Golpe de Misericórdia Seguir historia

natchimendes Natanael L. Chimendes

A Morte, aquela que todos conhecemos, possui um apartamento em Nova York e atende pelo nome de Eric, um rapaz cansado de sua profissão monótona. Até que certa noite, durante seus turnos mórbidos ele conhece a jovem Mary, pouco depois de um acidente de carro. Aquela noite mudaria ambos para sempre.


Horror Horror adolescente Todo público.

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Golpe de Misericórdia


O cigarro desfazia suas últimas chamas quando Eric testemunhou o acidente. Um carro esportivo cruzou a 10.º Avenida no sinal fechado, no exato momento que o motorista de um caminhão passava na contra-mão.

O estrondo foi rápido e barulhento. Ele jogou o cigarro no chão e correu em direção ao carro.

Algumas pessoas se aproximaram aos poucos, enquanto Eric olhava discretamente para os olhos de uma jovem de cabelo curto e dourado. Ela sangrava de modo violento pelo asfalto… Sua pele havia raspado no chão, e todo o seu lado esquerdo estava molhado com a seiva vermelha, que saia abruptamente do seu corpo. Seus braços tremiam de desespero. Ela parecia ser tão nova para estar num acidente brutal como aquele. Eric imaginou que seria mais uma filha de um milionário que provavelmente não tivera uma noite feliz com as amigas e voltou bêbada para casa, ou melhor… tentou voltar.

E como num instante, os dois foram transportados de cenário. Eric fazia isso toda hora, mas era sempre como se estivesse fazendo pela primeira vez. Toda vez que alguém morria, ele levava a alma até uma sala branca, com utensílios de morte: facas, adagas, armas , etc. Ele teria uma conversa muito franca sobre a morte e depois decidiria o destino daquela pessoa.

A jovem acordou assustada. Seus olhos vasculharam cada canto do aposento na busca de compreender onde estava, e o que estava acontecendo. Ela se encontrava deitada numa cama, com as mãos e pés amarrados por cintos. E seu pescoço estava imóvel por uma espécie de colar de metal.

— Onde estou? — ela perguntou.

— Onde está? — respondeu Eric — A pergunta certa não seria 'onde você está', mas quem é você…

— Quem eu sou? Como assim? — ela fechou os olhos como se estivesse sentindo um impacto na cabeça

— Minha cabeça dói… — Isso acontece porque é a primeira vez que você está fora do corpo. É normal. Respondeu o rapaz.

— Fora do corpo? Não estou entendendo.

— Deixa eu ser mais claro. Você morreu, certo? E agora está aqui. Certo? Então basicamente você está agora numa espécie de 'sala de espera'.

— Estou esperando o quê? — ela perguntou enquanto observava os utensílios afiados em cima da mesa ao lado de Eric.

— Vamos começar com as apresentações — disse o rapaz, fixando o olhar na moça, com um rosto tão claro e singelo que ela quase ficou aliviada de ele ser tão lindo, uma espécie de prêmio de consolação pelo desespero que seu coração sentia. Ele continuou:

— Meu nome é Eric. E trabalho faz uns… 200 anos? 212? Não me lembro. Bem, eu trabalho faz um bom tempo na área de dizimação de almas. Algo muito mais simples que parece. — ele fez uma pausa e disse: — Você está aqui porque faleceu após um grave acidente. Seu braço foi praticamente triturado pelos destroços do seu carro, e o impacto acabou atingindo sua cabeça. O estrondo te apagou por completo, por isso que você está aqui.

— Tá! Já entendi. Mas eu ainda estou processando.

— Não precisa processar nada. O mais importante é que: você morreu. E agora eu preciso ver como você vai morrer de verdade. Isso. Morrer de verdade. Como disse, seu corpo está lá. Nesse exato momento, várias pessoas estão te observando, tirando fotos, ou ligando para uma emergência. Mas nós estamos aqui, nesta sala enquanto eu tiro uma das suas fichas para avaliar como será a sua morte espiritual.

— Morte espiritual? — ela perguntou, com a voz indicando que aquilo seria provavelmente uma piada — Isso é uma piada?

— Não. Eu sei o que deve estar imaginando. A primeira reação é exatamente essa. Mas eu não vou ficar desenhando aqui. Os detalhes são simples. Eu vou decidir como te apagar completamente, pois, de acordo com a sua ficha aqui — ele disse enquanto apontava para uma pasta de cor vermelha na sua mão direita — As informações contidas aqui vão me dizer como devo te matar… Se vai ser pro eletro-choque… Corte na garganta ou etc…

— Mas se eu já estou morta, do que adianta me matar novamente? — ela agora começava a tremer. Sua temperatura subiu, tanto que sua testa suava mais do que o normal.

— Deixa eu ver se consigo te explicar melhor. Existe uma força nesse mundo, que administra todas as almas que passam por aqui. Esse controle é necessário para não sobrecarregar o trabalho do chefe, que já está bem debilitado… Mas isso não importa. O que importa é que toda vez que alguém morre, eu preciso decidir se aquela pessoa irá passar para a próxima dimensão, ou se será eliminada de vez, ou seja, se a alma dessa pessoa não existirá mais. Simples assim.

A jovem ficou alguns segundos em silêncio, seus olhos não conseguiam se desviar das facas e das ferramentas na mesa ao lado. Ela queria sair correndo, mas seu corpo permanecia imóvel. Ela nunca tinha se sentido tão impotente. Quando seu rosto começou a dar sinais de um choro desesperado, Eric interrompeu: — Bom, vamos ao que interessa. A sua ficha…— ele abriu a pasta e começou a leitura.

A jovem desatou a chorar. Seus lábios tremiam, e ela não conseguia parar de repetir “não me mate”, mesmo que se aquelas palavras soassem vazias ou insignificantes.

Eric já estava impaciente para sentir o último suspiro da moça e pôr fim ao seu vício quando algo perturbador o interrompeu. Uma informação muito importante que ele tinha acabado de ler havia despertado algo nele, que nunca havia imaginado. Mas como? Ele se perguntava. Como? Até que a voz suave da menina acabou lhe resgatando daquele momento de transe.

— Eric? — perguntou, enquanto isso, alguns passantes ligavam nervosos para a emergência. Uma estranha ventania visitou o rosto do rapaz. Ele não conhecia a moça, e não conseguia pensar num cenário lógico em que seu nome estaria na mente dela. Entretanto, a jovem sorriu e levantou o dedo para o crachá que estava pendurado no paletó dele. Eric sorriu pela primeira vez.

Era um sorriso lindo e assustador.

O rapaz começou a observar as armas em cima da mesa. Mas algo — que ele ainda não compreendia — estava começando a acontecer dentro dele. De alguma forma ele sabia que não era justo o que iria fazer. Mas continuou mesmo assim. Ele se virou para a jovem, que agora lhe observava com o rosto aterrorizado, como se estivesse vendo um monstro, e não um rapaz no auge dos seus vinte e sete anos.

— Fique tranquila. Não há nada aqui dizendo que a sua hora chegou — Eric disse, mas algo na sua voz dizia que ele não estava falando a verdade, como se estivesse tentando convencer ele mesmo do que estava dizendo.

— Você terá que voltar. Você sem o braço, claro.

Mas de alguma forma terá que voltar. Até mais.

No seguinte instante, nada mais existia. A jovem se viu num quarto de hospital, cercada de máquinas. Um cheiro absurdo de remédios e álcool percorria o cômodo. Ela de alguma forma não lembrava do que havia acontecido.


-


Dias depois ele descobriu que a suposta filha de um milionário se chamava Mary. Morava não muito longe dali, num condomínio de luxo que custaria o dobro do que Eric havia imaginado. E com todo o dinheiro possível do mundo, Mary foi parar num hospital, sem muitas visitas semanais. Mesmo assim ele sempre a visitava, apenas para observá-la dormindo.

Certo dia Mary acordou com um livro na cabeceira e pensou que era alguma brincadeira, pois só os mais íntimos sabiam que o pior passatempo de Mary seria ler. Nunca fora chegada às páginas, mas admirava quem tinha a coragem de encarar folhas amarelas por horas e horas. Abriu sem mesmo olhar o título e um bilhete rasgado surgiu entre as folhas:

Para Mary A vida do rapaz não era tão romântica como aparentava.

Ele vivia num cubículo com poucos cômodos, cortina rasgada, o banheiro com a porta sempre aberta, livros espalhados por todo canto e principalmente: Eric tinha um emprego indesejado: A morte. No expediente ele basicamente assistia o último suspiro de uma pessoa, registrava e envia para a chefia. Nada muito empolgante. Mas também nada glamouroso. O que se podia dizer é que Eric seria a famosa figura dos imaginário popular, porém mais humano do que qualquer outro ser vivo.

Durante os intervalos, ele costumava ficar enclausurado em casa, bebendo e xingando os pássaros que insistem em morar na janela. Eric não tinha humor para as piadas comuns e sempre encontrava significados sujos para cada situação, criava fetiches instantâneos, sonhava com vidas deselegantes, vivia exaltado por qualquer coisa, mas sentia-se velho, jovem, maduro, impuro e muitas vezes louco. Deixava a casa muito cedo, e voltava tarde da noite. Fumava sempre antes, durante e depois de trabalhar.

Encontrou brechas na rotina maçante para tomar banho de livros. Chegou a ler cinco ao mesmo tempo. E quando terminava alguma história, entrava em profunda depressão. Chegou a queimar um livro de tanta raiva e muitas vezes jogava ele pela janela.

E naquele momento, quando finalmente tinha terminada de ler A Menina Que Roubava Livros, o celular vibrou no bolso esquerdo, e a única pessoa que sabia daquele número era a chefia. Atendeu.

— Escritório, sete horas, décimo quinto andar. — disse uma voz áspera e íntima ao mesmo tempo.

Largou o livro no chão, correu para a rua, pediu um táxi protegendo-se das gotas pesadas de chuva daquele dia. Desceu no meio do temporal e chegou ensopado no elevador. A ascensorista olhou-o de cima-baixo.

— Décimo quinto andar. — Pediu. A porta do escritório era de cedro puro, mas pesado. Bateu duas vezes e entrou discretamente. A poltrona escura da chefe estava virada para as janelas gigantescas.

— Ótimo. Terminamos mais um caso.  —  disse uma voz rouca e severa, que não daria para identificar se seria uma voz feminina ou masculina. Eric sabia que não tinham terminado nada. Mary ainda estava viva e poderia alterar todos os rumos de sua função. Por isso respondeu para a chefe de modo humilde, mas corajoso:

— Eu não sou assassino. Não fui contratado para…

— Matar pessoas? O rapaz calou-se, surpreso. Sim, era exatamente por esse o motivo que fora contratado. Mas manteve a palavra e esperou o retorno, que chegou minutos depois.

— Sabe Eric. Estou começando a achar que você está apaixonado. — Isso não era verdade. Mas continuou calado. — Porém, mesmo que não esteja, sentiu alguma atração pela jovem. — Ótimo. Debateram durante horas o destino de Mary, o rumo de toda a linhagem da moça, a filosofia grega acerca da vida, e por fim o sentimento novo de Eric. Era alguma coisa chamada afeto.

A chefia foi esperta o bastante e concluiu:

— Se você realmente a admira, ou sei lá o que sente por ela, então as consequências são muito claras. Agora… ainda estou tentando descobrir como pode um Anjo da Morte sentir alguma coisa pelo objeto de trabalho, quando o mesmo não cumpre sua função que é morrer. Não sei o que aconteceu, se foi obra do destino ou algo assim. Mas… Você está apto para mudar de profissão em troca da vida dela?

— Sim. — respondeu Eric sem pestanejar. Um leve sorriso surgiu no rosto do chefe e a poltrona virou novamente para as janelas. O papo havia terminado.

Três dias depois Mary saia do hospital acompanhada por familiares animados e cuidadosos. A garota olhava distante para a multidão, esperando encontrar alguém, ou alguma coisa. Eric observava ao longe, saboreando cada momento. Ele riu ironicamente ao vê-la caminhando pelo Times Square. Ficou imaginando o motivo de ter decidido aquilo e não conseguiu chegar a uma conclusão exata. Então veio aquela vontade tremenda de fumar. Pegou um cigarro meio amassado no bolso, e acendeu. Sentiu o fogo perto do rosto bater no vento daquele crepúsculo adormecido. Por alguma razão ele sabia que aquela seria sua última vez, seu último cigarro, afinal algo havia chegado ao fim. Sua nova profissão traduzia exatamente o que Mary despertou em seu peito. A jovem, no entanto, continuou sua vida aventureira e desinibida, porém, com um detalhe: estava incrivelmente apaixonada por nada mais, nada menos, do que livros.

E isto fez Eric  —  o cupido  —  respirar aliviado.

31 de Mayo de 2019 a las 03:00 0 Reporte Insertar 3
Continuará…

Conoce al autor

Natanael L. Chimendes Jornalista graduado, escritor em formação, cinéfilo e paixonado por livros. Costumo escrever livros-reportagem e histórias de ficção-fantasia / romances. Sou novato por aqui, então qualquer ajuda, crítica, elogio e comentário é bem vindo!

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