Cuento corto
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Hey Daddy

– Conte-nos como tudo aconteceu. Do começo.

– Do começo… Bom, vou ter que falar sobre 23 de setembro.

23 de Setembro é o aniversário de minha filha. Eu estava terminando meu turno no trabalho – mais ou menos umas 18:30h – e precisava correr para conseguir um presente para ela. Como eu trabalhava em uma construção no centro da cidade, tinha fé que conseguiria achar alguma loja de brinquedos aberta para comprar uma lembrancinha.

Andei por pelo menos 30 minutos pelas lojas próximas ao metrô. Para minha surpresa, um presente de aniversário descente custava bem acima do que um pobre homem como eu poderia pagar. Mas, como sempre, há uma luz no fim do túnel – ou, pelo menos, era o que eu achava –, e eu ainda sim consegui comprar um presente: uma boneca.

Próximo a uma esquina, havia um desses vendedores abulantes, dos quais as ruas normalmente são cheias. Ele já estava desmontando sua barraca, mas ainda era possível visualizar diversas das suas bugigangas e, dentre elas, pude observar uma linda boneca. Mesmo não sendo um desses brinquedos supermodernos, eu imaginava que filha fosse gostar. Era uma boneca de madeira, vestindo trajes similares aos de festas juninas ou algo do tipo. Paguei uma pechincha por ela, R$10,00. Tinha feito um negócio perfeito.

Peguei o metrô e depois um ônibus para casa. Consegui chegar a tempo dos parabéns e pude entregar o meu presente para minha filha. Ela adorou, muito por sinal. Eu achei estranho ela ter gostado tanto da boneca ao ponto que, deixava outros brinquedos que ela havia ganhado de lado. Minha esposa me disse que talvez fosse pelo fato de ter sido eu a dar o presente e isso ter gerado algum valor sentimental sobre o mesmo.

Naquela mesma noite, antes de dormir, algo me chamou atenção. Quando coloquei minha filha para dormir, eu percebi que a boneca fazia um barulho. Toda vez que a barriga dela era apertada, ela dizia a frase: “Hey Daddy”. Achei engraçado e interessante – principalmente pelo fato de ter pago tão pouco por ela. Mesmo assim, deixei isso de lado e fui dormir.

Foi ai que os problemas começaram. Durante toda a noite eu ouvia um ruido baixo e distante se repetindo constantemente de maneira aleatória. Prestando mais atenção, eu percebi que o barulho vinha da boneca. Imaginei que minha filha pudesse ter dormido abraçada com ela e que, por isso, o sensor ficava ativado. Preferi não mexer com minha filha aquela hora da noite, imaginei que logo, logo as baterias do brinquedo fossem acabar e tudo ficaria bem. Mas não ficou.

Pelos próximos três dias eu tive que ouvir aquele ruído durante toda a noite. Foi quando decidi chamar a atenção de minha filha, pedindo para que ela não dormisse abraçada com a boneca. Expliquei dizendo que não conseguia dormir por conta do barulho que ela fazia. Minha esposa retrucou, ela disse que nunca tinha ouvido barulho algum e que eu estava exagerando.

Mais dias se passaram, pelo menos duas semanas eu acho. E eu já não conseguia dormir. Meu rendimento no trabalho já estava sendo afetado e eu começava a me preocupar com isso. Agora além da noite, a boneca ficava fazendo barulho durante o dia também. Minha filha corria a casa inteira abraçada com ela e, em todos os cômodos, eu conseguia ser incomodado por aquele som irritante.

“Hey daddy”

“Hey daddy”

“Hey daddy”

Um pouco mais de um mês tinha se passado e eu já havia levado bronca no trabalho. Em um dia desses eu acabei descendo cinco paradas depois da minha por ter dormido no ônibus. Não dava mais, eu precisava agir de alguma forma ou ficaria louco.

Conversei com minha mulher para que doássemos a boneca para alguém ou somente jogasse ela fora. Recebi uma bronca, ela disse que eu estava exagerando, que não via problema algum com o brinquedo e que não teria coragem que de tirá-lo de minha filha já que ela nuca desgrudava dele.

Eu estava sozinho, à ponto de enlouquecer. Não dormia a dois meses, já estava a ponto de ser demitido, mal conseguia raciocinar direito e nem a minha própria esposa conseguia me entender. Era angustiante, noite e dia, dia e noite, e aquele barulho infernal enfestando a minha cabeça, como um enxame. Eu podia jurar que tinha ficado mais alto aquela altura.

Naquela semana eu recebi um dia de folga. Meu chefe achou que pudesse me ajudar. Estava na garagem procurando alguns isoladores de som, algo que eu costumava usar em uma antiga construção em que trabalhei. Mesmo na garagem, fora de casa, eu podia ouvir aquele barulho. Mais alto e intenso que nunca, não aguentava mais.

“HEY DADDY”

“HEY DADDY”

“HEY DADDY”

CHEGA!

Peguei o machado que estava pendurado na parede a minha frente e, furioso, caminhei até o quarto da minha filha. Subi as escadas rápido e firme. Sentia o suor frio passando pelos meus braços e se acumulando em minhas mãos que seguravam agressivamente o machado.

Entrei pela porta e pude ver o cabelo loiro daquela boneca maldita. Sem pensar duas vezes, eu cravei o machado na cabeça dela. Senti meu corpo quente, vivo e agitado, quase como se tivesse tido um orgasmo naquele momento. Entretanto, naquele instante eu ouvi uma voz de espanto atrás de mim; era minha filha. Tentei tirar o machado da cabeça da boneca, mas estava preso. Coloquei mais força e, na hora que consegui tirar o machado, minha filha veio atrás de mim e, sem querer, o machado a acertou. Acertou com tanta força que ela foi jogada para canto do quarto.

Eu estava nervoso, não sabia o que fazer. Passei pelo menos uma hora caminhando de um lado para o outro, observando tanto o corpo de minha filha, quanto o da boneca. Após pensar bastante, tomei a decisão que me trouxe até aqui.

Lembrei que, no quintal de minha casa, havia uma velha casa de cachorro que nunca havia sido usada. Era grande e normalmente servia como casinha de brinquedo para minha filha. Fui até a garagem novamente e peguei alguns materiais. Rapidamente eu quebrei o piso da casinha, cavei uma cova e enterrei minha filha e a boneca. Cobri de terra e depois com uma base de cimento. Consegui deixar o máximo possível parecido como antes e segui para o quarto de minha filha. De maneira quase incrível, o quarto não havia se sujado tanto de sangue, mesmo com uma pancada tão violenta.

Era 17:00h, foi quando minha esposa chegou em casa. Mostrei-me demasiado preocupado, dizendo a ela que nossa filha havia sumido. Procuramos por toda a rua, nas casas das amigas e até no bosque próximo a nossa rua. Obviamente, não encontramos nada. Decidimos então chamar a polícia.

As 20:45, os policiais já haviam tomado nossos depoimentos e feito algumas buscas pela casa. Pediram fotos e disseram que começariam algumas buscas. Passaram pelo menos mais três semanas procurando ela e nada. Foi quando suspeitaram que algo pudesse ter acontecido dentro de nossa casa. Fizeram mais investigações na casa, mas não acharam nada que pudesse me incriminar de fato, eu havia limpado tudo e me livrado do machado, estava tudo indo muito bem.

Eles já haviam terminado seu trabalho e eu já tinha fé que tudo ocorreria bem dali para frente. Eu voltaria a dormir e a trabalhar, consolaria minha esposa e possivelmente teríamos outra filha alguns anos depois. Mas foi nesse momento, enquanto caminhávamos até o portão, que o policial olhou para o lado e perguntou: “O que é aquilo?”.

Era a casa do cachorro. Respondi a ele e reforcei que não usávamos ela. Entretanto, minha esposa comentou o fato de nossa filha brincar lá de vez em quando. Os policiais decidiram dar uma olhada, para ver se achavam alguma pista. Eu ainda me mantinha calmo, tinha feito um buraco bem fundo e um piso grosso com bastante cimento.

Eles olharam a casinha e nada. Tudo certo, já podiam ir embora. Foi quando, para a surpresa de todos e, principalmente, para a minha desgraça. Ecoou pela velha casinha de madeira, atravessando aquele buraco fundo, a cobertura de cimento e me dando calafrios por todo o corpo. Aquele som maldito:

“Hey daddy!”

– Tendo em vista as provas e a confissão, condeno o réu a 50 anos por homicídio culposo e ocultação de cadáver. Podem levá-lo agora.

6 de Mayo de 2019 a las 13:12 0 Reporte Insertar 0
Fin

Conoce al autor

Lucas Pires Lucas tem 19 anos e é de Brasília. É músico, escritor e, nas horas vagas, desenhista. Utiliza a arte como companhia, como uma forma de se manter conectado consigo mesmo e exercitar sua visão de mundo. Começou a escrever com 14 anos, durante a explosão das 'creepypastas' e, desde então, se dedicou a aperfeiçoar seus métodos de contar histórias. Escreve contos de horror e ficção científica, seu objetivo é usar da sua curiosidade e medo para instigar as outras pessoas.

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