Uma garrafa antes da guerra Seguir historia

alicealamo Alice Alamo

— É… eu estava certa no fim das contas. — Certa? — Sim. Você é louca. — Gosto de ser uma louca com poder e cérebro.


Drama Todo público.

#drama #theauthorscup #thedialogue
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Capítulo Único


— Nós não vamos mesmo fazer isso, vamos?

— Nós não vamos é discutir isso de novo, Ana, chega.

— Mas… não! Tem que ter algum outro jeito, algum… não sei! Qualquer coisa! Qualquer outra ideia!

— Bem então contamos com sua imensa genialidade, irmãzinha.

— Não. Seja. Irônica. Comigo. Lúcia.

— Querida, eu só estou tentando dizer, de novo, mais uma vez, que não há outro jeito.

— Você nem ao menos tentou!

— O quê? Eu não tentei? Como ousa dizer isso?

— Não de verdade!

— Pelos deuses, Ana…

— Lúcia, nós vamos perder tantos se invadirmos Elocárdia amanhã, tantos… Eles vão morrer, os nossos e os dele! Isso não é certo, você sabe disso.

— E o que você sugere? Hein? Vamos lá, então, discorra sua vasta sabedoria sobre mim, Ana, ilumine o meu caminho como nenhuma das minhas seis conselheiras conseguiu, como nem mesmo minha ministra da guerra fez.

— Não fale assim… Pera, o que está fazendo?

— Me sentando e abrindo o mais caro vinho da minha adega. Não espera que eu te ouça sóbria, não é?

— Lúcia! Tá vendo? É isso o que quero dizer! Você não quer tentar de verdade, é muito mais fácil disparar ordens em cima daquele dragão e ver todos morrendo do alto.

— De fato, é.

— Você é cruel.

— Obrigada.

— Eu não sei como alguém como você pode estar com a coroa.

— Ah, isso eu sei. Senta aqui, posso te explicar se sua genialidade não for o suficiente para fazê-la entender regra simples de hierarquia, hereditariedade e honra.

— Honra?

— Você quer mesmo entrar nesse quesito, irmãzinha? Pelos sussurros nos corredores do palácio, a sua está bem mais manchada que a minha. Eu coleciono mulheres em minha cama, uma rainha solitária e cheia de amantes. Mas você vai além, não é? Quer que eu enumere quantos você matou no seu último surto? Ah.. é até engraçado… está querendo salvar a vida desses soldados para se redimir? Como funciona? Um soldado para cada criança que você matou ao tentar colocar a cidade toda em sono eterno? Estou curiosa.

— Aquilo foi um erro.

— Ora essa, é claro que foi! Ou então você seria o que? Louca? Cruel? Maligna? Inescrupulosa?

— Eu perdi o controle… a magia é instável.

— É claro que é instável e por isso eu disse que você não estava pronta! E o que você fez? Ah, sim, você me desobedeceu. Como sempre. Tentou colocar todos para dormir durante o inverno e matou todas as crianças com menos de cinco anos do reino.

— Isso faz anos, Lúcia.

— E mesmo assim você não aprendeu a lição, não é?

— Que lição?

— Esse reino não obedece às suas vontades, Ana, obedece às minhas. E as minhas ordens são tomadas depois de estudo, depois de inúmeras reuniões com conselheiros, com ministros, com tentativas diplomáticas. Eu não tomo atitudes impensadas, eu não “perco o controle”. Se estou dizendo que não há outra forma, é porque nós já cogitamos todas as alternativas e nenhuma delas nos serve.

— Qual o motivo dessa guerra para começo de tudo, Lúcia?

— Sente-se.

— Não quero tomar vinho com você, sabemos como minha magia fica turva com álcool.

— Como preferir. Eu vou tomar. Não se desperdiça um bom vinho na noite antes da batalha.

— E algum dia você recusou por qualquer outro motivo?

— Não ouvi, disse alguma coisa?

— Não, nada.

— Imaginei. Enfim… há alguns meses soubemos que o reino vizinho entrou em colapso. O rei Alastor tinha dois filhos, um deles o assassinou e não se sabe qual. Isso criou um problema porque não sabiam quem era o traidor e um dos príncipes, Aluan, fugiu.

— Então não é óbvio que foi ele?

— É? Bem… vamos então jogar um jogo. Imagine mamãe no trono. Nós duas as filhas herdeiras. Eu a mato. E todos sabem que a culpada ou sou eu ou é você. Qual seria o seu pensamento sabendo que obviamente não foi você a assassina?

— Te entregaria.

— Pff… claro. E eu então diria que você é a assassina tentando me entregar para sair impune e, ainda por cima, roubar minha coroa. Eu daria a eles um motivo, uma razão, e até falaria da nossa infância triste e de como você sempre cobiçou a coroa.

— Isso é mentira!

— É claro que é mentira, Ana, foco, estou tentando te explicar o que houve.

— Certo, então… eu provaria que foi você!

— Oh.. inteligente, mas pouco.

— Por quê?

— Porque eu sou a assassina, eu planejei isso, sem você nem mesmo desconfiar. Eu teria mais meios de me defender do que você teria tempo para provar minha culpa antes de eu jogá-la sobre você.

— Eu clamaria pelas minhas conselheiras, elas falariam em minha defesa, elas têm peso no conselho e minha magia poderia ser examinada!

— E quão pura estaria sua magia depois do assassinato àquelas crianças?

— Eu…

— É, minha irmã, eu conseguiria te culpar, do que quer que eu quisesse, assim como você também poderia fazer comigo se planejasse algo há muito tempo e contasse com um pouquinho de sorte. Além disso, há um cenário que você não imaginou, um que acho que se enquadra melhor aos nossos amigos do reino vizinho.

— Qual?

— Eu poderia te matar, afinal, você é um risco ao meu trono, ao meu legado. Te eliminar não seria difícil, e eu poderia dizer que você tentou me matar logo depois de assassinar mamãe, e eu só me defendi.

— E assim você se livraria de nós duas, e ninguém conseguiria dizer que se é ou não verdade.

— Exato. Agora, sabendo de tudo isso, o que você faria, irmã?

— Eu… eu fugiria. Oh deuses, é nisso que você acredita? Que o príncipe Aluan fugiu para não ser morto ou acusado?

— Ou que ele é de fato o culpado e pensou nisso tudo antes de nós e agora acha que engoliremos essa história e vamos ficar ao lado dele para recuperar seu reino e matar o príncipe Exian que é inocente.

— Pera, pera, o quê?

— Eu disse, não? Você precisa estar bêbada para isso fazer sentido, não dá para pensar nessa merda toda sóbria.

— Então… no que você acredita?

— Eu?

— Sim! Está tentando recuperar o reino?

— Não.

— Então, está tentando achar o culpado?

— Não?

— Lúcia, por todos os deuses, o que raios estamos fazendo prestes a invadir Elocárdia?

— Mas não é óbvio? Nós vamos conquistar Elocárdia.

— Ok, encha a minha taça por favor. E seja generosa porque eu não estou entendendo mais nada.

— É simples. Mas vou explicar do começo antes dos seu cérebro criar teorias mirabolantes. Exian é louco. E vamos partir desse ponto. Inocente ou não, deixar o Elocárdia nas mãos dele é condenar todas aquelas pessoas e os reinos vizinhos.

— Disseram o mesmo quando você foi coroada.

— Éeeeee, bom ponto, mas disseram isso sem provas, tanto que a coroa ainda está nos meus cachos muito bem acomodada. Quanto ao príncipe Exian, o que não faltam são provas.

— Sério?

— Pelos deuses, por onde você andou nos últimos anos que não sabe nada sobre o reino que faz fronteira com o nosso, Ana!?

— Estudando magia em uma montanha isolada do mundo? Ou sua cama tava tão bem ocupada que não se lembrou nem disso?

— Você já voltou há uns meses, Ana, já devia ter se inteirado sobre o mundo real. Enfim, esquece. Há inúmeras provas contra Exian, posso listá-las como você quiser, ordem alfabética, ordem dos fatos, basta escolher. Ele é um louco. Acredite.

— E por isso você quer tomar o reino dele? Não é um pouco exagerado?

— Ah, claro, muito exagero tirar a arma da mão de um psicopata. Não, Ana, não é. Além disso, já tentamos achar outra saída, e não há.

— Que saídas?

— Primeiro, tentamos saber quais as intenções dele como rei. Nós temos um espião dentro do reino, um muito próximo de Exian.

— Um amante.

— Também. Mas ele nos disse que Exian não divide muito dos seus planos com ele, nem é muito aberto para ser questionado. Contudo, o palácio está recebendo diversos ministros, e interceptamos uma carta de que Exian convocou todos os soldados que estavam fora do reino, uma ordem direta de que voltassem.

— Pode ser para se proteger do irmão.

— Sim, consideramos isso. Mas esse informante nos assegurou que Exian não parece temer Aluan, nem um pouco. São gêmeos, mas Exian sempre se destacou mais, ele possui um ego bem generoso por assim dizer.

— Algum relato do que ele conversa com seus ministros?

— Um breve. Sabemos que ele estava analisando as fronteiras.

— Talvez tema que o irmão se alie a reinos vizinhos e os invada.

— Sim, nós cogitamos isso. E por esse motivo eu mandei uma carta minha, de próprio punho, para Exian a fim de entender melhor o que se passa.

— Quando?

— Bem no começo, poucos dias depois da fuga de Aluan.

— E o que disse a ele?

— Quando enviei minha carta, ele já havia sido coroado regente e feito seu discurso. Alegou ser inocente e concentrar forças para deter o “irmão e sua vilania”. No discurso, ele pediu que os reinos vizinhos não acolhessem Aluan, que tínhamos que… “preservar a paz”. Foi um discurso com um tom agressivo disseram, ele parecia muito abalado pelo luto, mas longe de ser melancólico. Então.. na minha carta eu perguntei exatamente o que queria saber, quais eram as intenções dele como rei.

— E você achou que ele iria simplesmente contar? Posso estar fora da política, irmã, mas até eu sei que ele nunca diria a verdade simplesmente porque você perguntou educadamente.

— E mais uma vez sua genialidade me surpreende. Quer um aplauso? Não, não, não me interrompa, beba a merda do seu vinho e me deixe continuar. Exian me respondeu de forma prática e simples, disse que continuaria o legado do pai dele. Então eu sugeri que ele assinasse um tratado de paz, um longo tratado que deixava claro as intenções dele em não nos invadir nem apoiar qualquer inimigo nosso, bem como manter intacta nossa relação comercial.

— E o que ele disse?

— Não respondeu. O filho da puta mandou um mensageiro para me avisar de que não compraria mais nosso trigo e que não deveríamos nos preparar para o inverno e providenciar outro reino de quem conseguir lã.

— Oh…

— Sim.

— Ele… ah não…

— Exatamente. Ele deve ter usado o contrato que enviei para limpar aquela bunda e ainda deixou claro de que nada escrito ali será cumprido.

— Mas… eu não entendo! Nós somos o segundo reino mais poderoso da região! Ele não pode estar querendo declarar guerra contra nós num momento de crise do próprio reino!

— Ahhh, é aí que fica ainda mais interessante! Ele pode.

— Mas ele não tem motivo, Lúcia.

— Basta ele criar um.

— Criar? Você diz inventar um motivo?

— Você sabe como rumores se espalham rápido, não é? Essa nobreza fofoqueira, esses camponeses que acreditam em tudo.

— Ah não…

— Ah sim.

— Fala que ele não te acusou de estar protegendo Aluan.

— Não só protegendo, mas dormindo com ele, o que…

— Levaria a união dos reinos e faria de você a rainha dos dois, sendo que eles te odeiam mais do que tudo.

— E não se esqueça de que Aluan é o suposto traidor que matou o próprio pai pela coroa.

— Ótimo, um regicida e a rainha louca que eles acreditam que secou os rios de Elocárdia.

— Bemmm, a última parte não é tão mentira se você for analisar a fundo.

— Lúcia…

— Mas foi um trabalho conjunto, eu não teria que fazer isso se o rei Alastor não-

— Foco, Lúcia. O que nos interessa é a guerra de amanhã! Você tentou negociar com ele ou com outros reinos essa decisão?

— Negociar o que exatamente, Ana? Ele cuspiu no meu tratado de paz sem me dignar uma única carta de resposta. Ele deixou claro suas vontades. Não! Espere! Eu não terminei. Ainda assim, eu ouvi minhas ministras e enviei uma segunda carta, um pouco mais… enfática que a primeira.

— Você quer dizer “rude”, não é?

— Não, eu quis dizer enfática. Deixei claro o óbvio, oras. Se ele não quer um tratado de paz, então deseja guerra.

— Pelos deuses…

— Eu só disse o que ele não teve coragem de dizer.

— E deu a ele a chance de usar isso contra você, Lúcia!

— É uma guerra, Ana! Não tem essa de usar isso ou aquilo contra mim. Ele não precisa de uma carta minha para incitar o ódio do povo dele, eles já me odeia, já estão loucos por um desejo cego de justiça porque Alastor morreu!

— E Aluan? Onde ele está?

— Não faço ideia. Morto talvez? Na sarjeta? Ele era meio burrinho, não era? Eu lembro que Alastor tinha um filho que era meio… engraçado digamos. Pobrezinho, competir com Exian não devia ser nada fácil.

— Sem Aluan, sem uma resposta de Exian, você decidiu então atacar primeiro. É isso?

— Mais ou menos… Eu dei um jeito de facilitar as coisas para mim.

— Como assim? Do que está falando?

— Não dá para chegar invadindo, tomando o território e sua coroa, não é? Como você bem lembrou, eu sou a rainha louca que causou a seca, e eles me odeiam. Então, eu precisava de um pequeno detalhe, algo que fizesse com que a população tivesse em mim sua grande salvadora.

— Diga que não apelou pra magia, diga que não apelou pra magia.

— Então não digo.

— Lúcia!

— Foi um feitiço único, simples. Quer dizer, não, nada simples, não, não.

— E que claro que não foi você que fez, porque eu me lembro que você era péssima em encantamentos!

— É claro que não fui eu. Paguei uma boa quantia para nossa sábia para que ela jogasse um feitiço sobre Exian, e foi difícil. Ele tinha que beber um negócio, usar um colar, tinha que ser na influência da lua certa e ainda tive que escrever as palavras que queria que saíssem pela boca dele na hora.

— Você encomendou um feitiço de manipulação?

— Manipulação oral discurssiva se quiser o nome completo.

— Isso está ficando cada vez pior.

— Mas funcionou. É o que importa.

— Já funcionou?

— Sim. Exian falou na frente de todos, em um discurso público, que ele assassinou o pai, assim como eu escrevi. Ainda adicionei certos detalhes meio… duvidosos, sobre os rios. E então, agora, ele está cercado no próprio palácio, gritando para as tropas para conter a população.

— E você será a rainha que entrará no reino chutando a porta da frente e dando à população sedenta por justiça o rei que tanto querem matar.

— E de quebra eu… fico por ali mesmo. Domino o lugar. Assumo a coroa. Uno os reinos.

— É… eu estava certa no fim das contas.

— Certa?

— Sim. Você é louca.

— Gosto de ser uma louca com poder e cérebro. Vamos, quero um brinde.

— Um brinde?

— Sim, à nossa invasão e vitória! Amanhã será um grande dia!

— Só brindo se eu puder governar um dos reinos como regente.

— Oh, que menina esperta. Erga a taça então, princesa regente do sul de Elocárdia. À sua hipocrisia.

— À sua loucura.

— À nossa vitória.

30 de Junio de 2019 a las 02:22 4 Reporte Insertar 10
Fin

Conoce al autor

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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Blackcyber Blackcyber
Caralho!! Genial. De fato nunca (Repito NUNCA) li uma história formada apenas por diálogos com tanta excelência quanto essa. Detalhes profundos mas não enjoativos, contexto histórico e regional bem desenvolvidos e trama eloquente. Digitando com os pés porque com as mãos estou aplaudindo. Nossa!! Realmente incrível. Parabéns pela escrita impecável...
4 de Agosto de 2019 a las 18:57
Netuno Chase Netuno Chase
Parei tudo o que fazia para ler, e devo dizer que estou DECEPCIONADA ALICE ALAMO, e sabe por quê? PORQUÊ ACABOU! Puta merda, seus personagens originais são ótimos, nem sei porque ainda me surpreendo com você, já devia estar acostumada com sua excelência em escrever kkkkkkkk. Mas de verdade, tô com a amiguinha do outro comentário, cruzando os dedos pra virar um livro, long ou sei lá, porque eu amei essas duas que você criou. Parabéns, amo suas histórias, nunca me arrependo de ler. Obrigada por mais uma pérola!
3 de Julio de 2019 a las 22:02
Ariane Munhoz Ariane Munhoz
Você tem um dom. E não falo apenas da escrita que é excelente, mas da conexão que você cria, de como envolve a gente com personagens que nem conhecemos e nos faz gostar deles! Você tem um dom de viajar nas palavras, de nos fazer mergulhar de cabeça em um texto e não abandonar ele até a última linha. Foi assim que me senti lendo essa história. Vi no seu feed e não consegui resistir à tentação do que me parecia tão certo. Adorei a Lúcia! Personagem interessante, com o tipo de lógica afiada que eu adoro. Uma pessoa que pensa 4 passos à frente de todo mundo e que demonstra a razão de estar no trono ao invés da irmã! Gostei muito do plot central, dá pra criar uma história tão maravilhosa aqui! Juro, vou torcer todos os dias pra que um dia essa história vire um livro pra lá de famoso! Estou apaixonada! Obrigada por fazer da minha noite mais feliz, irmãzinha. Ótimo texto!
30 de Junio de 2019 a las 21:22
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