O cervo branco Seguir historia

rodrigo-baracho1566623383 Rodrigo Baracho

Um cervo, um jovem caçador e um destino cruel


Cuento No para niños menores de 13.

#Horror-Sobrenatural
Cuento corto
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Deuses Entre Nós

O sol estava chegando quase ao centro do céu azulado e limpo. O vento passeava suavemente pelos campos verdejantes.
Entre abelhas e alguns besouros, estava uma fêmea de veado mastigando a grama, olhando aparentemente para o nada, enquanto amamentava seu filhote. Por um momento, o pequeno olhava para ela cheirando-a, e depois começava a saltitar em sua frente de um lado para o outro. Era saudável, jovem. Aos poucos ia desfrutando de sua bela juventude.
A orelha de sua mãe entrou em alerta e moveu-se quando escutou um grande barulho e seu filhote correu desnorteado. Ele parou mais a frente e olhou para trás para seu retorno, mas a mesma não estava ali, na verdade não estava mais a sua vista. Sua narina dilatou e contraiu várias vezes para achá-la e fez um som semelhante a um piado, porém, tudo foi em vão. Ela não aparecia para ele, talvez, ela o abandonasse.
Em uma colina próxima dali, um garotou levantou-se com sua arma, colocando-a transversal pelo cinto improvisado de couro e caminhava até lá; até a fêmea de veado que estava caída no chão, ofegante, com os brilhantes e úmidos olhos negros. O garoto ficava parado por um momento e lembrava-se de sua mãe. O quanto ela era chata, briguenta e irritante. Ela não o deixava fazer o que queria enquanto seu pai estava fora.
"Sem correr pela floresta, para de ficar bagunçando as coisas, eu vou te trancar, você não cresce" - ela vivia dizendo.
Sua respiração acelerava enquanto sentia a sensação de seu corpo esquentar e o ar saia tão forte de suas narinas, que respondia por ele mesmo. Ele gritou, se agachando, puxando uma faca de sua bota e começou a esfaquear o animal que apenas o olhava fixamente, enquanto deixava seu algoz vermelho de sangue.
"Agora eu não sou homem o suficiente mamãe?" Ele pensou. Em seguida, olhou para frente vendo o filhote há metros, em silêncio, junto aos campos e, de certa forma, bem aliviado consigo mesmo. Suas sobrancelhas alertas pela surpresa faltavam escapar de sua testa, afinal, o que ele via deitado ali à sua frente, era o corpo sem vida de sua própria mãe. A faca que ia ser guardada suja de sangue cai no chão ao lado dele e as mãos pintadas do mesmo, iam até os ombros apertando-as.

—Mãe, mamãe é você mesmo?

Sua voz ia tremulando e com força sacudia o corpo. Ele botara a mão no rosto já pálido dela, que o encarava espantosamente. Seu rosto a molhar-se de lágrimas, começava a ficar em um tom rosado, misturado ao nervosismo e, sem perceber que estava quase anoitecendo, uma luz aparecia por trás dele. Ele se virou e notava o quanto ela brilhava, era uma cor tão linda e pura, que se não conhecesse a luminosidade do luar, diria que aquilo era mais cintilante do que tudo ou que, a própria Deusa da lua, desceu ao encontro para iluminar seu arredor, mas, sabia que não era isso, porque, aquilo não tinha nenhuma característica humana. Suas quatro patas, seus longos chifres que cresciam para trás e para cima mostravam que na verdade, era um veado, entretanto, o que mais intrigava eram seus olhos, olhos como pedras preciosas adornadas em chama pura. Ele não sabia quem era e porque estava ali. Todavia, tinha quase certeza que sabia o motivo e, se pudesse, pegaria sua arma ou faca e atiraria naquilo, mas a energia que ele emanava era tão forte que seu corpo mal conseguia reagir com um movimento simples.
"Não, não é real, é coisa de minha cabeça, esse bicho não existe" Pensou, fechando os olhos finalmente e, com o máximo de força possível por uns segundos abria, porém, por seu azar ela ainda estava ali. Ele virou-se para sua mãe e tremendo pedia desculpa e ao mesmo tempo ajuda, quando, de repente petrificou, ao momento que a voz, que parecia ecos de tambor, dizia:

— Você a matou Dorian, por quê?

O silêncio predominava o campo e a floresta ao redor, não havia sons de pássaros, mamíferos, e nem sequer de insetos. Até as árvores pareciam caladas diante daquele momento.
"Ele sabe meu nome. Como? O que deve ser isso? É o demônio só pode! Meu Deus, ajude-me"

— Satã eu te expulso em nome de Deus! – Gritava fechando os olhos novamente.

— Satã? Expulsar-me por que se eu não estou aqui por causa de ti?

— Então quem é você, Monstro? - Continuou.

— Anhangá. Mas, me diga a matou por quê? – Insistiu.

Suas mãos, por pouco não estavam cravadas no corpo gélido, só que não sabia de forma alguma o que fazer, pois a única coisa que queria era sair correndo dali e não conseguia. Sem saber o porquê e não entendia como aquilo não se foi, como que ele não é um demônio, já que esses seres que os nativos contam, são como diziam os sacerdotes. Ele sentia e via, mesmo com os olhos mais fechados, a presença se aproximando ainda mais, como se estivesse sobre os seus ombros e a luz penetrava até mesmo o negro de sua visão. Talvez, fosse um anjo.

— Foi um acidente eu atirei em um animal e não nela, não foi culpa minha eu só estava com raiva, muita raiva, dela, de tudo.

— Abra os olhos. - Respondia sereno.

Aos poucos ele fazia o que ele pedia, a visão embaçada ia ficando mais nítida, percebia que já era noite e quando a encarava sentia-se envergonhado, triste, voltando a chorar.
Ele levou uma das mãos aos olhos azuis estatelados dela e com a palma, ia descendo com dificuldade, era como se a mesma não quisesse isso e ficasse olhando seu amado, seu motivo de ser o que é seu mais precioso assassino. Já o jovem, não suportava e desabava finalmente, conseguindo o que queria. Em prantos, ele limpava com o pulso os olhos, fungando, tentando puxar o muco para dentro de seu nariz. A criatura, por si continuava olhando para frente, como se aquilo não fosse o motivo de sua atenção, mas continuava a conversar com ele enquanto percebia a tormenta que estava, mas aquilo era para acontecer, é para ser feito, não importando as consequências do ocorrido e sim o futuro.

— Agora você veio matar-me, não é? Pelo o que eu fiz.

— Eu responderei esta pergunta, se responder-me o porquê a matou.

— Eu já disse não me faça repetir de novo, por favor.

— Não estou dizendo por sua mãe e sim pela dele.

"Dele?" Estranhou e tomou coragem novamente para olhar a criatura, virou-se sem entender e viu que fixava sua visão a frente, com aqueles olhos assustadores, no centro de sua testa um símbolo semelhante a uma cruz.
Dorian percebeu que aquilo era apavorante e ao mesmo tempo belo. Sem ter uma resposta, a criatura virou-se para onde estava concentrado e viu que entre a mata estava o filhote, olhando sempre que podia de um lado para o outro, entendendo o motivo da sua pergunta e sentiu uma forte dor em seu coração, como se fosse perfurado por uma lança e sem perceber, boquiaberto, fechava os punhos voltando a tremer.

— Eu não sei, eu só atirei nela porque eu estava com raiva do modo que eu era controlado e tratado, e, eles eram tão perfeitos - Engolia uma coisa que não sabia o que era, que descia seco.

— Então a matou por inveja, raiva de algo que não fez, algo que não tinha a ver com ela?

— Sim! Me... Perdoe – Dizia, cobrindo sua face com as mãos.

— Por quê?

— Por ter feito isso.

— Não diga isso para mim, rapaz, e sim para ele.

— E o que adiantaria? Ele é só um animal – Continuou com a voz abafada.

— Você a amava não é? Deu para perceber. Só que não entendo o porquê do ódio, se tudo isso é por causa dela amá-lo. Entendo, ele é apenas só um animal.

— Por que não consigo ir embora? Por que não me deixa me mover e sair correndo daqui?

— E vai abandonar o corpo dela aqui? O velório da natureza não é agradável para os olhos, garoto. Ainda mais para uma pessoa que deu o seu melhor por você, ou esqueceu-se disso também?

— E como você sabe de tudo isso? Você não é Deus, e também diz que não é o demônio.

— Esta é minha casa e você mora nela. Eu estou aqui antes de seu povo tomar para si, e antes mesmo de até aqueles que vivem aqui, antes de vocês chegarem.

— Eu sei de cada momento bom que vocês passaram juntos. Os carinhos, as risadas, o sofrimento que antecedia a alegria. Para você isso não é nada?

As palavras dele que soavam em sua cabeça, fazia com que lembrasse tudo àquilo que ele dizia. Cada momento era único, era bom, feliz e por fim, único.
As noites em volta de uma fogueira, às histórias que ela contava de sua terra natal. Ela falava o quanto a Europa era magnífica, com suas cidades glamorosas, a bela paisagem, as melhores comidas e bebidas do mundo. Ela fazia sempre querer conhecê-la, atiçando a imaginação e implantando o desejo. As carícias que ganhava nos cabelos, junto aos beijos, apertos e a frase "meu amor" sempre saia de sua boca.

Anhangá observava ao lado, Dorian esfregar com força seu molhado rosto já avermelhado. Ele sabia que não adiantava esconder as lágrimas, se não eram os olhos que realmente estão chorando, mas seu coração confuso e turbulento. Ele tinha toda a certeza de que não sabia o quanto a amava, e de o quanto ela deu seu melhor, assim como a mãe do filhote era para ele, só que ao contrario, o filhote sabia o quanto a amava e o quanto estava feliz com aquilo tudo. Estavam vivendo o auge de ambas as vidas. O garoto se jogava ao colo dela, gritando para que acordasse e o perdoasse pelo que fizera não se importando com o sangue que o sujava cada vez mais e nem as moscas que pousavam nele, pois estava acima da mesma.

— E agora, mamãe, e agora, o que será de mim sem a senhora?

— O que será daqueles que não tem amparo? – Indagou

— Vá embora, me deixe em paz.

— Eu não estou aqui por você e sim por ele. Não adianta ficar assim se ela não vai voltar. Aliás, você um pouco antes de fazer isso, tinha certeza que não precisava dela.

— Meu papai vai chegar e ele vai acabar com você.

— Eu não fiz nada, mas, falando nisso, o que ele fará quando vê que você fez isso com ela?

— Não fui eu, cala a boca – Respondeu, gritando com ele.

— Tudo bem garoto, quando ele chegar, diz que um cervo a matou esfaqueada. Ele acreditará em você ou ele poderá matar você de tanto ódio.

— Nunca, ele nunca faria isso comigo – Disse enquanto virava para ele com raiva.

— Você achou que nunca mataria sua mãe, não é? E veja isso. Aqui estamos nesta tarde devoradora.

— Mas, mas...

— Aliás, como irá sobreviver até ele voltar? Você mesmo disse que ele virá daqui a alguns meses, não sabe nem acender uma fogueira.

Naquele momento ele percebeu que tudo que ele dizia era em vão, estava sem saída, qual seria a solução para isso tudo? Se ao menos ele pudesse fugir e tentar viver sozinho? Mas o grande cervo de chifres pontudos tinha razão, se ao menos eu soubesse fazer da fogueira surgir chamas, talvez tivesse uma chance.
Ele escutou o pio do cervo filhote de novo procurando sua mãe, viu o quanto ele estava perdido e sabia que não duraria muito tempo ali.
"Me desculpe" - Ele pensou fitando o animal. O que ele podia fazer era só pensar, pensar, pensar e chorar em silêncio naquele momento.
Anhangá permanecia com paciência, sereno sempre com as palavras, lamentando a perda enquanto via o peso da solidão e saudade em seus olhos ardentes. Ele sabia o que o pequeno animal queria, ele veio pelo que ele sentia um dos seus chamados, e pelo cervo só podia fazer uma coisa.

— Me diga, o que eu deveria fazer agora? – Falava quebrando o silêncio.

— Eu te direi, mas antes me responda:

— O que você faria se você estivesse com sua mãe e do nada ela fosse assassinada?

— Eu, eu não sei, eu correria, choraria e me esconderia em um canto.

— E depois de vê-la sendo esfaqueada por raiva?

— Tentaria fazer algo, pedir socorro, não sei, tentar algo. – Respondeu sem pensar.

— Entendo, Eu sei o que você pode fazer.

— O que? — Esperançoso, o garoto começava a abrir um sorriso.

— Morrer — Ele respondeu quase que por cima da pergunta.

— Nunca! Eu não me mataria, isso é horrível — Dizia em repulsa.

— Não tem nada de horrível em morrer, rapazinho. Imagine, você encontra a flor mais linda que já viu e se apaixona por sua beleza. Todos os dias você a observa o máximo que puder, até esquecê-la. Porém, você volta a passar por lá e lembra-se novamente dela, a flor mais linda que já viu e nota que ela já não está, ou a pessoa que mais ama não estará mais ali, por causa de algo que a faça sofrer, seja a idade ou doença. Você tem o desejo de deixá-la viva para sempre, para que você sempre fique ao seu lado com...

— Mas o que tem isso a ver com a morte?

— Tudo! Pois se a flor sempre estiver ali, sua beleza não terá o mesmo valor e não será mais algo que lhe importaria. Imagine o sofrimento daquele que sofre com o tempo e por egoísmo daqueles que o querem para sempre, o impede de partir? A beleza definha, por isso é bela. Enquanto a morte acolhe aqueles para outro tipo de vida, onde a ideia, a forma e a matéria continuarão existindo para sempre.

- E dói?

- Depende. Você é um caçador ou brinca de ser? Então, deve saber como morre sem doer ou não.

— Eu ficarei junto da mamãe? — Ajoelhado, virou-se completamente para ele.

Anhangá não respondia nada. O sim e o não já não importavam para ele, naquele momento. A expressão triste do jovem, naquele jogo de olhares, o mesmo cedeu-se e pegou a sua arma. Colocando em sua boca e junto a um ecoante grito, deu um fatal e único tiro, acabando com a própria vida.
Entre o crepúsculo, os pássaros voavam novamente, gritando: Até quando, até quando, até quando? Para o longínquo.
Ele caminhava em direção do filhote, que ia ao seu encontro um pouco receoso, passando pelo corpo que caiu de lado.

— Eu ouvi seu choro e te vinguei. Acabou.

O filhote o cheirava aos poucos e ia de encontro ao focinho do ser que ao tocá-lo, caia ao chão sem vida ao lado do corpo de sua mãe morta que surgia. A entidade ouvia barulhos e escondidos entre rochas e cupinzeiros, os nativos pasmos falavam em sussurros um com os outros. Ele virou-se de costas e sumiu em luz e poeira, sabendo que, ninguém está sozinho.

24 de Agosto de 2019 a las 05:20 2 Reporte Insertar 1
Fin

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Davi Morais Davi Morais
Kara, eu li a história escutando essa musica " https://www.youtube.com/watch?v=6gE1FCNFG40 " foi emocionante kkkk. Fiquei surpreso quando percebi o que estava acontecendo, e o final foi realmente triste kkk. Curti também a fala da Kindred, me fez até pensar que poderia ser ela naquele lugar. Foi uma beleza
24 de Agosto de 2019 a las 19:55

  • Rodrigo Baracho Rodrigo Baracho
    Ahh kkk obg por ter gostado, não esperava que ia ser bom e triste, me dediquei muito pra trazer um sentindo nisso e me inspirei neles, e sempre me inspiram. <3 24 de Agosto de 2019 a las 20:47
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