A estranha Musica Botanica Seguir historia

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Não existe nem bem, nem mal. Apenas duas forças em permanente conflito. A luz da vida, e a sombra da morte. Para ela, a musica e os abacaxis foram a arma na luta contra a escuridão da inexistência e a forma para se agarrar à vida. PS: Para todos os meus leitores do Brasil, peço o vosso esforço para o facto de o meu conto estar escrito em Português de Portugal. Adorava, poder ter os vossos comentários!


Cuento Todo público.

#canções #fascinação #amor #conto # #musica #vida #outrolugar #luta #sonho #irreal
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No embalo da manhã

Esticou bem o pescoço, fechou os olhos e tranquila inspirou o ar que puro e fresco se aninhou como um nenúfar nos seus pulmões. A brisa e o soalheiro sol matinal faziam-lhe crescer o coração.

Fechou a janela e cumprimentou o ratinho felpudo que do chão lhe acenava. A cozinha precisava de uma arrumação, seria por ali que iria começar. Ajeitou as compotas de mirtilo, ameixa e amoras e compôs a mesa, cobrindo-a com um naperon cor de lua, estampado com salpicos de mil brilhantes e estrelicias. Por fim, ao centro da mesa, ajeitou o primaveril arranjo floral, composto por um punhado de dentes de leão e alfazemas, rematado por um grande girasol que lhe parecia sorrir.

Ia já longa a manhã, amparada nas horas do dia, quando terminada a tarefa saiu para colher maduros abacaxis no verde bosque crepuscular. Vestiu o casaco, preto cravado de bolinhas lilases, que a cobriam até ao limite dos joelhos, aconchegando-a numa fofa e espessa lã, evitando que o fresco, que era muito maroto, lhe deslizasse pelo corpo e lhe provoca-se o frio que tanto a desconfortava. Na cabeça, enfiou o seu estimado chapéu vermelho de raiva, com abas largas, soberbamente adornado por um velho pin do "Yellow submarine" dos Beatles.

Ainda antes de se esgueirar, retirou do bolso duas coloridas garrafinhas de ar, escolhendo a azul. Abriu-a, puxando a pequenina tampa de cortiça com os seus finos dedos, e de uma golfada inspirou o seu volátil e puro corpo. Era sem duvida uma garrafinha de ar das montanhas, leve, fresco e rarefeito. De peito revigorado, agarrou na cestinha de verga e saiu sem pressa de voltar.

No caminho, sem se desviar, foi pensando no quanto lhe agradava abrir abacaxis, e descobrir sentindo, o seu cheiro doce e delicado.


Segundo ela, os abacaxis deveriam ser sempre descascados no recato da noite, pois são frutos bastante reservados e sensíveis que poderiam murchar só da vergonha que sentem em permanecer desnudos e expostos à vista de qualquer olhar. Sabia que existiam frutos, vegetais e outras peças, que ao contrário dos melindrosos abacaxis não tinham problemas de pudor, e expunham sem hesitar a sua “fruta”, livres de qualquer pele, casca ou carapaça. Lembrou-se então das bananas, que na sua escandalosa vaidade, adoravam andar com a fatiota pela cintura só para exibir o seu hirto conteúdo.

Entrou no bosque apreensiva com tanta ausência de pudor. Excluindo o elegante plátano da capa de um dos discos dos Velvet Underground, que se apresentava digno e arreado de fato completo, nada tinha a haver com as suas atrevidas irmãs, primas e cunhadas. Essa era, afirmou, uma verdadeira banana com alma de abacaxi!

Chegada ao local, um vasto aglomerado de frutos de crinas verdes bem espetadas, esperavam-na para serem gentilmente arrancados à terra. O perfume por eles emanado envolvia o ar num idílico momento paradisíaco. Os insectos desmaiavam de prazer, desfalecendo em voo numa suave queda consentida. Uma chuva de borboletas precipitava-se sobre a vasta extensão de grandes e tenros frutos dourados, numa visão mágica e colorida. Colocou os headphones, premiu o Play do seu velho walkman e evadiu-se numa deliciosa e contemplativa composição de Neil young. Continuavam a cair borboletas.

O sol perfurava forte por entre a alta vegetação. No meio da clareira, por entre os frutos, Anastácia, atarefada, escolhia os que lhe pareciam mais bonitos e suculentos. Era importante que contivessem o máximo de suco, para que a sua caixa de musica operasse em pleno. As caixas de musica, pelo menos a sua, funcionavam a suco de ananás e não outro qualquer. Já tinha experimentado o rabanete, a toranja, o espargo e até a alcachofra, mas nenhum deles a faziam troar como o abacaxi. O sumo de beterraba, por exemplo, não permitia que as notas se projectassem devidamente na atmosfera. Eram ásperas e duras e não saltitavam de tão pesadas que eram. Faltava-lhes a “cola” necessária para que se agarrassem à alma com fervor. Ao contrário, o suco amarelo pálido do abacaxi era requintado e aveludado. Cada nota, cada som que emitia, evadia todas as partículas do ar, num som celestial e consistente. Era o condutor perfeito por onde emanava, galgando, o mais inebriante som.

Sem tempo a perder, colocou as peças que podia na cesta, e satisfeita correu para casa. Passou a mão pelo casaco e afastou duas ou três borboletas que sonolentas nos seus ombros adormeceram. Passou a velha ponte de pedra, cruzou a fonte de Neptuno, fluorescente do verdete que se lhe agarrava e deu uma esmola, como sempre, ao afável coelho saltitante que tocava alegre uma valsa na sua concertina "La valse dÁmélie". Entrou em casa e esperou que a noite chegasse.

4 de Noviembre de 2018 a las 00:17 0 Reporte Insertar 0
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