Genève - Martigny Seguir historia

diana-carvalho1560182401 Diana Carvalho

Antonio acordou meio indisposto aquela manha. Abriu os olhos no escuro. Olhou de relance o relógio em cima da cômoda e imaginou um dia nublado. Um calafrio surgiu na ponta do pé e percorreu seu corpo arrepiando os poros como uma onda.


Cuento Todo público.

#imaginação #criança #trem #viagem #conto #suspense #familia
Cuento corto
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A Viagem

Antonio acordou meio indisposto aquela manha. Abriu os olhos no escuro. Olhou de relance o relógio em cima da cômoda e imaginou um dia nublado. Um calafrio surgiu na ponta do pé e percorreu seu corpo arrepiando os poros como uma onda.

- Bom Jour, Petit. Vamos levantando que hoje o dia é longo! Seu trem parte 11:11 e seu pai vai te esperar na estação de Martigny.

Antônio não se mexeu. - Será que ela já me notou acordado? - Vivi sentou-se na beira da cama e fez um carinho na testa do filho, afastando o cabelo de cima dos olhos exageradamente cerrados.

- Você vai ver, vai passar rapidinho. Em menos de duas horas você chega – Silêncio – ô meu carinho, eu sei que seu pai ta mais longe agora, mas você vai se acostumar. Tem gente que viaja essa distância todos os dias indo pro trabalho, não é grande coisa.

Antônio finalmente desistiu. Abriu os olhos como se fosse a coisa mais difícil do mundo e se levantou ensaiando um gemido preguiçoso. Vivi falava sem parar e arrumava a mala do filho intercalando roupas e perguntas retóricas. Enquanto isso, Antônio se vestia sentindo sua indisposição se transformar numa sensação de que nada estava certo naquele dia chuvoso. O chão gelado queimava seus pés, a calça apertava a barriga e o casaco pinicava como nunca.

Já na estação, Antônio foi obrigado a emitir os primeiros sons do dia tentando acalmar a mãe que havia entrado num modo ininterrupto de conselhos e recomendações. – eu sei mãe...não vou descer em estação nenhuma antes de Martigny...uhum...mais casaco na mochila e chocolate no bolso de dentro...ta...Eu sei...o bilhete ta no bolso e pode deixar que eu lembro o papai de te ligar quando chegar lá.

Olhando pra cima, o menino notou que as diversas plataformas onde paravam os trens eram conectadas por uma cobertura transparente em forma de abóbada, por onde se via a tempestade lá de fora que já ressoava na estação. Num francês rápido e nervoso, a moça por trás do alto-falante corrigia horários e indicava atrasos, guiando e sincronizando a multidão inquieta em meio à organização caótica de freios e apitos.

A despedida da mãe foi mais breve do que Antônio esperava. Aparentemente, depois da enxurrada de conselhos, Vivi estava mais calma. Ele, ainda mais apreensivo. Logo após a saída do trem, tentou mapear os viajantes daquele vagão, por algum motivo estranho sentia-se no começo de um livro da Agatha Christie.

A poltrona vermelha engolia o menino magrinho, que afundava ainda mais no estofado tentando não chamar muita atenção. Nas poltronas da frente, virados pra ele, sentou um casal. O homem trazia a barba mal feita, um cabelo desgrenhado que intercalava camadas de gel e sujeira e um celular na mão. A mulher vestia uma burca preta acentuando suas olheiras profundas. Tudo isso foi constatado pelo reflexo do vidro, numa tentativa de não cruzar olhares com a dupla.

Dentro de Antônio uma carga de adrenalina fazia as mãos suarem e o corpo gelar. Casais que roubam crianças! Era óbvio! Já tinha visto na tv uma história parecida, mas acho que o caso tinha sido num shopping center, não lembrava muito bem. Começou a traçar um plano de fuga, proteção, ou qualquer coisa que o ajudasse a terminar aquela viagem a salvo. Olhou pros lados, dessa vez procurando desesperadamente um cruzar de olhos simpáticos.

Uma senhora de cabelo bem branco e comprido estava no corredor, de costas pra Antônio guardando uma mala no compartimento superior. Seu coração acelerou, mas ele ainda não estava certo se isso era bom. A tensão para ver o rosto da tal senhora era tanta que Antônio não conseguiu disfarçar o pulo que deu da cadeira quando viu aquela boca sem dentes e os olhos arregalados. A tão esperada troca de olhares foi seca, fria e apática de uma forma que ele não saberia reproduzir jamais.

Acuado contra a parede do vagão, o menino alternava olhares do chão pro lado de fora, agora aterrorizado por qualquer par de olhos. Mas o cenário não ajudava. A chuva caía agora fraca e a tempestade tinha dado lugar a um cenário cinza e neblinoso com um vento soprando constante. As árvores, todas peladas por causa do inverno, balançavam esqueléticas. Os finos galhos se assemelhavam a garras impacientes que iam e vinham tentando alcançar o que quer que fosse.

A calma já tinha ido embora há muito tempo, mas Antônio não desistia. Não ia se entregar assim. Fechou os olhos e tentou mapear os sons do ambiente, teria mais alguém dentro daquele vagão? Não queria acreditar que suas únicas companhias eram seus sequestradores e sua cumplice. O vento batia no trem, causando rangidos frequentes e o som normal dos trilhos não deixava o vagão muito silencioso. Concentrando-se um pouco mais, Antônio conseguiu identificar uma voz, quase um sussurro, vindo de trás da sua cabeça.

O quarto viajante falava uma língua estranha, talvez por isso não o notara antes. Antônio segurava a respiração o máximo que conseguia pra não atrapalhar os ruidos que chegavam aos seus ouvidos. Era um homem. Devia estar a umas duas cadeiras atrás dele e falava no celular, ou falava sozinho. A linguagem exótica não dava uma pista, mas no entender do menino, isso não era bom. Nada bom. Fechou os olhos ainda mais forte, mas agora seu corpo tremia todo e ele não ouvia mais nada.

Um apito forte soou de repente, arrepiando a espinha. Por um momento Antônio já não sabia mais por quanto tempo fechou os olhos. O Trem já não se movia. Abriu os olhos e observou de relance e placa na plataforma indicando Martigny, e de um pulo correu pra fora do Trem, bem a tempo de ouvir o próximo apito que o levava embora. A pressa e a agonia era tanta que não olhou pra trás. Avistou o Pai e cruzou rápido a plataforma em direção a ele.

Já de mãos dadas, Antônio agora arrependia-se de não ter dado uma ultima olhada no vagão. Todo o seu medo começava a parecer bobagem, mas ainda estava curioso. Quem era aquele homem que ele demorou tanto a notar? Será que podia confiar nele? Na saída da estação passaram por algumas árvores secas, mas dessa vez paradas. Pareciam brincar de estátua com suas poses brincalhonas. Antônio entrou no carro sentindo-se meio bobo e imaginando seus quatro companheiros de viagem agora rindo e zombando dele.

- Fez boa viagem filho?

- Uhum...

- Que bom! É bom você ir se acostumando com o trajeto agora que o papai está morando por aqui! Sua mãe tava toda preocupada, mas eu avisei pra ela que...

A atenção ao discurso do Pai foi se dissolvendo a medida que as mãos de Antônio começavam a suar. Pronto. O indeciso frio na barriga estava de volta, mas agora trajava o desconhecido e o mistério antes emprestado ao quarto viajante.

3 de Julio de 2019 a las 20:34 0 Reporte Insertar 0
Fin

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