O Último Dia de Aula Seguir historia

nathy-loussop Nathy Loussop

O final do ano letivo se aproxima e Maria está empolgada com isso. Durante a visita de um amigo a sua escola, é perceptível que uma criança e um adolescente podem ter muito em comum. História do Universo de Dark Rai.


Cuento Todo público. © Universo de Dark Rai, todos os direitos reservados. Capa feita por diabolic. Imagens creditadas aos seus devidos autores.

#espírito #morte #escola #casual #aula #brasileiro #shinigami #nacional #ContosDeDarkRai
Cuento corto
0
1706 VISITAS
Completado
tiempo de lectura
AA Compartir

Capítulo Único

AVISO

Esta é uma história fictícia, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


💀 💀 💀


O som da porta se fechando foi ouvido. Logo a van escolar partiu, saindo do campo de visão deles e revelando novamente o largo portão laranja em meio a parede branca com algumas crianças que provavelmente saíram do veículo entrando no prédio.

Raimundo estava sentado na grama, com as pernas dobradas e os joelhos erguidos. Seu braço direito estava apoiado sobre eles enquanto segurava a lata de refrigerante que tomava. O canudo entre seus lábios era ligeiramente mordido quando ele não estava bebendo o líquido.

Apesar de ter os olhos focados na escola a sua frente, seus ouvidos estavam atentos a fina voz ao seu lado. Maria era uma garota bastante comunicativa e já estava a bons minutos falando sobre como sua turma era animada e que sentiria falta deles.

O ano letivo já estava se encerrando para ambos apesar da diferença de idade entre a criança e o adolescente e do fato de estudarem em escolas diferentes.

— … E então quando chegamos na escola segunda, o feijão tava crescendo! Dá pra acreditar? — ela gesticulava bastante ao encerrar sua história.

— Deveria ter feito com batatas, é divertido também — olhou para ela.

— Sério? Vou contar para a mamãe! Vamos fazer em casa! — pulou animadamente.

Raimundo observava os fios curtos do cabelo da garota tentando acompanhar seu movimento, voando de forma livre, apesar disso seu cabelo não se bagunçou quando ela se acalmou. Seu olhar parecia focado em algo e ele não demorou em virar o rosto para tentar encontrar o que prendia a atenção da garota.

— Você já andou em uma dessas? — perguntou ao ver outra van parando em frente ao portão.

— Não. Você já?

— Não — balançou a cabeça negando — Eu venho andando. E também mamãe disse que são caras.

— Não sabia que morava aqui perto — tomou mais um gole ao ouvir a resposta dela.

— Moro sim! E quando eu passar na prova de hoje eu vou estudar naquele colégio bem ali — ela esticou o corpo ficando a ponta dos pés enquanto tentava apontar para um prédio atrás deles.

Tirando o canudo da boca, Raimundo olhou por cima dos ombros. Entre as casas e prédios comerciais que ali havia, conseguia ver um detalhe redondo no topo da escola em questão.

Sabia de qual se tratava, uma própria para alunos do fundamental II. Não demoraria nem cinco minutos para chegar até lá, mas também não iria comparar seus passos com o de uma menina de dez anos.

— E advinha! Ano que vem vou poder escrever a caneta!

— Já consegue escrever de caneta sem errar? Não vai querer um caderno cheio de corretivo.

— Às vezes eu pratico… — pela expressão dela, era claro ser uma mentira. Mordeu um pouco os lábios antes de continuar — Mas mamãe vive brigando comigo porque não sei escrever meu nome.

— Nessa idade ainda não sabe escrever o nome? — riu de forma divertida.

— É porque… — remexeu-se um pouco — Ele tem um chapeuzinho no meio dele que eu vivo esquecendo — juntou ambos os indicadores tentando reproduzir o assento em questão.

— Verdade… Seu nome é Maria Antônia, certo? — deu mais um gole.

— Isso mesmo! — parecia orgulhosa do próprio nome — Você tem dois nomes também?

— Não, é apenas Raimundo.

— Gosta do seu nome?

— Mais ou menos. Mas não me vejo com outro nome.

— Eu gosto do meu! Mesmo aqueles garotos chatos falando ser nome de pobre — cruzou os braços olhando para a escola — Mas eles vão ver só, eu vou passar de ano e eles não!

O rapaz não conseguiu segurar a risada. Ela poderia falar várias coisas, como dizer que bateria neles ou roubar o material. Isso o fez lembrar-se de sua irmã desejando que as vadias de sua escola estivessem com diarreia em um banheiro público sem papel higiênico.

Não é preciso dizer que ele ficou um pouco sem jeito quando a pequena lhe disse que ele tinha um sorriso bonito, mesmo sabendo que seus dentes eram um pouco tortos. Já previa mais uma tentando lhe fazer sorrir o tempo todo. Isso que dá ser do tipo sério.

O barulho de outra van se afastando do colégio chamou a atenção dos dois. Maria a observava, seguindo o veículo até sair de sua visão, virando-se para o rapaz novamente.

— Você mora por aqui também?

— Tecnicamente não, mas chego rápido em casa.

— Então você mora longe da escola e vai andando? — aquilo pareceu encantá-la.

— É — tomou mais um pouco de seu refrigerante.

— Nossa, crescer e poder fazer isso deve ser muito legal!

Ele não segurou a risada, mexendo os lábios enquanto prendia o canudo com os dentes e soltando o ar de forma desajeitada.

— Mas sabe o que eu quero mesmo quando crescer?

— O quê?

— Poder estudar de manhã! Igual você.

— Por que quer estudar de manhã? — estranhou.

— Porque parece ser divertido!

— Mesmo não podendo ver desenhos na televisão?

— Eu não vejo desenhos. Normalmente eu durmo. Por isso mamãe não quer me deixar estudar de manhã, mas eu disse pra ela que consigo acordar cedo se eu quiser!

— Tenho certeza que sim — tomou mais um gole.

A bebida já estava no fim. Ele usava a boca para movimentar o canudo no fundo da lata para esvaziá-la, provocando um característico barulho de sucção.

— Não pode fazer isso! — quase gritou. Como resposta, ele a encarou um pouco confuso — Mamãe disse que é falta de educação fazer isso.

Novamente não segurou o sorriso, mostrando os dentes segurando o canudo.

— Às vezes podemos fazer algumas coisas erradas.

— Quais? — não escondeu a curiosidade que estava sentindo.

Raimundo pensou um pouco. Retirou o canudo da lata e ficou brincando com ele na boca enquanto isso.

— Pular no sofá… Na cama… — comentou com o objeto ainda entre os dentes — Ou comer leite em pó.

— Mas não brigam com você?

— É por isso que é escondido — sorriu de lado piscando para ela, provocando uma risada divertida.

Uma alta sirene foi ouvida vinda do prédio. Um sinal bem exótico para um colégio. Era mais fácil se pensar que um incêndio ou algum tipo de catástrofe aconteceria do que uma aula se iniciar.

Maria se animou afirmando que iria tirar a melhor nota para orgulhar sua mãe. Havia estudado muito para isso e estava confiante.

Vendo a alegria da menina, Raimundo puxou sua mochila, largada na grama, para perto e tirou do bolso da lateral uma margarida que havia pegado no caminho de sua escola para a dela.

— Para você — estendeu a mão para ela — Para dar sorte.

Os olhos dela pareciam brilhar ao pegar a flor com o longo caule. As pétalas perfeitamente brancas estavam muito bem organizadas e o miolo era puramente amarelo. Era linda.

— Você fica bravo se eu der essa flor pra minha professora? — ele pareceu confuso com a pergunta dela — É que ela ama flores e ela vai ficar muito feliz se eu der uma pra ela — enfatizou.

Aquilo o pegou de surpresa, não esperava essa atitude dela, mas sorriu e disse que ela poderia fazer o que achasse melhor. A viu pulando um pouco de alegria.

— Então vou indo! Não quero me atrasar!

Estava tão empolgada que se despediu de qualquer jeito do rapaz. Ele por sua vez sorriu a observando desaparecer enquanto corria para dentro de prédio. Finalmente tirou o canudo de sua boca e o pôs dentro da lata, o dobrando de maneira que ficasse completamente em seu interior.

Puxando a mochila mais para perto, passou uma das alças por cima do ombro antes de se levantar e dar leves tapas em sua calça para retirar qualquer sujeira que poderia ter ficado ali por conta do gramado

Olhou para o lado, onde a menina estava e observou de forma terna o caule da margarida fincado na terra em frente a uma cruz de concreto. O nome de Maria Antônia fora gravado nela, provavelmente enquanto o material ainda estava mole, junto com a data de sua morte. O ano lhe chamava a atenção, 1974.

Estava claramente envelhecida pelo tempo, com a tinta branca desgastada, contudo ainda parecia muito bem cuidada.

Ficou alguns segundos observando o fraco vento balançar gentilmente a planta. Olhou por cima dos ombros brevemente, o portão laranja já estava fechado. Retornou o olhar para a cruz e tocou dois dedos em seu topo.

— Boa aula… — sua voz saiu como um sussurro.

Ajeitou sua mochila nas costas, saindo da grama e indo para a calçada, caminhando em direção a sua casa. Maria era uma menina adorável que só queria deixar a mãe orgulhosa, esperando há mais de 40 anos em frente a escola para poder ir ao seu último dia de aula.


💀 💀 💀


Mais histórias desse universo sob a tag

#ContosDeDarkRai

11 de Junio de 2019 a las 05:19 0 Reporte Insertar 1
Fin

Conoce al autor

Nathy Loussop Escritora desde os 11 anos, sou apenas alguém com uma cabecinha cheia de ideias e que espera que as pessoas amem meus personagens como eu mesma amo.

Comenta algo

Publica!
No hay comentarios aún. ¡Conviértete en el primero en decir algo!
~