O Sábio do Oeste Seguir historia

nathymaki Nathy Maki

É de concordância geral que a sabedoria se adquiria com o tempo. Porém, quando tempo é tudo que lhe resta, ainda assim poderia se considerar um sábio?


Fanfiction Anime/Manga Sólo para mayores de 18.

#drama #angst #fma #fullmetal-alchermist-brotherhood #desafiotarot #hohenhaim #trisha #povo-de-xerxes #amadurecimento #carta-o-eremita
Cuento corto
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Capítulo Único

Notas iniciais: Caso não tenha visto o anime até o fim, aqui podem ter spoilers além de uma menção ao suicídio. História participando do Desafio Tarot, e a minha carta foi O Eremita. No mais, boa leitura!

***___***

Nem mesmo o meu mestre, ou o grande rei que eu admirava foram suficientemente sábios para reparar nas armadilhas escondidas na lábia daquele pequeno ser no frasco, Homunculus. Eu mesmo fui enganado, ludibriado pela sede de conhecimento e a perspectiva de deixar de ser apenas um mero escravo, de ter um nome e identidade próprias, de ser mais do o pouco que já era. E, quando atingi tal patamar, acreditei ser suficiente. Mas estava esganado. O pequeno ser queria mais. E sua ganância nos levou a ruína.

Os gritos constantes, a destruição de uma nação inteira do dia para a noite, a forma física adquirida por seu vínculo comigo. As imagens rodavam em minhas pálpebras em uma sequência contínua. Dor, sofrimento, angústia, melancolia, desejos perdidos e esperanças desfeitas. Meu interior era consumido pelas vozes.

Pedra filosofal viva, ele dissera. A mim parecia mais um castigo do que uma bênção. Gritando, gritando, gritando. Eu apenas desejava que parrassem. Não havia pedido por aquilo e talvez por isso ficara tão decepcionado que as tentativas de pôr fim ao sofrimento não haviam tido êxito. As facas perfuravam, mas os cortes deixados apenas se refaziam com aquele brilho vermelho odioso que me impedia de pôr fim a minha existência patética, ao erro que dera origem a catástrofe. E dia após dia as vozes gritavam e eu apenas me lamentava.

Vaguei pelo deserto sem consciência do que fazia. O corpo era estimulado a continuar pelas sinapses enviadas pelo cérebro, mas o movimento não era percebido. Imerso como estava, não percebia os movimentos, não via a areia que se espalhava em todas as direções anunciando sua supremacia sobre todos aqueles que tentassem desafiá-la. Bem, ela ficaria decepcionada, pois nada parecia ser capaz de me matar. E com isso, eu a transporia mesmo que demorasse o tempo que fosse necessário. Enquanto isso, o caos ainda habitava em minha mente e eu estava me afogando, embora digam que tal feito é impossível em meio ao deserto.

“Isso dói! ” As vozes gritavam.

— Eu sei e lamento tanto... – eu sussurrava de volta, martirizado e culpado, em uma vã tentativa de acalmá-las. Muitas eram minhas conhecidas, e, mesmo aquelas com quem eu não tinha nenhuma intimidade, desejava que aquilo não fosse o fim, que aquele não fosse o seu destino final.

“Dói! Dói! ”

“Quero minha mãe! ”

“Não quero viver assim! ”

— Sinto muito, sinto tanto. – Mesmo com os lábios rachados, muito embora já não os sentisse mais, eu prossegui. Aquele era um meio de amenizar minha culpa, talvez se eu me desculpasse o suficiente, elas poderiam me perdoar e passariam a se concentrar em outra coisa que não fosse dor e sofrimento.

“Hohenhaim... é doloroso...”

— Eu sei, Ptaz, me perdoe. Eu sinto muito.

“Acabe com isso, por favor, me mate! ”

“Nii-chan, nii-chan, não quero ficar aqui. Me tire daqui! ”

— Vanilis, eu sinto muito, por favor, aceite minhas desculpas.

Cada voz, cada grito, cada clamor foi ouvido e respondido. Me recolhi ao meu interior e dediquei todo o meu ser e minha consciência a me desculpar pelo mal que havia causado. A conversa com os habitantes era o que me mantinha em movimento, era a responsável por me dar um propósito para continuar a existir. E, até ter conversado com todos, eu persistiria.

Quem diria que uma irregularidade em uma duna me faria tropeçar e rolar areia abaixo, ficando estatelado no chão, sem forças para levantar. Mas, mesmo que meu corpo físico não se mexesse, o interior continuava a conversar, a ouvir tudo que cada um tinha para dizer, absorver suas palavras e seus ensinamentos e incorporá-los, dessa forma, eles sempre se manteriam vivos enquanto eu estivesse vivo.

Foi uma sorte uma caravana vinda de Xing ter me achado e me resgatado. Levaram-me para a cidade, deram-me água e comida, um teto e roupas para vestir. Não me incomodaram pelos murmúrios constantes, nem fizeram perguntas sobre a minha origem. Apenas foram respeitosos e me deram o período de paz e tranquilidade que eu necessitava para cumprir a minha determinação. Conversei com todos, e, ao fim disso, me sentia diferente, com uma nova pessoa. Alguém em que a tristeza imperava, mas que certamente havia crescido com a experiência. As vozes agora já não gritavam pela dor, mas rugiam pela sede de justiça.

Como retribuição pelo salvamento, ensinei os fundamentos da alquimia para aquele povo tão bom na arte da cura e do recolhimento. Ainda guardava esperança de que tal conhecimento, naquela terra estranha, não seria usada para fins nefastos. Permaneci em Xing por incontáveis décadas, vi muitos morrerem e gerações novas nascerem. Recolhi-me em uma caverna em busca da paz e do silencio que necessitava, ainda em diálogo com os que me habitavam, mas agora também em diálogo comigo mesmo. Qual seria o próximo passo? O que eu deveria fazer a seguir?

Foi quando as lendas sobre um Sábio do Leste chegaram aos meus ouvidos. Ele havia influenciado a criação de um novo país que estava crescendo rapidamente. As imagens da destruição de Xerxes retornaram aos meus pesadelos e eu soube que não poderia permitir que acontecesse novamente. Pedi o auxílio dos antigos habitantes e, com sua concordância, parti para Amestris, deixando para trás uma lenda similar. Partia também o Sábio que veio do Oeste.

Minha última passagem pelas ruinas de Xerxes apenas fortaleceram minha determinação. Agora eu entendia. Se meu sangue havia dado origem a tal criatura, devia ser eu a liquida-la. E, para isso, manter-me-ia centrado no que era essencial: salvar uma população e impedir uma nova catástrofe.

***

Chegando a Amestris, surpreendi-me com a quantidade de pessoas e com a vivacidade que elas exibiam. Décadas isolados dos demais não haviam me ensinado a me enturmar, então eu evitava os grandes agrupamentos de pessoas e cidades e preferia atravessar o país, admirando toda a sua vitalidade. Os campos eram verdejantes, as plantações alcançavam o horizonte e haviam sorrisos nos rostos das pessoas.

Em um dia, parei em uma velha taberna em busca de um alimento quente, refletindo abismado com o quanto o mundo que eu conhecia se transformara.

— Essa cara emburrada só pode ser falta de bebida. – Uma jovem moça puxou uma cadeira e sentou-se em minha mesa sem esperar um convite. — Um copo aqui para o estrangeiro por minha conta, Velhote!

— Pinako! Outra vez pagando bebidas a estranhos sem ter ao menos falado com eles primeiro!

— E quem recusaria uma boa bebida? – Os olhos afiados se voltaram contra mim. — E, além disso, ele parece estar precisando.

O senhor atrás do balcão pareceu querer retrucar.

— Está tudo bem, eu aceito a bebida, obrigado.

— É assim que se fala. – Ela sorriu e levantou o próprio copo em um brinde.

A conversa que se seguiu foi curiosa. Dado meus anos de recolhimento, esse nível de entrosamento com outra pessoa era no mínimo interessante. Pinako ria do meu parco conhecimento e fazia um alvoroço para explicar situações simples, provocando risos nas pessoas que escutavam ao redor.

— Obrigado pela bebida, e pelas lições. Foi um aprendizado muito valioso.

— Ora essa, mas que enrustido. Não leve tudo para o lado da aprendizagem, apenas volte de vez enquanto e divirta-se um pouco.

— Voltarei. – Era uma promessa que eu estava disposto a cumprir.

Em meio as minhas viagens, sempre retornava ao vilarejo para uma noite de bebidas, até o ponto em que Pinako me elegeu seu parceiro oficial. Saímos para beber não só na taberna, mas também nos festivais dos aldeões, observando as fogueiras armadas e as danças animadas ao redor das mesmas. Pude presenciar seu envelhecimento e o nascimento de seus filhos, bem como reconhecer seu espanto diante a minha aparência imutável. Embora não compreendesse, mantinha-se respeitosa e nunca mudou seu modo de se dirigir a mim.

Voltei em um dia para a taberna e pedi uma bebida, esperando que Pinakko aparecesse. Qual não foi a minha surpresa ao acompanhar a queda da moça que, como consequência, derrubou uma prateleira de jarros para servir. Levantei-me para ajudá-la que aceitou com um sorriso envergonhado.

— Oh, minha nossa, que grande bagunça eu fiz.

— Posso ajudar a consertar. – Pus a mão nos pedaços quebrados e com uma luz vermelha, eles voltaram ao se unir, apresentando um jarro novo e inteiro. Senti o olhar espantado e me voltei para olhar, sendo pego de surpresa pelo sorriso que havia em seu rosto.

— Isso foi incrível! Muito obrigada pela ajuda! – Suas mãos seguraram as minhas e apertaram. — Como posso retribuí-lo?

— Não é necessário. – Assegurei.

— Por favor, deixe-me fazer algo em troca. Eu insisto. – O sorriso em seu rosto me impedia de negar, então acebei aceitando. — Volte aqui amanhã, prepararei algo para que possa comer antes de seguir viagem.

Concordei, pensando ser uma boa ideia. O que não sabia era que aproxima viagem que faria não seria no dia seguinte. A conversa foi agradável, tranquila e relaxante. Seu tom animado me contagiava e eu me flagrei sorrindo, algo que não fazia há muito tempo. Ela se despedia com um “Volte amanhã! ” e eu sempre voltava.

Trisha Elric era seu nome e ela gostava de me levar para ver lugares que eu mesmo já tendo visto, pareciam diferentes ao seu lado. As flores tinham mais cor e perfume, o sol brilhava mais no céu, tal qual a lua que iluminava as noites. Aprendi a deitar na grama e fechar os olhos por instante para imaginar a forma das nuvens, que deitar no topo da colina e se deixar rolar grama abaixo era estimulante, que ajudar aqueles que passavam sem nada além das próprias roupas e oferecê-los conforto era um ato de bondade. Mas o principal era aquele sorriso que me fazia sentir alguém melhor e, não importava a circunstância, ele sempre estava aberto para mim, como um convite. Passe a usar a alquimia para entretê-la, algo que antes eu abominava, passava a ser uma fonte que oferecia a diversão que Pinako tanto me falava. Peguei-me desviando da minha missão principal naquela terra, mas, ao mesmo tempo, com Trisha, estava redescobrindo uma parte minha que há muito pensava estar perdida. E, ao receber seus sorrisos e toque carinhosos, eu via o quão valioso isso era.

***

—Se houvesse algo no mundo que você pudesse querer, Trisha, o que desejaria? – Deitado ao seu lado na grama, eu esperei ouvir seu desejo por riquezas e poder se manifestar, mas tudo que recebi foi uma risada.

— Ora, Hohenhaim, você é um homem muito engraçado. Tudo que eu quero, tenho bem aqui. – Ela entrelaçou os dedos aos meus e se voltou para me observar. Seus cabelos voavam, levados pelo vento e o sorriso era o mais puro que eu já havia visto. — A resposta para a sua pergunta é o amor. Com amor tudo é possível e todos poderiam ser melhores. Amor é felicidade, é compromisso, é saber ceder, mas manter-se resistente. É o amor que move o mundo.

Naquele momento, ouvi a mim mesmo muitos anos atrás, o desejo pronunciado de ter uma vida, uma família e um futuro. E, pela primeira vez em vários anos, achei que finalmente seria possível.

***

Tudo em ela era uma nova experiência. Tudo me passava o desejo de ser alguém melhor para ela. Suas palavras doces me fizeram crescer, sair da caverna a qual eu ainda me encontrava e amadurecer aos poucos. Responsabilidade, respeito, carinho, esperança, amor. Os sentimentos que irradiavam dela me contagiavam, e a cada dia eu odiava mais e mais aquela criatura que eu era, aquele corpo imortal estranho e que um dia me faria perde-la.

— Não posso, Trisha, eu não sou como você. Sou uma abominação. Você é boa demais para mim e eu a amo demais para perdê-la.

— Oh. – Suas mãos quentes e macias tocaram minha face. — Você disse. Enfim você disse. – Ela ergueu meu rosto e eu fitei seus olhos marejados. — Espero que saiba que não me importo com o que você é, ou que se corpo ser diferente dos demais, eu o amo de qualquer jeito.

— Trisha...

— O amor move o mundo, lembra-se?

— E nos une como um só ser. – completei.

— Isso. Então, aqui e agora, cultivemos e perpetuemos nosso amor, Von Hohenhaim, pois esse é o meu desejo.

E, em meio a junção dos rostos e o toque dos lábios, eu me permiti enfim um pouco de felicidade.

***

Não imaginava que tal felicidade pudesse ser ainda maior, mas o nascimento das crianças certamente me provou o contrário. Suas palavras, ditas ao tirarmos aquela foto, ainda ressoavam em mim. As vozes me alertavam para o tempo e eu via agora que não podia mais adiar minha partida, mesmo que o meu desejo fosse permanecer ao seu lado.

— Trisha, eu preciso ir. Não posso me manter assim para você e para as crianças.

— Eu sei, querido. – Sua cabeça baixa se ergueu e eu pude ver lágrimas brilharem em seus olhos, mas ela não me pediu para ficar. — Eu prometo que ficarei aqui te esperando, então apenas volte para mim.

— Trisha... – A envolvi em um abraço apertado. — Eu prometo que voltarei.

De malas arrumadas, parei a porta tendo um último vislumbre do que estava deixando para trás. Os olhos confusos e arregalados de Edward e Alphonse e o olhar ansioso de Trisha quase me fizeram desistir. Mas eu não podia. Aquela era a decisão certa a se tomar, não havia me esquecido do porquê viera a Amestris em primeiro lugar. E agora, mais do que nunca, eu tinha motivos para impedir aquele pequeno ser dentro do frasco, Homunculus. Eu resolveria esse problema e então voltaria para eles. Era uma promessa.

Voltei meu olhar para a frente e encarei o horizonte que clareava com o nascer de um novo dia, dando o primeiro passo para uma nova viagem, aquela que me tornaria alguém digno de ficar ao lado deles. Com isso em mente, parti.

 

1 de Noviembre de 2018 a las 16:20 0 Reporte Insertar 0
Fin

Conoce al autor

Nathy Maki Leitora voraz desde que tenho idade para segurar um livro em mãos. Sagitariana e um poço de emoção e muuita indecisão. Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Lema: Colecionar sonhos, ideias e magia e depois transformá-los em palavras é o que torna bela a vida.

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