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Jacinto (Hyacinthus orientalis): O jacinto é muito usado como um pedido de desculpas, pois expressa tristeza profunda, condolências, lamento e humildade. por @suhotus


Fanfiction Bandas/Cantantes Sólo para mayores de 18.

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Cuento corto
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Capítulo Único



Jacinto (Hyacinthus orientalis): O jacinto é muito usado como um pedido de desculpas, pois expressa tristeza profunda, condolências, lamento e humildade.


As cortinas desgastadas de tom vermelho se fechavam, anunciando o fim do último dia de apresentação do musical e o início de um novo ciclo para o ator e cantor que finalmente começava a ter o destaque que tanto desejava e havia lutado para conquistar.

O caminho curto que fazia até a apertada sala que nunca poderia ser chamada de camarim — e ainda assim era o que estava escrito em um papel amassado precariamente colado à porta — era repleto de sorrisos, acenos e cumprimentos. Todos queriam trocar ao menos uma palavra com a nova estrela, o homem de voz macia que a muitos encantava e arrancava lágrimas. Suho, que nos bastidores era apenas Kim Junmyeon, chamava a atenção por onde passava.

A pequena sala parecia menor ainda devido aos inúmeros ramalhetes de flores, alguns sobre a penteadeira cobriam parte do espelho embaçado pela falta de limpeza, apesar de imensamente talentoso o jovem ainda era apenas um iniciante e ficava com a pior sala daquele grande teatro, o que de fato não o incomodava, visto que já se apresentara em teatros bem piores antes de conseguir destaque para frequentar um local como aquele. As rosas vermelhas, apesar de lhe encher os olhos com tamanha beleza, não prenderam sua atenção, muito menos as perfumadas camélias ou os cravos brancos que transbordavam pureza. Oh, não! Seus olhos redondos e escuros pousaram admirados e brilhantes no único buquê que não possuía um cartão, um bilhete ou qualquer pista que indicasse seu remetente. Ali, sobre a cadeira acolchoada e arranhada pelo tempo, repousava um ramo de jacintos.

Recebia um daqueles por noite e sempre perdia os dedos pelas flores macias, perguntando ao vazio quem o enviaria flores tão peculiares e incomuns. Com um suspiro, passou a retirar a maquiagem clara do rosto bonito com cuidado para então trocar de roupas e após apanhar as flores — pois ele sempre as levava para casa — saiu em direção à porta dos fundos, caindo na noite fria e úmida de Londres.

Naquela madrugada em especial a lua lambia as ruas molhadas pela chuva recente, iluminando um pouco a caminhada apressada do jovem artista. Não era bom ficar muito tempo ao relento, aquelas ruas já ofereciam perigos demais durante o dia, quiçá quando o sol se punha. Por sorte, a casinha simples que ocupava não ficava tão distante do teatro e não demorou para estar no conforto residencial, finalmente podendo limpar o corpo com um pouco de água morna e vestir as roupas de dormir logo em seguida para descansar o corpo sob os lençóis quentes.

Era inevitável não ter a mente invadida por pensamentos inoportunos antes de pegar no sono. Memórias de um passado ainda recente vinham lhe assombrar, fazendo com que as saudades brotassem através de lágrimas em seus olhos. Os muitos meses que haviam se passado não pareciam fazer a dor da separação diminuir, muito pelo contrário, costumava procurar Wu Yifan com os olhos pela multidão, ainda que tivesse conhecimento de que ele havia saído do país sem intenção de retorno.

Já havia desistido de perguntar a si mesmo se aquele relacionamento que nutriram durante um ano e meio realmente era correto, sabia que nunca seriam vistos com bons olhos pela sociedade, estavam em 1888 e nada mudara até então, todavia, não se importaria de correr riscos por ele. Yifan, por outro lado, tinha muito a perder caso aquela relação saísse do antro íntimo que se formava sempre que estavam a sós entre quatro paredes. Era conhecido no ramo imobiliário por possuir muitas fábricas em seu nome, o que lhe rendia uma fortuna qual era muito bem administrada e investida pela mente geniosa, sua reputação impecável provinha de um histórico de jogadas de sucesso. Seu dinheiro já levara muitos artistas ao sucesso, pintores que antes expunham seus quadros em praças passaram a vendê-los a preços altíssimos para madames da alta sociedade londrina, cantores de esquina agora se apresentavam em grandes teatros, recebendo rosas ao final da apresentação. Suho era um deles, a oportunidade que o levara aos palcos provinha da influência do investidor, que não demorou a tornar-se também seu amado.

Tudo parecia perfeito, até os boatos começarem a se espalhar e Yifan colocar um fim naquele romance, deixando Londres e Junmyeon para trás. O ator lembrava com tristeza de sua primeira apresentação no The Globe, não era um dos teatros mais conceituados de Londres, mas comparado aos que estivera até então parecia o paraíso, o que realmente o entristecia era o fato de que o responsável por sua ascensão no mundo artístico não estava ali para assisti-lo, talvez por isso sua primeira apresentação levou muitos às lágrimas, provavelmente imaginavam que suas lamúrias ao cantar provinham da belíssima atuação, mas eram puramente parte da realidade que fazia seu peito doer e as lágrimas mornas caírem por suas bochechas ao se trancar no camarim naquele dia.

Não tivera mais notícias de Yifan desde aquela despedida e talvez fosse melhor assim, queria apenas arrancar de suas memórias a lembrança dos dedos compridos tocando cada parte de seu corpo e da voz grave sussurrando juras de amor que jamais se cumpririam. Limpou as lágrimas com as pontas dos dedos, afundando o  rosto contra o travesseiro fino como uma criança com medo do escuro, o choro sempre o entorpecia o bastante para finalmente pegar no sono e deixar de lado por algumas horas as lembranças ainda tão vívidas em sua mente.



O dia amanhecera nublado e gelado, fazendo Junmyeon desejar o luxo de ficar na cama até mais tarde, mas se desejasse trilhar aquela carreira ou ao menos ter o que comer durante o mês precisava oferecer a face à tapa e engolir o bolo que insistia em se formar na garganta todas as manhãs.

Ainda enrolado nos lençóis, sentou-se sobre o colchão velho, precisando de alguns minutos para conseguir abrir os olhos por completo e obrigar-se a deixar o antro aconchegante e enfrentar o dia que provavelmente seria longo. Da janela de vidro embaçado pelo tempo podia visualizar as primeiras gotas de uma chuva que não prometia ser passageira, o que para Londres era apenas mais um dia como todos os outros.

As flores da noite anterior ainda jaziam sobre a pequena mesa da cozinha, a maioria dando sinais de que logo murchariam, até mesmo os belos jacintos de pétalas azuladas. Mais uma vez a curiosidade rondou sua mente ainda atordoada pelo sono, quem seria o remetente e por que ele o entregava justo aquelas flores todos os dias? Sabia que era comum utilizarem a linguagem das flores para transmitir mensagens secretas, e, ainda que fosse um completo leigo sobre o assunto, todo o mistério as tornava ainda mais bonitas aos seus olhos. Pensou em mais tarde, após os ensaios da próxima peça, sair em busca de um vaso para plantá-las e salvá-las da morte iminente.

O caminho para o The Globe, apesar de curto, se transformara em uma tormenta, visto que a chuva parecia engrossar a cada passo que Junmyeon avançava. Ao passar pela porta dos fundos do teatro já estava completamente ensopado e tremendo dos pés à cabeça, provavelmente passaria o restante do dia molhado se não tivesse um anjo em sua vida: Kim Minseok. A jovem atriz fora a primeira a se aproximar quando ele ingressara no The Globe e desde então a amizade apenas se fortalecera. A moça era inteligente e por isso não demorou a captar os olhares trocados entre o colega de palco e o investidor de quase um metro e noventa de altura, também não fora difícil deduzir o motivo do choro contido nas semanas que se seguiram ao término do relacionamento, Minseok havia oferecido seu colo para que chorasse todas as lágrimas que lhe restava, a bela mulher era a única amiga que possuía e com ela seu segredo estaria seguro.

“Venha, aqueci algumas toalhas”. Ela o embrulhou com o tecido macio, afastando um pouco o frio que fazia seus ossos doerem. “Troque de roupa ou ficará doente”. Os lábios pintados de vermelho formaram um sorriso gentil, o mesmo sendo contagioso demais para Junmyeon não retribuir. “Oh, deixaram mais um ramo de flores sobre sua mesa, estou realmente intrigada! Quem mais entraria aqui fora do horário?”

“Não faço ideia! Realmente estou cada vez mais curioso, é a primeira vez que recebo tais flores em um dia sem apresentação…” Suspirou, usando os dedos para afastar o cabelo molhado dos olhos, enquanto com a outra mão revirava o baú de roupas em busca de algo para vestir no lugar das roupas molhadas e ao encontrar, seguindo pelo corredor onde ficava seu camarim e constatando que sim, havia mais um ramo de jacintos sobre a penteadeira. “Será um admirador secreto?” Falou mais alto para que a moça o ouvisse do outro lado da porta.

“Talvez, mas… Jacintos? Não são flores que as pessoas costumam mandar para demonstrar amor!” Ela suspirou, passando a mão nos cabelos cor de chocolate para amarrá-los.

O ator abriu a porta em um rompante, ainda com a camisa aberta e os cabelos bagunçados. As bochechas da jovem enrubesceram de imediato, mas ainda assim ela se aproximou para fechar os botões o mais rápido possível.

“Você conhece a linguagem das flores? Pode me falar mais sobre?”

Ela deu de ombros como se não fosse nada demais, dando-lhe as costas ainda embaraçada pela visão de momentos atrás. Seguiram juntos para o salão principal onde aconteciam as apresentações, começariam os ensaios antes de todos por serem os protagonistas da nova peça que logo entraria em cartaz.

“Aprendi algumas coisas com minha irmã, houve um tempo em que ela se encontrava às escondidas com um rapaz da alta sociedade”. Falou em tom de segredo, descansando sobre um dos assentos acolchoados de frente ao palco. “As flores sempre acompanhavam as cartas, normalmente rosas vermelhas para expressar o amor intenso, mas… Jacintos significam o oposto disso! Lembro-me de quando a relação findou, ele a enviou jacintos como pedido de desculpas antes de casar com outra moça, pobrezinha… Chorou durante semanas! Até hoje o ama”.

“Ora, estaria alguém ressentido comigo?”

“Ou alguém fez algo que te magoou e agora deseja se redimir?” Sua entonação insinuava o impossível, então ele apenas negou antes de lhe dar as costas. “Não faça essa cara, Junmyeon! Poderia muito bem ser ele”. Continuou negando com a cabeça enquanto subia pela escada lateral para ficar sobre o palco, de onde encarou a moça ainda sentada um nível abaixo de si. “Não se faça de bobo! Sabe porque ele partiu… Não quer dizer que ainda não tenha sentimentos por ti! Ah, Myeon, ninguém se importa com o que pessoas como nós fazemos ou deixamos de fazer, mas pessoas influentes como ele… O relacionamento de vocês era perigoso”.

“Eu sei…” Respirou fundo, exausto daquela conversa. Imaginar que seria Yifan o remetente das flores apenas o causava dor, criar esperanças vazias era a última coisa a qual desejava. “Vamos começar? Não quero pensar nisso agora”.

Com um suspiro derrotado, a moça deixou de lado as teorias sobre o romance frustrado do amigo e o seguiu para que começassem a ensaiar.



Ao fim dos ensaios daquele dia, Junmyeon — já completamente seco — saiu à procura de um vaso que não fosse caro demais, mas que servisse de lar para seus jacintos, não demorando a achar o que procurava podendo assim retornar à sua casa.

Por sorte chegou a tempo antes que a tempestade voltasse ainda mais violenta, chegando a balançar o telhado frágil da residência. Podia ouvir o vento cantarolando e arrastando consigo tudo o que não tinha forças para se segurar ao chão do lado de fora, aquilo lhe causava arrepios.

Ao notar que as flores da noite anterior já se encontravam em um estado deplorável, jogou-as fora com tristeza, ficando somente com o ramo que recebera naquele dia, o qual plantou com cuidado na terra fofa e levemente úmida que preenchia o vaso. O objeto possuía o tamanho exato para servir de morada às belas flores azuladas, que segundo Minseok, não detinham de um significado tão agradável, o que claro, não diminuía sua beleza ao passo que aumentava seu mistério.

Agora com apenas o silêncio para lhe fazer companhia, Junmyeon ocupou o assento macio de sua velha poltrona e deixou a mente vagar para a conversa que tivera mais cedo com sua amiga e confidente. Uma parte de si rejeitava completamente a possibilidade de ser Wu a pessoa que o presenteava todas as noites — e agora aparentemente os dias também — com aquelas flores, mas algo insistia em sussurrar insistentemente em seus pensamentos para considerar a possibilidade. O significado dito pela moça mais cedo martelava em sua mente, um pedido de desculpas.

O amado sempre fora um tanto quanto fechado, quem não o conhecesse diria até que fosse uma pessoa fria, mas Junmyeon havia tido o prazer de desbravar lados que o homem que beirava os trinta e quatro anos possuía e insistia em esconder. Ele era doce, até chegava a ser romântico. Sempre o acordava com beijos depois de uma noite de amor, segredavam bilhetes quando não podiam se ver pessoalmente, ele sempre arranjava um jeito. Por que agora, depois de meses separados, ele mandaria-lhe flores sem nome? Sem ao menos um bilhete ou um objeto que faria o Kim reconhecer sua autoria. Não havia nada além da fita prateada que mantinha as flores juntas.

Decidido a não mais se martirizar, ergueu o corpo em busca de um livro para se afundar até que o sono o embalasse, o que de fato não demorou mais do que duas páginas inteiras para que adormecesse sentado na poltrona, sequer colocando uma roupa mais confortável.

A tempestade seguiu noite adentro, findando pouco antes do amanhecer, quando o ator constatou que sua voz se encontrava fraca e rouca demais para que pudesse ensaiar. Ainda assim se obrigou a levantar o corpo do móvel, que apesar de antigo ainda se encontrava em ótimas condições por seu zelo, trocando de roupa para seguir até o teatro e avisar que precisaria de alguns dias de descanso para se recuperar do incômodo que o impedia de fazer o que mais gostava: se apresentar.

Participar de um musical havia sido por muito tempo seu maior sonho e agora que o conquistara, tudo fazia para mantê-lo como parte de sua vida, por isso, precisaria melhorar o mais rápido possível. Enfrentou a carranca do diretor dos espetáculos, quase chegando a prender a respiração enquanto ele demorava para responder e a soltando em um suspiro de alívio quando ele assentiu, liberando-o dos ensaios para que pudesse cuidar de sua saúde e voltar quando estivesse melhor com toda a sua energia, a qual contagiava a platéia e fazia a bilheteria do The Globe bater recordes de venda.

O que não esperava era que quase uma semana completa depois ainda estaria doente e visivelmente pior. A febre ia e vinha, ele se sentia cada vez mais fraco, apesar de todos os dias receber um médico para checar seu estado. O senhor de setenta e oito anos de idade era um de seus vizinhos mais queridos e insistia em não cobrar pelos serviços, da mesma forma que Junmyeon insistia em pagá-lo ao final da consulta. A exposição à chuva provavelmente era a causadora da enfermidade, agravada pela noite dormindo ao relento sobre a poltrona.

“Tome, filho”. Entregou uma garrafa escura com uma rolha lacrando a extremidade mais estreita. “Tome duas vezes ao dia, ao acordar e ao deitar para dormir, é bem mais forte que o que receitei anteriormente. É provável que esteja curado em três dias, acabei subestimando sua doença”. Ele sorriu-lhe pesaroso antes de levantar e apanhar o chapéu que deixara sobre a mesa que ficava entre a sala de estar e a cozinha, era uma casa pequena. “Espero que logo esteja recuperado, ainda irei assistir uma de suas apresentações, meu jovem”.

“Conseguirei um lugar na primeira fileira, senhor Bowe”. Fez questão de depositar algumas libras em um dos bolsos do senhor que apenas balançou a cabeça, tendo o gesto imitado pelo ator antes de desistir daquela discussão. “Obrigado por cuidar de mim, tenho certeza que logo estarei melhor”.

Após a despedida, voltou para poltrona macia de frente à lareira acesa, buscando fugir do frio, o inverno se aproximava cada vez mais e isso fazia a recuperação do jovem ator se retardar. Em dias como aquele, ele sentia falta de quando era apenas uma criança e possuía os cuidados das mãos macias de sua mãe, mas a realidade o atingia com duros golpes, fazendo-o recordar de que era um homem de vinte e oito anos e que seus pais há muito estavam mortos, levados por uma doença até hoje desconhecida por ele.

As chamas dançavam e crepitavam, consumindo sem perdão a madeira escura quando dois toques na porta chamaram a atenção de Junmyeon, que enrolou melhor o corpo com a manta que jazia sobre os ombros antes de se encaminhar até a entrada, abrindo-a sem cerimônias e encontrando o vazio. Deu um passo para fora e seus pés atingiram algo, que ao olhar mais atentamente percebeu ser um ramo de jacintos, semelhante aos que recebia de alguém sem rosto e sem nome todos os dias no teatro.

“Ora…” Apanhou as flores com cuidado, olhando ao redor em busca de alguma pista de quem as deixara ali, mas a pessoa parecia ter se dissolvido feito fumaça. “Que incomum…” Fechou a porta mais uma vez antes que o frio piorasse seu estado de saúde e depositou as flores sobre a mesa, deixando para plantá-las junto às outras no vaso mais tarde. “Isso vai acabar me enlouquecendo…”

Os próximos dois dias foram seguidos pelo mesmo fenômeno. Assim que o sol se punha e a escuridão reinava, dois únicos toques na porta assustavam o ator, que corria o mais rápido que seu corpo debilitado pela febre — ainda que estivesse se sentindo cada vez melhor — permitia, encontrando apenas o vento gelado e as flores azuladas aos seus pés.

O mistério cada vez mais o intrigava, e, movido à pura curiosidade, decidiu que esperaria ao lado da porta para surpreender quem quer que fosse o remetente das belas flores. O coração martelava com tamanho desespero que pensou estar morrendo, o nervosismo o assolava com a possibilidade de não gostar do que o estivesse esperando do outro lado da madeira desgastada pelo tempo. Ali, sentado em uma cadeira com seus dois cobertores mais macios a cobrir-lhe os ombros, ele esperava o impossível, o improvável, o que seu coração desesperadamente desejava, temendo não ser o que encontraria, temendo ser o que encontraria. Todas as possibilidades o assustavam.

Quando os dois toques rotineiros atingiram a madeira, Junmyeon, que até então tinha a mão apoiada à maçaneta enferrujada, levantou e abriu a porta com uma velocidade descomunal, fazendo com que a pessoa que estava do outro lado desse um pulo pelo susto, levando a mão que segurava as flores ao peito e fazendo com que o ramalhete fosse ao chão, espalhando-se sobre a geada formada pelas baixas temperaturas.

O choque inicial se estendeu por diversos segundos, sendo acompanhado pela brisa fria que fazia ambos os homens estremecerem, mas sem quebrar o contato visual por um milésimo de segundo, pareciam conectados por uma força maior. O primeiro a sair da posição estática foi Yifan, dando um passo para trás, não muito distante, mas o bastante para despertar Junmyeon da paralisia momentânea e fazê-lo lançar-se em seus braços sem cuidado algum, como se temesse sua fuga.

“Não vá…” Sussurrou, não se importando com o frio que aos poucos causava tremores em seu corpo, agora sem os cobertores que durante o desespero deixara cair na soleira da porta. “Por favor, faça o que quiser, diga as mais duras palavras, mas não me deixe…”

“Você está gelado…” Ele respondeu depois de um tempo, tocando-lhe as bochechas com a ponta dos dedos finos, fazendo com que os olhos mais uma vez se conectassem. “Vamos, entre. Está doente, não é bom ficar nesse tempo”. Yifan captou sua curiosidade no olhar e após fechar a porta, deixando todo o frio para trás, voltou a falar. “Senhorita Kim me contou, fiquei preocupado quando parou de frequentar aos ensaios e quis me certificar de que estava tudo bem…”

Por um momento, o ator quis brigar com a amiga, mas sentiu-se feliz por ela ter de certa forma feito aquele reencontro se realizar. Seguiu os movimentos de Yifan com o olhar, observando quando ele foi até o maleiro ao lado da cama, apanhando cobertores limpos para substituir os que caíram ao chão e acabaram molhados pela geada. Permitiu que o envolvesse com o tecido macio, podendo apreciar um pouco de seu rosto mais de perto, ele parecia o mesmo de quando partira, talvez com os cabelos escuros um pouco mais compridos.

“Yifan…” Começou meio incerto, deixando o corpo se afundar no colchão fino e puxando o outro pelas mãos para que fizesse o mesmo. A única iluminação provinha do fogo crepitante na lareira, tornando o ambiente um tanto amarelado e fantasmagórico, ainda que acrescentasse uma beleza inigualável à pele lisa do rosto que tanto amava. “Não sei o que dizer…”

“Não precisa falar nada”. Ele finalmente abriu um sorriso, embora fosse possível identificar uma certa melancolia na forma como os lábios se moviam. “Perdão, eu não deveria estar aqui depois do que fiz… Me envergonho da minha falta de coragem para lidar com a situação, não deveria ter fugido e te deixado para trás”.

Pela primeira vez via os olhos cor de ébano molhados por lágrimas, ele prendia o lábio inferior com força entre os dentes, evitando ao máximo encontrar as íris curiosas e brilhantes de Junmyeon. As mãos ainda unidas trocavam carícias tímidas, como se decorassem cada traço que marcava as palmas suadas pelo nervosismo.

“Por que você voltou então?”

Após um longo suspiro, finalmente os olhos tornaram a se encontrar. Yifan parecia perdido em pensamentos, palavras que queria dizer, mas que relutavam em sair. Ele sabia o motivo, a resposta era simples, todavia, difícil de deixar o âmbito seguro de seus desejos mais profundos. Buscou coragem ao tocar as macias maçãs do rosto alheio, que se encontravam bem menos coradas que da última vez que o vira, provavelmente por conta de sua enfermidade súbita, ainda era possível sentir a febre através do toque.

“Descobri da pior forma que ficar longe de seu calor é insuportável, que a vergonha e a culpa machucam mais do que navalhas afiadas e confesso que se não houvesse me flagrado, provavelmente continuaria lhe entregando flores sem nome”. A carícia em suas bochechas fora interrompida momentaneamente, agora apenas trocavam olhares cheios de significados. “Era minha maneira de pedir perdão, de demonstrar meu arrependimento sem precisar encarar a tristeza em seus olhos. Não suportaria vê-lo chorar novamente, não por minha causa”.

“Isso significa que você pretende ficar?” Perguntou com um meio sorriso se formando nos lábios bonitos, o qual Yifan acompanhou, desta vez verdadeiramente.

“Se você me aceitar… Não aguento mais assistir suas apresentações na penumbra, quero poder comemorar ao seu lado ao fim do dia e entregar as flores pessoalmente em suas mãos macias”. Após isso, beijou as palmas alheias com cuidado, descansado o rosto ali por um tempo. “Dessa vez, elas terão nome, rosto e todo meu amor por ti, o prometo com minha vida”.

As lágrimas que rolaram pelo rosto iluminado por um sorriso foram a mais pura demonstração de felicidade que Junmyeon pôde oferecer antes de lançar o corpo entre os braços de Yifan, depois de meses separados puderam finalmente unir os lábios com uma paixão ardente.

Sabiam que dali em diante as juras de amor não seriam em vão ou rompidas e que as flores — quais não se limitariam aos jacintos de significado melancólico — jamais murchariam, pois seriam cultivadas com todo o amor que fazia ambos os corações pulsarem no mesmo ritmo, como se fossem apenas um.

14 de Diciembre de 2018 a las 21:34 2 Reporte Insertar 4
Fin

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Krisho Flowers O KrisHo Flowers é o primeiro projeto no Spirit Fanfics e no Inkspired com objetivo de cultivar e fazer florescer novas fanfics KrisHo.

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Rita Gomez Rita Gomez
Olá, tudo bem?! Nossa, faz certo tempo que não leio uma Krisho e me deparar com esta foi uma grata surpresa. Primeiramente, tenho que destacar a sua escrita... e que escrita! Você escreve de uma forma tão gostosa que a leitura é incrivelmente fluída, li cada linha maravilhada. A ambientação da história é outro ponto mega positivo, ela é tão crível que foi fácil imaginar cada cenário em que os personagens transitam, e por vezes me peguei dentro da própria narrativa. Incrível! Adorei o mistério sobre o remetente das flores, mas confesso que não me surpreendi com a revelação de que era o Yifan, já que era o que eu desejava hehehe Agora, vamos falar desse casal lindo! Confesso que no começo eu odiei muito o Yifan por fazer o Jun sofrer, mas quando ele apareceu foi.. Uau! Que cena linda! Adorei esse final todo romântico <333 Amei tudo na sua história, sério! Parabéns!!!
15 de Diciembre de 2018 a las 17:20

  • Mariana R. Mariana R.
    Aaaaaaaaaaaaaa confesso que fiquei boba lendo seu comentário. Nunca escrevi algo na Era Vitoriana e foi um pequeno desafio para mim, saber que trabalhei certinho o cenário me deixa muito feliz! O Yifan teve suas motivações para ir embora, mas é aquele ditado, às vezes precisamos passar por algumas coisas para perceber que não devemos deixar os "tabus" da sociedade nos impedirem de sermos felizes! Ler esse comentário me deixou muito feliz! E aproveitando a deixa, por que você não segue o perfil do Krisho Flowers? É um projeto voltado completamente para Krisho e essa é a primeira fic dele! É como uma abertura, sabe? Todos da equipe irão postar uma oneshot com uma florzinha diferente, então pode esperar muita diversidade de histórias! Obrigada por ter comentado, nenê! <3 15 de Diciembre de 2018 a las 20:00
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