizer que gatos eram loucos por caixas assim. Félix não era imune.

Enquanto assistia ao gato sumir e aparecer por dentro do papelão agora já muito amassado, Sofia se perguntou se Félix também sentia tanta falta de Dona Marta. Porque ela sentia. Sua mãe, sem dúvida, sentia. E o vovô... Ah, ele com certeza sentia demais.

[...]

O tempo passou e, certo dia, brincando de consultório médico, Sofia perguntou ao paciente:

— Onde dói, vovô?

Seu Olímpio, sem nem pensar e com um sorriso triste, levou a mão ao peito e fechou os olhos por um longo instante.

— Aqui, princesa. Dói muito.

A menina analisou a situação com um olhar atento. Depois, tirou o estetoscópio de plástico vermelho e branco da maleta de brinquedo e encarnou de vez o papel de médica. Com cuidado, apoiou o aparelho no coração do paciente que sofria, concentrou-se e ouviu os batimentos com a inocência imaginária de uma criança, fazendo tum tum com a própria voz.

Por fim, deu o seu veredicto com ar muito resoluto:

— O senhor vai ficar bem, vovô. O estetoscópio me disse. Ele nunca se engana.

Seu Olímpio franziu o cenho, achando graça.

— Nunca?

— Nunquinha — assegurou a Dra. Sofia, balançando a cabeça com ênfase. — Ele é mágico. Como a concha. A rede. Como tudo em volta do senhor. Tudo que o senhor toca é. Ele tocou o seu coração, virou mágico também.

Seu Olímpio precisou reunir toda a força, que não sabia ainda possuir, para se manter firme ante as palavras tão doces que mexeram profundamente com suas emoções. Sorriu, enfim. E abraçou a neta com muito carinho.

— Obrigado, meu anjo.

Foi só o que conseguiu dizer naquele momento. E foi o bastante.

[...]

A Dra. Sofia estava certa em seu diagnóstico. O avô ficou bem. Com o tempo e de algum jeito, pelo menos. Ele precisou ficar. A vida sempre seguia o seu curso, e as pessoas tinham que seguir com ela.

Por isso, Seu Olímpio se reergueu como pôde e foi feliz como pôde. Divertiu-se muito brincando com a neta e os dois riram muito juntos. E ouviram o mar juntos, através da concha, incontáveis vezes. E voaram pelo céu, através da rede, juntos também.

Ainda assim, havia sempre uma nuance de tristeza nublando o seu olhar. Um vazio que ninguém mais poderia preencher. Uma saudade que não passava e o acompanhou pelo resto da vida.

Treze anos depois

Seu Olímpio foi em paz naquela manhã. Não uma manhã cinzenta ou chuvosa, como geralmente acontecia nos filmes, quando um personagem importante morria. Mas uma manhã ensolarada, como os melhores sorrisos dele foram.

Era assim que Sofia decidiu que se lembraria do avô. Sorrindo.

Segurando a concha contra o vestido preto, ela observou a rede ocupada por duas pessoas na varanda.

O pai de Sofia e marido de Isabela, Augusto, tinha vindo com as duas para o litoral quando o quadro de saúde do sogro piorou. E assim como abraçou a esposa durante o velório, mantinha Isabela no aconchego dos braços agora também.

Quando viu a filha se aproximar, no entanto, e percebeu que ela queria um momento a sós com a mãe, anunciou que faria um café para eles. Então, apertou a mão de Isabela com amor e beijou o rosto da filha ao passar por ela.

Assim que a porta se fechou atrás dela, Sofia caminhou até a rede e se acomodou ao lado da mãe. Isabela tentou sorrir, como para dizer que estava mais conformada agora, porém falhou miseravelmente. A dor era grande demais e o único consolo era saber que o pai não havia sofrido tanto. A doença foi rápida no intento de morte.

Imitando o gesto do pai, Sofia buscou a mão de Isabela. Afagou seus dedos carinhosamente antes de pedir:

— Feche os olhos, mãezinha.

Com um soluço, Isabela aquiesceu e cerrou as pálpebras. Sofia enxugou uma lágrima que lhe escapuliu pelo canto do olho, e a mãe respirou fundo ao buscar força para transpor o luto.

Nesse momento, Sofia fez a sua parte para ajudá-la. Encostou a concha na orelha de Isabela e esperou que ela se habituasse ao som mágico que vinha lá de dentro. Lá do infinito ondulante.

— É o mar numa concha, mãe — revelou baixinho.

Depois, pôs-se a balançar a rede com constância o bastante para que o vento suave as envolvesse.

— E o céu numa rede.

Sofia sentiu o corpo da mãe perdendo um pouco da tensão e ficou satisfeita quando ela sorriu de um jeito pejo, ainda de olhos fechados.

— Papai adorava isso... Eu via vocês dois nessa rede, com essa concha, nunca entendi direito qual era a graça.

Sofia soube que, naquele instante, a mãe entendia. Entendia que era algo simples e mágico, um momento especial, deles. Agora, era das duas também.

Mantendo a concha junto ao ouvido da mãe e o balançar da rede contínuo, Sofia apoiou a cabeça em seu ombro e disse:

— Ele está lá, mãezinha. Voando sobre o mar. Através do vento. Com a vovó. Os dois estão sorrindo para nós.

Isabela soluçou mais alto, vendo o mesmo que a filha via. Sentiu-se em paz pela primeira vez.

Quando ela abriu os olhos de novo, soube que tudo ficaria bem.


FIM

8 de Octubre de 2019 a las 22:30 0 Reporte Insertar 2
Fin

Conoce al autor

HunterPri Rosen You know who I am. Oi? Caçula de três irmãs, apaixonada por dogs, lufana. Sou Hunter, Whovian, Grimmster, fã de Friends e de mais uma pá de séries. Adoro filmes de suspense, terror sobrenatural e clássicos de ação. AMO livros e fan(fictions) de vários gêneros.

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