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Lia Vieira


O fútil foi necessário. Pensar no fútil nunca foi tão necessário para entender a vida. [Uma coisa escrita no meio da noite que foi inspirada num fato]


Cuento No para niños menores de 13.

#drama-Texto-crônica--hospital-suicídio-familia-relato-pessoal
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Fútil.

O verão era a pior época do ano. Eu sempre odiei o calor e as chuvas torrenciais que deixavam o clima abafado como naquela corriqueira tarde de verão.

Mesmo que eu não costumasse a pensar na vida, naquela simples tarde me vi lembrando de coisas aleatórias. Apesar do calor, uma brisa refrescante atravessou a janela, o que me fez olhar para o lado de fora mas depois me virando de volta para a parede branca de meu quarto.

Lembrei da visita que Victoria e minha mãe me fizeram dias atrás. Elas sempre foram lindas, naquela dia minha irmã, Victoria, estava com os belos fios castanhos soltos mas ainda ostentava sua expressão de moça forte e decidida (ela era o meu completo oposto, tanto em aparência quanto em personalidade) já minha mãe não mudara nada naquele dia, apesar dos fios brancos ela não parecia ser afetada pela idade. Não, ela parecia ser jovem, tanto em aparência quanto em essência.


Nem de longe era a primeira ver que elas me visitavam naquele hospital. Desde de que entrei ali, minha mãe e minha irmã sempre foram presentes, e desde o mesmo dia em que entrei ali, que me vejo sendo um tanto sentimental demais. Talvez fosse pelo fato de não ter muitas coisas para observar daquele leito que comecei a observar as pessoas e aquele pequeno mundo a minha volta, acabou que aquele pequeno espaço não pareceu tão limitado depois de um tempo. Havia alguns médicos com personalidade, quando aquelas pessoas passavam por mim, eu via suas faces transparecerem vida. E é claro que havia pessoas que pareciam tão vivas quanto a parede pintada de branco do outro lado da sala.


Estranhamente lembrei de meu antigo vizinho de leito um rapaz jovem, não parecia ter mais de vinte e cinco, ele era uma mais uma vítima do suicido, um suicídio muito mal executado vale dizer, ele tentara se matar se jogando de uma ponte, em tese a única coisa que ele ganhou foi um braço deslocado e uma perna quebrada sem contar no belo machucado que ele tinha no pescoço. Ele também recebia visitas, duas pessoas em específico, um rapaz que parecia ter a mesma idade que ele e uma moça de cabelos vermelhos e que (mesmo que ela obviamente fosse mais jovem que ambos) ostentava um olhar que lembrava muito o de minha mãe. A garota se dirigia ao meu vizinho como ''professor'' mas eles conversavam de forma descontraída sem nunca tocar no motivo que levou o ''professor'' até o hospital. Já o rapaz, que com certeza não tinha parentesco com ninguém ali, o chamava de Isaac. E Isaac o chamava de Ícaro.

Sorri ao lembrar do timbre que Ícaro usava para pronunciar o nome de Isaac, em alguns momentos era como se eles estivessem brigando como duas crianças em outros pareciam dois adultos rindo de assuntos triviais mas as vezes em que eu mais gostava de observa-los conversar era quando conversavam sobre poesia, naqueles momentos eu compreendia de um jeito novo o significado de eloquente . Eu sabia que ambos sabiam que eu bisbilhotava as conversas mas nunca pareciam se importar. Era uma bela amizade, a daqueles três. Eles eram jovens, afinal, o que havia de errado.

Ah claro! O fato de que Isaac havia tentado o suicido era um fator que me incomodou muito durante o período em que ele se recuperava. Nós conversávamos de vez em quando, ele gostava de livros e eu também ,ele gostava de falar e eu de ouvir, então foi uma boa combinação. Quando ele foi embora eu não tive com quem conversar senão minha mãe e Victoria.


As pessoas deveriam se amar mais.


Isaac voltou ao hospital menos de um mês após receber alta. Dessa vez fora tarde demais. No corredor eu pude ouvir, infelizmente, uma conversa entre Ícaro e um médico que o nome não importa.

O pouco que pude ouvir da voz de Ícaro, que naquele momento era afogada por dor e um gaguejar de alguém que já havia perdurado em lágrimas por horas, que Isaac havia conseguido se matar.

Aquela foi a última vez que vi o rosto afável e jovem de Ícaro enquanto ele seguia pelo corredor até a recepção do hospital.


Pensamos no passado porque estamos arrependidos de algo. Pensamos no futuro porque temos medo dele. E alguns de nós pensam no presente porque são narcisista demais para pensar nas coisas mais triviais ao nosso redor e pensar no que um dia elas já foram ou no que serão no futuro ou simplesmente procurar um significado para elas.


Talvez eu devesse ter conversado um pouco mais com Isaac, mesmo que em muitos momentos eu desejasse que não o tivesse conhecido ou me envolvido com ele só para não me dar ao luxo de sentir algum tipo de luto; parte de mim queria ter a certeza(ou uma esperança infantil)de que ele pudesse ter um futuro.

Nem Victoria, muito menos minha mãe, tiveram algum contato com meu luto, se é que eu poderia chamar assim. Eu fora egoísta em me distanciar daquela forma, como se não as amasse o suficiente para compartilhar com elas algum tipo de dor.


Pessoas falam como se as palavras não contivessem nenhum peso, amam como se amar fosse absolutamente nada e vivem como se não fossem morrer.


Percebi em um momento de solidão que eu e Isaac não éramos muito diferentes um do outro. Enquanto ele fugia de sua dor eu fugia de mim mesma. De meus próprios sentimento.

Não éramos diferentes, e isso era o que mais me incomodava. Eu jamais considerei Isaac como um covarde por fugir da vida assim mas eu o considerei a mim mesma como uma grande covarde por fingir que eu não sou um ser humano com sentimentos, naturalmente humanos. No fim Isaac sempre abraçara a própria natureza.


Eu me obrigava a procurar algum tipo de conforto no mundo mas sempre me via no mesmo lugar. Nos mesmos amores desvalorizados e apenas notados no último momento.


Como momentos triviais.





16 de Junio de 2019 a las 01:07 0 Reporte Insertar 1
Continuará…

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